Dica de Série: Eu Nunca…

Oi pessoal, tudo bem?

Nas minhas últimas férias aproveitei para conferir alguns títulos que amigos vinham me indicando na Netflix, e um deles é Eu Nunca… (sim, com reticências rs).

Sinopse: Ela teve um ano complicado. Agora, tudo que essa jovem quer é melhorar seu status social. Será que os amigos, a família e seus sentimentos vão ajudar?

A série acompanha a rotina de Devi, uma adolescente de ascendência indiana que passou por maus bocados no último ano: ela perdeu o pai, seu melhor amigo, subitamente e, devido ao trauma, ficou com as pernas paralisadas por meses. Agora que ela voltou a andar, seu maior objetivo é perder a virgindade e se tornar popular na sua escola, de modo a afastar o estigma de “garota estranha e paralisada”.

eu nunca

Eu Nunca… é uma série bastante engraçada, com episódios de aproximadamente 30 minutos cada. Devi tem duas melhores amigas, a inteligente Fabiola e a criativa Eleanor, que fazem de tudo por ela. O problema é que Devi está obcecada pelo seu crush, Paxton, e ao longo da trama eles vão se aproximando de forma inesperada. Um outro elemento importante nessa equação é o rival de Devi, Ben: os dois competem pelas melhores notas desde crianças, mas aos poucos eles percebem que têm mais em comum do que imaginam.

eu nunca

Uma das principais características de Eu Nunca… é o fato de que Devi é uma personagem imperfeita. Ela age por impulso, magoa as pessoas e pisa na bola muitas vezes com suas amigas. Mas antes de julgá-la, vamos relembrar como é ter 15 anos? Não sei vocês, mas eu cometia vários erros de julgamento na época e também trocava os pés pelas mãos em muitas situações. Isso não quer dizer que Devi não seja irritante, porque ela é (e eu acho que a atuação linear de Maitreyi Ramakrishnan não ajuda em nada nesse quesito). Sua obsessão por Paxton a torna negligente com sua família e amigos e se revela como uma das válvulas de escape da garota para não lidar com o luto pela perda do pai. O interessante, porém, é vê-la amadurecer: conforme Devi é obrigada a lidar com as consequências dos seus atos, ela passa a crescer como pessoa e, no fim das contas, a adolescência é também sobre isso.

eu nunca 3

Outro acerto de Eu Nunca… reside na representatividade. O trio de melhores amigas (Devi, Fabiola e Eleanor) é composto por uma menina indiana, uma negra e uma asiática. Há também uma naturalidade muito grande para lidar com o processo de descoberta de determinada personagem LGBTQI+. Os aspectos culturais da família de Devi também são abordados ao longo da temporada, sendo protagonizados pela própria Devi, sua mãe e sua prima (que mora com elas). O bacana é que a série fala sobre a cultura indiana sem recorrer a estereótipos e, principalmente, sem ser ofensiva – ainda que levante um debate tímido sobre determinadas práticas.

eu nunca 2

Eu Nunca… é uma série muito gostosinha e divertida, daquelas que você dá o play e nem vê o tempo passar. Pra quem busca uma comédia adolescente bacana e respeitosa com diferentes culturas e pessoas, é uma ótima pedida! E o melhor: com poucos episódios curtinhos e uma segunda temporada já confirmada. 😉

Título original: Never Have I Ever
Ano de lançamento: 2020
Criador: Mindy Kaling, Lang Fisher
Elenco: Maitreyi Ramakrishnan, Darren Barnet, Jaren Lewison, Lee Rodriguez, Ramona Young, Poorna Jagannathan, Richa Moorjani, Sendhil Ramamurthy

Resenha: A Última Festa – Lucy Foley

Oi gente, tudo certo?

Um dos lançamentos do ano da Intrínseca foi A Última Festa, um livro que me chamou a atenção por me lembrar de E Não Sobrou Nenhum (um dos meus livros favoritos). Li a obra recentemente e hoje vou dividir com vocês se as expectativas foram atingidas ou não. 😉

resenha a ultima festa lucy foleyGaranta o seu!

Sinopse: Todo ano, nove amigos comemoram o réveillon juntos. Desta vez, apenas oito vão voltar para a casa depois da festa. Programado para acontecer em um cenário idílico, o réveillon que Miranda, Katie e os outros amigos que conheceram na faculdade passarão juntos este ano promete refeições deliciosas regadas a champanhe, música, jogos e conversas descontraídas. No entanto, as tensões começam já na viagem de trem — o grupo não tem mais nada em comum além de um passado de convivência, feridas jamais cicatrizadas e segredos potencialmente destrutivos. E então, em meio à grande festa da última noite do ano, o fio que os mantém unidos enfim arrebenta. No dia seguinte, alguém está morto e uma forte nevasca impede a vinda do resgate. Ninguém pode entrar. Ninguém pode sair. Nem o assassino. Contada em flashbacks a partir das perspectivas dos vários personagens, a história deste malfadado encontro é um daqueles mistérios de assassinato cheio de tensão e de ritmo perfeito. Com uma trama assustadora e brilhantemente construída, A Última Festa planta no leitor a semente da dúvida: será que velhos amigos são sempre os melhores amigos?

Todo ano, um grupo de amigos se reúne para celebrar o Ano Novo. Para a virada de 2018 para 2019, a responsável pela organização é Emma, a membro mais recente do grupo – que entrou para a turma por namorar um dos rapazes, Mark. Na tentativa de fazer uma celebração memorável (afinal, ela sempre se sente uma outsider, já que todos os outros se conhecem desde a faculdade), ela organiza um Réveillon no interior da Escócia, em uma mansão afastada da civilização que promete oferecer uma verdadeira experiência highlander. Contudo, nada sai como o planejado: uma nevasca terrível deixa o grupo isolado, o que inclui os três funcionários da mansão, e uma das pessoas presentes é encontrada morta – mas o leitor não sabe quem.

Essa premissa foi o suficiente para me instigar e, como comentei antes, me lembrou da vibe claustrofóbica presente na obra de Agatha Christie. Os oito amigos, o guarda-caça da mansão (Doug) e a responsável pelas reservas (Heather) se veem presos no ambiente devido à nevasca e, quando uma das pessoas desaparece e é encontrada morta, todos percebem que o responsável está entre eles, dando à trama um clima mais pesado. Isso na teoria, tá gente? Na prática a coisa é bem diferente, e vou explicar porquê.

Desde o início da viagem, percebemos que há algo errado no grupo. À exceção de Emma, como comentei antes, todos se conhecem desde a faculdade, então muitas das conversas e memórias que vêm à tona são dessa época. Fora isso, o grupo não parece ter mais nada em comum. Os capítulos são intercalados entre alguns narradores: antes do desaparecimento, por indivíduos do grupo de amigos; depois do desaparecimento, por Heather ou sob o ponto de vista de Doug. Nos capítulos antes da tragédia fica nítido como existem mágoas não resolvidas e expectativas não atendidas em toda a relação de “amizade” ali presente.

resenha a ultima festa

O que complica e muito a leitura desses capítulos é que nenhum dos personagens do grupo de amigos cativa (sendo honesta, eles são péssimos!). Miranda é o “Sol” do grupo, em torno de quem todos os outros orbitam. Ela é mesquinha, vingativa, egocêntrica e faz questão de que tudo saia do jeito que ela quer. Ao longo do feriado, ela se ressente de Katie, sua melhor amiga, que está mais diferente do que nunca: de visual renovado e personalidade mais independente, ela já não lembra mais a garota que era sua sombra na faculdade. Mas Katie não é flor que se cheire: apesar de transparecer ser alguém que só quer “ficar na sua” e estar na viagem a contragosto, ela se revela uma amiga mentirosa e, em até certo nível, interesseira. Foi muito conveniente usar o prestígio de Miranda enquanto ela era jovem e deslocada, mas agora ela não se digna a dedicar nem um instante do seu tempo àquela que chama de melhor amiga. A terceira narradora mais relevante é a organizadora da viagem, Emma. Ela tem um complexo de inferioridade por ter entrado no grupo por último e coloca Miranda num pedestal: esse combo de características faz dela uma pessoa desesperada por aprovação.

A Última Festa gira muito em torno de saber quando temos que deixar algo pra trás. Ele aborda como nem sempre nossos planos na juventude dão certo quando caímos no “mundo real” e o quão frustrados podemos nos tornar por conta disso. O apego do grupo de amigos é um sintoma dessa incapacidade de abandonar o que já não faz bem e revela uma tentativa desesperada de manter um vínculo que já se perdeu, talvez pelo desejo de manter aquele espírito da juventude vivo, bem como os sonhos da época. Esses temas são bem interessantes, o problema é que são narrados por personagens irritantes e com os quais o leitor simplesmente não se importa (pelo menos essa foi a minha experiência). Para completar, o final me lembrou muito outro livro que li, Bela Gentileza. Isso, somado à sensação de similaridade com E Não Sobrou Nenhum, fez de A Última Festa um livro sem surpresas, pois pareceu que eu já tinha visto tudo aquilo antes, em outras obras. 😦

A Última Festa foi um livro que exigiu um pouco de paciência pra ser terminado. Apesar de ter alguns temas relevantes e relacionáveis, a condução da história foi exaustiva e os personagens me causaram asco. Se você decidir ler, é por sua conta e risco – mas fico na torcida pra que seja uma experiência melhor que a minha.

Título original: The Hunting Party
Autor:
Lucy Foley
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 304
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Review: Mulan

Oi pessoal, tudo bem?

O live action de Mulan vem dando o que falar desde muito antes de sua estreia no Disney+ e, agora que ele chegou à plataforma, vim dividir com vocês meus sentimentos em relação ao filme. 🙂

mulan poster

Sinopse: Em Mulan, Hua Mulan (Liu Yifei) é a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro. Quando o Imperador da China emite um decreto que um homem de cada família deve servir no exército imperial, Mulan decide tomar o lugar de seu pai, que está doente. Assumindo a identidade de Hua Jun, ela se disfarça de homem para combater os invasores que estão atacando sua nação, provando-se uma grande guerreira.

Antes de tudo, acho importante ressaltar que eu acompanhei as notícias ao longo da produção do longa e, portanto, estava com expectativas alinhadas quanto ao fato do filme não ser um musical e não contar com a participação de personagens icônicos como Mushu e Li Shang. Pra quem não sabe do que estou falando, o novo live action da Disney tem um foco muito maior em honrar o público chinês, que vê no uso do dragão (uma figura mega sagrada) como alívio cômico e sidekick um desrespeito. Dito isso, saibam que minha opinião está pautada no filme pelo filme, e não (apenas) na comparação com o original, combinado? 😀

mulan 8

Desde menina, Mulan demonstra algo especial: seu chi é intenso e ela é capaz de manipulá-lo como outras pessoas não o são. Porém, o chi é uma característica atrelada a guerreiros e ela, sendo mulher, deve ocultar tal habilidade e honrar sua família por meio do casamento. A jovem cresce com esse “segredo” e tenta se encaixar nos moldes tradicionais, mas quando cada família é convocada a ceder um homem para a guerra contra os Rourans que se aproximam, Mulan decide tomar o lugar de seu velho pai. Passando-se por um homem, ela treina para se aprimorar como guerreira enquanto busca entender seu verdadeiro papel.

mulan 6

Sabendo que o filme é baseado no conto original de Mulan (que data lá do século VI), eu tentei me manter de coração aberto às novidades, como por exemplo o fato de haver uma mulher chamada de bruxa (apenas porque domina seu chi de maneira excepcional e consegue utilizá-lo como verdadeira magia) e pelo fato de Mulan se diferenciar de seus pares por também demonstrar domínio sobre essa energia. Acontece que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, Mulan foi um filme chato de assistir.

mulan 2

A começar pela protagonista: a atriz que interpreta Mulan é uma versão oriental da Kristen Stewart em Crepúsculo. Ela não demonstra nenhuma emoção, tem zero carisma e me deixou profundamente agoniada com seus golpes no ar que serviam pra ela atirar o cabelo pra longe quando caía no chão, tipo comercial de shampoo. O fato da personagem se destacar devido ao seu chi, e não pelo trabalho duro e pela determinação, também foi outro aspecto broxante: Mulan foi criada para ser uma mulher tradicional, e vê-la rompendo com esses estigmas e se esforçando tanto quanto qualquer homem (e ainda se sobressaindo) era uma das coisas mais poderosas da animação – que aqui perde força porque, apesar do esforço, Mulan tem de fato um aspecto “mágico” que a torna única. A personagem, portanto, se torna menos relacionável com o espectador.

mulan 9

Os vilões são muito mal desenvolvidos, e os Rourans são caricatos e não oferecem uma ameaça que nos faça temer de fato, já que (diferente do desenho) não causam nenhuma perda a nível “pessoal”. Por outro lado, Xian Lang (a “bruxa”) que os auxilia tem mais camadas e representa uma dualidade com a própria Mulan, levando a personagem a se questionar sobre a própria identidade e sobre a injustiça de ter seu chi oprimido porque os outros não sabem lidar com isso. Ela é uma anti-heroína que oferece uma reflexão sobre o machismo que até hoje nos desencoraja de demonstrar todo o nosso potencial enquanto mulheres, e eu diria que essa provocação quanto aos papéis de gênero é o principal ponto forte do filme.

mulan 5

Poderíamos pensar que as lutas seriam capazes de salvar o filme, certo? Errado, pelo menos pra mim. O live action tem uma estética típica de filmes de luta orientais, o que inclui movimentos super coreografados em slow motion. Se você curte essa vibe, talvez curta também esse aspecto do longa. Eu não me identifico nadinha com esse tipo de produção, então fiquei com um pouquinho de vergonha alheia nesses momentos de slow motion. Entretanto, reconheço a importância de contar essa história de uma forma que não agrida a cultura chinesa e ressalto como é importante um filme blockbuster contar com um elenco de fenótipo 100% oriental.

Resumindo, eu diria que Mulan é no máximo um filme nota 6 (numa escala de 10). O maior problema é que ele não se destaca, não arrepia, não emociona. Mesmo sem fazer nenhum tipo de comparação, o live action de Mulan se mostrou uma produção genérica e esquecível, que eu provavelmente não vou assistir uma segunda vez. Espero que ao menos para o público ao qual ele foi destinado tenha sido uma boa experiência.

Título original: Mulan
Ano de lançamento: 2020
Direção: Niki Caro
Elenco: Liu Yifei, Donnie Yen, Jet Li, Gong Li, Yoson An, Jason Scott Lee, Susana Tang, Tzi Ma, Rosalind Chao

 

Review: Estou Pensando Em Acabar Com Tudo

Oi pessoal, tudo bem?

Estava ansiosa para conferir e contar pra vocês o que achei da adaptação do livro de Iain Reid que bugou a minha cabeça, então bora falar a respeito de Estou Pensando Em Acabar Com Tudo? 😂

estou pensando em acabar com tudo

Sinopse: Uma jovem vai com o namorado conhecer os pais dele em uma fazenda remota e embarca em uma viagem para dentro de seu próprio psiquismo.

A trama do filme se inicia como a do livro: uma jovem está viajando com o namorado, Jake, para conhecer os seus pais. Apesar do casal estar dando esse passo importante, a moça passa a viagem inteira pensando que deseja acabar com tudo e romper o relacionamento. Quando os dois chegam na fazenda dos pais dele, a trama ganha um tom aflitivo e claustrofóbico, pois coisas estranhas começam a acontecer: há nítidas mudanças de linha temporal, a protagonista muda de nome e profissão, os pais de Jake aparecem cada vez de um jeito e aparece até uma foto da protagonista quando criança – que logo se transforma em uma foto de Jake.

estou pensando em acabar com tudo 3

Essas mudanças surreais e o tom inquietante delas me lembraram muito da sensação que tive ao assistir Mãe!. Os acontecimentos parecem inocentes, mas você sabe, lá no fundo, que não são. Senti algo parecido durante a leitura também, um receio de que algo muito errado estivesse acontecendo por baixo da superfície, o que me fez temer pelos personagens na época. Acontece que, no filme, o diretor consegue deixar mais claro para o espectador que estamos vendo uma trama que se passa na cabeça dos personagens (ou melhor, de um determinado personagem). As cenas do casal na casa dos pais de Jake se intercala com cenas de um zelador idoso vivendo seu cotidiano, e os paralelos entre as situações servem como pista e também como provocação: o que é real?

estou pensando em acabar com tudo 2

Quando li o livro, a viagem de carro e os diálogos na casa foram a parte mais cansativa da história pra mim, enquanto a perseguição na escola me fez devorar as páginas. Assistindo ao filme, o oposto aconteceu: a viagem de carro e a visita aos pais de Jake deram pistas fundamentais para a compreensão da trama, enquanto o final foi um tanto “wtf?”, apesar de ser compreensível. A partir daqui, há spoilers sobre o final: nesse terceiro ato do longa, fica claro que tudo que vimos até então aconteceu na mente do zelador. De forma fragmentada, ele relembra diversos momentos da sua vida, inclusive pessoas com quem namorou e até relações que não aconteceram (como quando a protagonista diz que nunca interagiu com o homem na noite de perguntas). Isso explica as passagens do tempo dentro da casa de seus pais, e explica também porque a foto da protagonista criança se transforma na foto de Jake criança: os dois são a mesma pessoa, ou melhor, a namorada não existe de fato – é a personificação de um desejo de Jake de ter um relacionamento. Na vida real, ou seja, na trama do zelador, fica nítido que ele é um homem solitário e que observa a vida como um espectador. Na última cena, Jake finalmente encontra a grandeza em sua imaginação, e ele “envelhece” mentalmente todas as pessoas com quem cruzou e de cujo reconhecimento ele gostaria de receber. Fim dos spoilers!

estou pensando em acabar com tudo 4

De forma geral, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo me causou uma sensação parecida com a que senti lendo a obra de origem: boa parte da trama foi cansativa, senti sono, mas quando as engrenagens começam a funcionar e você se pega tentando conectar os pontos, o interesse surge. Entretanto, diferente do livro que me fez amar o final graças à surpresa, o filme não provocou a mesma sensação. É um final muito mais metafórico e cheio de cenas surreais que, para o meeeu gosto, são chatas de assistir. O impacto que tive com a leitura, daquela verdade nua e crua tão “óbvia” sendo jogada na minha cara, não aconteceu. Ainda assim, o filme não é um desperdício de tempo e é uma boa obra de forma geral: as atuações são competentes, a construção do suspense é eficiente e, se você prestar bem atenção, está tudo explicado nas entrelinhas. Vale espiar!

P.S.: que agonia que no título em português eles tiraram o primeiro “Eu” antes de “Estou” rs.

Título original: I’m Thinking of Ending Things
Ano de lançamento: 2020
Direção: Charlie Kaufman
Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd

Dica de Série: Little Fires Everywhere

Oi pessoal, tudo bem?

O post de hoje é pra gente conversar a respeito de Little Fires Everywhere, a minissérie que adapta o livro de mesmo nome (Pequenos Incêndios Por Toda Parte). Bora?

little fires everywhere

Sinopse: Em Little Fires Everywhere, um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos. A dona de casa perfeita Elena Richardson (Reese Witherspoon) aluga a casa de hóspedes à Mia Warren (Kerry Washington), uma artista solteira e enigmática que se muda para Shaker Heights com sua filha adolescente. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.

A trama se passa em um típico subúrbio norte-americano cheio de famílias de classe média abastadas na cidade de Shaker Heights. A chegada de Mia Warren e sua filha Pearl é o ponto de partida para uma sequência de conflitos entre elas e a família de Elena Richardson, que aluga uma de suas casas para as recém-chegadas. A diferença entre as mulheres vai além da questão racial: Mia, além de negra, é uma artista e mãe solo que vive sem criar raízes, o que causa um conflito com a própria filha; Elena é uma mulher que devota a vida aos filhos e ao trabalho de meio-turno como jornalista que ela tenta fazer parecer mais significativo do que de fato é. Ao longo dos episódios, a animosidade entre as duas cresce, especialmente quando elas se veem em lados opostos em uma briga pela custódia de uma criança.

little fires everywhere 3

Little Fires Everywhere fala de muitos temas, como racismo, xenofobia e desigualdade socioeconômica, mas o principal deles é a maternidade. Apesar do abismo que as separa, Mia e Elena têm uma característica em comum: tudo que fazem e tudo que priorizam está relacionado ao amor pelos filhos. E a minissérie torna fácil de enxergar que a maternidade pode ser vista e encarada de múltiplas formas: assim como existem os sacrifícios pessoais que mães são capazes de fazer, existe também egoísmo ao projetar suas expectativas nos filhos.

Elena é a típica salvadora branca, que tenta “ajudar” Mia em sua chegada em Shaker Heights mas não é capaz de entender como sua abordagem (ao oferecer a casa por um preço mais baixo, ao contratá-la como “governanta” – para não chamar de empregada) é ofensiva, sendo uma representação do racismo estrutural. Além disso, ela tem uma relação problemática com a filha mais nova, Lizzie, que foge de todos os padrões de comportamento que Elena espera. Com o desenrolar da trama, entendemos que Lizzie nunca foi desejada, e o peso da maternidade e a responsabilidade em criar 4 filhos afastou Elena de sonhos profissionais e aventuras que ela não teve coragem de viver.

little fires everywhere 4

Mia, por sua vez, é uma mulher cheia de mistérios. Ela não fala sobre seu passado, não divide com Pearl informações sobre seu pai e é bastante reservada. Em nome do desejo de Pearl em ter um lugar fixo para chamar de lar, ela aceita trabalhar meio-turno para os Richardson e alugar a casa deles, ainda que isso exija que ela lide com a condescendência de Elena. A trama ganha intensidade quando sua colega de trabalho em seu segundo emprego, Bebe, revela que foi obrigada a abandonar sua bebê recém-nascida porque não tinha dinheiro para alimentá-la, mas que faria de tudo para tê-la de volta. Mia reconhece a descrição de Bebe na filha adotiva da melhor amiga de Elena e resolve interferir, emprestando dinheiro a Bebe para a abertura de um processo judicial. Esse plot é o que toca o dedo na ferida a respeito da xenofobia, e um episódio ilustra de maneira cirúrgica a diferença que alguns poucos centavos exercem na vida de uma pessoa de cor (Bebe, uma imigrante chinesa) e uma pessoa branca.

little fires everywhere 2

Apesar dos temas relevantes e bem construídos, teve uma coisa em Little Fires Everywhere que não funcionou comigo: a dupla de protagonistas. A Elena de Reese Whiterspoon é uma versão mais fútil de sua personagem em Big Little Lies, enquanto a Mia de Kerry Washington tem uma série de tiques que me deixaram agoniada. Eu não consegui me afeiçoar a nenhuma das duas, e isso é uma das coisas que levo em consideração quando estou consumindo uma obra: é difícil eu me envolver 100% quando os personagens não me causam nenhum tipo de sentimento.

little fires everywhere 5

Fora essa pequena ressalva, recomendo muito que você dê uma chance a Little Fires Everywhere. A trama gira em torno de temas que causam desconforto e fazem o espectador refletir, não utilizando uma abordagem maniqueísta para falar de nenhum desses assuntos. Expondo as fragilidades de famílias “perfeitas”, colocando em xeque nossas crenças sobre maternidade e jogando na nossa cara o racismo estrutural que dá oportunidades muito diferentes aos indivíduos (como é brilhantemente apontado por Mia em um diálogo ácido com Elena), Little Fires Everywhere certamente vai deixar você intrigado e pensativo. Vale a pena! 😉

Título original: Little Fires Everywhere
Ano de lançamento: 2020
Criador: Liz Tigelaar
Elenco: Reese Whiterspoon, Kerry Washington, Lexi Underwood, Joshua Jackson, Megan Stott, Jade Pettyjohn, Gavin Lewis, Jordan Elsass, Rosemarie DeWitt, Huang Lu

Assisti, mas não resenhei #6

Oi pessoal, tudo certo?

Ando numa vibe bem cinematográfica nos últimos tempos, então resolvi explorar um pouco mais as opções disponíveis no Prime Video (todos os filmes da lista, com exceção do primeiro, estão disponíveis na plataforma). Com isso, bora pra mais um Assisti, mas não resenhei recheado de dicas? 😉

Contágio

contagio

Não, essa não é uma adaptação do livro que resenhei aqui no blog, sendo este Contágio um filme de ficção – mas que flerta muito com a realidade. Na trama, um novo vírus letal se espalha rapidamente pelo mundo, e vemos os esforços das autoridades globais e dos cientistas de tentarem entender e combater a pandemia. Pasmem, mas eu assisti a esse filme no primeiro fim de semana do isolamento (masoquista talvez? rs). Acho que na época eu tinha esperanças de que não ficaríamos trancafiados por tanto tempo, mas né… Sabemos que a coisa não se desenrolou dessa forma. 😂 Seja como for, eu adorei o longa! Ele tem um ritmo alucinante e é mega envolvente, ainda mais pra quem curte uma pegada mais “teoria da conspiração” feelings.

A Chegada

a chegada

Eu já tinha vontade de conferir A Chegada desde a época do lançamento, que provocou inúmeras críticas positivas e rendeu a Amy Adams uma indicação ao Oscar. A trama de ficção científica aborda a chegada de alienígenas na Terra, e a personagem de Adams é uma linguista renomada convocada para tentar compreender a mensagem dos visitantes. Com um plot digno de fazer qualquer fã de Dark dar uma bugada, esse filme é um prato cheio tanto pra abordar ficção científica quanto para nos fazer refletir sobre o papel da comunicação na compreensão do outro e sobre a humanidade das nossas escolhas (por mais difíceis que sejam). Recomendadíssimo!

Os Suspeitos

os suspeitos

Outro título que estava na minha lista há muito tempo, Os Suspeitos é um excelente thriller protagonizado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal. O personagem de Jackman tem sua filha sequestrada e, não confiando na atuação da polícia e do detetive responsável pelo caso (interpretado por Gyllenhaal), ele decide agir por si mesmo e punir o suspeito com as próprias mãos. O final é surpreendente!

Ela

ela

Mega renomado, especialmente no cenário cult, Ela trata essencialmente da solidão humana. Ao interagir com uma inteligência artificial avançadíssima, o protagonista acaba desenvolvendo um relacionamento com ela. Ao longo da narrativa, vemos flashbacks do casamento fracassado do personagem e percebemos a desconexão que ele sente com as pessoas à sua volta desde o divórcio. Confesso que achei o filme só “legal” e não fiquei impactadíssima por ele como grande parte das pessoas que conheço ficou. 🤷‍♀

As Duas Faces de um Crime

as duas faces de um crime

Vocês sabem que eu adoro uma trama envolvendo investigação, né? Esse longa, que lançou Edward Norton ao estrelato, narra a história de um advogado de defesa bem-sucedido e arrogante (interpretado por Richard Gere) que decide ajudar um jovem coroinha acusado de matar o bispo da sua congregação. Ao longo da trama vemos toda a reconstrução do que aconteceu, inclusive o aspecto oculto e podre da vida do bispo. O final tem um plot twist incrível, daqueles que te deixam de boca aberta. Vale a pena!

E você, já assistiu a algum desses filmes?
Me conta nos comentários! 😉

Resenha: Modern Love – Daniel Jones

Oi galera, tudo certo?

Vocês sabiam que Modern Love, da Amazon Prime Video, é baseada numa coluna do New York Times? Esse ano foi publicado pela Editora Rocco o livro homônimo, que reúne não apenas as 8 histórias da série, mas inúmeras outras. Vamos conhecer? 😀

livro modern love daniel jonesGaranta o seu!

Sinopse: Algumas das histórias de Modern Love não são nada convencionais, enquanto outras parecem bem familiares. Algumas revelam como a tecnologia mudou para sempre o namoro, outras exploram as lutas atemporais vividas por quem já procurou amor. Acima de tudo, todas constituem relatos honestos que mostram como os relacionamentos começam, como geralmente fracassam e, quando temos sorte, perduram. Organizado pelo editor Daniel Jones, este é o livro perfeito para quem é amado, está perdido ou sendo perseguido por um ex nas redes sociais, ou para aqueles que sempre desejaram um romance verdadeiro. Em outras palavras, uma leitura para qualquer pessoa interessada no funcionamento infinitamente complicado do coração humano.

Modern Love é dividido em 4 partes, focadas em diferentes formas de amor. Entretanto, é importante pontuar que desde a introdução do livro o leitor é avisado de que nem todas as histórias são bonitas e com finais felizes. Existem amores doloridos, amores que não deram certo, amores que mudaram, amores de diferentes tipos. Essa multiplicidade de maneiras de amar torna Modern Love um livro muito real e relacionável, sendo este o primeiro ponto positivo que faz a leitura valer a pena.

E a primeira parte do livro, “Em algum lugar lá fora”, já exemplifica o aviso da introdução: ela conta histórias de relações que não foram para frente ou, quando foram, não necessariamente tiveram seu “felizes para sempre”. As histórias narradas aqui evidenciam que grande parte dos amores não são aqueles vistos em novelas ou filmes, sendo feitos de diferentes formas de viver esse sentimento. Há uma carta que narra a idealização de um rapaz pela namorada (sua própria Maniac Pixie Dream Girl, nas palavras dele); há a reflexão de uma mulher que só quer viver os relacionamentos casuais, mas acaba sofrendo devido a promessas vazias feitas pelos homens com quem se relaciona; e há a minha história favorita dessa primeira parte, que é o material de inspiração para o último episódio da minissérie: “A corrida fica mais gostosa perto da última volta”. Esse capítulo é delicioso e emocionante, mostrando uma relação madura que, apesar de ter a morte como elemento fundamental, não se torna menos importante, feliz ou valiosa.

A segunda parte do livro, “Acho que amo você”, é mais romântica e conta histórias de inúmeros relacionamentos felizes (alguns à primeira vista, outros que sobreviveram aos percalços). Uma história que me surpreendeu bastante foi a de uma mãe que diz que nada supera seu amor pelo marido, nem mesmo os próprios filhos. A maternidade é muito romantizada na nossa sociedade, e eu costumo ser bem crítica disso; entretanto, me vi enfrentando minhas próprias ideias pré-concebidas inconscientes ao me ver surpresa com a narrativa de uma mulher que ama os filhos, mas cujo amor pelo marido é ainda maior. Gosto quando um livro me faz questionar as minhas crenças, e esse capítulo foi interessante por isso. Mas o capítulo que mais gostei foi “Você talvez queira se casar com o meu marido”, escrito por uma mulher com câncer em fase terminal que deseja que seu amado siga em frente após sua partida. Encarar a própria finitude não é uma tarefa fácil, principalmente quando tudo que você gostaria é de mais tempo com quem você ama. Ainda assim, a abnegação da autora em querer que o marido encontre alguém e ame novamente é comovente.

resenha modern love daniel jones

O título da terceira parte, “Segurando firme nas curvas”, já nos dá uma pista do que vamos encontrar: narrativas cheias de desafios, momentos complicados a serem vencidos e a luta para erguer a cabeça e seguir em frente. Os capítulos aqui agrupados focam nas dores e nas adversidades dos diversos tipos de amores que, mesmo imperfeitos, valem a pena ser contados. É nessa parte que está uma das cartas que originou um dos melhores episódios da minissérie, protagonizado por Anne Hathaway: “Aceite-me como eu sou, não importa quem eu seja”. Apesar de menos intensa e emocionante que sua contraparte televisiva, ainda sim é relevante por falar de saúde mental. A história dos Beatles (“Agora eu preciso de um lugar para me esconder”), de uma mãe que perdeu a filha quando ela ainda era criança, foi dolorosa de ler. Mas a resiliência do ser humano é algo inspirador, e essa história traz essa característica com muita delicadeza. Por fim, a quarta parte, “Assuntos de família”, narra principalmente o amor familiar – romântico ou não. E, encerrando o livro, temos a história que dá início à adaptação televisiva, a respeito da amizade entre uma jovem e seu porteiro (eu amo essa história!).

Assim como ocorre na maioria das coletâneas, existem contos melhores do que outros em Modern Love, o que é esperado e natural. Alguns são meio enfadonhos, outros não provocam muita simpatia, mas em compensação existem inúmeros que renovam sua esperança no amor e na humanidade, bem como provocam muita gratidão pelas pessoas que nos cercam. Agora, falando especificamente sobre as 8 histórias que viraram episódios de TV, eu diria que a dramatização nos episódios conferiu um peso bem maior a elas. No livro, os relatos são mais breves e menos aprofundados, não causando a mesma comoção das contrapartes audiovisuais. Além disso, existem no livro histórias muito mais emocionantes do que as escolhidas para a série (eu realmente não gostei de uns 3 episódios, achei cansativos), e vejo um potencial enorme para uma segunda temporada focada em algumas delas.

Resumindo, Modern Love é uma leitura fácil, gostosa e cheia de emoções. O livro me fez sorrir e me fez chorar enquanto me conectava às histórias de vida de pessoas reais que, assim como eu e você, amam, sorriem, se magoam e seguem em frente dando o melhor de si. Vale a pena? Com toda a certeza. ❤

Título original: Modern Love
Autor:
Daniel Jones
Editora: Rocco
Número de páginas: 304
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Disque Amiga Para Matar

Oi gente, tudo bem?

Hoje vim falar a respeito de uma grata e inesperada surpresa que a Netflix me ofereceu: a série Disque Amiga Para Matar (ou Dead to Me, na versão original).

disque amiga para matar

Sinopse: Uma viúva furiosa procura quem estava ao volante do carro que matou seu marido e fica amiga de uma otimista excêntrica – mas ela não é bem o que parece.

Ao perder o marido em um acidente de carro, a sarcástica Jen passa a frequentar um grupo de apoio ao luto. Lá ela conhece Judy, que parece ser seu exato oposto: extrovertida e good vibes. Conforme elas se aproximam, uma amizade surge e elas encontram conforto para suas perdas uma na outra. Acontece que Judy esconde segredos que ameaçam colocar essa relação a perder.

Disque Amiga Para Matar (ou Dead to Me, no original) já me ganhou no trailer. A acidez de Jen contrasta de forma tão gritante com a amabilidade de Judy que é impossível resistir à vontade de conferir como essa amizade vai se desenrolar. Além disso, os segredos de Judy trazem a dose certa de suspense e aflição que fazem você dar play no próximo episódio. A duração curta dos episódios (cerca de 30 minutos) também torna Disque Amiga Para Matar uma série fácil de maratonar, apesar de girar em torno do luto.

disque amiga para matar

Embora seja uma série de comédia, existem diversos momentos emocionantes ao longo das duas temporadas. A dupla de protagonistas carrega um grande peso nas costas: ao perder o marido de forma súbita, Jen se encontra sozinha e perdida, mas com a responsabilidade de manter seus dois filhos em segurança (física e emocional); Judy, por sua vez, tem um histórico de abortos que a separam do sonho de ser mãe, além de uma relação cheia de idas e vindas com Steve, seu ex-noivo. Essas dores unem as duas e rapidamente Judy passa a fazer parte da vida de Jen e sua família. Não são raras as cenas em que vemos a vulnerabilidade da dupla e ficamos com vontade de chorar junto com elas.

disque amiga para matar 4

Aliás, esse é um ponto forte que merece ser exaltado: as atuações de Christina Applegate e Linda Cardellini são maravilhosas e versáteis. Eu só as conhecia de Friends (Christina interpretou Jill, a irmã de Rachel) e Scooby Doo (Linda interpretou Velma) e não fazia ideia do potencial de ambas. Christina Applegate consegue equilibrar o sarcasmo e o gênio difícil de Jen com momentos de fragilidade, enquanto Linda Cardellini traz profundidade e ambiguidade à doçura de Judy. As atrizes têm uma química que funciona perfeitamente, além de esbanjarem carisma.

disque amiga para matar 2

Disque Amiga Para Matar também flerta com assuntos mais sérios. Além de abordar a temática do luto – situação complexa e multifacetada por si só –, existem muitas cenas girl power e exposição de comportamento abusivo ao longo das duas temporadas já disponíveis (com uma terceira temporada final a caminho). Jen e Judy são mulheres fortes, e seus momentos de vulnerabilidade não diminuem essa característica, mas a reforçam. Na segunda temporada, Jen enfrenta uma situação de assédio e tem a coragem de denunciar de cabeça erguida, o que é muito inspirador. Judy, por outro lado, vai revelando aos poucos os sinais de uma relação abusiva que começa na infância e se estende pelos seus relacionamentos afetivos. Apesar de não girar em torno desses temas, a série deixa clara a perspectiva feminina nessas situações. É possível dizer que todo o relacionamento das duas é pautado em três pilares: remorso, cumplicidade e sororidade.

disque amiga para matar 3

Disque Amiga Para Matar é uma comédia que chegou de forma despretensiosa e me fisgou. Com o equilíbrio perfeito de humor ácido, atuações impecáveis e um pouquinho de caos, a série é um entretenimento no qual vale a pena investir o seu tempo. Bora dar o play? 😉

Título original: Dead to Me
Ano de lançamento: 2019
Criador: Liz Feldman
Elenco: Christina Applegate, Linda Cardellini, James Marsden, Sam McCarthy, Luke Roessler

Resenha: O Segredo de Emma Corrigan – Sophie Kinsella

Oi pessoal, tudo bem?

Após uma ótima primeira experiência com chick-lits a partir de Lendo de Cabeça Para Baixo, fiquei ansiosa pra conferir mais obras do gênero. Unindo essa vontade com o desejo de conhecer a escrita da elogiada Sophie Kinsella, nas últimas semanas eu li O Segredo de Emma Corrigan. Bora descobrir o que eu achei?

o segredo de emma corrigan
Garanta o seu!

Sinopse: Emma Corrigan tem alguns segredinhos… Mas quem não tem? Durante uma viagem de avião bem turbulenta, Emma acredita que não sobreviverá aos solavancos, e acaba contando todos – mas todos! – os seus segredos para o homem sentado na poltrona ao lado. Quando a aeronave pousa em segurança, ela pede desculpas ao companheiro de voo pelo desabafo, pensando que nunca mais veria aquele estranho bonitão. No dia seguinte, no entanto, ela descobre que seu colega de viagem era ninguém menos que Jack Harper, um dos fundadores da grande Corporação Panther, empresa na qual Emma trabalha como assistente de marketing. E que seu encontro desajeitado com o milionário a colocaria na maior confusão.

O que você faria se estivesse enfrentando uma turbulência terrível e jurasse de pés juntos que o avião iria cair? No caso de Emma Corrigan, embalada por algumas doses de álcool, a opção escolhida foi tagarelar para o estranho sentado ao seu lado sobre seus segredos pessoais, dos mais bobos até às inseguranças familiares. Ora, mas se você nunca mais vai ver esse homem, não tem nenhum problema, né? Acontece que o avião não cai, Emma segue a vida e, para completar, reencontra o homem – que, por acaso, é Jack Harper, o dono da empresa na qual ela trabalha. Jack tem suas próprias razões para manter o encontro prévio dos dois em segredo, o que Emma encara com gratidão. Acontece que os dois vão se aproximando e a atração física logo fica evidente.

A partir dessa premissa, eu esperava um livro fofo e que me fizesse rir. O que encontrei, entretanto, foi uma história por muitas vezes enervante. A leitura de O Segredo de Emma Corrigan me deixou clara uma coisa: eu já não tenho mais paciência pro estereótipo da mocinha atrapalhada. A Emma é uma mulher infantil. Ela não fala o que pensa e reage de forma boba a diversas situações que pedem uma atitude mais condizente com seus 25 anos. Esse aspecto da protagonista, que é também a narradora, tornou muito difícil pra mim me afeiçoar à história e à própria Emma.

O romance também não flui de uma maneira legal. Jack é o clichê do cara poderoso, mas “humilde”, aquele “chefe legalzão”. A verdade é que, aos meus olhos, Jack não é nada apaixonante: ele manda sinais estranhos pra Emma, critica o (até então) namorado atencioso dela sem nenhuma intimidade pra isso e tem atitudes bastante questionáveis – saindo como vítima ainda por cima, o que me deixou indignada. Além disso, o modo como ele trata a garota nos encontros é simplesmente detestável. Parece que Emma acaba sempre o perdoando por não acreditar que alguém tão bonito e inteligente tenha se interessado por ela, motivação esta que eu acho bastante perigosa.

resenha o segredo de emma corrigan

O aspecto mais interessante do livro foi ver Emma ganhando voz. Tanto no trabalho, no qual ela defende uma ideia audaciosa e perspicaz, quanto em sua conturbada relação familiar, na qual seus pais privilegiam sua prima (adotada por eles) em detrimento de Emma, o leitor percebe que existe evolução no modo como a protagonista lida com os problemas. 

Fora isso, não acontece muita coisa realmente instigante na história. Há o dilema da protagonista sobre amar ou não o atual namorado, os encontros estranhos com Jack e um plot twist que, como em toda comédia romântica, visa separar o casal. Talvez se eu tivesse conhecido a trama por meio de sua adaptação cinematográfica, eu tivesse gostado mais. Agora, na forma de leitura, não senti nada além de “preferia ter investido meu tempo em outra coisa”. Não me sinto confortável em indicar O Segredo de Emma Corrigan, mas acho importante lembrar que aquilo que não funciona para um leitor pode funcionar superbem para outro. Então, se a premissa te despertou curiosidade e você está disposto a arriscar (apesar das ressalvas), vá em frente. 😉

Título original: Can You Keep a Secret?
Autor:
Sophie Kinsella
Editora: Record
Número de páginas: 384
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Resenha: Contágio – David Quammen

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de parecer contraditório após tantas dicas com entretenimento leve pra curtir na quarentena, acabei fazendo uma leitura que pode soar pesada para o momento: Contágio, de David Quammen. Por isso, antes de entrar na resenha propriamente dita, tem uma informação sobre mim que vocês precisam saber: eu sempre gostei muito de Biologia. Quase me formei em Nutrição (e curtia disciplinas como Microbiologia e Parasitologia, por exemplo) e vira e mexe assisto a programas do National Geographic ou do Animal Planet. Espero que isso ajude a entender por que decidi ler um livro chamado Contágio em plena pandemia de coronavírus rs. Introdução feita, bora pra resenha!

contagio david quammenGaranta o seu!

Sinopse: Em Contágio, publicado originalmente em 2012, David Quammen demonstra que havia consenso entre os especialistas sobre as características de uma próxima pandemia: o causador seria um vírus novo aos humanos, atingiria primeiro algum tipo de animal selvagem, como um primata ou um morcego, e seria altamente mutável, ao estilo de um vírus influenza ou de um… coronavírus. Escrito com ritmo de tirar o fôlego, o livro investiga os patógenos responsáveis pelas grandes epidemias da história — entre elas, a gripe espanhola, a aids, o ebola e a SARS — e os desafios que elas representam para os seres humanos. Quammen antecipa vários dos embates que enfrentamos hoje, indicando que temos muito o que aprender com os surtos pregressos para combater a atual pandemia. Como afirmou em uma entrevista recente: “Seja uma catástrofe ou algo que consigamos controlar, uma coisa que sabemos sobre essa nova pandemia é que não será a última”. Esta edição inclui um texto de Quammen publicado em 2020 no New York Times sobre o novo coronavírus.

Contágio (não confundir com o filme homônimo, fictício) é um livro de não-ficção escrito pelo escritor de ciência, natureza e viagens David Quammen, cujos textos já foram publicados na National Geographic, Rolling Stone, entre outros títulos importantes. O livro é dividido em capítulos focados em doenças zoonóticas (ou seja, de origem animal) distintas, responsáveis pelas maiores epidemias já enfrentadas. Esses capítulos contam com subcapítulos, nos quais o autor discorre sobre cada patologia: o surgimento dela, os locais onde houve picos, os estudos conduzidos por cientistas que fizeram a diferença e diversas explicações sobre como doenças infecciosas agem. Hendra (descoberta na Austrália), Ebola (endêmica em certos países da África), Malária (transmitida por um vetor) e HIV (cuja origem foram os chimpanzés) são alguns exemplos de doenças infecciosas descritas e explicadas em Contágio.

De modo geral, a leitura é acessível para leigos, e você se sente lendo uma grande matéria jornalística a respeito do assunto. Contudo, apesar de em geral não ter uma narrativa complexa, um aspecto negativo da leitura é que com frequência o autor é repetitivo nos subcapítulos, dizendo de formas diferentes a mesma coisa (talvez para facilitar a compreensão de leitores menos habituados a esse assunto). Sem esse recurso, provavelmente Contágio ganharia agilidade. Contudo, de maneira geral a estrutura narrativa do livro é bastante envolvente: o autor vai criando uma timeline dos eventos e consegue inclusive criar cliffhangers instigantes para as informações que estão por vir.

O autor também relata em detalhes ao longo das páginas sobre o processo investigativo quando surge uma nova doença. Desde pesquisas de campo em meio a florestas tropicais até à reconstrução da linha do tempo a partir do paciente zero são etapas complexas e arriscadas que muitas vezes levam os próprios profissionais a ficarem doentes e/ou falecerem. Esse comprometimento com a agilidade na busca pela solução do problema e pela compreensão do novo são o que nos permitem ter respostas mais rápidas às pandemias (o Covid-19, por exemplo, foi identificado pouco mais de um mês após seu surgimento, em dezembro de 2019). Depois de ler sobre todos esses processos (existem doenças que levaram duas décadas para serem compreendidas, sabe!) eu fico ainda mais abismada com a desvalorização da ciência.

resenha contágio david quammen

Contágio tem como objetivo explicar as origens e as consequências de importantes zoonoses, ou seja, doenças transmitidas de um animal para um humano, normalmente de modo acidental. E um ponto importante nesse processo, o fator comum às pandemias, reside no fato de que grande parte desse contágio é causado pela invasão humana à natureza, bem como predação de animais selvagens. A falta de equilíbrio ecológico, causado por queimadas, árvores derrubadas para plantio, caça a animais silvestres, entre outros fatores, saltou aos meus olhos como um grande problema responsável pela variedade de doenças às quais estamos suscetíveis. Evoluímos rapidamente em termos de tecnologia e conhecimento, mas a verdade é que existe uma infinidade de coisas que ainda não sabemos (e a pandemia do coronavírus é uma prova do perigo ao qual estamos expostos a micro-organismos ainda desconhecidos).

Com isso, fica evidente a necessidade de repensarmos nosso modo de vida e de consumo. O jeito que a sociedade se estrutura hoje não é compatível com um futuro sustentável e saudável. A pandemia de Covid-19 não foi uma surpresa total para os estudiosos da área, porque na verdade eles compreendem que a Próxima Grande Pandemia sempre está a um passo de acontecer – basta que um vírus ou bactéria “salte” para um ser humano (ou seja, faça um spillover, termo que designa o pulo de um animal hospedeiro para outro, no qual o patógeno também consegue se desenvolver). Pode ser por meio de um contato com uma árvore derrubada, com um animal morto na floresta ou proveniente do comércio de carne, mas a iminência de uma nova pandemia está à espreita.

Por mais que esse fato possa parecer sensacionalista e/ou assustador, é um assunto necessário. Acho praticamente impossível ler Contágio sem, no mínimo, refletir um instante sobre nossos hábitos de consumo. Não digo que você vai se tornar vegetariano ao fechar o livro. Mas quem sabe você vire. A questão é que, no mínimo, Contágio instiga o leitor a refletir sobre o nosso papel no ecossistema, e deixa uma mensagem muito clara: estamos todos juntos nisso. Não podemos esquecer de que também somos animais – porém, muito mais destrutivos e em total desequilíbrio com os outros que habitam o planeta. A leitura de Contágio nos relembra que somos um elo dessa grande corrente, e não necessariamente o mais importante. Nos resta ter humildade pra entender que somos um fragmento do ecossistema e que, se não buscarmos mais equilíbrio nas nossas relações, não podemos garantir nossa longevidade enquanto espécie.

Título original: Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic
Autor: David Quammen
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 492
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.