Resenha: O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

Oi gente, tudo bem?

Mais uma leitura dos “não lidos da estante” cumprida com sucesso! \o/ Finalmente li O Lado Bom da Vida, que eu ganhei de presente em 2014. Até então, eu só tinha assistido ao filme (que deu o Oscar de Melhor Atriz a Jennifer Lawrence) e, no post de hoje, vou aproveitar para compará-los. 😉

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Sinopse: Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um “tempo separados”. Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida.

O Lado Bom da Vida nos apresenta a Pat Peoples, um homem que passou os últimos anos da sua vida em uma instituição psiquiátrica e que precisa lidar com o desafio de estar de volta à sociedade. Ele acredita que ficou apenas alguns meses lá e também não sabe por que teve que ir para “o lugar ruim” (como ele o chama), mas isso tampouco importa, porque Pat tem apenas um objetivo: se reconciliar com a ex-mulher, Nikki. Para Pat, os dois estão vivendo um “tempo separados”, mas que vai chegar ao fim assim que ele terminar de se autoaperfeiçoar, já que no passado não fora um bom marido. O mais estranho na situação é que ninguém da família de Pat menciona Nikki, e sua mãe e seu terapeuta o incentivam a seguir em frente com Tiffany, a cunhada do melhor amigo de Pat.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Pat, O Lado Bom da Vida é fácil de ser lido. Os capítulos são curtos e dão velocidade à história, que flui de maneira muito tranquila. O que mais deixa o leitor curioso é entender o que aconteceu entre Pat e Nikki – pois é evidente desde o início que o personagem vive um grande delírio em relação à possibilidade de voltar com a ex-esposa. Queremos saber o que fez com que Pat fosse levado para a instituição psiquiátrica e também descobrir por que ele perdeu a memória em relação aos últimos anos. E foram esses “mistérios” que me mantiveram curiosa em relação à história, mesmo que eu a achasse um pouco maçante em diversos momentos. Porque sim, apesar da fluidez da narrativa, muitas passagens do livro são cansativas e repetitivas. Vou explicar.

O livro é muito focado em Pat tentando conseguir sua sanidade de volta enquanto busca reconstruir suas relações. A mãe e o irmão o apoiam incondicionalmente, mas o pai é um homem rude que mal lhe dirige a palavra. A única coisa que os dois tem em comum é a paixão pelo time de futebol americano Eagles, e esse é um aspecto de grande importância na trama. Perdi a conta de quantas vezes Pat narra o grito de guerra do time ou conta que ele e os outros torcedores levantaram as mãos pro alto e cantaram o hino dos Birds (como são carinhosamente chamados). Em vários capítulos o autor se dedica a falar a respeito de futebol americano, citando jogadas e nomes de jogadores. E isso, pra mim, é extremamente desinteressante. E mesmo que não fosse, acontece com tanta frequência que acaba ficando enfadonho.

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Em contrapartida, é muito bacana o modo como o autor constrói um protagonista com evidentes problemas psiquiátricos com tanta leveza, por mais que ele aborde assuntos difíceis (não sei dizer exatamente quais são os transtornos de Pat, porque não são ditos abertamente, mas acredito que talvez depressão e bipolaridade estejam entre eles). O único problema é que, por mais que Pat seja carismático, ele também é irritante – especialmente quando insiste na ilusão de que sua vida é um filme e que o final feliz está esperando por ele. Porém, como o livro se passa inteiramente sob a perspectiva do protagonista, acabamos simpatizando com o personagem (que tem um bom coração) e torcendo para que ele consiga se curar das feridas emocionais que o assombram.

Os outros personagens não têm tanta função nas páginas. Tiffany, em teoria, é alguém fundamental na trama, sendo a única amiga de Pat e a única pessoa que é capaz de entendê-lo, mas ainda assim aparece muito pouco (os Eagles acabam tendo mais destaque do que ela). Isso me decepcionou, especialmente por ter visto o filme primeiro.

Eu gostei de O Lado Bom da Vida e acho que foi uma experiência válida. Porém, eu gostei mais do filme, que tem mais carisma. O romance e a comédia presentes no longa me fizeram simpatizar muito mais com Pat (e com Tiffany) do que o livro foi capaz, por mais que Matthew Quick seja talentoso. E, se você já leu o livro (ou não se importa com spoilers), aqui seguem as principais diferenças entre a obra original e o longa:

  • A importância dos Eagles na trama é muito maior no livro do que no filme (o que tornou o livro mais cansativo).
  • Enquanto no filme o concurso de dança é um dos principais acontecimentos, no livro ele é apenas um detalhe que motiva outra situação mais importante: a troca de cartas entre Pat e “Nikki”.
  • Tiffany tem muito menos espaço nas páginas do que na tela. O livro é muito mais focado em Pat e menos no romance entre os dois, que só é sugerido no final.
  • Os sobrenomes dos personagens são diferentes no livro e no filme.
  • A família de Pat é muito mais amigável no filme, em especial seu pai.
  • No livro, Pat não tem o lema “excelsior” para lembrá-lo de ser positivo.
  • A razão pela qual Pat e Nikki romperam, que o levou à instituição psiquiátrica, só é revelada no fim do livro, enquanto no filme isso é dito logo de cara.
  • Danny, o amigo que Pat fez na instituição psiquiátrica, só aparece no fim do livro, enquanto no filme ele tem um papel mais importante.

Pelo que me lembro do filme, essas foram as mudanças mais significativas. Você lembra de mais alguma? Me conte nos comentários! 😉

Título Original: The Silver Linings Playbook
Autor: Matthew Quick
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 256

Dica de Série: Shadowhunters

Oi pessoal, tudo bem?

No ano passado, quando Shadowhunters estreou, eu fiz um post de primeiras impressões, lembram? Na época, prometi que voltaria pra falar mais sobre a série quando tivesse uma opinião mais formada a respeito dela e… cá estou! 🙂

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Sinopse: Baseada nos livros Os Instrumentos Mortais, a série Shadowhunters acompanha a jovem Clary Fray, de 18 anos de idade, que descobre em seu aniversário que ela não é quem pensava ser, mas que vem de uma antiga linha de Caçadores de Sombras – seres híbridos de humanos e anjos que caçam demônios. Quando sua mãe Jocelyn é sequestrada, Clary se lançada no mundo de caça aos demônios junto do misterioso Caçador de Sombras Jace e seu melhor amigo, Simon. Agora vivendo entre fadas, feiticeiros, vampiros e lobisomens, Clary começa uma jornada de autodescoberta enquanto aprende mais sobre seu passado e percebe como poderá ser seu futuro.

A sinopse da série já diz exatamente do que ela se trata, então não vejo necessidade de falar muito além dela a respeito do enredo. A primeira temporada tem aquele clima introdutório, que apresenta aos espectador um novo universo e suas particularidades. Já na segunda, vemos esse novo mundo sendo mais aprofundado e desenvolvido.

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Admito pra vocês: Shadowhunters me ganhou no cansaço. Eu não costumo largar séries pela metade (fiz isso com pouquíssimas até hoje) e, como me interesso pelo universo construído pela Cassandra Clare, acabei “relevando” todos os defeitos que mencionei no post de primeiras impressões e segui assistindo. E eu fui recompensada! A segunda temporada (que, inclusive, tem mais orçamento, graças à Netflix) está se saindo muito melhor do que a primeira, me fazendo realmente gostar do desenvolvimento da série até o momento (sei que os fãs têm reclamado de várias alterações em relação aos livros mas, como só li o primeiro volume, isso não tem me incomodado).

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Shadowhunters é uma série fantasiosa e bastante juvenil, mas acaba ganhando o espectador devido aos constantes desafios que os personagens precisam vencer ao longo dos episódios (e também aos shipps). Se a primeira temporada é focada em Clary, em sua descoberta como sendo uma Caçadora de Sombras e em sua busca pela mãe – sequestrada pelo ex-marido e pai da protagonista, Valentine –, a segunda se equilibra entre a luta contra Valentine, revelações importantes e um novo (e ameaçador) vilão. A série também dá um passo acertado, ainda que não perfeito, em direção à diversidade, pois traz um casal gay super importante (Malec ftw ♥) e personagens negros (como Luke e Maia) que ganham espaço no enredo da segunda temporada.

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Outra coisa bacana que vale mencionar: os personagens tiveram um desenvolvimento notável e as atuações também melhoraram. Katherine McNamara, principalmente, evoluiu muito em relação à season anterior. Simon e Magnus continuam sendo meus personagens favoritos. ❤ Enquanto o primeiro ganha mais espaço na temporada (yay!), o segundo infelizmente acaba sendo um pouco desperdiçado. Isabelle também recebe mais atenção e tem um plot próprio, enquanto Alec amadurece e ganha novas responsabilidades.

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Shadowhunters é uma série que teve um grande crescimento da primeira para a segunda temporada, me deixando muito satisfeita por não ter desistido de acompanhar. Essa melhora, inclusive, foi o que me motivou a escrever esse post e melhorar a imagem que eu tinha construído de série aqui no blog. Sim, é uma produção um pouco guilty pleasure, porque tem várias falhas, mas ainda assim é muito envolvente e divertida. É uma série gostosa de acompanhar, mas da qual não podemos esperar um roteiro inesquecível ou um enredo impecável. Recomendo pra quem gosta do universo de Os Instrumentos Mortais e/ou deseja uma série despretensiosa, cujo objetivo é apenas manter os fãs entretidos e envolvidos sem maiores expectativas ou pretensões. 😉

P. S.: grazadeus arrumaram a cor do cabelo da Clary, que na primeira temporada mais parecia uma cenoura! HAHAHA 😛
P. S. 2: eu sei que a galera shippa Clary x Jace, mas o desenvolvimento da série me fez shippar Clary x Simon loucamente HAHAHA! ❤

Título original:  Shadowhunters
Ano de lançamento: 2016
Criador: Todd Slavkin, Darren Swimmer
Elenco: Katherine McNamara, Dominic Sherwood, Alberto Rosende, Matthew Daddario, Emeraude Toubia, Harry Shum Jr., Isaiah Mustafah

Resenha: Morte Súbita – J. K. Rowling

Oi, meu povo! Como estão?

Para o post de hoje, trago pra vocês o primeiro livro fora do universo Harry Potter que li da minha rainha J. K. Rowling. ❤ Me refiro a Morte Súbita, uma obra que causa muitas opiniões controversas.

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Sinopse: Este livro de J.K. Rowling conta a história de Pagford e seus habitantes, que, após a morte inesperada de Barry Fairbrother, membro da Câmara do vilarejo, fica em choque. Pagford é, aparentemente, uma pacata cidade inglesa com tudo o de mais comum e organizado que pode haver, mas o que está por trás da fachada bonita é uma cidade em guerra – uma guerra de classes, credos, gerações e interesses. Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com seus maridos, professores em guerra com seus pupilos – Pagford não é o que parece ser. O assento vazio deixado por Barry no conselho municipal logo se torna o catalisador para a maior guerra que a cidade já viu. Quem triunfará em uma eleição repleta de duplicidade, paixão e revelações inesperadas?

Se não me falha a memória, eu ganhei esse livro de uma amiga em 2012 e, até então, nunca havia dado uma chance a ele. As duras críticas na internet acabaram me fazendo ter uma impressão negativa (ou talvez receosa) em relação à obra e acabei me enrolando pra conferi-la. Esse ano, na tentativa de diminuir cada vez mais os livros não lidos da minha estante, decidi que era hora de conhecê-lo e tirar minhas próprias conclusões. E minha opinião é bem positiva!

Morte Súbita tem seu start com a morte de Barry Fairbrother, um importante membro da cidade fictícia de Pagford. Membro do Conselho Distrital, pai de família exemplar, treinador do time de remo da escola, Barry era uma pessoa cujo nome todos conheciam. Mas nem só de amizade e admiração eram feitas suas relações: no Conselho Distrital, Barry tinha muitos conflitos por defender o bairro conhecido como Fields – uma zona da cidade bastante pobre e com altos índices de criminalidade. E eu diria que uns 80% do enredo do livro rodeia todo esse conflito em relação a Fields e Barry, por mais que o personagem morra no prólogo. Mesmo sendo ausente, ele é uma peça-chave na trama.

A partir da morte de Barry, vários acontecimentos têm início. O casal Howard e Shirley Mollison (os maiores rivais de Barry no Conselho) se preparam para tentar eleger seu filho, Miles, como substituto de Barry; Samantha Mollison, esposa de Miles, se afasta cada vez mais do marido por essa decisão; Gavin Hughes, sócio de Miles, vive um relacionamento conturbado com a namorada, Kay Bawden, uma mulher com quem ele não tem coragem de terminar; Kay, por sua vez, lida com a revolta da filha, Gaia (que não queria ter se mudado de Londres para o vilarejo de Pagford) e com as dificuldades do seu emprego como assistente social, no qual ajuda a família Wheedon; Krystal Wheedon, uma garota problemática, tenta manter a mãe longe das drogas enquanto cuida do irmão de apenas três anos; Andrew Price, colega de Gaia e Krystal, sofre com a violência de um pai abusivo; o casal Colin e Tessa Wall tentam lidar com o filho rebelde Stuart (Bola), ao mesmo tempo em que Colin se candidata ao Conselho; Parminder Jawanda, médica e membro do Conselho, lida com a tristeza após a morte de Barry, mas sem perceber que parte de sua família tem seus próprios sofrimentos; Sukhvinder Jawanda, filha de Parminder, sofre bullying e é maltratada por Bola, mas não tem coragem de contar a situação a ninguém… e por aí vai.

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Sim, existem MUITOS nomes em Morte Súbita (eu nem citei todos). E sim, todos eles são importantes. Porque Morte Súbita é um livro que fala sobre as relações pessoais em uma cidadezinha interiorana com valores conservadores. E esses valores caem por terra quando começam a invadir o site do Conselho Distrital para postar verdades sujas sobre diversos membros daquela comunidade. Esse gatilho coloca tudo em movimento, e vemos as máscaras de vários personagens caindo.

Acho importantíssimo falar também sobre a crítica social incrivelmente inteligente que J. K. Rowling constrói por meio da polêmica a respeito de Fields. Os protagonistas desse plot são os membros da família Wheedon. Krystal e sua mãe, Terri, são personagens difíceis e problemáticas e, em um primeiro momento, é muito fácil que nossa tendência seja a de de julgá-las e desprezá-las. Porém, com o passar das páginas, vamos descobrindo muito mais a respeito delas: conhecemos suas dores, seu sofrimento, seus traumas. Percebemos que a pobreza e a desigualdade social as levaram para esse caminho difícil, do qual nem todos conseguem voltar. E, sendo brasileira, foi muito fácil enxergar como essa realidade acontece todos os dias em nosso país, tão desigual e injusto. A crítica que J. K. tão habilmente constrói se aplica totalmente à nossa realidade, o que torna todo esse enredo da família Wheedon ainda mais indigesto e amargo.

Morte Súbita tem uma história que se desenrola aos poucos. A narrativa, feita em terceira pessoa, mas sob a ótica de vários personagens, leva um tempo para engrenar. Mas, assim que você entende quem é quem em Pagford e quais são suas motivações e suas histórias, a trama fica muito mais instigante. Pra vocês terem ideia de quanto fui sendo absorvida pela história, eu devorei as últimas 100 páginas (fiquei lendo até às 3h da manhã e quase morri de sono no outro dia hahaha). O final é um soco no estômago e me deixou bastante impactada, ao mesmo tempo em que tenta trazer uma visão positiva sobre alguns aspectos. Resumindo, Morte Súbita é uma obra excelente, bem construída e com críticas extremamente importantes. J. K. Rowling não decepciona! ❤

Título Original: The Casual Vacancy
Autor: J. K. Rowling
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 501

Resenha: Histórias em Retalhos – Alana Gabriela

Oi, povo! Tudo certo?

Hoje eu trago pra vocês a resenha do primeiro livro que li da autora parceira Alana Gabriela! 🙂 Trata-se de Histórias em Retalhos, uma coletânea de “histórias curtas” (como a autora as chama) e poemas.

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Sinopse: O amor é a meta infinita da história do mundo. Histórias em Retalhos é uma coletânea de histórias curtas intrínsecas e sinceras, que narra de forma sensível o sentimento mais singelo de todos: o amor. Um relato de uma mãe introspectiva, o amor de uma irmã pelos irmãos, uma carta de uma garota apaixonada para seu melhor amigo e uma filha que enfrenta dificuldades com a perda dos pais. Além, de uma história extra sobre o descobrimento do amor pela leitura. Todas essas histórias compactam a sutileza e nuances desse sentimento dolorido, complicado e bonito em seus diversos ângulos.

Histórias em Retalhos é formado por duas partes, por assim dizer: contos e poemas. No primeiro conto (Querido Louis) eu já senti que o livro tinha, de certa forma, um caráter autobiográfico – informação que foi confirmada na Nota da Autora, nas últimas páginas. A personagem principal tinha um jeito de falar semelhante ao da Alana, além de também escrever músicas e livros. Deu pra sentir que havia emoções reais naquela história. O segundo conto (Os Filhos do Meu Pai) também parecia um desabafo, além de trazer um tema mais polêmico: a relação de uma garota com os irmãos, que são frutos do adultério do pai. Nesse conto algumas coisas me incomodaram: o uso de estrangeirismos, ao mesmo tempo em que eram utilizadas palavras regionais (como “painho”), e também a idade dos irmãos mais novos (Tommy teria 5 anos, mas no final do conto a narradora diz que ele sabe mexer no Skoob, o que me parece um pouco avançado para uma criança dessa idade).

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Os contos seguintes (O Inverno de Aurora e A Menina da Biblioteca) são carregados de melancolia, mas ambos trazem uma mensagem bonita e otimista no final. Enquanto O Inverno de Aurora nos lembra que devemos valorizar os pequenos momentos com quem amamos, e A Menina da Biblioteca nos mostra que pequenas atitudes podem transformar o mundo de alguém de um modo muito positivo. Por fim, Rosas de Cabeceira (o último conto) e encerra essa primeira parte de um modo bastante triste: somos apresentados a uma mãe que se arrepende por nunca ter dito “eu te amo” à filha, que morreu prematuramente de câncer. E o recado do conto é claro: diga o que você sente a quem você ama, pois nunca sabemos quando será tarde demais.

Infelizmente não sou uma grande fã de poemas, por isso não me senti muito conectada a nenhum em especial. É um estilo que não me chama muito a atenção e, consequentemente, não mexe muito comigo. Se eu tiver que escolher um como destaque, eu escolheria Manga Longa ou Manga Curta?, por trazer um tema bem relevante.

De modo geral, eu acho que Histórias em Retalhos é uma série de desabafos que a autora decidiu dividir com o mundo. Infelizmente, notei que existem diversos erros de revisão e ortografia, e não posso negar: eles me incomodaram bastante durante a leitura. Acredito que uma revisão mais caprichada deixaria o livro mais coeso e “redondinho”. Quem sabe não rola uma nova edição no futuro? 🙂

Título Original: Histórias em Retalhos
Autor: Alana Gabriela
Editora: Amazon
Número de páginas: 109

Dica de Série dupla: Luke Cage e Punho de Ferro

Oi gente! Tudo bem com vocês?

Pra finalizar as séries de super-heróis da Netflix e da Marvel, hoje eu trago pra vocês minha opinião sobre Luke Cage e Punho de Ferro! 🙂

Resolvi fazer essa Dica de Série dupla por três fatores: 1) acho que combina falar deles juntos, já que eles formam uma bela amizade nas HQs; 2) fiquei pilhadíssima com o trailer de Os Defensores, que saiu há algum tempo e 3) essas foram as duas séries da parceria Netflix e Marvel de que menos gostei. Vamos aos reviews?

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Sinopse: Depois que um experimento sabotado ter deixado Luke Cage com uma super-força e pele indestrutível, ele se torna um fugitivo que tenta reconstruir a vida no Harlem, bairro de Nova York. Mas logo ele é forçado a sair das sombras e lutar pela sua cidade, bem como confrontar o passado do qual tentou fugir e assumir a identidade de herói.

A história de Luke Cage pode ter começado em Jessica Jones, mas na sua série solo ela ganha mais profundidade e conhecemos mais do passado do herói. A série começa com Luke trabalhando na Barbearia do Pop, localizada no Harlem – um bairro majoritariamente negro. Lá, a violência fica cada vez mais expressiva, principalmente pela ação dos primos Cornell “Boca de Algodão” Stokes (dono da boate mais popular do local, onde ocorrem diversas atividades criminosas) e Mariah Dillard (vereadora que usa sua influência para ajudar Cornell). Luke mantém suas habilidades especiais – ele é super forte e sua pele é à prova de balas, extremamente resistente – em segredo, e apenas Pop sabe a verdade. Quando o dono da barbearia é assassinado, Luke toma para si a responsabilidade de acabar com Boca de Algodão e Mariah Dillard, ao mesmo tempo em que desvenda segredos sobre seu próprio passado.

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Luke Cage tem um enredo consistente, apesar de desandar no final – algo que senti também em Jessica Jones. Existem muitos vilões, o que acaba dividindo a atenção do espectador e enfraquecendo todos eles, em especial o último, que deveria ser também o principal e mais ameaçador. Luke não é um protagonista muito carismático, mas felizmente a enfermeira mais badass de Nova York, Claire Temple, supre essa demanda, já que ela ganha bastante destaque nessa série. Outra personagem feminina super forte que merece destaque é a policial Misty Knight: honesta, determinada e corajosa, ela defende o Harlem com unhas e dentes. Luke Cage também é uma série importante por trazer muita negritude e representatividade, já que o Harlem é um bairro predominantemente negro: da trilha sonora aos costumes locais, a série acerta em cheio ao abordar esses aspectos, que normalmente são deixados de lado em outras produções televisivas.

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Em suma, Luke Cage é uma boa série, mas cujo protagonista não encanta. Tem uma história coerente e interessante, mas não a ponto de querer me fazer maratonar. Assisti mais por querer acompanhar os quatro heróis que farão parte de Os Defensores, confesso, mas não me arrependi de dedicar algumas horas à série. 🙂

Título original:  Marvel’s Luke Cage
Ano de lançamento: 2016
Criador: Cheo Hodari Coker
Elenco: Mike Colter, Mahershala Ali, Simone Missick, Alfre Woodard, Theo Rossi, Rosario Dawson, Erik LaRay Harvey

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Sinopse: Daniel Rand (Finn Jones) é um bilionário, herdeiro da fortuna das Indústrias Rand. Por 15 anos, todos acreditaram que ele estava morto, após um acidente de avião no Himalaia que vitimou seus pais, Wendell e Heather Rand. Mas Danny foi salvo e viveu todo esse tempo na cidade mística de K’un-Lun, uma das Sete Capitais do Céu. Lá, Danny aprendeu a canalizar o seu chi e se tornou o Punho de Ferro. De volta a Nova York, ele vai tentar retomar seu posto na empresa, agora sob o comando de seus amigos de infância Joy (Jessica Stroup) e Ward Meachum (Tom Pelphrey). Mas ele precisa convencer a todos que é realmente quem diz ser e combater o Tentáculo, com a ajuda de Colleen Wing (Jessica Henwick).

Em Punho de Ferro, acompanhamos a história de Danny Rand, que volta a Nova York depois de anos treinando em um monastério localizado em outro plano astral. Quando criança, ele e os pais sofreram um acidente de avião, e Danny foi o único sobrevivente. Salvo por monges de K’un-Lun (esse local sagrado em outro plano), Danny foi treinado nas artes do kung fu e conseguiu o título de Punho de Ferro – o herói responsável por proteger K’un-Lun do Tentáculo (que deu as caras pela primeira vez em Demolidor). Danny volta à Nova York para retomar sua antiga vida como herdeiro da empresa que leva seu nome, ao mesmo tempo em que pretende acabar com o Tentáculo. Nesse processo, ele torna-se aliado da instrutora de artes marciais Colleen Wing e entra em conflito com os atuais gestores das Indústrias Rand: Ward e Joy Meachum, seus amigos de infância e filhos do antigo sócio do pai de Danny.

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Serei direta: Punho de Ferro é a pior das quatro séries oriundas da parceria Marvel e Netflix. Finn Jones interpreta um Danny Rand inconsistente, que ora é um monge tranquilo e comedido, ora perde as estribeiras com qualquer situação de conflito. As cenas de luta são vergonhosas, principalmente quando consideramos que o Punho de Ferro é o personagem que mais deveria ter maestria em combates corpo a corpo. A história tenta colocar plot-twists a todo momento, inclusive da metade para o final, quando os personagens já deveriam ter sido bem estabelecidos (como ocorre, por exemplo, com a inserção de Bakuto, mais um dos vilões). Isso tira a força dos plot-twists, que acabam soando mais como tentativas desesperadas de tentar fazer o enredo engrenar. Falando ainda em vilões, Punho de Ferro repete o erro de Luke Cage, mas de modo ainda mais falho: a série tem diversos antagonistas, sendo que um dos maiores já é revelado de cara, não sobrando nenhuma surpresa para o espectador. O único personagem novo que é interessante na série é Ward Meachum – ele é o mais próximo do cinza que temos em Punho de Ferro, tendo suas forças e fraquezas trabalhadas e seu psicológico desenvolvido. Já Claire Temple, como sempre, rouba a cena, sendo a visão do público em meio às loucuras que presencia, sempre com comentários ácidos e engraçados e uma visão mais racional das coisas.

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Punho de Ferro parece ter sido feito às pressas e sem orçamento, mas eu tenho que admitir: o ritmo dos episódios é bom, e dá vontade de assistir um após o outro porque o enredo não chega a ser cansativo (apesar dos diversos momentos nonsense). Espero que o personagem Danny Rand/Punho de Ferro seja melhor desenvolvido em Os Defensores, porque é uma pena ver a qualidade das séries Marvel/Netflix decair. Pra quem pretende acompanhar todas as séries dessa parceria, não há como fugir de conferir Punho de Ferro. Mas meu conselho é que você assista sem muitas expectativas.

Título original:  Marvel’s Iron Fist
Ano de lançamento: 2017
Criador: Scott Buck
Elenco: Finn Jones, Jessica Henwick, Tom Pelphrey, Jessica Stroup, David Wenham, Rosario Dawson

Review: Puella Magi Madoka Magica

Olá, pessoal! Tudo bem?

Conforme o prometido, vim trazer mais um conteúdo que eu queria falar a respeito há um tempo. Já falei de muitos mangás por aqui, mas hoje resolvi trazer um anime pro blog! Trata-se de Puella Magi Madoka Magica ou, simplesmente, Madoka Magica.

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Sinopse: Suicídios sem explicação? Acidentes de trânsito? Mortes de pacientes quase curados? Tudo isso é causado pelo poder das bruxas. Elas causam o mal e estão presentes em todos os lugares. Para combate-las, há apenas uma saída: algumas meninas têm que firmar um contrato com Kyubey e tornarem-se Garotas Mágicas. Em troca, essas garotas receberão como prêmio um desejo concedido. Em Puella Magi Madoka Mágica seguimos a vida de Madoka Kaname e os dramas causados após descobrir a existência das bruxas e das garotas mágicas. Em meio a outras personagens, temos Homura Akemi e sua tentativa de impedir que Madoka se torne uma garota mágica. Fonte.

A história começa quando Madoka Kaname, nossa protagonista, tem um sonho em que uma garota luta sozinha contra um monstro imenso. No dia seguinte, na aula, ela vê que a menina do seu sonho é a nova aluna transferida: Homura Akemi. Posteriormente, enquanto faz compras no shopping com as amigas, Madoka vê Homura perseguindo um animal diferente, que lembra um gato. Madoka e sua melhor amiga, Sayaka, salvam essa criatura – chamada Kyubey – mas acabam presas em uma espécie de mundo paralelo, onde são atacadas por um monstro. As duas são salvas por Mami Tomoe, uma garota mágica. E Kyubey é a criatura capaz de transformar garotas normais em garotas mágicas, como Mami. Ele explica que o objetivo das garotas mágicas é lutar contra as bruxas, criaturas horrendas que se alimentam de humanos, levando-os inclusive a se suicidar, cometer assassinato, entre outras coisas. A trama realmente ganha propósito no momento em que Kyubey oferece a Madoka e a Sayaka um contrato para que elas sejam garotas mágicas também – e, em troca, elas podem ter qualquer desejo atendido. Porém, Homura está determinada a impedir que isso aconteça.

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Os traços delicados e a premissa de “garotas mágicas lutando contra o mal” fazem Madoka Magica parecer um anime bobinho, beirando até mesmo o infantil, certo? Errado. Porque em Madoka Magica todo esse conceito de “mahou shoujo”/garotas mágicas é subvertido e desconstruído, principalmente por ter um enredo profundo e doloroso (coisa que eu nunca vi em nenhum outro “mahou shoujo”, por sinal).

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Em apenas 12 episódios, o anime nos apresenta a personagens femininas complexas, com fardos pesados a carregar e arrependimentos com os quais precisam conviver. Madoka é doce, altruísta e gentil, mas extremamente insegura, e esse sentimento faz com que ela não se sinta importante ou necessária; Sayaka é apaixonada pelo melhor amigo desde a infância, mas ele sofreu um acidente que o impede de tocar violino, seu maior talento e paixão, e ela não tem coragem de dizer o que sente; Mami e Kyoko, outras duas garotas mágicas, tem suas próprias histórias que motivaram a decisão de se tornarem garotas mágicas. E, por fim, temos Homura: uma personagem fria, calculista, com um semblante apático, mas capaz de tudo para cumprir seu objetivo – eliminar Kyubey e impedir Madoka de se tornar uma garota mágica. As motivações da personagem são obscuras e demoramos muito a entendê-la, mas prometo que, quando isso acontece, é impossível não se emocionar.

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Madoka Magica também traz algumas discussões sobre moralidade. As personagens viram garotas mágicas para salvar o mundo das bruxas? Ou para ter seu desejo atendido? A questão é que junto do desejo atendido vem também o sacrifício. E essa é uma palavra importante nesse anime. Porque ser uma garota mágica e ver seu desejo sendo realizado não é nada perto do sofrimento que esse “trabalho” exige. A próxima frase tem um spoiler, selecione se quiser ler: a verdade é que o trabalho de garota mágica é eterno e tem apenas um fim, a morte. Porque as bruxas, na realidade, são antigas garotas mágicas que sucumbiram pelo acúmulo de energias negativas. Kyubey é outro personagem que vale a pena mencionar. Vindo de outro planeta, ele tem uma noção de certo e errado totalmente diferente da nossa. Por isso, ele não vê problema algum em fazer o que faz com jovens garotas – induzi-las a se transformarem em garotas mágicas sem contar a verdade por trás disso.

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Puella Magi Madoka Magica é um anime com protagonismo feminino, que traz uma forma totalmente diferente de apresentar o conceito de garotas mágicas. Ele mostra, sem poupar o espectador, que toda ação tem sua consequência, e que pessoas podem morrer e sofrer no processo. Com personagens repletas de camadas, dores e responsabilidades, além de cenas de luta psicodélicas e visualmente impactantes, Madoka Magica foi uma grata surpresa que tive em 2015. É um anime sofrido, por mais que suas cores delicadas e traços fofos não deixem transparecer essa dor em um primeiro momento. Recomendo muito, principalmente pra quem gosta de histórias surpreendentes. 🙂

Título original: Mahō Shōjo Madoka Magica
Ano de lançamento: 2011
Direção: Akiyuki Shinbo
Roteiro: Atsuhiro Iwakami
Elenco: Aoi Yūki, Chiwa Saitō, Eri Kitamura, Kaori Mizuhashi, Ai Nonaka, Emiri Katō

Vamos conversar sobre 13 Reasons Why?

Oi pessoal, como estão?

Lembram que na semana passada, quando postei sobre Jessica Jones, comentei que tinha terminado 13 Reasons Why e não sabia exatamente como falar a respeito? Pois bem, durante a semana fui maturando meus sentimentos, lendo opiniões diversas e debatendo o assunto, e hoje trago pra vocês a síntese do que senti em relação a essa série. Esse post é e não é ao mesmo tempo um Dica de Série, pois não quero apenas fazer um review, mas levantar também algumas reflexões. Espero que gostem e tenham paciência pra ler esse textão. 🙂

13 reasons why

Sinopse: Uma caixa de sapatos é enviada para Clay (Dylan Minnette) por Hannah (Katheriine Langford), sua amiga e paixão platônica secreta de escola. O jovem se surpreende ao ver o remetente, pois Hannah acabara de se suicidar. Dentro da caixa, há várias fitas cassete, onde a jovem lista os 13 motivos que a levaram a interromper sua vida – além de instruções para elas serem passadas entre os demais envolvidos.

Vamos falar um pouco sobre a série. 13 Reasons Why tem a seguinte premissa: Hannah Baker se suicidou. Enquanto a escola na qual a garota estudava lida com isso, Clay Jensen, nosso protagonista (que era apaixonado por Hannah), recebe uma caixa com fitas gravadas pela garota. Nessas fitas, ela conta os motivos pelos quais tomou tal atitude, e Clay está nessas fitas. Enquanto as ouve, o garoto se depara com o sofrimento de Hannah e com coisas muito mais sombrias do que pensava.

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Eis o grande “trunfo” da série pra manter o espectador curioso: por que Clay está nas fitas? O que ele fez? O que ele deixou de fazer? Essa dúvida faz com que você queira continuar assistindo episódio após episódio, por mais que o desenrolar da trama seja bastante lento em diversos momentos. Alguns episódios são arrastados e talvez não precisassem de 50 minutos pra serem contados. Pra mim, esse é um dos maiores defeitos enquanto série (analisando apenas como uma produção para a TV, sem debates mais profundos).

Contudo, a série acerta muito em outros aspectos: a atuação dos jovens atores é brilhante, com destaque para os dois protagonistas, Katherine Langford e Dylan Minnette (Hannah e Clay, respectivamente). Enquanto Katherine conseguia passar toda a esperança, o sofrimento e as desilusões de Hannah (e ao mesmo tempo imitar perfeitamente o sotaque americano, considerando que ela é australiana), Dylan trouxe à vida um Clay desajustado socialmente, tímido, mas carismático (no passado) e também fechado, magoado e confuso (no presente). Outros dois jovens atores merecem destaque nas atuações: Alisha Boe (Jessica) e Brandon Flynn (Justin). Ambos foram protagonistas de cenas de grande sofrimento e entregaram muita emoção no que faziam. Kate Walsh, que interpreta a mãe de Hannah, também emociona, como uma mãe que não aceita o destino da filha e está obcecada em descobrir por quê Hannah fez o que fez, já que a garota não deixou nenhum bilhete ou explicação.

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Bullying e machismo

A partir de agora, o review contém spoilers!

Bom, agora eu gostaria de entrar no primeiro ponto de debate sobre 13 Reasons Why. Conversando com algumas colegas da faculdade, percebi uma coisa que não tinha notado: sim, a série é sobre bullying. Mas ela é também sobre machismo. E quase ninguém está falando a respeito.

Hannah começa a sofrer quando iniciam um boato de que ela transou com Justin. Depois, ela vai parar em uma lista das “melhores e piores da escola” como tendo a melhor bunda. Depois, uma falsa amiga espalha boatos sobre sua reputação para esconder o próprio segredo. Depois, um cara se acha no direito de tentar tocá-la. Depois, ela presencia um estupro. Depois, ela própria é estuprada. E, por fim, quem deveria ajudá-la acaba culpabilizando a garota pelo que aconteceu. Ou seja, as agressões que a personagem sofre, em sua maioria, são originadas do julgamento alheio a respeito da sua sexualidade. Sim, acontecem outras coisas no meio de tudo isso que entram na categoria de bullying, mas se analisarmos o cerne de tudo que acontece com ela e que faz com que o copo transborde, vamos encontrar um denominador comum: o machismo.

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Em determinado momento, Hannah diz a essa falsa amiga que não se importa com rumores. E, por um tempo, a garota consegue “aguentar o tranco” por mais que sofra com tudo que está acontecendo. O problema é que o acúmulo de coisas vai se tornando um fardo muito pesado, e a personagem (que começa a série mentalmente saudável) vai adoecendo, apesar do enredo não focar nisso com muita eficiência. No final, após o estupro, ela já se sente morta. E eu imagino que muitas mulheres que passam por isso realmente possam se sentir assim – sem esperança, sem vontade de seguir em frente, após terem seu corpo e sua alma violados.

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Ainda dentro desse espectro, unindo bullying e machismo, a série critica comportamentos que, infelizmente, são extremamente comuns na nossa sociedade. Alguns personagens são passivos e deixam coisas erradas acontecerem, motivados pelo desejo de aceitação. Outros, como Bryce, são o estereótipo de sucesso americano: ricos, poderosos, inatingíveis. São aqueles homens que fazem parte do time da escola, que tem um futuro brilhante e que acreditam que todas as mulheres querem estar com eles. São o tipo de cara que não sabem ouvir “não” e que acreditam que o mundo está sob seus pés. Infelizmente, esse tipo de homem é mais comum do que eu gostaria de acreditar.

13 Reasons Why é sobre bullying e suas consequências? Também. Tyler é uma prova disso, já que no final vemos o tipo de personagem que ele vai se tornar. Mas a série traz outra questão fundamental que, infelizmente, nem a própria série parece assumir: machismo. E machismo mata.

Sobre gatilhos, riscos e a cena do suicídio

Outro debate que vem tomando as redes sociais é sobre a irresponsabilidade da série em relação aos riscos que ela traz para pessoas emocionalmente fragilizadas. Explico: alguns estudiosos do assunto, pessoas com depressão e educadores têm se mostrado preocupados com a abordagem escolhida por 13 Reasons Why para tratar da questão do suicídio. Segundo esses críticos, a série não segue recomendações da Organização Mundial de Saúde ao retratar de modo explícito o suicídio, o que pode servir como gatilho para pessoas que já pensam no assunto.

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Honestamente, não posso falar nessa questão com propriedade, pois não me enquadro no grupo de risco. Mas posso dizer o seguinte: a série me causou tanta bad que, no fim de semana em que terminei, eu realmente não queria fazer nada, nem mesmo sair de casa. Tenho crises de ansiedade e, como mulher, sofri especialmente nas cenas de estupro – pois sabia que é um risco que todas nós corremos. A cena da morte da Hannah, pra MIM, não foi romantizada: não havia música de fundo, a personagem sofre ao se machucar e tudo ocorre de modo visceral e agoniante. E, mesmo eu não sendo grupo de risco, fiquei mal. Falei disso com a minha psicóloga, pra vocês terem ideia.

Então se eu, que não sofro com problemas psicológicos graves, fiquei fragilizada, consigo imaginar o que alguém nessa situação possa ter sentido. E isso me fez entender que sim, existem riscos, e essa abordagem pode sim ser gatilho pra alguém que pensa no assunto. Porque o final da Hannah é desesperançoso: quando ela tenta buscar ajuda, ela não consegue. E, por mais que o final tente trazer alguma luz por meio de Clay e Skye, a verdade é que nós nos afeiçoamos à Hannah. Nos identificamos com Hannah. E a Hannah não vê outra solução que não se matar. Entendem como isso é problemático? Não acredito que a série faça suicidas. Infelizmente, pessoas que pretendem fazer isso sabem como fazer e onde pesquisar. É triste, mas é a realidade. Mas eu acredito que sim, a série possa disparar gatilhos em quem já se vê sem esperança.

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Por outro lado, o Centro de Valorização à Vida – que fez uma parceria de divulgação com a Netflix – vem registrando um aumento significativo na busca por ajuda. É algo positivo? Com certeza. Vale o risco de perder alguém que não veja outra solução? Eis o x da questão. 

Eis o que penso que poderia ter ajudado nessas questões: acredito que a série deveria trazer avisos de “conteúdos fortes” desde o primeiro episódio, pois isso começa a acontecer apenas no episódio 9 e, até lá, o espectador já está envolvido com a história. Além disso, acredito que no fim de cada episódio poderia ter alguma cena com algum psicólogo ou psiquiatra dando conselhos a respeito do assunto e divulgando os telefones do CVV. Acho que seria uma forma de minimizar os riscos trazidos pela história e falar no assunto com mais responsabilidade. E, por fim, o adoecimento mental da Hannah – que é mais subentendido do que mostrado – poderia ter mais espaço na trama, em vez de tanto “suspense” acerca das fitas.

Em suma, eu gostei de 13 Reasons Why. É uma série que me fez pensar e mexeu comigo. Porém, acredito que ela funcione mais para pessoas que podem ser “porquês” do que pra pessoas fragilizadas emocionalmente. Se eu recomendo a série? Não pra todo mundo. Leia a respeito dela, pegue spoilers se for preciso, reflita sobre como você se sente e, só depois disso, tome a decisão de assistir ou não. E não esqueça: você é importante. 🙂

(Deixo aqui embaixo o telefone do CVV e alguns links com opiniões que tem mais propriedade pra falar da questão da depressão e do suicídio.)

Título original: 13 Reasons Why
Ano de lançamento: 2017
Criadores: Brian Yorkey
Elenco: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Brandon Flynn, Alisha Boe, Miles Heizer, Justin Prentice, Michele Ang, Kate Walsh