Resenha: Daniel, Daniel, Daniel – Wesley King

Oi gente, tudo bem?

Hoje vim falar sobre um livro incrível, que fala sobre um assunto ainda pouco explorado na literatura: o TOC. Trata-se de Daniel, Daniel, Daniel.

daniel daniel daniel wesley kingGaranta o seu!

Sinopse: Daniel é o reserva do time de futebol da escola, e isso significa que ele é basicamente o garoto da água. Ele gasta todo o tempo dos treinos arrumando e organizando os copos para seu time – e rezando para que ninguém perceba. Na verdade, Daniel passa a maior parte do tempo esperando que ninguém note seus hábitos estranhos – ele os chama de Choques. Eles incluem ter uma lista de números “ruins” e evitar escrevê-los, por exemplo, ou ligar e desligar o interruptor dezenas de vezes até se sentir bem de novo. Daniel acha que é maluco e esconde essa impressão sobre si mesmo, principalmente de seus pais, seu melhor amigo Max e Raya, a garota por quem é secretamente apaixonado. Sua vida fica ainda mais estranha quando ele recebe um bilhete misterioso com um pedido de ajuda assinado pela “Colega das Crianças das Estrelas”, seja lá o que isso significa. E de repente, Daniel, que era um zé-ninguém na escola, se vê dentro da investigação de um grande mistério. Este livro é sobre se sentir diferente e deslocado e encontrar aquelas pessoas que conseguem enxergar e entender você de verdade.

Daniel é um garoto aparentemente normal de 13 anos: apesar de sentir-se um pouco desengonçado, ele é inteligente, adora ler e escrever, tem um melhor amigo chamado Max, um crush tremendo na colega de escola, Raya e, por fim, faz parte do time de futebol americano (apesar de odiar o esporte). O que ninguém sabe sobre Daniel é que ele esconde um segredo: ele se sente maluco. Por motivos que ele não compreende, Daniel sofre com o que ele chama de Choques, que o impulsionam a tentar “consertar coisas” de maneira obsessiva, caso contrário ele sente que vai morrer. O que o protagonista não sabe é que existe um nome para isso, e o fato de ele escovar os dentes até a gengiva sangrar ou ligar e desligar o interruptor várias vezes não é maluquice: Daniel sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Porém, por não ter conhecimento do que realmente acontece com ele, o jovem vive uma vida bastante solitária, escondendo seu segredo e usando uma máscara social para tentar parecer o mais normal possível. Porém, quando uma outra colega de escola, Sara Malvern, entra em contato com ele, as coisas viram de cabeça para baixo. Conhecida como PsicoSara (por ser introspectiva e não falar com ninguém, além de ter transtornos como bipolaridade e depressão), a jovem parece enxergar o verdadeiro Daniel, aquele que ninguém mais vê. Quando ela pede o auxílio do garoto para investigar o sumiço do pai – que ela acredita ter sido um assassinato –, Daniel se envolve não apenas em situações de risco físico, mas também descobre um novo mundo no qual ele não é tão anormal assim.

Meu conselho é: não se apeguem à parte investigativa da sinopse; ela é simples e com resoluções fáceis, onde tudo dá certo apesar da improbabilidade. Mas isso nem de longe é um problema, afinal, o livro não é sobre isso. A investigação é o mote que dá início à amizade inesperada entre Daniel e Sara: a busca pela verdade sobre o que aconteceu com o pai da menina nos mantém curiosos e tem um ótimo desfecho, mas o grande brilho do livro está na relação entre os personagens e na maneira como o autor fala sobre um assunto tão delicado de maneira tão comovente.

resenha daniel daniel daniel

Os quatro personagens principais do livro são muito carismáticos. São pessoas boas, cativantes e que ganham a nossa torcida. Sara é uma jovem com inúmeros transtornos, que optou por fechar-se em si mesma, até que vê em Daniel a oportunidade de ser autêntica. O que as pessoas não imaginam sobre ela é que ela é inteligente, engraçada e irreverente. Max, por sua vez, é o melhor amigo de Daniel e um cara super confiável. Os dois não tem tantos gostos em comum (sendo Max um apaixonado por futebol americano, enquanto Dani só joga para não ser excluído), mas ainda assim Max está sempre “watching Daniel’s back”, sabem? Ele cuida do amigo e faz o que está ao seu alcance para incentivá-lo. Raya, o interesse amoroso do protagonista, é uma jovem simpática, inteligente e madura, que vê em Daniel as qualidades que muitos consideram defeitos: a esperteza, a sensibilidade e o bom papo. É fácil shippar os dois, por mais que eu entenda quem o shippe com Sara (mas eu os prefiro como amigos, não gosto da ideia de que o apoio e o conforto venham somente de um possível romance, sabem?). Por fim, temos Daniel: perspicaz, educado, inteligente e gentil, é impossível não gostar dele. Mesmo achando Sara esquisita, ele tem empatia o suficiente para ajudá-la em seus planos ousados; mesmo odiando futebol americano, ele se dedica como pode porque sabe o quanto importa para Max. O fato de Daniel ter TOC, apesar de MUITO pesado para o personagem, é só um dos aspectos que o fazem ser quem ele é. Há muitas qualidades apaixonantes em Daniel, e enquanto lemos suas experiências é difícil não sentir a dor do personagem e torcer pra que ele encontre um caminho que o ajude.

Falando um pouco sobre a narrativa, ela acontece em primeira pessoa, exceto quando Daniel está trabalhando em seu livro (que, por sinal, eu super leria!). Seu discurso é irreverente e há diversos momentos e diálogos com um humor ácido que eu adorei. Entretanto, há cenas bastante angustiantes: Daniel narra as suas crises explicando seu desespero e seus sentimentos de pânico. Lemos quando o personagem escova os dentes até a gengiva sangrar, quando crava as unhas na bochecha ou quando dorme em meio a lágrimas. E é doloroso perceber que 1) ele não se sente seguro pra pedir ajuda e 2) seus pais, quando percebem algo errado, são meio negligentes e preferem acreditar nas desculpas que Daniel inventa. Durante os momentos de crise, a vontade é de entrar no livro e tentar ajudar Daniel da maneira que for possível (e justamente por ser uma situação tão tensa, esse livro nos faz questionar qualquer piadinha com “hmmm isso tá desorganizado, meu TOC pira”). Felizmente, quem exerce esse papel é Sara: a garota, que sempre conviveu com os próprios transtornos, enxerga Daniel como ele é e o faz confrontar a realidade de que ele tem TOC. É um primeiro passo para entender a situação e, a partir daí, buscar apoio. Afinal, como o próprio autor comenta no início do livro, é muito mais difícil enfrentar isso sem ajuda.

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Daniel, Daniel, Daniel é um livro apaixonante, com personagens que realmente te conquistam e com um tema super importante e pouco explorado. Mais do que falar sobre TOC, transtornos psicológicos e investigação de um assassinato, a obra também aborda o peso da solidão. Em seu livro, Daniel escreve sobre um garoto que cometeu um erro e exterminou a raça humana; na vida real, Daniel veste uma máscara que impede que suas conexões e relacionamentos sejam 100% reais, devido ao medo de ser rotulado e resumido ao seu transtorno – o que é quase tão solitário quanto ser o único ser humano no mundo. Com o tempo, porém, Daniel enxerga que ser vulnerável não é uma fraqueza e que a solidão não é a solução. E acho que essa lição serve pra todos nós.

Título Original: OCDaniel
Autor: Wesley King
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 280
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.
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Dica de Série: Queer Eye

Oi gente, tudo bem?

Eu tenho um novo vício (por sinal, assisti inteiro em uma semana e meia) e ele se chama Queer Eye. ❤ Hoje vim contar um pouquinho mais pra vocês desse reality que, como o próprio subtítulo já diz, é muito mais que um makeover.

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Sinopse: As caras são novas, mas as missões continuam fabulosas! Estes gênios do makeover são muito mais que rostinhos bonitos.

Eu não sou uma espectadora de reality shows, de maneira geral. Entretanto, buscando por algo leve para passar o tempo, decidi conferir o elogiadíssimo Queer Eye. O reality é um remake da série Queer Eye for the Straight Guy e é formado pelos Fab Five (ou Fabulous Five): Jonathan, responsável pela aparência; Bobby, responsável pelo design e arquitetura; Tan, responsável pela moda; Antoni, responsável pela gastronomia e Karamo, responsável pelos aspectos sociais e psicológicos. Inicialmente, os episódios focavam em homens hétero no sul dos Estados Unidos (já dá pra imaginar o conflito cultural, né?), mas com o passar das temporadas outros tipos de participantes são selecionados.

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É impossível falar de Queer Eye sem falar do carisma dos Fab Five. Eles são homens gays especializados em coisas distintas, mas cujo maior objetivo é ajudar a mudar a vida das pessoas que participam do reality. Os membros do grupo são empáticos, gentis, sensíveis, educados e, quando precisam, não hesitam em pontuar verdades (algumas delas bem difíceis) que os participantes precisam ouvir. Além disso, com o passar dos episódios também vamos descobrindo detalhes das vidas particulares dos Fab Five, e percebemos que o rótulo “homem gay” é restrito demais para resumir toda uma identidade.

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Tan, por exemplo, é casado há anos com outro homem, mas nunca tinha adentrado o universo trans até trabalhar com o participante trans. Bobby cresceu frequentando a igreja e, devido ao preconceito religioso que sofreu, se afastou dela – o que torna difícil pra ele quando precisam ajudar uma senhora que vive dedicada à igreja e também tem um filho gay. Esses são apenas exemplos da diversidade de experiências e sentimentos que as pessoas (sejam elas gay ou não) sentem e vivem. Colocar pessoas em caixinhas jamais vai contemplar as inúmeras nuances, crenças, valores e sentimentos que elas podem sentir, e Queer Eye evidencia isso.

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Outro aspecto muito interessante é, como mencionei antes, o choque cultural que a série provoca em muitos episódios. Por exemplo: os Fab Five visitam a casa de um homem que votou no Trump, sendo que além deles serem gays, um dos membros tem ascendência paquistanesa e o outro é negro. O desconforto é óbvio, né? Mas isso não impede que as pessoas envolvidas tentem se entender e, principalmente, ouvir uns aos outros. Diálogos sobre machismo, racismo, xenofobia, transtornos psicológicos e muito mais fazem parte do reality. Resumindo, Queer Eye dá margem para discussões fundamentais e leva esses debates a pessoas que talvez não tivessem a chance de tê-los.

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Queer Eye realmente vai muito além de um makeover. A aparência é apenas um dos aspectos que os Fab Five utilizam para elevar a autoestima dos participantes. Eles buscam entender todos os problemas que a pessoa está vivenciando naquele momento e que a impedem de buscar seus objetivos ou aquilo que realmente querem ser. Tudo isso em meio a diálogos maravilhosos, MUITO carisma e bom humor e uma infinidade de cenas emocionantes (eu chorei em 95% dos episódios, sério). Assistam, vocês não vão se arrepender! ❤

Título original: Queer Eye
Ano de lançamento: 2018
Criador: David Collins
Elenco: Antoni Porowski, Tan France, Karamo Brown, Bobby Berk, Jonathan Van Ness

Resenha: O Jogo da Mentira – Ruth Ware

Oi gente, tudo bem?

Depois de ter adorado A Mulher na Cabine 10, fiquei super empolgada ao descobrir que a Editora Rocco publicaria o novo livro de Ruth Ware, O Jogo da Mentira. Vamos descobrir o que eu achei dele?

o jogo da mentira ruth ware
Garanta o seu!

Sinopse: A obra acompanha Isa, jovem que quando recebe o chamado de Kate, uma de suas mais antigas amigas, sabe que tem que voltar para o local onde passou o melhor semestre de sua vida. Até que para ajudar a amiga, Isa, Fatima e Thea tomam uma decisão que para sempre assombrará suas vidas.

Preciso de vocês. Essas três palavras são capazes de virar de cabeça para baixo a vida de Isa Wilde, a protagonista-narradora de O Jogo da Mentira. Enviadas por Kate, sua amiga dos tempos da escola, fazem com que não apenas Isa corra para encontrá-la, como também as outras duas mulheres que faziam parte de um quarteto inseparável, Fatima e Thea. Mas por quê uma frase tão “inofensiva” pode causar tanto alvoroço? O que torna o encontro de Isa, Fatima, Thea e Kate tão emergencial? Esses são os primeiros mistérios (mas não os únicos) que O Jogo da Mentira apresenta.

Com uma narrativa nem sempre linear, vamos descobrindo aos poucos a maneira como o quarteto inseparável – formado pelas já mencionadas Isa, Fatima, Thea e Kate – se conheceu, como a amizade se fortaleceu e como o Jogo da Mentira, que dá título ao livro, começou. Por motivos diferentes, cada uma delas foi enviada a um colégio interno localizado na cidade costeira de Salten. Kate era filha de um dos professores da escola, Ambrose, e era a única que tinha família e casa por perto; consequentemente, o lugar acabou se tornando o abrigo e o refúgio das outras três meninas, que em plena adolescência sentiam-se desamparadas e em busca da própria identidade. Além das quatro, Luc (irmão adotivo de Kate) completava o grupo, do qual Ambrose cuidava com carinho e afeto. Mas há algo de muito sombrio no passado das garotas, relacionado ao desaparecimento repentino de Ambrose e à sua expulsão da Salten House, que aos poucos vai sendo revelado ao leitor, conforme Isa adentra em memórias contra as quais lutou a vida inteira.

O título do livro se dá por uma brincadeira que as amigas faziam na adolescência, que consistia em enganar o máximo possível de pessoas e contabilizar pontos por isso. Porém, existiam regras, e uma das mais importantes era “não mintam umas para as outras”. Será que essa regra foi cumprida? Quando um osso humano é encontrado no rio Reach, que banha a cidade de Salten, o grupo é obrigado a enfrentar lembranças que ainda não cicatrizaram. E esse mistério (que acaba sendo um tanto previsível, apesar de não ser o único da trama) demora um bocado para ser solucionado, o que está relacionado a um dos problemas do livro: a falta de objetividade.

resenha o jogo da mentira

Permeando o presente e o passado, a autora foca em transmitir as aflições de Isa sobre suas atitudes enquanto adolescente e também enquanto adulta. Em uma relação estável e com uma filha de apenas seis meses, Isa passa a temer não apenas por si mesma, mas pela pequena Freya (Isa, você realmente não deveria levar sua filha para situações tão arriscadas, mulher!). O remorso pelo passado somado às ameaças que sua amiga Kate sofre no presente e às inconsistências em alguns de seus discursos fazem com que Isa questione tudo aquilo que acreditou a vida toda. Com o passar das páginas, vai ficando cada vez mais difícil confiar em quem a rodeia, ainda que não saibamos o porquê dessa sensação, já que a amizade do grupo parece a única coisa sólida em toda a trama, em que até mesmo o cenário parece estar prestes a ruir.

O Jogo da Mentira por si só acaba tendo um papel menos importante do que aparenta de início, já que a trama não gira ao redor da brincadeira venenosa das amigas. A história acaba se transformando em uma espécie de drama, abordando diversos outros assuntos: há a sensação de se sentir perdida, a busca por uma conexão real, o conforto que uma amizade pode oferecer, o desejo de proteger quem amamos independentemente do custo (e os sacrifícios exigidos para isso), as consequências psicológicas dos nossos atos… Por meio de um mistério, Ruth Ware desenvolve as diversas emoções e anseios de suas personagens, todas mulheres fortes a seu próprio modo.

O Jogo da Mentira é uma obra bacana e com um final que conecta todas as pontas soltas, mas que deve ser considerado mais um drama sobre mistérios e mentiras do que um thriller propriamente dito. Com o passar das páginas, vamos conhecendo os fantasmas das protagonistas, desenterrando seus segredos e mergulhando mais fundo em seu remorso, mas não é fácil fugir dos erros do passado. E esse é um dos pontos de interrogação da trama: até que ponto é possível viver uma vida plena baseada em uma mentira? Independentemente da resposta, algo é inegável: a lealdade que Isa, Kate, Fatima e Thea sentem uma pela outra. E é essa relação o grande destaque da obra que, apesar de não ser perfeita, me proporcionou uma ótima experiência de leitura.

Título Original: The Lying Game
Autor: Ruth Ware
Editora: Rocco
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Atypical

Oi gente, tudo bem?

Na minha eterna busca por séries curtinhas e leves, acabei dando uma chance a Atypical. Vamos conhecer? 🙂

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Sinopse: Sam (Keir Gilchrist) é um jovem autista de 18 anos que está em busca de sua própria independência. Nesta jornada, repleta de desafios, mas que rende algumas risadas, ele e sua família aprendem a lidar com as dificuldades da vida e descobrem que o significado de “ser um pessoa normal” não é tão óbvio assim.

Sam é um jovem de 18 anos que faz parte do espectro autista. Ele ama pinguins, trabalha em uma loja de eletrônicos e tem uma rotina bem estruturada – especialmente graças à sua mãe, Elsa, que entrou de cabeça nesse universo e ajuda o filho em todos os aspectos. Porém, em uma de suas sessões de terapia, Sam decide enfrentar o mundo em busca de uma namorada. E essa decisão, que parece tão trivial, acaba gerando grandes movimentações na vida de toda a sua família.

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Se eu tinha alguma dúvida sobre Sheldon (de The Big Bang Theory) fazer parte do espectro autista, vendo Atypical essa dúvida sumiu. Sam tem manias muito semelhantes às de Sheldon, como a incapacidade de entender ironias, ser extremamente sincero e literal, não gostar de ser tocado e também ser muito inteligente. O rapaz tem uma vida bastante funcional, apesar das dificuldades que ocasionalmente surgem em seu caminho. Quando ele decide se arriscar e se expor emocionalmente, sua relação com os outros muda, inclusive com sua família: ele consegue se aproximar do pai, com quem nunca teve uma relação de proximidade, e acaba saindo um pouco debaixo da “asa” de Elsa, o que faz com que a personagem enfrente uma crise de identidade – já que sua única função nos últimos anos era exercer o papel de mãe cuidadora.

Além das descobertas de Sam, acompanhamos sua irmã, Casey, que também vivencia diversas transformações em sua vida. Ela tem o primeiro namorado, precisa mudar de escola, passa por dificuldades com as amizades, aprende mais sobre sua sexualidade… Apesar de Casey e Sam serem muito diferentes (já que Casey não está no espectro), a série mostra como os dois adolescentes vivem um paralelismo de experiências, independentemente do autismo. 

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As relações familiares têm grande destaque na maior parte da trama e, nesse sentido, Elsa é a personagem mais complexa. Ela tem atitudes extremamente questionáveis e comete muitos erros pelo caminho mas, ao mesmo tempo, é interessante assistir aos seus conflitos internos oriundos da decisão de Sam de ser mais independente. Ela é alguém que abriu mão de praticamente tudo na vida para se dedicar ao filho e que subitamente tem isso tirado de si, ficando à mercê de uma fragilidade emocional muito grande. Porém, apesar de cometer erros graves, Elsa também busca sua redenção, fazendo um esforço genuíno para ser uma pessoa melhor e encontrar o perdão da família (inclusive acho que Casey é injusta com Elsa na maior parte do tempo).

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Meu único “problema” com a série talvez seja o fato de que poucos personagens realmente me conquistaram. Por exemplo: o pai de Sam, Doug, é um cara super legal, mas também já pecou muito e ainda assim julga Elsa pelos erros dela; Casey é uma garota chata, implicante e injusta, que não esconde a preferência pelo pai e pega super pesado com a mãe. Felizmente, existem personagens que roubam a cena sendo ótimos de maneiras diferentes: Zahid é um amigo excelente para Sam, tratando-o com naturalidade e carinho; Paige tem uma personalidade cansativa, mas o sentimento que tem por Sam é genuíno e a personagem o defende sem pensar duas vezes. 

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Fugindo do óbvio e trazendo um tema relevante de maneira natural e séria, Atypical é uma comédia gostosa de assistir, com episódios curtos que passam voando. Com personagens que erram, acertam, amadurecem e se desenvolvem, Atypical traz verossimilhança aliada a momentos ora engraçados, ora emotivos. Vale a pena conferir! 😀

Título original: Atypical
Ano de lançamento: 2017
Direção: Robia Rashid
Elenco: Kier Gilchrist, Jennifer Jason Leigh, Michael Rapaport, Brigette Lundy-Paine, Amy Okuda, Graham Rogers, Nik Dodani, Jenna Boyd

Resenha: Garotas Incompletas – Débora S. Mattana e Michael Vasconcelos

Oi gente, tudo bem?

Para o mês de setembro, a coluna Uma Amiga Indicou (uma parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias, Interrupted Dreamer e Tear de Informações) escolheu como tema a antologia Garotas Incompletas – organizada por Débora S. Mattana e Michael Vasconcelos , devido a uma participação muito especial: a Carol Antonuci, do Caverna Literária, é uma das autoras! 😍

uma amiga indicou

Já adianto que, infelizmente, o livro não me agradou. De maneira geral, senti que faltou maturidade narrativa e uma revisão mais caprichada (sobram exemplos de frases cheias de vírgulas e um tanto mal escritas). Porém, para não ser injusta com os contos que se sobressaem positivamente, resolvi resenhá-los em separado.

garotas incompletasGaranta o seu!

Sinopse: Quando o inconsciente emerge, elas não sabem para onde olhar. Dizem por aí que monstros vivem em cantos escuros, submersos nas águas profundas, mas, talvez, apenas estejam escondidos nas mentes mais prejudicadas. Deixe-nos contar: estas garotas não fazem parte do círculo de mocinhas que gostam de bombons e flores, elas precisam de mais para que você possa fazer parte de sua história. Está preparado?

Vamos aos melhores contos da antologia? 😉

Romeu e Julieta – Michael Vasconcelos: aqui temos uma espécie de “releitura” de A Pequena Sereia, que vai ficando mais clara com as referências trazidas pelo autor. Gostei da personalidade da narradora, que tem um jeito direto e atrevido de contar a sua história trágica de amor. O final é condizente com o resto da trama, apesar de previsível.

Seu Amor em Três Dias – Katerine Grinaldi: gostei bastante do plot escolhido por Katerine Grinaldi para desenvolver sua personagem perturbada: a conhecida frase “trago seu amor de volta em 3 dias”. A protagonista se transforma de uma maneira bem interessante com o desenrolar das páginas e a autora escreve muito bem, de maneira envolvente e criativa.

Parque dos Segredos – Carol Antonucci: juro que não é porque a Carol é minha amiga e companheira de coluna, mas adorei o conto dela! Parques de diversões – cenário em que a história se passa – passam uma atmosfera mista de diversão e tensão, e o protagonista parece vivenciar essa dúvida sobre o que sentir ao longo da trama. Apaixonado pela misteriosa Meredith, ele aceita embarcar em uma aventura no parque, sem imaginar o que vai acontecer. O final foi cruel e abrupto, deixando as cenas de terror para a imaginação do leitor.

Considerações finais: a maior parte dos contos peca pela pressa, pois são poucas páginas para desenvolver histórias que exigem que você acredite na loucura, na psicopatia ou, em alguns casos, até mesmo nos dramas das personagens. Os que conseguem fazer isso são os que se destacam, como Parque dos Segredos (que tem aquela vibe dos micro-contos de terror, que conseguem impactar e assustar) e Seu Amor em Três Dias (provavelmente meu favorito). Ainda assim, apesar de não ter gostado da antologia e não poder dizer pra vocês que a recomendo, devo elogiar a iniciativa de trazer histórias com personagens femininas problemáticas ou simplesmente cruéis no centro da narrativa, rompendo com aquele ideal de fragilidade e pureza que muitas vezes são esperados das mulheres. 🙂

Título Original: Garotas Incompletas
Organizadores: Débora S. Mattana e Michael Vasconcelos
Editora: Sinna
Número de páginas: 146
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Dica de Série: Mom

Oi gente, tudo bem?

Sabe quando uma série chega de mansinho e conquista um espaço no seu coração? Foi assim que aconteceu com Mom. Depois que assisti parte de um episódio por acaso na TV, não resisti e comecei a série do início (maratonando em pouco tempo rs). Vamos conhecer? 😀

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Sinopse: Christy é uma mãe solteira recém-saída da reabilitação que decide restaurar a ordem em sua vida. Mas sua mãe Bonnie, uma alcoólatra com quem não tinha contato há muitos anos, ressurge e faz com que a tarefa se torne ainda mais complicada.

Christy é uma mãe divorciada, garçonete e ex-alcoólatra. Depois de uma adolescência e início de vida adulta difíceis (que inclusive prejudicaram seu relacionamento com a filha mais velha), Christy está decidida e fazer o seu melhor e, por isso, frequenta religiosamente os encontros do AA. Porém, o que ela não esperava é que em uma dessas reuniões ela fosse reencontrar quem ela julga ser culpada por todos os erros do passado: sua mãe, Bonnie, ex-alcoólatra e ex-dependente química. Determinada a se redimir com Christy, Bonnie vai enfrentar muita resistência e mágoa por parte da filha.

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Mom é uma comédia sensacional, com diálogos irreverentes, cenas engraçadas e personagens carismáticos. Além da relação de Christy e Bonnie, as amizades que as duas constroem no AA são sólidas e cativantes, especialmente porque elas acabam formando um grupo super heterogêneo: temos a certinha Marjorie, a perua Jill, a chorona Wendy e outras mulheres que também criam vínculos ao longo do caminho. Porém, apesar de terem características mais marcantes, todas passam por situações difíceis e demonstram outras facetas ao longo da trama. Claro, é importante frisar que Mom é uma sitcom, então esses estereótipos acabam sendo usados com frequência para fins cômicos, mas as personagens também são mais do que isso.

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Entretanto, apesar de muito cômica, Mom é uma série com MUITOS momentos dramáticos (e foram várias as vezes em que me peguei rindo num momento e chorando no próximo). Por abordar a questão da dependência química e alcoólica, a série tem como tema principal um assunto bem pesado, que atinge inúmeras pessoas e traz consequências desastrosas na vida de muitas delas. Christy e suas amigas conseguiram dar a volta por cima com a ajuda do AA e umas das outras, mas nem todo mundo tem a mesma sorte. E o bacana de Mom é que a série traz uma abordagem responsável, com vários episódios que evidenciam os estragos e a dor que o alcoolismo e a dependência química causam não somente a quem sofre da doença, mas também aos seus amigos e familiares. Além disso, Mom retrata as dificuldades diárias que alcoólatras e dependentes químicos enfrentam para evitar as recaídas (que, infelizmente, não são incomuns).

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As relações entre os personagens são minha coisa favorita em Mom. É incrível ver como a relação de Christy e Bonnie vai se transformando e, por mais que não seja perfeita, é bonito ver como algumas cicatrizes podem se curar – mesmo depois de tanto tempo. Bonnie é a personagem que rouba a cena, sem sombra de dúvidas: ela é engraçada, jovial e um pouco inconsequente, mas no fundo tem um ótimo coração. Christy acaba até um pouco apagada por conta disso rs. E, já que falei em Christy, vale entrar num assunto meio bizarro: com o passar das temporadas, a maternidade de Christy vai ficando em segundo plano em detrimento de seu desenvolvimento como personagem e do espaço dado a Bonnie e às meninas do grupo do AA. Apesar de tornar a série mais interessante (porque os filhos da Christy são um porre), é uma conveniência de roteiro, porque é nítida a importância dos filhos no processo de sobriedade de Christy. Ainda assim, sejamos honestos: é fácil esquecer que os dois chatos existem. ¯\_(ツ)_/¯

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Resumindo, Mom é uma série cativante. É aquela comédia curtinha, que você maratona sem esforço, mas que ainda assim consegue trazer um tema importante e reflexivo enquanto te arranca gargalhadas numa cena e lágrimas na outra. Recomendo muito! 😉

Título original: Mom
Ano de lançamento: 2013
Direção: Eddie Gorodetsky, Gemma Baker, Chuck Lorre
Elenco: Anna Faris, Allison Janney, Mimi Kennedy, Jaime Pressly, Beth Hall, William Fichtner

Resenha: Extraordinário – R. J. Palacio

Oi gente, tudo bem?

Em julho, o Dia do Amigo foi o tema da coluna Uma Amiga Indicou (uma parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias e Interrupted Dreamer). Nós fizemos uma lista com livros que falassem de amizade e cada uma poderia escolher alguma obra para ler e resenhar.

uma amiga indicou

A Carol sugeriu a leitura de Extraordinário e eu juntei a fome com a vontade de comer, já que tinha curiosidade pela história há um tempo. Vamos descobrir o que achei? 😀

extraordinario rj palacioGaranta o seu!

Sinopse: August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade… até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular em Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apenas da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade – um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo tipo de leitor.

Extraordinário conta a história do pequeno August Pullman, um menino que nasceu com uma condição genética responsável por uma grave deformidade em seu rosto. Acostumado a causar choque nas pessoas, o garoto sempre estudou em casa, com o auxílio da mãe; até que seus pais decidem que está na hora de matriculá-lo em uma escola de verdade. Inicialmente atordoado e preocupado – afinal, Auggie sabe o quanto as pessoas podem ser cruéis –, o menino decide encarar o desafio, onde vive experiências diversas, algumas tristes e outras enriquecedoras.

A narrativa de Extraordinário é ótima, e a autora opta por trazer capítulos curtos (adoro!) para contar diversos episódios da vida de Auggie. O livro utiliza a primeira pessoa, mas não é somente o protagonista que tem voz: também temos a narrativa de sua irmã (Olivia), de alguns de seus colegas de escola, entre outros personagens. Ou seja, com esse recurso é possível entender o sentimento de várias pessoas que orbitam a vida de Auggie, suas impressões sobre o garoto e sua condição e o impacto que ele causa em suas vidas. 

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Nem preciso dizer que o livro é repleto de lições, né? Empatia, entender a dor do outro, aceitar a diferença, abraçar a diversidade, oferecer a amizade sem esperar nada em troca, perdoar os erros, aprender a dizer adeus… São tantos momentos singelos e cheios de significado que é impossível não se sentir tocado. Os preceitos do Sr. Browne (um professor de Auggie) resumem bem diversos desses ensinamentos, e o meu favorito é aquele que vocês já devem ter lido na internet: “quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”. ❤

Os personagens também são ótimos e com seus dilemas próprios. A irmã de Auggie, Olivia, foi provavelmente minha favorita: ainda que completamente apaixonada pelo irmão, Olivia também sente a dor de ter sido deixada de lado a vida toda. Ela sabe que August precisa de mais atenção e causa mais aflição em seus pais, mas a garota inevitavelmente sente a mágoa de nunca ser a prioridade da família. Mais humana do que isso, impossível. O novo amigo de Auggie na escola, Jack, também tem um plot interessante: ele gosta muito de Auggie mas a pressão externa faz com que ele cometa alguns erros na amizade dos dois. Porém, é justamente essa situação que o faz amadurecer e buscar sua redenção.

Extraordinário é um livro incrível, cheio de significado e simplicidade. Ao concluir a leitura, você sente que a experiência te tornou um pouquinho melhor. É uma obra que fala de amizade e de amadurecimento de uma maneira doce e relevante. Recomendo!

Título Original: Wonder
Autor: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 320
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