Resenha: Você Não É Invisível – Lázaro Ramos

Oi oi, tudo bem com vocês?

Se tem uma coisa que minhas experiências literárias e audiovisuais recentes têm me ensinado, é a controlar as expectativas e lidar com decepções. 😂 E isso infelizmente aconteceu com Você Não É Invisível, do Lázaro Ramos.

Garanta o seu!

Sinopse: Esta é a história de uma família em quarentena. Carlos e Vitória são irmãos e moram com o pai, mas só o encontram no fim do dia. Muito diferentes um do outro, se expressam cada um a seu modo. Porém, possuem uma mesma motivação: entender seu lugar no mundo. Carlos vive trancado no quarto, gravando vídeos e áudios sobre si mesmo ou postando nas redes sociais. Já Vitória é mais do papel, escreve um diário e inventa contos de fadas num caderno antigo que era de sua mãe. Mesmo confinados, os irmãos vão trilhando seus caminhos com os recursos e instrumentos que possuem. O autor explora os muitos jeitos que temos de nos comunicar e com linguagem ágil, esse livro nos ensina que, se temos de encarar nossos monstros, que o façamos com coragem, segurando na mão de quem nos ama e quer bem – porque ninguém é, ou deveria se sentir, invisível.

Meu respeito pelo trabalho e pelas opiniões do Lázaro Ramos me deixaram muito animada pra conferir seu primeiro livro infantojuvenil, mas a obra infelizmente não funcionou comigo. Faixa etária, talvez? Não sei. Mas vou tentar explicar meus pontos e ser justa ao mesmo tempo.

A obra se passa durante a pior fase da pandemia, em que ficamos naquele “lockdown” (entre aspas porque o governo nunca instituiu um lockdown real), isolados das nossas atividades sociais e das pessoas que amamos. Os protagonistas são os irmãos Carlos (também conhecido como Carrinho) e Vitória, que lidam com a solidão e o isolamento à sua própria maneira. Na falta da companhia do pai (um homem negro que não pôde se dar ao luxo de se isolar e se proteger), Carlos direciona sua energia para a criação de vídeos, lives e áudios, enquanto Vitória busca conforto nas palavras – e no diário da mãe, ausente por estar viajando e estudando.

Meus aspectos favoritos da obra residem nesses dois pontos de tensão que citei: o fato de que o pai dos jovens precisa trabalhar mesmo em um período perigoso da pandemia e a decisão da mãe de fazer sua pós-graduação no exterior. No caso do primeiro, Lázaro Ramos expõe a problemática de qual camada da população foi obrigada a ficar mais vulnerável, enquanto outras (repletas de gente antivacina, pra não dizer pior) podiam usufruir do privilégio da segurança de suas casas. O racismo estrutural não é debatido como maior foco da obra, mas está ali, nítido nas entrelinhas pra qualquer um que esteja disposto a abrir os olhos. Já no caso da mãe, temos o conflito de emoções: ao mesmo tempo em que a empodera como mulher e profissional, mostrando que a família não é um impeditivo para correr atrás dos sonhos, existem também as consequências dolorosas que isso causa na família – especialmente em Carrinho, que se ressente dela por escolher ficar longe. Esses são, na minha opinião, os pontos fortes da leitura, que dão uma camada de profundidade à trama. Em relação à edição física, também fica meu elogio às ilustrações, que tornam a experiência mais imersiva e estão muito bonitas.

Porém, o andamento do enredo é fraquíssimo. Carlos é um personagem chato, que só fala por gírias, mas não de uma forma natural – parece que Lázaro não sabe como “os jovens” falam e me senti constrangida por ler essa tentativa. Ele é um garoto de 16 anos que fica “viajando” nas lives dele e tentando dar lição de moral nos seus seguidores de uma forma que nem sentido faz. Em paralelo, ele pega o diário da irmã às escondidas e lê o que ela escreve, num exemplo terrível de invasão de privacidade. Os dois convivem na mesma casa e mal interagem, então as leituras do diário são o único elo que Carlos constrói com Vitória. Já Vi é uma menina criativa e sonhadora, que entende o que sua mãe está perseguindo e usa sua imaginação pra criar e contar suas próprias histórias – mas que mal aparece no enredo, tendo pouquíssimo (pra não dizer nenhum) espaço.

O livro também é muito raso, sem se aprofundar em nenhum tema. Ainda que seja uma obra infantojuvenil, acho que o autor pecou em trazer muito o ponto de vista de Carrinho em suas lives, focando nos discursos cheios de gírias e expressões que parecem ter vindo direto da Malhação dos anos 2000. O potencial da obra e da premissa eram enormes, mas infelizmente foi desperdiçado por uma falta de foco, por transmitir a sensação de não saber onde a história queria chegar.

Você Não É Invisível não foi uma boa experiência pra mim, mas talvez seja pra um público bem mais jovem, crianças entrando na adolescência, talvez. Apesar disso, ressalto os pontos positivos ditos no início da resenha e o fato da ambientação ser muito relacionável e (infelizmente) fresca na memória. Nesse sentido, você consegue se identificar com os personagens, que fazem de tudo pra que o tempo passe em um período que cada minuto parece se arrastar. Mas infelizmente os minutos se arrastaram durante a leitura também. 😦

Título original: Você Não É Invisível
Autor:
Lázaro Ramos
Editora: Objetiva
Número de páginas: 112
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Carrie Soto Está de Volta

Oi gente, tudo certo?

A resenha de hoje é sobre um livro que li faz um tempinho, mas que ainda não tinha encontrado inspiração pra escrever sobre. Espero que essa resenha consiga fazer jus a ele. 😉 Vamos conhecer Carrie Soto Está de Volta?

Garanta o seu!

Sinopse: A tenista Carrie Soto se aposentou no auge, com a tranquilidade de ter atingido um recorde imbatível: foram vinte títulos Grand Slam conquistados ao longo de sua carreira. Mas apenas cinco anos depois de seu retiro das quadras, ela assiste Nicki Chan igualar sua marca, trazendo a sensação de que seu legado está comprometido. Disposta a chegar aos seus limites, Carrie tem o apoio de seu pai, Javier, ex-tenista que a treina desde os dois anos de idade. Ele parece ter seus próprios motivos para incentivar a filha nesta última temporada que promete desafiar ambos num jogo que exige tanto física quanto mentalmente. Em uma inesquecível história sobre segundas chances e determinação, Taylor Jenkins Reid nos cativa com uma protagonista forte como sempre e um romance emocionante como poucos.

Quem leu Malibu Renasce pode reconhecer esse nome: Carrie é a amante de Brandon, o marido de Nina Riva, protagonista do romance. Por isso, inevitavelmente fiquei curiosa quando soube que a Taylor Jenkins Reid escreveria sobre ela, uma personagem com uma carga tão pesada de antipatia prévia. Mas uma coisa eu já adianto pra vocês: o caso de Carrie com o marido de Nina foi uma fração tão pequena de tudo que ela viveu que logo você esquece e passa a focar na complexidade de sua história.

Carrie perdeu a mãe muito cedo, sendo então criada pelo pai, Javier Soto, um ex-jogador de tênis argentino muito talentoso. Ele dava aulas em um clube de ricaços e desde cedo começou a treinar a filha no esporte, tanto como uma forma de conexão com ela (pois sempre acreditou que Carrie estava destinada à grandeza) como também para afastar a dor causada pela perda da esposa. Desde que começou a se entender por gente, Carrie ouvia do pai que seria a melhor tenista do mundo, e eles não faziam ideia do quanto essa frase teria consequências sérias na vida da garota. A confiança do pai nela era motivadora, mas também foi criando uma expectativa colossal e um objetivo tão fixo que não permitia nenhum tipo de desvio na rota.

Carrie Soto Está de Volta gira em torno da carreira de Carrie antes e após a aposentadoria. Esse contexto de sua criação é o “antes”, contando a sua trajetória da infância até a faixa dos 30 anos, quando é obrigada a se aposentar por uma lesão. Aos 37 anos, porém, Carrie vê uma nova tenista em ascensão, Nicki Chan, conquistando todos os títulos que ela conseguiu e estando a apenas uma vitória de bater o seu recorde mundial. É aí que a protagonista decide voltar às quadras para defendê-lo, entrando novamente numa rotina pesada de treinos e tendo que lidar com feridas físicas e psicológicas junto ao pai.

A pressão causada pela grandeza é o fio condutor de Carrie Soto Está de Volta. Na primeira parte do livro, vemos uma Carrie tão focada em vencer que não consegue criar uma conexão genuína: uma amizade, um amor, nada. Ela vive para vencer sua “nêmesis”, Paulina Stepanova, e rompe com diversos limites para conseguir seu objetivo. A ruptura em sua relação com o pai é uma das consequências disso, quando Carrie decide que ele não está mais apto a treiná-la por não acreditar que ela possa vencer Stepanova. É bastante triste ver o isolamento da tenista e o fato de ela se fechar para o mundo e para a vulnerabilidade, especialmente porque sabemos que muito da obsessão pela vitória foi incutida sem querer por seu pai desde que ela era uma garotinha. Javier, por sua vez, é um homem amoroso e que sente muito orgulho de Carrie, o que também ajuda o leitor a sentir empatia apesar de suas atitudes que levaram a personagem a um nível tão alto de autocobrança. Ainda que as consequências tenham sido essas, Javier sempre se orgulhou da Carrie independentemente do resultado de cada jogo. A relação dos dois é um dos principais pilares do livro e rende cenas emocionantes. O amor que sentem um pelo outro é palpável e o fato de ambos se unirem novamente para ultrapassarem seus limites juntos (cada um à sua maneira) consolida uma relação de pai e filha pautada em devoção, respeito e orgulho.

A história de Carrie fica ainda mais inspiradora quando ela já tem 37 anos e ninguém acredita que ela vai conseguir manter seu recorde ou ganhar um Grand Slam. Aqui a discussão começa a ficar mais forte em torno do machismo e do etarismo. Do machismo porque Carrie é melhor do que inúmeros jogadores masculinos e mesmo assim precisa ficar lendo e ouvindo comentaristas esportivos falando mal dela e de seu comportamento, querendo obrigá-la a ser simpática e sorridente para merecer empatia; do etarismo porque fica evidente que todos colocam um selo com prazo de validade em Carrie, partindo do pressuposto que ela não é capaz de vencer mesmo que treine mais duro que todo mundo e seja um dos maiores talentos que o tênis já viu. Se você envelheceu sendo uma mulher, você já era: é isso que o livro critica.

O que mais gosto em Carrie é sua imperfeição e sua recusa a seguir aquilo que esperam dela. Ela é uma pessoa isolada, competitiva, arrogante, mas também determinada e sincera sobre quem ela é. Ela é um exemplo de mulher que recusa a docilidade que querem impor: se os jornalistas e comentaristas esportivos desejam que ela sorria mais pra ser aprovada por todos, ela faz questão de vencer e bater todos os recordes sem se dobrar a nenhuma expectativa que eles tenham. Ela enfrenta o escárnio público sozinha após o caso com Brandon não dar certo, mostrando mais uma vez como as mulheres saem perdendo mesmo quando o pior erro foi o do homem (já que Brandon era a pessoa casada naquela relação). Com o tempo, porém, Carrie vai se tornando mais maleável. Não pela pressão citada anteriormente, mas porque ela amadurece: a protagonista começa a perceber que vinha aceitando migalhas de afeto e que merece mais; passa a aceitar melhor as derrotas, tão raras na sua carreira e mais recorrentes nesse novo momento; ela também permite que seu parceiro de treinos, Bowe, se aproxime dela; passa a jogar tênis novamente por amor, e não para vencer alguém de forma obcecada. Minha conclusão é que perder faz bem à Carrie e lhe dá perspectiva sobre o que realmente importa.

Carrie Soto Está de Volta é um livro que mexe com você. Mesmo quando Carrie está sendo arrogante, teimosa ou metendo os pés pelas mãos, você sente empatia por entender de onde tudo aquilo está vindo, onde o vazio dela se encontra. Nem todas as atitudes da personagem são louváveis, mas ela é brutalmente honesta sobre si mesma e é retratada como alguém cuja garra é inegável e admirável. Carrie é um exemplo de alguém que tem tudo e todos torcendo contra ela, mas ela vai lá e enfrenta mesmo assim. Acho que só por isso já vale a pena conhecê-la. 😉

P.S.: o final é um pouco abrupto, mas nada que estrague a experiência, principalmente porque faz muito sentido.
P.S. 2: fico admirada com a capacidade da Taylor Jenkins Reid de me entreter com assuntos pelos quais nunca tive o menor interesse, como o tênis. 😂

Título original: Carrie Soto is Back
Autora:
 Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Os Sete Maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Os Sete Maridos de Evelyn Hugo é um livro que dispensa apresentações, considerando que é praticamente unânime sua avaliação positiva entre os leitores. Chegou a minha vez de entrar pro fã-clube e panfletar essa obra que se tornou não só a favorita de 2022 como uma das favoritas da vida! Bora conhecer essa história maravilhosa, que é pra começar o ano em grande estilo. 🙌

Garanta o seu!

Sinopse: Lendária estrela de Hollywood, Evelyn Hugo sempre esteve sob os holofotes – seja estrelando uma produção vencedora do Oscar, protagonizando algum escândalo ou aparecendo com um novo marido… pela sétima vez. Agora, prestes a completar oitenta anos e reclusa em seu apartamento no Upper East Side, a famigerada atriz decide contar a própria história – ou sua “verdadeira história” –, mas com uma condição: que Monique Grant, jornalista iniciante e até então desconhecida, seja a entrevistadora. Ao embarcar nessa misteriosa empreitada, a jovem repórter começa a se dar conta de que nada é por acaso – e que suas trajetórias podem estar profunda e irreversivelmente conectadas.

Os Sete Maridos de Evelyn Hugo tem uma premissa simples, mas instigante: a estrela de cinema que dá nome ao livro, já na casa dos 70 anos, praticamente “convoca” uma jornalista de pouco renome, Monique Grant, para entrevistá-la. Escolhi a palavra “convoca” porque Evelyn se recusa a conversar com outro redator da revista em que Monique trabalha que não ela. Quando a jornalista enfim conhece a grande estrela, Evelyn Hugo revela que seu verdadeiro desejo é que Monique escreva sua biografia, que promete ser um estouro de vendas. As únicas regras são: ela só deve ser publicada após a morte de Evelyn e Monique deve ser fiel às palavras da atriz, revelando sua verdade sem manipulação ou incompreensão. Ainda que desconfiada do motivo para ter sido escolhida, Monique aceita a proposta, que pode ser sua chance de finalmente crescer na carreira. A partir desse acordo inesperado, Evelyn começa sua história, que inicia na infância com o sonho de se mudar para Hollywood.

Eu amei tanto esse livro e essa personagem que, quando terminei, senti um vazio esquisito por não estar mais na companhia de Evelyn Hugo. Ela é uma personagem tão real que é difícil virar a última página e saber que você não lerá mais nenhuma história, não saberá mais nenhum detalhe de sua vida. E essa é a característica que sempre me encanta na escrita de Taylor Jenkins Reid, mesmo nos livros dela que não me arrebatam tanto: ela domina com maestria a arte de criar personagens reais e multifacetados, com sonhos próprios, qualidades e falhas. Evelyn, apesar de ser a protagonista e a principal narradora, não é a única a ter seu desenvolvimento bem feito: Monique também tem revelados aspectos de sua vida pessoal que impactam diretamente nas decisões que ela toma. Conforme ouve o relato de Evelyn, Monique vai criando coragem e questionando as próprias decisões: ela é inspirada e desafiada pela atriz, aprende com suas artimanhas e faz movimentos pelos próprios interesses que são capazes de deixar sua entrevistada orgulhosa.

Um dos grandes segredos que Evelyn se dispõe a contar no livro é quem foi seu grande amor. Preciso falar sobre essa parte da história porque é uma questão-chave no estilo do livro e no porquê ele emociona tanto, então se quiser evitar, pule este e o próximo parágrafo. A obra é dividida entre os sete maridos de Evelyn, cada um marcando uma fase importante da sua vida. Há Ernie, com quem ela casou por interesse pra ser levada pra Hollywood; há o nojento Mick Riva, que aparece em Malibu Renasce e por quem sinto o mais profundo desprezo; há Rex, com quem ela mantém um casamento de fachada pra evitar escândalos, entre outros. Mas nenhum deles foi seu grande amor romântico. Seu grande amor romântico foi Celia St. James, sua primeira amiga e a segunda (e última) pessoa por quem se apaixonou. Após casar por amor com Don Adler e ser vítima de um relacionamento abusivo, Evelyn vira uma amiga inseparável de Celia, encontrando conforto e compreensão na sua presença. Quando Evelyn descobre que Celia é lésbica, seu coração entra em descompasso e ela percebe que o que pensava ser amizade era na verdade outra coisa. Porém, as duas estão vivendo a década de 50, e o preconceito era pesado demais para suportar – podendo levá-las à ruina. Evelyn sempre soube disso, e o desejo de não expor o segredo das duas é o principal motivo que as afasta durante muitos anos. O amor de Evelyn e Celia é inspirador e verdadeiro, intenso e imutável, mas também comove porque as duas perdem muito tempo devido à teimosia, ao medo e ao risco de perderem tudo caso sejam descobertas.

Celia é uma personagem doce e afetuosa, mas ela sabe ser cruel também. Ela fere Evelyn com suas palavras em mais de uma ocasião, e se recusa a enxergar que algumas decisões que sua amada toma visam protegê-la, considerando que Celia é uma atriz talentosíssima e em ascensão, ganhando mais de um Oscar ao longo da carreira. Evelyn, por sua vez, é muito conhecida pela sensualidade, ainda que a reconheçam como a excelente atriz que é. Mas Taylor Jenkins Reid usa de sua protagonista pra exibir o machismo do ramo, e em mais de uma ocasião Evelyn é punida pela academia e pela sociedade, perdendo chances de reconhecimento e aparecendo nos tabloides (principalmente por causa de seus casamentos). As passagens em que Evelyn e Celia estão sem se falar são aflitivas porque o leitor sabe o quanto elas se amam, mas existe um caminho a ser trilhado para que estejam prontas para ficarem juntas.

Outro personagem que vale ser mencionado é Harry Cameron, o melhor amigo de Evelyn. Ele é um produtor de Hollywood conhecido pelo bom gosto e é quem descobre uma Evelyn com menos de 17 anos atendendo em uma lanchonete. Encantado por sua beleza, ele sabe que a garota tem potencial de brilhar, e é quem a ajuda a dar os primeiros passos em Hollywood. Com o tempo, porém, ele se revela um amigo leal, uma pessoa que está ali para defendê-la e com quem ela cria uma família – real e metafórica. Harry é um personagem pelo qual o leitor se afeiçoa, e ele tem suas próprias questões para resolver, algumas delas bastante trágicas e comoventes. Mais um exemplo de que os personagens inseridos na história têm um papel a cumprir, causando sentimentos intensos no leitor.

A obra também é interessantíssima por revelar com leveza e fluidez os bastidores do cinema, os escândalos das celebridades, as maquinações necessárias para chegar ao estrelato – e, principalmente, mantê-lo – e as falsidades que acontecem por trás das cortinas. Taylor Jenkins Reid constrói a história de modo que o leitor sinta que está lendo uma biografia de verdade, de tão imersivas que essas passagens são. Você realmente se sente “aprendendo” sobre o backstage do cinema e vendo de perto os segredos desse ramo sendo revelados.

Os Sete Maridos de Evelyn Hugo é um livro comovente, que fala sobre amar verdadeiramente e sobre o quanto o preconceito pode roubar a sua vida quando você não se encaixa no “modelo pré-estabelecido” de amor. Fala também sobre uma mulher que tomou atitudes condenáveis e egoístas para crescer na vida e proteger seus interesses, mas que também agiu da forma mais altruísta possível pra cuidar daqueles que amava. Evelyn Hugo é uma personagem complexa, apaixonante, cativante e instigante. Você pode até não concordar com suas decisões, mas decididamente você vai compreendê-las e possivelmente respeitá-las. Evelyn é um exemplo de força e de determinação, alguém que acredita em si mesma sem pensar duas vezes. Acho que, no fundo, eu queria ser um pouquinho mais como ela. Sei que Monique também, e a gente vê isso acontecendo diante dos nossos olhos ao longo da leitura. Se você ainda não conheceu essa mulher marcante, meu conselho é que o faça o mais breve possível. Assim como todos que a viram atuar durante seus anos de ouro, você vai se apaixonar por ela também. ❤

Título original: The Seven Husbands of Evelyn Hugo: A Novel
Autores:
Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 360
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Resenha: Heartstopper: Volume 4 (De Mãos Dadas) – Alice Oseman

Oi pessoal, tudo bem?

Preparados pra mais uma resenha da minha graphic novel queridinha? Estou falando dela, é claro: Heartstopper. ❤ Ah, de praxe, não custa nada avisar: como o tema é o 4º volume da série, essa resenha inevitavelmente tem spoilers das edições anteriores.

Garanta o seu!

Sinopse: Charlie e Nick já não precisam esconder de ninguém no colégio que estão namorando, e agora, mais do que nunca, Charlie quer finalmente dizer “Eu te amo”. O que parece um gesto simples se torna bem complicado quando sua ansiedade o faz questionar se Nick se sente da mesma forma…
Nick, por sua vez, está com a cabeça cheia. Afinal, ele ainda não teve a oportunidade de se assumir para o pai, e se preocupa constantemente com Charlie, que dá sinais claros de ter um transtorno alimentar. Conforme o relacionamento dos dois amadurece, os desafios que vêm pela frente ficam cada vez mais difíceis ― mas os garotos logo vão aprender que amar alguém nada mais é do que estar ao seu lado, juntos, de mãos dadas.

O relacionamento de Nick e Charlie continua firme e forte, mas nessa edição os personagens enfrentam problemas que colocam suas mentes e corações em assuntos mais tensos do que nas edições anteriores da série. Nick lida com um irmão babaca e ainda não conseguiu se encontrar com o pai para contar sobre Charlie; para piorar, ele começa a pesquisar sobre transtornos alimentares ao perceber, desde o volume 3, que o namorado parece ter bastante dificuldade quando o assunto é comida. Charlie, por sua vez, deseja dizer o famigerado “eu te amo” para Nick, mas tem medo de que não seja recíproco e ele não consiga lidar com isso. Toda a ansiedade do personagem está muito mais exacerbada nesse volume, e seus problemas com a comida se tornam cada vez mais claros.

Esse foi o primeiro volume de Heartstopper que me fez chorar. Eu tenho um apego muito grande em Nick e Charlie, e ver os dois sofrendo e passando por situações tão difíceis foi de partir o coração. Nick é uma peça-chave para que Charlie decida contar aos pais sobre seu problema, o que leva a medidas mais drásticas para protegê-lo de si mesmo e de seus pensamentos destrutivos. O lado bom desse plot é que desmistifica as instituições e os tratamentos psiquiátricos, colocando-os sob uma ótica muito positiva. Isso é excelente principalmente ao pensar que o público-alvo da graphic novel é jovem, ou seja, podem ser pessoas que ainda não saibam lidar com essa pressão sozinhas (por medo, desconforto, tabus, pressão familiar, entre mil outros motivos). Ao mesmo tempo que o cuidado psiquiátrico é mostrado de forma bacana, também é de entristecer que a família de Charlie não tivesse notado que o garoto vinha demonstrando sintomas de um distúrbio alimentar. Muitas vezes a gente convive de perto com alguém que está sofrendo e, mesmo assim, não conseguimos enxergar. 😦 Acho que De Mãos Dadas faz um bom trabalho em deixar esse alerta.

Preciso dedicar um momento pra exaltar a mãe do Nick, uma personagem compreensiva, sensível e leal. Ela é a pessoa quem ajuda Nick a ordenar os pensamentos em relação ao distúrbio de Charlie, especialmente porque Nick quer salvá-lo a todo custo dessa condição. É também Sarah Nelson que fala para o filho (e para o leitor) que não é papel de um companheiro “salvar” a outra pessoa de um transtorno mental, pois é um fardo muito pesado pro amor carregar (além de transtornos mentais serem multifatoriais e mais complexos de serem resolvidos). Ela ensina o filho que amar é muito mais sobre estar presente nos momentos difíceis e saber que a pessoa pode contar com seu colo. Sim, essa foi uma das passagens em que eu chorei. 🥲

Heartstopper: De Mãos Dadas é o volume mais “pesado” da série até agora, por finalmente tocar em assuntos com os quais a trama vinha flertando, mas sem se aprofundar. Alice Oseman toma muito cuidado ao abordar o quanto devemos levar a sério o assunto de saúde mental, mas ao mesmo tempo trazendo doses de esperança e caminhos possíveis para a cura. Além de Nick, Charlie pode contar com o apoio incondicional da família e dos amigos, e mesmo que o caminho para a cura seja tortuoso e cheio de percalços, com altos e baixos, é lindo de ver que sempre tem alguém pra segurar a mão dele. ❤

Título original: Heartstopper #4: A Graphic Novel
Série: Heartstopper
Autora:
 Alice Oseman
Editora: Seguinte
Número de páginas: 384
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Solitária – Eliana Alves Cruz

Oi pessoal, tudo bem?

A dica de hoje é sobre um título que já entrou pra lista de favoritos do ano: Solitária, de Eliana Alves Cruz. É um livro curtinho, mas que atinge dores da sociedade brasileira com uma maestria ímpar. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Solitária conta a história de duas mulheres negras, Mabel e Eunice, mãe e filha, que “moram no trabalho”, um condomínio de luxo situado em localidade não nomeada, mas que pode ser qualquer grande cidade brasileira. Eunice, a mãe, é testemunha-chave de um crime chocante ocorrido na casa dos patrões. Mabel, a filha, constrói o caminho que levará à elucidação do crime e à libertação de ambas. Em prosa direta e ágil, voraz e assertiva, Eliana Alves Cruz remexe o imaginário do trabalho doméstico no Brasil, ainda tão vinculado ao mundo escravocrata, e o relaciona a questões contemporâneas fundamentais, como o debate sobre ações afirmativas, a ascensão da extrema direita e a pandemia. Testemunho de uma crucial mudança de sensibilidade no espírito de nosso tempo, Solitária dá provas do quão urgente se tornou elaborar – sem meias-palavras – não apenas a história, mas as sobrevidas da escravidão colonial. E, ao fazê-lo, mostra como é possível enfrentar o desafio moral e ético de abordar estas experiências de vida sem replicar narrativamente a violência a que estão sujeitas nem reencená-las sob a égide de qualquer pacto sub-reptício de subalternidade. É um romance libertação.

A obra acompanha os anos de vida de duas mulheres negras, mãe e filha, que têm suas vidas marcadas pelas consequências de um país que coloca corpos negros em posição de servidão. Mabel, a filha, sabe desde cedo que não quer traçar os mesmos passos da mãe, almejando um futuro melhor e conquistando sua tão sonhada vaga no curso de Medicina; Eunice, a mãe, trabalhou como empregada doméstica a vida toda e tem um conflito interno muito forte sobre os sentimentos em relação à família de classe média alta que por tantos anos a empregou. Um acontecimento trágico é um catalisador para que Mabel pressione a mãe a se libertar desse vínculo, ao mesmo tempo em que Eunice tenta entender como lidar com o que aconteceu. Os capítulos são (quase) todos narrados em primeira pessoa por essas personagens e trazem experiências de anos, o que permite que o leitor mergulhe a fundo em suas vidas.

Uma alegoria importantíssima ao longo da obra é o conceito do quartinho – não apenas como cômodo, mas como espaço metafórico para o corpo negro. Eliana Alves Cruz não teme expor as fragilidades raciais da nossa sociedade, tendo um texto pungente e, ao mesmo tempo, de grande fluidez (o que torna o livro ágil). Mabel observa desde criança sua mãe sendo obrigada a limpar, cuidar, organizar e fazer tudo para seus empregadores brancos, que adoram dizer que “ela é praticamente da família” ao mesmo tempo em que a relegam a um espaço apertado e apartado dos demais. A própria Mabel, diferente das crianças que ela vê crescer na casa dos patrões (como a filha do casal, Camila, e outros amigos do prédio), também não recebe o mesmo tratamento: enquanto a infância de uns é preservada, a de outros é destinada a ajudar “na lida”, fazendo o possível para se tornar invisível e não atrapalhar o dia a dia da branquitude que frequenta aquele apartamento.

A história de Mabel é uma história de superação. Mesmo estando nesse ambiente desde novinha e passando por uma experiência traumática aos 14 anos (que reflete o destino de muitas meninas da mesma idade e classe social), ela conseque realizar o sonho de entrar na faculdade de Medicina. Mas o livro não faz com que pareça uma meritocracia utópica da qual a classe média tanto gosta de falar; vemos na prática a dor e os sacrifícios que sua família passa pra que ela chegue lá. Sua infância é roubada muito cedo e ela logo percebe que não pode se dar ao luxo de ter as mesmas experiências e erros que os “verdadeiros moradores” do condomínio podem se permitir. O acesso a clínicas e a medicamentos importantes são um bom exemplo disso, mostrando que a autora ainda consegue falar com sutileza sobre temas pesados como aborto e saúde coletiva.

Eunice também é uma personagem profunda e bem trabalhada. Para ela, de origem humilde, a vida doméstica acabou trazendo certa estabilidade pela qual ela é grata. Cada pequeno gesto de seus patrões parecem vir carregados de uma expectativa de gratidão eterna por parte de Nice, e durante parte do livro ela cumpre esse papel. Seu maior conflito interno reside no fato de que ela passa mais tempo cuidando da filha do casal, Camila, do que da sua própria; é uma necessidade que, além de doer, faz com que ela sinta que Camila também é “um pouco sua filha”. Quando a garota se envolve no evento propulsor do livro, Eunice é confrontada e precisa olhar para o seu passado a fim de entender qual o seu papel nos desdobramentos de tal evento. É como ler sobre o caso Miguel novamente, só que dessa vez nas páginas de uma ficção (nem tão ficção assim).

Para além das duas personagens e da família branca para a qual Eunice trabalha, também entramos em contato com Jurandir, o porteiro e novo amor de Eunice, e seus dois filhos, Cacau e João Pedro, que possuem laços fortes com Mabel. João Pedro é o símbolo da rebeldia dentro desse contexto, sendo aquele que se recusa ao papel de subserviência que percebe em seu pai e em Nice. Ele é julgado por seu “jeito problemático”, mas é também um grito de liberdade e de revolta muito necessário. E já que estou falando em personagens, digo apenas que os espaços ocupados por todos já citados também têm um papel interessante e marcante na narrativa do livro – mas o como eu vou deixar pra vocês descobrirem.

Solitária é um livro excelente, que toca em diversas feridas abertas em relação ao racismo no Brasil. Com uma narrativa leve, mas firme, Eliana Alves Cruz faz um passeio por diversas desigualdades que assolam com muito mais força a camada mais vulnerável da população: de subempregos a gravidez indesejada, de escravidão moderna (mas sem a espetacularização de A Mulher da Casa Abandonada) até a maior vulnerabilidade frente à Covid-19. São temas pesados, que impactam, mas trabalhados de forma tão didática que as páginas fluem e você sente a revolta no fundo do coração por saber que nada do que está escrito ali é tão ficcional assim. Pra mim, Solitária entrou pro hall de livros que todo mundo deveria ler.

Título original: Solitária
Autora: Eliana Alves Cruz
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 168
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: A Ponte Entre Reinos – Danielle L. Jensen

Oi pessoal, tudo bem?

A Ponte Entre Reinos se tornou um dos livros queridinhos da blogosfera em 2022 e hoje chegou a minha vez de dividir com vocês o que achei da obra. Vamos nessa? 🥰

Garanta o seu!

Sinopse: Lara é uma princesa treinada para ser uma espiã letal. Ela tem duas certezas: 1) o rei Aren de Ithicana é seu maior inimigo; 2) ela será a responsável por destruí-lo. Por ser a única rota possível num mundo assolado por tempestades, a ponte de Ithicana gera poder e riqueza ― e a miséria dos territórios vizinhos, entre eles a terra natal de Lara. Então, quando é enviada para cumprir um acordo de paz e se casar com Aren, Lara está decidida a descobrir todas as fraquezas desse reino impenetrável. Mas, conforme se infiltra em seu novo lar e entende o preço que Ithicana paga para manter o controle da ponte, Lara começa a questionar suas convicções. E, quando seus sentimentos por Aren passam da hostilidade para uma paixão intensa, ela terá de escolher qual reino vai salvar ― e qual vai destruir.

Ithicana e Maridrina são reinos rivais que travaram uma guerra por anos, até que um tratado de paz – o Tratado de Quinze Anos – foi firmado. Nele, ficou estabelecido que Maridrina forneceria uma princesa para casar com o príncipe e futuro rei de Ithicana. Mas Silas, rei de Maridrina, nunca aceitou a paz de fato, e treinou 20 filhas em segredo pra se transformarem em guerreiras letais e espiãs de ponta, no intuito de seduzirem o novo rei, Aren, e extraírem o maior segredo de Ithicana: como penetrar as defesas da ponte que liga o reino aos vizinhos e é responsável por todo o trajeto do comércio de norte a sul, protegendo os comerciantes dos terríveis mares Tempestuosos. Lara é quem consegue ser a princesa escolhida, e vai até Ithicana determinada a não falhar em sua missão. Porém, aos poucos, a jovem espiã vai percebendo que muitas das coisas que incutiram em sua cabeça durante seu treinamento (que começou aos 5 anos de idade) não eram verdadeiras, colocando sua missão – e sua lealdade – em xeque.

Na minha opinião, diversos livros de fantasia correm o risco de ficarem confusos e cansativos quando estão apresentando muitos conceitos novos de world building, especialmente nos primeiros volumes de uma série. Contudo, aqui a autora consegue equilibrar o “show” com o “tell”, ou seja, ao mesmo tempo em que descreve o mundo proposto, há parágrafos dedicados a explicar as dinâmicas e regras que regem esse mundo também por meio de diálogos ou pensamentos dos personagens, evitando que inúmeros conceitos novos sejam simplesmente largados na narrativa. Isso faz com que A Ponte Entre Reinos não seja enfadonho e prenda a atenção desde as primeiras páginas.

O livro oferece um desenvolvimento bem instigante, com uma narrativa em terceira pessoa ora focada em Lara, ora em Aren. Ainda que desde o início o leitor já saiba que se trata de um romance, a autora leva o desenvolvimento dessa relação com paciência, especialmente porque Lara e Aren têm muito a perder: ela não pode ser descoberta como espiã; ele não pode colocar a segurança de Ithicana em risco. Com o passar das páginas, eles vão ficando mais confortáveis na presença um do outro, em parte porque Aren não deseja fazer de Lara uma prisioneira, dando mais espaço a ela no reino, e em parte porque Lara revela traços reais de sua personalidade que vão cativando o rei (que provavelmente seriam criticados pelos mestres de sedução que lhe ensinaram enquanto crescia rs). Como não sou fã de instalove, gostei que a dinâmica dos dois tenha sido construída com o tempo, e Danielle L. Jensen deixa claro que vários meses se passam desde que o casamento acontece.

Os protagonistas de A Ponte Entre Reinos são bons personagens. Lara é uma garota de fibra e, nas primeiras páginas, já fui enganada por ela e pela autora, que nos faz acreditar que a jovem matou suas irmãs para salvar a própria pele. Felizmente ela não demora a mostrar que se condenou ao destino de ir para Ithicana para salvá-las, devido ao amor profundo que sente por elas. Isso foi fundamental para humanizar uma personagem que, em essência, vai para o Reino da Ponte em uma posição de “vilã”, para espionar. Lara pode ter feito coisas horríveis, mas em sua maior parte foi por coação ou instinto de sobrevivência, e não por maldade – e ela não usa isso pra se vitimizar, reconhecendo seus defeitos ao longo de toda a obra.

Aren, por sua vez, não demora a surpreender a esposa. Logo fica claro para Lara e para o leitor que ele é um homem leal e justo, e que sua ferocidade em batalha é consequência de uma vida tendo que proteger seu reino de ataques. Ithicana não busca a guerra, mas sim é alvo dela. Meu único problema com Aren é que ele é meio perfeitinho demais: é lindo, forte, musculoso, leal, honesto, paciente, respeitoso, bom de cama e ainda se apaixona perdidamente por Lara. Fácil gostar dele assim, né? 😂 Felizmente, ainda que ele seja vítima do odiado (pra mim) recurso instalove, Aren é sensato: não importa que tenha caído de amores por Lara, ele demora a confiar nela e toma várias precauções nos primeiros meses da jovem em seu lar.

Os pontos fracos de A Ponte Entre Reinos começam no seu terço final. Ele é tão slow burn que em determinado ponto as coisas demoram a ganhar velocidade, especialmente quando fica nítido que os sentimentos já “oficialmente” mudaram. Além disso, tem uma atitude de Lara que torna o final do livro bastante óbvio, fazendo com que o impacto do que acontece e qualquer consequência advinda se tornem previsíveis. Apesar disso, o livro termina com um bom gancho; ele promete muita ação e uma necessidade de garra e resiliência por parte dos personagens. Pra uma duologia, foi uma boa forma de encerrar essa primeira parte, capaz de deixar o leitor com muita vontade de ver a ação que sua continuação promete.

A Ponte Entre Reinos é uma ótima fantasia e um ótimo romance. Digo “e” porque o livro foi competente em ambas as esferas: apresentou um universo rico é bem construído, com relações políticas interessantes, ao mesmo tempo em que trouxe um enemies to lovers bem feito. Aren é um pouco perfeitinho demais? Sim. O instalove dele por ela é meio clichê? Também. Mas o fato de que o romance em si tenha demorado um tempo coerente pra se consolidar – especialmente considerando os riscos e responsabilidades de Lara e Aren – me convenceu. Se você curte esse estilo de leitura, A Ponte Entre Reinos está recomendadíssima!

Título original: The Bridge Kingdom
Série: A Ponte Entre Reinos
Autora: Danielle L. Jensen
Editora: Seguinte
Número de páginas: 416
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Heartstopper: Volume 3 (Um Passo Adiante) – Alice Oseman

Oi pessoal, tudo bem?

Como fiz questão de evidenciar na resenha das HQs e da série, me tornei fã de carteirinha de Heartstopper. ❤ Então pensem na alegria dessa pessoinha quando recebi da Seguinte o terceiro volume, Um Passo Adiante. Continua lendo que eu te conto mais!

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Sinopse: No terceiro volume da série Heartstopper, acompanhamos os primeiros desafios do namoro de Charlie e Nick enquanto os garotos viajam a Paris. Depois de entenderem o que sentiam um pelo outro, Charlie e Nick se tornaram oficialmente namorados, e cada dia é uma nova oportunidade para se conhecerem um pouco mais. Mas nem tudo é fácil, principalmente quando se trata de se assumir enquanto casal para o mundo. Mesmo com medo da reação das pessoas, os garotos sabem que em breve terão de contar a verdade, pelo menos para os amigos mais próximos ― ainda mais quando a turma toda viaja a Paris. Enquanto decidem como dar este próximo passo, os dois vão descobrir que, não importa qual seja o desafio, eles podem sempre contar um com o outro.

Se no volume 1 a dupla se aproximou e começou a desenvolver seus sentimentos e no volume 2 o foco foi na autodescoberta de Nick como bissexual e o início do namoro dos dois, em Um Passo Adiante o casal precisa tomar decisões sobre como conduzir a relação. Essa edição traz uma vibe gostosíssima ao colocar os personagens em uma viagem escolar com destino a Paris, e o leitor fica imerso naquela atmosfera de comédia romântica cheia de descobertas, cenários lindos e momentos divertidos.

Nick e Charlie ainda não contaram aos amigos sobre seu namoro, e aos poucos eles vão criando coragem – e decidindo juntos – a melhor forma de fazer isso. Achei fundamental que Alice Oseman tenha trabalhado esse tema com tanta delicadeza e cuidado, especialmente quando lembramos que Charlie foi retirado do armário contra sua vontade, causando todo o bullying que ele sofreu na escola. Por isso, o fato de que o casal protagonista está disposto a fazer isso da sua própria maneira é um sinal de empoderamento super importante, além de transmitir uma mensagem positiva a quem possa estar na mesma situação.

Outro aspecto muito bacana de Um Passo Adiante é o foco em outros personagens, que na série da Netflix já ganharam mais atenção mas, até agora nas HQs, nem tanto. É o caso de Tao e Elle, que visivelmente nutrem sentimentos um pelo outro. Durante a viagem, eles têm a oportunidade de passarem mais tempo sozinhos e refletirem sobre os ônus e bônus de se declararem. É natural ter medo de alterar uma relação que até então é pautada na amizade e algo dar errado, mas é lindo ver Tao e Elle tendo coragem de arriscar.

Além do foco na relação de Nick e Charlie como casal, Alice Oseman também insere elementos que desenvolvem os personagens individualmente, o que considero fundamental. No caso de Nick, a autora mostra ao leitor que o personagem tem uma relação fragilizada com seu irmão mais velho e com seu pai. Enquanto o primeiro é rude e faz bullying com ele (que não se deixa intimidar e o enfrenta), o segundo é ausente e, mesmo morando em Paris, não parece fazer questão de ver o filho durante a viagem. Esses elementos dão profundidade a Nick, que até então era “apenas” nosso golden retriever fofo e maravilhoso. Charlie, por sua vez, começa a ser observado pelo namorado devido a um comportamento que vai ficando nítido para o leitor também: em diversas situações de stress, ele mal toca na comida. Alice Oseman ainda não aprofunda o assunto de distúrbios alimentares nesse volume, mas pra mim ficou muito claro que é algo no horizonte. Tenho certeza de que ela vai tratar desse tema com muito cuidado e sensibilidade, como tudo que vi dela até agora.

Heartstopper: Um Passo Adiante é uma leitura deliciosa, com gostinho de verão (europeu rs) e com todo o carisma e fofura que os volumes 1 e 2 da HQ já haviam nos presenteado. É muito bom ser fã de uma obra que consegue deixar meu coração feliz já nas primeiras páginas, e Alice Oseman consegue me transportar pra história de Nick e Charlie sem esforço. É como se o leitor se tornasse parte daquele grupo de amigos, torcendo e vibrando por cada uma de suas conquistas. Se você ainda está em dúvida sobre ler ou não Heartstopper, a dica é: não pensa mais e só se joga! Vai valer a pena. ❤

Título original: Heartstopper #3: A Graphic Novel
Série: Heartstopper
Autora:
 Alice Oseman
Editora: Seguinte
Número de páginas: 384
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Linguagem da Destruição – Heloisa Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto

Oi pessoal, tudo bem?

Decidi ler Linguagem da Destruição: A Democracia Brasileira Em Crise mesmo sabendo a dificuldade que seria para mim mergulhar em uma análise da retórica de Bolsonaro, por quem sinto o mais profundo asco. Ainda assim, achei importante enfrentar esse desafio, especialmente porque sempre fiquei incrédula com a quantidade de pessoas que o defendem apesar de todas as coisas grotescas que ele diz e faz. Esse livro foi uma ótima aula nesse sentido, e só por isso já valeu a pena.

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Sinopse: Partilhando a ideia de que o plano de poder de Bolsonaro é pautado pela destruição, Heloisa Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto investigam, cada qual sob uma perspectiva, mas em constante diálogo, a atuação do bolsonarismo e seus efeitos para a democracia. O ensaio de Starling aborda o agudo reacionarismo do grupo político no poder, procurando compreender sua constituição histórica e antecedentes. Lago trata da resiliência de Bolsonaro a partir das armadilhas de seu discurso, considerando a dificuldade de se estabelecer uma oposição eficaz e os impactos da hiperconectividade e do neopentecostalismo para sua ação política. Já o capítulo de Bignotto é uma reflexão sobre os conceitos da teoria política empregados para definir o bolsonarismo e seus matizes ideológicos. Ao escrutinar os elementos que constituem a visão de mundo comungada pelos apoiadores de Bolsonaro, os autores combatem a cegueira analítica e descortinam os movimentos do ex-capitão e seu projeto de poder: a destruição da ordem democrática.

Linguagem da Destruição é um livro escrito por um filósofo, uma historiadora e um cientista político. Cada um deles escreve um capítulo do livro, que por sua vez tem subdivisões para tornar a leitura um pouco mais fluida e cadenciada. O objetivo da obra, em última instância, é analisar todo o mecanismo voltado à destruição que traduz o que é a “gestão” de Bolsonaro: um governo que, desde o início, prometeu destruir o status quo sem nenhum plano de reconstrução ou de futuro focado no desenvolvimento do país. Com a chegada da pandemia, esse projeto destruidor ganhou ainda mais força, transformando-se num governo que tem a morte como um dos seus pilares.

É importante deixar claro pra qualquer pessoa que leia essa resenha: eu sou anti-Bolsonaro em todas as instâncias possíveis. Desde 2018 eu digo que, se tiver que escolher entre votar nele e numa batata, eu voto na batata. E eu ressalto isso porque nenhuma resenha é totalmente isenta, e eu nunca me propus a fazer isso aqui no blog; muito pelo contrário, o Infinitas Vidas é um espaço onde, com transparência e honestidade, eu coloco minha opinião no mundo – e torço pra que ressoe em algum de vocês. Pra ser honesta, acho que estou escrevendo esse parágrafo com medo de que esse post um dia seja visto por minions desocupados que resolvam me atacar nos comentários, então já deixo avisado que, se isso acontecer, vou fechar o campo dos comentários pois não sou obrigada a aceitar xingamento e desrespeito rs.

Parênteses concluído, seguimos com a resenha. Os autores buscam criar uma narrativa que, aos poucos, vá explicando diversos aspectos da conduta bolsonarista e, principalmente, o porquê dela ter encontrado um meio fértil para se propagar. Há todo um resgate histórico para nos conduzir até o momento presente, e não são feitas afirmações levianas sem um raciocínio construído previamente para defender a posição dos autores. Eles reconhecem que é difícil encaixar Bolsonaro numa única caixinha de conduta devido a sua aproximação com vários movimentos, e evitam colocar rótulos que o limitem a ser chamado unicamente de populista, fascista ou nazista, por exemplo. É como se Bolsonaro permeasse esses conceitos, flertasse com vários sem se encaixar 100% em nenhum e então os transformasse no bolsonarismo, um movimento muito particular para o qual os autores ainda não possuem total entendimento.

O livro cumpre seu papel de evidenciar que não é a primeira vez que temos governantes autoritários no poder, mas que é inédito vermos alguém eleito pelo povo ter um plano focado em destruir os alicerces democráticos de dentro pra fora. Fomentar crises econômicas e sociais não é algo que Bolsonaro fez “sem querer” ou por ser burro (como eu mesma tantas vezes acusei), mas sim parte de um plano proposital de enfraquecer a sociedade para que ele possa se colocar como o salvador messiânico da população ao mesmo tempo em que se isenta da responsabilidade de consertar as coisas, terceirizando a culpa. Bolsonaro abraça a ideia de que não existe uma visão de futuro para o país, mas sim a necessidade de destruição “de tudo que está errado” (segundo ele) no presente.

O mais marcante dessa leitura pra mim foi perceber que eu estava sendo reducionista em relação à capacidade estratégica do discurso de Bolsonaro. Para mim, era difícil ver suas palavras sem reagir com “como alguém acredita no que esse burro tá falando?” ou “como as pessoas não se revoltam com essa afronta?”. Depois de ler Linguagem da Destruição, percebi que (mesmo ele sendo burro em muitas instâncias sim) Bolsonaro construiu o caos perfeito para que ele pudesse se isentar da responsabilidade do que acontece (afinal, na sua visão a culpa da crise é da pandemia, não dele), minar a confiança das pessoas na democracia (vide suas declarações golpistas de que não aceitará ser derrotado nas eleições e incitações para as pessoas não confiarem na urna eletrônica) e destruir as bases democráticas que vinham sendo fortalecidas no nosso país desde que nos livramos da ditadura. Se eu tiver que resumir essa experiência, posso dizer que Linguagem da Destruição é um livro difícil, por vezes complexo e com passagens mais enfadonhas, mas foi um divisor de águas no meu entendimento político.

Título original: Linguagem da Destruição: A Democracia Brasileira Em Crise
Autores: Heloisa Murgel Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 176
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: Se Liga, Dani Brown – Talia Hibbert

Oi galera, tudo bem?

Não se deixem enganar pela capa fofinha do livro de hoje: Se Liga, Dani Brown é um romance +18 cheio de cenas quentes e descrições bem gráficas, então fica o aviso. 😂 O livro é o segundo volume da trilogia Irmãs Brown, sendo que já falei sobre o primeiro (Acorda Pra Vida, Chloe Brown, protagonizado pela Brown primogênita) aqui no blog. Sem mais delongas, vamos conhecer a irmã do meio? 😉

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Sinopse: Dani Brown precisa de um sinal. Tudo que ela quer é alguém com quem possa se divertir, sem complicações ou sentimentos envolvidos. O problema é encontrar essa pessoa, por isso ela pede ao universo que lhe avise se aparecer alguém que preencha os requisitos. Quando acaba presa em um elevador durante um treinamento de incêndio e é resgatada por Zaf, o segurança rabugento de quem é mais ou menos amiga, Dani pensa ter entendido o recado e começa a bolar um plano para seduzi-lo. Nenhum dos dois espera que o resgate gere rumores de que eles estejam juntos. Muito menos que tais rumores tragam benefícios para suas vidas, o que os leva a encenar um namoro de mentira. Nos bastidores, porém, Dani continua firme com seu plano de seduzir Zaf e conseguir o que quer, mas aos poucos essa amizade colorida se torna mais complicada que sua tese de doutorado. Será que o tiro saiu pela culatra? Ou será que esse é o verdadeiro sinal do universo e Dani só precisa se ligar para ver?

Danika, ou Dani, é uma doutoranda cujo foco total está no trabalho, pois sua prioridade é conseguir atingir seus objetivos de carreira no tempo planejado. Ela, contudo, também tem suas necessidades enquanto mulher (risos) e por isso faz um ritual pedindo ao universo por um p** amigo. É aí que entra em jogo Zaf, segurança da universidade em que Dani trabalha. Os dois têm uma rotina de conversas breves e flertes diários, e existe uma atração física mútua. Acontece que ele não poderia ser mais diferente de Dani: apesar dele ser um muçulmano não-praticante, o que poderia levá-lo a sexo sem compromisso, Zaf leva relacionamentos e sexo bastante a sério, e sabe que qualquer relação casual com a mulher com a qual fantasia em segredo seria sua ruína emocional. Mas o universo dá o seu jeitinho, e em uma simulação de evacuação de emergência ele “resgata” Dani de um elevador quebrado e sai do prédio com ela no colo, cena que as pessoas filmam e gera uma hashtag viral. Todo esse destaque faz com que descubram duas coisas muito importantes sobre Zaf: ele é um jogador de rúgbi profissional aposentado e comanda uma ONG chamada Enfrente, voltada a auxiliar jovens com suas questões psicológicas por meio do esporte. A visibilidade gerada pela viralização começa a auxiliar a ONG, então a dupla resolve fingir um relacionamento em prol da organização. Clichê dos clichês, eu sei.

Vou ser sincera com vocês: achei de uma breguice tão grande a cena do resgate com a “princesa em apuros no colo” que já tive dificuldade de comprar todo o resto da trama, incluindo o namoro fingido. Não consigo entender o motivo pra tanta gente surtar com um casal saindo do prédio e o tanto que as pessoas shipparam isso pra se tornar viral por mais do que uma semana. E o fato de eu ter achado tudo tão forçado provavelmente me gerou uma experiência pior com a leitura do que poderia ter sido. Sempre digo que gosto de clichês, desde que eles sejam bem conduzidos, e infelizmente não senti isso aqui.

Dani é uma protagonista da qual não consegui gostar. Ainda que ela seja uma pessoa generosa e tenha ajudado Zaf, sua recusa em ter qualquer tipo de envolvimento sentimental me soou boba, teimosa e infantil. Os motivos que a levaram a isso são coerentes, e realmente vale a pena ficar de orelha em pé e desconfiada quando você viveu uma situação parecida. O problema é que ela tirou da equação o fato de Zaf ser… Zaf. Desde a primeira página, fica nítido o quanto o ex-jogador rabugento gosta dela – muito antes dele sequer pensar em admitir isso. Ele presta atenção em cada palavra de Danika, olha pra ela com verdadeira devoção, nunca a cobra ou a exige demais em relação à sua rotina puxada ou ao seu trabalho e, mais do que tudo, a incentiva a fazer o for necessário pra atingir seus objetivos. O máximo que ele cobra dela é que ela cuide de si mesma também, que se alimente, que descanse. Sério, Zaf é tão perfeito que chega a ser irritante.

Gostei do plot dele, falando nisso. O ex-jogador passou por uma perda pessoal devastadora que tirou toda a sua vida dos trilhos. Ele abandonou o rúgbi e ficou em um “dark place” por muito tempo, até conseguir se recuperar e retomar o controle da própria vida. Com essa experiência, e sabendo o quão vulneráveis os seres humanos podem ser, Zaf passou a se dedicar a ensinar a jovens garotos como lidar com as próprias emoções. Considerando que, apesar de algumas evoluções, ainda vivemos em uma situação patriarcal e machista na qual homens são inibidos de chorar e demonstrar o que sentem, foi muito legal ver um personagem masculino tão focado em 1) admitir suas próprias fraquezas e lidar com elas e 2) ajudar a construir um espaço seguro para que outros rapazes também possam se sentir assim.

Outro ponto positivo do livro é o mesmo que mencionei em Acorda Pra Vida, Chloe Brown: Talia Hibbert traz representatividade positiva em seus protagonistas. Dani é uma mulher plus size, negra e bissexual, e ela é muito feliz e segura com cada uma dessas características. Zaf é descendente de paquistaneses, então há representatividade não-branca no mocinho também. É muito bacana ver representações positivas de pessoas que fazem parte de minorias, e eu sempre defendo essa abordagem em livros que optam por esse caminho (como é o caso também de Heartstopper, por exemplo, que traz um olhar inspirador e otimista sobre um romance gay). Mais um elogio merecido ao livro são as descrições espirituosas de Talia Hibbert. Ela intercala capítulos em terceira pessoa focados em cada protagonista, e a autora escolhe palavras e formas de estruturar frases que fazem parecer que estamos contando ou ouvindo uma história de algum amigo, sabem? Queria ter separado um trecho pra explicar isso, mas como não o fiz eu peço que só acreditem em mim. 😂

Se Liga, Dani Brown é um romance despretensioso e bem clichê, mas que infelizmente não me marcou muito profundamente. É um livro legal, mas sem muito carisma, então ficam essas ressalvas pra que vocês decidam se estão curiosos o suficiente ou não pra conferir. 😉

Título Original: Take a Hint, Dani Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
 Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo – Amal El-Mohtar e Max Gladstone

Oi pessoal, tudo bem?

Recentemente li uma obra com uma premissa bem diferente, cujas opiniões a respeito eram um pouco controversas (com alguns leitores amando, outros nem tanto): É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo. Tirei minhas próprias conclusões a respeito e hoje as divido com vocês. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Entre as cinzas de um mundo em ruínas, uma soldada encontra uma carta que diz: Queime antes de ler. E assim tem início uma correspondência improvável entre duas agentes de facções rivais travando uma guerra através do tempo e espaço para assegurar o melhor futuro para seus respectivos times. E então, o que começa como uma provocação se transforma em algo mais. Um romance épico que põe em jogo o passado e o futuro. Se elas forem descobertas, o destino será a morte. Ainda há uma guerra sendo travada, afinal. E alguém precisa vencer.

Red e Blue são guerreiras de facções rivais que batalham pelo controle do tempo. Elas são agentes enviadas para interferir no que chamam de “filamentos” do tempo, influenciando eventos com o intuito de garantir seus futuros tais como seus líderes desejam. Durante suas viagens entre passado e futuro, Blue deixa uma carta para Red. O que começa como provocação de uma rival aos poucos se transforma em um amor proibido, e elas precisam vencer muito mais do que o tempo pra ficarem juntas.

O primeiro adjetivo que me vem à cabeça para falar de É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo é… confuso. O segundo, poético. Vamos começar falando sobre o primeiro. O livro é intercalado entre capítulos das cartas propriamente ditas e capítulos que ora focam em Red, ora focam em Blue em suas missões, bem como o momento em que elas encontram a próxima carta. E ao pensar na palavra “carta”, peço que vocês façam o exercício de imaginar as cenas mais abstratas possíveis: uma delas é encontrada no couro de uma foca, por exemplo. E foram esses capítulos que tornaram o livro bem menos agradável pra mim do que poderia ser. Tive muita dificuldade de me engajar com as missões, porque o mundo fantasioso criado pelos autores não é palpável, e as explicações ficaram aquém das minhas expectativas. Me senti perdida sobre o universo proposto, mas também acredito que não era o intuito do livro se debruçar muito em cima disso. Toda a guerra e a viagem no tempo são temas secundários, então senti como se nem valesse a pena ler sobre eles. A sensação que ficou é de “só aceita que é assim e segue o flow”, sabem? E, comigo, isso não funcionou muito bem. Por conta desses fatores, tive imensa dificuldade de me conectar à ambientação criada pelos autores.

Agora, quando falamos no aspecto poético da obra, bem como do romance em si… aqui, sim, temos belas palavras, capazes de envolver e fazer o leitor torcer por Red e Blue. É palpável quando o tom das cartas começa a mudar e as mensagens deixam de ser meras provocações de duas agentes que respeitam o alto nível uma da outra. Aos poucos elas começam a revelar mais de si mesmas por meio das palavras, bem como os segredos de onde elas vêm. Red, por exemplo, faz parte da facção conhecida como Agência. Os soldados da Agência são melhorados com tecnologia, não precisam dormir nem se alimentar de formas tradicionais e vivem em um mundo distópico tecnomecânico. Blue não poderia ser mais diferente: sua origem é a facção chamada de Jardim, na qual os membros se fundem à natureza das mais diversas formas, fazendo parte de um universo “élfico” e praticamente bucólico – se não fosse pela guerra, é claro rs. O interessante é que, conforme baixam suas guardas e se abrem sobre si mesmas e suas origens, fica claro que elas já nem sabem mais porque lutam, e passam a perceber que além das diferenças existem muitas similaridades que as unem.

Não posso negar que É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo é bastante imaginativo. Em suas idas e vindas pelos filamentos do tempo, Red e Blue guiam o leitor por várias Atlântidas rumo à submersão, para inúmeras cenas de catástrofes, para um futuro tecnológico, para a época de Gengis Khan, entre outros períodos marcantes. Pra conseguir fazer com que as páginas fluíssem, precisei dar uma desapegada das explicações teóricas; como mencionei antes, o foco do livro não é esse. Se você conseguir “desligar a chavinha da implicância”, é bem provável que aproveite essas passagens com mais entusiasmo do que eu. Agora, como um elogio muito merecido, ressalto não apenas o belo romance entre as duas protagonistas, mas também a reta final da obra: há uma explicação muito interessante para algo que vinha aparecendo desde as primeiras páginas, e eu gostei de como deu sentido a todas essas cenas em questão.

É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo foi uma experiência… peculiar. Não posso dizer que amei, mas também não é justo dizer que odiei. O romance sáfico é bonito e comovente, além de ser bem-vindo em termos de representatividade lésbica na literatura. Porém, se você tiver alguma expectativa de que o pano de fundo das viagens no tempo seja explorado, é possível que você se decepcione. Recomendo que alinhe as expectativas quanto a isso antes de iniciar a leitura caso decida dar uma chance. 😉 Ademais, é um livro poético e cheio de palavras intensas, daquelas que transmitem a paixão e a dor de romances impossíveis. 

Título original: This Is How You Lose the Time War
Autores:
Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Editora: Suma
Número de páginas: 224
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Livro cedido em parceria com a editora.
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