Resenha: Siga Em Frente – Austin Kleon

Oi pessoal, tudo bem?

Siga Em Frente é o livro mais recente de Austin Kleon, que ficou famoso com Roube Como Um Artista, e hoje vim contar pra vocês como foi minha experiência com ele. 😉

siga em frente austin kleonGaranta o seu!

Sinopse: A vida criativa não é uma jornada linear em direção a uma linha de chegada, ela é como um loop – portanto, encontre uma rotina diária, já que hoje é o único dia que importa. Desconecte-se do mundo para conectar-se a si mesmo – e às vezes você só precisa mudar para o modo avião para que isso aconteça. SIGA EM FRENTE celebra as atividades ao ar livre e incentiva pequenas escapadas, nem que seja apenas para um passeio curto (como o diretor Ingmar Bergman disse à filha: “Os demônios odeiam ar fresco”). Preste atenção e, principalmente, preste atenção no que você presta atenção. Preocupe-se menos em terminar as coisas e preocupe-se mais com o valor do que você está fazendo. Foque menos em deixar sua marca nas coisas, trabalhe mais para deixar as coisas melhores do que estavam quando você as encontrou. SIGA EM FRENTE traz princípios éticos, atemporais e práticos para aqueles que tentam manter uma vida produtiva e significativa.

Apesar de não ter lido os livros anteriores do autor, fiquei bem animada por ter a chance de conferir Siga Em Frente. O livro é dividido em 10 capítulos com conselhos para quem está buscando motivação para viver uma vida mais criativa, e eu acho que estou num momento muito propício para refletir sobre assunto – tanto na minha vida profissional quanto aqui no blog.

Um dos pontos mais marcantes do livro é que ele nos relembra de que está tudo bem não ser criativo o tempo todo e que faz parte vezes perdermos o rumo. Com uma narrativa irreverente e dialogada, Siga Em Frente causa a sensação de que estamos debatendo sobre a vida com um amigo na mesa do bar ou tomando um café. E o tema dessa conversa é, em essência, focar no nosso propósito. Para isso, é de suma importância encontrarmos nossa “estação da bem-aventurança”, que o autor descreve como um espaço físico ou um período de tempo na rotina dedicado a nos conectarmos a nós mesmos. Temos falado muito sobre autocuidado em 2020 e acho que um bom exercício pra isso é buscar essa nossa estação da bem-aventurança: seja um tempinho produtivo quando você acorda ou um espaço da sua casa dedicado aos seus projetos e à sua rotina.

Outro conselho que dialogou diretamente com o que eu penso é o de tomarmos cuidado com métricas de vaidade. Austin Kleon nos convida a olhar com cuidado para os números por si só: eles não dizem se alguém amou tanto seu trabalho que indicou pros amigos, se ficou pensando nele, se mexeu internamente com suas emoções. E, já que estamos falando de sentimentos, ainda nesse assunto Austin Kleon problematiza a mercantilização das nossas paixões. No sistema capitalista em que vivemos é muito fácil querer monetizar nossos hobbies ou até mesmo elogiar alguém dizendo que o que essa pessoa faz é tão bom que poderia ser vendido. Mas nem tudo precisa ser a respeito de lucro – podemos produzir apenas pelo prazer de trazer algo ao mundo. A minha escolha de foto pra ilustrar esse post não é à toa: eu sempre amei desenhar e por muito tempo parei de fazê-lo porque achava que não era boa o bastante pra ser profissional. Aí 2020 chegou e me fez ver uma coisa: quem disse que preciso ser? Foi maravilhoso me reconectar a essa parte de mim que ficou tanto tempo adormecida. ❤

Siga Em Frente também é uma obra que encoraja a mudança. Eu sou uma pessoa que tem dificuldades de lidar com o imprevisto, mas me senti acolhida pela forma como o autor nos faz repensar esse medo do desconhecido. Austin Kleon nos incentiva a acolher essas possibilidades que o novo traz, pois o trabalho criativo reside nesse não-saber, reside na nossa adaptabilidade e também no fato de que não sabemos onde o processo vai nos levar. E, para lidar com essa incerteza, temos um recurso poderoso: a esperança.

Siga Em Frente é aquela leitura rápida, fácil e leve que proporciona momentos de reflexão e otimismo. Por mais que os conselhos possam parecer lugares-comuns, a maneira como Austin Kleon divide seus pensamentos com o leitor faz com que seja muito fácil se conectar ao que ele diz. É um livro que atende ao que se propõe e o qual recomendo pra todos que precisam de uma boa dose de incentivo pra viver uma vida mais criativa e fiel a seus próprios valores. =)

Título original: Keep Going: 10 Ways to Stay Creative in Good Times and Bad
Autor:
Austin Kleon
Editora: Rocco
Número de páginas: 224
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Review: O Dilema das Redes

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de já ter estreado na Netflix há um tempinho, ainda acho que vale a pena falar sobre O Dilema das Redes. Vamos conhecer?

Sinopse: Especialistas em tecnologia e profissionais da área fazem um alerta: as redes sociais podem ter um impacto devastador sobre a democracia e a humanidade.

Intercalando entrevistas de pessoas responsáveis pelas redes sociais que conhecemos hoje e dramatizações de uma família comum que, assim como a gente, tem acesso ao mundo conectado, O Dilema das Redes revela muito do processo de captura de dados e do uso deles para nos impactar com anúncios mais precisos, conteúdos relacionados às nossas pesquisas, postagens que conversem com nossas crenças, entre outros. Os entrevistados no documentário são pessoas que ajudaram a construir esses algoritmos no Google, no Facebook, no Instagram e outras plataformas, portanto sabem bem quais são os objetivos dessas companhias com o uso de dados. Quem trabalha com marketing digital, como é o meu caso, sabe o quanto essas informações são relevantes para planejar publicidade segmentada. Nesse caso, talvez o choque com o que foi apresentado em O Dilema das Redes seja menor, mas ainda assim a produção da Netflix acende um alerta e nos relembra desse assunto – já que em meio ao dia a dia é fácil esquecer.

O mais perturbador foi pensar no “efeito bolha” que a gente fala tanto, mas não reflete sobre. O Dilema das Redes levanta o questionamento de que as redes sociais como funcionam hoje são uma ameaça à própria democracia: ao nos impactar cada vez mais com opiniões alinhadas às nossas, as redes nos deixam cada vez mais presos às nossas bolhas e o mundo adquire um caráter muito mais polarizado, já que grupos divergentes não dialogam. E nem precisamos pensar na realidade estadunidense pra vislumbrar esse risco: no Brasil também temos discursos polarizados que colocam as pessoas em caixinhas extremamente distantes.

O documentário também fala sobre a construção dificultada da autoestima e o quão abaladas as gerações que já nasceram conectadas podem ficar. Desde muito cedo os jovens são expostos a influencers perfeitos, filtros que modificam o rosto e ao anonimato da internet, estando suscetíveis a inseguranças e bullying. Conseguir racionalizar o uso do Instagram, por exemplo, é um desafio, já que é uma rede social que lucra com a venda de vidas perfeitas.

O Dilema das Redes tem alguns momentos meio sensacionalistas, mas a provocação num geral é válida e pertinente. Eu trabalho diretamente com conteúdo e redes sociais e dificilmente vou conseguir me afastar totalmente desse universo por conta disso, mas tenho tentado ser cada vez mais consciente no uso, tanto no que diz respeito ao tempo passado nas redes sociais quanto que tipo de conteúdo eu consumo nelas. Recomendo O Dilema das Redes pra todo mundo (profissional da comunicação/marketing ou não) que tenha interesse em entender mais sobre como esse universo de algoritmos, recomendações e anúncios funciona. Alguma reflexão o documentário vai te provocar.

Título original: The Social Dilemma
Ano de lançamento: 2020
Direção: Jeff Orlowski
Elenco: Tristan Harris, Jeff Seibert, Bailey Richardson, Joe Toscano, Sandy Parakilas, Guillaume Chaslot

Resenha: Sobre Amor e Estrelas (e Algumas Lágrimas) – Daniel Bovolento, Pam Gonçalves e Solaine Chioro

Oi gente, tudo bem?

Eu sou fã da Pam Gonçalves e queria muito ler algum dos livros dela. Em outubro essa oportunidade chegou: a Editora Rocco me mandou um exemplar de Sobre Amor e Estrelas (E Algumas Lágrimas), o primeiro volume de uma coleção baseada em signos. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Nicolas não acredita em astrologia, mas sabe que está vivendo o pior inferno astral de sua vida. Cheio de dúvidas sobre o futuro, o libriano embarca para São Paulo visando uma bolsa de estudos e pode ser que se depare com a mudança que precisava: a chegada da Era de Peixes. Diana abraça suas características intensas de escorpiana. O que muitos entendem como mistério é uma grande dificuldade de se expressar ou perdoar. A psicóloga recomenda que escreva um diário, confiando a ele seus mais profundos sentimentos, e assim a garota vai começar a entender um pouco de si mesma e de seus relacionamentos amorosos. Não há nada que Cléo goste mais do que o frio na barriga de se apaixonar, e ela e a melhor amiga analisam no horóscopo todas as chances de um final feliz. A dificuldade é encontrar alguém que retribua com tanta sensibilidade os sentimentos da canceriana. Sobre amor e estrelas (e algumas lágrimas) é o primeiro volume da coleção Sobre amor e estrelas, que reúne histórias de amor inspiradas em astrologia escritas por autores nacionais. Este volume engloba os signos de água: peixes, escorpião e câncer.

Esse primeiro volume é focado nos signos de Água e têm como protagonistas um libriano (que se envolve com um pisciano, que seria o representante do elemento Água), uma escorpiana e uma canceriana. Foi muito fácil ler Sobre Amor e Estrelas, porque todos os contos têm uma narrativa leve e pouco descritiva. As três histórias são narradas em primeira pessoa por jovens na faixa etária entre a adolescência e o início da vida adulta com dilemas bastante condizentes com a fase da vida em que estão: Nicolas está numa maré de azar após o término com seu primeiro namorado, Diana não consegue expressar seus sentimentos com o vai e vem no relacionamento dos pais e em relação ao seu interesse amoroso e Cléo precisa vencer a timidez para se declarar para um veterano da faculdade. O problema é que existe um quê de infantilidade em todos os personagens que tornou a leitura um pouco cansativa pra mim.

Em A Era de Peixes (conto do Nicolas), eu achei o personagem querido, mas completamente alheio a problemas de verdade. Eu sei bem que um coração partido dói, mas não sei se tenho mais saco pra quem acha que isso é o fim do mundo. 😂 Além disso, ver um personagem com 19 anos na cara ganhando mesada é algo que eu tenho ranço, pessoalmente falando. Mas isso é super particular meu, ok? Vocês podem ler e não sentir implicância alguma. O lado bom desse conto é que o final é aberto de um jeito muito bacana. Não costumo curtir esse tipo de desfecho, mas nesse caso o desfecho combina totalmente com a história e traz um sopro muito bem-vindo de otimismo e empolgação em relação ao futuro. 

Tudo o Que Posso Esconder (conto da Diana) era o que eu mais queria conferir. A Pam não me decepcionou e escreveu uma história bacana. Porém, fiquei muito mais interessada na relação de Diana com os pais no que na relação dela com o crush boy lixo. É como se tivesse um potencial desperdiçado ali, sabem? Em contrapartida, tem uma questão muito legal nesse conto que é o modo como a bissexualidade aparece: ela é tratada com muita naturalidade, sendo apenas uma dentre várias características do crush dela, e não algo no qual a trama gire em torno. E, pra concluir, um aspecto curioso nesse conto foi o fato de que senti muito da Pam na Diana, como se ela tivesse sido o molde para a personagem. Várias características que a Pam já falou sobre si mesma nos Stories, por exemplo, coincidem com Diana, o que me faz pensar que a personagem é um reflexo da autora (ainda que em partes). Me pergunto se foi intencional, seria uma curiosidade legal de saber.

O terceiro conto, O Efeito Zodíaco (da Cléo) foi o de que menos gostei. Cléo é uma garota tímida que recém entrou na faculdade e quer muito conquistar um vetereno. Pra atingir esse objetivo ela conta com a ajuda do irmão da sua melhor amiga e, como um bom clichê, percebe que está investindo no cara errado. Meu ranço aqui reside na infantilidade de Cléo: ela é muuuito bobinha e me transmitiu uma sensação de ser meio deslocada do mundo real. Por outro lado, como aspecto positivo, aqui também há naturalidade ao inserir a bissexualidade na história.

Sobre Amor e Estrelas (E Algumas Lágrimas) não foi uma experiência ruim, mas também não foi extraordinária. É um título bacana pra quando você precisa de uma leitura leve e despretensiosa. O ônus disso é que, em geral, esse tipo de livro traz histórias que não marcam. Mas pra passar o tempo são muito bem-vindas. 😉

Título original: Sobre Amor e Estrelas (E Algumas Lágrimas)
Série: Sobre Amor e Estrelas
Autores:
 Daniel Bovolento, Pam Gonçalves e Solaine Chioro
Editora: Rocco
Número de páginas: 208
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Peso do Pássaro Morto – Aline Bei

Oi gente, tudo bem?

O post de hoje é sobre uma leitura que mexeu muito comigo recentemente: O Peso do Pássaro Morto. Peguem os lencinhos!

o peso do passaro morto aline beiGaranta o seu!

Sinopse: A vida de uma mulher, dos 8 aos 52, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem, uma geração após a outra. Um livro denso e leve, violento e poético. É assim O peso do pássaro morto, romance de estreia de Aline Bei, onde acompanhamos uma mulher que, com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita.

Contando a história de uma mulher dos 8 aos 52 anos de forma poética e reflexiva em primeira pessoa, O Peso do Pássaro Morto nos transporta para a mente e para o coração dessa personagem que desde o início da vida foi marcada pela dor. O primeiro capítulo se passa quando ela é uma menina de 8 anos, e a linguagem lúdica transmite o raciocínio imaginativo de uma criança. Essa inocência não demora a sofrer um baque ao ser exposta a duas perdas que vão marcar a sua vida: a de Seu Luís, um benzedeiro que cuidava dela e de sua família, e de sua melhor amiga, Carla. A protagonista conhece a solidão cedo demais e, na ausência de sua amiga, ela se vê numa escola nova, sem amigos e sem nenhum referencial de beleza e alegria que tinha até então. Pensar (e sentir, por meio da narrativa) em uma criança sofrendo isso já é suficiente para nos deixar de olhos marejados.

Mas a tristeza da protagonista não acaba nesse momento. Aos 17 ela é marcada por uma violência sexual que redefine toda a sua vida: ela é estuprada, não tem coragem de dizer o que aconteceu, se vê grávida e dando à luz o filho do homem que destruiu os seus sonhos e o seu futuro. Conforme os capítulos (ou seja, os anos) se passam, ela divide com o leitor as suas angústias e percebemos que nada do que ela planejava se realizou: se ela pretendia ser uma aeromoça e conhecer o mundo, agora ela se vê presa a um escritório tendo que sustentar sozinha o filho que ela nunca quis. E essa rejeição é um dilema e uma dor com a qual ela convive todos os dias.

Conforme Lucas, seu filho, cresce, vai ficando mais nítido que o afastamento dele para uma universidade é um alívio para ambos. A conexão entre os dois nunca aconteceu e, por mais que ela se esforce, a verdade é que olhar para Lucas é lembrar da sua agressão. Sua vida foi marcada por tragédias e a maior delas é ter um filho que ela nunca conseguiu amar. A melancolia presente nesse fato é sufocante, e a gente torce com todas as forças para que a protagonista consiga encontrar alguma fonte de esperança na sua rotina. E a esperança vem na forma de um cachorro vira-lata que ela decide adotar, Vento. Ao lado dele a vida ganha cor de novo e os dias são marcados pelo amor que ela nunca sentiu. São nessas páginas que a narradora (e o leitor) sente um pouco de alívio frente a todas as tristezas que inundam as páginas.

resenha o peso do passaro morto

O Peso do Pássaro Morto é um relato poético e melancólico das mazelas da vida de uma mulher que, desde muito cedo – cedo demais –, teve tudo tirado de si. A inocência, os sonhos, a vontade de viver. A morte ao seu redor e a morte da sua própria essência marcam cada linha do livro, e nossa protagonista de fato parece um passarinho que caiu da árvore sem sequer ter a chance de voar. É muito difícil não derramar algumas lágrimas conforme as páginas avançam, porque além do realismo presente nelas, nos deparamos também com uma grande sensibilidade pra narrar tanto desalento.

Eu amei a experiência de ler O Peso do Pássaro Morto, mas entendo também que ele não seja um livro pra qualquer momento. Eu acho inclusive que escolhi um momento complicado para lê-lo, e fiquei triste por alguns dias após terminá-lo. Então meu conselho é que você dê uma chance a essa leitura quando se sentir emocionalmente forte e menos vulnerável, pra que essa experiência não seja mais triste do que precisa ser. E, quando esse momento chegar, leia O Peso do Pássaro Morto. É um livro do qual é impossível esquecer.

Título original: O Peso do Pássaro Morto
Autora: Aline Bei
Editora: Nós
Número de páginas: 168
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Dica de Série: Bom Dia, Verônica

Oi pessoal, tudo bem?

Lembram da minha resenha não muito satisfeita de Bom Dia, Verônica? Hoje vim contar pra vocês minhas impressões sobre a adaptação da Netflix e comentar um pouquinho sobre as diferenças entre as duas versões.

Sinopse: Uma policial investiga um predador sexual e acaba descobrindo um casal com um segredo horrível e um esquema de corrupção sinistro.

Após presenciar um suicídio na delegacia em que trabalha, a escrivã da Polícia Civil Verônica Torres assume uma missão pessoal de ajudar a vítima, que foi enganada por um estelionatário. Ao longo do processo, Verônica também se vê engolida por um caso de violência doméstica que coloca a sua vida (e a de sua família) em risco, já que o agressor é um membro importante da Polícia Militar. Determinada a ajudar Janete, a mulher que lhe pediu ajuda por sofrer nas mãos do marido, Verônica se expõe a todo tipo de risco e acaba descobrindo um grande esquema de corrupção.

Quem leu o livro ou a resenha já percebeu que essa última frase evidencia uma mudança considerável na trama da Netflix: enquanto no livro Verônica se concentra às escondidas em solucionar o caso de Marta Campos (a moça que se suicidou) e Janete Brandão (a vítima de violência doméstica), na série a protagonista tenta convencer seus superiores a ajudá-la e, com isso, ela acaba descobrindo um esquema de corrupção muito maior do que ela pensava – sendo um gancho óbvio pra uma season 2. Na minha opinião, o fato de Verônica buscar o apoio do delegado é um ponto a favor da série, pois no livro uma coisa que me irritou demais foi o fato de Verônica agir de modo “justiceiro” e irresponsável, causando mortes e situações de risco desnecessárias.

E a maior mudança das páginas para a tela reside justamente na personalidade de Verônica. Enquanto no livro ela é infiel, egoísta, irresponsável e ególatra, na série as coisas são um pouquinho mais maniqueístas. A versão televisiva da personagem é praticamente uma super-heroína, preocupada não apenas com as mulheres que deseja vingar ou defender, mas também com a sua família. Se no livro Verônica mal dá atenção aos filhos, na série ela faz de tudo por eles. Não dá pra ignorar essa mudança do ponto de vista da representação social: uma protagonista que faz de tudo para ser uma mãe exemplar é muito mais palatável à audiência do que uma mulher que coloca os próprios interesses em primeiro lugar, como ocorre no livro. Mas, mesmo tendo consciência dessa problemática, preferi a Verônica da série, porque a do livro é intragável pra mim. 😛

As atuações são espetaculares, assim como a produção. A Netflix caprichou e Bom Dia, Verônica veio para mostrar o potencial de produções brasileiras. Tainá Müller faz um ótimo trabalho oscilando entre os momentos de força e vulnerabilidade de Verônica, mas as grandes estrelas da série são Camila Morgado, no papel de Janete, e Eduardo Moscovis, no papel de Brandão. Houve modificações na personalidade de Janete: ela visivelmente teme o marido e não se sente confortável com ele, o que Camila Morgado transparece tanto no olhar quanto na postura física encolhida e tensa. Se no livro a personagem é completamente apaixonada por Brandão, na série ela o teme. Já Eduardo Moscovis fez um excelente trabalho em mostrar a montanha-russa causada pelo ciclo agressão > lua de mel > agressão. Variando de expressões faciais suaves e voz doce para explosões de agressividade, o modo como o ator e a série retrataram relacionamentos abusivos e violência doméstica foi bastante impactante.

Os temas abordados em Bom Dia, Verônica são pesados. Apesar de ser bem menos gráfica que as descrições literárias de Raphael Montes e Ilana Casoy (especialmente no que diz respeito às cenas de tortura), a série ainda assim causa desconforto e vontade de desviar o olhar. Mas, felizmente, ela não romantiza a violência doméstica, evidenciando o horror desse tipo de situação. Como ponto negativo da trama, ressalto a falta de contexto sobre o passado de Brandão, que é um aspecto bem interessante do livro (não para expiar seus crimes, mas para que suas atitudes ritualísticas ganhem um sentido mais profundo).

Bom Dia, Verônica é uma série de cenas fortes e desconfortáveis, que traz o relacionamento abusivo e as fragilidades do sistema policial e de justiça como temas principais. Bem produzida e com atuações muito competentes, é uma série que não deve em nada para tantos outros nomes gringos que fazem sucesso por aqui. Se você não tem estômago fraco e curte esse estilo de trama, vale a pena dar o play.

Título original: Bom Dia, Verônica
Ano de lançamento: 2020
Direção: José Henrique Fonseca
Elenco: Tainá Müller, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Antônio Grassi, Elisa Volpatto, Silvio Guindane, Adriano Garib, César Mello

Resenha: A Paciente Silenciosa – Alex Michaelides

Oi pessoal, tudo bem?

Se tem um gênero que eu tenho lido com frequência este ano é o meu queridinho: isso mesmo, thriller. E recentemente aproveitei pra conferir um livro que causou bastante rebuliço na blogosfera, A Paciente Silenciosa. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Alicia Berenson escreve um diário para colocar suas ideias em ordem. Ele é tanto uma válvula de escape quanto uma forma de provar ao seu adorado marido que está bem. Ela não consegue suportar conviver com a ideia de que está deixando Gabriel preocupado, de que está lhe causando algum mal. Alicia Berenson tinha 33 anos quando matou seu marido com cinco tiros. E nunca mais disse uma palavra. O psicoterapeuta forense Theo Faber está convencido de que é capaz de tratar Alicia, depois de tantos outros falharem. E, se ela falar, ele será capaz de ouvir a verdade?

Alicia Berenson é uma artista que, após ser encontrada junto ao corpo do marido, foi presa em uma instituição psiquiátrica. Além da brutalidade da morte, o que mais provocou frisson na mídia foi o fato de que Alicia não falou uma única palavra sobre o acontecido (nem mesmo para se defender). Do momento em que foi encontrada em diante, Alicia permaneceu muda, transformando-se em um verdadeiro mistério. E é esse mistério que nosso narrador, o psiquiatra Theo Faber, quer desvendar. Completamente fascinado pelo caso da jovem artista, ele consegue um emprego na instituição em que ela está cumprindo sua pena, conseguindo a chance de tentar se aproximar dela e desenterrar segredos há muito ocultos.

A Paciente Silenciosa se divide entre capítulos narrados por Theo e transcrições de um diário que Alicia mantinha. E já aviso que o livro começa de forma impactante: iniciamos com um trecho do diário em que Alicia deixa claro o quanto ama seu marido e que pretende registrar somente os momentos bons de sua vida com ele. No capítulo seguinte, já narrado por Theo, descobrimos que Alicia matou o marido. VRÁ! Essa transição na narrativa me deixou impressionada e causou grandes expectativas para o decorrer da obra. Algumas foram atingidas, outras não.

Desde o início da história eu pensei que havia algo de errado com a postura de Theo. Ele tem um certo nível de obsessão com a história de Alicia que me fez pensar que ele não estava preocupado com o bem-estar da paciente, mas sim com sua própria curiosidade (e ego). Além disso, em alguns capítulos ele conta sobre sua vida pessoal e seu casamento, e nesses trechos também fica evidente que ele não sabe manter um relacionamento saudável. Com isso, por mais que Theo tente transparecer as melhores intenções, não consegui me conectar com ele – já que me mantive desconfiada quanto ao seu caráter a leitura toda.

Alicia, por outro lado, é como um lago profundo em que você não consegue ver além do óbvio, da superfície. Nosso único contato com sua mente se dá por meio do diário, que não revela nada além de amor e carinho pelo marido. Esse abismo entre o que ela narra e o que de fato aconteceu é o que mantém o leitor curioso, querendo entender qual foi o estopim que a levou ao assassinato – se é que, de fato, ela o cometeu (já que ela nunca disse nem que sim, nem que não). Entretanto, o livro ganha um quê de romance policial quando Theo inicia uma jornada fora do expediente para descobrir mais detalhes da vida de Alicia, procurando pessoas-chave do seu convívio para entrevistar (alô, Conselho de Medicina, corre aqui!).

Brincadeiras à parte, a história de A Paciente Silenciosa é bem envolvente, mas o desenrolar foi um pouco cansativo e não trouxe aquela bomba que a transição do prólogo pro primeiro capítulo trouxe. Fiquei esperando o tempo todo ser surpreendida novamente com aquela sensação, mas isso não aconteceu. Theo é um narrador tedioso, antiético e que fica tentando se (e nos) convencer de que o que ele faz está certo. Existe também um fator de previsibilidade: eu saquei o que viria pela frente enquanto fui lendo um capítulo decisivo, que dá todas as pistas pra desvendar o mistério. Mistério esse que eu esperava que fosse se desenvolver por um caminho mais psicológico, mas foi por outro, menos interessante e mais na vibe de thrillers criminais mesmo. Somado a isso, como ponto negativo ressalto também o final abrupto e com elementos em aberto, que não deixa claro o destino dos personagens.

Eu diria que boa parte da base-tema do livro não é somente sobre doenças mentais e o peso dos traumas da nossa vida, mas também sobre machismo e posse. O trecho a seguir é um spoiler, pule para o parágrafo seguinte se não quiser ler: ao causar a morte de Gabriel, Theo se comportou como dono de Kathy. Tudo que ele fez para mantê-la ao seu lado ignora que ela é um ser humano com desejos próprios que fogem do seu controle. Ela é uma cretina mentirosa? Sim. Mas Theo não tinha nenhum direito de controlar a sua vida, segui-la e planejar uma vingança; no momento em que ele descobriu a traição, o único caminho certo era falar sobre isso.

Em resumo, A Paciente Silenciosa é um bom thriller, mas não excepcional. O plot twist apresentado logo nas primeiras páginas foi muito mais interessante do que diversas outras revelações ao longo da trama, então meu nível de expectativa foi caindo cada vez mais por conta disso. Ainda assim, é um livro instigante e tem um potencial audiovisual enorme, podendo ser facilmente adaptado para uma série ou filme de suspense. Certamente vale a leitura, só recomendo que você tenha cuidado com o hype pra não se decepcionar.

Título original: The Silent Patient
Autor: Alex Michaelides
Editora: Record
Número de páginas: 350
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Criminal: UK e sua problemática segunda temporada

Oi pessoal, tudo bem?

Esse é um Dica de Série e ao mesmo tempo não é. Recentemente assisti à versão britânica de Criminal (que tem versões na Espanha, na França e na Alemanha também) e curti muito a proposta: cada episódio é focado em um acusado que um grupo de detetives precisa interrogar. E Criminal: UK já inicia com um nome de peso, David Tennant, na posição do acusado – cuja interpretação foi, como sempre, brilhante. Durante a primeira temporada, fiquei muito empolgada com cada trama. Eram acusações diversificadas, com backgrounds distintos e ainda assim muito atuais: enquanto no episódio de David a investigação era o abuso e o assassinato de uma adolescente, no segundo episódio falou-se de violência doméstica e, no terceiro, imigração ilegal. Até que chegamos à segunda temporada e… Bom, pra conseguir problematizá-la, terei que dar spoilers, ok?

Sinopse: Numa sala de interrogatório em Londres, investigadores questionam suspeitos de crimes hediondos até que a verdade seja revelada.

O hype em cima da última season vem acompanhado de um nome ilustre no elenco: Kit Harington, pouco depois de ter finalizado Game of Thrones. Em seu episódio, Kit interpreta um empresário sendo acusado de estupro por uma de suas funcionárias. Acontece que, para a surpresa do espectador, descobre-se que ela fez uma falsa acusação para conseguir dinheiro. Sim. Isso mesmo. A série faz um episódio inteiro focado em um homem de poder sendo falsamente acusado de estupro.

E antes que vocês me acusem e digam que isso acontece na vida real: eu sei. Existem sim difamações, calúnias e falsas acusações. Mas a proporção, gente, é absurdamente discrepante. E quando uma série de amplo alcance (por estar na Netflix) escolhe justamente esse olhar enviesado pra abordar algo que costuma ser exceção, temos um problema. Argumentos como “a denúncia acabou com a vida do cara” e “mas como ela vai provar que não foi consensual?” são um desencorajamento a mulheres que têm medo de denunciar seus agressores. Porque, em geral, a mulher não sofre apenas na mão do abusador; ela sofre de novo na mão do Estado e da mídia ao ter sua história questionada e inúmeras vezes repassada. Lembram de Inacreditável? A minissérie, que dramatiza fatos reais, é um tapa na cara que mostra o quanto estamos despreparados enquanto sociedade pra lidar com a dor das vítimas de abuso sexual – e o impacto negativo que não dar o devido crédito ao relato causa.

E, quanto ao argumento de que uma denúncia dessas “acaba com a vida de um homem”, bom… O goleiro Bruno conseguiu emprego mesmo após esquartejar a mãe de seu filho e dar os pedaços pros cães comerem, né? Até publi ele já fez. 🙂 E o Robinho? Só teve seu contrato com o Santos pausado após muita pressão popular.

Mas tá, até o momento tinha sido apenas um episódio de Criminal: UK a me causar desconforto. Seguimos, certo? Cheguei então no episódio seguinte, em que uma mulher é acusada de difamação ao usar seu site para acusar homens de pedofilia. O episódio é bastante chato, o plot twist no final é sem pé nem cabeça mas o foco aqui é: a dona do site acusou um homem de maneira errônea e causou graves consequências à sua vida.

É óbvio que acusar as pessoas sem provas é errado. No caso do episódio, a mulher era uma desocupada que fazia as vezes de justiceira na internet. E, de fato, ela trouxe problemas enormes para a vida de um homem inocente, o que é bastante condenável. Entretanto, a causa maior de desconforto aqui foi, novamente, em episódios consecutivos, ver uma mulher na posição de falsa acusadora. A segunda temporada da série, roteirizada por homens, parece gostar de colocar suas personagens femininas em um papel de “destruidoras de vidas”, o que corrobora em muito para a visão deturpada que muitos ainda têm e que se reflete diretamente em casos de estupro e abuso, como debati mais acima.

Eu não sou contra colocar mulheres em papel de vilania, pelo contrário. Acho importante romper o estereótipo angelical, afinal, mulheres também são capazes de atrocidades por pura maldade. Mas eu sou MUITO contra o uso de estereótipos deturpados e machistas que causam impactos reais na vida de muitas de nós. Usar o espaço midiático e o amplo alcance pra reforçar esse tipo de visão é problemático e, diria também, misógino: qualquer mulher vítima de abuso que não teve coragem de denunciar, por exemplo, pode assistir a essas tramas e se sentir ainda pior, sabendo que o Estado e a sociedade não iriam acreditar nela.

Então, por mais que Criminal: UK tenha atuações incríveis e uma ótima primeira temporada, não é o tipo de série que eu vá panfletar. Prefiro indicar e fortalecer tramas como a já citada Inacreditável, que faz um trabalho impecável em mostrar o ponto de vista da vítima e a diferença abismal entre a abordagem masculina e a feminina no que diz respeito à sensibilidade quanto a vítimas de estupro. Se tiverem que escolher uma dessas séries para a sua próxima maratona, sugiro que escolham a segunda.

Título original: Criminal: UK
Ano de lançamento: 2019
Criadores: Jim Field Smith
Elenco: Katherine Kelly, Lee Ingleby, Rochenda Sandall, Mark Stanley, Shubham Saraf, David Tennant, Kit Harington, Hayley Atwell, Sharon Horgan, Kunal Nayyar

Resenha: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis – Jarid Arraes

Oi pessoal, tudo bem?

Amanhã, às 19h, vai rolar uma live no perfil da Editora Seguinte pra divulgar o lançamento do livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, e eu aproveitei a oportunidade pra indicar essa leitura indispensável pra vocês. Bora conhecer?

heroinas negrasGaranta o seu!

Sinopse: Talvez você já tenha ouvido falar de Dandara e Carolina Maria de Jesus. Mas e Eva Maria do Bonsucesso? Luisa Mahin? Na Agontimé? Tia Ciata? Essas (e tantas outras) mulheres negras foram verdadeiras heroínas brasileiras, mas pouco se fala delas, seja na escola ou nos meios de comunicação. Diante desse apagamento, há anos a escritora Jarid Arraes tem se dedicado a recuperar ― e recontar ― suas histórias. O resultado é uma coleção de cordéis que resgata a memória dessas personagens, que lutaram pela sua liberdade e seus direitos, reivindicaram seu espaço na política e nas artes, levantaram sua voz contra a injustiça e a opressão. A multiplicidade de histórias revela as mais diversas estratégias de sobrevivência e resistência, seja na linha de frente ― como Tereza de Benguela, que liderou o quilombo de Quariterê ― ou pelas brechas ― como a quituteira Luisa Mahin, que transmitia bilhetes secretos durante a Revolta dos Malês. Este livro reúne quinze dessas histórias impressionantes, ilustradas por Gabriela Pires. Agora, cabe a você conhecê-las, espalhá-las, celebrá-las. Para que as próximas gerações possam crescer com seu próprio panteão de heroínas negras brasileiras.

Após a leitura de Extraordinárias, fiquei com bastante vontade de conhecer mais histórias inspiradoras de mulheres brasileiras que fizeram a diferença na conquista de direitos que temos hoje. Mas, mais do que isso, fui sentindo cada vez mais necessidade de conhecer o papel das mulheres negras nessa construção, já que muitas delas têm suas histórias invisibilizadas.

E, no formato de cordel, a escritora Jarid Arraes traz à luz o nome de inúmeras mulheres que foram primordiais na história do nosso país. De princesas africanas que lideraram seu povo contra a escravidão até a primeira mulher negra eleita no Brasil, Jarid Arraes conta histórias que precisamos conhecer de uma forma poética, envolvente e lúdica. Ao fim de cada capítulo há também um pequeno resumo sobre a protagonista do cordel que amplia as informações trazidas até então em um formato mais tradicional, completando a experiência.

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Jarid Arraes faz questão de romper com um estereótipo deturpado de que as pessoas negras foram escravas passivas e sem orgulho de sua ancestralidade. Muito pelo contrário: a cordelista exalta as origens do povo negro e evidencia quanta luta, quanta resistência, quanto enfrentamento o povo precisou enfrentar até que esse aspecto hediondo da nossa sociedade fosse abolido. Até hoje a desigualdade se faz presente e ainda hoje as pessoas parecem esperar que os negros falem apenas sobre esse viés, mas Jarid Arraes rompe com essa expectativa ao nos apresentar personalidades fortes, líderes, determinadas e, em meio a muito sofrimento, lutadoras. 

Isso me faz pensar na necessidade de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis estar presente desde cedo entre as crianças negras, estar presente nas escolas, com fácil acesso a jovens que estão em processo de construção da sua identidade. O livro exala orgulho da ancestralidade e das raízes, dos traços que se originaram de príncipes e princesas, e coloca em destaque as mulheres que fizeram parte da construção da identidade brasileira. Falamos muito em representatividade – e precisamos continuar falando cada vez mais –, e esse livro é uma adição valiosa nesse sentido, porque cada palavra traz afeto e orgulho ao contar cada história nele presente.

Como mulher branca, eu posso apenas imaginar o impacto que um livro como Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis pode provocar em uma jovem negra. Por isso, usando esse espaço de privilégio, gostaria de convidar você a conferi-lo. Precisamos reconhecer o árduo caminho que ainda temos pela frente para combater as desigualdades que seguem presentes, e parte disso é entregar o microfone (ou as páginas) para pessoas negras que tem muito o que dizer. E Jarid Arraes tem muito a dizer.

Título original: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis
Autor: Jarid Arraes
Editora: Seguinte
Número de páginas: 176
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Curta Essa com Zac Efron

Oi pessoal, tudo bem?

Desde a leitura de Contágio eu comecei a refletir com mais frequência sobre o nosso papel enquanto seres humanos na preservação do planeta – e consequentemente nas doenças causadas por sua destruição. Isso me fez querer assistir ao documentário Curta Essa com Zac Efron, no qual o ator viaja pelo mundo para conhecer modos de vida mais sustentáveis. Vamos conhecer? 😀

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Sinopse: O ator Zac Efron roda o mundo com o guru dos superalimentos Darin Olien em busca de formas de viver com saúde e sustentabilidade.

Na companhia de seu amigo Darin Olien, conhecido por ser uma espécie de guru dos superalimentos, Zac Efron viaja para diversos locais, alguns mais remotos do que outros, e aprende sobre assuntos variados relacionados à sustentabilidade, ao poder dos nutrientes na nossa saúde, ao “segredo” da longevidade, a tecnologias modernas que permitem a criação de energia sem combustíveis fósseis, entre outros temas. Cada episódio se passa em alguma cidade e foca em alguns desses assuntos, sendo 8 no total.

Um dos aspectos que mais curti em Curta Essa com Zac Efron é a ignorância do protagonista – e eu falo isso no melhor dos sentidos! Calma que eu vou explicar. Zac Efron não assume uma postura arrogante frente ao novo e se permite deslumbrar pelas novas experiências que vive. Ele genuinamente demonstra não entender nada do assunto, mas querer aprender a respeito. É como se ele representasse os olhos do espectador, fazendo as perguntas que qualquer um de nós gostaria de fazer se estivesse em seu lugar. Enquanto Darin tem mais conhecimento e vivência nos assuntos abordados, auxiliando Zac ao longo da jornada mas também aprendendo junto com ele, o próprio Zac fica surpreso, maravilhado, curioso, inseguro e pensativo a respeito de tudo que vivencia.

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De maneira geral, a série é bastante feliz em escolher as pessoas com as quais a dupla vai conversar. Existem episódios que fazem a gente colocar tudo em perspectiva, como por exemplo o que se passa em Porto Rico, que até hoje enfrenta as consequências do furacão Maria – responsável pela destruição de grande parte da ilha. É palpável o desconforto de Zac ao pensar na desigualdade que existe entre pessoas como ele e pessoas como as que moram em Porto Rico, e ele demonstra muita humildade ao conversar com os moradores (ficando visivelmente desconfortável de ser homenageado em pé de igualdade com outros famosos que atuaram na ilha na época do desastre, por exemplo).

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A série comete alguns deslizes? Sim, comete. O episódio que se passa na Costa Rica é bem descolado da realidade alienado, até. Quando Zac e Darin vão de barco até uma comunidade que vive numa ilha pertencente à Costa Rica (sendo levados por dois rapazes que parecem ser adolescentes e nativos do local), somos apresentados a uma comunidade cheia de gente branca não nativa que inevitavelmente nos faz pensar em hippies privilegiados. A abordagem natureba e afastada da tecnologia e das coisas “mundanas” parece mais um ano sabático de americanos que resolveram fugir do seu cotidiano, ao passo que, na minha opinião, seria muito mais interessante conhecer a perspectiva real dos moradores da ilha. Mas enfim, acho que foi o único episódio que me causou esse desconforto.

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Assistir Curta Essa com Zac Efron foi bastante emocionante em muitos momentos e, mais uma vez, me peguei pensando sobre meus hábitos e sobre a vontade de mudá-los. Desde que assisti a série eu passei a seguir perfis vegetarianos e busquei reduzir meu consumo de carne; ainda que esteja longe do ideal e que eu não tenha planos concretos de fazer uma virada de chave alimentar no momento, a série foi capaz de provocar em mim pequenas mudanças de hábito e muuuitas reflexões. Perceber o quão afastados estamos do cuidado com o nosso planeta é um chacoalhão que coloca muita coisa sob uma nova lente, e acho difícil sair ileso ao final da temporada – especialmente com a virada surpreendente (e trágica) que acontece no último episódio.

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Curta Essa com Zac Efron é uma série leve, mas emocionante; divertida, mas capaz de provocar reflexão; aparentemente despretensiosa, mas envolvente. Eu, que não cresci sendo fã do Zac Efron e de High School Musical, fiquei positivamente impressionada com a postura e com a consciência do ator. Espero que retornem para uma segunda temporada mas, caso isso não aconteça, já fico satisfeita com as mudanças que ele e Darin estimularam em mim. Recomendo e torço pra que essa ótima série documental mexa com você também. 😀

Título original: Down to Earth with Zac Efron
Ano de lançamento: 2020
Produtores executivos: Zac Efron, Darin Olien
Elenco: Zac Efron, Darin Olien

Resenha: De Quem É Esta História? – Rebecca Solnit

Oi pessoal, tudo bem?

Tenho tentado sair da minha zona de conforto este ano e incluir mais livros de não-ficção na minha lista. E é sobre um deles que vamos falar hoje: De Quem É Esta História?, da escritora e ativista Rebecca Solnit.

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Sinopse: Quem escreve as narrativas de nossos tempos? Em cada debate, uma batalha está sendo travada: de um lado, mulheres e pessoas não brancas, não binárias e não heterossexuais finalmente podem contar a história com sua própria voz; de outro, pessoas brancas ― sobretudo do gênero masculino ― se apegam às versões de sempre, que contribuem para manter seu poder e status quo. Em vinte ensaios atualíssimos, a autora de Os homens explicam tudo para mim e A mãe de todas as perguntas avalia essas discussões, por que elas importam e quais são os desafios que temos pela frente.

De Quem É Esta História? me chamou a atenção já pela sinopse, por se tratar de um livro de ensaios focados em feminismo e distribuição de poder. O centro das discussões apresentadas por Rebecca Solnit gira em torno da pergunta-título, fazendo o leitor refletir e questionar quais são as perspectivas que chegam até nós, quais vozes são ouvidas e quais são silenciadas e quais visões de mundo estamos reforçando. Ainda na introdução, a autora evidencia algo que parece óbvio, mas não é: “Hoje é fácil presumir que nossas opiniões sobre raça, gênero, orientação sexual e tudo o mais são sinais de uma virtude inerente, mas muitas ideias que circulam agora são presentes que chegaram há pouco […]”. As conquistas relacionadas à diversidade são muito recentes, mas ainda estamos longe de um ideal de igualdade social, racial e sexual – por isso obras que falem sobre isso precisam ser difundidas.

Ao longo das páginas, Rebecca Solnit discorre sobre diversos desequilíbrios de poder, focando principalmente na distribuição desigual entre homens brancos cis e heterossexuais, o topo da pirâmide, e todo o resto (mulheres, mulheres negras, homens negros, a comunidade LGBTQI+, etc). Os ensaios são bem focados na sociedade estadunidense, então as dinâmicas sociopolíticas que a autora trata são baseadas no funcionamento eleitoral de lá. Esse aspecto torna alguns capítulos um pouco mais cansativos mas, ainda assim, é possível estabelecer paralelos entre o que acontece nos Estados Unidos e o que acontece aqui (e, quando lembramos de que ambos os países estão sendo liderados por boçais, fica ainda mais fácil fazer conexões).

Querem um exemplo prático? O terceiro capítulo fala sobre como o poder e o preconceito (consciente e inconsciente) determinam a política de um país. A autora aponta inconsistências no discurso principalmente de homens brancos, que analisam qualidades/características de forma diferente quando são encontradas em homens e mulheres. O fato de Obama ter sido um líder detalhista no que diz respeito a aspectos políticos é visto como um defeito em Hillary, no exemplo da autora. O foco de Rebecca Solnit nesse ensaio é trazer à luz o fato de que a não-equidade política e os “double standards” tornam ainda mais difícil pra minorias (especialmente mulheres não-brancas) atingirem o mesmo patamar dos homens brancos, pois a trajetória dessas pessoas traz muito mais obstáculos. Transpondo essa reflexão pro cenário brasileiro, é fácil lembrar como Dilma era criticada pela sua falta de eloquência, enquanto Bolsonaro bosteja pela boca o tempo inteiro e boa parte da população parece não ver problema nisso. 🤷‍♀️

Eu diria que o principal ponto do livro, que está presente em todos os ensaios de forma geral, é justamente colocar sob os holofotes o fato de que quem tem direito à fala é quem dita as regras. Quem conta as histórias é também quem decide como determinado grupo será lido, quais direitos serão priorizados, quais caminhos o país e a sociedade trilharão. Rebecca escreve: “[…] nos noticiários e na vida política ainda estamos lutando para saber de quem é a história, quem tem importância e para quem nossa compaixão e nosso interesse devem se direcionar.” A decisão de usar a própria voz para denunciar quem sempre gozou de privilégios é uma decisão que visa afirmar a própria identidade, mostrar ao mundo que se é “alguém” – e não qualquer alguém, alguém que merece ser ouvido. Tomar posse da narrativa, segundo a autora, é uma luta importante e capaz de grandes transformações: o movimento #MeToo é um exemplo utilizado, sendo uma oposição das mulheres aos abusos cometidos por tantos anos no ambiente de Hollywood (mas não somente nele, já que a # ganhou alcance global).

É difícil falar especificamente sobre cada ensaio de De Quem É Esta História?, mas posso dizer que todos eles têm ligação e conversam com muitos dos dilemas que enfrentamos hoje. O livro não é denso e a narrativa é acessível, o que torna a leitura fluida e de fácil compreensão. Apesar de focar muito nos Estados Unidos e não trazer com tanta força a perspectiva negra – ainda que cite lutas raciais ao longo das páginas –, é uma boa opção para quem quer pensar sobre dinâmicas de poder, narrativa e feminismo. Recomendo! 🙂

Título original: Whose Story Is This?
Autor: Rebecca Solnit
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 216
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.