Resenha: Blackout – Dhonielle Clayton e outras autoras

Oi pessoal, tudo bem?

Quem aí está no clima de muito romance? ❤ A dica de hoje é um livro encantador publicado pela Seguinte e escrito por várias autoras contemporâneas de sucesso: Blackout: O Amor Também Brilha no Escuro.

Garanta o seu!

Sinopse: Uma onda de calor causa um apagão em Nova York. Multidões se formam nas ruas, o metrô para de funcionar e o trânsito fica congestionado. Conforme o sol se põe e a escuridão toma conta da cidade, seis jovens casais veem outro tipo de eletricidade surgir no ar…Um primeiro encontro ao acaso. Amigos de longa data. Ex-namorados ressentidos. Duas garotas feitas uma para a outra. Dois garotos escondidos sob máscaras. Um namoro repleto de dúvidas. Quando as luzes se apagam, os sentimentos se acendem. Relacionamentos se transformam, o amor desperta e novas possibilidades surgem ― até que a noite atinge seu ápice numa festa a céu aberto no Brooklyn. Neste romance envolvente e apaixonante, composto de seis histórias interligadas, as aclamadas autoras Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon celebram o amor entre adolescentes negros e nos dão esperança mesmo quando já não há mais luz.

A trama de Blackout acompanha diversos personagens passando por situações inusitadas durante um inesperado apagão em Nova York. Cada trama é escrita por uma autora e os personagens estão conectados de alguma forma (amigo de fulano, primo de beltrano, irmã de ciclano). Essa vibe de “você conhece alguém que eu conheço” pode confundir um pouco em função dos muitos nomes dos personagens, mas conforme você se liga em quem é quem se torna muito fácil enxergar as conexões e as histórias ficam ainda mais legais. Pra completar a naturalidade dessas relações, outro ponto muito bacana é a forma como os diálogos são escritos: os personagens usam expressões muito “vida real”, e não de jeito forçado. O uso de expressões como “dar rolê”, “fala, cara” e afins realmente trouxe uma pegada realista e fácil de se identificar. 😀

Outro aspecto super importante de Blackout é a representatividade: os personagens são todos negros e/ou latinos, e há também casais LGBTQIA+. É muito bom ler romances em que esses grupos protagonizam cenas fofas, alegres, otimistas e positivas. O preconceito e as dores causadas pelo racismo e pela homofobia são inegáveis, mas acho importante que esses grupos também possam se sentir representados em histórias nas quais a felicidade, o amor e as conquistas existam (algo que elogiei também em Acorda Pra Vida, Chloe Brown). Ainda assim, a obra traz toques sutis – mas certeiros – sobre como jovens negros são obrigados a se preocupar com os riscos do racismo: Kareem (do primeiro conto) não quis ficar no meio da multidão até escurecer, preferindo ir pra casa; JJ (do segundo conto) anda com um chaveiro com ferramentas e foi ensinado pelo pai a sair de qualquer transporte público em caso de emergência.

Além da ambientação (um blackout em Nova York) e das ligações entre os personagens, os contos têm mais uma coisa em comum: os personagens precisam se dirigir ao Brooklyn – ou pra voltar pra casa, ou pra participar de uma festa incrível de fechar quarteirão que vai rolar por lá. E enquanto a maior parte das histórias tem seu início e fim em si mesmas, existe uma delas (a mais longa) que é dividida em atos. Dá pra dizer que é um dos romances principais, e acompanha um casal de ex-namorados que se vê competindo pela mesma vaga de emprego e tendo que voltar a pé juntos pra casa (já que o transporte público não funciona). E já a ambientação está em pauta, vale dizer que Blackout nos faz querer viajar por Nova York. Os contos acompanham espaços icônicos da cidade, como a Biblioteca Pública de Nova York e o Apollo Theater.

Pra fechar, fiz um resuminho de cada conto pra vocês ficarem ainda mais curiosos com Blackout. 😉

  • A Longa Caminhada: é o conto dividido em atos que acompanha os ex-namorados voltando juntos pra casa e descobrindo que talvez a decisão de terminar não tenha sido tão boa assim.
  • Sem Máscara: meu conto favorito! ❤ Acompanha um jovem que está redescobrindo sua sexualidade. No metrô, ele encontra um antigo e secreto crush, com quem passou conversando durante uma noite em um baile de máscaras. Será que ele vai ter coragem de dizer a verdade?
  • Feitas Para se Encaixar: duas meninas se conhecem e se encantam uma pela outra em um lar para idosos – uma sendo voluntária, a outra sendo neta de um dos moradores (que, aliás, é um belo cupido!).
  • Todas as Grandes Histórias de Amor… e Pó: um conto muito fofo sobre uma garota que está reunindo coragem para contar ao seu melhor amigo de infância que está apaixonada por ele! Difícil não querer estar no mesmo lugar em que os dois: a Biblioteca Pública que mencionei antes. 
  • Sem Dormir até o Brooklyn: esse conto é bem interessante porque tem uma perspectiva diferente sobre amor e relacionamentos. Uma menina está vivendo um triângulo amoroso e precisa refletir sobre com quem deseja ficar – ou se essa é mesmo a melhor decisão.
  • Seymour & Grace: meu segundo conto favorito. 🥰 Aqui acompanhamos uma jovem que está magoada pelo término do namoro indo de Uber até a festa no Brooklyn. O que ela não imaginava era ter tanta afinidade com o motorista (que também narra trechos da história).

Em suma, Blackout é um livro muito gostoso de ler, cheio de histórias fofas e encantadoras e com uma representatividade necessária. Recomendo! 🙌

Título original: Blackout
Autoras:
Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon
Editora: Seguinte
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: As Sombras de Outubro – Søren Sveistrup

Oi pessoal, tudo bem?

A Priih louca dos romances policiais estava animadíssima pra escrever esse post. Recebi, via Time de Leitores da Companhia das Letras, o romance policial As Sombras de Outubro – que recentemente virou série na Netflix com o título de O Homem das Castanhas (sobre a qual falarei em breve aqui no blog). Fazia tempo que um romance policial não me empolgava tanto, então vem comigo conhecer!

Garanta o seu!

Sinopse: Em uma manhã tempestuosa em um tranquilo bairro de Copenhagen, a polícia faz uma descoberta sinistra: o corpo de uma mulher brutalmente assassinada, com uma das mãos faltando. Sobre ela está pendurado um pequeno boneco feito de castanhas. O caso é entregue à ambiciosa detetive Naia Thulin e a seu novo parceiro, Mark Hess, um investigador introspectivo que acabou de ser expulso da Europol. Logo se descobre uma evidência ligando o sr. Castanha a uma garota desaparecida há um ano: a filha da política Rosa Hartung. O homem que confessou tê-la sequestrado e assassinado está atrás das grades e o caso foi encerrado há tempos ― e qualquer insinuação contrária causa disputas e inimizades na corporação. No entanto, quando novas vítimas e novos bonecos aparecem, Thulin e Hess acham cada vez mais difícil ignorar a conexão entre o caso Hartung e o novo serial killer.

Um dos apelos comerciais de As Sombras de Outubro reside no fato de que seu autor, Søren Sveistrup, é o roteirista de uma série famosa, The Killing. E você nota que ele é um roteirista sem demora: os capítulos do livro são ágeis e curtinhos e as cenas têm fluidez, de modo que a história avança em um ritmo bastante intenso. Essa fórmula funciona bem demais comigo, porque me impulsiona a ler “só mais um capítulo” (e que leitor nunca pensou isso e, quando viu, leu mais uns 20, né?).

Na trama, uma sequência de assassinatos brutais passa a acontecer em Copenhague: as vítimas são mulheres na casa dos 30 anos que são encontradas visivelmente torturadas e com partes do corpo amputadas. O algoz é astuto e não deixa vestígios, com exceção de uma pequena assinatura: um bonequinho feito de castanhas. Na corrida para descobrir o culpado temos uma dupla de detetives: Naia Thulin, uma investigadora talentosa que almeja uma transferência para o núcleo de crimes cibernéticos da polícia e deseja conseguir um carta de recomendação; e Mark Hess, que é na verdade um agente da Europol afastado e só está em Copenhague enquanto espera a decisão do chefe sobre seu futuro. Não sabemos o motivo do afastamento, mas o leitor percebe que Hess não está interessado em seu trabalho atual por saber que é temporário, e isso gera uma tensão com Thulin, que fica bastante incomodada com o jeito indiferente e beirando o irresponsável do colega. Além dos assassinatos, temos uma terceira peça-chave no quebra-cabeça. Os bonecos de castanha contém uma impressão digital surpreendente: a de Kristine Hartung, filha da ministra do Bem-Estar Social, Rosa Hartung, que foi dada como desaparecida e morta um ano antes.

São esses elementos que Søren Sveistrup utiliza para construir uma trama cheia de conexões e pistas ocultas. A narrativa é em terceira pessoa e acompanha diferentes personagens, focando principalmente em Thulin, Hess, Rosa e, nas cenas de assassinato, nas vítimas. Como não temos o ponto de vista do assassino, o leitor fica no escuro sobre suas motivações durante a maior parte do tempo, podendo apenas conjecturar a respeito. Conforme Thulin e Hess avançam nas investigações, algumas hipóteses começam a ganhar força, mas ainda assim o autor consegue manter o suspense até a reta final. Eu suspeitei do personagem certo, mas não consegui deduzir seu background e seus planos, então adorei ser surpreendida pelo autor (acho até que comentei em outra resenha recente por aqui que estava sentindo falta disso nos romances policiais).

As Sombras de Outubro traz alguns elementos que parecem ser o primeiro passo para futuros livros, já que nesse eles não foram bem desenvolvidos. O passado de Hess e de Thulin, a relação da investigadora com o “avô de criação” de sua filha, os motivos pelos quais Hess foi afastado… todas essas pontas soltas ~cheiram a desenvolvimento posterior, sabem? É algo bem comum em séries policiais protagonizadas pelos mesmos investigadores e, apesar de eu não saber se Søren Sveistrup pretende continuar uma série com Hess e Thulin, foi essa a sensação que me causou. Mas, apesar de ambos serem muito competentes, eu não gostei tanto da dinâmica de parceria dos dois. Não senti que eles deram match em personalidade e modo de agir, então ficou difícil torcer por algum tipo de camaradagem ou até mesmo shipp.

Thulin é uma personagem que não me desceu. Ela é antipática e azeda, sendo difícil de gostar. Porém, feminista como sou, também não pude deixar de problematizar essa minha sensação. Afinal, Søren Sveistrup é um autor homem, e sabemos que mulheres são muito mais cobradas a serem afáveis, sorridentes e simpáticas (basta ver a diferença no tratamento que Brie Larson recebeu quando Capitã Marvel estava sendo promovido), então eu tentei me policiar pra não basear minha conclusão sobre Thulin somente nesse aspecto subjetivo. Dito tudo isso e excluindo a personalidade dela da jogada, me incomodou demais que ela tenha se comportado como se fosse superior a Hess – ainda que, na maior parte das vezes, ele tenha conclusões melhores que as dela e seja bem mais responsável pelos avanços da investigação na direção certa. E já que estou falando dele, Hess é um personagem meio misterioso, que de início você não curte tanto por estar com o “foda-se” ligado em uma investigação seríssima, mas com o avançar das páginas ele vai demonstrando não apenas seu potencial como investigador mas também seu comprometimento com a verdade.

Como aspectos negativos, eu preciso ressaltar a burrice de alguns personagens, incluindo o próprio Hess em determinados momentos. Sabem aqueles clichês de filmes de terror em que o espectador quase implora pro personagem não entrar sozinho numa casa abandonada no meio do nada? Fazendo o mesmo paralelo para um romance policial, eu fiquei implorando pra que fulano ou beltrano não entrassem em locais estranhos sozinhos, não saíssem de determinados espaços seguros sem reforços e não tomassem atitudes precipitadas por conta própria. Tudo isso obviamente aconteceu, e em todas as cenas fiquei enervada rs. Além disso, tem um ou outro plot que Søren Sveistrup inicia mas não desenvolve (como a relação de Rosa com seu assessor), o que acaba soando ou preguiçoso ou desatento por parte do autor.

As Sombras de Outubro é um romance policial raiz, daqueles que fazem você devorar as páginas e roer as unhas. Há cenas de ação, planos sendo colocados em prática, uma investigação cheia de perigos e um suspense que permeia o livro do início ao fim: Kristine Hartung está viva? Ao mesmo tempo em que o leitor fica aflito pelo perigo que as futuras vítimas correm, existe também a curiosidade acesa pra saber qual a conexão de tais assassinatos brutais com a família da ministra. E Søren Sveistrup faz um trabalho muito bom em conectar todos esses elementos de forma que a história se mantenha hipnotizante (mesmo com alguns defeitinhos e cenas mais amadoras dos policiais hahaha!). Recomendo muito pra quem curte o gênero! E fiquem ligados que em breve volto pra falar da série. 🙌

Título original: Kastanjemanden
Autor:
Søren Sveistrup
Editora: Suma
Número de páginas: 416
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Nove Desconhecidos

Oi pessoal, tudo bem?

Terminei de assistir à minissérie Nove Desconhecidos, que adapta o livro de mesmo nome que resenhei um tempinho atrás. Bora pro review e pro comparativo com o livro?

Sinopse: Nove pessoas problemáticas se hospedam em um sofisticado retiro de bem-estar que promete uma transformação total. Lá, os hóspedes se entregam a um tratamento radical que ameaça levar esse instável grupo ao limite de suas emoções e medos.

O plot básico da série é o mesmo que o da obra original: nove pessoas contratam um pacote no spa Tranquillum House em busca de descanso para o corpo e para a mente por motivos diversos. Lá, eles encontram cenários paradisíacos, consultores de bem-estar bonitos e de voz tranquila e a diretora do lugar: Masha, uma russa magnética e enigmática. Logo fica claro que ela utiliza abordagens pouco ortodoxas e que o spa não é somente um espaço para o relaxamento, mas sim para terapias que podem levar cada um dos presentes ao extremo.

É nítido que a minissérie traz mais elementos de suspense para a trama do que o livro. Não demora para que o espectador comece a ficar desconfortável com algumas medidas adotadas na Tranquillum House, como o fato de fazerem exames de sangue diários nos hóspedes, por exemplo. Existem tensões entre os hóspedes, alguns rompantes de raiva e outras situações que nos levam a questionar se aquele é um ambiente totalmente seguro. Quando Masha começa a receber vídeos dela na propriedade (como se fosse de um stalker), o clima de mistério – e perigo – se acentua.

Diferente do que ocorre no livro, a série revela um de seus principais mistérios logo de início: a metodologia do tratamento de Masha. A partir daí, vemos os personagens “entrando na onda” e aceitando os tratamentos de forma voluntária. Essa é uma das principais diferenças em relação à obra original, e acho que é uma bem importante; particularmente, senti falta da revolta dos personagens com o que acontece em Tranquillum House. Eles não só aceitam aquilo que lhes é oferecido como entram de cabeça nas propostas arriscadas de Masha, sem medo das consequências.

Enquanto o livro é lento, mais focado no drama de cada personagem e menos no mistério, aqui a série se inverte, tendo mais cenas de tensão e fazendo com que alguns personagens mal tenham tempo de tela (como o casal cujo casamento está em crise, Ben e Jessica). Felizmente, duas das minhas tramas favoritas foram bem exploradas ao longo dos episódios: a primeira delas é a aproximação da escritora Frances (que sofreu um golpe de amor pela internet) e do ex-atleta Tony (que teve que parar de jogar após uma lesão e se fechou para o mundo). A química entre Melissa McCarthy e Bobby Cannavale transborda na tela e eles protagonizam cenas emocionantes e outras engraçadas. A segunda trama que eu curti demais, superando a emoção do livro, foi a da família Marconi, que foi ao spa na tentativa de superar o luto pela perda do filho/irmão. Heather, Napoleon e a filha, Zoe, carregam muita culpa e sofrimento, e todas as cenas em que eles enfrentaram tais sentimentos me fizeram chorar. A atuação visceral de Asher Keddie (Heather) me deixou arrepiada e de coração partido.

A reta final da série é um pouco fraca. O clímax não causa aflição, o que ocorre nas páginas. Por outro lado, a produção televisiva foca em humanizar Masha e suas experiências, transformando-a em uma personagem que causa mais simpatia (enquanto no livro ela está em busca de fama e reconhecimento). Além disso, diferente do que ocorre no material original, a minissérie tem um final aberto – cabendo a você escolher no que acreditar.

A adaptação de Nove Desconhecidos é uma ótima produção, com um enredo bacana e ganchos interessantes. Mas seu maior mérito é o mesmo que o do livro: seus personagens – aqui muito bem representados por um elenco que entrega atuações impecáveis. As mesmas coisas que me incomodaram no livro também me incomodaram na série, mas em ambos os casos minha percepção geral da história é muito boa. Vale a pena colocar Nove Desconhecidos na lista e passar um tempinho em Tranquillum House. 😉

P.S.: pra quem ficou interessado em saber as diferenças entre a série e o livro (com spoilers, obviamente), é só conferir a lista abaixo:

  • Descoberta da verdade sobre o tratamento: quem se liga que Masha está drogando os hóspedes é Heather, que é enfermeira. Ela também é a primeira a se revoltar, assim como Ben, que odeia drogas por ter perdido a irmã para o vício;
  • Plot de Ben e Jessica: o casal vai até o spa para tentar salvar o casamento e, enquanto na série os dois realmente se reaproximam, no livro eles percebem cada vez mais o abismo que se construiu na relação. Ele inclusive se aproxima de Zoe, dando a entender que eles vão manter uma amizade (ou algo mais) no futuro;
  • Propósito das alucinações: diferente do que a série mostra, o livro não traz todo o plot de alucinações com os mortos como uma tentativa de trazê-los de volta;
  • Passado da Masha: no livro ela também perde a filha, mas quando ainda é um bebê. Ela também não tem nenhuma relação com Carmel e não sofreu uma experiência de quase morte pelo tiro, e sim por infarto;
  • Propósito da Masha: enquanto na série ela quer uma forma de reencontrar a filha morta e, por isso, faz os tratamentos nos hóspedes, no livro ela deseja reconhecimento e sucesso por seu método inovador;
  • Yao e Delilah: no livro a Delilah transa com Yao mas não existe a camada romântica/amorosa que a série traz. Consequentemente, ela é uma personagem mais “foda-se” na obra original, que vai embora muito mais por medo de ser pega pela polícia do que por princípios;
  • Plot da Carmel: a mudança mais drástica da série. No livro ela também é uma mulher insegura e magoada pelo fato de ter sido trocada pelo marido e confesso que, no início da trama, achei que ela seria meio maluca por venerar a Masha. No fim, foi uma personagem bem sem sal. Na série ela é completamente desequilibrada, sendo a pessoa por trás do tiro em Masha e responsável por stalkear a diretora da Tranquillum House;
  • Passado do Tony: diferente do que a série mostra, o ex-atleta não se envolveu em uma briga que culminou na morte de um homem, e também não era viciado em analgésicos. Ele decide ir a Tranquillum por estar completamente sozinho e perceber que ficou “triste” ao ir ao médico e descobrir que sua saúde estava ok, servindo de sinal de alerta para buscar ajuda.

Título original: Nine Perfect Strangers
Ano de lançamento: 2021
Criadores: John-Henry ButterworthDavid E. Kelley
Elenco: Amy Poehler, Rashida Jones, Nick Offerman, Aubrey Plaza, Chris Pratt, Adam Scott, Aziz Ansari, Retta, Jim O’Heir, Rob Lowe

Resenha: Dormir em um Mar de Estrelas – Christopher Paolini

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje chegou a vez de conversar sobre o calhamaço que conquistou o título de maior livro que eu já li: Dormir em um Mar de Estrelas, do Christopher Paolini (autor de Eragon). Essa resenha vai ser mais longa que de costume, mas é um livro de mais de 800 páginas, então peço que vocês relevem e tenham paciência comigo, tá? 🙈

Garanta o seu!

Sinopse: Durante uma missão de pesquisa de rotina, Kira encontra uma relíquia alienígena. A princípio, ela fica maravilhada com a descoberta, mas logo esse sentimento se transforma em terror. Depois de cair em uma câmara no meio de um planeta desconhecido, a poeira ao seu redor começa a se mexer. Kira é lançada em uma odisseia de descobertas e transformações que atravessa a galáxia ao mesmo tempo em que uma guerra eclode em meio às estrelas. O primeiro contato com seres alienígenas não é como ela imaginava, e uma série de acontecimentos a levam até seu limite humano. A Terra e suas colônias estão à beira da aniquilação, e Kira, mesmo tendo que encarar seus próprios medos, se torna a última esperança da humanidade.

O ano é 2257 e a humanidade expandiu suas fronteiras para além da Terra. No espaço, há diversas colônias e profissionais especialistas em fazer missões em novos planetas para verificar a viabilidade de a humanidade se instalar ali ou somente minerar materiais necessários. Uma dessas profissionais é Kira Navárez, uma experiente xenobióloga apaixonada pelo que faz e por descobrir novos mundos e formas de vida. Entretanto, em uma missão de rotina, ela entra em contato com um artefato alienígena: uma espécie de traje simbiótico que se liga ao seu corpo e tem atitude própria, o que infelizmente leva à morte de toda a equipe de Kira (incluindo Alan, seu noivo). A partir desse momento, Kira é levada para uma nave do CMU (Comando Militar Unido, responsável pela segurança de todos os planetas da Liga dos Mundos Aliados) para ser examinada e seu corpo é exposto a vários níveis de stress e testes invasivos. Vocês acham que desgraça pouca é bobagem? Essa nave é atacada por outros alienígenas, que também estão em busca do traje. Kira, porém, consegue explodir a nave e escapar em uma pequena nave de fuga, sendo resgatada por aqueles que serão seus novos companheiros de viagem: a tripulação da Wallfish, liderada pelo capitão Falconi.

Isso é só o inicinho da história, e já deu pra sentir que Dormir em um Mar de Estrelas é tiro, porrada e bomba, né? Do instante em que entra em contato com o xeno, a coitada da Kira não tem um minuto de paz. Não somente ela perde autonomia sobre seu corpo, já que existe um novo ser perigoso em simbiose com ela, como também vira alvo de experimentos e desconfianças. Mas, com a tripulação da Wallfish, ela aos poucos vai encontrando seu lugar. Graças ao traje, Kira consegue ter visões de “vidas anteriores” que o xeno experimentou ao estar ligado a outros corpos – e um desses corpos é justamente a espécie alienígena que atacou a nave na qual Kira se encontrava. Por meio das lembranças do traje (que descobrimos se chamar Lâmina Macia), a protagonista vira uma peça-chave para evitar que a humanidade seja extinta e que tenha alguma chance em uma guerra interestelar iminente.

De início, vou dizer que achei o ritmo de Dormir em um Mar de Estrelas bem cansativo. Paolini descreve bastaaante, e demora pra que a ação aconteça (ainda que, quando aconteça, seja bem explosiva). Mas quando a Kira é resgatada pelo pessoal da Wallfish, o livro fica mais legal. Os membros da tripulação são muito carismáticos, cada um a sua maneira: Falconi é o clichê do “macho alfa”/cara durão, mas é muito leal e justo; Sparrow e Hua-Jung são um casal lésbico (e esse relacionamento é tratado com muita naturalidade, o que é sempre bem-vindo!) muito foda, sendo a primeira uma ex-soldado e a segunda a chefe de engenharia; Nielsen é a segunda em comando, muito inteligente e sensata; Vishal é o médico da nave, gentil e atencioso; Trig é um garoto empolgado com a vida e com as novidades que Kira trouxe; e Gregorovich é o Cérebro da Nave, um ser humano que abriu mão do corpo para expandir sua capacidade cerebral. Ah, e como deixar de mencionar o Runcible e o Sr. Fofuchinho, os pets da Wallfish? ❤

Kira é uma protagonista muito corajosa. Ela não é uma guerreira, mas uma cientista, e se vê em uma situação em que precisa lutar, se defender e proteger as pessoas com quem criou um novo vínculo. Tudo isso enquanto precisa superar o luto por (indiretamente) ter causado a morte de seus antigos companheiros e grande amor. Admiro muito as decisões difíceis que ela tomou, pois seria muito compreensível caso ela paralisasse pelo medo. E não me entendam mal: ela sente medo, e muito. Isso deixa seus sentimentos bem mais críveis e demonstra o tamanho de seu mérito. 

Uma coisa importante de pontuar é que o livro é cheio de termos específicos e desconhecidos de seu universo. No fim dele, há um glossário que explica a maioria deles, mas optei por utilizá-lo pouquíssimas vezes. Além desse vai e vem deixar a leitura truncada pra mim, também achei interessante tentar viver a experiência de me sentir tão perdida quanto Kira no que dizia respeito às informações sobre os alienígenas. Essa inclusive foi uma sensação que eu já havia experimentado com Laranja Mecânica, cuja linguagem própria faz o leitor se sentir um outsider do universo jovem e ultraviolento de Alex. 

O autor foca em tornar tudo tão crível e realista do ponto de vista astrofísico que, pra mim, se tornou abstrato imaginar as cenas e lugares, o que atrapalhou minha imersão. Entre algo mega técnico/específico e fluidez narrativa, eu prefiro a fluidez. Algumas passagens que focavam muito em explicações físicas e tecnicidades das naves espaciais e dos processos eu só lia por cima, porque realmente não são temas que me interessam e nem faziam tanta diferença assim pra história. E é nesse ponto que mora o maior problema que tive com o livro: a falta de objetividade tornou muito difícil pra mim mergulhar de cabeça na trama. Mesmo que a história estivesse em momentos legais, a trama de Paolini se arrastou demais, então levei mais de 3 meses pra concluir a leitura. 

Dormir em um Mar de Estrelas é um épico de ficção científica que tem tudo pra conquistar os amantes desse estilo literário. Você vê a profundidade dos estudos do autor pra fazer uma história coerente e verossímil, e isso é um prato cheio pros amantes de boas histórias espaciais. A mitologia criada por ele é muito bacana e, apesar da história de Kira ter sido iniciada e encerrada aqui, o universo do autor tem muito a se expandir. Não dei 5 estrelas pra leitura porque acredito que um bom pedaço do livro poderia ser “cortado” em nome da agilidade narrativa, mas reconheço que isso é uma questão de gosto pessoal e que pode não interferir na experiência de vocês com essa leitura. Espero que gostem da dica e mergulhem de cabeça nessa viagem espacial. 😉

P.S.: vi vários comentários de pessoas que não curtiram o final, cujo gostinho é meio agridoce. Mas, pra mim, ele fez todo sentido com a trajetória de Kira. Gostei muito!

Título original: To Sleep in a Sea of Stars
Autor:
Christopher Paolini
Editora: Rocco
Número de páginas: 832
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Parks and Recreation

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar do meu gênero favorito ser thriller/policial, ele é seguido de perto por sitcoms. Sempre preciso ter alguma série divertida, com episódios de 20 minutos, no radar. Por isso, vim dividir com vocês uma que ganhou meu coração: Parks and Recreation.

Sinopse: Leslie Knope, uma burocrata de nível médio no Departamento de Parques e Recreação de Indiana espera embelezar sua cidade (e impulsionar sua própria carreira) ajudando a enfermeira Ann Logan a transformar uma construção abandonada em um parque comunitário, mas o que deveria ser um projeto relativamente simples é frustrado o tempo todo por burocratas estúpidos, vizinhos egoístas, a burocracia governamental e um infinidade de outros desafios.

Assim como aconteceu com The Office, foram necessárias duas tentativas pra gostar de Parks. Acredito que ter me acostumado com a vibe da primeira fez com que tornasse mais fácil gostar da segunda quando me propus a tentar de novo. E como valeu a pena! Parks é incrível ao início ao fim, cheia de cenas memoráveis e personagens cativantes.

A trama acompanha Leslie Knope, uma funcionária pública apaixonada pelo que faz e por sua cidade, Pawnee. Ela é vice-diretora do setor de Parques e Recreação da prefeitura, e leva seu trabalho muito a sério. Tentar descrever Leslie é como tentar descrever um unicórnio fofinho e saltitante: ela é otimista, fofa, carinhosa, leal e inocente. Por isso, quando a enfermeira Ann Perkins comparece a uma reunião pública e revela que seu namorado caiu numa cratera que deveria ser de responsabilidade da prefeitura, Leslie faz de sua missão de vida ajudar Ann e conseguir transformar aquele espaço em um parque. Esse é o início de uma das amizades mais fofas da televisão.

Parks and Recreation, portanto, começa girando em torno desse objetivo de fechar a cratera. Porém, com o desenrolar das temporadas, vemos Leslie se envolvendo em mais camadas políticas e assumindo tarefas cada vez mais desafiadoras – tudo isso com muito bom humor e leveza. E, pra mim, o grande mérito da série está nos personagens (e seu elenco que dá vida a cada um deles). O grupo do setor de Parques e Recreação é composto por pessoas muito diferentes, mas com o tempo vemos que há algo em comum entre todos: a lealdade, especialmente à Leslie.

Parks é tão engraçada que conseguiu fazer com que o chefe de Leslie, Ron Swanson, fosse um dos meus personagens favoritos. E por que isso é uma grande conquista da série? Porque Ron personifica tudo que eu abomino e, na vida real, eu atravessaria a rua pra não ter que cruzar com ele: o homem é pró-armas, acha os Estados Unidos a única nação que presta, é conservador e come carne até de sobremesa. Só que eu juro pra vocês que na série esse jeitão dele funciona, e todos os momentos em que ele demonstra seus sentimentos e vulnerabilidade são incríveis de assistir. Há também uma dupla que eu adoro demais, mas sobre a qual não posso falar muito pra não dar spoilers: Ben e Chris. Eles são auditores do governo e chegam à série na segunda temporada, sendo adições essenciais pro desenvolvimento da trama. Por último, mas não menos importante, vale comentar que Pawnee por si só é um personagem. A cidade é a grande paixão de Leslie, que a defende com unhas e dentes, e tem inúmeras peculiaridades (como o fato de idolatrar um pônei, Lil’ Sebastian).

Se você procura um entretenimento capaz de levantar o seu astral, corre na Amazon Prime Video pra dar o play em Parks and Recreation. Você vai se divertir em cada episódio com o jeito marcante de cada personagem e provavelmente vai terminar a série acreditando também que Pawnee é um lugar incrível. 😀

Título original: Parks and Recreation
Ano de lançamento: 2009
Direção: Greg Daniels, Michael Schur
Elenco: Amy Poehler, Rashida Jones, Nick Offerman, Aubrey Plaza, Chris Pratt, Adam Scott, Aziz Ansari, Retta, Jim O’Heir, Rob Lowe

Dica de Série: Clickbait

Oi galera, tudo bem?

O Dica de Série de hoje é um misto de (não) indicação provocada pela indignação. 😂 Mas eu não podia deixar de comentar a série que tem estado no Top 10 da Netflix Brasil e que é do meu gênero favorito (tramas policiais). Estou falando de Clickbait.

Sinopse: Quando Nick Brewer é sequestrado e sua vida passa a depender de um sinistro jogo online, as pessoas próximas a ele correm para descobrir quem está por trás disso.

Clickbait é uma minissérie de 8 episódios que gira em torno do sequestro de Nick Brewer, um fisioterapeuta respeitado, marido e pai amoroso. O fato mais grotesco do sequestro é que os raptores filmaram Nick segurando uma placa dizendo que ele abusa de mulheres e que, quando o vídeo atingir 5 milhões de visualizações, ele vai morrer – sim, no melhor estilo Black Mirror. É desnecessário dizer que não leva 24h pra um vídeo apelativo assim, que descreve perfeitamente o nome da série, viralizar, certo? Com isso, os episódios se concentram em não apenas investigar o caso de Nick, mas também desnudar o personagem (e os segredos por trás das acusações nas placas).

Cada episódio de Clickbait é focado em um personagem, começando pela irmã e melhor amiga de Nick, Pia. Ela é uma mulher intensa e cheia de defeitos, mas com uma vulnerabilidade e um amor tão profundo pelo irmão que fazem o espectador nutrir certa simpatia por ela (mesmo com suas grosserias). Além dela, temos o ponto de vista do detetive Amir (um personagem íntegro, justo e muito comprometido com o seu trabalho), da viúva de Nick, Sophie (outra personagem que não é muito palatável, mas por quem nos solidarizamos), entre outros que não vou mencionar porque seriam spoilers. O bacana dessa dinâmica é que cada personagem tem seu próprio espaço para ser desenvolvido enquanto a trama principal – a investigação – acontece.

Aliás, a investigação em si é muito bacana e envolve muito mais do que os personagens já citados. A série trabalha superbem os cliffhangers e faz com que você não queira sair da frente da tv até descobrir toda a verdade sobre o caso. Obviamente, como o nome da série sugere, existe sim um apelo relacionado ao “cuidado com o que você compartilha por aí” e “cuidado com o que você acredita na internet”, e algumas pessoas podem achar um pouco forçado. A mim, não incomodou. Discussões sobre fornecimento de dados, golpes e fraudes não são coisas recentes, então não vi problema da série abusar um pouco disso pra fins ilustrativos.

O que me incomodou a ponto de causar a indignação do início do post, então? 😂 O final, gente, o final. Quem me acompanha aqui há mais tempo sabe o quanto valorizo bons finais, a ponto de aumentar uma nota de uma obra mediana quando o desfecho é bom ou diminuí-la no caso de uma obra incrível mas cujo final não seja. E Clickbait peca gravemente em seu encerramento, porque se desfaz de todas as premissas construídas até ali em busca de um plot twist chocante que parece ter sido pensado apenas com esse propósito: chocar. Os motivos pelos quais toda a história acontece são esdrúxulos e tudo que a trama estabelece até a season finale é desperdiçado em nome de um caminho completamente sem sentido e preguiçoso – incluindo até mesmo as discussões sobre segurança na internet e (a falta de) limites da mídia sensacionalista e obcecada por cliques. Eu prefiro finais mais óbvios, mas coerentes, do que plot twists de explodir a cabeça que não fazem sentido nenhum, e pra mim esse é o grande problema da série.

Conversei com algumas pessoas que também se frustraram com o final de Clickbait, então queria saber de vocês: quem já assistiu, gostou? Porque se eu tiver que resumir, diria que Clickbait é uma minissérie de ritmo envolvente, premissa instigante e que joga fora seu potencial com um final fraco e mal executado. Uma pena. :/

Título original: Clickbait
Ano de lançamento: 2021
Criação: Tony Ayres, Christian White
Elenco: Zoe Kazan, Betty Gabriel, Phoenix Raei, Adrian Grenier, Camaron Engels, Jaylin Fletcher, Becca Lish

Resenha: Meu Corpo Virou Poesia – Bruna Vieira

Oi pessoal, tudo bem?

Fazia muito tempo que eu não lia um livro de poemas, então aproveitei a oportunidade de ler Meu Corpo Virou Poesia, disponibilizado pela editora Seguinte ao Time de Leitores. Foi minha primeira experiência lendo a Bruna Vieira e hoje compartilho com vocês como foi. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Em 2017, Bruna Vieira fez as malas, deixou a vida no Brasil de lado e foi escrever uma nova história em outro país, vestida de coragem e guiada por um sentimento que sempre foi sua maior prioridade: o amor. Com o tempo, porém, os dias foram ficando cada vez mais longos e solitários. Era como se naquele lugar o amor tivesse perdido o equilíbrio e se tornado uma obrigação. Foi bem perto do fim e de jeito mais frio que ela finalmente se deu conta: é impossível ser “nós” sozinha. Formado por quatro partes – cabeça, garganta, pulmão e ventre –, este livro é um mapa. Um mapa que leva Bruna de volta à escrita e a si mesma. São relatos reais, repletos de lembranças, aprendizados e cicatrizes, que agora deixam o corpo da autora para encontrar o seu, em forma de poesia. Ao tocar em temas como autoestima, amizade feminina e relacionamentos (com o outro e sobretudo consigo mesma), Bruna olha para dentro e nos convida a percorrer nestes versos nossa própria viagem de autodescoberta.

Eu sigo a Bruna no Instagram há algum tempo e acompanhei a época em que ela se mudou pra Califórnia com o então namorado. Eles chegaram a noivar, mas o relacionamento acabou, ela voltou para o Brasil e lançou um vídeo-poesia contando um pouco sobre as dores que não havia revelado sobre a relação. Esse parece ter sido o primeiro passo do processo de cura da autora, que transformou os últimos anos em poemas que falam com mais profundidade (e exposição) tudo que ela viveu e como tem sido se reencontrar.

O livro é dividido em quatro momentos: cabeça, garganta, pulmão e ventre. A primeira parte é mais sombria e explora a sensação de invisibilidade e inadequação que Bruna experimentou durante o relacionamento e seu período na Califórnia. Fica claro que, em seu coração, ela sente que se doou muito mais do que o parceiro para uma relação que, em grande parte, só existiu verdadeiramente na sua cabeça. Por isso, a solidão também é um tema recorrente nesses primeiros poemas. Bruna também revela o quanto de si ela “perdeu” ao tentar se encaixar em uma vida e em um namoro que não fazia mais sentido, se moldando a expectativas alheias e se encolhendo cada vez mais em si mesma.

resenha meu corpo virou poesia bruna vieira

Conforme avançamos nas páginas, o tom dos poemas vai mudando e ganhando um teor de cura e amor próprio. Ao deixar pra trás o relacionamento e a cidade que não lhe faziam bem, a autora entra num processo de redescobrir a si mesma e curar suas cicatrizes emocionais. Aqui encontramos poemas que falam sobre respeitar e honrar suas diferentes versões, abraçar suas imperfeições e valorizar a mulher que você é. Até o final do livro, o leitor se depara com o processo de libertação e cura de Bruna, que a coloca no momento em que se sente mais confortável consigo mesma: o presente.

Falando sobre o livro no geral, curti boa parte dos poemas e achei vários trechos bem bonitos. Porém, como ponto negativo, ressalto aqui o uso exaustivo do recurso de falar em “todas as suas versões”, é como se Bruna ficasse batendo na mesma tecla porque gosta muito de como a frase soa. Inclusive, senti que esse tipo de frase de efeito traz um teor meio “bobinho” e adolescente pro livro.

Com um ritmo gostoso e vários poemas legais, Meu Corpo Virou Poesia foi uma experiência bem bacana. Apesar de segui-la no Instagram, não me considero uma superfã da Bruna Vieira, então fui com expectativas bem neutras e acabei me surpreendendo positivamente. Se você busca um livro de poesias com várias reflexões sobre buscar o melhor de nós mesmos, vale incluir o título na lista. 😉

Título original: Meu Corpo Virou Poesia
Autora:
Bruna Vieira
Editora: Seguinte
Número de páginas: 184
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sul da Fronteira, Oeste do Sol – Haruki Murakami

Oi pessoal, tudo bem?

Após uma ótima experiência com Sono, parti para minha segunda leitura de Haruki Murakami: Sul da Fronteira, Oeste do Sol. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Nascido em 1951 em um subúrbio de Tóquio, Hajime chegou à meia-idade tendo conquistado tudo que queria. Os anos do pós-guerra trouxeram-lhe um bom casamento, duas filhas e uma carreira invejável como proprietário de dois clubes de jazz. No entanto, ele não consegue se desvencilhar da sensação incômoda de que nada daquilo traz felicidade para sua vida. Somada a isso, uma memória de infância de uma garota inteligente e solitária cresce em seu coração. Quando essa colega do passado, Shimamoto, aparece em uma noite chuvosa, Hajime não consegue mais permanecer no cotidiano com o qual se acostumou. Shimamoto tem uma beleza de tirar o fôlego, mas guarda um segredo do qual não consegue escapar. Em Sul da fronteira, oeste do sol, Murakami constrói uma narrativa de lirismo requintado sobre a simplicidade da vida de um homem, permeada por sucessos e decepções.

O livro é narrado por um homem na faixa dos 30 anos, Hajime. Nascido nos anos 50, em uma época na qual era comum que famílias japonesas tivessem mais de um filho, o fato dele ser filho único foi uma característica marcante de sua formação. O receio de ser lido como introspectivo e egoísta o preocupava já na infância, mas ele encontrou compreensão e acolhimento na amizade mais significativa que fez: com uma menina chamada Shimamoto. A jovem também era filha única e esse fato parece ter sido a primeira fagulha de conexão entre os dois. Somado a isso, Shimamoto tinha um problema na perna que atrasava sua locomoção, tornando-a uma garota bastante sozinha. Os melhores amigos são separados quando a família de Hajime se muda, e o leitor passa diversos capítulos sem ouvir falar de Shimamoto enquanto o protagonista conta sobre os anos seguintes, do ensino médio até a entrada na faculdade e a chegada aos 30 anos. É nessa circunstância que Shimamoto reaparece em sua vida, bagunçando o status quo e a estabilidade que Hajime finalmente parecia ter alcançado em sua vida adulta.

A vida de Hajime não tem nenhum elemento particularmente fantástico, mas a forma como Murakami conduz a narrativa torna o ordinário interessante. A fluidez das palavras e das lembranças do protagonista faz com que seja muito fácil passar as páginas, ainda que Hajime não seja um personagem do qual eu tenha gostado muito. Mas talvez justamente por expor todas as suas falhas é que o narrador se torne tão palpável e humano aos olhos do leitor. Ainda assim, é importante frisar que, apesar de ser natural cometermos erros, as escolhas de Hajime que mais me incomodaram tiveram relação com sua infidelidade às mulheres com quem se relacionou. 

O final da adolescência de Hajime foi marcado por uma traição imperdoável à sua primeira namorada e, como uma espécie de sina, ele passou os “20 e poucos anos” em uma solidão e apatia infindáveis. Somente quando conhece sua atual esposa, Yukiko, é que Hajime encontra motivação e propósito: além de se apaixonar por ela, ele também conta com o incentivo do sogro para abrir um bar de jazz. Hajime prova-se muito competente administrando o local, a ponto de expandir os negócios e se tornar um empresário bem-sucedido. É nessa fase da vida, em que Hajime tem uma esposa, duas filhas e dois bares para administrar, que Shimamoto entra em contato. Sua aparição é rodeada de mistérios, e ela pede um favor pessoal que não teve coragem de pedir a mais ninguém – que Hajime obviamente não consegue negar.

resenha sul da fronteira oeste do sol

O dilema do protagonista sobre o estigma do egoísmo de filho único pode ser visto na forma como ele se relaciona com todas as mulheres de sua vida, excetuando Shimamoto. Em nenhum momento o leitor tem vislumbres mais profundos sobre Yukiko, por exemplo, e o único momento em que sua esposa ganha voz é também o momento em que Hajime precisa enfrentar suas próprias fraquezas, sendo a minha passagem favorita do livro. Mas existem páginas e mais páginas dedicadas à obsessão de Hajime pela amiga/paixão de infância. Um dos motivos pelos quais o protagonista relata ter dificuldade em se vincular a mulheres que conheceu diz respeito a não ver nelas algo “especial”, algo que seja “feito só para ele”.  E aqui se apresenta mais uma das características nada palatáveis do narrador: a forma como ele projeta nas mulheres aquilo que ele busca, desumanizando-as e fazendo com que elas precisam atingir esse objetivo que ele tanto busca (e que aparentemente apenas Shimamoto está à altura). 

E mesmo sobre essa mulher tão importante em sua vida nos é revelado pouco. Ela é um mistério por si só, e é a protagonista dos devaneios de Hajime. Ele passa os dias imaginando quando Shimamoto virá ao bar novamente e se põe a divagar sobre como seria sua vida se tivesse tomado decisões diferentes que o aproximassem dela. Por meio de seus questionamentos, Murakami leva o leitor a refletir sobre os próprios “e se?” que a vida apresenta. E se eu tivesse mantido contato com uma pessoa importante? E se eu tivesse feito escolhas diferentes? Nenhum de nós, e nem mesmo Hajime, tem essa resposta, porque simplesmente não podemos mudar aquilo que já foi percorrido.

Ainda que Sono tenha sido uma leitura da qual gostei mais, Sul da Fronteira, Oeste do Sol foi mais uma experiência positiva lendo Haruki Murakami. O autor é muito bom em nos conduzir por reflexões existenciais e nos fazer questionar nossas decisões e trajetórias de um jeito bastante relacionável. Ainda que Hajime seja um personagem cheio de falhas, ele é também muito real e humano, o que torna possível a identificação. Se você busca por um livro que não se revela de imediato, mas que aos poucos vai desnudando as questões interiores dos personagens, essa é uma boa escolha. Recomendo. 😉

Título original: Kokkyō no minami, taiyō no nishi (国境の南、太陽の西)
Autor:
Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 177
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Falcão e o Soldado Invernal

Oi pessoal, tudo bem?

Eu sou bem cadelinha da Marvel, e provavelmente esse foi o principal motivo que me fez assinar o Disney+ rs. E é óbvio que eu não ia perder a série envolvendo um dos meus personagens favoritos, o Bucky (que inclusive deu nome ao meu cachorro). 🥰 Bora saber mais sobre Falcão e o Soldado Invernal?

Sinopse: Falcão e o Soldado Invernal são obrigados a formar uma dupla incompatível e embarcarem em uma aventura global que deve testar tanto suas habilidades de sobrevivência quanto sua paciência.

Ao final de Vingadores: Ultimato, vemos um Steve Rogers envelhecido, que optou por ficar no passado vivendo ao lado da sua amada Peggy Carter. Quando ele retorna ao presente, ele se despede de seus amigos mais próximos, Bucky e Sam, e oficialmente aposenta o escudo – indicando que deseja que Sam o assuma. Para a nossa surpresa, ao iniciar Falcão e o Soldado Invernal vemos Sam atuando ainda como Falcão, e o escudo do Capitão foi para o museu em sua homenagem. Bucky visivelmente não aceita a decisão de Sam, revoltando-se com o fato de que o Falcão (em sua opinião) está deixando o legado de Steve pra trás, especialmente quando outro soldado (John Walker) é escolhido para vestir o manto. Apesar das suas diferenças, Bucky e Steve precisam se unir quando um grupo terrorista conhecido como Apátridas parece estar fazendo uso do soro do super soldado para promover protestos e atentados em nome da sua ideologia.

Falcão e o Soldado Invernal é, até agora, a série com mais cenas de ação das lançadas no Disney+. Os dois protagonistas são guerreiros competentes e verdadeiros soldados. Mas, apesar disso, os episódios não focam somente nesse aspecto dos personagens, e foi isso que me fez gostar tanto dela: ela trabalha as emoções de Sam e de Bucky de uma forma que até então não havíamos visto nos filmes. Sam, por exemplo, sofre a pressão por não ter carregado o escudo e o manto de Steve. O fato de ser um soldado negro e ele saber que os Estados Unidos escolhem homens brancos, loiros e de olhos azuis para representar o país enquanto afro-americanos são desprezados, sofrem violência e são vítimas da desigualdade é um peso em seus ombros, que fica ainda mais evidente quando ele descobre que houve um super soldado negro (Isaiah Bradley) que, além de não ter tido reconhecimento por parte do país, ainda teve que fingir sua morte e viver escondido para não ser preso ou eliminado. Esse debate sobre as questões raciais também aparece em uma cena na qual Sam e Bucky são abordados por policiais mas somente a Sam é solicitada a documentação, por exemplo. São aspectos bem relevantes e que eu gostei muito de ver na série.

Bucky, por sua vez, lida com outro tipo de pressão: ele é um soldado com mais de 100 anos e que passou os últimos como um servo da H.I.D.R.A. devido à lavagem cerebral sofrida. Apesar de ter conseguido, com a ajuda de Wakanda, retomar seu verdadeiro eu, ele é um homem perdido nesse novo tempo. E a única referência que ele tinha, seu melhor amigo, se foi para sempre. Isso torna ainda mais doloroso pra ele ver Walker assumindo o título de novo Capitão América, porque em sua interpretação Sam não honrou Steve e tampouco merecia a chance de carregar o escudo. Para além de sua mágoa relacionada ao título, vemos Bucky tendo que lidar com profundas cicatrizes emocionais causadas pelo tempo em que foi o Soldado Invernal. Ele é obrigado pelo Estado a fazer terapia como forma de compensação pelos seus atos, e uma parte de seu “tema de casa” é contar a verdade sobre seu passado às pessoas que feriu. Uma dessas pessoas é um dos poucos vínculos que ele tem no presente, e é palpável a dor e o peso que o personagem carrega. Ele e a Wanda são uma dupla e tanto no que diz respeito a cenas difíceis e lágrimas cheias de peso e significado. 😥

Falando um pouco sobre a ação, são interessantes os debates gerados pelos Apátridas. Esse grupo acredita que o planeta estava melhor durante o Blip, pois durante aqueles 5 anos as fronteiras caíram e os países foram obrigados a trabalhar juntos, já que metade da população mundial se foi. Com o retorno de todas essas pessoas, os governos começaram a levantar muros novamente e grande parte da população começou a ser expulsa de sua nova vida para dar espaço às que retornaram. Por mais que a forma como os Apátridas seja questionável, os motivos valem uma reflexão interessante. Sua líder, Karli, é uma jovem disposta a tudo, inclusive perder a própria vida, em nome desse objetivo que ela considera muito maior que ela. Sendo uma pessoa que sofreu preconceito também, Sam vê nela uma intenção boa por trás de seus atos, fazendo com que ele deseje ajudá-la e convencê-la de que existem outras formas pra agir. Isso tudo, é claro, em meio a cenas de luta intensas, já que quase todos Apátridas usam o soro. Por fim, não posso deixar de mencionar uma dupla inesperada que também auxilia Sam e Bucky: o Barão Zemo e Sharon Carter (atenção pra esse nome, que talvez ele tenha mais desdobramentos no futuro do MCU).

John Walker é um personagem que também vale a menção. Ele inicia seu trabalho como novo Capitão América com boas intenções, mas ao longo dos episódios percebemos que ele tem traumas da guerra e não sabe lidar com eles. Walker toma decisões duvidosas, demonstra ser antiético em mais de uma circunstância e faz abuso de seu poder (não apenas como Capitão, mas em seu passado no Afeganistão também). O importante aqui é que Falcão e o Soldado Invernal, por meio de Walker, introduz uma personagem chamada Valentina Allegra de Fontaine, que também aparece em Viúva Negra. Esse tipo de informação que o MCU vai jogando aos poucos em suas produções torna um pouco “obrigatório” acompanhar tudo que eles lançam se você quiser ficar 100% por dentro, mas também se não estiver a fim é só jogar no Youtube ou no Google depois. 😛

Eu gostei muito das séries lançadas pela Marvel até o momento, e minha ordem de preferência é WandaVision, Falcão e o Soldado Invernal e, por último, Loki (ainda que provavelmente tenha sido a mais hypada). Adorei acompanhar essa nova aventura de Sam e de Bucky, assim como ver o nascimento do nosso novo Capitão América e o processo de cura de um dos personagens mais injustiçados do MCU, assim como o surgimento de uma nova amizade e uma parceria cheia de química (e cheia de cenas muito engraçadas). Agora fico ansiosa pra que o Bucky encontre um novo codinome (Lobo Branco, talvez?), porque faz tempo que ele deixou de ser o Soldado Invernal – e, caso mantenha o nome, torço pra que o fardo fique pra trás (e felizmente algumas cenas trazem essa alegria pro coração). ❤ #TeamBucky Enfim, resumindo: adorei a série e recomendo demais!

Título original: The Falcon and the Winter Soldier
Ano de lançamento: 2021
Criação: Malcolm Spellman
Elenco: Anthony Mackie, Sebastian Stan, Wyatt Russell, Erin Kellyman, Daniel Brühl, Emily VanCamp

Dica de Série: Mare of Easttown

Oi pessoal, tudo bem?

Vamos de dica de seriezão da porra? Vamos! Hoje vim falar pra vocês sobre uma das melhores minisséries a que assisti recentemente: Mare of Easttown.

Sinopse: Uma detetive de uma pequena cidade investiga um assassinato local enquanto sua vida desmorona.

Essa minissérie da HBO acompanha a vida na pequena cidade de Easttown, sendo protagonizada pela detetive Mare Sheehan, uma mulher pragmática, competente mas com uma vida pessoal completamente conturbada. Ela é atormentada por um caso que não conseguiu resolver (o desaparecimento de uma menina chamada Katie) e por um acontecimento marcante em seu passado recente (que não vou contar pra evitar spoilers), e tenta viver um dia de cada vez. Porém, quando Erin, uma jovem mãe solteira e parente de sua melhor amiga, é encontrada morta, Mare sente uma necessidade irrefreável de solucionar o caso – especialmente porque acredita ter algum tipo de conexão com o de Katie.

Eu chego a ser repetitiva por aqui, mas sempre gosto de ressaltar pra que pessoas novas aqui no blog saibam: suspenses policiais são meus tipos favoritos de histórias. Se tiver um drama bem desenvolvido junto então, melhor ainda. Isso e muito mais encontramos em Mare of Easttown. Os episódios da minissérie são longos, com cerca de 1h de duração, mas o ritmo flui tão bem que você nem sente o tempo passar. E não porque a série tenha infinitas sequências alucinantes de ação; é que ela tem personagens tão bem construídos e uma trama que se desenrola aos poucos, mas de maneira sólida, que você se vê fisgado pelo dia a dia da pequena cidade.

A vida de Mare dá uma guinada que a leva de chamados de vizinhos idosos em seu telefone particular para uma investigação que aponta para um caminho ainda mais obscuro do que ela imaginava. A morte de Erin é a ponta do iceberg de um caso complexo e perigoso por si só, mas que se agrava quando pensamos que a protagonista está em um momento de fragilidade emocional. Felizmente, ela não precisa trabalhar nisso sozinha, e conta com a ajuda de Colin Zabel, um investigador que vem ganhando notoriedade por ter resolvido outro caso de desaparecimento. A dinâmica dos dois é a clássica “ranzinza e fechado vs otimista e entusiasmado”, sendo Mare a representante do mau humor e do estilo mais reservado. 😛

Conforme os episódios evoluem, Mare of Easttown vai se aprofundando na vida pessoal da protagonista, o que inclui também seus relacionamentos mais próximos. A detetive sofreu uma perda familiar irreparável e, ao longo dos episódios, percebemos como essa dor moldou seu jeito de agir e de viver, destruindo seu casamento e afastando-a da filha. É nítido que ela não processou essa perda e que a forma como ela lida com isso beira a autodestruição. Para além dela, a minissérie também desenvolve aos poucos os personagens que orbitam sua vida, como a família de Erin. A jovem é parente do marido da melhor amiga de Mare, Lori, então o peso da investigação acaba recaindo também nessa relação – uma das únicas com quem Mare é capaz de se abrir.

Por último, mas não menos importante, é impossível não elogiar as atuações. O destaque, é claro, fica para Kate Winslet. Na postura física, no tom de voz e no olhar, a atriz transmite com excelência todas as camadas que Mare possui, indo muito além do clichê da detetive durona. Mas o elenco de apoio também brilha e todos os outros personagens têm suas tramas desenvolvidas de maneira satisfatória, entregando mais do que o necessário para fazer o espectador mergulhar no dia a dia (e nos acontecimentos trágicos) de Easttown.

Com episódios muito bem conduzidos, várias pistas sutis sendo entregues e um final redondo, Mare of Easttown é uma série imperdível pra quem curte um bom drama policial. As relações familiares – especialmente o amor entre mãe e filhos – é um dos principais pilares que regem a trama, assim como o impacto da coletividade em uma pequena comunidade entrelaçada. Altamente recomendada!

Título original: Mare of Easttown
Ano de lançamento: 2021
Criador: Brad Ingelsby
Elenco: Kate Winslet, Julianne Nicholson, Evan Peters, Joe Tippett, John Douglas Thompson, Cameron Mann, Jack Mulhern