Resenha: Blackout – Dhonielle Clayton e outras autoras

Oi pessoal, tudo bem?

Quem aí está no clima de muito romance? ❤ A dica de hoje é um livro encantador publicado pela Seguinte e escrito por várias autoras contemporâneas de sucesso: Blackout: O Amor Também Brilha no Escuro.

Garanta o seu!

Sinopse: Uma onda de calor causa um apagão em Nova York. Multidões se formam nas ruas, o metrô para de funcionar e o trânsito fica congestionado. Conforme o sol se põe e a escuridão toma conta da cidade, seis jovens casais veem outro tipo de eletricidade surgir no ar…Um primeiro encontro ao acaso. Amigos de longa data. Ex-namorados ressentidos. Duas garotas feitas uma para a outra. Dois garotos escondidos sob máscaras. Um namoro repleto de dúvidas. Quando as luzes se apagam, os sentimentos se acendem. Relacionamentos se transformam, o amor desperta e novas possibilidades surgem ― até que a noite atinge seu ápice numa festa a céu aberto no Brooklyn. Neste romance envolvente e apaixonante, composto de seis histórias interligadas, as aclamadas autoras Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon celebram o amor entre adolescentes negros e nos dão esperança mesmo quando já não há mais luz.

A trama de Blackout acompanha diversos personagens passando por situações inusitadas durante um inesperado apagão em Nova York. Cada trama é escrita por uma autora e os personagens estão conectados de alguma forma (amigo de fulano, primo de beltrano, irmã de ciclano). Essa vibe de “você conhece alguém que eu conheço” pode confundir um pouco em função dos muitos nomes dos personagens, mas conforme você se liga em quem é quem se torna muito fácil enxergar as conexões e as histórias ficam ainda mais legais. Pra completar a naturalidade dessas relações, outro ponto muito bacana é a forma como os diálogos são escritos: os personagens usam expressões muito “vida real”, e não de jeito forçado. O uso de expressões como “dar rolê”, “fala, cara” e afins realmente trouxe uma pegada realista e fácil de se identificar. 😀

Outro aspecto super importante de Blackout é a representatividade: os personagens são todos negros e/ou latinos, e há também casais LGBTQIA+. É muito bom ler romances em que esses grupos protagonizam cenas fofas, alegres, otimistas e positivas. O preconceito e as dores causadas pelo racismo e pela homofobia são inegáveis, mas acho importante que esses grupos também possam se sentir representados em histórias nas quais a felicidade, o amor e as conquistas existam (algo que elogiei também em Acorda Pra Vida, Chloe Brown). Ainda assim, a obra traz toques sutis – mas certeiros – sobre como jovens negros são obrigados a se preocupar com os riscos do racismo: Kareem (do primeiro conto) não quis ficar no meio da multidão até escurecer, preferindo ir pra casa; JJ (do segundo conto) anda com um chaveiro com ferramentas e foi ensinado pelo pai a sair de qualquer transporte público em caso de emergência.

Além da ambientação (um blackout em Nova York) e das ligações entre os personagens, os contos têm mais uma coisa em comum: os personagens precisam se dirigir ao Brooklyn – ou pra voltar pra casa, ou pra participar de uma festa incrível de fechar quarteirão que vai rolar por lá. E enquanto a maior parte das histórias tem seu início e fim em si mesmas, existe uma delas (a mais longa) que é dividida em atos. Dá pra dizer que é um dos romances principais, e acompanha um casal de ex-namorados que se vê competindo pela mesma vaga de emprego e tendo que voltar a pé juntos pra casa (já que o transporte público não funciona). E já a ambientação está em pauta, vale dizer que Blackout nos faz querer viajar por Nova York. Os contos acompanham espaços icônicos da cidade, como a Biblioteca Pública de Nova York e o Apollo Theater.

Pra fechar, fiz um resuminho de cada conto pra vocês ficarem ainda mais curiosos com Blackout. 😉

  • A Longa Caminhada: é o conto dividido em atos que acompanha os ex-namorados voltando juntos pra casa e descobrindo que talvez a decisão de terminar não tenha sido tão boa assim.
  • Sem Máscara: meu conto favorito! ❤ Acompanha um jovem que está redescobrindo sua sexualidade. No metrô, ele encontra um antigo e secreto crush, com quem passou conversando durante uma noite em um baile de máscaras. Será que ele vai ter coragem de dizer a verdade?
  • Feitas Para se Encaixar: duas meninas se conhecem e se encantam uma pela outra em um lar para idosos – uma sendo voluntária, a outra sendo neta de um dos moradores (que, aliás, é um belo cupido!).
  • Todas as Grandes Histórias de Amor… e Pó: um conto muito fofo sobre uma garota que está reunindo coragem para contar ao seu melhor amigo de infância que está apaixonada por ele! Difícil não querer estar no mesmo lugar em que os dois: a Biblioteca Pública que mencionei antes. 
  • Sem Dormir até o Brooklyn: esse conto é bem interessante porque tem uma perspectiva diferente sobre amor e relacionamentos. Uma menina está vivendo um triângulo amoroso e precisa refletir sobre com quem deseja ficar – ou se essa é mesmo a melhor decisão.
  • Seymour & Grace: meu segundo conto favorito. 🥰 Aqui acompanhamos uma jovem que está magoada pelo término do namoro indo de Uber até a festa no Brooklyn. O que ela não imaginava era ter tanta afinidade com o motorista (que também narra trechos da história).

Em suma, Blackout é um livro muito gostoso de ler, cheio de histórias fofas e encantadoras e com uma representatividade necessária. Recomendo! 🙌

Título original: Blackout
Autoras:
Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon
Editora: Seguinte
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: As Sombras de Outubro – Søren Sveistrup

Oi pessoal, tudo bem?

A Priih louca dos romances policiais estava animadíssima pra escrever esse post. Recebi, via Time de Leitores da Companhia das Letras, o romance policial As Sombras de Outubro – que recentemente virou série na Netflix com o título de O Homem das Castanhas (sobre a qual falarei em breve aqui no blog). Fazia tempo que um romance policial não me empolgava tanto, então vem comigo conhecer!

Garanta o seu!

Sinopse: Em uma manhã tempestuosa em um tranquilo bairro de Copenhagen, a polícia faz uma descoberta sinistra: o corpo de uma mulher brutalmente assassinada, com uma das mãos faltando. Sobre ela está pendurado um pequeno boneco feito de castanhas. O caso é entregue à ambiciosa detetive Naia Thulin e a seu novo parceiro, Mark Hess, um investigador introspectivo que acabou de ser expulso da Europol. Logo se descobre uma evidência ligando o sr. Castanha a uma garota desaparecida há um ano: a filha da política Rosa Hartung. O homem que confessou tê-la sequestrado e assassinado está atrás das grades e o caso foi encerrado há tempos ― e qualquer insinuação contrária causa disputas e inimizades na corporação. No entanto, quando novas vítimas e novos bonecos aparecem, Thulin e Hess acham cada vez mais difícil ignorar a conexão entre o caso Hartung e o novo serial killer.

Um dos apelos comerciais de As Sombras de Outubro reside no fato de que seu autor, Søren Sveistrup, é o roteirista de uma série famosa, The Killing. E você nota que ele é um roteirista sem demora: os capítulos do livro são ágeis e curtinhos e as cenas têm fluidez, de modo que a história avança em um ritmo bastante intenso. Essa fórmula funciona bem demais comigo, porque me impulsiona a ler “só mais um capítulo” (e que leitor nunca pensou isso e, quando viu, leu mais uns 20, né?).

Na trama, uma sequência de assassinatos brutais passa a acontecer em Copenhague: as vítimas são mulheres na casa dos 30 anos que são encontradas visivelmente torturadas e com partes do corpo amputadas. O algoz é astuto e não deixa vestígios, com exceção de uma pequena assinatura: um bonequinho feito de castanhas. Na corrida para descobrir o culpado temos uma dupla de detetives: Naia Thulin, uma investigadora talentosa que almeja uma transferência para o núcleo de crimes cibernéticos da polícia e deseja conseguir um carta de recomendação; e Mark Hess, que é na verdade um agente da Europol afastado e só está em Copenhague enquanto espera a decisão do chefe sobre seu futuro. Não sabemos o motivo do afastamento, mas o leitor percebe que Hess não está interessado em seu trabalho atual por saber que é temporário, e isso gera uma tensão com Thulin, que fica bastante incomodada com o jeito indiferente e beirando o irresponsável do colega. Além dos assassinatos, temos uma terceira peça-chave no quebra-cabeça. Os bonecos de castanha contém uma impressão digital surpreendente: a de Kristine Hartung, filha da ministra do Bem-Estar Social, Rosa Hartung, que foi dada como desaparecida e morta um ano antes.

São esses elementos que Søren Sveistrup utiliza para construir uma trama cheia de conexões e pistas ocultas. A narrativa é em terceira pessoa e acompanha diferentes personagens, focando principalmente em Thulin, Hess, Rosa e, nas cenas de assassinato, nas vítimas. Como não temos o ponto de vista do assassino, o leitor fica no escuro sobre suas motivações durante a maior parte do tempo, podendo apenas conjecturar a respeito. Conforme Thulin e Hess avançam nas investigações, algumas hipóteses começam a ganhar força, mas ainda assim o autor consegue manter o suspense até a reta final. Eu suspeitei do personagem certo, mas não consegui deduzir seu background e seus planos, então adorei ser surpreendida pelo autor (acho até que comentei em outra resenha recente por aqui que estava sentindo falta disso nos romances policiais).

As Sombras de Outubro traz alguns elementos que parecem ser o primeiro passo para futuros livros, já que nesse eles não foram bem desenvolvidos. O passado de Hess e de Thulin, a relação da investigadora com o “avô de criação” de sua filha, os motivos pelos quais Hess foi afastado… todas essas pontas soltas ~cheiram a desenvolvimento posterior, sabem? É algo bem comum em séries policiais protagonizadas pelos mesmos investigadores e, apesar de eu não saber se Søren Sveistrup pretende continuar uma série com Hess e Thulin, foi essa a sensação que me causou. Mas, apesar de ambos serem muito competentes, eu não gostei tanto da dinâmica de parceria dos dois. Não senti que eles deram match em personalidade e modo de agir, então ficou difícil torcer por algum tipo de camaradagem ou até mesmo shipp.

Thulin é uma personagem que não me desceu. Ela é antipática e azeda, sendo difícil de gostar. Porém, feminista como sou, também não pude deixar de problematizar essa minha sensação. Afinal, Søren Sveistrup é um autor homem, e sabemos que mulheres são muito mais cobradas a serem afáveis, sorridentes e simpáticas (basta ver a diferença no tratamento que Brie Larson recebeu quando Capitã Marvel estava sendo promovido), então eu tentei me policiar pra não basear minha conclusão sobre Thulin somente nesse aspecto subjetivo. Dito tudo isso e excluindo a personalidade dela da jogada, me incomodou demais que ela tenha se comportado como se fosse superior a Hess – ainda que, na maior parte das vezes, ele tenha conclusões melhores que as dela e seja bem mais responsável pelos avanços da investigação na direção certa. E já que estou falando dele, Hess é um personagem meio misterioso, que de início você não curte tanto por estar com o “foda-se” ligado em uma investigação seríssima, mas com o avançar das páginas ele vai demonstrando não apenas seu potencial como investigador mas também seu comprometimento com a verdade.

Como aspectos negativos, eu preciso ressaltar a burrice de alguns personagens, incluindo o próprio Hess em determinados momentos. Sabem aqueles clichês de filmes de terror em que o espectador quase implora pro personagem não entrar sozinho numa casa abandonada no meio do nada? Fazendo o mesmo paralelo para um romance policial, eu fiquei implorando pra que fulano ou beltrano não entrassem em locais estranhos sozinhos, não saíssem de determinados espaços seguros sem reforços e não tomassem atitudes precipitadas por conta própria. Tudo isso obviamente aconteceu, e em todas as cenas fiquei enervada rs. Além disso, tem um ou outro plot que Søren Sveistrup inicia mas não desenvolve (como a relação de Rosa com seu assessor), o que acaba soando ou preguiçoso ou desatento por parte do autor.

As Sombras de Outubro é um romance policial raiz, daqueles que fazem você devorar as páginas e roer as unhas. Há cenas de ação, planos sendo colocados em prática, uma investigação cheia de perigos e um suspense que permeia o livro do início ao fim: Kristine Hartung está viva? Ao mesmo tempo em que o leitor fica aflito pelo perigo que as futuras vítimas correm, existe também a curiosidade acesa pra saber qual a conexão de tais assassinatos brutais com a família da ministra. E Søren Sveistrup faz um trabalho muito bom em conectar todos esses elementos de forma que a história se mantenha hipnotizante (mesmo com alguns defeitinhos e cenas mais amadoras dos policiais hahaha!). Recomendo muito pra quem curte o gênero! E fiquem ligados que em breve volto pra falar da série. 🙌

Título original: Kastanjemanden
Autor:
Søren Sveistrup
Editora: Suma
Número de páginas: 416
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Meu Corpo Virou Poesia – Bruna Vieira

Oi pessoal, tudo bem?

Fazia muito tempo que eu não lia um livro de poemas, então aproveitei a oportunidade de ler Meu Corpo Virou Poesia, disponibilizado pela editora Seguinte ao Time de Leitores. Foi minha primeira experiência lendo a Bruna Vieira e hoje compartilho com vocês como foi. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Em 2017, Bruna Vieira fez as malas, deixou a vida no Brasil de lado e foi escrever uma nova história em outro país, vestida de coragem e guiada por um sentimento que sempre foi sua maior prioridade: o amor. Com o tempo, porém, os dias foram ficando cada vez mais longos e solitários. Era como se naquele lugar o amor tivesse perdido o equilíbrio e se tornado uma obrigação. Foi bem perto do fim e de jeito mais frio que ela finalmente se deu conta: é impossível ser “nós” sozinha. Formado por quatro partes – cabeça, garganta, pulmão e ventre –, este livro é um mapa. Um mapa que leva Bruna de volta à escrita e a si mesma. São relatos reais, repletos de lembranças, aprendizados e cicatrizes, que agora deixam o corpo da autora para encontrar o seu, em forma de poesia. Ao tocar em temas como autoestima, amizade feminina e relacionamentos (com o outro e sobretudo consigo mesma), Bruna olha para dentro e nos convida a percorrer nestes versos nossa própria viagem de autodescoberta.

Eu sigo a Bruna no Instagram há algum tempo e acompanhei a época em que ela se mudou pra Califórnia com o então namorado. Eles chegaram a noivar, mas o relacionamento acabou, ela voltou para o Brasil e lançou um vídeo-poesia contando um pouco sobre as dores que não havia revelado sobre a relação. Esse parece ter sido o primeiro passo do processo de cura da autora, que transformou os últimos anos em poemas que falam com mais profundidade (e exposição) tudo que ela viveu e como tem sido se reencontrar.

O livro é dividido em quatro momentos: cabeça, garganta, pulmão e ventre. A primeira parte é mais sombria e explora a sensação de invisibilidade e inadequação que Bruna experimentou durante o relacionamento e seu período na Califórnia. Fica claro que, em seu coração, ela sente que se doou muito mais do que o parceiro para uma relação que, em grande parte, só existiu verdadeiramente na sua cabeça. Por isso, a solidão também é um tema recorrente nesses primeiros poemas. Bruna também revela o quanto de si ela “perdeu” ao tentar se encaixar em uma vida e em um namoro que não fazia mais sentido, se moldando a expectativas alheias e se encolhendo cada vez mais em si mesma.

resenha meu corpo virou poesia bruna vieira

Conforme avançamos nas páginas, o tom dos poemas vai mudando e ganhando um teor de cura e amor próprio. Ao deixar pra trás o relacionamento e a cidade que não lhe faziam bem, a autora entra num processo de redescobrir a si mesma e curar suas cicatrizes emocionais. Aqui encontramos poemas que falam sobre respeitar e honrar suas diferentes versões, abraçar suas imperfeições e valorizar a mulher que você é. Até o final do livro, o leitor se depara com o processo de libertação e cura de Bruna, que a coloca no momento em que se sente mais confortável consigo mesma: o presente.

Falando sobre o livro no geral, curti boa parte dos poemas e achei vários trechos bem bonitos. Porém, como ponto negativo, ressalto aqui o uso exaustivo do recurso de falar em “todas as suas versões”, é como se Bruna ficasse batendo na mesma tecla porque gosta muito de como a frase soa. Inclusive, senti que esse tipo de frase de efeito traz um teor meio “bobinho” e adolescente pro livro.

Com um ritmo gostoso e vários poemas legais, Meu Corpo Virou Poesia foi uma experiência bem bacana. Apesar de segui-la no Instagram, não me considero uma superfã da Bruna Vieira, então fui com expectativas bem neutras e acabei me surpreendendo positivamente. Se você busca um livro de poesias com várias reflexões sobre buscar o melhor de nós mesmos, vale incluir o título na lista. 😉

Título original: Meu Corpo Virou Poesia
Autora:
Bruna Vieira
Editora: Seguinte
Número de páginas: 184
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sul da Fronteira, Oeste do Sol – Haruki Murakami

Oi pessoal, tudo bem?

Após uma ótima experiência com Sono, parti para minha segunda leitura de Haruki Murakami: Sul da Fronteira, Oeste do Sol. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Nascido em 1951 em um subúrbio de Tóquio, Hajime chegou à meia-idade tendo conquistado tudo que queria. Os anos do pós-guerra trouxeram-lhe um bom casamento, duas filhas e uma carreira invejável como proprietário de dois clubes de jazz. No entanto, ele não consegue se desvencilhar da sensação incômoda de que nada daquilo traz felicidade para sua vida. Somada a isso, uma memória de infância de uma garota inteligente e solitária cresce em seu coração. Quando essa colega do passado, Shimamoto, aparece em uma noite chuvosa, Hajime não consegue mais permanecer no cotidiano com o qual se acostumou. Shimamoto tem uma beleza de tirar o fôlego, mas guarda um segredo do qual não consegue escapar. Em Sul da fronteira, oeste do sol, Murakami constrói uma narrativa de lirismo requintado sobre a simplicidade da vida de um homem, permeada por sucessos e decepções.

O livro é narrado por um homem na faixa dos 30 anos, Hajime. Nascido nos anos 50, em uma época na qual era comum que famílias japonesas tivessem mais de um filho, o fato dele ser filho único foi uma característica marcante de sua formação. O receio de ser lido como introspectivo e egoísta o preocupava já na infância, mas ele encontrou compreensão e acolhimento na amizade mais significativa que fez: com uma menina chamada Shimamoto. A jovem também era filha única e esse fato parece ter sido a primeira fagulha de conexão entre os dois. Somado a isso, Shimamoto tinha um problema na perna que atrasava sua locomoção, tornando-a uma garota bastante sozinha. Os melhores amigos são separados quando a família de Hajime se muda, e o leitor passa diversos capítulos sem ouvir falar de Shimamoto enquanto o protagonista conta sobre os anos seguintes, do ensino médio até a entrada na faculdade e a chegada aos 30 anos. É nessa circunstância que Shimamoto reaparece em sua vida, bagunçando o status quo e a estabilidade que Hajime finalmente parecia ter alcançado em sua vida adulta.

A vida de Hajime não tem nenhum elemento particularmente fantástico, mas a forma como Murakami conduz a narrativa torna o ordinário interessante. A fluidez das palavras e das lembranças do protagonista faz com que seja muito fácil passar as páginas, ainda que Hajime não seja um personagem do qual eu tenha gostado muito. Mas talvez justamente por expor todas as suas falhas é que o narrador se torne tão palpável e humano aos olhos do leitor. Ainda assim, é importante frisar que, apesar de ser natural cometermos erros, as escolhas de Hajime que mais me incomodaram tiveram relação com sua infidelidade às mulheres com quem se relacionou. 

O final da adolescência de Hajime foi marcado por uma traição imperdoável à sua primeira namorada e, como uma espécie de sina, ele passou os “20 e poucos anos” em uma solidão e apatia infindáveis. Somente quando conhece sua atual esposa, Yukiko, é que Hajime encontra motivação e propósito: além de se apaixonar por ela, ele também conta com o incentivo do sogro para abrir um bar de jazz. Hajime prova-se muito competente administrando o local, a ponto de expandir os negócios e se tornar um empresário bem-sucedido. É nessa fase da vida, em que Hajime tem uma esposa, duas filhas e dois bares para administrar, que Shimamoto entra em contato. Sua aparição é rodeada de mistérios, e ela pede um favor pessoal que não teve coragem de pedir a mais ninguém – que Hajime obviamente não consegue negar.

resenha sul da fronteira oeste do sol

O dilema do protagonista sobre o estigma do egoísmo de filho único pode ser visto na forma como ele se relaciona com todas as mulheres de sua vida, excetuando Shimamoto. Em nenhum momento o leitor tem vislumbres mais profundos sobre Yukiko, por exemplo, e o único momento em que sua esposa ganha voz é também o momento em que Hajime precisa enfrentar suas próprias fraquezas, sendo a minha passagem favorita do livro. Mas existem páginas e mais páginas dedicadas à obsessão de Hajime pela amiga/paixão de infância. Um dos motivos pelos quais o protagonista relata ter dificuldade em se vincular a mulheres que conheceu diz respeito a não ver nelas algo “especial”, algo que seja “feito só para ele”.  E aqui se apresenta mais uma das características nada palatáveis do narrador: a forma como ele projeta nas mulheres aquilo que ele busca, desumanizando-as e fazendo com que elas precisam atingir esse objetivo que ele tanto busca (e que aparentemente apenas Shimamoto está à altura). 

E mesmo sobre essa mulher tão importante em sua vida nos é revelado pouco. Ela é um mistério por si só, e é a protagonista dos devaneios de Hajime. Ele passa os dias imaginando quando Shimamoto virá ao bar novamente e se põe a divagar sobre como seria sua vida se tivesse tomado decisões diferentes que o aproximassem dela. Por meio de seus questionamentos, Murakami leva o leitor a refletir sobre os próprios “e se?” que a vida apresenta. E se eu tivesse mantido contato com uma pessoa importante? E se eu tivesse feito escolhas diferentes? Nenhum de nós, e nem mesmo Hajime, tem essa resposta, porque simplesmente não podemos mudar aquilo que já foi percorrido.

Ainda que Sono tenha sido uma leitura da qual gostei mais, Sul da Fronteira, Oeste do Sol foi mais uma experiência positiva lendo Haruki Murakami. O autor é muito bom em nos conduzir por reflexões existenciais e nos fazer questionar nossas decisões e trajetórias de um jeito bastante relacionável. Ainda que Hajime seja um personagem cheio de falhas, ele é também muito real e humano, o que torna possível a identificação. Se você busca por um livro que não se revela de imediato, mas que aos poucos vai desnudando as questões interiores dos personagens, essa é uma boa escolha. Recomendo. 😉

Título original: Kokkyō no minami, taiyō no nishi (国境の南、太陽の西)
Autor:
Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 177
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Pequena Coreografia do Adeus – Aline Bei

Oi pessoal, tudo bem?

O Peso do Pássaro Morto, livro de estreia de Aline Bei, se tornou uma das minhas leituras favoritas do ano passado. Então é claro que agarrei a chance de ler sua segunda obra, Pequena Coreografia do Adeus, e hoje compartilho minhas impressões com vocês.

Garanta o seu!

Sinopse: Júlia é filha de pais separados: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto seu pai não suporta a ideia de ter sido casado. Sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e falta de afeto, a jovem escritora tenta reconhecer sua individualidade e dar sentido à sua história, tentando se desvencilhar dos traumas familiares. Entre lembranças da infância e da adolescência, e sonhos para o futuro, Júlia encontra personagens essenciais para enfrentar a solidão ao mesmo tempo que ensaia sua própria coreografia, numa sequência de movimentos de aproximação e afastamento de seus pais que lhe traz marcas indeléveis. Escrito com a prosa original que fez de Aline Bei uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea, Pequena coreografia do adeus é um romance emocionante que mostra como nossas relações moldam quem somos.

Mais uma vez Aline nos apresenta a uma protagonista feminina cujas emoções, reflexões e cicatrizes nos guiam por sua história. Aqui acompanhamos Júlia, que cresceu em um lar desestruturado e hostil, presenciando as brigas constantes de seus pais. Quando eles enfim resolvem se separar, a jovem se vê numa situação de solidão ainda maior do que a anterior: sua mãe vive em amargura pela separação e destrata a filha, inclusive com agressões físicas e verbais; seu pai encontrou tanto alívio fora do casamento que não faz questão de ser mais presente na vida de Júlia. Em meio a essa sensação de não-pertencimento, vemos os anos passarem e Júlia tentando encontrar seu lugar no mundo – e o modo como ela percorre esse caminho é por meio da escrita.

Assim como ocorre em O Peso do Pássaro Morto, Pequena Coreografia do Adeus tem uma prosa lírica e cheia de sensibilidade. A obra causa uma sensação de impotência porque percebemos quão disfuncional é a relação da família de Júlia e o quanto isso molda a sua estrutura psicológica e emocional. A jovem sente emoções conflitantes, porque ao mesmo tempo que deseja estar perto dos pais e ser aceita por eles, ela obviamente se ressente dos anos de brigas, abandono e abusos emocionais. Júlia tem medo de deixar a mãe para trás, mas seus ombros chegam a descer de alívio quando ela não está presente; ela sente saudades da companhia do pai, mas sente mágoa por saber que ele prefere seguir a vida sozinho, com suas diversas namoradas.

Quando levamos em consideração que acompanhamos os pensamentos de Júlia ainda criança e, posteriormente, quando adulta, percebemos quão profundas podem ser as marcas da infância. Esses primeiros anos muitas vezes são cruciais em moldar a nossa base e, por mais que a gente seja plenamente capaz de traçar nossos próprios caminhos, é impossível simplesmente ignorar algumas dores. Por meio da escrita, que desde pequena fez parte da vida de Júlia, a protagonista encontra um refúgio no qual ela consegue buscar não apenas sua própria identidade, mas também sua cura.

Apesar da ótima escrita de Aline Bei e da sensibilidade da história, confesso pra vocês que Pequena Coreografia do Adeus não causou um impacto tão forte em mim quanto O Peso do Pássaro Morto, por isso sigo tendo o livro de estreia da autora como meu favorito dela até o momento. Entretanto, ainda que não tenha entrado pro hall das melhores leituras, é um livro que sem dúvidas recomendo. O estilo narrativo da autora é criativo e delicado e, por si só, merece ser conferido. Mas, para além disso, a autora aborda temas muito relevantes e que não são facilmente encontrados por aí, como a toxicidade familiar e as dores e cicatrizes causadas por aqueles que deveriam ser os primeiros a nos amar e nos proteger. Vale (muito) a leitura!

Título original: Pequena Coreografia do Adeus
Autora:
Aline Bei
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 282
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Notas Sobre o Luto – Chimamanda Ngozi Adichie

Oi pessoal, tudo bem?

Eu gosto bastante de revezar minhas leituras “confortáveis” (como fantasia, romance, young adult, etc.) com livros que fujam um pouco de tais temas. Uma dessas exceções foi a obra mais recente da brilhante Chimamanda Ngozi Adichie, que dialoga com a experiência humana em si: Notas Sobre o Luto.

Garanta o seu!

Sinopse: Escrito após a morte do pai de Chimamanda Ngozi Adichie em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19 que mantinha distante a família Adichie, Notas sobre o luto é um poderoso relato sobre a imensurável dor da perda e as lembranças e resiliência trazidas por ela. Consciente de ser uma entre milhões de pessoas sofrendo naquele momento, a autora se debruça não só sobre as dimensões familiares e culturais do luto, mas também sobre a solidão e a raiva inerentes a ele. Com uma linguagem precisa e detalhes devastadores em cada capítulo, Chimamanda junta a própria experiência com a morte de seu pai às lembranças da vida de um homem forte e honrado, sobrevivente da Guerra de Biafra, professor de longa carreira, marido leal e pai exemplar. Em poucas páginas, Notas sobre o luto é um livro imprescindível, que nos conecta com o mundo atual e investiga uma das experiências mais universais do ser humano.

Em 2020, Chimamanda viveu a terrível experiência de perder seu pai subitamente em pleno período de isolamento social. O falecimento não teve relação com o Covid-19, mas esse contexto foi crucial no processo de luto da autora, já que sua família foi privada de qualquer tipo de ritual de despedida, e ela própria não pôde estar com seus entes queridos. Ao longo dos capítulos, Chimamanda discorre sobre como foram os primeiros dias e meses depois dessa experiência ao mesmo tempo que rememora fatos importantes sobre o que viveu com seu pai.

Notas Sobre o Luto é um livro que fala, obviamente, sobre o luto. Mas não é só sobre isso: é também sobre a sensação de impotência. A impotência de não ser capaz de impedir a partida, a impotência de não saber lidar com o vazio no peito, a impotência de não poder voltar no tempo. Só quem já viveu essa experiência sabe o quanto um evento assim pode ser transformador, especialmente quando existe uma relação tão próxima e amorosa quanto a que Chimamanda nitidamente tinha com seu pai. A situação por si só já é desoladora, e ter que enfrentar isso “parcialmente sozinha” (nesse caso, me refiro a não poder estar junto da mãe e dos irmãos), faz com que ler sobre o luto de Chimamanda seja profundamente tocante.

Tem uma frase que mexeu muito comigo ao longo da leitura: “nós não sabemos como será o nosso luto até o nosso luto acontecer”. As pessoas podem ficar deprimidas, podem tentar fingir que estão bem, podem ficar agressivas e reativas, podem tentar manter o sorriso no rosto pelo bem dos familiares… há uma infinidade de reações possíveis. Por isso é tão importante respeitar o próprio processo e também o do próximo quando algo assim acontece em uma família. Eu vivi a experiência de Chimamanda muito jovem, e muitas coisas a respeito disso eu só estou conseguindo entender agora, 15 anos depois. O luto é uma vivência triste, complexa, dolorosa, confusa, revoltante e angustiante – e ninguém precisa passar por julgamentos a respeito de como a enfrenta.

Ler o relato de Chimamanda sobre o seu processo de dor e cura também nos faz pensar que um dos aspectos mais difíceis do luto é pensar que aquela pessoa nunca vai presenciar novos momentos importantes da sua vida. Nesse momento foi difícil não deixar as emoções transbordarem, porque enfrentar esse fato imutável é muito difícil. Chimamanda relembra cenas com os pais em sua casa, nos Estados Unidos, lembra de passeios que eles deram, de conversas que tiveram – sabendo que nada disso poderá ser reproduzido novamente, e que suas filhas também não terão a chance de criar mais memórias com o avô. 

Talvez esse post tenha sido muito mais uma reflexão do que uma resenha literária, mas achei difícil desvincular a leitura das minhas próprias vivências. O que posso afirmar é que Notas Sobre o Luto é um livro curto, mas emocionante e sensível, sobre uma das emoções mais complexas que todos nós vamos viver um dia. Acho que não há nada sobre o qual Chimamanda Ngozi Adichie não consiga escrever, e foi muito bonito poder me sentir próxima da autora mesmo num momento tão delicado. Leitura mais do que recomendada, é claro!

Título original: Notes on Grief
Autora:
Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 144
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Arlindo – Ilustralu

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de já ter visto anteriormente o trabalho da Luiza Souza (mais conhecida como @ilustralu) no Twitter, não fazia ideia do tema da sua webcomic, Arlindo. Porém, já sabia que a história tinha muitos fãs – inclusive rolou um projeto de financiamento coletivo para o livro. Quando a Editora Seguinte me oportunizou a chance de ler, é óbvio que não pensei duas vezes e mergulhei na história desse menino doce, fã de Sandy & Junior e que fala os “ah meu Deus” mais fofos do mundo! ❤

Garanta o seu!

Sinopse: Arlindo é um garoto cheio de sonhos e vontade de encontrar seu lugar no mundo. Tudo o que ele quer é seguir sua vida de adolescente na cidadezinha onde mora, no interior do Rio Grande do Norte. Ele aluga filmes na locadora com as amigas todo sábado, sente o coração bater mais forte pelas primeiras paqueras, canta muito Sandy & Júnior no chuveiro, e ainda cuida da irmã mais nova e ajuda a mãe a fazer doces para vender. Por mais que ele se esforce e dê o seu melhor, muita gente na cidade não aceita Arlindo ― o que traz uma série de problemas na escola e até mesmo dentro de casa. Aos poucos, porém, ele vai perceber que vale a pena lutar para ser quem ele é, ainda mais quando tem tanta gente com quem contar. Com um traço divertido, cores vibrantes e um monte de referências aos anos 2000, esta história em quadrinhos que já conquistou milhares de fãs na internet fala sobre encontrar forças nas pessoas que a gente ama e dentro de nós mesmos.

Arlindo – ou Lindo, como as pessoas mais próximas o chamam – é um adolescente leal aos amigos, gentil com as pessoas e muito cúmplice da mãe, que trabalha fazendo doces. Porém, existe uma face da sua intimidade que o aflige e que ele não consegue revelar: Lindo é um rapaz gay. Vivendo no Rio Grande do Norte e tendo um pai extremamente machista (o próprio estereótipo de “cabra macho”), é comum para o protagonista ouvir comentários negativos sobre outras pessoas que já assumiram sua sexualidade, o que causa um sofrimento constante em seu coração. Ao longo das páginas, o leitor acompanha as aflições de Arlindo e sua transformação enquanto busca se encontrar – no mundo e em si mesmo.

Arlindo é uma HQ que provoca uma identificação imediata em quem cresceu nos anos 2000. Não faltam referências à época, da trilha sonora a hábitos como ir até uma locadora e escolher um filme, por exemplo. Quando Lindo e sua tia cantam Sandy & Junior, o leitor canta junto. Quando Lis, uma das amigas mais próximas do protagonista, coloca “Na Sua Estante” para tocar, a voz da Pitty vem automaticamente à mente. Arlindo nos leva para uma época em que conversar com o crush no MSN depois da meia-noite era uma prática comum, que passávamos menos tempo nas redes sociais e mais tempo de pernas pro ar com os amigos e, é claro, nos faz lembrar de como é ser um adolescente que ainda não sabe muita coisa sobre si mesmo e sobre o mundo.

resenha arlindo ilustralu

Apesar das cores felizes e do traço fofo, existem cenas em Arlindo que são capazes de transmitir com intensidade a dor causada pela homofobia. O que conheço do lado mais machista da cultura nordestina (pelo meu falecido pai, que era de lá) me faz enxergar muitas semelhanças com esse lado da cultura gaúcha (de onde sou) no que diz respeito à masculinidade tóxica. O pai de Arlindo, cujo nome ele passou ao filho (que é Junior), destila seu preconceito sem pensar duas vezes. Quando um amigo gay de Lindo é agredido, seu pai acha que o que aconteceu “foi pouco”. Ele intimida o filho até mesmo quando o menino está ajudando a mãe na cozinha pra que ela não fique sobrecarregada. Esses são exemplos de situações muito reais que inúmeros jovens LGBTQIA+ sofrem diariamente pelo simples fato de serem quem são. Em Arlindo a homofobia é exposta desde suas camadas mais “superficiais” até medidas mais extremas.

Mas, apesar de ter algumas cenas tristes como essas, Arlindo é uma HQ alto astral e que enche o nosso coração de amor. O leitor acompanha de perto Lindo ter seu primeiro crush correspondido e torce pra que tudo dê certo entre eles. O jovem, que nunca tinha revelado esse lado de si, encontra um espaço seguro para trazer seu verdadeiro eu à tona, e isso é muito bonito de ver – além de ser inspirador pra quem possa estar na mesma situação. E a representatividade não termina no protagonista, pois a HQ também tem espaço para outros personagens terem suas questões trabalhadas. Com isso, a história vai avançando para um lugar no qual os personagens conseguem encontrar colo e segurança uns nos outros, substituindo o medo e a solidão por uma sensação de pertencimento.

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Arlindo é uma história em quadrinhos linda e acolhedora que fala sobre a coragem de sermos nós mesmos e a busca pelo nosso lugar no mundo. A HQ traz uma mensagem poderosa sobre não ser errado ser quem somos, porque (como diz Amanda, tia de Lindo) “tudo que a gente tem é a gente”. Histórias assim deveriam ser lidas por todos, pra que a empatia prospere e pra que todos tenham o direito de viver a vida plena que merecem. 🌈

Título original: Arlindo
Autora:
Ilustralu
Editora: Seguinte
Número de páginas: 200
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Maus – Art Spiegelman

Oi pessoal, tudo bem?

Recentemente eu comprei Maus para dar de presente a um amigo e senti vontade de fazer uma releitura, especialmente porque fazia anos (mais precisamente em 2015) que eu tinha entrado em contato com a graphic novel. Sou da opinião de que, muitas vezes, uma segunda leitura transforma o modo como determinadas obras nos fazem sentir, e posso dizer com tranquilidade que o teor da graphic novel de Art Spiegelman seguiu emocionante pra mim ao narrar a história de seu pai, um sobrevivente de Auschwitz.

Garanta o seu!

Sinopse: Maus (“rato”, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura. Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto. Spiegelman, porém, evita o sentimentalismo e interrompe algumas vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas e inquietações. É implacável com o protagonista, seu próprio pai, retratado como valoroso e destemido, mas também como sovina, racista e mesquinho. De vários pontos de vista, uma obra sem equivalente no universo dos quadrinhos e um relato histórico de valor inestimável.

Em Maus, vemos duas histórias sendo delineadas: uma delas é a que Vladek Spiegelman, pai de Art, conta ao filho, na qual ele narra fatos importantes de sua vida antes e durante a Segunda Guerra Mundial; a segunda é a convivência dos dois enquanto Art entrevista o pai para a posterior criação dos quadrinhos. E ambas são capazes de provocar emoções, ainda que por motivos diferentes.

Vladek Spiegelman foi um homem polonês e judeu que era bem-sucedido no ramo dos tecidos. Quando ele conhece Anja Spiegelman, os dois não demoram a se apaixonar e se casar. A felicidade parece ficar completa quando o casal engravida e dá à luz o primogênito Richieu, mas a graphic novel vai ganhando contornos sombrios ao nos apresentar a uma depressão pós-parto que acomete Anja e à propagação da ideologia nazista, que aos poucos se aproxima dos Spiegelman.

Por meio do relato de Vladek, o leitor consegue sentir a surpresa dos judeus na Polônia ao observarem os primeiros signos nazistas sendo exibidos no país, assim como os primeiros assaltos de violência que passam a sofrer. Aos poucos eles são expulsos de suas casas para guetos, são destituídos de seus próprios negócios e começam a conviver com a pobreza e a fome. Ao longo das páginas, a sagacidade de Vladek é essencial para que ele e a esposa encontrem bons esconderijos e consigam se proteger dos nazistas, mas inevitavelmente ambos acabam indo para Auschwitz. A história de terror da Segunda Guerra Mundial é amplamente conhecida, então a partir daqui não vou me alongar mais nas situações vividas por Vladek nesse sentido, focando mais nas sensações subjetivas que a leitura me causou.

Um dos aspectos de que mais gostei em Maus é que os personagens principais – especialmente Vladek e Art – têm suas nuances exploradas, ainda que de formas sutis em diálogos e situações corriqueiras. Nos relatos do passado, o leitor se depara com um Vladek perspicaz, determinado, muito resiliente e capaz de tudo para proteger Anja. No presente, vemos Art exasperado ao lidar com um pai idoso, cheio de manias, teimoso e muquirana (sendo que essa última característica chega a ser até mesmo “temida” por Art, por receio de retratar um estereótipo judeu). Essa ruptura da representação de Vladek é muito eficiente em humanizar o personagem e conferir camadas à sua construção de forma a não romantizá-lo apesar de tudo que ele sofreu (uma cena ótima para colocar isso em evidência é aquela em que Vladek demonstra preconceito contra um rapaz negro; seria de se esperar que alguém que foi perseguido pelo mesmo motivo evitasse reproduzir esse erro). Tal abordagem não se aplica somente ao pai, mas também ao filho: não faltam cenas em que Art perde a paciência com Vladek, além de deixar claro em mais de uma ocasião que não tem interesse em passar muito tempo além das entrevistas em sua companhia.

E já que falei em humanização, vale comentar um aspecto que obviamente chama a atenção em Maus: o antropomorfismo. Art Spiegelman usa desse recurso para categorizar alguns personagens: os alemães são gatos, os poloneses são porcos, os estadunidenses são cachorros e, é claro, os judeus são ratos. Por meio dessas analogias, o ilustrador evidencia as relações de poder e expõe a forma como os judeus eram vistos e tratados: uma praga a ser eliminada. O teor das ilustrações também envia uma mensagem: são traços grossos, pesados, com bastante informação – que ficam ainda mais intensos ao retratar cenas cruéis, como judeus enforcados ou pessoas esmagadas em vagões de trem e abandonadas para morrer mais ao final da guerra.

Um fato que me passou pela cabeça ao longo da leitura foi o quanto o elemento sorte esteve envolvido na sobrevivência das vítimas do nazismo. Sem tirar os méritos de Vladek, que era um homem inteligente, astuto e com boas tomadas de decisão, porém outros tantos tiveram comportamentos parecidos, fizeram esforços parecidos, mas infelizmente não atingiram o mesmo resultado. Esse tipo de impotência traz um peso na boca do estômago, especialmente quando a gente se depara com uma trama assim ao viver um momento em que tantas vidas estão sendo perdidas de forma desnecessária e injusta (ainda que por motivos totalmente diferentes, que não cabem a comparação).

Maus é uma graphic novel que vai além de contar a história de um sobrevivente do Holocausto. A trama nos conduz por um processo de rememoração familiar cheio de feridas e de assuntos mal resolvidos que, com o passar das páginas, parece se dirigir para certo nível de cura. E, apesar do tema em si ser pesado e as emoções dos personagens também, há um trecho de que gosto muito e que me traz uma dose de esperança (muito bem-vinda no momento atual): “e eu vi que inferno não é em toda parte. Ainda tinha vida no mundo”. 🙂

Título original: Maus
Autor:
Art Spiegelman
Editora: Quadrinhos na Cia
Número de páginas: 296
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Resenha: Sem Ar – Jennifer Niven

Oi galera, tudo bem?

Quando li Por Lugares Incríveis, da Jennifer Niven, me apaixonei e me emocionei. Por isso, fiquei animadíssima pra ler Sem Ar, seu mais recente livro publicado no Brasil. E agora conto pra vocês o que achei dessa experiência. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Passar o verão numa ilha remota não era o plano de Claudine Henry. Ela deveria estar viajando de carro com sua melhor amiga, aproveitando cada minuto antes de ir para a faculdade. Mas depois que seus pais anunciam o divórcio, o mundo dela vira de cabeça para baixo — e Claude vai parar nesse destino improvável, acompanhando a mãe que tenta se reconstruir depois da separação. Ali, a garota não tem internet, sinal de celular ou amigos. Até que conhece Jeremiah. Com o espírito livre e um passado misterioso, a química entre os dois é imediata e irresistível. Enquanto vivem aventuras pelas praias, dunas e florestas, Claude e Miah tentam não se apaixonar — afinal, esse relacionamento tem os dias contados. Mas talvez viver esse romance seja exatamente do que Claude precisa para começar a escrever sua própria história.

Claude é uma jovem padrão com uma vida ótima: tem pais amorosos, uma melhor amiga (Saz) cujo carinho e lealdade são inquestionáveis e é bem resolvida com sua autoestima e com sua sexualidade. Ela está prestes a se formar no Ensino Médio e, a poucos dias da formatura, Claude recebe a notícia de que seus pais não apenas estão se divorciando como também pedem segredo a ela até que resolvam como conduzir a situação. Claude então viaja com a mãe para uma ilha remota na qual seus antepassados viveram, para que sua mãe possa fazer pesquisas para seu próximo livro enquanto tenta juntar os pedaços do próprio coração. Chegando na ilha, Claude faz amizade com alguns jovens que trabalham lá no verão e rapidamente se apaixona por Jeremiah (ou, simplesmente, Miah) – um garoto de sorriso fácil que a conduz por diversas primeiras experiências.

Apesar do título, eu diria que “Sem Chão” seria uma metáfora bem melhor para nomear este livro, de tantas vezes que a protagonista usa esse termo ao longo da obra. Toda a confiança na família cai por terra quando ela descobre aquele segredo que os pais ocultaram dela e, principalmente, quando o pedido mais egoísta é feito: de que ela não fale com ninguém a respeito. De um minuto pro outro os planos de Claude viram de cabeça para baixo e a jovem se vê sem nenhum ombro amigo para onde correr, já que ela também está com rancor da mãe por ter guardado segredo. É possível entender porque Claude hesita em confiar e em se abrir, já que as pessoas que ela mais ama a deixaram confusa e, de certa forma, sozinha. É nesse contexto que ela encontra conforto em Miah.

O jovem trabalha na ilha como parte de um programa reformatório para jovens infratores. Ele próprio fez parte desse programa, entrando para o sistema muito jovem. Entretanto, graças ao acolhimento que ele recebeu, foi capaz de dar a volta por cima e se tornar um exemplo para os jovens que vão para a ilha. Ele é a pessoa que acolhe Claude de braços abertos, porque entende bem o que a desestrutura familiar causa: responsável pela mãe e pelas irmãs e com um pai que foi embora, Miah se sente em uma encruzilhada em que um dos caminhos o leva para onde realmente deseja, perseguindo seus sonhos, enquanto o outro o mantém “preso” à família para o caso de sua mãe precisar dele. E com a atração óbvia que sentem um pelo outro, logo Claude e Miah começam a ficar e, mais do que isso, a se abrir um com o outro e expor suas fragilidades sabendo que a outra pessoa estará ali para ouvir.

O plot de Sem Ar não é inovador, me lembrando uma mescla de A Última Música (especialmente pelo rancor de Claude pelo pai e da missão de salvar as tartarugas) com Um Amor Para Recordar (com aquela promessa de “não podemos nos apaixonar”). E eu não me importo com clichês, desde que eles funcionem bem e os personagens cativem. Infelizmente, não foi o caso aqui. Consigo entender os sentimentos de Claude e as dificuldades que ela tem de lidar com tudo que está acontecendo ao seu redor, mas a personagem em si não é carismática o bastante para que o leitor se afeiçoe de verdade e queira protegê-la de sua dor. Miah cumpre melhor esse papel, ainda que reforce o estereótipo do garoto bonitão cheio de gingado que transforma a vida da garota levando-a para várias situações inusitadas e encantadoras (parece que a Jennifer Niven bebeu da própria fórmula de Por Lugares Incríveis, né?).

O romance é fofo e a forma como a sexualidade e a primeira vez são trabalhadas na obra também são bacanas, dando um exemplo positivo de como garotas devem ser donas do próprio corpo e das próprias experiências, além de se conhecerem sem tabus. Mas, apesar disso, não consegui me conectar verdadeiramente com a trama, e achei-a demasiado longa. Sem Ar não precisava de tantas páginas para contar a sua história, que é bastante mediana e clichê, ainda que conte com cenas bonitinhas entre o casal. Um outro ponto importante que influenciou minhas expectativas foi saber que esse é um livro muito pessoal para a autora, então esperei a mesma emoção que encontrei em Por Lugares Incríveis, mas sugiro que vocês não façam o mesmo, para evitar frustrações.

O final do livro merece elogios! Ao longo das páginas, vemos o vínculo entre Claude e Miah crescer, ainda que ambos saibam que aquela relação está com os dias contados, já que cada um deles precisa voltar para sua rotina após o verão. Ainda assim, é nítido que eles se apaixonam e estão sofrendo com a separação. Por isso, as cenas finais deixam o leitor aflito e sem saber o que esperar – da mesma forma que Claude se sente. Essas páginas finais foram aquelas que conseguiram me emocionar e, finalmente, sentir a dor dos personagens. E, ao mesmo tempo em que mexe com o nosso coração, Jennifer Niven também traz uma dose extra de coragem a Claude, que ao longo de toda a trama buscou a sua própria forma de protagonismo, o seu lugar no mundo.

Sem Ar não é um livro ruim, mas não se diferencia dos muitos outros romances que existem por aí. Não recomendaria como um título pra quem quer entrar em contato com a escrita de Jennifer Niven pela primeira vez, porque sei que ela é capaz de emocionar e envolver muito mais. Mas se você busca um romance coming of age bem focado em primeiras vezes e encantamento com o outro e com o mundo, é bem provável que você possa gostar. 😀

P.S.: preciso desabafar que, apesar dessa capa lindíssima, fiquei agoniada com a representação da Claude, porque no livro ela corta o cabelo Joãozinho pouco tempo depois de chegar à ilha rs.

Título original: Breathless
Autora:
Jennifer Niven
Editora: Seguinte
Número de páginas: 392
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sete Mentiras – Elizabeth Kay

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi da Editora Suma o livro Sete Mentiras, um thriller elogiado por nomes como Harlan Coben e Shari Lapena. Prontos pra conhecer? 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Desde crianças, Jane e Marnie são inseparáveis. As duas têm muito em comum. Aos vinte e poucos anos, ambas se apaixonam e se casam com homens jovens e bonitos. Só que Jane nunca gostou do marido de Marnie. Ele é tão arrogante, tão exibicionista, age como se chamar atenção fosse seu objetivo de vida. O que é bem irônico… agora que ele está morto. Se Jane tivesse sido sincera desde o início, se não tivesse mentido, talvez o marido de sua melhor amiga ainda estivesse vivo. Esta é a chance de Jane contar o que de fato aconteceu. Mas a pergunta é: será mesmo a verdade?

Jane e Marnie são melhores amigas desde que tinham 11 anos de idade. Enquanto Jane tem uma família que ruiu (com um pai que saiu de casa, uma mãe com demência que nunca lhe deu muita atenção e uma irmã com uma doença terminal), Marnie nunca teve a presença familiar como uma constante (já que tanto seus pais quanto seu irmão são bastante ausentes). Elas encontram uma na outra o apoio, a alegria e o consolo que precisam, até que um elemento importante se coloca entre as duas: o amor romântico, especialmente o de Marnie. Quando ela se apaixona pelo arrogante Charles, Jane passa a odiá-lo da forma mais intensa que podia, e é devido a esse ódio que um novo hábito se inicia entre as duas: as mentiras de Jane.

O livro já nos revela que Charles está morto, e Jane (nossa narradora em primeira pessoa) começa a contar para o leitor tudo que os levou até aquele momento. Ou seja, quem morre não é o mistério da obra, mas como tudo se desenrola para este destino e, posteriormente, os desdobramentos da morte de Charles. Enquanto intercala os acontecimentos em torno da morte, Jane também vai revelando mais sobre si mesma, sobre sua família e sobre sua relação com Marnie. A própria protagonista já viveu um amor como o da amiga, ao se apaixonar e se casar com Jonathan, seu falecido marido. Viver com Jonathan foi o período mais feliz da vida de Jane, mas ele se foi cedo demais, morrendo ao ser atropelado por um motorista alcoolizado. São nesses momentos da leitura que conseguimos sentir empatia por Jane e desejar que as coisas tivessem sido diferentes pra ela. Mas só aí mesmo.

Porque Jane é uma personagem profundamente egoísta e obcecada pela amiga. Ela narra desde o início da história o quanto a conexão das duas é profunda, o quanto esse amor é inabalável e o quanto elas podem se comunicar sem nada precisar ser dito. O problema é que, conforme as páginas avançam, o leitor deixa de acreditar nessa relação, porque não parece ser bem assim. Quanto mais eu lia, mais eu achava que essa amizade tinha um quê de unilateral, alimentada pela obsessão de Jane de ser amada por alguém (já que foi a filha preterida e, quando finalmente encontrou o amor romântico, ela o perdeu). Isso fica mais evidente na forma como Marnie trata Jane, sempre pedindo favores e dando uma sensação de “se aproveitar” da devoção que Jane lhe dedica. 

E já que comecei a falar de Marnie, devo dizer que ela é rasa como um pires, tornando impossível pra mim entender a obsessão de Jane. A personagem tem pouquíssima participação ativa na história, sendo descrita apenas pelo olhar enviesado da narradora, e nem sob essa lente encantada eu pude me afeiçoar a Marnie. E o fato dela parecer tirar um certo grau de vantagem da dedicação de Jane também me irritou, mais um elemento que corrobora o quanto essa relação de “amizade” é disfuncional. O terceiro elemento desse “trisal”, Charles, também tem pouquíssimo espaço na trama, e é sempre mostrado pelas lentes de Jane. Ele parece ser um homem bem irritante, de fato, mas não a ponto de merecer o destino que teve. E eu evito ao máximo desacreditar a fala de uma mulher, porque sabemos o quanto a sociedade tenta fazer isso com a gente, mas nesse caso é impossível não ter um receio de que Jane tenha construído uma imagem muito pior dele do que a realidade mostraria, considerando a obsessão dela por Marnie. Quando a vida dos dois se entrelaça por um momento fatal, eu fiquei chocada. Até aquele momento, eu imaginava uma cena acidental e passional, mas o que é revelado é uma frieza inesperada.

Sete Mentiras peca também ao manter o interesse no mistério. Lá pela metade da obra o ponto de virada acontece, mas a trama não consegue manter o ritmo. Achei o livro extremamente lento, enrolado, e não conseguiu me instigar nem me manter absorta  na leitura. Além do ritmo cansativo, Sete Mentiras ainda insere uma nova personagem: Valerie, uma jornalista que se propõe a investigar Jane e descobrir seus segredos. O problema é que, assim como ela chega, ela se vai, e não entendemos suas motivações nem os motivos pelos quais ela entra na história. Em relação ao final, gostei de saber com quem Jane estava conversando, mas esse clímax é abrupto e as coisas se desenrolam rápido demais nas últimas páginas, deixando várias pontas soltas.

Como ponto positivo, tem uma discussão que foi abordada muito timidamente na obra, mas que gostei que estivesse lá: a questão de como priorizamos determinados tipos de amor. Para Jane, o amor entre Marnie e ela é enorme, profundo, bem sedimentado – até que o amor romântico chega “para atrapalhar”. Claro, Jane deturpa completamente os limites da relação, mas acho interessante a problematização da personagem de que nós sempre damos mais espaço e importância para o amor romântico, colocando os outros tipos em espaços menores dentro de nossas vidas (seja o amor familiar ou o amor pelos amigos). E especialmente nós, mulheres, somos muuuito incentivadas a colocar nossa energia em encontrar nosso par ideal, em casar e ter filhos, então acho sempre válido quando uma obra nos coloca a questionar esse status quo.

Sete Mentiras fez uma promessa que não cumpriu. As mentiras não são tão relevantes assim e, na minha opinião, não são a causa de tudo que acontece na trama. O mistério não instiga, as personagens são difíceis de engolir e não há nada que realmente te convença sobre aquilo que você está lendo. Pra mim não foi uma experiência legal, mas espero que quem opte por ler goste mais do que eu. =)

Título original: Seven Lies
Autora:
Elizabeth Kay
Editora: Suma
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.