Resenha: O Ickabog – J. K. Rowling

Oi pessoal, tudo certo?

Assim como boa parte do fandom, eu também me decepcionei demais com a J. K. Rowling desde seus tweets transfóbicos. Inclusive não pretendia (nem pretendo, até o momento) adquirir seus livros novos, mas acabei recebendo como uma ação de divulgação da Editora Rocco um exemplar de O Ickabog. Decidi fazer um esforço de descolar um pouco a experiência de leitura da obra das coisas horríveis que ela disse, e felizmente esse esforço foi recompensado, porque eu me deparei com um ótimo livro (e devo admitir: mesmo zangada, continuo gostando de tudo que essa mulher escreve – exceto seus tweets, obviamente).

Garanta o seu!

Sinopse: Com a altura de dois cavalos, olhos que brilham como bolas de fogo, garras afiadas e compridas feito navalhas, o Ickabog está chegando. Um monstro mítico, um reino em perigo e uma aventura que irá testar a bravura de duas crianças. Descubra uma história brilhantemente original, divertida e irônica, sobre o poder da esperança e da amizade, de J.K. Rowling, autora de Harry Potter, uma das maiores contadoras de história de todos os tempos. O reino da Cornucópia já foi o mais feliz do mundo. Tinha muito ouro, um rei com os melhores bigodes que você poderia imaginar, e açougueiros, padeiros e queijeiros cujas comidas deliciosas faziam uma pessoa dançar de prazer. Tudo parecia perfeito, mas nos pântanos enevoados ao norte, segundo a lenda, vivia o monstruoso Ickabog. Qualquer pessoa sensata sabia que o Ickabog era apenas um mito para assustar as crianças e fazê-las se comportar. Mas quando esse mito ganha vida própria, lançando uma sombra sobre o reino, duas crianças – os melhores amigos Bert e Daisy – embarcam em uma grande aventura para desvendar a verdade, descobrir onde está o verdadeiro monstro e trazer a esperança e a felicidade de volta para Cornucópia. Em uma bela edição capa dura O Ickabog traz 34 ilustrações coloridas de crianças brasileiras de 7 a 12 anos de vários estados do Brasil, vencedoras do Concurso de Ilustração Ickabog.

O Ickabog é um livro que J. K. começou a escrever para os seus filhos quando eles eram pequenos, mas só concluiu durante a pandemia no ano passado. Cada capítulo foi sendo disponibilizado na internet e também rolou um concurso no qual crianças brasileiras foram escolhidas para ilustrar o livro. A edição física está fantástica, a Editora Rocco caprichou muito em cada detalhe: a capa é dura e alguns elementos têm um brilho dourado muito bonito, além das ilustrações nas páginas internas. 

A história começa com um típico “Era uma vez…”, que já nos transporta para o tempo tranquilo da infância. A autora conta a história do reino da Cornucópia, um lugar feliz, tranquilo e conhecido por sua excelente gastronomia e produção de vinho. O reino era governado pelo gentil (mas ingênuo e vaidoso) Rei Fred, cujos amigos mais próximos eram o vil Lorde Cuspêncio e Lorde Palermo, braço direito de Cuspêncio. Quando um aldeão pede ajuda ao rei para que salve seu cachorro desaparecido de um monstro conhecido como Ickabog (até então apenas uma lenda), uma série de eventos trágicos dá a Cuspêncio a desculpa perfeita para manipular o rei e fazer da Cornucópia apenas uma sombra do que era. E mudar esse destino é algo que está em mãos muito jovens: mais precisamente os amigos de infância Daisy e Bert.

Dá pra notar como a premissa já transmite o caráter lúdico da história, não é mesmo? A obra trata de assuntos pertinentes de uma forma fácil para que as crianças entendam, mas também capaz de fazer os adultos refletirem: há um governo que se isenta da responsabilidade (causando muita desigualdade e sofrimento), a corrupção destruindo a vida de milhares de pessoas, as graves consequências das “fake news” (ainda que ditas de outra forma) e também o preconceito contra aquilo que é desconhecido. E ao mesmo tempo em que fiquei impressionada com o quanto o livro dialoga com a realidade em que vivemos, também foi impossível não ficar me perguntando como uma autora que fala com tanta sensibilidade sobre esses assuntos pode corroborar na vida real com discursos que oprimem grupos já marginalizados. Tenho muita dificuldade de assimilar isso, sério. :/

Agora, falando sobre os protagonistas, Daisy e Bert são personagens cativantes. Ambos tiveram perdas familiares causadas pelas pessoas no poder e tiveram suas vidas radicalmente mudadas. Daisy em especial é uma personagem que causa muita afeição: mesmo com toda a crueldade que ela presenciou e mesmo com uma carga tão grande de dor ainda na infância, a menina se transformou numa jovem que cuida do próximo e que crê na bondade dos outros. Daisy é um ótimo exemplo para as crianças, tanto de coragem quanto de resiliência e de empatia.

Como pontos negativos eu traria somente dois aspectos: o livro ganha uma certa “barriga” lá pela metade que torna um pouco mais difícil prosseguir, especialmente porque há uma longa sequência de negatividade acontecendo; o segundo ponto é o final, que soou apressado em comparação a todo o tempo que a autora dedicou ao resto da narrativa – especialmente porque é no terço final que um personagem MUITO importante aparece, e ele merecia mais espaço.

O Ickabog foi uma leitura leve, divertida e que me transportou pras histórias que eu lia quando era pequena, ainda que com uma crítica social mais elaborada. É difícil não fazer paralelos com os (des)governos que ganharam força nos últimos anos e pensar que países como o nosso estão sendo jogados cada vez mais fundo na lama por irresponsabilidade e crueldade alheia. Mas, apesar de trazer a dor e o sofrimento da Cornucópia ao longo das páginas, O Ickabog termina como um livro infantil deve terminar: com a esperança de um “felizes para sempre”. E em tempos como esses, toda dose de esperança é bem-vinda. 🙂

Título original: The Ickabog
Autora:
J. K. Rowling
Editora: Rocco
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Bridgerton

Oi galera, tudo bem?

Ainda que eu seja uma fã ainda iniciante no mundo dos romances de época (afinal, por enquanto só conheço a escrita da Lisa Kleypas), fiquei empolgadíssima com a chegada de Bridgerton, a série da Netflix que adapta os livros da Julia Quinn. E hoje vou contar pra vocês o que achei, mas lembrando que é uma opinião exclusiva sobre a série, sem comparação com o material original. 😉

Sinopse: Bridgerton apresenta o mundo sensual, luxuoso e competitivo da alta sociedade de Londres do século 19. Na época, a família Bridgerton, composta por oito irmãos, se esforça para lidar com o mercado de casamentos, os bailes suntuosos de Mayfair e os palácios aristocráticos de Park Lane.

Daphne Bridgerton é uma jovem em idade de se casar. Ela faz parte de uma família respeitada e tem uma ótima relação com sua mãe e seus irmãos. Seu destino sofre uma reviravolta quando, em um baile, ela conhece o Duque de Hastings – o solteiro mais cobiçado da sociedade londrina. Após uma investida indesejada de um pretendente que Daphne despreza, ela e o Duque se unem em uma farsa, na qual ele fingirá cortejá-la. Para Daphne, isso significará a atenção de outros cavalheiros interessantes e de boas famílias; para Simon, isso afastará as mães desesperadas por casarem suas filhas, já que ele é um solteiro convicto e pretende se manter assim. Com o passar do tempo, porém, a amizade entre os dois se transforma e ambos passam a relutar contra seus verdadeiros sentimentos.

Ai gente, nem tenho palavras pra descrever o encanto que foi ver na tela tudo que estava somente na minha imaginação: os belos vestidos, os penteados, as danças, as soirées, os bailes, os primeiros toques tímidos e, é claro, as cenas calientes rs. Bridgerton é uma série muito competente em seduzir o espectador com seus belos cenários e figurinos (e Duques, cof cof), além da fotografia que esbanja cores vivas e brilhantes.

Apesar dos clichês do gênero (como o gato e o rato que se apaixonam), Bridgerton consegue atingir o objetivo de nos fazer torcer pelo casal protagonista da primeira temporada. Daphne é uma personagem muito doce e faz o possível para ajudar as pessoas à sua volta (ainda que cometa uma atitude bem condenável contra o Duque mais adiante na relação). Simon, por sua vez, é um personagem duro nas aparências, mas cujo passado dolorido causou profundas cicatrizes que ele tenta superar. A única coisa negativa sobre esse casal é que eu gostei mais dos dois antes de ficarem juntos do que depois. 😦 Não vou dar detalhes pra não estragar sua experiência, mas a construção da amizade deles seguida de flerte foi bem mais “saudável”, digamos assim.

Existem plots secundários que certamente serão aprofundados nas temporadas seguintes. A família Bridgerton é composta por Violet, a matriarca viúva, e seus oito filhos. Acredito que a season 2 foque em Anthony, o atual Visconde e chefe da família. Apesar do personagem ter sido bem chato ao longo dos 8 episódios, torço para que o desenvolvimento de sua história ajude a construir uma personalidade mais afável pra ele. Além dele há outros Bridgertons que ganham espaço até o momento, com destaque para o artístico e curioso Benedict (que aproveita os prazeres da vida nessa season), o jovem e gentil Colin (que, pelo que ouvi dizer, difere muito de sua contraparte literária) e a mordaz Eloise (uma garota inteligente que rejeita a ideia de ser limitada a um casamento). Indo além da família principal, temos os membros da família Featherington, com destaque para Penelope, que é uma grande amiga de Eloise e secretamente apaixonada por Colin. Sem esquecer, é claro, de Lady Whistledown, pseudônimo de uma mulher misteriosa que relata os maiores escândalos da sociedade londrina.

Eu nunca tive muita curiosidade de ler Os Bridgertons, mas fiquei muito satisfeita com o que vi na tela. Adorei que a Netflix tenha dado espaço a esse tipo de produção e também curti muito que a Shonda Rhimes tenha trazido diversidade para os personagens, tanto em forma quanto em cor e sexualidade (já que os romances de época costumam ser bem heteronormativos e eurocêntricos). Em suma, é uma ótima série de romance cujos episódios de quase 1h passam voando, de tão divertidos que são. Se você curte o estilo, dê o play sem medo! ❤

Título original: Bridgerton
Ano de lançamento: 2020
Direção: Chris Van Dusen, Shonda Rhimes
Elenco: Phoebe Dynevor, Regé-Jean Page, Nicola Coughlan, Jonathan Bailey, Julie Andrews, Claudia Jessie, Luke Newton, Ruby Barker, Ruth Gemmell, Adjoa Andoh

Resenha: Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos – Nick Littlehales

Oi pessoal, tudo bem?

Em função da pandemia, a parceria com as editoras foi um pouquinho diferente esse ano. No caso da Editora Rocco, o foco dos envios foi lançamentos e livros de ação promocional, o que me fez sair da zona de conforto em mais de uma oportunidade. Nem todas foram experiências bacanas, como por exemplo Você É Fodona!, mas Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos, de Nick Littlehales, é um exemplo um pouco melhor. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Neste livro inovador, Nick Littlehales, coach do sono para algumas das principais estrelas do mundo do esporte, como Cristiano Ronaldo e David Beckham, expõe suas estratégias para que as utilizemos de forma ideal. Ele apresenta seu programa de recuperação do sono R90 sustentado por sete elementos que chama de Indicadores-Chave, ou os sete passos para melhorar a qualidade do descanso e da recuperação. Você vai descobrir como mapear seu próprio ciclo do sono, melhorar o ambiente em que dorme, identificando qual a temperatura ideal e o melhor colchão, e por que tirar um cochilo é realmente bom para você. A observação dessas condições, aliada a uma consequente mudança de hábitos, fará com que utilize o tempo que passa dormindo para obter o máximo de recuperação física e mental. Você sentirá uma melhora de ânimo e, em consequência, na sua capacidade de desempenho no trabalho, em casa, nas relações interpessoais, assim como conseguirá identificar o momento certo para se desligar (e também as luzes e o celular) e, desta forma, evitar o estresse, outras doenças e viver mais confiante e feliz.

Eu sempre tive problemas pra dormir, tanto para pegar no sono quanto com a leveza dele. Eu culpo, no geral, minha ansiedade. 😛 Mas ao ler Sono eu aprendi que existem outros fatores que interferem na qualidade do nosso descanso, e alguns deles são mais fáceis de controlar do que eu pensava.

Nick Littlehales ascendeu como coach do sono ao trabalhar para grandes clubes de futebol, como Real Madrid e Manchester United. Ao estudar o assunto e conseguir colocar suas orientações em prática com atletas de elite, o autor criou sua própria metodologia, o programa R90. O ambiente em que você dorme, o tamanho do colchão e sua rotina diária são alguns exemplos que estão contemplados nesse programa, e não faltam dicas práticas pra tentarmos adaptar em casa.

Apesar de o livro ter uma narrativa “bem de coach” (o que, vindo de mim, não é um elogio), eu aprendi várias informações interessantes sobre o sono. Uma delas diz respeito ao nosso ritmo circadiano, ou seja, a forma como nosso cérebro reage às mudanças de horário e de luz do sol ao longo de 24h. Entender o ritmo circadiano é entender também o porquê algumas medidas práticas são importantes pra nos levar ao repouso. Quer um exemplo? Usar luzes azuis ou brancas à noite é prejudicial porque atrapalha a síntese de melatonina pela glândula pineal; a melatonina é liberada à medida que escurece, portanto o cuidado com a luz ambiente é fundamental após determinado horário. Pra ser honesta, eu já sabia dessa informação antes de ler Sono, mas Nick Littlehales reforça a necessidade desse tipo de cuidado e é um exemplo fácil do tipo de conteúdo que o livro traz. 🙂

Outro ponto que eu gostei bastante diz respeito aos nossos cronótipos, ou seja, nosso modo de funcionamento natural. Existem pessoas matutinas (cronótipo M), vespertinas (cronótipo V) e intermediárias, que se adequam a ambas as faixas com mais facilidade. As pessoas M têm muito mais facilidade de serem produtivas pela manhã, enquanto as pessoas V são o posto. Sabendo qual é o nosso cronótipo (e o autor indica um teste de uma universidade que auxilia nisso) é possível remanejar as nossas tarefas diárias para os momentos em que estamos mais despertos e, portanto, mais alertas. Se você tem o cronótipo M, pode deixar aquele relatório importante para o período da manhã e atividades mais chatas e mecânicas, como organizar um arquivo, para o período da tarde, por exemplo.

Apesar de ter dicas relevantes e que fazem sentido, o livro cansa pelo já mencionado tom de coach, que considerei meio exagerado. Em determinado momento eu não aguentava mais ler as palavras “com o programa R90”, e fiquei incomodada com o quanto o texto parecia um publipost em forma de livro. Mas, relevando esse aspecto, dá pra tirar informações e dicas proveitosas – ainda que eu tenha sido uma cara de pau que pegava o celular depois de fechar o livro, mesmo sabendo que isso prejudica o sono. 😂

Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos talvez não transforme totalmente a sua vida, mas é uma boa leitura pra quem quer entender mais sobre a importância da recuperação para o nosso cérebro e pra nossa saúde. Colocar o repouso adequado com o mesmo peso de “alimentação saudável” e “praticar exercícios regularmente” no discurso para uma vida mais saudável é algo que Nick Littlehales defende e que faz todo o sentido. Vale a pena olhar com mais carinho pra esse momento e fazer o possível pra dar ao nosso corpo o descanso que ele merece.

Título original: Sleep: Change the Way You Sleep with this 90 Minute Read
Autor:
Nick Littlehales
Editora: Rocco
Número de páginas: 192
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes – Filipe Tasbiat

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje a dica é de literatura nacional. 😀 Vim contar pra vocês o que achei de Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes, do autor gaúcho Filipe Tasbiat. Apesar de termos da faculdade em comum, só conheci o Filipe quando ele me procurou pra perguntar se eu tinha interesse em ler Abelardo. Fiquei lisonjeada ao descobrir que o blog foi uma indicação desses amigos e também muuuito curiosa ao ler a sinopse. Amo livros de suspense, mistério e fantasia, e Abelardo prometia reunir esses 3 elementos numa história com uma pitada sobrenatural. 

Garanta o seu!

Sinopse: Em “Abelardo: o bebê monstruoso de Adelaide Estes”, o império está por um fio, a abolição dos escravos é iminente e as primeiras centelhas da eletricidade começam a faiscar. O mundo está mudando, mas mudará depressa o bastante para livrar Adelaide da difícil missão que os Távoras a incumbiram? A província inteira quer saber o que aconteceu com Adelaide Estes, a Adormecida de São Pedro, que caiu em decúbito, um sono profundo e inexplicável, e acordou meses depois dando à luz a um bebê que nem ela sabia que esperava. Adelaide acredita que os Távoras, uma família cuja ambição aparenta não ter limites, podem estar envolvidos. Mas primeiro ela terá que descobrir o que há de errado com o bebê. “Abelardo” narra a história por trás de uma lenda na província de São Pedro. Em uma vila reminiscente do século 19, nos anos derradeiros do Brasil Imperial, mistério, fantasia e história se misturam em uma odisseia de monstros e heróis, servos e patrões, freiras e bruxas, na qual todos parecem guardar segredos.

Abelardo se passa no século XIX, em um tempo em que a escravidão tinha sido abolida em apenas algumas províncias e a eletricidade vinha chegando para mudar o dia a dia das pessoas. É nesse contexto que a jovem Adelaide Estes cai em decúbito, ou seja, adormece sem motivo aparente e não consegue acordar (meio A Bela Adormecida vibes). Seu corpo é enviado para a casa de sua tia, Guadalupe de Távora, uma mulher ambiciosa cujo marido é um figurão do mercado de óleo de baleia, na época usado nos lampiões. Guadalupe aproveita a chegada de Adelaide para fazer um espetáculo em sua casa, chamando-a de Adormecida de São Pedro, e pessoas de toda a província vinham visitar a misteriosa jovem. Para a surpresa de todos, entretanto, descobrem que Adelaide está grávida, e ela acorda repentinamente no momento do parto. Surpresa com o fato de ter dormido por cerca de um ano e agora ter um bebê nos braços, a pobre Adelaide precisa entender seu novo papel como mãe, solucionar o mistério de seu decúbito e, principalmente, lidar com um bebê estranho, que dá indícios de estar possuído por alguma entidade sobrenatural, dado seu comportamento violento e atípico.

Ler Abelardo me fez viajar pra uma época totalmente diferente, e o vilarejo fictício em que a história se passa ganhou vida na minha imaginação. Me sentia assistindo a uma novela ou série de época, porque as descrições dos cenários e situações são tão bem detalhadas que me vi sendo transportada para o vilarejo de Trás-os-Montes. Além disso, o vocabulário do autor é variado, o que incentiva a pesquisa por termos desconhecidos, e acaba trazendo aprendizado aliado ao entretenimento (fun fact: lembrei de quando eu era pequena e pedia ajuda ao meu pai pra “traduzir” certas palavras haha ❤). Apesar de ser uma história fantástica com elementos de suspense/terror, o livro não chega a provocar medo. Existem algumas cenas em que você teme pela segurança de certos personagens mas, no geral, essa tensão é quebrada pelo tom irônico e bem-humorado que o autor imprime na narrativa, com suas diversas provocações sarcásticas (como por exemplo as repetidas menções à cabeça ligeiramente grande da senhora Guadalupe rs). Mesmo quando Abelardo começa a revelar o seu lado selvagem e possivelmente assassino, o livro não foca em assustar o leitor, mas em evidenciar o quanto a vida de Adelaide virou de cabeça pra baixo.

Aliás, preciso dizer que adorei Adelaide. Seu estranhamento com a maternidade e o fato de não conseguir amar o próprio filho são muito compreensíveis: a jovem era virgem, caiu em um sono que lhe roubou um ano de vida e, ao acordar, se viu com um bebê sob sua responsabilidade. A situação por si só é aflitiva e, quando ela descobre a índole violenta de seu filho, é natural que a personagem tenha medo e busque ajuda de formas desesperadas. A maneira como seu afeto por Abelardo vai se desenvolvendo é natural e gradual, o que tornou a história mais crível pra mim – mesmo se tratando de uma fantasia. 

O livro tem duas linhas temporais: uma explora o presente e o cotidiano de Adelaide e outros personagens de Trás-os-Montes; a outra foca no passado da jovem no convento em que cresceu. Ambos os núcleos são bem desenvolvidos e fornecem informações valiosas sobre os personagens, inclusive os secundários, como a já mencionada Guadalupe de Távora, tia de Adelaide; Peregrina de Társea, uma peça-chave do passado da protagonista; a doce Greisel, parteira que trouxe Abel ao mundo; e Cravo, a fiel doula de Adelaide e maior defensora de seu bebê. Existem mais nomes importantes, e todos eles têm um papel a cumprir na história – que vai além do bebê monstruoso, mas cujo plot não posso dar detalhes pra não estragar certas surpresas.

Tenho poucos aspectos não tão positivos para comentar, mas um deles é a questão da revisão do texto: Abelardo tem uma série de errinhos, nada que atrapalhe o entendimento do texto, mas eu sou bastante chata com esse tipo de detalhe. É importante frisar, contudo, que durante a minha leitura o Filipe me contou que já estava subindo uma versão com revisão atualizada do livro na Amazon, então é bem provável que vocês não encontrem esses problemas. 😉 O segundo aspecto que eu cito aqui não é exatamente negativo, mas sim uma característica que eu, pessoalmente, não curto tanto: capítulos longos com poucos espaços de pausa. Já falei em diversas resenhas que eu adoro capítulos curtos porque me dão agilidade na leitura e, quando são longos, prefiro que tenham aqueles espaços de “troca de cena” que favorecem uma pausa. É uma questão de gosto mesmo, mas vale pontuar que mesmo com capítulos mais longos eu ~fiz o Abelardo e devorei as páginas. 😛

Não é exagero dizer que Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes foi uma das minhas melhores leituras do ano. O livro reúne uma história bem amarrada, uma narrativa envolvente, um plot criativo e bons personagens, além de instigar o leitor a querer descobrir os mistérios que envolvem Adelaide, os Távoras e os segredos de Trás-os-Montes. Se você gosta de fantasia, mistério e um toque sobrenatural, dê uma chance a Abelardo. Eu já virei fã. 😉

Título original: Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes
Autora:
Filipe Tasbiat
Editora: Independente
Número de páginas: 438
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Review: Fruits Basket (2019)

Oi pessoal, tudo certo?

Quem me acompanha aqui há mais tempo pode lembrar que Fruits Basket já apareceu por aqui em uma resenha do mangá. Com o remake do anime (cuja primeira temporada foi lançada no ano passado), vi a oportunidade de indicar novamente essa história linda e comovente – com o plus de agora ter uma animação que faça jus à obra. ♥

Sinopse: Fruits Basket conta a história de Tohru Honda, uma garota órfã que, depois de encontrar Yuki, Kyo e Shigure Sohma, descobre que os treze membros da família Sohma são possuídos pelos animais do zodíaco Chinês e são amaldiçoados a se transformar em suas formas animais quando estão fracos ou quando são abraçados por alguém do sexo oposto que não esteja possuído por um espírito

Fruits Basket acompanha o dia a dia da jovem Tohru Honda, uma estudante órfã que se vê morando em uma barraca para não incomodar seu avô após a morte dos seus pais. Seu caminho se cruza com a família Sohma quando Yuki Sohma, seu colega de escola, descobre sua moradia inusitada. Yuki mora com outros dois membros da família: Shigure e Kyo (seu rival); eles decidem acolher Tohru, que passa a ajudá-los com os afazeres domésticos. Parece tudo muito simples, né? Acontece que os Sohma têm uma peculiaridade: eles são amaldiçoados pelos signos do zodíaco, e ao receberem um abraço do sexo oposto, se transformam nos animais respectivos. E é claro que Tohru descobre isso da maneira mais chocante possível: na prática. Com o passar dos episódios a jovem vai conhecendo outros membros da família Sohma e descobrindo segredos e relações muito mais complexas do que inicialmente ela imaginava.

Fruits Basket (ou simplesmente Furuba) é uma das minhas histórias favoritas. A mitologia por trás dos signos do zodíaco é muito interessante e as relações entre os membros amaldiçoados é cheia de nuances. Kyo e Yuki, por exemplo, fazem jus à dinâmica de gato e rato. Na lenda do zodíaco, Deus fez uma festa para os animais, nas quais os animais do zodíaco chinês compareceram. Entretanto, o rato pregou uma peça no gato, deixando-o de fora da celebração. Com isso, o gato é considerado o pior membro do clã, com gerações de pessoas possuídas por seu espírito sendo excluídas do convívio com os outros Sohma. Para Kyo, isso significa uma vida de amargura, raiva, dor e ressentimento – especialmente contra Yuki. Mas a vida do rato não é muito mais fácil: sendo o favorito do chefe do clã Sohma, Akito, Yuki cresceu sofrendo pressões inimagináveis, ouvindo que seu papel era agradar Akito e ser a companhia perfeita. A ele não foi permitido se descobrir, escolher, pensar por si mesmo – e é por este motivo que ele decidiu sair da casa principal e viver com Shigure (possuído pelo espírito do cachorro).

Cada membro do zodíaco tem uma história própria, e a forma como cada um lida com o fardo da maldição é particular. Ao longo dos episódios, Tohru vai formando laços com essas pessoas e essa relação faz com que o destino por si só comece a mudar. Os membros do zodíaco aos poucos percebem seu valor e entendem que são apreciados, ao menos por ela. Esse amor e amizade que Tohru oferece de coração aberto são fundamentais para a construção da autoestima de cada Sohma que cruza o seu caminho.

Furuba é uma história que fala muito sobre o peso da solidão. Cada personagem, incluindo Tohru, possui cicatrizes emocionais profundas. Bullying, rejeição familiar e isolamento são algumas das dores que eles enfrentam (principalmente os membros do zodíaco). É impossível não se emocionar conforme suas fragilidades vêm à tona, e a vontade que o espectador sente é de abraçar cada um deles com carinho (e dane-se se isso provocar uma transformação). Mas, por mais que a dor seja uma constante no passado e no presente dos personagens, Fruits Basket é também uma história sobre o poder da esperança. Tohru é o símbolo maior disso, a pessoa que perdeu tudo que mais amava e ainda assim consegue sentir gratidão pelas amizades e oportunidades que tem. Ao valorizar e apreciar genuinamente cada Sohma com quem vincula, ela “empresta” um pouquinho da sua força e mostra, mesmo sem querer, que existe amor e aceitação para aquelas pessoas. O tipo de acolhimento (emocional) que Tohru oferece tem um impacto que ela nem sequer pode imaginar ao aceitar ser acolhida por eles (fisicamente).

E pra não dizer que não falei da produção em si, preciso ressaltar a beleza do novo anime. A primeira adaptação televisiva me deixou frustrada porque termina num momento crucial do mangá e não tem continuidade; a nova, entretanto, vem pra corrigir isso e adaptar o mangá em sua totalidade, tendo três temporadas planejadas. O traço é simplesmente fantástico, as cores são lindas e os cenários também encantam. Pra completar, a trilha sonora é emocionante e se encaixa superbem com a proposta da história.

Pra quem já é fã de animes, Fruits Basket é um prato cheio que contempla uma história envolvente, muita emoção e bons personagens. Mas sei que nem todo mundo gosta desse tipo de produção e talvez isso seja por falta de oportunidade. Nesse caso, queria convidar você a começar sua experiência com Fruits Basket. Se você curte drama, fantasia, romance e – por que não dizer? – esperança, essa história tem tudo para te agradar. Não deixe a categoria da obra (ou seja, o fato de ser um anime) te impedir de dar uma chance para uma história que entretém, diverte, emociona e aquece o coração. Promete pensar com carinho? ❤

Título original: Furūtsu Basuketto
Ano de lançamento: 2019
Direção: Yoshihide Ibata
Elenco: Manaka Iwami, Nobunaga Shimazaki, Yuma Uchida, Yuichi Nakamura

Resenha: Pessoas Normais – Sally Rooney

Oi pessoal, tudo bem?

Desde que vi a Pam Gonçalves falando sobre Pessoas Normais, fiquei com o título no meu radar. O fato de ter sido adaptado em uma série foi o incentivo que faltava pra eu finalmente dar uma chance, e hoje divido com vocês minha experiência com a leitura.

Garanta o seu!

Sinopse: Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes – contudo, um deles está determinado a esconder a relação. Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Pessoas Normais tem uma narrativa ágil em terceira pessoa, focada principalmente nos diálogos dos dois protagonistas, Marianne e Connell, cobrindo um período de tempo que vai do final do ensino médio até o final da faculdade. A mãe de Connell trabalha como faxineira para a família de Marianne, e as interações entre os dois ficam restritas a quando ele passa para buscá-la. Enquanto a jovem não é aceita socialmente na escola e tampouco tem amigos, Connell faz parte do grupo dos populares, fingindo inclusive não conhecer Marianne para manter as aparências. Um dia, porém, os dois se beijam e começam a sair juntos às escondidas, e essa dinâmica sexual se mantém por anos a fio, cheia de idas e vindas.

A primeira coisa que eu preciso dizer sobre Pessoas Normais é que ele é um livro que parece nunca sair do lugar, e a culpa é exclusiva da falta de diálogo entre os protagonistas. Gente, eu tenho 27 anos, não tenho mais paciência pra adulto agindo feito adolescente. Por isso, esse aspecto do livro foi enervante pra mim. Marianne e Connell (especialmente Connell) causaram mágoas um no outro ao longo dos anos, mas eles funcionam como ímãs que não conseguem se afastar completamente. A química sexual é o que os une em primeiro lugar, mas também existe uma segunda camada nesse relacionamento, que é encontrar compreensão, adequação e aceitação em alguém. 

No ensino médio, Marianne era a excluída, mas na faculdade os papéis se invertem. Agora é ela quem brilha, enquanto Connell se sente desajustado ao conviver com pessoas que não parecem aceitá-lo por quem ele é, e o abismo de classes sociais também o intimida. Na época da escola, Connell interpretava um papel fácil e consolidado que funcionava, não se permitindo ser vulnerável. Marianne, por outro lado, com sua sinceridade implacável e jeito blasé, se encaixou no novo meio – um meio muitas vezes permeado por arrogância intelectual. Quem nunca foi presunçoso aos 20 e poucos anos em uma conversa com outros colegas universitários que atire a primeira pedra.

Apesar de ser um livro muito bom em abordar o sentimento de se sentir perdido e em um lugar ao qual você não pertence, ele também me deixou muito nervosa e irritada, especialmente por causa de Connell. A maneira como ele usa Marianne ao longo dos anos me enojou. Transar com ela às escondidas no ensino médio e, na faculdade, se beneficiar dos confortos que ela poderia proporcionar (como um apartamento no qual ele poderia ficar) foram atitudes horríveis que Marianne não merecia. Connell sabe que gosta dela e ainda assim não expõe seus verdadeiros sentimentos, e ao mesmo tempo ele tem plena consciência do poder que exerce sobre ela, se aproveitando disso. Marianne, por outro lado, vem de uma família desestruturada: ela aprendeu desde cedo que violência é a forma de lidar com as relações, já que presenciou seu falecido pai agredindo sua mãe, e ela própria foi vítima disso. No presente, seu irmão também a trata de forma violenta, tanto física quanto verbal, e Marianne não encontra forças para se defender. Sua autoestima é comprometida e ela acredita não ser digna de amor, o que explica toda a dinâmica autodestrutiva de passividade e permissividade que ela tem não apenas com Connell como também com todos os homens (problemáticos) com quem se relaciona ao longo dos anos. 

O terço final do livro é um pouco decepcionante, porque a autora entra no território da saúde mental de forma abrupta e sai dele de forma tão abrupta quanto. O leitor não tem tempo pra absorver a nova condição e as consequências que isso causa na vida dos personagens, e o capítulo final faz com que isso tudo seja ainda pior. Ele é repentino e causa uma sensação de que faltaram páginas pra construir aquela mudança tão representativa na forma de pensar e agir de Connell e Marianne. A próxima frase tem spoiler, selecione se quiser ler: quando Connell recebe a proposta para ir a Nova York, novamente eles poderiam ter resolvido com diálogo e com planos. Marianne poderia terminar a faculdade e ir encontrá-lo, por exemplo. Mas eles decidem de forma tácita que Connell deve ir e Marianne se sente feliz e conformada com isso. De novo, insisto: cadê o diálogo?

Pessoas Normais é um bom livro, mas nem de longe entrou para a minha lista de favoritos. Como ponto positivo ressalto principalmente o foco em assuntos que dialogam com as nossas experiências de jovens adultos, mas infelizmente a dinâmica da narrativa é cíclica de um jeito cansativo. Você passa páginas e mais páginas e não sente que ninguém ali está amadurecendo de verdade, e o final da história é tão repetitivo quanto seu começo. Agora pretendo conferir a série pra ver se nela eu me sinto menos desconfortável com essa relação conturbada e confusa. Vou torcer para que sim.

Título original: Normal People
Autora:
Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 264
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Caçador – Lars Kepler

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi da Alfaguara, selo do grupo Companhia das Letras, o thriller policial O Caçador – e óbvio que corri para ler, já que sou apaixonada pelo gênero. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: O detetive Joona Linna passou dois anos em uma prisão de segurança máxima quando recebeu uma inesperada visita. A polícia precisa de sua ajuda para deter um misterioso assassino: o chamam de O Caçador de Coelhos, pois a única conexão entre suas vítimas é que ouvem uma canção de ninar sobre coelhos antes de morrer. Joona agora tem a chance de sair da prisão para, com a policial Saga Bauer, tentar desvendar quem é esse misterioso caçador e salvar seus próximos alvos. Mas o que aparentemente parece ter motivações terroristas se transforma em um dos casos mais complexos de sua carreira. Em O caçador, o romance mais vendido da Suécia e da Noruega em 2016, Lars Kepler apresenta novamente sua fórmula imbatível: ritmo frenético, situações limite e personagens impagáveis.

O Caçador é um livro da série Joona Linna e, como a maior parte das séries policiais que seguem essa fórmula, a história tem início, meio e fim próprios, mas conta com elementos dos volumes anteriores que auxiliam no aprofundamento dos personagens. Mas, diferente da minha experiência com Morte no Verão (em que me senti perdida por não conhecer o background dos personagens), O Caçador foi muito tranquilo de ler. O autor relembrava informações (suponho) relevantes necessárias para entendermos o básico dos personagens, aproximando minha experiência de leitura com a que tive lendo os romances de Cormoran Strike ou o ótimo Boneco de Neve. O fato de ser um romance nórdico também me fez perceber algumas similaridades no estilo narrativo em relação a este último.

A obra acompanha um assassino implacável que não deixa rastros ao eliminar suas vítimas. O governo da Suécia acredita estar lidando com um terrorista, já que sua primeira vítima conhecida é o Ministro das Relações Exteriores. A responsável pelo caso, Saga Bauer, desconfia dessa conclusão, já que o assassino deixou uma testemunha viva – uma atitude bastante inusitada. Ela insiste então que Joona Linna seja envolvido na investigação, um ex-detetive com quem ela já trabalhou e encontra-se preso (por um crime que o livro não explica muito bem). A partir daí, eles passam a correr contra o tempo para descobrir a motivação do crime e impedir os futuros assassinatos.

Até a metade do livro, a história parece não evoluir muito. Os detetives investem muito tempo investigando a hipótese do terrorismo, então eu me senti perdendo um pouco de tempo enquanto essa parte da trama se desenrolava. Entretanto, quando eles começam a juntar as peças, o livro fica impossível de largar. Ao descobrirem a associação entre as vítimas e irem atrás do passado delas, a história fica instigante e as pontas soltas começam a se unir, levando a um ótimo e angustiante final cheio de ação em um ambiente claustrofóbico.

Depois que descobrimos o assassino (e o livro te dá pistas suficientes pra isso), a trama perde um pouquinho de fôlego, porque alguns capítulos narrados por outros personagens nos afastam da investigação em curso. Isso me deixou ansiosa pra voltar pra ação logo rs. Só que a narrativa é tão ágil que mesmo assim você passa as páginas rapidamente, de forma fluida. Eu amo capítulos curtos, eles me dão uma vontade enorme de não largar o livro e isso me fez passar horas imersa na obra de Lars Kepler.

O Caçador é um livro cujo ritmo narrativo é envolvente, os investigadores são competentes e os motivos para o crime são bem embasados (quando eu descobri até passei um pano pro vilão rs). Gostei muito da experiência e fiquei com vontade de conhecer os outros livros da série. Se você é fã de romances policiais, vale deixar esse título no radar. 😉

Título original: Kaninjägaren
Série: Joona Linna
Autor:
Lars Kepler
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 528
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Renegados – Marissa Meyer

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de escrever a aclamada série sci-fi Crônicas Lunares e reimaginar a origem da Rainha de Copas em Sem Coração, Marissa Meyer agora se aventura pelo mundo dos super-heróis com Renegados, o primeiro livro de sua nova trilogia. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Os Renegados são um grupo de prodígios – humanos com habilidades extraordinárias – que emergiram das ruínas de uma sociedade colapsada. Foram eles que estabeleceram a paz onde, antes, o caos reinava. Eles continuaram sendo um símbolo de esperança e coragem para todos… exceto para os vilões que foram derrotados por eles. Nova, que faz parte do grupo dos Anarquistas, tem um motivo para odiar os Renegados, e está em uma missão em busca de vingança. Enquanto se aproxima de seu alvo, ela conhece Adrian, um garoto Renegado que acredita na justiça – e em Nova. Mas a lealdade de Nova está com os Anarquistas e há um vilão que tem o poder de acabar com os dois, e tudo em que acreditam.

The Boys encontra My Hero Academia e X-Men: esse é o meu resumo para Renegados. No passado, os prodígios (pessoas com poderes) eram perseguidos pela sociedade, até que Ace Anarquia iniciou uma revolução que deu início à Era da Anarquia. Com a sociedade em colapso, surgiram os super-heróis conhecidos como Renegados, que deram um fio à revolução de Ace e passaram a governar a sociedade. Nossos narradores estão de lados opostos dessa rivalidade: Nova é uma anarquista que nutre profundo rancor dos Renegados após seus pais terem morrido sem a proteção dos heróis; Adrian é filho adotivo de dois Renegados originais, que fazem parte hoje do Conselho que rege a cidade. O destino dos dois se cruza em definitivo quando Nova decide entrar para os Renegados como uma espiã dos anarquistas, e a química entre os dois fica impossível de negar.

Quem acompanha o blog e vê meus reviews empolgadíssimos a respeito dos filmes da Marvel sabe que adoro o universo de super-heróis. Mas, por algum motivo, a proposta de Marissa Meyer simplesmente não me arrebatou como achei que faria. Não me entendam mal: Renegados é um bom livro, mas não foi uma experiência memorável, sabem? Não sei se foi o clichê do romance entre rivais, se foram os inúmeros erros de revisão da edição (ou a mania da autora/da tradução de escrever “a revolução do Ace” em vez de “a revolução de Ace” HAHAHAHAHA implicância boba, mas que eu precisava comentar) ou se foi porque senti que a obra foi uma colcha de retalhos de outras histórias que consumi antes.

Mas não tive dificuldades com todos os aspectos do livro, e eu preciso ser justa com ele. As cenas de ação de Renegados são muuuito boas! É fácil de imaginar esse universo da Marissa Meyer ganhando vida em uma série ou filme, sabem? Os diversos poderes criados pela autora também tornam o livro instigante, porque queremos ver os personagens colocando suas habilidades em prática durante o confronto. A habilidade de Rabisco/Adrian é uma das mais interessantes: ele é capaz de dar vida aos seus desenhos. Isso permite que ele faça experimentos que o transformam no Sentinela, um alterego justiceiro que ele mantém em segredo. O plot do personagem também traz o mistério da morte de sua mãe biológica, que também era uma Renegada original, e essa dúvida que paira na mente do jovem também instiga o leitor a continuar.

Apesar de eu não ter sido a maior entusiasta do romance clichê entre rivais, novamente preciso fazer uma ressalva em nome da justiça: Marissa Meyer soube construí-lo de modo que nos faça torcer por Nova e Adrian. Os personagens são fofos juntos, eles fazem com que o outro questione as próprias verdades e repense os mitos e ideias pré-estabelecidas a respeito de suas origens. Isso é bem legal e eu torço para que essa relação se desenvolva ainda mais nos próximos volumes. 

Nova não é uma protagonista muito carismática. Eu entendo o rancor dela e o fato dela sentir que os Renegados falharam com os seus pais. Também entendo que ela não ache certo que os super-heróis governem a cidade, pois existe uma distribuição injusta de poder (que é um ponto importantíssimo no desenvolvimento da história). Mas eu não consegui comprar a vibe “badass amargurada” dela – pra mim ela é só cansativa mesmo. Porém, apesar dessa falta de conexão com a protagonista, eu gosto desse questionamento que ela levanta sobre o quão perigoso é deixar a condução da sociedade nas mãos de poucos poderosos. É nesse ponto que lembrei de The Boys, que justamente levanta esse ponto (de uma maneira bem mais pungente) ao evidenciar que nem todas as pessoas com poderes são boas pessoas, dispostas a fazer a coisa certa.

Renegados é um livro bacana e que entretém, mas não foi uma obra especialmente marcante. Senti a mesma coisa com Sem Coração, minha única outra experiência com a Marissa Meyer: foi legal, mas talvez em breve eu esqueça de você, sabem? Se você é fã da autora ou da temática de super-heróis, acho que há grandes chances de aproveitar a experiência. Se você não se enquadra em nenhum desses casos, recomendo só que tenha as expectativas sob controle pra curtir essa obra de entretenimento sem se frustrar. 😉

Título original: Renegades
Série: Renegados
Autora:
Marissa Meyer
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 512
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Siga Em Frente – Austin Kleon

Oi pessoal, tudo bem?

Siga Em Frente é o livro mais recente de Austin Kleon, que ficou famoso com Roube Como Um Artista, e hoje vim contar pra vocês como foi minha experiência com ele. 😉

siga em frente austin kleonGaranta o seu!

Sinopse: A vida criativa não é uma jornada linear em direção a uma linha de chegada, ela é como um loop – portanto, encontre uma rotina diária, já que hoje é o único dia que importa. Desconecte-se do mundo para conectar-se a si mesmo – e às vezes você só precisa mudar para o modo avião para que isso aconteça. SIGA EM FRENTE celebra as atividades ao ar livre e incentiva pequenas escapadas, nem que seja apenas para um passeio curto (como o diretor Ingmar Bergman disse à filha: “Os demônios odeiam ar fresco”). Preste atenção e, principalmente, preste atenção no que você presta atenção. Preocupe-se menos em terminar as coisas e preocupe-se mais com o valor do que você está fazendo. Foque menos em deixar sua marca nas coisas, trabalhe mais para deixar as coisas melhores do que estavam quando você as encontrou. SIGA EM FRENTE traz princípios éticos, atemporais e práticos para aqueles que tentam manter uma vida produtiva e significativa.

Apesar de não ter lido os livros anteriores do autor, fiquei bem animada por ter a chance de conferir Siga Em Frente. O livro é dividido em 10 capítulos com conselhos para quem está buscando motivação para viver uma vida mais criativa, e eu acho que estou num momento muito propício para refletir sobre assunto – tanto na minha vida profissional quanto aqui no blog.

Um dos pontos mais marcantes do livro é que ele nos relembra de que está tudo bem não ser criativo o tempo todo e que faz parte vezes perdermos o rumo. Com uma narrativa irreverente e dialogada, Siga Em Frente causa a sensação de que estamos debatendo sobre a vida com um amigo na mesa do bar ou tomando um café. E o tema dessa conversa é, em essência, focar no nosso propósito. Para isso, é de suma importância encontrarmos nossa “estação da bem-aventurança”, que o autor descreve como um espaço físico ou um período de tempo na rotina dedicado a nos conectarmos a nós mesmos. Temos falado muito sobre autocuidado em 2020 e acho que um bom exercício pra isso é buscar essa nossa estação da bem-aventurança: seja um tempinho produtivo quando você acorda ou um espaço da sua casa dedicado aos seus projetos e à sua rotina.

Outro conselho que dialogou diretamente com o que eu penso é o de tomarmos cuidado com métricas de vaidade. Austin Kleon nos convida a olhar com cuidado para os números por si só: eles não dizem se alguém amou tanto seu trabalho que indicou pros amigos, se ficou pensando nele, se mexeu internamente com suas emoções. E, já que estamos falando de sentimentos, ainda nesse assunto Austin Kleon problematiza a mercantilização das nossas paixões. No sistema capitalista em que vivemos é muito fácil querer monetizar nossos hobbies ou até mesmo elogiar alguém dizendo que o que essa pessoa faz é tão bom que poderia ser vendido. Mas nem tudo precisa ser a respeito de lucro – podemos produzir apenas pelo prazer de trazer algo ao mundo. A minha escolha de foto pra ilustrar esse post não é à toa: eu sempre amei desenhar e por muito tempo parei de fazê-lo porque achava que não era boa o bastante pra ser profissional. Aí 2020 chegou e me fez ver uma coisa: quem disse que preciso ser? Foi maravilhoso me reconectar a essa parte de mim que ficou tanto tempo adormecida. ❤

Siga Em Frente também é uma obra que encoraja a mudança. Eu sou uma pessoa que tem dificuldades de lidar com o imprevisto, mas me senti acolhida pela forma como o autor nos faz repensar esse medo do desconhecido. Austin Kleon nos incentiva a acolher essas possibilidades que o novo traz, pois o trabalho criativo reside nesse não-saber, reside na nossa adaptabilidade e também no fato de que não sabemos onde o processo vai nos levar. E, para lidar com essa incerteza, temos um recurso poderoso: a esperança.

Siga Em Frente é aquela leitura rápida, fácil e leve que proporciona momentos de reflexão e otimismo. Por mais que os conselhos possam parecer lugares-comuns, a maneira como Austin Kleon divide seus pensamentos com o leitor faz com que seja muito fácil se conectar ao que ele diz. É um livro que atende ao que se propõe e o qual recomendo pra todos que precisam de uma boa dose de incentivo pra viver uma vida mais criativa e fiel a seus próprios valores. =)

Título original: Keep Going: 10 Ways to Stay Creative in Good Times and Bad
Autor:
Austin Kleon
Editora: Rocco
Número de páginas: 224
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Review: O Dilema das Redes

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de já ter estreado na Netflix há um tempinho, ainda acho que vale a pena falar sobre O Dilema das Redes. Vamos conhecer?

Sinopse: Especialistas em tecnologia e profissionais da área fazem um alerta: as redes sociais podem ter um impacto devastador sobre a democracia e a humanidade.

Intercalando entrevistas de pessoas responsáveis pelas redes sociais que conhecemos hoje e dramatizações de uma família comum que, assim como a gente, tem acesso ao mundo conectado, O Dilema das Redes revela muito do processo de captura de dados e do uso deles para nos impactar com anúncios mais precisos, conteúdos relacionados às nossas pesquisas, postagens que conversem com nossas crenças, entre outros. Os entrevistados no documentário são pessoas que ajudaram a construir esses algoritmos no Google, no Facebook, no Instagram e outras plataformas, portanto sabem bem quais são os objetivos dessas companhias com o uso de dados. Quem trabalha com marketing digital, como é o meu caso, sabe o quanto essas informações são relevantes para planejar publicidade segmentada. Nesse caso, talvez o choque com o que foi apresentado em O Dilema das Redes seja menor, mas ainda assim a produção da Netflix acende um alerta e nos relembra desse assunto – já que em meio ao dia a dia é fácil esquecer.

O mais perturbador foi pensar no “efeito bolha” que a gente fala tanto, mas não reflete sobre. O Dilema das Redes levanta o questionamento de que as redes sociais como funcionam hoje são uma ameaça à própria democracia: ao nos impactar cada vez mais com opiniões alinhadas às nossas, as redes nos deixam cada vez mais presos às nossas bolhas e o mundo adquire um caráter muito mais polarizado, já que grupos divergentes não dialogam. E nem precisamos pensar na realidade estadunidense pra vislumbrar esse risco: no Brasil também temos discursos polarizados que colocam as pessoas em caixinhas extremamente distantes.

O documentário também fala sobre a construção dificultada da autoestima e o quão abaladas as gerações que já nasceram conectadas podem ficar. Desde muito cedo os jovens são expostos a influencers perfeitos, filtros que modificam o rosto e ao anonimato da internet, estando suscetíveis a inseguranças e bullying. Conseguir racionalizar o uso do Instagram, por exemplo, é um desafio, já que é uma rede social que lucra com a venda de vidas perfeitas.

O Dilema das Redes tem alguns momentos meio sensacionalistas, mas a provocação num geral é válida e pertinente. Eu trabalho diretamente com conteúdo e redes sociais e dificilmente vou conseguir me afastar totalmente desse universo por conta disso, mas tenho tentado ser cada vez mais consciente no uso, tanto no que diz respeito ao tempo passado nas redes sociais quanto que tipo de conteúdo eu consumo nelas. Recomendo O Dilema das Redes pra todo mundo (profissional da comunicação/marketing ou não) que tenha interesse em entender mais sobre como esse universo de algoritmos, recomendações e anúncios funciona. Alguma reflexão o documentário vai te provocar.

Título original: The Social Dilemma
Ano de lançamento: 2020
Direção: Jeff Orlowski
Elenco: Tristan Harris, Jeff Seibert, Bailey Richardson, Joe Toscano, Sandy Parakilas, Guillaume Chaslot