Livros para pensar a maternidade

Oi pessoal, tudo bem?

O Dia das Mães causa sentimentos diversos: pode provocar coisas boas, como amor e acolhimento, mas também partir corações, especialmente pra quem já perdeu a sua ou não tem uma boa relação com ela. Pensando nisso, e também somado ao fato de que ainda estamos distantes graças à pandemia que (no Brasil) não cede, resolvi fazer um post com obras que falem da maternidade de formas distintas – preferencialmente sem romantizá-la, pois isso a maternidade compulsória já faz. E aí, vamos conferir?

O Impulso – Ashley Audrain

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Não poderia deixar de fora uma das leituras mais recentes que fiz que toquem nas dificuldades e alegrias da maternidade. O Impulso é um livro pesado, porque a protagonista sofre a dor de perder um filho e também a culpa por não conseguir se conectar à primogênita, por quem ela nutre desconfianças e até certo nível de repulsa. O interessante aqui é a forma como a protagonista-narradora nos revela a dificuldade que envolve o pós-parto, a solidão de não conseguir se encantar com as dificuldades do puerpério e a sensação de desconexão de outras mulheres que dizem que “é só olhar para o rostinho que tudo vale a pena”. Ótima dica de livro pra refletir sobre a maternidade compulsória.

Pequena Coreografia do Adeus – Aline Bei

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Ainda vou fazer uma resenha completa do segundo livro de Aline Bei, mas já posso adiantar que a obra narra a difícil relação entre uma filha e sua mãe narcisista. A protagonista sempre foi alvo da frustração da mãe, que usava castigos físicos e agressões para descontar esses sentimentos negativos. A obra discorre sobre essa dor e essa desconexão entre mãe e filha, assim como as consequências dessa relação desestruturada e tóxica.

A Morte da Sra. Westaway – Ruth Ware

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Apesar de se tratar de um thriller, a presença materna é muito importante na trama. De um lado, temos a Sra. Westaway que dá nome ao livro (uma matriarca venenosa e cruel cuja morte causa as reviravoltas da trama), e do outro temos a mãe da protagonista, que foi morta em um atropelamento e foi uma grande referência de garra, amor e companheirismo. Hal, a jovem que recebe uma carta convocando-a para receber sua parte na herança, sente tanta saudade da mãe que a dor é quase física, e a autora consegue transmitir isso ao leitor. Em cada lembrança, sabemos que Hal e sua mãe (Margarida) tiveram uma conexão impossível de apagar.

Rede de Sussurros – Chandler Baker

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Postei recentemente sobre esse livro, mas vale incluí-lo aqui por todas as disparidades de gênero que ele expõe no que diz respeito ao ambiente de trabalho. Grace Stanton é uma das protagonistas e é também mãe de um recém-nascido. Retornando da licença-maternidade, ela luta com uma culpa diária por querer trabalhar, ao mesmo tempo em que seu corpo pede socorro para que ela possa descansar. Assim como ocorre em O Impulso, aqui também temos abordada a exaustão de uma mulher no pós-parto.

As Parceiras – Lya Luft

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Intimista e reflexivo, o livro é narrado por Anelise, que decide rever sua trajetória cheia de perdas familiares. Mas apesar de seu protagonismo, Anelise não é a única mulher relevante na história: todas as mulheres de sua família têm um papel fundamental para que a personagem observe a si mesma e as origens de suas cicatrizes emocionais. O livro fala muito sobre compartilhar das “sinas” de nossos ancestrais e, no caso dela, a tragédia de sua avó (que viveu uma vida de dor até seu suicídio) é um fato marcante sobre o qual Anelise reflete muito. É um livro que gira em torno de mulheres e das experiências por elas compartilhadas.

Abelardo: O Bebê Monstruoso de Adelaide Estes – Filipe Tasbiat

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Adelaide é uma jovem que ficou em sono profundo durante meses, até ser acordada de uma forma chocante: em trabalho de parto. Além da confusão causada por tudo isso, a jovem mãe precisa lidar com as dificuldades naturais de um puerpério somadas à desconfiança de que seu bebê não seja uma criança normal, mas sim uma espécie de monstro. Enquanto administra o medo do próprio filho, Adelaide também percebe seu coração mudando e, com o tempo, ela se transforma na maior defensora de Abelardo. O bacana disso é perceber que mães não necessariamente são seres cujo amor incondicional seja instantâneo; ele pode demorar a acontecer, e considero importante desestigmatizar esse processo.

Espero que tenham gostado da lista, pessoal!
Não pretendo ser mãe, e justamente por isso tento ser muito sensível com esse assunto, por entender que nem todo mundo consegue se livrar da pressão social que direciona para esse caminho. Por isso, tentei não ser muito óbvia nas indicações e trazer alguns pontos importantes pra gente pensar na maternidade como um todo: com suas delícias, mas também suas dores.

Beijos e até o próximo post! 😘

Resenha: Rede de Sussurros – Chandler Baker

Oi pessoal, tudo bem?

Rede de Sussurros, um thriller baseado no movimento #MeToo, estava no meu radar há meses. Finalmente o coloquei na meta de leitura e hoje posso contar o que achei pra vocês.

Garanta o seu!

Sinopse: Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham juntas em uma empresa de roupas esportivas. As três sempre se ajudaram, passando por promoções empolgantes, reuniões intermináveis, casamento, maternidade, divórcio e os desafios impostos pela política no escritório. Elas também têm seus segredos e cada uma fez algo de que se arrepende. Com a morte repentina do presidente da empresa, tudo indica que Ames, o chefe delas, será alçado à liderança da companhia. Ames é um homem complicado, que as três conhecem há muito tempo e que sempre esteve cercado por sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas. Esses sussurros vinham sendo ignorados, varridos para debaixo do tapete e acobertados por aqueles que estão no poder. Depois de descobrirem que Ames adotou uma conduta inaceitável em relação a uma nova funcionária, elas decidem falar. E essa decisão provoca uma mudança catastrófica no escritório. Mentiras serão reveladas. Segredos serão expostos. E nem todo mundo sobreviverá. Suas vidas — como mulheres, colegas, mães, esposas, amigas e até adversárias — estão prestes a mudar drasticamente.

O mistério do livro inicia com alguém que cai (ou é empurrado?) do alto do prédio de uma grande empresa de artigos esportivos, a Truviv. Em seguida, a narrativa passa a alternar entre os acontecimentos prévios à misteriosa queda e as investigações, que são focadas em três amigas, Sloane Glover, Grace Stanton e Ardie Valdez.

À primeira vista, Rede de Sussurros parece ser narrado em primeira pessoa, ainda que não saibamos por quem. Antes da queda fatídica acontecer, há outra morte importante: a do presidente da Truviv, cujo acontecimento funciona como a primeira peça de um dominó, que em seguida derruba todas as outras, pois quem está sendo cotado para substituí-lo é Ames, chefe das três mulheres. Enquanto grande parte da empresa o enxerga como um excelente nome e alguém competente e adequado ao cargo, Sloane e Ardie sabem que Ames é alguém incapaz de de respeitar limites especialmente se quem os coloca é uma mulher. Quando uma nova funcionária é contratada pelo próprio Ames, Sloane sente um ímpeto de protegê-la dos avanços do chefe e, motivada por esse desejo, ela acrescenta o nome de Ames a uma planilha que tem circulado anonimamente, em que homens são denunciados por assédio sexual (sem saber que isso desencadearia uma série de graves consequências para todos).

O livro é bem contundente nas descrições sobre desigualdades de gênero. Ao longo das páginas, o leitor percebe que não é nenhuma das personagens principais quem está narrando a história, mas sim um coletivo – o “nós”. Esse estilo narrativo se faz valer desse afastamento com a trama em si pra trazer aspectos mais gerais do “ser mulher” no mercado de trabalho. Situações como o fato de que mulheres precisam se preocupar com o envelhecimento enquanto homens são levados mais a sério conforme os anos passam são um exemplo disso. No caso de Sloane, que teve um caso com o Ames logo que iniciou na Truviv, o assédio e as consequências na carreira perduram até o presente: ele lança mão de comentários inapropriados sobre seu corpo, deslegitima suas decisões (se aproveitando do fato de ser seu chefe) e ocasionalmente menciona o passado dos dois, como uma mancha de vinho em um sofá branco. Por isso não é de se espantar que Sloane queira colocar seu nome na planilha das denúncias anônimas.

A história do livro em si é bastante previsível: é fácil acertar quem é o corpo na calçada, assim como é fácil prever o que aconteceu com Rosalita, uma personagem cuja importância vai crescendo ao longo da trama e é um exemplo claro de silenciamento feminino. Mas, apesar da história não conter grandes reviravoltas, o grande mérito de Rede de Sussurros é evidenciar o abismo que existe entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, sim, mas também na vida. O assédio sexual é o principal tema, claro, mas a trama também expõe os absurdos aos quais as mulheres precisam se submeter para conseguirem ser bem sucedidas. A narradora coletiva fala sobre o nosso perfeccionismo, já que mulheres sofrem com a pressão de serem boas em tudo: boas profissionais, boas mães, boas donas de casa. Temos que nos provar três vezes mais para atingirmos o mesmo patamar de um colega homem, e tendo o cuidado de não sermos lidas como agressivas ou teimosas (o que, no caso deles, é visto como firmeza e confiança). Precisamos voltar ao trabalho pouco tempo após parir, mesmo com o nosso corpo e nossos hormônios pedindo por descanso pois, caso contrário, seremos deixadas para trás na guerra corporativa. Essas são apenas algumas situações que Rede de Sussurros expõe de forma precisa e, infelizmente, relacionável.

Se por um lado a crítica social é competente, a trama peca por sua lentidão e por seus personagens nada marcantes. Não consegui me afeiçoar e nem torcer por nenhuma das protagonistas, e isso é um fator que eu levo bastante em consideração ao avaliar uma leitura. Senti falta de um mistério que perdurasse por mais tempo, além de ter me cansado com a futilidade de Sloane. Foi difícil acreditar que ela estivesse fazendo o que fazia por pensar no bem da nova colega; parecia mais uma atitude de quem queria colocar um ponto final no passado e trazer justiça a um homem que a prejudicou de diversas formas. E eu acho essa motivação muuuito válida, na verdade. O problema é que Sloane tentou fazer parecer que era altruísmo, o que, pra mim, não colou.

Rede de Sussurros não atingiu todas as minhas expectativas e acabou sendo uma leitura bacana, mas mediana. Minha recomendação se concentra muito mais nos fatos abordados pela narradora coletiva do que pela trama em si, porque esses sim precisam vir à luz para serem cada vez mais combatidos – como o excelente Clube da Luta Feminista ensina. O mérito do livro está nessas discussões, e sempre serei a favor de tramas que toquem em pontos delicados que já deveriam ter sido vencidos há muito tempo. E deveríamos fazer isso sem sussurrar, mas gritando aos quatro ventos mesmo.

Título Original: Whisper Network: A Novel
Autora: Chandler Baker
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 384
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Séries que abandonei #1

Oi pessoal, tudo bem?

Vocês sabem que eu adoro assistir séries, certo? Mas hoje o post é um pouquinho diferente: em vez de indicar séries pra vocês, vou listar as que abandonei. E por mais que de início essa atitude possa “doer” (já que você nunca vai chegar ao fim daquela história), chega um tempo em que a gente finalmente aceita que a vida é curta demais pra insistir no que já não faz mais sentido por orgulho. 🤷‍♀ Especialmente quando envolve gastar muitas horas de vida numa história que ficou ruim hahaha!

Luke Cage

Review

Apesar de ter gostado da primeira temporada de Luke Cage, o cancelamento de todas as séries da Marvel pela Netflix me fez perder o fôlego de seguir assistindo, especialmente porque os episódios são longos. 😦 Uma pena que isso tenha acontecido, porque eu queria muito uma segunda temporada de Os Defensores.

Punho de Ferro

Review

Mais um caso da leva de cancelamentos resultante do fim da parceria da Marvel com a Netflix. Mas, nesse caso, admito que não foi só isso: a primeira temporada já foi difícil de engolir e eu tinha zeeero vontade de seguir vendo.

Arrow

Review

Eu já fui muito fã de Arrow e curti pra caramba as primeiras temporadas. Mas acho que perdi a paciência lá pela terceira ou quarta, em que os plots começaram a ficar repetitivos e virou historinha de romance. :/

The Flash

A explicação sobre Arrow cabe perfeitamente aqui também. Acho que é um defeito comum nas séries de herói da CW, elas simplesmente ficam andando em círculos e começam a ficar nonsense. Chega uma hora que cansa, ainda mais que são vários episódios com mais de 40 minutos.

Black Mirror

Parei de assistir Black Mirror na terceira temporada porque percebi que simplesmente enjoei da fórmula.

That 70’s Show

Me diverti durante um bom tempo com essa série, mas peguei uns spoilers sobre a saída de dois dos protagonistas (Topher Grace e Ashton Kutcher), assim como o retrocesso de alguns personagens (como Hyde e Jackie), então eu pensei: “sem tempo, irmão”.

13 Reasons Why

Review

Lembro de ter ficado bastante chocada com a primeira temporada de 13 Reasons Why, especialmente pelos vários níveis de abuso que a Hannah sofria. Quando saiu a segunda, que eu já julgava desnecessária, li críticas falando sobre cenas ainda piores. Pra mim foi um vacilo da Netflix, que resolveu capitalizar em cima de cenas de abuso explícitas e desnecessárias. Thanks, but no thanks.

Qual a opinião de vocês sobre as séries da lista? Já assistiram ou abandonaram alguma? Abandonaram outras? 😂
Me contem nos comentários, please, quero saber quem se identificou. \o/

Review: Radioactive

Oi pessoal, tudo bem?

Nos últimos dias chegou à Netflix o filme Radioactive (dirigido por Marjane Satrapi, de Persépolis), que se propõe a ser uma cinebiografia da vida de Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel relacionados às suas pesquisas sobre radioatividade. Vamos descobrir o que eu achei? 😀

Sinopse: Movida por uma mente brilhante e uma grande paixão, Marie Curie embarca em uma jornada científica com o marido, Pierre. Suas descobertas vão mudar o mundo.

Antes de falar sobre minha opinião sobre o longa, acho importante dividir com vocês qual era a minha expectativa: eu imaginava que o filme fosse focado no processo da descoberta científica em si, com suas discussões, desafios, testes e avanços. Também imaginei que ele pudesse trazer uma luz ao fato de que Marie Curie era uma mulher em meio a um ambiente majoritariamente masculino e numa época em que o machismo era ainda mais intenso. Esse segundo ponto até é abordado, ainda que de forma superficial. O primeiro, porém, foi minha decepção: em cerca de 30 ou 40 minutos (em um filme de 1h50 de duração) ela já tinha descoberto os elementos rádio e polônio, fazendo com que o foco da trama se virasse para sua vida pessoal.

Segundo a visão trazida por Radioactive (e eu coloco isso dessa forma porque não conheço a fundo a história da cientista para contestar), Marie Curie era brilhante, destemida, autossuficiente e arrogante. Ao conhecer Pierre Curie, seu marido e grande amor, ela amplia seu estudo e os dois formam uma parceria de trabalho que os leva a ganharem o Prêmio Nobel pelas descobertas que fizeram em conjunto sobre a radioatividade. O machismo na trama começa a ser exposto aí (já que, na trama, Pierre é recebido sozinho na Suíça e discursa em nome dos dois), mas fica ainda mais grave quando Marie se envolve em escândalos em sua vida pessoal que a fazem ser hostilizada pelas pessoas e pelo meio acadêmico (sendo que o homem que deveria ser responsabilizado por tal escândalo não sofre nenhuma penalidade – não que seja muito diferente hoje em dia, né?).

A montagem do filme é estruturada de forma que a gente acompanhe os estudos de Marie e Pierre sobre radioatividade enquanto intercala com outras décadas no futuro nas quais essa descoberta foi relevante. Há cenas que expõem aspectos positivos, como uma criança com câncer podendo fazer um tratamento experimental com radioterapia, mas a maior parte dos paralelos é negativa: vemos os desastres de Hiroshima e Chernobyl, além de exposições turísticas de explosões atômicas nos Estados Unidos, o que me fez ter a sensação de que o roteiro colocou mais peso nos perigos e no mau uso da descoberta. Só nos minutos finais há um diálogo entre Marie e seu marido em que ele traz como contraponto o fato de que ela jogou uma pedra na água, mas que as ondas geradas por isso ela não é capaz de controlar. O conhecimento em si não é uma coisa ruim, mas sim a forma destrutiva que a humanidade muitas vezes o utiliza.

Minha maior frustração com Radioactive reside no fato de que me senti assistindo a um filme que flutua do drama às “fofocas” durante uma parte considerável de sua duração. Como as descobertas científicas acontecem muito rápido e não são bem exploradas (as explicações e discussões são rasas e não duram muito), o resto da trama tenta desenvolver 1) a relação de Marie com as filhas, que mal apareceram até então, 2) o luto após a perda do marido, 3) suas relações passionais, 4) sua reputação enfraquecida e 5) sua participação na Primeira Guerra Mundial, com a criação de um veículo equipado com máquinas de raio-X. Só o item 5 já dava muito pano pra manga, sabem? A sensação que fica é que tentaram enfiar um milhão de aspectos relevantes da vida de Marie Curie em um único filme, sem ter um foco principal. Existem biografias que focam na parte profissional de um nome célebre, ou então no seus dramas familiares. Acho que essa falta de foco de Radioactive deixou todos os âmbitos da vida da cientista muito superficiais.

Apesar dos pesares, Radioactive conta com boas atuações (a química entre Rosamund Pike e Sam Riley funciona muito bem) e não chega a ser cansativo. Gostei de ter a oportunidade de saber mais sobre a vida de uma mulher tão importante para a história e para a ciência, mas lamento que isso tenha sido feito de uma forma um tantinho mediana. :/

Fun facts: o filme foi lançado em 2019, mas só chegou à Netflix agora. Além disso, contou com a produção da Amazon (o que me surpreendeu bastante, considerando que eles têm seu próprio streaming).

Título original: Radioactive
Ano de lançamento: 2019
Direção: Marjane Satrapi
Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Simon Russell Beale, Aneurin Barnard, Anya Taylor-Joy

Resenha: Acorda Pra Vida, Chloe Brown – Talia Hibbert

Oi pessoal, tudo bem?

Minha experiência com chick-lits ainda não é muito vasta, então quando a editora Paralela me proporcionou a chance de ler mais um, não hesitei. Fiquei ainda mais animada por ter sido ele escrito e protagonizado por uma mulher negra, afinal, precisamos de mais representatividade na literatura. Então bora conhecer Acorda Pra Vida, Chloe Brown? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Depois de quase ser atingida por um carro em alta velocidade, Chloe Brown se deu conta de que seu obituário seria um tanto entediante. Para reverter essa situação, ela decide montar uma lista de atividades necessárias para finalmente “acordar para a vida”. Mudar assim não é nada fácil, mas, para sua sorte, Chloe encontra alguém que — mesmo a contragosto — pode ajudá-la nessa missão. Seu vizinho Red Morgan é um motoqueiro misterioso, que tem várias tatuagens e mais sex appeal que uma estrela de Hollywood. No entanto, um acordo leva Chloe e Red a se aproximarem e perceberem que suas primeiras impressões um do outro estavam erradas. E que, mesmo com traumas do passado e receios quanto ao futuro, o amor nunca perde a chance de surpreender.

Após quase ser atropelada, Chloe Brown se põe a refletir sobre sua vida e chega à conclusão de que ela é muito tediosa. Com o desejo de ter um epitáfio mais digno, ela decide criar uma lista pra “acordar pra vida”, que inclui marcos como acampar, se embebedar e fazer sexo sem compromisso. A lista não parece muito fora da curva, né? Acontece que pra Chloe são verdadeiros desafios: ela sofre de fibromialgia, uma doença crônica que causa dores e fraqueza pelo corpo todo e pode ser muito debilitante. Mas, para tomar o controle da própria vida, Chloe se muda da (rica) casa dos pais para um apartamento alugado e lá ela conhece Redford Morgan, o (charmoso) zelador que parece se dar bem com todo mundo, menos com ela. Acontece que o próprio Red tem uma visão deturpada da personalidade de Chloe, confundindo sua reserva e timidez com esnobismo, mas os dois têm a chance de conversar quando ele a ajuda a… resgatar um gato de uma árvore!

Já começo dizendo que esse plot do gato é maravilhoso. Mesmo dolorida e sabendo que seu corpo vai cobrar um preço, é adorável ver uma rabugenta Chloe se propondo a escalar uma árvore para salvar um gatinho – pelo qual ela se afeiçoa, mesmo sem querer admitir. A personagem é irônica, mau humorada e divertida, ainda mais quando ela fica conversando mentalmente com o gato. 😂 Também é muito gostoso de acompanhar a forma como Red percebe que Chloe não é a menina rica de nariz empinado do apartamento em frente, mas sim uma mulher que se esconde atrás de roupas fofas (e cheias de botões) e uma expressão gelada. E já que falamos no protagonista masculino, vale ressaltar: Red é incrível. Eu gosto dos caras legais (zero fetiche em bad boys), e Red é um deles, brilhando do início ao fim! Carismático, sedutor e seguro de si mesmo, foi impossível não me deixar ser fisgada por ele também.

A narração do livro é em terceira pessoa e intercala os pontos de vista de ambos os personagens. Tanto Chloe quanto Red são pessoas que já tiveram seus corações partidos, e o livro faz questão de mostrar um outro lado do relacionamento abusivo que até então eu não tinha visto – no qual o homem é a vítima. A ex de Red era uma jovem rica que se achava superior a ele e minou tanto sua autoconfiança que isso impactou diretamente na sua profissão, fazendo com que o personagem fique na defensiva com Chloe devido ao seu status social. A protagonista feminina, por sua vez, se viu cada vez mais sozinha conforme suas dores crônicas passaram a ser um impedimento em suas relações, o que fez com que ela simplesmente desistisse de tentar se abrir pro mundo. Mas a química entre os dois e a atração inegável que sentem são o primeiro passo pra que essas barreiras comecem a ser quebradas.

Um ponto que me chamou a atenção reside no fato de que a capa e a sinopse dão a entender que veremos um romance apenas fofo, mas na verdade encontramos também uma trama +18, cheia de palavrões e cenas explícitas de sexo. Não sei vocês, mas eu falo muuuito palavrão, então o fato dos personagens usarem também não me incomodou em nada, porque pra mim eles ficaram ainda mais reais (apesar de reconhecer que o uso de “caralho” pra ênfase foi um pouco exaustivo). No livro há masturbação, cenas de sexo e descrições bem ~calientes, o que até então eu não tinha visto nos chick-lits que li. Isso proporcionou um equilíbrio bem interessante entre ser fofo e provocativo. Além disso, corpos femininos fora do padrão hegemônico e eurocêntrico (não apenas por Chloe ser negra, mas por ser plus size) sendo desejados e apreciados é algo que precisa estar mais presente na cultura pop. Mulheres de todas as formas precisam ser descritas e vistas como pessoas dignas de amor e desejo, independentemente do que o padrão de beleza tente ditar. Arrasou, Acorda Pra Vida, Chloe Brown!

Como pontos negativos, eu diria que o exagero no jeito turrão da Chloe me incomodou, apesar de entender seu mau humor constante. Sofro de enxaqueca e é foda mesmo ser legal quando você tá morrendo de dor.  Agora, o aspecto que mais testou minha paciência (pra não dizer que me irritou profundamente rs) foi a falta de diálogo entre o casal, sendo este o maior gerador de conflitos. Os personagens tem mais de 30 anos mas nem sempre se comportam de acordo. As brigas deles acontecem sempre por mal entendidos, e esse é um dos clichês de que eu menos gosto na literatura (o dos personagens que não conversam como adultos). É meio inadmissível que duas pessoas dessa idade se comportem como jovens de 15 anos que não são capazes de dialogar com clareza e maturidade. Se eu não tenho paciência pra isso nem com protagonistas de YAs, imagina com dois marmanjos. Foi muito por causa disso que diminuí a nota do livro, ainda que tenha gostado bastante dele.

Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance gostoso, picante, envolvente e com um casal que transborda química. O fato de ter sido escrito por uma mulher negra que traz como protagonista também uma mulher negra é mais um ponto importante, pois precisamos dar espaço pra esse tipo de obra brilhar. Trazer a negritude e o corpo não-padrão como dignos de uma história de amor comum, não guiada exclusivamente por  debates mais profundos, é bacana pra mostrar que pessoas negras podem encontrar espaço em tramas que fazem a gente suspirar – e não apenas com as que evidenciam sua dor. Inclusive, se alguma pessoa negra estiver lendo esse post e quiser se manifestar, vou adorar saber sua opinião sobre isso nos comentários! 😊 Em resumo, Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance envolvente e que, apesar dos defeitinhos, me entreteve do início ao fim. Recomendo!

Título Original: Get a Life, Chloe Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 296
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

TAG: Leitor Eclético

Oi pessoal, tudo bem?

Eu vi a TAG do Leitor Eclético, criada pela Palavras Radioativas, no Imersão Literária, e resolvi trazer pra cá também. 😀 Espero que gostem!

OPOSTOS FAVORITOS – Livros completamente diferentes mas favoritados mesmo assim:

Resenha Lendo de Cabeça Para Baixo | Compre aqui
Resenha Contágio | Compre aqui

Lendo de Cabeça Para Baixo, que é um chick-lit bem fofo e alto astral, e Contágio, um livro de não-ficção (algo que não costumo ler por si só) que fala sobre pandemias zoonóticas.

DO CLÁSSICO AO “BAGACEIRA” – Um livro aclamado e outro nem tanto assim:

Resenha A Revolução dos Bichos | Compre aqui
Resenha Nada de Novo no Front | Compre aqui

Pro livro aclamado minha escolha é A Revolução dos Bichos, incrível em cada linha e um dos meus favoritos da vida. O “bagaceira” me remete a algo meio zuado, mas a descrição fala em não ser aclamado. Então pra essa categoria pensei em Nada de Novo no Front, que eu nunca vi sendo muito resenhado por aí, e é uma ótima leitura pra entender as dores e os traumas da guerra.

LEIO DE TUDO, MAS ESSE TEM MAIS – O gênero literário que predomina na sua estante:

Romance e fantasia (mas meu gênero favorito é suspense policial/thriller).

JÁ LI DE TUDO, MAS FALTA ESSE – Um gênero literário que você ainda não leu, mas quer começar a ler:

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Nunca li autobiografia, e gostaria de fazer isso com o livro da Michelle Obama.

AMO E ODEIO – Um livro queridinho, mas que tem alguma característica que, para você, foi desagradável:

Resenha | Compre aqui

Aqui eu trago a trilogia Jogos Vorazes, mais especificamente A Esperança. Amo o primeiro e o segundo livro, mas o terceiro é cansativo e mal conduzido. 😦

DE TUDO UM POUCO – Um livro de um gênero predominante, mas que tem pitadas de outro gênero:

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Desafiando as Estrelas é predominantemente um sci-fi distópico, mas tem romance também.

TBR DA FAROFA – A meta literária do leitor eclético: suas próximas leituras de livros diferentes:

Compre A Rebelde do Deserto aqui
Compre Sem Ar aqui
Compre Uma Herdeira Apaixonada aqui

Os três títulos acima são minhas metas pra esse primeiro semestre. Não decidi a ordem ainda, mas provavelmente o primeiro vai ser o novo livro da Jennifer Niven!

Já leram ou pretendem ler algum título da lista?
Me contem nos comentários! ❤

Review: Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Oi pessoal, tudo bem?

Que tal uma dica de filme pra curtir nesse domingo? Então prepara a pipoca, porque hoje vamos falar de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta.

Sinopse: Inspirada pelo passado rebelde da mãe e por uma nova amizade, uma adolescente tímida publica um texto anônimo que denuncia o machismo em sua escola.

Vivian é uma adolescente tímida (e super padrão) que passa pelo Ensino Médio com sua melhor amiga, Claudia, tentando não chamar a atenção. Quando Lucy, uma menina nova chega na escola questionando certos comportamentos (ao enfrentar os avanços do capitão do time de futebol, por exemplo), Vivian começa a perceber quão problemático é se manter alheia ao que acontece à sua volta, abrindo seus olhos para violências cotidianas causadas pelo machismo. Isso, somado ao fato de descobrir que sua mãe era uma militante feminista nos anos 90, motiva Vivian a criar um fanzine chamado Moxie em segredo e distribuí-lo pela escola, o que dá início a movimentos e discussões importantes.

Moxie é um filme que entretém ao mesmo tempo que traz uma mensagem positiva a jovens garotas. Vivian nunca pensou no quão ofensivo era ter uma lista que classifica as garotas da sua escola, por exemplo, mas ao fazer amizade com Lucy, que é objetificada não apenas por ser mulher, mas também pela cor de sua pele e pelos estereótipos racistas, ela começa a ver na prática as opressões que mulheres sofrem. Ao criar o fanzine Moxie, Vivian se aproxima de outras garotas e isso gera uma rede de apoio para enfrentar Mitchell (o capitão do time masculino) na disputa por uma bolsa estudantil, indicando sua amiga Kiera (uma atleta ainda mais competente) como concorrente. A aproximação de Vivian com novas meninas faz com que Claudia fique de lado e isso gere uma tensão entre as duas, e tive medo que o filme caísse em alguma armadilha que pudesse colocá-las uma contra a outra, mas felizmente não é o que acontece. Essa situação serve para dar uma pincelada em assuntos relacionados à xenofobia, mas é um toque muito raso e passageiro.

Aliás, esse é o maior defeito de Moxie: o filme é muito superficial em suas críticas. A vibe “garota branca e loira descobrindo o girl power” já não funciona comigo, e existem assuntos muito pesados (como assédio e abuso sexual) tratados de forma quase leviana – em especial nas últimas cenas, em que gritar parece ser a forma de resolver as coisas. Moxie peca em não mostrar os efeitos reais e posteriores de tudo que foi feito na escola graças ao movimento criado pelas meninas, o que faz com que ele perca a sua força e se torne um filme meio “qualquer coisa” em um mar vasto e cheio de opções de entretenimento que temos hoje. Para completar, o filme se passa inteiramente sobre a ótica de uma menina cheia de privilégios, ignorando questões importantes que o feminismo interseccional aborda. Se eu tivesse que indicar um título que faça esse trabalho de forma competente, diria que Sex Education é uma opção muito mais poderosa e responsável. Pra finalizar, Lisa (a mãe de Vivian), que em tese foi sua primeira inspiração, tem poucas falas e é muito mal desenvolvida, sem que a gente entenda o motivo do distanciamento entre as duas (ainda mais em um momento em que a protagonista poderia contar com os conselhos da mãe). 

Entretanto, apesar da superficialidade, acho legal ver que mais obras como Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta estão sendo feitas. Eu gostaria de ter crescido com mais exemplos assim, e acho que as futuras gerações terão contato com essas problematizações mais cedo – o que me faz ter um pouquinho mais de esperança no futuro.

Título original: Moxie
Ano de lançamento: 2021
Direção: Amy Poehler
Elenco: Hadley Robinson, Lauren Tsai, Alycia Pascual-Pena, Nico Hiraga, Sydney Park, Patrick Schwarzenegger, Amy Poehler

Resenha: Filhos de Virtude e Vingança – Tomi Adeyemi

Oi pessoal, tudo bem?

Filhos de Sangue e Osso, o primeiro livro da trilogia O Legado de Orïsha, foi um verdadeiro sucesso. Por isso, a ansiedade para conferir a continuação, Filhos de Virtude e Vingança, era alta. Hoje conto pra vocês o que achei. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: No segundo volume da série, depois de enfrentar o impossível, Zélie e Amari conseguiram trazer a magia de volta para Orïsha. Entretanto, o ritual foi mais poderoso do que elas imaginaram e os poderes reapareceram não somente para os maji, mas também para todos que tinham ancestrais mágicos. Agora, Zélie se esforça para unir todos os maji em uma Orïsha onde o inimigo é tão poderoso quanto eles. Quando a realeza e os militares formam uma aliança perigosa, Zélie precisa lutar para garantir o direito de Amari ao trono e proteger os novos maji da ira da monarquia. Com uma guerra civil iminente, Zélie tem uma missão: encontrar uma forma de unir o reino ou assistir a Orïsha ruir.

O livro começa poucas semanas depois do fim do primeiro. Após o ritual que trouxe a magia de volta, descobrimos que algo no processo saiu errado e despertou magia também naqueles que tivessem ancestrais mágicos, criando assim os tîtán. Com isso, as tensões sociais ficam ainda mais desequilibradas: os maji conseguiram sua magia de volta, sim, mas agora precisam enfrentar a nobreza e o exército que os odeiam e que agora têm magia pra contra-atacar. É nesse contexto que o trio composto por Zélie, Amari e Tzain precisa agir, mas o espírito da protagonista está profundamente abalado. Desde a morte de seu pai, Zél acha que toda a sua jornada não valeu a pena e que só serviu para dar ainda mais poder aos opressores. A personagem está apática e mergulhada na dor, diferente da sua versão no primeiro livro que era impetuosa (e até imprudente). Para tornar a dinâmica ainda mais complicada, uma guerra civil ameaça estourar: um grupo de maji conhecido como Iyika (A Revolução) está disposto a atacar a monarquia com força total, indo contra o desejo de Amari de reivindicar o trono.

Começo essa resenha dizendo que início do livro foi MUITO confuso e truncado pra mim. Ele já mostra Amari tentando realizar comícios para convencer o povo a aceitá-la como rainha, ao mesmo tempo em que a narrativa simplesmente insere o novo conceito de tîtán do nada, como se já tivesse usado esse termo antes (o que volta a se repetir mais pra frente, quando a autora insere nomes de personagens como se já os conhecêssemos). Me obriguei a reler algumas páginas do início para ter certeza de que não, Tomi Adeyemi não tinha feito uma explicação prévia sobre aqueles novos conceitos, e eu meio que me forcei a simplesmente aceitá-los.

Os personagens também estão em lugares sombrios. Zélie está deprimida (e com razão) após perder seu Baba e ser traída por Inan. O que me incomodou nela, na verdade, não foi sua apatia. Foi a forma como sua relação com Amari retrocedeu: a protagonista deixa os Iyika tratarem sua amiga com muita rispidez e preconceito, o que pra mim é um gesto de deslealdade. Esperava que a personagem defendesse o caráter de Amari frente aos Iyika, e não é o que acontece. Em compensação, Zélie floresce ao conhecer três ceifadores que fazem parte do grupo rebelde, em especial seu novo braço direito, Mâzeli. Se responsabilizar por aqueles jovens e ensinar a eles tudo que sabe sobre o poder dado por Oya são duas motivações que a engrandecem como líder e como pessoa. Ainda na família Adebola, preciso dizer quão frustrante foi ver Tzain sendo esquecido no churrasco. O irmão de Zélie foi uma figura central no primeiro livro, ainda que não tenha tido espaço para se desenvolver. Eu torcia para que isso acontecesse nesse volume, mas infelizmente Tzain segue sendo preterido.

Agora vamos falar da monarquia? Os dilemas morais de Amari e Inan não me convenceram. Ambos ficavam argumentando para si mesmos coisas como “se eu fizer isso, serei uma pessoa horrível; mas se eu não fizer, não darei fim a este horror causado pela guerra”. Parecia que eles mudavam seus parâmetros morais o tempo todo, trazendo uma inconsistência irritante pros dois. Amari em especial me incomodou demais, não me lembrando em nada a menina cheia de atitude e justiça do primeiro livro, e sim uma garota mimada que coloca os outros em risco desnecessariamente. Esse vai e vem de decisões e dilemas deixou o livro bem mais cansativo do que precisava ser. Já Inan mete os pés pelas mãos mais de uma vez, em especial sob a influência de sua mãe, Nehanda. Nada de novo no front, né? O príncipe (agora rei) nunca foi consistente, então nem esperava isso dele – ainda que no final ele tenha surpreendido positivamente.

Existem outros personagens importantes, mas não quero entrar no detalhe sobre todos eles, com exceção de dois: Roën, o mercenário do primeiro livro, apareceu pouco, mas roubou a cena. Gostaria que ele tivesse tido uma participação mais constante, considerando seu carisma e sua relação com Zélie. Mama Agma novamente se torna uma presença importante, ainda que não apareça o tempo todo. Ela é decisiva para a condução da guerra e obriga Zélie a abrir mãos dos medos e laços do passado que a impedem de agir.

O que foi complicado pra mim ao ler Filhos de Virtude e Vingança é que o livro anda em círculos. Há diversos momentos que poderiam ter sido mais curtos, o que evitaria tantas inconsistências no comportamento e nos sentimentos dos personagens. A história não é ruim, ela tem bons momentos, mas não consegue atingir o mesmo patamar do livro que iniciou a trilogia. Apesar dos pesares, Tomi Adeyemi nos traz um final bombástico e chocante, e eu realmente não sei o que esperar do que vem por aí. Com todas essas ressalvas e ponderações, continuo gostando e indicando a trilogia O Legado de Orïsha, mas recomendo apenas que vocês não esperem de Filhos de Virtude e Vingança a mesma maestria narrativa vista no livro anterior.

Título Original: Children of Virtue and Vengeance
Série: O Legado de Orïsha
Autor:
 Tomi Adeyemi
Editora: Fantástica Rocco
Número de páginas: 432
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Review: Jujutsu Kaisen

Oi pessoal, tudo bem?

Já faz um tempo que meu boy conseguiu reacender em mim uma paixão antiga: animes! No início da adolescência eu era super fã mas, com o tempo, dei uma saturada. Recentemente, porém, estamos assistindo a ótimos títulos, e é sobre um deles que quero falar hoje: Jujutsu Kaisen.

Sinopse: Apesar do estudante colegial Yuuji Itadori ter grande força física, ele se inscreve no Clube de Ocultismo. Certo dia, eles encontram um “objeto amaldiçoado” e retiram o selo, atraindo criaturas chamadas de “maldições”. Itadori corre em socorro de seus colegas, mas será que ele será capaz de abater essas criaturas usando apenas a força física?!

No universo de Jujutsu Kaisen existem ameaças conhecidas como maldições. Elas são uma espécie de personificação da energia amaldiçoada, oriunda dos piores sentimentos dos seres humanos. Algumas são mais “inofensivas”, causando mal estar (por exemplo), mas outras são letais. E, para combatê-las, existem os feiticeiros jujutsu: humanos que usam dessa energia amaldiçoada como fonte para feitiços capazes de exorcizar as maldições. 

Nosso protagonista, Yuuji Itadori, é um jovem estudante que se vê no meio de um fogo cruzado entre uma maldição e um feiticeiro. A batalha gira em torno de um objeto poderoso com o qual Itadori entrou em contato: trata-se do dedo do espírito amaldiçoado mais poderoso que já existiu, Sukuna. No calor da batalha, Itadori se vê obrigado a engolir esse dedo para impedir que a maldição o use, e a partir desse momento seu destino está selado: Sukuna passa a ter consciência dentro dele e, em paralelo, os feiticeiros jujutsu temem o que isso significa, incumbindo Itadori de coletar os outros dedos ou ser executado imediatamente. E é assim que a aventura do jovem nesse mundo obscuro começa.

Eu demorei um tempinho pra entender os conceitos de Jujutsu Kaisen, muito porque o anime já começa na vibe tiro, porrada e bomba. Itadori é um jovem altruísta e com habilidades que vão além da normalidade humana, características que o ajudam a trilhar o caminho dos feiticeiros jujutsu com empatia e habilidade. A perda recente do seu avô, cujo último conselho foi para que o jovem ajudasse as pessoas à sua volta, é praticamente um mantra que o guia, o que deixa seu coração no lugar certo. Além disso, Itadori é muito engraçado! Suas expressões faciais mais “bobas” são típicas dos animes e quebram a tensão dos episódios. A dinâmica como hospedeiro de Sukuna, que sempre tenta tomar o controle de seu corpo, também é muito interessante.

Itadori também tem dois colegas de equipe. O primeiro é Fushiguro Megumi, o jovem que se envolveu na batalha na escola do protagonista. Ele tem muito respeito por Itadori, especialmente pelo autossacrifício que o protagonista fez quando eles se conheceram. A segunda é Nobara Kugisaki, uma garota temperamental que ora briga com Itadori, ora age exatamente como ele. Além dos dois colegas, o protagonista também conta com um mentor (ou, como se diz nos animes, sensei) que é um dos feiticeiros jujutsu mais poderosos da atualidade: Gojo Satoru, um personagem que vai da comédia ao modo badass num piscar de olhos. Com o tempo, vamos conhecendo outros estudantes da Escola Jujutsu (na qual o trio estuda), outros espíritos amaldiçoados poderosos e também intrigas que nada tem a ver com esses espíritos. As ameaças vêm de todos os lados, o que torna a trama muito instigante.

As batalhas de Jujutsu Kaisen são um dos seus maiores pontos fortes. O estúdio fez um trabalho fantástico na animação, as cores são vívidas e os movimentos são fluidos. Os episódios são repletos de combates de tirar o fôlego, com movimentos de câmera empolgantes. E, é claro, há o aspecto místico que também torna tudo ainda mais interessante, já que cada feiticeiro jujutsu utiliza a energia amaldiçoada de uma forma.

Se você gosta de boas histórias de ação com um toque mais sério e “assombrado”, Jujutsu Kaisen é a escolha certa. Empolgante, ágil e com personagens cativantes, o anime é uma ótima pedida pra quem busca um bom entretenimento. Apesar de trazer alguns clichês vistos em outros animes do mesmo estilo (notei semelhanças com Naruto, Fullmetal Alchemist, entre outros), Jujutsu Kaisen parece mais prestar uma homenagem ao gênero do que ser um plágio sem personalidade. Recomendo muito!

Título original: Jujutsu Kaisen
Ano de lançamento: 2020
Direção: Sunghoo Park
Elenco: Junya Enoki, Yûichi Nakamura, Yuma Uchida, Asami Seto, Nobunaga Shimazaki, Jun’ichi Suwabe

Resenha: A Troca – Beth O’Leary

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de Teto Para Dois ter sido meu livro favorito de 2020, corri para conferir A Troca, da mesma autora, e hoje conto pra vocês minhas impressões.

Garanta o seu!

Sinopse: Leena Cotton tem 29 anos e sente que já não é mais a mesma. Eileen Cotton tem 79 e está em busca de um novo amor. Tudo de que neta e avó precisam no momento é pôr em prática uma mudança radical. Então, para colocar suas respectivas vidas de volta nos trilhos, as duas têm uma ideia inusitada: trocar de lugar uma com a outra. Leena sabe que precisa descansar, mas imagina que a parte mais difícil será se adaptar à calmaria da cidadezinha onde a avó mora. Cadastrada em um site de relacionamentos, Eileen por sua vez embarca na aventura com a qual sonha desde a juventude. Dividindo o apartamento com dois amigos da neta, ela logo percebe que na cidade grande suas ideias mirabolantes não são tão complicadas assim. Ao trocar não só de casas, mas de celulares e computadores, de amigos e rotinas, Leena e Eileen vão descobrir muito mais sobre si mesmas do que imaginam. E se tudo der certo, talvez destrocar não seja a melhor solução.

Leena Cotton é uma mulher competente, determinada e ambiciosa. Porém, a perda recente de sua irmã mais nova para o câncer ainda causa uma dor emocional intensa, que marca vários aspectos de sua vida. Quando Leena tem uma crise de pânico em uma reunião com um cliente, ela é obrigada por sua chefe a tirar uma licença de 2 meses. É aí que surge uma oportunidade inesperada: ela e sua avó, Eileen, que recentemente foi deixada pelo marido, decidem “trocar de vida” durante aqueles 2 meses. Enquanto Leena iria para a casa da avó no interior e ficaria responsável por suas atribuições junto à comunidade, Eileen iria para o apartamento de Leena em Londres para conhecer novos amores e viver a aventura da qual ela desistiu quando engravidou na juventude. Essa mudança de dinâmica causa transformações profundas não apenas na vida das duas, mas de várias pessoas que as cercam.

Assim como ocorre em Teto Para Dois, em A Troca temos capítulos intercalados entre as duas personagens com narração em primeira pessoa. Isso nos ajuda a conhecê-las mais rapidamente, o que inclui seus pontos fortes e fracos. Leena, por exemplo, é uma mulher que ascendeu na carreira por mérito próprio, sendo inteligente e uma líder nata. Porém, ela também é um pouco mimada e egoísta, o que se reflete em dois aspectos principais: o primeiro é a recusa em conversar abertamente com a sua mãe a respeito de uma mágoa envolvendo a perda de Carla, sua irmã; o segundo é a forma como ela parece desdenhar das tarefas da avó, como passear com o cachorro do vizinho ou liderar as reuniões da Patrulha do Bairro – um grupo formado majoritariamente por idosos que passa mais tempo fofocando do que falando sobre segurança de fato. Felizmente, Leena não demora a perceber que seu jeitão londrino não vai conquistar aquelas pessoas, que são leais umas às outras. Ela também exercita humildade ao entender que determinados aspectos do dia a dia da avó são desafiadores mesmo para alguém como ela.

Eileen, por outro lado, me cativou enormemente. Ela pode ser um pouquinho enxerida? Pode. Mas ela faz questão de cuidar de todos à sua volta com tanto carinho e entrega que é fácil perdoar. Ao chegar em Londres, ela rapidamente fica amiga dos colegas de apartamento e da colega de trabalho de Leena, mas vai além: Eileen consegue conquistar também vizinhos que até então nunca tinham trocado mais de duas palavras com sua neta. E dessa aproximação surge uma ideia que transforma o prédio frio em um ambiente caloroso e hospitaleiro: Eileen funda o Clube dos Grisalhos de Soreditch, utilizando o espaço comum do prédio pra criar um ambiente de convivência voltado a idosos que morem sozinhos em Londres. Esse plot é ainda melhor do que a busca de Eileen por um crush!

As duas protagonistas dividem não apenas a vida, mas também novos interesses amorosos. Enquanto Eileen vive um romance tórrido em Londres, ela também é surpreendida por uma pessoa com a qual não imaginava se envolver (e cuja aproximação eu torci durante cada página!). Leena, por sua vez, tem um namorado escrotíssimo, pedante e presunçoso (e que adora usar as ideias dela no trabalho, o que me causou ranço instantâneo), mas encontra em seu antigo/novo lar uma surpresa para o seu coração.

Existe um terceiro elemento essencial na trama que é a reconexão familiar das mulheres Cotton. Ao voltar para sua antiga cidade, Leena é obrigada a confrontar a situação de sua mãe com o luto. A personagem não entende as escolhas da mãe e a pune por isso com frieza e distância, até que descobre o nível de profundidade da dor de sua mãe. Mas, apesar desse tema se fazer presente ao longo do livro, ele não chegou a me comover tanto. Sinto que faltou intensidade nas emoções, e eu não consegui me sentir verdadeiramente conectada à perda de Carla.

A Troca é um bom livro, daqueles que entretêm e divertem, mas não atingiu todas as expectativas que eu tinha se comparado à minha experiência com Teto Para Dois. Leena não foi uma personagem pela qual me apaixonei, mas felizmente Eileen me cativou o bastante. Isso sem contar os excelentes personagens secundários que, pra mim, deram o brilho ao livro. Vale a pena conferir? Vale muito! Só tente não ir com taaanta sede ao pote para curtir mais a leitura. 😀

Título original: The Switch
Autora: Beth O’Leary
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 352
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