Review: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Oi pessoal, tudo bem?

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um play despretensioso que eu dei na Netflix, mas que me arrancou muitas risadas, me entreteve e também me comoveu. Preparados pra conhecer?

Sinopse: Uma revolta de robôs interrompe a viagem da família. Agora o destino da raça humana está nas mãos dos Mitchells — a família mais estranha do mundo.

A trama tem seu pontapé inicial quando Katie, a filha mais velha dos Mitchell, é aceita para cursar a faculdade de cinema. Empolgada para conhecer pessoas que compartilhem da sua paixão – já que, em geral, ela se sente uma outsider -, Katie não contava com a decisão de seu pai, Rick, de fazer uma viagem de carro em família (em vez de deixá-la ir de avião). A relação dos dois, que no passado era muito cúmplice, está num momento delicado: Katie não sente que seu pai a compreenda, enquanto Rick acha que a filha está distante. Em paralelo a esse plot, temos outro catalisador superimportante que acontece bem longe da road trip: no Vale do Silício, uma convenção de tecnologia comandada pelo gênio Mark Bowman, que inventou a inteligência artificial PAL, anuncia um modelo novo de robôs com tecnologia de ponta; o problema é que Mark descarta PAL como algo ultrapassado, fazendo com que ela decida se revoltar e comandar os robôs, colocando-os contra a humanidade. E é assim, em meio ao caos, que a família Mitchell é pega de surpresa e precisa encontrar não apenas uma forma de fugir e sobreviver, mas também de impedir PAL.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é produzido pelos responsáveis pelo excelente Homem-Aranha no Aranhaverso, e podemos encontrar algumas similaridades no que diz respeito à arte. Como no filme do Cabeça de Teia, aqui também temos um visual predominantemente 3D, mas cheio de elementos 2D e intervenções interessantes. Isso torna o longa visualmente atrativo e, no meu caso, foi um recurso que prendeu bastante minha atenção. A identidade visual é muito bacana e a atmosfera é muito divertida e imersiva, tornando as quase 2h de duração muito gostosas de assistir.

O filme também acerta em cheio no humor. Além dos quatro membros da família Mitchell (os já mencionados Katie e Rick, mas também Linda, a mãe, e Aaron, o filho mais novo), temos ainda dois robôs comandados por PAL que sofrem uma pane parcial ao serem danificados e acabam se tornando aliados improváveis de Katie e sua família. E todos eles se veem numa posição totalmente inesperada: a de heróis da humanidade. Enquanto PAL comanda os robôs para capturar os humanos, os Mitchell (com o auxílio dos seus novos companheiros inorgânicos) conseguem escapar, e precisam ir até o epicentro da revolta pra desativar a inteligência artificial – caso contrário, todas as pessoas capturadas serão enviadas para o espaço (sim, pra morrer mesmo). E todas as situações que a família passa pra tentar chegar até PAL em segurança são muito engraçadas, assim como as perseguições pela estrada e as interações com outros eletroeletrônicos. Pra fechar com chave de ouro há também o humor sarcástico em torno de um jovem genial que revolucionou a tecnologia e as consequências de suas atitudes. Qualquer semelhança com a realidade pode ou não ser mera coincidência. 😛

Mas meu elemento favorito de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas não poderia ser outro se não os próprios Mitchell (e seu maravilhoso pug, Monchi). Cada personagem tem uma personalidade marcante e protagoniza cenas engraçadas, por mais que o foco maior seja em Katie e Rick. Linda é uma mulher engraçada e, quando os filhos estão em perigo, reage como uma leoa; Aaron é um irmão mais novo fofíssimo que é tão “esquisito” quando Katie e olha pra irmã com admiração; Rick é um pai zeloso e que ama os filhos, mas que nem sempre consegue demonstrar isso da forma como eles – especialmente Katie – precisam; e a própria Katie é uma jovem criativa e irreverente, mas que também não consegue enxergar os sacrifícios que o pai fez por ela. Com o passar do tempo e com a convivência forçada no carro (somada ao medo da extinção, é claro), os personagens são obrigados a olhar com mais atenção um para o outro, e os laços vão se estreitando. Pra fechar, também adorei como a sexualidade de um dos personagens é trabalhada: de forma totalmente natural e leve.

Resumindo, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um dos melhores filmes de animação a que assisti recentemente, reunindo em si uma produção de alta qualidade, um enredo divertido e envolvente e personagens muito cativantes. Se você não sabe o que fazer nesse domingo, corre lá na Netflix e dê o play. Prometo que vai valer a pena! 😉

Título original: The Mitchells vs the Machines
Ano de lançamento: 2021
Direção: Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André, Olivia Colman

Review: Raya e o Último Dragão

Oi galera, tudo certo?

Faz tempo que não rola um review de animação por aqui, né? Então hoje vamos falar um pouquinho sobre um dos filmes mais recentes da Disney: Raya e o Último Dragão!

Sinopse: Há muito tempo, no mundo de fantasia de Kumandra, humanos e dragões viviam juntos em harmonia. Mas quando uma força maligna ameaçou a terra, os dragões se sacrificaram para salvar a humanidade. Agora, 500 anos depois, o mesmo mal voltou e cabe a uma guerreira solitária, Raya, rastrear o lendário último dragão para restaurar a terra despedaçada e seu povo dividido. No entanto, ao longo de sua jornada, ela aprenderá que será necessário mais do que um dragão para salvar o mundo – também será necessário confiança e trabalho em equipe.

Em um passado longínquo no reino de Kumandra, os dragões eram comuns e responsáveis pela prosperidade dos seres humanos. Porém, o surgimento de criaturas malignas chamadas Druun capazes de transformar aqueles com quem entram em contato em pedra – ameaçam a paz, e os dragões fazem um último esforço para salvar a humanidade. Sem os dragões, Kumandra se dividiu em vários países rivais, que desejam ser os detentores da Pedra do Dragão, uma relíquia deixada pela dragão Sisu no momento em que os Druun foram derrotados. Raya, a protagonista, é uma jovem que carrega um peso em sua consciência: durante um evento pacifista promovido por seu pai, a menina confiou na pessoa errada, Namaari, que tentou roubar a Pedra do Dragão. Essa atitude levou a uma batalha entre os países (Coração, Garra, Presa, Espinha e Cauda), fazendo com que a relíquia fosse partida em vários pedaços, o que culmina no retorno dos Druun e na transformação do pai de Raya (e muitos outros humanos) em pedra. Em sua busca para consertar as coisas, Raya acaba fazendo aliados improváveis e, principalmente, despertando a própria Sisu.

Esse é o contexto de Raya e o Último Dragão e, apesar das criaturas malignas terem dado início à desolação, o filme é muito mais pautado na rivalidade e nas relações humanas. O pai de Raya era um pacifista que acreditava que a união dos países era o melhor caminho para se protegerem do mal. Entretanto, o medo do desconhecido, o egoísmo, a desconfiança e o desejo de proteger os seus tornaram os outros líderes cegos para qualquer caminho diferente do poder. E as consequências disso são mostradas ao espectador: ao chegar na Espinha, por exemplo, Raya encontra um terreno desolado com apenas um único sobrevivente.

Um aspecto muito legal e que torna Raya e o Último Dragão bastante dinâmico é a forma como, a cada local visitado, a garota vai “recrutando” sem querer alguém como aliado. Tudo começa com seu sucesso em despertar Sisu, a única dragão que não foi transformada em pedra. Dali em diante a dupla se une a um pequeno empresário, Boun; ao trio de pilantrinhas composto por três macacos e a bebê Little Noi; e Tong, o guerreiro sobrevivente da Espinha. Apesar de suas personalidades totalmente diferentes, eles compartilham de uma coisa em comum: a perda de entes queridos para os Druun. Isso os motiva a trabalharem juntos em prol do mesmo objetivo, que é resgatar as peças da Pedra do Dragão e usar os poderes de Sisu para trazer as pessoas de volta. 

Ao longo do filme vamos percebendo que a própria Raya se tornou uma pessoa desconfiada. Se na infância ela era inspirada pelo coração e mente abertos do pai, a traição de Namaari deixou uma cicatriz profunda em seu coração. É totalmente compreensível o receio que ela tem de se abrir e tentar o caminho da negociação e da colaboração. Sisu, porém, é uma personagem alegre e cativante, cujo coração aberto pouco a pouco contagia Raya e a inspira a baixar a guarda e repensar seu caminho solitário.

Outro aspecto muito bacana de ser ressaltado é que o mundo fictício de Raya e o Último Dragão é inspirado nos países do Sudoeste Asiático. A cada local que Raya e seu grupo visita temos uma ambientação completamente diferente, o que é ótimo pra combater a ideia de que a Ásia tem apenas uma cultura e uma aparência. A animação é linda e as paisagens também, o que já é de praxe nas animações da Disney.

Raya e o Último Dragão é um ótimo filme de aventura que empolga e entretém. Apesar de ter um tipo de criatura aterrorizante dando o start nos acontecimentos, a trama acerta ao evidenciar que o maior desafio são as próprias fraquezas humanas, e como a colaboração é a peça-chave para vencer dificuldades coletivas. E se tem uma coisa que os últimos dois anos têm nos mostrado é que o individualismo não é uma opção quando um mal atinge a todos, e que a empatia e a cooperação são fundamentais para sairmos vitoriosos de momentos assim. 

Título original: Raya and the Last Dragon
Ano de lançamento: 2021
Direção: Don Hall, Carlos López Estrada
Elenco: Kelly Marie Tran, Awkwafina, Izaac Wang, Gemma Chan, Daniel Dae Kim, Benedict Wong, Jona Xiao, Thalia Tran

Review: A Mulher na Janela

Oi galera, tudo certo?

A Mulher na Janela foi um livro queridinho de muitos que me decepcionou bastante. Mas, como expliquei na minha resenha (bem negativa rs), eu tinha esperanças de que no formato cinematográfico a história pudesse funcionar. Será que deu certo?

Sinopse: Confinada em casa devido à agorafobia, uma psicóloga fica obcecada pelos novos vizinhos – e por solucionar o crime brutal que viu da janela.

Anna Fox é uma mulher que sofre de agorafobia, o que a impede de sair de casa. Separada do marido e da filha, ela vive sozinha e passa seus dias observando os vizinhos e misturando álcool e remédios. A chegada de novos vizinhos, os Russells, proporciona a Anna uma amizade inesperada com a dona da casa, Jane, com quem passa uma tarde divertida regada a conversas e taças de vinho. Além de Jane, a protagonista também cria um vínculo com seu filho, o adolescente Ethan – um jovem tímido e gentil que leva doces para Anna em nome de sua mãe. A chegada dos Russell não parece ser um problema, até que Anna presencia pela janela a cena de uma discussão que culmina com Jane recebendo uma facada. Porém, quando ela chama a polícia, o pai da família, Alistair, diz que só pode ter havido um engano, e apresenta sua esposa à Anna e aos policiais: só que esta Jane não é a mulher que Anna conheceu.

A premissa da história é muito boa, né? Temos uma narradora não confiável que nos faz duvidar do que ela viu, temos uma família aparentemente normal que esconde um segredo e temos um possível assassinato no centro de tudo isso. Pena que esse plot é desperdiçado e o que o diretor e o roteirista nos oferecem é um longa cansativo, lento e mal conduzido. 

A Mulher na Janela perde um bom tempo nos mostrando a rotina de Anna e, mesmo assim, falha em explorar o quão frágil psicologicamente ela está. A atuação e a caracterização de Amy Adams fazem um trabalho muito melhor em evidenciar o quanto a personagem desistiu de si mesma, mas o roteiro do longa não consegue transmitir o tanto que a personagem sofre. No livro, Anna faz parte de uma comunidade online e aconselha outras pessoas sobre agorafobia, o que é um elemento essencial da trama, mas no filme eles cortaram toda essa parte de sua vida. E, para piorar, incluíram cenas e acontecimentos desnecessários que não colaboraram em nada para o andamento da história. Até o fato dela dedicar grande parte dos seus dias a espiar a vida alheia com uma câmera mal é abordado, tornando o título da obra bem menos relevante rs.

Mesmo um elenco de peso não foi capaz de prender a atenção ao longo da 1h40 de duração do filme (que mais pareceram 3h). Amy Adams é maravilhosa, mas também temos Julianne Moore e Gary Oldman, que são figurantes de luxo. Ethan, um personagem fundamental e muito presente no livro, mal tem cenas relevantes, o que torna difícil até de engolir toda a vontade que Anna sente de protegê-lo de seu suposto pai abusivo. Todas essas pontas soltas, a pouca participação de personagens que não sejam a protagonista e mudanças no roteiro tornaram as duas revelações da trama totalmente anticlimáticas, especialmente na sequência final. A pessoa responsável pela angústia de Anna é revelada sem nem um “aquece” que permita ao espectador acreditar que aquilo que foi mostrado é crível. Só bola fora, na minha opinião.

A Mulher na Janela não me agradou como livro e conseguiu ser ainda mais fraco como filme. As poucas coisas boas que eu tinha gostado na trama original foram cortadas na adaptação e o que sobrou é um filme que não empolga, não angustia e, principalmente, não convence. Não foi dessa vez. :/

Título original: The Woman in the Window
Ano de lançamento: 2021
Direção: Joe Wright
Elenco: Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman, Wyatt Russell, Fred Hechinger

Review: Radioactive

Oi pessoal, tudo bem?

Nos últimos dias chegou à Netflix o filme Radioactive (dirigido por Marjane Satrapi, de Persépolis), que se propõe a ser uma cinebiografia da vida de Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel relacionados às suas pesquisas sobre radioatividade. Vamos descobrir o que eu achei? 😀

Sinopse: Movida por uma mente brilhante e uma grande paixão, Marie Curie embarca em uma jornada científica com o marido, Pierre. Suas descobertas vão mudar o mundo.

Antes de falar sobre minha opinião sobre o longa, acho importante dividir com vocês qual era a minha expectativa: eu imaginava que o filme fosse focado no processo da descoberta científica em si, com suas discussões, desafios, testes e avanços. Também imaginei que ele pudesse trazer uma luz ao fato de que Marie Curie era uma mulher em meio a um ambiente majoritariamente masculino e numa época em que o machismo era ainda mais intenso. Esse segundo ponto até é abordado, ainda que de forma superficial. O primeiro, porém, foi minha decepção: em cerca de 30 ou 40 minutos (em um filme de 1h50 de duração) ela já tinha descoberto os elementos rádio e polônio, fazendo com que o foco da trama se virasse para sua vida pessoal.

Segundo a visão trazida por Radioactive (e eu coloco isso dessa forma porque não conheço a fundo a história da cientista para contestar), Marie Curie era brilhante, destemida, autossuficiente e arrogante. Ao conhecer Pierre Curie, seu marido e grande amor, ela amplia seu estudo e os dois formam uma parceria de trabalho que os leva a ganharem o Prêmio Nobel pelas descobertas que fizeram em conjunto sobre a radioatividade. O machismo na trama começa a ser exposto aí (já que, na trama, Pierre é recebido sozinho na Suíça e discursa em nome dos dois), mas fica ainda mais grave quando Marie se envolve em escândalos em sua vida pessoal que a fazem ser hostilizada pelas pessoas e pelo meio acadêmico (sendo que o homem que deveria ser responsabilizado por tal escândalo não sofre nenhuma penalidade – não que seja muito diferente hoje em dia, né?).

A montagem do filme é estruturada de forma que a gente acompanhe os estudos de Marie e Pierre sobre radioatividade enquanto intercala com outras décadas no futuro nas quais essa descoberta foi relevante. Há cenas que expõem aspectos positivos, como uma criança com câncer podendo fazer um tratamento experimental com radioterapia, mas a maior parte dos paralelos é negativa: vemos os desastres de Hiroshima e Chernobyl, além de exposições turísticas de explosões atômicas nos Estados Unidos, o que me fez ter a sensação de que o roteiro colocou mais peso nos perigos e no mau uso da descoberta. Só nos minutos finais há um diálogo entre Marie e seu marido em que ele traz como contraponto o fato de que ela jogou uma pedra na água, mas que as ondas geradas por isso ela não é capaz de controlar. O conhecimento em si não é uma coisa ruim, mas sim a forma destrutiva que a humanidade muitas vezes o utiliza.

Minha maior frustração com Radioactive reside no fato de que me senti assistindo a um filme que flutua do drama às “fofocas” durante uma parte considerável de sua duração. Como as descobertas científicas acontecem muito rápido e não são bem exploradas (as explicações e discussões são rasas e não duram muito), o resto da trama tenta desenvolver 1) a relação de Marie com as filhas, que mal apareceram até então, 2) o luto após a perda do marido, 3) suas relações passionais, 4) sua reputação enfraquecida e 5) sua participação na Primeira Guerra Mundial, com a criação de um veículo equipado com máquinas de raio-X. Só o item 5 já dava muito pano pra manga, sabem? A sensação que fica é que tentaram enfiar um milhão de aspectos relevantes da vida de Marie Curie em um único filme, sem ter um foco principal. Existem biografias que focam na parte profissional de um nome célebre, ou então no seus dramas familiares. Acho que essa falta de foco de Radioactive deixou todos os âmbitos da vida da cientista muito superficiais.

Apesar dos pesares, Radioactive conta com boas atuações (a química entre Rosamund Pike e Sam Riley funciona muito bem) e não chega a ser cansativo. Gostei de ter a oportunidade de saber mais sobre a vida de uma mulher tão importante para a história e para a ciência, mas lamento que isso tenha sido feito de uma forma um tantinho mediana. :/

Fun facts: o filme foi lançado em 2019, mas só chegou à Netflix agora. Além disso, contou com a produção da Amazon (o que me surpreendeu bastante, considerando que eles têm seu próprio streaming).

Título original: Radioactive
Ano de lançamento: 2019
Direção: Marjane Satrapi
Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Simon Russell Beale, Aneurin Barnard, Anya Taylor-Joy

Review: Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Oi pessoal, tudo bem?

Que tal uma dica de filme pra curtir nesse domingo? Então prepara a pipoca, porque hoje vamos falar de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta.

Sinopse: Inspirada pelo passado rebelde da mãe e por uma nova amizade, uma adolescente tímida publica um texto anônimo que denuncia o machismo em sua escola.

Vivian é uma adolescente tímida (e super padrão) que passa pelo Ensino Médio com sua melhor amiga, Claudia, tentando não chamar a atenção. Quando Lucy, uma menina nova chega na escola questionando certos comportamentos (ao enfrentar os avanços do capitão do time de futebol, por exemplo), Vivian começa a perceber quão problemático é se manter alheia ao que acontece à sua volta, abrindo seus olhos para violências cotidianas causadas pelo machismo. Isso, somado ao fato de descobrir que sua mãe era uma militante feminista nos anos 90, motiva Vivian a criar um fanzine chamado Moxie em segredo e distribuí-lo pela escola, o que dá início a movimentos e discussões importantes.

Moxie é um filme que entretém ao mesmo tempo que traz uma mensagem positiva a jovens garotas. Vivian nunca pensou no quão ofensivo era ter uma lista que classifica as garotas da sua escola, por exemplo, mas ao fazer amizade com Lucy, que é objetificada não apenas por ser mulher, mas também pela cor de sua pele e pelos estereótipos racistas, ela começa a ver na prática as opressões que mulheres sofrem. Ao criar o fanzine Moxie, Vivian se aproxima de outras garotas e isso gera uma rede de apoio para enfrentar Mitchell (o capitão do time masculino) na disputa por uma bolsa estudantil, indicando sua amiga Kiera (uma atleta ainda mais competente) como concorrente. A aproximação de Vivian com novas meninas faz com que Claudia fique de lado e isso gere uma tensão entre as duas, e tive medo que o filme caísse em alguma armadilha que pudesse colocá-las uma contra a outra, mas felizmente não é o que acontece. Essa situação serve para dar uma pincelada em assuntos relacionados à xenofobia, mas é um toque muito raso e passageiro.

Aliás, esse é o maior defeito de Moxie: o filme é muito superficial em suas críticas. A vibe “garota branca e loira descobrindo o girl power” já não funciona comigo, e existem assuntos muito pesados (como assédio e abuso sexual) tratados de forma quase leviana – em especial nas últimas cenas, em que gritar parece ser a forma de resolver as coisas. Moxie peca em não mostrar os efeitos reais e posteriores de tudo que foi feito na escola graças ao movimento criado pelas meninas, o que faz com que ele perca a sua força e se torne um filme meio “qualquer coisa” em um mar vasto e cheio de opções de entretenimento que temos hoje. Para completar, o filme se passa inteiramente sobre a ótica de uma menina cheia de privilégios, ignorando questões importantes que o feminismo interseccional aborda. Se eu tivesse que indicar um título que faça esse trabalho de forma competente, diria que Sex Education é uma opção muito mais poderosa e responsável. Pra finalizar, Lisa (a mãe de Vivian), que em tese foi sua primeira inspiração, tem poucas falas e é muito mal desenvolvida, sem que a gente entenda o motivo do distanciamento entre as duas (ainda mais em um momento em que a protagonista poderia contar com os conselhos da mãe). 

Entretanto, apesar da superficialidade, acho legal ver que mais obras como Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta estão sendo feitas. Eu gostaria de ter crescido com mais exemplos assim, e acho que as futuras gerações terão contato com essas problematizações mais cedo – o que me faz ter um pouquinho mais de esperança no futuro.

Título original: Moxie
Ano de lançamento: 2021
Direção: Amy Poehler
Elenco: Hadley Robinson, Lauren Tsai, Alycia Pascual-Pena, Nico Hiraga, Sydney Park, Patrick Schwarzenegger, Amy Poehler

Review: Jujutsu Kaisen

Oi pessoal, tudo bem?

Já faz um tempo que meu boy conseguiu reacender em mim uma paixão antiga: animes! No início da adolescência eu era super fã mas, com o tempo, dei uma saturada. Recentemente, porém, estamos assistindo a ótimos títulos, e é sobre um deles que quero falar hoje: Jujutsu Kaisen.

Sinopse: Apesar do estudante colegial Yuuji Itadori ter grande força física, ele se inscreve no Clube de Ocultismo. Certo dia, eles encontram um “objeto amaldiçoado” e retiram o selo, atraindo criaturas chamadas de “maldições”. Itadori corre em socorro de seus colegas, mas será que ele será capaz de abater essas criaturas usando apenas a força física?!

No universo de Jujutsu Kaisen existem ameaças conhecidas como maldições. Elas são uma espécie de personificação da energia amaldiçoada, oriunda dos piores sentimentos dos seres humanos. Algumas são mais “inofensivas”, causando mal estar (por exemplo), mas outras são letais. E, para combatê-las, existem os feiticeiros jujutsu: humanos que usam dessa energia amaldiçoada como fonte para feitiços capazes de exorcizar as maldições. 

Nosso protagonista, Yuuji Itadori, é um jovem estudante que se vê no meio de um fogo cruzado entre uma maldição e um feiticeiro. A batalha gira em torno de um objeto poderoso com o qual Itadori entrou em contato: trata-se do dedo do espírito amaldiçoado mais poderoso que já existiu, Sukuna. No calor da batalha, Itadori se vê obrigado a engolir esse dedo para impedir que a maldição o use, e a partir desse momento seu destino está selado: Sukuna passa a ter consciência dentro dele e, em paralelo, os feiticeiros jujutsu temem o que isso significa, incumbindo Itadori de coletar os outros dedos ou ser executado imediatamente. E é assim que a aventura do jovem nesse mundo obscuro começa.

Eu demorei um tempinho pra entender os conceitos de Jujutsu Kaisen, muito porque o anime já começa na vibe tiro, porrada e bomba. Itadori é um jovem altruísta e com habilidades que vão além da normalidade humana, características que o ajudam a trilhar o caminho dos feiticeiros jujutsu com empatia e habilidade. A perda recente do seu avô, cujo último conselho foi para que o jovem ajudasse as pessoas à sua volta, é praticamente um mantra que o guia, o que deixa seu coração no lugar certo. Além disso, Itadori é muito engraçado! Suas expressões faciais mais “bobas” são típicas dos animes e quebram a tensão dos episódios. A dinâmica como hospedeiro de Sukuna, que sempre tenta tomar o controle de seu corpo, também é muito interessante.

Itadori também tem dois colegas de equipe. O primeiro é Fushiguro Megumi, o jovem que se envolveu na batalha na escola do protagonista. Ele tem muito respeito por Itadori, especialmente pelo autossacrifício que o protagonista fez quando eles se conheceram. A segunda é Nobara Kugisaki, uma garota temperamental que ora briga com Itadori, ora age exatamente como ele. Além dos dois colegas, o protagonista também conta com um mentor (ou, como se diz nos animes, sensei) que é um dos feiticeiros jujutsu mais poderosos da atualidade: Gojo Satoru, um personagem que vai da comédia ao modo badass num piscar de olhos. Com o tempo, vamos conhecendo outros estudantes da Escola Jujutsu (na qual o trio estuda), outros espíritos amaldiçoados poderosos e também intrigas que nada tem a ver com esses espíritos. As ameaças vêm de todos os lados, o que torna a trama muito instigante.

As batalhas de Jujutsu Kaisen são um dos seus maiores pontos fortes. O estúdio fez um trabalho fantástico na animação, as cores são vívidas e os movimentos são fluidos. Os episódios são repletos de combates de tirar o fôlego, com movimentos de câmera empolgantes. E, é claro, há o aspecto místico que também torna tudo ainda mais interessante, já que cada feiticeiro jujutsu utiliza a energia amaldiçoada de uma forma.

Se você gosta de boas histórias de ação com um toque mais sério e “assombrado”, Jujutsu Kaisen é a escolha certa. Empolgante, ágil e com personagens cativantes, o anime é uma ótima pedida pra quem busca um bom entretenimento. Apesar de trazer alguns clichês vistos em outros animes do mesmo estilo (notei semelhanças com Naruto, Fullmetal Alchemist, entre outros), Jujutsu Kaisen parece mais prestar uma homenagem ao gênero do que ser um plágio sem personalidade. Recomendo muito!

Título original: Jujutsu Kaisen
Ano de lançamento: 2020
Direção: Sunghoo Park
Elenco: Junya Enoki, Yûichi Nakamura, Yuma Uchida, Asami Seto, Nobunaga Shimazaki, Jun’ichi Suwabe

Review: Para Todos os Garotos: Agora e Para Sempre

Oi pessoal, tudo bem?

A conclusão da trilogia Para Todos os Garotos chegou à Netflix! Agora e Para Sempre encerra a história de amor de Lara Jean e Peter Kavinsky com ternura e novos desafios. Bora pro review?

Sinopse: É o último ano do ensino médio. Lara Jean volta de uma viagem à Coreia e faz planos para a faculdade — com Peter e sem ele.

Agora e Para Sempre, Lara Jean não foi o meu livro favorito da trilogia de Jenny Han, portanto eu não estava especialmente ansiosa pra conferir sua adaptação. Os dois maiores motivos de eu não ter curtido tanto o livro foram as páginas desperdiçadas investidas no casamento do pai de Lara Jean e o apagamento de Peter. Felizmente, o filme consegue equilibrar esses elementos e acabou sendo uma conclusão com a qual simpatizei mais.

Prestes a se formarem no ensino médio, os protagonistas desejam estudar juntos na mesma universidade (que no filme é Standford, diferente do livro). Acontece que, para tristeza dos dois, Lara Jean não é aprovada e precisa refazer seu planejamento. O plano B reside em estudar a 1h de distância de Peter e depois pedir transferência… até que, em uma excursão da escola, a jovem se apaixona pela New York University (que também foi alterada no filme, decisão que achei bem inteligente, porque aproveita melhor a excursão e poupa um tempo valioso). Lara Jean e Peter enfrentam então a insegurança causada pelos 5 mil quilômetros que vão separá-los, sendo este o principal ponto de tensão do longa.

Minha parte favorita de Agora e Para Sempre foram as cenas de Lara Jean com as amigas explorando Nova York e a NYU (apesar de eu ter estranhado bastante a amizade com Gen. Não lembro se se aproximaram tanto assim no livro). Apesar do tom meio pedante que os jovens costumam ter no ambiente universitário, deu pra entender os motivos que levaram Lara Jean a ficar encantada por tudo que a cidade tem a oferecer. Mas tem uma crítica que não posso deixar de fazer: a atuação de Lana Condor mostrou-se bastante limitada e abaixo da média no fechamento da trilogia. Existem momentos de tensão e emoção na história que ela simplesmente não conseguiu transmitir, e isso tirou um pouco do impacto pra mim.

Além das mudanças em relação às universidades que mencionei, o filme também altera um aspecto que considero bastante importante. É um spoiler, selecione se quiser ler: enquanto no livro é Lara Jean que surta e termina com Peter após ser pressionada pela mãe do garoto, no filme a mãe sequer é mencionada, e é Peter quem toma a decisão. Isso coloca Lara Jean numa posição de coitadinha e não curti, especialmente porque é Peter – novamente – quem precisa fazer um gesto grandioso para recuperá-la. Em compensação, faço um elogio a todo o plot do casamento de Dan, pai das meninas, e sua vizinha, Treena (ou Trina, como na legenda da Netflix). A personagem tem muito carisma, faz os comentários certos e é uma adição muito bem-vinda e orgânica à dinâmica dos Covey!

Para Todos os Garotos: Agora e Para Sempre é um filme fofinho que segue a mesma fórmula dos anteriores e encerra a trajetória de Lara Jean e Peter com mais otimismo que sua contraparte literária, o que achei um grande acerto. Fiquei com o coração quentinho e me senti bem por ter acompanhado essa história de amor tão doce (quase tanto quanto os que Lara Jean prepara rs) nas telas também. ❤

Título original: To All The Boys: Always and Forever
Ano de lançamento: 2021
Direção: Michael Fimognari
Elenco: Lana Condor, Noah Centineo, Janel Parrish, Anna Cathcart, John Corbett, Sarayu Blue

Review: Soul

Oi, pessoal, tudo certo?

Como fã devota da dupla Disney Pixar, obviamente corri para conferir Soul, o primeiro filme lançado no serviço de streaming Disney+. Vamos conhecer?

Sinopse: O que é que o torna… você? Joe Gardner – um professor de música do ensino fundamental – tem a chance de tocar no melhor clube de jazz da cidade. Mas um pequeno passo em falso o leva das ruas de Nova York para o Pré-vida – um lugar fantástico onde novas almas obtêm suas personalidades, peculiaridades e interesses antes de irem para a Terra.

Joe Gardner é um talentoso musicista que sempre sonhou em fazer sucesso tocando jazz. A realidade, porém, é um pouquinho diferente: em vez de brilhar por sua habilidade ao piano, ele dá aula de música em uma escola de ensino fundamental. Sua sorte parece virar quando um ex-aluno o convida para substituir um dos integrantes de uma banda de jazz já consagrada. Acontece que Joe sofre um acidente e sua alma é separada de seu corpo. O caminho natural é ele ir em direção à luz, mas ele se recusa a morrer e acaba fugindo para um espaço chamado Seminário Você, onde almas aprendem sobre sua personalidade, gostos e propósitos para posteriormente “encarnarem” em recém-nascidos. Nesse local Joe fica responsável por 22, uma alma que já passou por inúmeros tutores e jamais encontrou seu propósito. Isso faz com que 22 seja cética a respeito da experiência na Terra, topando então ajudar Joe a levá-lo de volta. E, novamente, o protagonista é desafiado pelo destino: quando os dois conseguem ir pra Terra, 22 fica no seu corpo e Joe fica em um… gato. Esse é o ponto de partida pra uma sequência de aprendizados para ambos os personagens.

Como vocês já devem imaginar, Soul, assim como qualquer filme da Pixar, tem um forte impacto nos adultos. A trama gira em torno de ser fiel ao seu propósito e encontrar sua razão de existir na vida, e Joe tem certeza de que só vai encontrar isso na música. 22, por sua vez, só consegue entender o motivo pelo qual todas as outras almas desejam ir para a Terra no momento em que tem a oportunidade de vivenciar a experiência na prática. Os cheiros, os sabores e mesmo as coisas desagradáveis são vistas sob a lente de um olhar deslumbrado de quem valoriza cada pequeno instante. Conviver com 22 e ser testemunha do seu encanto pela simplicidade coloca algumas coisas em perspectiva para Joe, e ele começa a olhar sua própria vida “de fora” (no corpo do gato rs), o que provoca uma reflexão sobre toda a sua trajetória.

Se essa provocação não bastasse, Soul ainda vai além: a lição que fica é a de que não somos definidos pelo nosso propósito, e a vida é mais do que isso. Quando o protagonista percebe que grande parte do que ele sonhava era mais uma idealização do que uma visão realista, Joe entende que não é apenas o seu talento que o torna alguém digno e amado. O nosso propósito vai além das nossas habilidades, da nossa profissão e das nossas paixões: claro, são elementos muito importantes, mas não são em sua totalidade aquilo que torna a experiência de viver válida. 

Apesar de ter curtido o longa, o final em si não me surpreendeu muito. Eu esperava um desfecho mais audacioso, que não aconteceu. Mas, mesmo se mantendo num otimismo meio lugar-comum, Soul conseguiu me emocionar. Não tanto pela personalidade de Joe ou de 22 (não me entendam mal, eles são muito legais, mas não foram exatamente inesquecíveis), mas sim porque os assuntos tratados dialogaram com questionamentos e dúvidas que eu mesma já tive. 

Em resumo, Soul é um belo filme, com cenas divertidas e um assunto que coloca você para pensar e examinar a sua história. O fato do longa mostrar como nossa vida não é definida pela nossa vocação tirou um peso enorme dos meus ombros, porque com tantos discursos que falam em propósito rolando nos perfis de Instagram da vida, às vezes eu sentia que eu estava “à deriva” por não ter certeza a respeito do meu, sabem? Por isso, Soul tocou meu coração e colocou um sorriso no meu rosto. Existem muitas coisas que trazem alegria: o amor, a família, as amizades, as experiências, as viagens, os sabores… E tá tudo bem a gente se agarrar nisso e valorizar cada minuto.

Título original: Soul
Ano de lançamento: 2021
Direção: Pete Docter, Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton

Review: Fruits Basket (2019)

Oi pessoal, tudo certo?

Quem me acompanha aqui há mais tempo pode lembrar que Fruits Basket já apareceu por aqui em uma resenha do mangá. Com o remake do anime (cuja primeira temporada foi lançada no ano passado), vi a oportunidade de indicar novamente essa história linda e comovente – com o plus de agora ter uma animação que faça jus à obra. ♥

Sinopse: Fruits Basket conta a história de Tohru Honda, uma garota órfã que, depois de encontrar Yuki, Kyo e Shigure Sohma, descobre que os treze membros da família Sohma são possuídos pelos animais do zodíaco Chinês e são amaldiçoados a se transformar em suas formas animais quando estão fracos ou quando são abraçados por alguém do sexo oposto que não esteja possuído por um espírito

Fruits Basket acompanha o dia a dia da jovem Tohru Honda, uma estudante órfã que se vê morando em uma barraca para não incomodar seu avô após a morte dos seus pais. Seu caminho se cruza com a família Sohma quando Yuki Sohma, seu colega de escola, descobre sua moradia inusitada. Yuki mora com outros dois membros da família: Shigure e Kyo (seu rival); eles decidem acolher Tohru, que passa a ajudá-los com os afazeres domésticos. Parece tudo muito simples, né? Acontece que os Sohma têm uma peculiaridade: eles são amaldiçoados pelos signos do zodíaco, e ao receberem um abraço do sexo oposto, se transformam nos animais respectivos. E é claro que Tohru descobre isso da maneira mais chocante possível: na prática. Com o passar dos episódios a jovem vai conhecendo outros membros da família Sohma e descobrindo segredos e relações muito mais complexas do que inicialmente ela imaginava.

Fruits Basket (ou simplesmente Furuba) é uma das minhas histórias favoritas. A mitologia por trás dos signos do zodíaco é muito interessante e as relações entre os membros amaldiçoados é cheia de nuances. Kyo e Yuki, por exemplo, fazem jus à dinâmica de gato e rato. Na lenda do zodíaco, Deus fez uma festa para os animais, nas quais os animais do zodíaco chinês compareceram. Entretanto, o rato pregou uma peça no gato, deixando-o de fora da celebração. Com isso, o gato é considerado o pior membro do clã, com gerações de pessoas possuídas por seu espírito sendo excluídas do convívio com os outros Sohma. Para Kyo, isso significa uma vida de amargura, raiva, dor e ressentimento – especialmente contra Yuki. Mas a vida do rato não é muito mais fácil: sendo o favorito do chefe do clã Sohma, Akito, Yuki cresceu sofrendo pressões inimagináveis, ouvindo que seu papel era agradar Akito e ser a companhia perfeita. A ele não foi permitido se descobrir, escolher, pensar por si mesmo – e é por este motivo que ele decidiu sair da casa principal e viver com Shigure (possuído pelo espírito do cachorro).

Cada membro do zodíaco tem uma história própria, e a forma como cada um lida com o fardo da maldição é particular. Ao longo dos episódios, Tohru vai formando laços com essas pessoas e essa relação faz com que o destino por si só comece a mudar. Os membros do zodíaco aos poucos percebem seu valor e entendem que são apreciados, ao menos por ela. Esse amor e amizade que Tohru oferece de coração aberto são fundamentais para a construção da autoestima de cada Sohma que cruza o seu caminho.

Furuba é uma história que fala muito sobre o peso da solidão. Cada personagem, incluindo Tohru, possui cicatrizes emocionais profundas. Bullying, rejeição familiar e isolamento são algumas das dores que eles enfrentam (principalmente os membros do zodíaco). É impossível não se emocionar conforme suas fragilidades vêm à tona, e a vontade que o espectador sente é de abraçar cada um deles com carinho (e dane-se se isso provocar uma transformação). Mas, por mais que a dor seja uma constante no passado e no presente dos personagens, Fruits Basket é também uma história sobre o poder da esperança. Tohru é o símbolo maior disso, a pessoa que perdeu tudo que mais amava e ainda assim consegue sentir gratidão pelas amizades e oportunidades que tem. Ao valorizar e apreciar genuinamente cada Sohma com quem vincula, ela “empresta” um pouquinho da sua força e mostra, mesmo sem querer, que existe amor e aceitação para aquelas pessoas. O tipo de acolhimento (emocional) que Tohru oferece tem um impacto que ela nem sequer pode imaginar ao aceitar ser acolhida por eles (fisicamente).

E pra não dizer que não falei da produção em si, preciso ressaltar a beleza do novo anime. A primeira adaptação televisiva me deixou frustrada porque termina num momento crucial do mangá e não tem continuidade; a nova, entretanto, vem pra corrigir isso e adaptar o mangá em sua totalidade, tendo três temporadas planejadas. O traço é simplesmente fantástico, as cores são lindas e os cenários também encantam. Pra completar, a trilha sonora é emocionante e se encaixa superbem com a proposta da história.

Pra quem já é fã de animes, Fruits Basket é um prato cheio que contempla uma história envolvente, muita emoção e bons personagens. Mas sei que nem todo mundo gosta desse tipo de produção e talvez isso seja por falta de oportunidade. Nesse caso, queria convidar você a começar sua experiência com Fruits Basket. Se você curte drama, fantasia, romance e – por que não dizer? – esperança, essa história tem tudo para te agradar. Não deixe a categoria da obra (ou seja, o fato de ser um anime) te impedir de dar uma chance para uma história que entretém, diverte, emociona e aquece o coração. Promete pensar com carinho? ❤

Título original: Furūtsu Basuketto
Ano de lançamento: 2019
Direção: Yoshihide Ibata
Elenco: Manaka Iwami, Nobunaga Shimazaki, Yuma Uchida, Yuichi Nakamura

Review: Mulan

Oi pessoal, tudo bem?

O live action de Mulan vem dando o que falar desde muito antes de sua estreia no Disney+ e, agora que ele chegou à plataforma, vim dividir com vocês meus sentimentos em relação ao filme. 🙂

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Sinopse: Em Mulan, Hua Mulan (Liu Yifei) é a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro. Quando o Imperador da China emite um decreto que um homem de cada família deve servir no exército imperial, Mulan decide tomar o lugar de seu pai, que está doente. Assumindo a identidade de Hua Jun, ela se disfarça de homem para combater os invasores que estão atacando sua nação, provando-se uma grande guerreira.

Antes de tudo, acho importante ressaltar que eu acompanhei as notícias ao longo da produção do longa e, portanto, estava com expectativas alinhadas quanto ao fato do filme não ser um musical e não contar com a participação de personagens icônicos como Mushu e Li Shang. Pra quem não sabe do que estou falando, o novo live action da Disney tem um foco muito maior em honrar o público chinês, que vê no uso do dragão (uma figura mega sagrada) como alívio cômico e sidekick um desrespeito. Dito isso, saibam que minha opinião está pautada no filme pelo filme, e não (apenas) na comparação com o original, combinado? 😀

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Desde menina, Mulan demonstra algo especial: seu chi é intenso e ela é capaz de manipulá-lo como outras pessoas não o são. Porém, o chi é uma característica atrelada a guerreiros e ela, sendo mulher, deve ocultar tal habilidade e honrar sua família por meio do casamento. A jovem cresce com esse “segredo” e tenta se encaixar nos moldes tradicionais, mas quando cada família é convocada a ceder um homem para a guerra contra os Rourans que se aproximam, Mulan decide tomar o lugar de seu velho pai. Passando-se por um homem, ela treina para se aprimorar como guerreira enquanto busca entender seu verdadeiro papel.

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Sabendo que o filme é baseado no conto original de Mulan (que data lá do século VI), eu tentei me manter de coração aberto às novidades, como por exemplo o fato de haver uma mulher chamada de bruxa (apenas porque domina seu chi de maneira excepcional e consegue utilizá-lo como verdadeira magia) e pelo fato de Mulan se diferenciar de seus pares por também demonstrar domínio sobre essa energia. Acontece que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, Mulan foi um filme chato de assistir.

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A começar pela protagonista: a atriz que interpreta Mulan é uma versão oriental da Kristen Stewart em Crepúsculo. Ela não demonstra nenhuma emoção, tem zero carisma e me deixou profundamente agoniada com seus golpes no ar que serviam pra ela atirar o cabelo pra longe quando caía no chão, tipo comercial de shampoo. O fato da personagem se destacar devido ao seu chi, e não pelo trabalho duro e pela determinação, também foi outro aspecto broxante: Mulan foi criada para ser uma mulher tradicional, e vê-la rompendo com esses estigmas e se esforçando tanto quanto qualquer homem (e ainda se sobressaindo) era uma das coisas mais poderosas da animação – que aqui perde força porque, apesar do esforço, Mulan tem de fato um aspecto “mágico” que a torna única. A personagem, portanto, se torna menos relacionável com o espectador.

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Os vilões são muito mal desenvolvidos, e os Rourans são caricatos e não oferecem uma ameaça que nos faça temer de fato, já que (diferente do desenho) não causam nenhuma perda a nível “pessoal”. Por outro lado, Xian Lang (a “bruxa”) que os auxilia tem mais camadas e representa uma dualidade com a própria Mulan, levando a personagem a se questionar sobre a própria identidade e sobre a injustiça de ter seu chi oprimido porque os outros não sabem lidar com isso. Ela é uma anti-heroína que oferece uma reflexão sobre o machismo que até hoje nos desencoraja de demonstrar todo o nosso potencial enquanto mulheres, e eu diria que essa provocação quanto aos papéis de gênero é o principal ponto forte do filme.

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Poderíamos pensar que as lutas seriam capazes de salvar o filme, certo? Errado, pelo menos pra mim. O live action tem uma estética típica de filmes de luta orientais, o que inclui movimentos super coreografados em slow motion. Se você curte essa vibe, talvez curta também esse aspecto do longa. Eu não me identifico nadinha com esse tipo de produção, então fiquei com um pouquinho de vergonha alheia nesses momentos de slow motion. Entretanto, reconheço a importância de contar essa história de uma forma que não agrida a cultura chinesa e ressalto como é importante um filme blockbuster contar com um elenco de fenótipo 100% oriental.

Resumindo, eu diria que Mulan é no máximo um filme nota 6 (numa escala de 10). O maior problema é que ele não se destaca, não arrepia, não emociona. Mesmo sem fazer nenhum tipo de comparação, o live action de Mulan se mostrou uma produção genérica e esquecível, que eu provavelmente não vou assistir uma segunda vez. Espero que ao menos para o público ao qual ele foi destinado tenha sido uma boa experiência.

Título original: Mulan
Ano de lançamento: 2020
Direção: Niki Caro
Elenco: Liu Yifei, Donnie Yen, Jet Li, Gong Li, Yoson An, Jason Scott Lee, Susana Tang, Tzi Ma, Rosalind Chao