Resenha: Para Sempre Perdida – Amy Gentry

Oi gente, tudo bem?

Mas é claro que a primeira resenha de 2019 seria de um thriller, né? Hoje conto pra vocês o que achei de Para Sempre Perdida.

para sempre perdida amy gentry.pngGaranta o seu!

Sinopse: Transcorridos oito anos de seu sequestro, Julie Whitaker retorna subitamente para casa. A família, ainda que petrificada pela tragédia, se manteve unida e esperou muito por esse momento. Para Anna, no entanto, a volta da filha ao lar desperta mais questões do que respostas, mais dúvidas do que conforto. Ao notar incoerências no discurso da filha, Anna conclui que o seu pesadelo está apenas começando: ela suspeita da identidade da jovem, duvida de seus relatos e conclui que precisa descobrir a verdade sobre o sequestro da filha a qualquer custo.

Quando bati o olho nessa capa e nessa sinopse já me senti instantaneamente curiosa para conferir a trama de uma família que, após enfrentar o sequestro e a perda de sua filha mais velha, se depara com seu súbito retorno oito anos depois. Com o elemento da desconfiança presente – afinal, a mulher que retornou é mesmo Julie, a menina desaparecida? –, esse livro provoca no leitor a sensação de que nenhuma informação é verdadeira.

A narrativa colabora com esse sentimento: os capítulos são intercalados, sendo narrados em primeira pessoa por Anna (mãe de Julie) e em terceira pessoa por jovens que são parte fundamental da trama. São esses os capítulos mais confusos, especialmente no início, porque aparentemente eles não possuem conexão alguma. Com o passar do tempo, entretanto, as peças vão se encaixando e tudo começa a fazer sentido (não posso falar mais nada sem dar spoiler!!!). Minha dica, portanto, é a seguinte: prestem atenção nesses capítulos, pois eles fornecem informações valiosas para compreender o grande mistério da trama.

Ao longo da trama, a autora também aborda as rachaduras familiares causadas pelo sequestro de Julie. Anna e o marido se afastaram, a filha mais nova – que presenciou o sequestro – foi negligenciada pela mãe e os laços entre elas são completamente fragilizados. Achei uma pena que a autora não tenha utilizado Jane, a filha mais nova, como uma das narradoras, já que a personagem carrega um grande trauma e possível culpa por ter presenciado o sequestro da irmã sem poder fazer nada para impedi-lo.

Apesar da autora ter conseguido demonstrar os problemas que a família enfrentou, senti falta de um maior aprofundamento emocional dos personagens. Nos capítulos de Anna temos vislumbres do sofrimento vivido pela família, mas que rapidamente são substituídos pela desconfiança de que aquela mulher não seja realmente sua família. A partir daí, Anna aceita a ajuda de um detetive particular que está determinado a resolver o mistério. Em contrapartida, os capítulos em terceira pessoa são mais ricos em aprofundamento – porém são todos narrados no passado. Novamente, o desenvolvimento dos personagens no tempo presente acaba sendo superficial.

resenha para sempre perdida amy gentry.png

Nesse sentido, os capítulos narrados no passado se destacam. Com o passar das páginas, o leitor conhece as dores e as dificuldades vividas pela narradora, que precisou vencer muitos desafios cruéis para sobreviver. É bem interessante como o livro utiliza a performance da fragilidade feminina como meio de sobrevivência: nossa narradora em diversos momentos aparenta ser alguém frágil, que precisa ser salva, como estratégia para atingir seus objetivos. Porém, não digo isso de modo a recriminá-la (apesar das atitudes erradas); ela realmente precisava sobreviver, e usou das ferramentas que tinha para tal. Esse aspecto da obra me lembrou muito de Alias Grace, em que também temos uma personagem feminina valendo-se do estereótipo errôneo construído em torno das mulheres para evitar a morte.

Existem algumas coisas que, para mim não fizeram muito sentido. São spoilers, então pule para o próximo parágrafo se não quiser ler. Primeira questão: se Julie é mesmo Julie, por que a obsessão por esconder o cabelo natural? É normal que cabelos loiros escureçam um pouco ao longo dos anos. Segunda questão: quantos anos afinal tinha Charlie/Maxwell? Ele é descrito como um cara mais velho, mas ao mesmo tempo fazia parte do grupo de jovens da igreja (?). Terceira questão: Julie sumiu aos 13 anos e voltou aos 21. Como Anna teve dificuldades em reconhecer seu rosto? Se fosse uma criança muito mais jovem, eu compreenderia, mas não era o caso. Pessoas não mudam TANTO a fisionomia dos 13 aos 21 anos, o rosto permanece reconhecível, já que nossos traços principais já estão bem definidos. Por outro lado, Julie sofreu muito e isso pode ter envelhecido ou mudado um pouco seu semblante, mas ainda assim… Achei meio forçado, uma conveniência de roteiro (para que Julie tivesse idade e ideias próprias o suficiente para ser ~corrompida por alguém na internet).

O final do livro é bastante satisfatório e consegue conectar a maioria das peças apresentadas ao longo da trama. A justificativa para o que acontece é verossímil, tanto que existem casos parecidos (e bem recentes) no mundo real. O desfecho proporciona algumas reflexões sobre como nem sempre conhecemos a fundo as pessoas que amamos e como é fundamental que exista comunicação e apoio no ambiente familiar. E, é claro, do cuidado que devemos ter com a internet, onde jovens podem ser facilmente seduzidos. Aproveito esse momento também para elogiar a capa, que é fantástica: a foto é super aflitiva e os olhos da menina tendo sua boca tapada são expressivos e comoventes. As cruzes espalhadas pela capa também são muito significativas. No final do livro você compreende como a capa foi bem pensada.

Para Sempre Perdida foi uma leitura satisfatória, com um mistério instigante e uma situação bastante delicada e importante como tema. A autora conseguiu concluir a maior parte das pontas soltas com eficiência, entregando uma história redondinha e bem construída – apesar de triste e dolorosa. Recomendo!

Título original: Good As Gone
Autor: Amy Gentry
Editora: Rocco
Número de páginas: 304
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.
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Review: My Hero Academia

Oi gente, tudo bem?

Faz eras que eu não falo sobre animes por aqui, né? Pra falar a verdade, prefiro produções antigas, que eu assistia quando eu era adolescente, e não assisto a tantos animes novos. Porém, por insistência do meu namorado, dei uma chance a My Hero Academia (ou Boku no Hero) e me apaixonei. ❤

my hero academia

Sinopse: Em um mundo onde quase toda a população possui algum poder sobre-humano, Izuku Midoriya é um dos poucos casos de pessoas comuns. Mas esse não é o maior de seus problemas. Exatamente por ser desprovido de qualquer poder, Izuku sofre constantemente nas mãos de seus colegas de classe. Nesse mundo fictício, desde o primeiro caso constatado de um recém-nascido com algum tipo de poder, o índice de criminalidade cresceu proporcional ao surgimento de heróis com as mais variadas capacidades. E, como não poderia deixar de ser, o sonho de Izuku é se tornar um super-herói. Isso parecia impossível até o dia que ele ajuda o poderoso All Might na captura de um vilão gosmento. Ao demonstrar grande coragem e um forte senso de justiça, com a ajuda do famoso herói de cabelos louros, o garoto, enfim, terá a chance de se tornar quem sempre sonhou!

No futuro, a maioria das pessoas nasce com alguma habilidade especial, chamada de Peculiaridade. Esses dons, obviamente, também se manifestam em pessoas que os utilizam para o mal, o que faz surgir a necessidade de existirem super-heróis para combatê-las. Só que agora os super-heróis não precisam ocultar suas identidades, pois é uma profissão regulamentada e admirada, sendo o sonho de muitos jovens. Um desses jovens é Midoriya Izuku, o protagonista.

my hero academia

Midoriya sonha em ser um herói e tem como grande ídolo All Might, um dos maiores heróis do mundo, conhecido como Símbolo da Paz. O problema é que, infelizmente, Midoriya é um dos raros casos que nasceu sem Peculiaridade. Entretanto, um dia ele demonstra muita coragem ao tentar salvar seu colega de escola, Bakugou, de um vilão – cena presenciada pelo próprio All Might, que acaba decidindo ajudar o garoto a se tornar um super-herói e entrar para a U.A., uma escola para heróis prestigiada.

A partir daí, Midoriya recebe de All Might sua Peculiaridade, a One For All, e passamos a acompanhar seus desafios na U.A.. O garoto está cercado por pessoas talentosas e habilidosas, que tiveram a vida toda para se habituar a seus dons, enquanto Midoriya precisa aprender a controlar seu novo – e expressivo – poder. Além dos desafios proporcionados pela escola, Midoriya também tem que lidar com colegas cujas personalidades são extremamente difíceis, com destaque para Bakugou, um jovem que ele conhece desde a infância. Bakugou também se inspira em All Might, mas sua personalidade explosiva e o bullying que pratica fazem dele alguém desequilibrado. Seus poderes excepcionais são vistos pelos colegas e professores, mas ele nem sempre consegue atingir seus objetivos devido ao seu temperamento (o que acaba sendo um desafio que o próprio Bakugou precisa enfrentar). Existem inúmeros outros personagens que têm seus sonhos e ambições: Uraraka é uma jovem que quer auxiliar os pais financeiramente; Iida sonha em ser um grande herói, assim como o irmão mais velho; Todoroki tem traumas de infância relacionados ao pai que precisa superar, e por aí vai. E é muuuito legal acompanhar o crescimento desses jovens não apenas como heróis, mas também como pessoas.

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A animação propriamente dita é fantástica. Por ser um anime cheio de lutas, é incrível ver a fluidez dos movimentos e a qualidade dos episódios. A trilha sonora também é ótima e empolgante, o que combina com o tom frenético da maior parte dos episódios. Outro aspecto bacana é que – apesar de ter alguns plots previsíveis (como torneios e treinamentos) – o anime tem muitas reviravoltas e episódios que deixam o espectador tenso, querendo saber o que vai acontecer e se os heróis conseguirão deter os planos dos vilões.

Mas, como nem tudo são flores, minhas críticas negativas começam pelos vilões: existem alguns mais interessantes mas, de modo geral, as situações são mais aflitivas do que os vilões em si. Até agora nenhum apresentou ameaça REAL, exceto pelo arqui-inimigo de All Might, All For One. Outro defeito que My Hero Academia apresenta é compartilhado com muuuuitos outros animes do gênero: pouca valorização das personagens femininas e exploração do corpo delas para entretenimento masculino. 😦 

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Porém, apesar das lutas serem envolventes e emocionantes, o que mais mexe com a gente é a superação dos personagens. É algo bem clichê em animes (especialmente shounen, voltados ao público jovem masculino, com tramas cheias de lutas), mas mesmo assim é difícil não ficar arrepiada quando algum personagem consegue superar seus limites e fazer algo que não conseguia antes. Midoriya é o maior exemplo disso, sendo alguém cuja determinação é inabalável. A cada vez que ele demonstra maior controle sobre o grande poder do One For All, temos vontade de vibrar com ele! ❤

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My Hero Academia é um anime com personagens muito carismáticos, traz uma nova forma de trabalhar a ideia de super-heróis (que podem ser considerados saturados hoje em dia, apesar de eu amar) e tem episódios que prendem e criam expectativa. Se você tem afinidade com animes, vale MUITO a pena dar uma chance!

Título original: Boku no Hīrō Akademia
Ano de lançamento: 2016
Direção: Kenji Nagasaki
Roteiro: Yōsuke Kuroda
Elenco: Daiki Yamashita, Kenta Miyake, Nobuhiko Okamoto, Kaito Ishikawa, Ayane Sakura, Yûki Kaji

Dica de Série: You

Oi pessoal, tudo bem?

A coluna Uma Amiga Indicou – uma parceria linda com os queridos blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias e Interrupted Dreamer já começou janeiro bombando! ❤

uma amiga indicou

Hoje vim contar pra vocês o que achei de You (ou Você), o novo thriller da Netflix, que foi escolhido por nós para ser assistido coletivamente.

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Sinopse: Obcecado por uma aspirante a escritora, um charmoso gerente de livraria lança mão de medidas extremas para entrar na vida dela.

Imagine como seria adentrar a mente de um psicopata, saber cada pensamento, lógica distorcida e obsessão. É exatamente isso que You proporciona. Na trama, Joe Goldberg é o carismático gerente de uma livraria que se “apaixona” perdidamente por Guinevere Beck, uma bela aspirante a escritora. Quando a jovem flerta com ele na livraria, o rapaz se encanta completamente, convencendo-se de que eles são perfeitos um para o outro, e utiliza o nome no cartão de crédito da moça para stalkeá-la e conseguir informações a seu respeito na internet. Quanto mais “conhece” Beck, mais determinado Joe fica a conquistá-la – mesmo que para isso precise eliminar quem estiver em seu caminho.

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You é cheia de absurdos. Existem inúmeras situações inverossímeis, especialmente no que tange o stalk de Joe e os crimes que ele comete. Contudo, de maneira surpreendente, a série consegue fazer com que você, espectador, não ligue pra nada disso. A narração em off, feita por Joe e direcionada a Beck, é instigante e cativante, e por mais perturbador que seja o personagem, você quer continuar acompanhando seus devaneios. Os episódios são tão envolventes que você aceita essas situações em nome do espetáculo e da ansiedade para conferir o que está por vir. E muito disso é mérito do insano Joe.

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O personagem é um verdadeiro psicopata doentio. Mas, por mais que ele cause repulsa e revolta, ele também fascina (e aqui cabem muitos elogios ao seu intérprete, Penn Badgley). Joe é um personagem cheio de nuances que nos confundem: ao mesmo tempo em que é capaz de diversas atrocidades, ele também demonstra carinho e zelo com Paco, uma criança que vive no apartamento ao lado e presencia a mãe sofrendo violência doméstica. Certamente Joe vê em Paco a criança que ele mesmo foi, negligenciado e vítima de violência por parte do homem que o criou (outro psicopata sem escrúpulos, diga-se de passagem). As cenas entre os dois são repletas de ternura, o que quase nos faz esquecer da verdadeira faceta do protagonista: a de um homem obsessivo, controlador e doentio.

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Joe passa a temporada inteira justificando suas atitudes “em nome do amor” e “para proteger Beck”. Ele invade a privacidade dela, manipula diversas situações e não demonstra nenhum rancor em relação aos assassinatos que comete. E o pior de tudo: ele acredita piamente que está fazendo a coisa certa. Joe é tão imerso e crente em suas próprias fantasias que se sente no direito de, por exemplo, julgar a melhor amiga de Beck (outra stalker manipuladora) por fazer a MESMA COISA que ele faz. O personagem é totalmente incapaz de compreender o quão abusivo ele é, e suas justificativas me incomodaram DEMAIS (eu só queria dar um tapa na cara dele, sério).

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Beck, por outro lado, é uma personagem difícil de torcer. Além das expressões de “sou muito bonitinha” o tempo todo (que cansam pra caramba), Beck tem falhas de caráter graves: ela trai, mente e não assume a responsabilidade por seus atos, fazendo-se de vítima o tempo todo. O problema é que ela é REALMENTE uma vítima, mas não faz ideia disso. Vamos ser honestos: Beck é burrinha. Foi enervante ver a personagem caindo em desculpas mais furadas que uma peneira, mesmo quando Joe não tinha como justificar determinadas coisas de maneira aceitável (o evento literário no qual ela vai com o pai é um bom exemplo disso entendedores entenderão). Somado a isso está o fato de que Joe vende uma imagem de namorado perfeito, fazendo de tudo para agradá-la e incentivá-la, em uma tentativa de fazer com que não apenas Beck, mas também o espectador também goste dele. Contudo, por mais que Beck seja chata e problemática, NADA justifica as coisas que Joe faz com ela. Em certos momentos, especialmente na reta final, me senti muito mal assistindo You e pensando que – em maior ou menor escala – muitas mulheres na vida real são realmente perseguidas, tolhidas, controladas, agredidas ou até mesmo mortas por homens que se sentem no direito de possuí-las. You pode ter diversas situações absurdas, mas essa infelizmente não é uma delas.

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A série ainda faz diversas críticas ao excesso de exposição na internet e nas redes sociais, jogando na nossa cara como fornecemos muitos detalhes da nossa vida pessoal para completos estranhos. Por meio de Beck e de sua tentativa desesperada de pertencer a um grupo social do qual não faz parte (o que a conduz a uma amizade extremamente nociva com Peach), You mostra como o feed do Instagram pode não estar alinhado com a realidade, sendo somente uma vitrine para aquilo que queremos mostrar. Confesso que foi difícil não sentir uma paranoiazinha ao terminar a série e pensar “e se um stalker estiver olhando minhas coisas?” 😂👀

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You (ou Você) é um thriller excelente e perturbador. Não é fácil acompanhar uma história pelos olhos do vilão (exceto quando ele é o Dexter e mata somente outros assassinos rs), mas os episódios conseguem manter o espectador aflito e querendo mais. As situações inverossímeis não estragam a experiência, já que You não se propõe a ser uma série investigativa, mas um mergulho em uma relação perigosa, obsessiva e disfuncional. Recomendo!

Resenha: Todos Nós Vemos Estrelas – Larissa Siriani e Leo Oliveira

Oi gente, tudo bem?

Estamos em vibes natalinas por aqui! 🎅🎄 Como diria a Phoebe, de Friends: “Happy Christmas Eve Eve!” 😂 E é claro que vai rolar resenha temática, né? Em parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias e Interrupted Dreamer, a coluna Uma Amiga Indicou do mês decidiu falar de obras de Natal. 😍uma amiga indicou

Eu resolvi seguir a dica da Pâm e conferir Todos Nós Vemos Estrelas, da Larissa Siriani e Leo Oliveira.

todos nos vemos estrelas.pngGaranta o seu!

Sinopse: Quando o Natal se aproxima, as pessoas ficam mais nostálgicas, amáveis e caridosas. Bem, isso é o que se espera. Porque para Lisa as coisas não são bem assim. Ela só gostaria de passar as férias trancada em seu quarto com seu livro favorito, lendo novamente as aventuras do príncipe Lucien em Trinitam. Mas… E quando seus planos falham miseravelmente e você precisa lidar com acontecimentos inesperados e visitas que parecem – ou talvez sejam mesmo – de outro mundo? Uma novela de fantasia recheada de magia, amizade, família, amor e estrelas. Porque é disso que o Natal é feito.

O que mais me surpreendeu nesse conto é o fato de que, apesar do número limitado de páginas (pouco mais de 100), os autores conseguiram criar duas histórias igualmente instigantes que se conectam e nos conquistam. Lisa é uma menina tímida que ama ler. Sua série favorita é A Glória do Traidor, protagonizada pelo príncipe Lucien. O caminho dos dois se cruza quando Lisa escreve em um caderno que ganhou de amigo secreto (da sua crush, Helô, que faz uma descrição bem ofensiva de Lisa na hora de entregar o presente) que gostaria de ter alguém que realmente a entendesse. Nesse momento, Lucien é transportado das páginas para o mundo real, o que causa uma confusão tremenda em ambos.

É muuuito divertido acompanhar o estranhamento de Lucien no nosso mundo. Lisa tem que explicar tudo a ele, inclusive o uso do banheiro HAHAHA! Existe uma mudança no estilo narrativo que me agradou bastante: os capítulos de Lisa são em primeira pessoa e trazem a fluidez e a modernidade da época dela; os de Lucien são narrados em terceira pessoa por um narrador onisciente. Achei essa escolha acertada, porque mantém o estilo narrativo do livro fictício e combina com obras de fantasia, fazendo o leitor sentir que mesmo em nosso mundo Lucien ainda faz parte de um universo fantástico.

Outro aspecto positivo da leitura é o fato de que 1) Lisa é lésbica e 2) isso não é a coisa mais importante sobre ela. A naturalidade com que a sexualidade da protagonista é trabalhada é muito bacana, e eu sempre fico contente quando vejo esse tema sendo abordado de modo tão tranquilo (como deveria mesmo ser! Espero que um dia cheguemos lá). Representatividade é sempre bem-vinda! ❤ Além disso, o conto consegue abordar a personalidade da protagonista, assim como sua relação com a família e as dificuldades que ela sente de se aproximar da madrasta, Tatiana. Apesar dos assuntos não serem suuuper aprofundados – até pelo número curto de páginas –, eles são trabalhados de modo eficiente para o contexto.

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Minha maior frustração com o conto é saber que A Gloria do Traidor não é de verdade. 😦 Achei a história de Lucien tão interessante que ia amar se os autores decidissem publicá-la! E, como crítica, achei o final um pouco abrupto; é revelada uma grande reviravolta e o leitor não sabe se aquilo realmente acontece ou não. Quando você termina a leitura, a sensação é de “preciso saber o final!!!”, sabem? E eu não gosto dessa sensação. 😛

Tá, mas e o Natal? Ele é só pano de fundo mesmo. O conto acontece na época de Natal, o que pode justificar um pouco a “magia” capaz de realizar o sonho de Lisa e trazer Lucien de Trinitam para nosso mundo. Mas, fora isso, o conto não se preocupa tanto em explorar a data no modo mais “tradicional” (decoração, ceia, etc.). A trama é mais voltada à amizade, a entender as diferenças, a abrir o coração para outra pessoa entrar… Lições muito bonitas que, na minha opinião, combinam muito com essa época. ❤

Todos Nós Vemos Estrelas foi uma grata surpresa que superou minhas expectativas. Divertido, com bons personagens e uma trama construída de maneira eficiente para o número de páginas proposto, é uma ótima opção de leitura para terminar o ano. E também um lembrete de que, se olharmos para o céu, podemos estar mais próximos de quem amamos.

Feliz Natal, povo! 😍🎄

Título Original: Todos Nós Vemos Estrelas
Autores: Larissa Siriani e Leo Oliveira
Editora: Amazon
Número de páginas: 119
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Resenha: Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja – Mindy Mejia

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje vim contar pra vocês o que achei do ótimo suspense Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja.

tudo que voce quiser que eu seja mindy mejia.pngGaranta o seu!

Sinopse: Hattie Hoffman passou os 17 anos de sua vida representando papéis – de boa filha, ótima aluna, namorada ideal. Mas Hattie espera mais do que isso da vida, e o que ela deseja acaba se tornando muito, muito perigoso. Quando a jovem é encontrada brutalmente assassinada, todos da cidadezinha onde vivia ficam estarrecidos com o crime. Logo vem à tona que Hattie estava envolvida num relacionamento com potencial explosivo. A questão é: alguém mais sabia disso? Será que o namorado de Hattie seria capaz de cometer um crime, se soubesse da traição? Ou será que o comportamento impulsivo da jovem a colocou no lugar errado, na hora errada? Com uma trama repleta de reviravoltas, Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja desafia o leitor a reconhecer o tênue limite entre inocência e culpa, identidade e decepção. E fica a questão: o amor leva ao autoconhecimento ou à destruição?

Hattie Hoffman ama atuar. Sua atuação, entretanto, não se restringe aos palcos. A garota tem diversos papéis prontos que executa com maestria: aluna perfeita, filha dedicada, excelente amiga, namorada ideal. Entretanto, quando ela é encontrada brutalmente assassinada, todos em sua pequena cidade natal, Pine Valley, ficam perplexos e devastados. Com uma narrativa não linear, que alterna entre passado e presente, vamos desvendando esse mistério pela perspectiva de três personagens: Del, o xerife; Peter, o professor de inglês e amante de Hattie; e, por fim, a própria Hattie.

Além do título, a capa do livro já evidencia a principal característica da protagonista: a personalidade de Hattie é fragmentada, e não sabemos ao certo quem ela realmente é. Após sua morte, acompanhamos diversos segredos da vida da personagem sendo desvendados por meio de seus relatos e também da investigação de Del. E, para ser sincera, enquanto a garota ia sendo desvendada, foi impossível não pensar em Hattie quase que como uma sociopata. Ela é capaz de interpretar múltiplas personagens, dependendo do interlocutor, sem o mínimo de remorso, ensaiando mentalmente tudo que precisa dizer ou fazer para obter o que deseja.

Peter, por outro lado, é um personagem que inicialmente causa pena. Ele foi arrastado para o interior porque a mãe de sua esposa está doente e, desde a mudança, sua mulher parece cada vez mais distante e indiferente, fazendo pouco caso de qualquer tentativa de aproximação. Porém, não demora para que o personagem conquiste meu ranço. Quando ele descobre que a mulher com quem conversava pela internet era Hattie, sua primeira atitude é botar um ponto final na relação (o correto a se fazer). Entretanto, após muita “insistência da jovem”, Peter cede aos seus desejos quando a garota completa 18 anos, e os dois vivem um caso durante meses.

Muitas coisas me causaram incômodo nessa relação: em primeiro lugar, é um homem mais velho em uma posição de poder (professor > aluna) olhando de modo sexual para uma adolescente e se relacionando com ela; em segundo, obviamente, a traição em si; por último, mas não menos importante, o fato de que a autora coloca Hattie como a pessoa que “faz” Peter ceder. É Hattie quem insiste e “corrompe o pobre professor” até ele perder a sanidade e não resistir aos seus encantos. Essa vibe de “jovem provocante que seduz o homem mais velho relutante” é muito problemática, porque reforça o estereótipo da menina sedutora e ardilosa, a verdadeira culpada pela corrupção moral do homem. Pelo amor de Deus, Peter era o adulto na relação, ele era o responsável por tomar a atitude correta!

resenha tudo que voce quiser que eu seja mindy mejia

Agora, falando um pouquinho sobre Del. O personagem, assim como o leitor, tenta encaixar as peças para entender o que aconteceu. Apesar de ter menos espaço narrativo do que Hattie e Peter, ainda assim conseguimos conhecer um pouco mais sobre ele e seu passado. Ele é um homem íntegro, solitário, mas que valoriza as amizades acima de tudo (em especial com os Hoffman, de quem é amigo há mais de 20 anos). Para o xerife, é extremamente doloroso investigar a morte de Hattie, devido à sua aproximação com a família. E, é claro, também é doloroso perceber como a garota vivia uma vida de segredos.

O mistério em relação à morte de Hattie não é o que prende o leitor. Inclusive, a resolução do caso deixa bastante a desejar. Mas o brilho de Tudo O Que Você Quiser Que Eu Seja não está no mistério, e sim na excelente construção dos personagens. Mindy Mejia consegue criar indivíduos muito verossímeis, cheios de qualidades e, principalmente, falhas. Seus questionamentos e sentimentos são realistas, e a trama não coloca as coisas preto no branco. Não, eu não me afeiçoei aos personagens, mas isso não quer dizer que eu não tenha conseguido admirar o modo como eles foram sendo desenvolvidos ao longo das páginas. As relações humanas – incluindo as obsessões doentias, as escolhas morais duvidosas e os atos extremos – são apresentadas de uma forma extremamente envolvente e bem construída. Como uma leitora que valoriza MUITO personagens bem desenvolvidos, fiquei totalmente satisfeita.

Enquanto lia Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja, percebi que estava menos interessada no mistério em si do que na vida dos personagens. Nesse sentido, me lembrei de O Segredo do Meu Marido, que também faz um ótimo trabalho em destrinchar as relações e os sentimentos humanos. Mindy Mejia consegue atingir esse objetivo neste livro, trazendo à vida personagens ambíguos e diversos questionamentos sobre identidade, culpa, responsabilidade, escolhas e sobre como nem sempre conhecemos de verdade as pessoas que amamos. Recomendo muito!

Título original: Everything You Want Me To Be
Autor: Mindy Mejia
Editora: Rocco
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Dica de Série: Sharp Objects

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje vim contar pra vocês o que achei de Sharp Objects, minissérie da HBO (baseada no livro Objetos Cortantes) que rendeu a Amy Adams diversos elogios e concorre a vários prêmios.

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Sinopse: Camille Preaker, repórter do St. Louis Chronicle, é enviada para sua cidade natal para investigar a história de duas garotas que estão desaparecidas e, supostamente, foram assassinadas. O caso, mais o fato de se reunir com sua prepotente mãe, desperta recordações traumáticas de sua infância, incluindo a morte de sua irmã mais nova, Marian.

Camille é uma jornalista que se vê obrigada a voltar à Wind Gap, sua cidade natal, para cobrir o brutal assassinato de duas jovens. Atormentada por lembranças do passado, convivendo com o alcoolismo e odiando tudo que envolva Wind Gap, essa missão é um verdadeiro desafio para Camille. Muito desse sofrimento tem origem familiar: ela perdeu uma irmã ainda na adolescência, tem uma péssima relação com a mãe, Adora, e nem sequer conhece sua meia-irmã mais nova, Amma. Esses elementos combinados levam Camille a uma experiência dolorosa e intensa durante seu período na cidade em que cresceu.

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Como sou apaixonada por thrillers e admiro o trabalho de Amy Adams, estava louca para conferir Sharp Objects. A verdade é que, em um primeiro momento, a série não conseguiu cativar minha atenção. Tentei relevar a lentidão do primeiro episódio porque compreendo que é necessário apresentar com competência o aspecto psicológico de uma protagonista tão quebrada; o problema é que esse ritmo não muda ao longo dos episódios seguintes.

Acompanhamos Camille investigando a morte das jovens assassinadas, enquanto o detetive Richard Willis faz a mesma coisa em paralelo. Assim como Camille, Willis é considerado pela população de Wind Gap um outsider, alguém que não está habituado aos costumes daquela cidade interiorana cheia de segredos. Tanto ele quanto Camille sofrem certos olhares de desconfiança por estarem “fuçando onde não devem”, especialmente por parte de Adora (mãe de Camille), considerada um pilar para a comunidade, e pelo xerife Vickery. Contudo, o plot da investigação dos assassinatos não chega a ser instigante a ponto de deixar o espectador verdadeiramente curioso, porque parece que nada acontece.

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Por outro lado, os mistérios referentes à família de Camille são muito mais interessantes. A morte de sua irmã mais nova marcou muito a dinâmica familiar dos Preaker, e Adora tem uma necessidade de controle doentia. Apesar de ter negligenciado Camille a vida toda, Adora investe todas as suas energias em cuidar de Amma, tratando a adolescente como uma menininha indefesa – sem nem imaginar o quão dissimulada é a filha mais jovem, que se finge de menina comportada na frente da mãe, mas sai às escondidas à noite e mantém seus próprios segredos.

A própria Camille é um grande vulcão emocional, e a cada episódio descobrimos mais detalhes de seu passado que nos fazem sentir pena dela: além de ter perdido a irmã que amava, Camille foi internada em um hospital psiquiátrico, se automutilava, sofreu mais perdas pelo caminho e agora convive com o alcoolismo. No desenvolvimento dos personagens, a série acerta em cheio: eles são muito bem trabalhados, tem diversas nuances e nem sempre agem como esperamos, o que os torna bastante verossímeis. Os mistérios mais interessantes da série, diga-se de passagem, estão relacionados às verdades por trás do que os personagens aparentam ser (e eu não posso falar muito sobre isso porque a graça da série, ao meu ver, está nesses segredos).

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As atuações certamente merecem grande destaque. Amy Adams e Patricia Clarkson (Camille e Adora, respectivamente) roubam a cena por motivos diferentes: de Camille sentimos pena, por Adora, aversão. A dedicação das atrizes – especialmente Amy Adams – aos papéis é intensa e visceral, sendo impossível assistir a diversas cenas sem sentir grande desconforto. Eliza Scanlen (Amma) também surpreende, trazendo à vida uma personagem falsa, sedutora, mentirosa, intensa, vítima e algoz – tudo ao mesmo tempo.

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Sharp Objects traz uma trama de assassinatos que não prendeu minha atenção e me deixou bastante entediada em diversos momentos, porém é muito competente em trabalhar seus personagens imperfeitos e os traumas que se acumulam no seu emocional. O final é surpreendente, me deixou de queixo caído e eu amei! Vi gente que leu o livro reclamando que foi mal explicado (inclusive catei o final do livro pra ler), mas eu achei ótimo o fato da minissérie ter optado por ser mais chocante do que reveladora. Apesar das ressalvas, o desfecho e o desenvolvimento psicológico dos personagens “ganharam a batalha”, tornando a experiência positiva! 😉

Título original: Sharp Objects
Ano de lançamento: 2018
Diretor: Jean-Marc Vallée
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Eliza Scanlen, Chris Messina, Matt Craven, Taylor John Smith

Resenha: Vox – Christina Dalcher

Oi gente, tudo bem?

No final de setembro eu recebi da Editora Arqueiro o convite para ler Vox, um de seus lançamentos mais comentados, e hoje eu vim contar pra vocês o que achei dessa distopia. Aproveito também para agradecer à Editora Arqueiro pelo convite e pela confiança, foi um grande prazer realizar essa leitura. ❤

vox christina dalcher.pngGaranta o seu!

Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo… Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. Mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

É impossível não notar as semelhanças de Vox com O Conto da Aia, do conteúdo às cores da capa. O primeiro tem nítidas inspirações no segundo: um governo autoritário baseado no extremismo religioso (aqui conhecido como Movimento Puro), a retirada dos direitos civis das mulheres, uma protagonista que rememora o passado e não consegue acreditar como as coisas chegaram àquele ponto. Entretanto, de certo modo, Vox é menos “radical” que a obra de Atwood. Explico: nesta distopia, as mudanças que ocorrem na sociedade são muito mais próximas da nossa realidade. As mulheres são excluídas da força de trabalho e passam a ter uma quantia contada de palavras por dia (caso ultrapassem o número 100, levam choques), mas têm permissão de conversar entre si – com essa limitação, é claro –, manter suas casas e também suas famílias. Essa proximidade com a nossa realidade torna Vox um livro tão assustador quanto O Conto da Aia, justamente porque é muito fácil e possível imaginar as coisas acontecendo do modo como é descrito por Christina Dalcher.

O primeiro terço do livro nos dá muitos tapas na cara. Jean McClellan, a protagonista, foi uma renomada cientista que agora se vê presa aos indesejados afazeres domésticos. Enquanto relembra seu passado, uma personagem muito importante se faz presente em seus pensamentos: Jackie, sua antiga colega de quarto e ativista feminista. Em diversos momentos, as duas tiveram diferenças ideológicas na juventude, especialmente porque Jackie insistia na importância de se posicionar contra o retrocesso, enquanto Jean preferia estudar e focar na própria vida acadêmica. Existe um momento do livro em que Jean relembra, inclusive, que não votou nas eleições para presidente, e agora reflete as consequências disso no governo autoritário que ela é obrigada a aceitar. Ela é a típica cidadã comum que pensa que “não vai dar nada” e que acaba se omitindo para manter a consciência tranquila. Conseguem perceber semelhanças com a realidade? Enquanto eu lia Vox, foi inevitável refletir sobre o contexto político brasileiro e os retrocessos que pairam sobre nós. Pra mim, foi apavorante.

Por mais que o início do livro seja uma sequência de socos no estômago e relatos desconfortáveis, ele provoca e nos faz refletir. Eu fiquei totalmente imersa nos relatos de Jean sobre o presente e sobre o passado, por mais que a inquietude também estivesse ali. Infelizmente, da metade para o final o livro ganha um rumo completamente diferente. Após um acidente, o irmão do Presidente Myers desenvolve afasia de Wernicke (tema do estudo de Jean antes das mudanças políticas), e ela é recrutada para fazer parte da equipe que deve curá-lo. Essa afasia, causada por um dano cerebral, faz com que o indivíduo não consiga interpretar as palavras, muito menos proferi-las de modo que façam sentido. Depois de relutar, Jean aceita a proposta e passa a trabalhar com sua antiga chefe, Lin, e Lorenzo, seu amante. A partir desse momento, Vox perde um pouco de seu tom reflexivo e provocativo, ganhando ares de um livro de espionagem. Jean descobre diversos segredos do governo e, junto de seus colegas (especialmente Lorenzo), decide agir. O terço final do livro destoa completamente do resto: as sequências são corridas, cheias de Deus ex-machina e não trazem a verossimilhança que tanto elogiei no início da trama. Vox acaba deixando de lado as questões morais e políticas para focar em sequências mal desenvolvidas com uma pegada de livro de ação/policial.

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Falando um pouco sobre os personagens agora: eu não aprovo traição e, portanto, não consegui achar certo o relacionamento de Jean e Lorenzo. Porém, esse aspecto da vida da protagonista não me fez odiá-la, ou ao próprio Lorenzo. A Jean é uma personagem cheia de privilégios, mas só se dá conta disso quando é tarde demais. Ela tem defeitos e qualidades, o que faz dela alguém bastante real. Ela sofre ao assistir os homens de sua vida (principalmente o marido, Patrick, e os três filhos) vivendo normalmente, tendo a capacidade de falar sem restrições, enquanto ela e a filha mais nova, Sonia, precisam contar cada palavra. Ela se esforça para não odiá-los, mas irracionalmente a mágoa toma conta dela, especialmente porque Patrick demonstra certa apatia durante boa parte da trama. Somando tudo isso ao fato de que ela vive uma paixão avassaladora por Lorenzo, é fácil perceber que seu casamento é sustentado apenas por obrigação, já que o governo não permite que mulheres vivam sozinhas.

E já que o assunto são os personagens, novamente devo mencionar Jackie. Ela é aquela mulher vista como histérica pelas pessoas, especialmente por sua ênfase discursiva ao falar sobre privilégios masculinos. De certo modo, é o estereótipo de “feminista” que as pessoas costumam utilizar pejorativamente. Entretanto, a verdade é que Jackie tem a visão que faltava a Jean, percebendo muito antes os movimentos da sociedade rumo ao retrocesso. Sua determinação em protestar e abrir os olhos das pessoas à sua volta era extremamente necessária mas, infelizmente, as pessoas se recusaram a ouvir. Pra mim, Jackie é alguém muito lúcida e com motivos muito coerentes para sentir tanta raiva; afinal, como não sentir raiva quando seus direitos são ameaçados?

Vox é um livro com uma premissa excelente e uma narrativa muito boa. Só não dou nota máxima por causa do final mesmo, que é um tanto forçado e abrupto, ainda mais comparado ao início da trama. Apesar disso, recomendo demais a leitura! Os acontecimentos narrados por Jean são incômodos e revoltantes, mas não impossíveis. Livros como Vox são cada vez mais necessários, especialmente quando observamos o conservadorismo ganhando voz em diversas partes do mundo, inclusive aqui. E é nossa responsabilidade não ficar em silêncio.

Título original: Vox
Autor: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.