Dica de Série: Ted Lasso

Oi gente, tudo bem?

Nem só de decepções minhas últimas semanas têm sido (quem leu os dois posts anteriores vai entender 😂). Hoje eu quero dividir com vocês uma dica que simplesmente ganhou meu coração todinho, me arrancando sorrisos, lágrimas e esperança: Ted Lasso, uma série que já ganhou vários prêmios e é super elogiada. ❤

Sinopse: Jason Sudeikis é Ted Lasso, treinador de um pequeno time de futebol americano de faculdade da cidade de Kansas contratado para ser o técnico de um time de futebol profissional na Inglaterra, apesar da falta de experiência.

Quem diria que eu, que sou zero apegada a esportes, teria meu coração arrebatado por uma série que fala sobre isso? Na trama, Ted Lasso é um treinador de futebol americano que é contratado, junto de seu treinador técnico – Beard –, para treinar um time de futebol inglês (ou seja, nosso futebol tradicional). Ted nada entende do assunto, mas topa o desafio mesmo assim, e é recebido em Londres com muita animosidade, já que o esporte é forte na cultura do país e o time para qual Ted é contratado – AFC Richmond – tem uma legião leal de fãs. Com o tempo, Ted precisa construir relações fortes no time, ao mesmo tempo que passa por desafios na sua vida pessoal.

Como descrever Ted Lasso? Bom, começo dizendo que ele é o tipo de amigo que todo mundo deveria ter na vida. Ele é quase irreal de tão perfeito? Sim, mas isso não vem ao caso. 😂 Ted é alguém que te cativa à primeira vista. Ele tem um nível de empatia enorme, um coração que mal cabe no peito e uma crença ferrenha no potencial de cada uma das pessoas com quem trabalha. Um exemplo dos seus gestos de carinho tão naturais é o ritual que ele constrói com Rebecca, sua chefe: toda segunda-feira ele vai até o escritório dela com biscoitos pelos quais ela se apaixona, e esse dia da semana ganha um caráter especial graças a esse pequeno momento.

Rebecca é uma personagem que, à primeira vista, pode incomodar. Ela contratou Ted sabendo que ele tinha zero experiência com futebol porque seu intuito verdadeiro era afundar o Richmond. Essa atitude é um desejo de vingança contra o ex-marido, que a traiu e a trocou por mulheres mais jovens, mas que tinha no clube de futebol sua maior paixão. Como Rebecca ficou com Richmond após a separação, ela quer feri-lo levando o time para o buraco. Isso é super mesquinho, né? É claro. Mas juro pra vocês, a série consegue humanizar Rebecca de uma forma muito natural. A gente sente a dor do abandono, o medo de ficar sozinha e a humilhação e o escárnio públicos que ela enfrenta. Porém, quanto mais convive com Ted, mais ela vai sendo contagiada por seu otimismo e a amizade que os dois constroem pouco a pouco se torna uma das melhores coisas da produção.

Os personagens são definitivamente o ponto alto de Ted Lasso. Adoro a alegria contagiante de Keeley (e sua amizade com Rebecca), os palavrões do craque veterano Roy Kent, o caminho de redenção do petulante Jamie Tartt, o jeitão taciturno (mas leal ao Ted) de Beard, entre outros personagens que roubam a cena quando estão na tela. Até os vilões conseguem causar uma profunda comoção na gente. Por mais que Ted Lasso seja uma série sobre um time de futebol, ela é muito mais sobre as relações humanas, o poder dos laços e, é claro, sobre liderança.

Me senti inspirada pelo jeito de liderar de Ted. Ele é muito mais atento do que as pessoas ao seu redor imaginam, prestando atenção em pequenos detalhes que podem fazer a diferença na motivação de alguém. Ele se preocupa genuinamente com as pessoas que ele lidera, fazendo tudo que está ao seu alcance pra que elas acreditem em si mesmas tanto quanto ele acredita nelas. Ted Lasso foi uma série que mexeu comigo até em questões profissionais, no sentido de admirar profundamente o modo que o personagem lida com o dia a dia e querer ser cada vez mais parecida com ele. ❤

Ted Lasso é tudo e mais um pouco. Ela é bom humor, ela é emoção, ela é amadurecimento, ela é sensível (fala inclusive sobre saúde mental), ela é emoção (com os jogos de futebol) e ela é inspiração. Se você nunca quis dar uma chance por não se identificar com o mundo esportivo, juro que te entendo porque eu também não me identifico. Mas meu conselho é: abra seu coração e conheça essa série e esse personagem – ou melhor, essa gama de personagens – que vão te deixar com um sorriso no rosto.

Título original: Ted Lasso
Ano de lançamento: 2020
Direção: Jason Sudeikis, Bill Lawrence, Joe Kelly
Elenco: Jason Sudeikis, Brendan Hunt, Hannah Waddingham, Nick Mohammed, Brett Goldstein, Juno Temple, Phil Dunster, Jeremy Swift, Toheeb Jimoh

Dica de Série: Quem Era Ela

Oi pessoal, tudo bem?

Quem Era Ela estava no meu radar de leituras há mil anos, mas acabei conhecendo a história por meio da sua adaptação em minissérie. Hoje divido minha opinião sobre essa produção com vocês!

Sinopse: Uma mulher se apaixona por um arquiteto e tem uma estranha premonição sobre sua casa, quando descobre que outra mulher morreu ali.

Jane é uma mulher que passou por um terrível trauma pessoal e decide se mudar para começar seu processo de cura. Ao ser aprovada em um rígido “processo seletivo” para morar na Folgate Street, Nº 1 – uma casa minimalista projetada por um arquiteto de renome –, Jane sente que finalmente terá seu recomeço. Só que, morando na casa, ela começa a se sentir desconfortável ao perceber as inúmeras interações tecnológicas que parecem vigiá-la. Ao mesmo tempo, ela descobre que a inquilina anterior morreu na residência e, para completar o estranho panorama, ela se aproxima do tal arquiteto, Edward. Aos poucos Jane fica em dúvida do papel desse homem tão misterioso nos acontecimentos trágicos da casa, e começa a investigar tudo que aconteceu ali.

Quem Era Ela transcorre em duas timelines diferentes: a de Jane e a de Emma, a garota que morreu. Na história de Emma, descobrimos que ela se mudou para a casa com Simon, seu então noivo. A jovem também tem seus traumas e segredos, buscando na casa consolo e também status. Assim como Jane, Emma se vê envolvida pelo mistério e charme de Edward, rompendo com Simon e entrando de cabeça nesse novo relacionamento. Em ambas as linhas do tempo, a série nos apresenta a um Edward metódico, agindo inclusive da mesma forma com ambas as mulheres. É óbvia a tentativa do roteiro de deixar claro o quão problemático é esse comportamento, já que Edward também tem traços controladores não só na casa que projetou, mas em sua vida pessoal também.

A premissa de Quem Era Ela sempre me interessou muito, mas a execução da minissérie se revelou decepcionante. Achei o andamento dos episódios morno e, além de tudo, o roteiro inverossímil. Não consegui engolir o encantamento das duas personagens por Edward, mas especialmente o de Jane (já que Emma era mais bobinha e imatura mesmo). A personagem desconfia dele, se sente desconfortável com o que passa a descobrir na casa e, mesmo assim, entra em um relacionamento com o arquiteto. Why, God? Esse tipo de atitude me faz querer gritar com a personagem e xingá-la por não ter um único neurônio operante na cabeça.

Emma, a personagem por quem deveríamos sentir empatia, é alguém bem difícil de engolir. Carente, chata e dependente, a forma como ela se apoia em Edward é meio deprimente. Isso faz com que metade do enredo – que foca nela – seja difícil de assistir. Jane pelo menos tem um senso de autopreservação e, ao mesmo tempo que se relaciona com Edward, resolve investigá-lo, bem como a planta da casa em si.

A casa por si só é um personagem bem assustador. Ela não é só minimalista: ela é sem vida, sem alma, sem aconchego. Existem regras inegociáveis para morar nela: você não pode redecorá-la, você não pode beber no sofá, você não pode fazer isso, você não pode fazer aquilo. Como chamar um espaço assim de lar? Ela é toda tecnológica e faz tudo por comando de voz (o que encanta Emma, por exemplo, que quer exibir o sucesso pros amigos), mas aos poucos vai ficando doentio o fato de que a casa pergunta coisas cada vez mais pessoais e determinantes para o morador, como seu posicionamento político, crenças e valores pessoais. Cadê a LGPD pra barrar esse projeto? 🗣️

Queria dizer pra vocês que gostei de Quem Era Ela, mas a verdade é que minhas expectativas foram bastante frustradas. Gostei apenas do final, em que Jane toma uma atitude muito bacana em relação a si mesma, protegendo seus interesses e respeitando o seu momento. Apesar de não ter sido um final “comercial de margarina”, ele foi bem otimista, dado tudo que aconteceu. Infelizmente, já tirei o livro da minha wishlist de leituras, porque não fiquei morrendo de vontade de conferir essa história de novo. :/ E vocês, já leram ou assistiram? Se sim, quero saber o que acharam nos comentários!

Título original: The Girl Before
Ano de lançamento: 2021
Direção: Lisa Brühlmann
Elenco: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Jessica Plummer, Ben Hardy

Dica de Série: Wandinha

Oi gente, tudo bem?

Ainda dá tempo de falar sobre a série que se tornou febre no TikTok? Espero que sim, porque eu amei Wandinha e não poderia deixar de indicar por aqui. 🤭

Sinopse: Inteligente, sarcástica e apática, Wandinha Addams pode estar meio morta por dentro, mas na Escola Nunca Mais ela vai fazer amigos, inimigos e investigar assassinatos.

Após um… digamos… “incidente” na escola que Wandinha frequentava (também conhecido como defender seu irmão de bullies usando piranhas enquanto eles treinavam na piscina), a jovem Addams é transferida pra uma escola especial, na qual seus pais também estudaram: a Nevermore Academy. Ela é conhecida por ser um internato para quem tem habilidades e características especiais, então por lá existem lobisomens, vampiros, sereias e outras pessoas excluídas da sociedade que possuem dons. A escola fica ao lado de uma cidade minúscula, Jericho, cuja economia até gira em torno do internato, mas tem um histórico não superado de ódio aos excluídos. Quando mortes estranhas começam a acontecer e todos passam a desconfiar dos alunos da Nevermore, Wandinha decide investigar por conta própria, dando início a uma trama muito maior do que ela – e com consequências letais.

É impossível falar desse fenômeno da Netflix sem mencionar a atuação de Jenna Ortega, que entregou uma Wandinha maravilhosamente ácida e cativante, mesmo que cheia de defeitos. A arrogância é um deles, por exemplo. 😂 Pra completar, ela tem uma postura totalmente fechada a novos amigos e relações. Por outro lado, Wandinha é inteligente, destemida e obstinada, além de engraçada justamente pelo seu modo seco, apático e cínico de ver a vida. Os comentários dela envolvendo morte e outras coisas obscuras são divertidos e rapidamente você se afeiçoa ao jeito turrão da personagem. O grande mérito por trás disso reside na atuação entregue e dedicada de Jenna Ortega, que se empenhou a criar vários “detalhes” na personagem (como o fato de atuar sem piscar). 

As amizades que a série constrói também são um ponto forte. Wandinha e Mãozinha, sua fiel escudeira, bolam planos juntas e Mãozinha está sempre ali para o que a protagonista precisa: seja entrar num cômodo trancado e desligar as câmeras, seja para amolecer um pouco o coração de gelo da garota. Como pode a gente torcer tanto pra uma mão, né? 😂 A outra amizade que surge na vida de Wandinha é Enid, sua colega de quarto e exato oposto em todos os sentidos possíveis. Eu adoro os paralelos de como tudo que cerca Enid é colorido, vibrante e otimista, enquanto o universo de Wandinha é preto, branco e cinza. Enid tem que insistir nessa amizade e por um bom tempo se doa mais do que Wandinha, mas é também com essa persistência que Enid consegue transformar o coração da amiga de uma forma significativa e bonita.

O único ponto que não gostei é o triângulo amoroso da primeira temporada, envolvendo um “normie” de Jericho e um aluno da Nevermore. Enquanto o primeiro, Tyler, vai conquistando Wandinha aos poucos por mostrar que, independentemente dela ser diferente, ela merece seu afeto, o segundo, Xavier, tem uma aura de mistério e uma química com a garota que fica clara desde o início da série. Os dois acabam envolvidos na investigação de Wandinha, que descobre que há um monstro à solta causando as mortes, e são muito importantes para todo o desenrolar da trama. Não posso falar muito sobre nenhum deles pra não soltar spoilers, mas posso dizer que são nomes que vão estar presentes de forma significativa em toda a investigação – e na conclusão dela.

Adorei o plot investigativo, porque naturalmente tenho afinidade com esse tipo de história. O fato de Wandinha não ser só uma série adolescente sobre romance, os poderes de clarividência da protagonista ou sua adaptação à escola nova me agradou muito, porque deu um senso de propósito à história e ótimos ganchos. A cada nova descoberta que Wandinha faz sobre o monstro e os mistérios envolvendo Jericho e Nevermore, você fica com mais e mais vontade de continuar dando play. Gostei bastante do desfecho da história e acho que amarrou bem as pontas soltas, deixando um caminho de possibilidades para uma segunda temporada, mas sem depender exclusivamente dela (ainda bem que a confirmação da renovação já chegou!).

Independentemente da coreografia que tomou conta do TikTok, Wandinha é uma série divertida e envolvente por si só. O clima macabro, o humor ácido e a investigação são pontos fortes que tornam a produção um entretenimento de qualidade, daqueles que divertem e fazem você nem ver o tempo passar, mesmo com episódios mais longos. Vale o hype e vale o play! 📺

Título original: Wednesday
Ano de lançamento: 2022
Criação: Alfred Gough, Miles Millar
Elenco: Jenna Ortega, Emma Myers, Hunter Doohan, Percy Hynes White, Joy Sunday, Georgie Farmer, Christina Ricci, Victor Dorobantu, Gwendoline Christie, Riki Lindhome

Dica de Série: Abbott Elementary

Oi galera, tudo bem por aí?

No clima de Critics Choice Awards (que rolou no último domingo) vim indicar pra vocês uma série maravilhosa que levou dois prêmios pra casa, incluindo de melhor comédia: Abbott Elementary!

Sinopse: Abbott Elementary conta os dramas de um grupo de professores dedicados os quais provam seu amor ao ensino nas escolas públicas da Filadélfia.

A trama acompanha um grupo de professores que atua numa escola carente da Filadélfia, a Abbott Elementary. A série é feita no estilo mocumentário (como The Office e Modern Family) e segue como principal ponto de vista o da jovem professora Janine Teagues. Otimista, determinada e um tanto ingênua, Janine coloca toda a sua energia e seu coração em ser uma boa professora para as crianças, mas muitas vezes sua boa vontade acaba colocando a si mesma e aos outros professores em maus lençóis. Ao longo da primeira temporada, vemos a personagem ganhar mais camadas enquanto ela evolui de uma profissional insegura e uma mulher na zona de conforto para alguém que confia mais em si mesma e nas suas decisões, ao mesmo tempo que provoca mudanças importantes em seus colegas.

O grupo de funcionários da escola também é sensacional. Jacob Hill é um dos professores mais jovens, assim como a protagonista, o que lhes confere um vínculo de amizade mais próximo; Barbara Howard é uma veterana da escola bastante competente, mas sisuda, e a verdadeira ídola de Janine, que tenta fazer de tudo pra agradá-la; Melissa Schemmenti é engraçadíssima, uma personagem que se envolve em várias “mutretas” estranhas e possivelmente tem umas conexões criminosas aqui e acolá; Gregory Eddie é o novato que deseja ser diretor da escola, mas que começa a admirar o trabalho diário que Janine faz (e eu diria que não só o trabalho… 👀); e como não falar da personagem mais sem noção que vi nos últimos tempos? Me refiro à hilária diretora Ava Coleman, que só conseguiu o cargo por ter chantageado o superintendente ao pegá-lo traindo a esposa. Sério, inacreditável. 😂 Por último, mas não menos importante, temos também o rabugento zelador, Mr. Johnson, que sempre tem umas tiradas que nos fazem rir.

A química dos personagens em tela faz com que você logo se afeiçoe a cada um deles, e a relação que eles constroem fica cada vez mais interessante. Muitos dos professores mais antigos meio que já perderam a fé no sistema e sabem que o governo pouco se importa com uma escola periférica de população mais expressivamente negra. Verbas pra coisas simples, como materiais escolares, um novo tapetinho de descanso pros alunos ou pra consertar uma luz no corredor são dificílimas e burocráticas de se conseguir, e o tempo fez com que os funcionários da escola se tornassem céticos e simplesmente aceitassem que a vida é assim mesmo. É aí que Janine, sendo praticamente um unicórnio brilhante e cheio de alegria, faz a diferença: por mais que suas atitudes às vezes gerem algumas confusões, ela também consegue inspirar seus colegas a não desistirem. Janine surge como um sopro de esperança e de motivação para que, trabalhando juntos, eles ofereçam o melhor que podem às crianças.

Claro que isso é uma crítica social ao sucateamento da educação pública e periférica dos Estados Unidos (aplicável ao Brasil também), que muitas vezes terceiriza para o professor resolver problemas que a escola e o governo deveriam se encarregar, mas apesar disso ela é trazida com um viés positivo. A série ainda explora alguns dramas de pais e alunos, o que traz um peso leve, mas bem-vindo, à história, dando-lhe dimensões mais profundas. Ainda assim, Abbott Elementary consegue fazer isso sem perder de vista seu cerne engraçado e contagiante, que foca mais na esperança do que nas dificuldades.

E tem espaço pra uma pitadinha de romance também, viu? 👀 Pra quem assistiu The Office, acredito que rapidamente vocês vão identificar um mood “Jim e Pam” entre a Janine e o Gregory. Ela também namora um cara desde a escola, e Gregory é pego pela câmera olhando pra ela em diversos momentos (e ficando todo sem graça por isso rs). Eles têm afinidade e Janine ajuda Gregory a enxergar como seu papel de professor temporário pode mudar a vida das crianças para as quais ele leciona. O vínculo entre eles cresce aos poucos e é impossível não shippar esse casal.

Abbott Elementary era tudo que eu vinha buscando numa série de comédia: episódios curtinhos, personagens um pouquinho caricatos mas cheios de carisma e situações genuinamente engraçadas. Ri alto em diversos episódios e me diverti do início ao fim da primeira temporada. Não vejo a hora da segunda também chegar ao Star+, porque já quero rever o corpo docente dessa escola que deixou saudades. 🥰 Série recomendadíssima!

Título original: Abbott Elementary
Ano de lançamento: 2021
Criação: Quinta Brunson
Elenco: Quinta Brunson, Tyler James Williams, Janelle James, Lisa Ann Walter, Sheryl Lee Ralph, Chris Perfetti, William Stanford Davis

Dica de Série: O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder

Oi gente, tudo bem?

Não tá fácil botar em dia os conteúdos do que andei lendo e assistindo nos últimos meses, mas juro que tô tentando. 😂 E é claro que uma das grandes apostas da Amazon não poderia ficar de fora do meu radar, especialmente porque sou apaixonada pela trilogia dos filmes originais: estou falando dela, a série O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (que aflição desse “de”, gente, custava colocarem “do”???).

Sinopse: Tendo início em uma época de relativa paz, a série acompanha um grupo de personagens que enfrentam o ressurgimento do mal na Terra-média. Das profundezas escuras das Montanhas de Névoa, das majestosas florestas de Lindon, do belíssimo reino da ilha de Númenor, até os confins do mapa, esses reinos e personagens criarão legados que permanecerão vivos muito além de suas partidas.

Os primeiros minutos de Os Anéis de Poder impressionam: uma narração acompanhada de cenas belíssimas mostra como era o mundo antes da primeira guerra contra Morgoth, o grande responsável pelo mal que assolou a Terra-Média. Ele era um ser poderoso, uma das criações de Eru (o equivalente a Deus na mitologia do Tolkien) e o mentor de Sauron, um vilão que conhecemos bem. Após a queda de Morgoth, Sauron parece ter desaparecido junto de seu mestre, mas uma guerreira élfica não acredita nisso e está obstinada em sua busca para encontrá-lo para se vingar da morte de seu irmão mais velho – essa guerreira é Galadriel, em uma das novas facetas que a série dá a um personagem conhecido pelos fãs.

Confesso pra vocês que tive bastante dificuldade de associar a Galadriel dos filmes com a Galadriel guerreira. Vale lembrar que a versão televisiva da personagem é muito jovem, ainda imatura e impetuosa, enquanto sua contraparte cinematográfica já é uma líder de seu povo em uma idade bem mais “avançada”. Mas quisera eu que meu problema com Galadriel fosse apenas essa nova característica: a verdade é que achei a personagem birrenta, insolente e tediosa, e a atuação linear e insossa de Morfydd Clark não ajudou em nada para mudar minha opinião.

Os Anéis de Poder tem vários plots paralelos: Galadriel tentando convencer o reino de Númenor a combater Sauron; Elrond (sim, o pai da Arwen) tentando salvar seu povo com a ajuda de seu grande amigo, o príncipe anão Durin IV; a chegada de um Estranho caído do céu e sua interação com o povo nômade conhecido como “pés-peludos”; o povo das Terras do Sul tentando sobreviver a um ataque orc iminente. Com episódios de cerca de 1h de duração, a série peca em trazer muitos elementos e desenvolvê-los com grande lentidão, tornando difícil a vontade de maratonar ou não instigando uma grande curiosidade pro próximo episódio. Outro ponto problemático é que muitos eventos da trama ficam subentendidos e não são bem explicados, especialmente para os espectadores que não leram os livros. Isso me incomoda bastante, porque cada mídia precisa funcionar de maneira independente, mesmo que seja uma adaptação. Não foram poucas as situações em que me senti boiando na trama e com a impressão de que só quem leu O Silmarillion tava conseguindo compreender o todo. :/

Como aspecto positivo, não posso deixar de fora o capricho visual em cada cena e cada figurino. A Amazon não poupou esforços pra fazer de Os Anéis do Poder uma produção imersiva e deslumbrante, e enquanto assistia às belezas do mundo imaginado por Tolkien eu só conseguia pensar que se pausasse o episódio em qualquer momento ele me garantiria um lindo wallpaper hahaha! Além disso, a diversidade de corpos e cores de pele também são pontos de destaque, algo em que o gênero fantasia sempre pecou e que felizmente parece estar querendo se redimir nessa produção. 

Enquanto assistia Os Anéis do Poder, me peguei em mais de um momento me perguntando pra onde a série desejava ir. Eu não li O Silmarillion e não tava preocupada com fidelidade em relação ao material original; eu só queria uma boa história baseada no mundo de O Senhor dos Anéis. Apesar de ter momentos bacanas, no geral a série não conseguiu me cativar. O que salvou minha experiência foi o final, que trouxe um plot twist legal e referências bacanas à trilogia que me fazem querer saber como os roteiristas vão se aproximar dela. Mas, se não fosse por isso (e pelo meu amor ao mundo de O Senhor dos Anéis) eu provavelmente abandonaria. :/ E vocês, gostaram de Os Anéis de Poder? Me contem nos comentários!

Título original: The Lord of the Rings: The Rings of Power
Ano de lançamento: 2022
Criação: Patrick McKay, John D. Payne
Elenco: Morfydd Clark, Ismael Cruz Cordova, Charlie Vickers, Markella Kavenagh, Daniel Weyman, Nazanin Boniadi, Robert Aramayo, Owain Arthur

Review: Uma Garota de Muita Sorte

Oi pessoal, tudo bem?

Assisti há algumas semanas Uma Garota de Muita Sorte, mas outros conteúdos ganharam prioridade e só agora consegui trazer minha opinião a respeito. Vamos conhecer?

Sinopse: A vida perfeita de uma escritora começa se despedaçar quando um documentário sobre crimes reais faz com que ela confronte seu angustiante passado no colégio.

No longa, estrelado pela carismática Mila Kunis, conhecemos Ani, uma mulher com a vida dos sonhos: ela tem um emprego bacana como escritora numa revista, é noiva de um homem charmoso e rico e tem aquele corpo magro que o padrão de beleza impõe. Sua vida começa a ser balançada quando o diretor de um documentário a procura, insistindo que ela tope dar seu depoimento sobre um evento traumático do seu tempo de escola. Ani hesita, pois não quer que as sombras de seu passado atrapalhem seu presente e futuro brilhantes – até que, aos poucos, vai ficando claro que o castelo que ela construiu é feito de cartas, e qualquer sopro pode fazê-lo desmoronar.

Não demora a ficar claro como o dia que tudo no comportamento de Ani é milimetricamente calculado. Ela sai para almoçar com o namorado e come somente duas fatias da sua pizza napoletana individual, pedindo à garçonete para embalar o resto pra viagem. Quando o noivo vai ao banheiro, ela come o resto da pizza com uma voracidade digna de episódio de compulsão alimentar. Ela então finge que a garçonete derrubou a bebida em cima da pizza e eles vão embora. Esse é apenas um exemplo simples pra evidenciar a atuação que Ani aplica em cada aspecto de sua vida, porque ela deseja ser perfeita e construir a vida perfeita, já que ela não teve nada disso quando era adolescente (e aos poucos vamos entendendo a profundidade do seu trauma). Só que isso também torna a personagem difícil de gostar, pelo menos na maior parte do filme: é difícil torcer por alguém que interpreta um papel forçado para agradar a todos à sua volta. Ani não tem espontaneidade e nem vulnerabilidade, e isso afasta o espectador dela.

Quando ela decide participar do documentário, o filme vai entrando no âmbito do suspense/thriller. Começam a ser exibidas cenas da época em que a protagonista estudou em um colégio particular graças a uma bolsa dada por seu brilhantismo, especialmente em termos de redação. Ao mesmo tempo em que faz amizade com dois outsiders da escola, ela também consegue criar vínculo com o grupinho dos populares, e começa a namorar um deles. Uma festa dos alunos é o estopim para uma sequência de eventos destrutiva para todos os envolvidos, e as peças aos poucos se encaixam. O filme demora um pouco a trazer esses elementos à luz, o que pode cansar um pouco o espectador, mas a moral da história por trás de tudo isso vale a espera.

Esse parágrafo é pra discutir o principal ponto do filme, mas é spoiler, então pule para o parágrafo seguinte não quiser ler, tá bem? Uma Garota de Muita Sorte não se destacou pra mim por ser um filme de suspense excelente, mas sim por trazer o tema “consentimento” com tanta veemência e seriedade. Ani foi vítima de um estupro coletivo que, de certa forma, serviu como incentivo para que seus amigos – que já odiavam os populares – somassem o trauma dela aos seus próprios e resolvessem fazer um tiroteio na escola. Tudo isso faz com que a personagem de Mila Kunis sofra um trauma que a impede de seguir a vida normal, porque ela nunca se curou desse passado. Enquanto isso, um dos rapazes que a estuprou ficou paraplégico no tiroteio e se tornou uma espécie de “herói nacional” ao escrever livros e dar palestras contra o armamento da população; acontece que ninguém sabe do estupro, porque quando Ani tentou denunciar, ninguém deu ouvidos. Uma Garota de Muita Sorte machuca ao mostrar a dura realidade do que acontece quando pessoas que deveriam proteger simplesmente negligenciam a vítima, que precisa viver não apenas a violência do ato como também a humilhação de ser desacreditada. A atuação de Mila Kunis e de Chiara Aurelia, que a interpreta quando jovem, também merecem destaque: ambas conseguem demonstrar com muita competência a profundidade das cicatrizes emocionais causadas por tudo que aconteceu. Como crítica negativa, fica uma decisão desnecessária do roteiro: precisavam mesmo terem sido tão gráficos nas cenas de estupro? Eu respondo: não. É desconfortável e degradante ver Ani naquela situação, e a falta de um trigger warning pra quem já passou por violências semelhantes me preocupa. Não me impressiona que o filme tenha sido dirigido por um homem, porque acho improvável que uma mulher que se preocupe minimamente com o impacto da violência sexual fosse escolher esse caminho narrativo. :/ 

Uma Garota de Muita Sorte é um bom filme sobre traumas, sobre o peso de ser mulher em uma sociedade que nos sexualiza e nos descredibiliza e sobre ser fiel a si mesma. A jornada de Ani para recuperar o controle da própria vida e narrativa é bastante comovente, porque aos poucos ela vai percebendo que precisa de bases mais sólidas do que aquelas que criou, e vemos sua mudança e seus sacrifícios pra encarar esse novo momento. Ainda que inicialmente a protagonista não seja cativante, aos poucos entendemos o seu jeito e passamos a torcer por ela. Recomendo, mas deixo aqui o trigger warning a respeito da violência sexual.

Título original: Luckiest Girl Alive
Ano de lançamento: 2022
Direção: Mike Barker
Elenco: Mila Kunis, Chiara Aurelia, Finn Wittrock, Connie Britton, Justine Lupe, Alex Barone

Review: Pantera Negra: Wakanda Forever

Oi pessoal, tudo bem?

Que o primeiro Pantera Negra é um dos meus filmes favoritos do MCU não é novidade. Que a morte prematura de Chadwick Boseman partiu meu coração em pedacinhos também não. Por isso, eu estava ao mesmo tempo ansiosa e receosa pra ver como lidariam com a ausência dele na continuação, Pantera Negra: Wakanda Forever. Vamos descobrir?

Sinopse: Rainha Ramonda, Shuri, M’Baku, Okoye e Dora Milaje lutam para proteger sua nação das potências mundiais intervenientes após a morte do rei T’Challa.

O filme começa já dando um soco na boca do nosso estômago e fazendo a gente sentir novamente a perda de Chadwick – dessa vez, sob o manto de T’Challa, acometido por uma doença misteriosa e não revelada. Vemos que Shuri veio trabalhando na tentativa de fazer uma versão criada em laboratório da Erva Coração (que Killmonger eliminou no primeiro filme após passar pelo ritual do Pantera Negra), mas a garota falha em sua missão e perde o irmão, cena seguida pelo funeral de T’Challa. Não tenho nem o que dizer, gente: as lágrimas chegam nos primeiros minutos do filme. Além da cerimônia fúnebre ser linda (com trajes e canções típicas e o rosto pintado de T’Challa em uma parede enorme de uma construção), a gente sente que está se despedindo de Chadwick mais uma vez. Eu sinceramente estou com os olhos marejados só de lembrar disso enquanto escrevo.

A perda do Pantera faz com que Wakanda fique numa posição mais vulnerável, já que as grandes nações desejam que o país compartilhe o Vibranium. Com a recusa, é criada uma máquina capaz de detectar o metal raro e poderoso, que é surpreendentemente encontrado no mar. Quando o exército americano se aproxima dessa fonte de Vibranium, criaturas surgem na água e começam a cantar, levando os soldados a pularem do barco. É uma cena que me fez pensar diretamente nas sereias, mas sob aquele viés mais vilanesco do mito, sabem? Gostei bastante dessa abordagem. Esse povo que estamos conhecendo pela primeira vez são oriundos do reino de Talokan, uma espécie de Atlantida protegida e governada pelo Príncipe Namor, que inicialmente deseja se unir a Wakanda contra os povos da superfície, mas que declara animosidade contra o reino de Ramonda quando se recusam a fazê-lo.

Eu gostei bastante de Namor como antagonista. Seu passado foi bem explorado, ele revela um lado mais vulnerável (apesar de também saber ser cruel) e seus motivos são compreensíveis. Namor não gera o mesmo sentimento causado pelo intenso Killmonger e suas razões, mas a fonte de sua ira contra a superfície é parecida: ainda criança Namor viu o vilarejo de sua mãe ser escravizado pelos espanhóis, o que lhe dá inúmeros motivos para não confiar em ninguém da superfície. A história de origem sobre seus talentos e sobre as características de seu povo também é bem bacana e aposto que muitos fãs adoraram poder finalmente ouvi-la no contexto do MCU, mas não vou falar a respeito pra não dar spoiler nem estragar a experiência. 😛

Mas se Namor é um bom antagonista, devo dizer que o brilho do filme reside nas personagens femininas. Shuri está enfrentando um luto violento e desesperançoso, que a afasta das possibilidades de cura (e Letitia Wright atuou tão bem em sua dor que até relevei por alguns momentos ela ser uma antivax); Okoye é responsabilizada pelas consequências de um acidente e vê toda a sua identidade estremecer; a rainha Ramonda é uma força da natureza, sendo um pilar mesmo após perder o marido e o filho e vendo seu reino ser ameaçado; temos também o retorno da espiã Nakia, uma personagem-chave no primeiro Pantera Negra que havia sumido do MCU; e por último, mas não menos importante, há a chegada da brilhante Riri Williams, a futura Coração de Ferro, que simplesmente roubou a cena – amei cada segundo dela em tela, porque seu carisma é simplesmente cativante.

O longa tem uma certa barriga ali pela metade, sendo um pouco mais longo do que o necessário. Apesar disso, não fiquei cansada ou entediada. Na verdade, pra ser honesta, fiquei talassofóbica: apesar de eu amar praia, tenho medo do alto-mar e de grandes profundidades, e uma parte considerável/importante do filme se passa nesses cenários (mas consegui ignorar esse desconforto pra apreciar a beleza de Talokan, cidade inspirada na mitologia asteca). Quando a produção consegue vencer essa barriga e voltar para a ação, a empolgação retorna e nos rende excelentes cenas de batalha.

Mas se eu tiver que resumir Pantera Negra: Wakanda Forever, eu diria que ele é uma homenagem a Chadwick Boseman do início ao fim. O filme consegue fazer na prática o que os personagens de Wakanda dizem: não é necessário estar fisicamente presente para se estar ali. T’Challa e Chadwick podem ter partido para um outro plano (pra quem acredita nele), mas eles estão presentes em cada segundo do longa. Wakanda Forever acerta em não correr com os processos de luto dos personagens, porque também não acelera o processo de luto do espectador. Pra mim, foi difícil assistir Pantera Negra: Wakanda Forever, mas não porque o filme seja fraco em relação ao seu antecessor (apesar de não chegar nem perto de sua grandiosidade). Foi difícil porque Chadwick estava ali, sua ausência estava ali, e ainda dói encarar o fato de que ele e T’Challa partiram. Resta torcer para que estejam em paz, com seus ancestrais, onde estiverem.

Título original: Black Panther: Wakanda Forever
Ano de lançamento: 2022
Direção: Ryan Coogler
Elenco: Letitia Wright, Angela Bassett, Danai Gurira, Lupita Nyong’o, Winston Duke, Tenoch Huerta, Martin Freeman, Dominique Thorne

Review: Nada de Novo no Front

Oi pessoal, tudo bem?

Nada de Novo no Front é um romance de Erich Maria Remarque (sobre o qual já falei aqui no blog) e que ganhou uma nova adaptação este ano pela Netflix. Considerando que o livro foi um dos mais intensos que já li, estava mais do que ansiosa para conferir esse longa cheio de potencial.

Sinopse: Convocado para a linha de frente da Primeira Guerra Mundial, o adolescente Paul encara a dura realidade da vida nas trincheiras.

A trama gira em torno da Primeira Guerra Mundial, sob o ponto de vista dos soldados alemães – especialmente do protagonista, Paul Bäumer. O filme começa em 1917, no terceiro ano de guerra, e Paul e seus três amigos (Ludwig, Franz e Kropp) são motivados pelos professores e pelo idealismo nacionalista a se alistarem. Ainda que a família de Paul fosse contra, o rapaz não deseja ficar pra trás, querendo cumprir seu papel de herói patriótico ao lado dos camaradas. O filme evidencia de cara os sorrisos nos rostos dos recrutas, a forma empolgada como eles cantam suas canções e a inflamação provocada por discursos apaixonados de professores e figuras de poder em relação à guerra e ao papel da Alemanha nela. Porém, quando chegam no acampamento e se preparam para ir até o front, o grupo de amigos sente o baque do que a guerra realmente representa: fome, frio, falta de higiene, doenças e, é claro, a iminência constante da morte. Paul então vê cada um desses elementos atingirem a si e ao seu grupo, enquanto os rapazes vão perecendo e deixando Paul sozinho.

Quando terminei o longa, cheguei à conclusão de que ele é um excelente filme sobre guerra, mas não uma excelente adaptação literária. O início de Nada de Novo no Front segue bastante a atmosfera e a trama criadas por Remarque em sua obra, mas da metade pro final o filme toma decisões próprias que o afastam do material base. Como eu não sou fã de filmes de guerra e só estava assistindo por amar o livro, isso acabou me desapontando um pouco. Mas, se você não leu a obra original e curte esse estilo de filme, certamente vai adorar, porque é um longa muito competente em equilibrar excelentes atuações, cenas de guerra aflitivas e violentas e também expor as hipocrisias dos diplomatas, que bebem vinho e tomam decisões literalmente de vida ou morte enquanto os soldados se matam no campo de batalha.

A entrega total do elenco é fundamental pra tornar Nada de Novo no Front mais do que um filme de guerra. O desespero de Ludwig, por exemplo, é palpável: ele não demora a perceber o risco que corre e o arrependimento por ter se alistado. Paul, por sua vez, tem seu rosto completamente mudado do início pro meio e pro fim do filme: o brilho no olhar se vai e os sorrisos se tornam mais raros, o cansaço está estampado em cada linha de expressão, bem como sua desolação. Felix Kammerer, o ator que dá vida ao protagonista, me impactou com sua performance, transmitindo com poucas palavras o quanto a guerra destruiu os sonhos do jovem Paul.

E já que estamos falando sobre as emoções dos personagens, é aqui que entra uma diferença absurda da adaptação que eu senti muita falta. Enquanto o longa se concentra 100% na guerra nas trincheiras e nas negociações que acontecem em paralelo, o livro tem momentos emocionantes fora desses cenários. Paul chega a ir para casa duas vezes na obra original, e eu lembro que essas ocasiões foram muito marcantes durante a leitura, porque evidenciam a sensação de desconexão do personagem com o “mundo normal”. Ao tentar se readequar à sociedade, Paul se sente um outsider, pois ninguém ali sabe o que ele vivenciou e é capaz de compartilhar da sua dor e de seus traumas. Por outro lado, fiquei contente em ver que o filme adaptou uma das melhores sequências do livro: o surto de Paul após vitimar um homem na luta corpo a corpo pela primeira vez. O rapaz fica desesperado por suas mãos terem sido a causa daquela vida ter chegado ao fim, e é uma cena marcante porque mostra ao protagonista que os inimigos também são pessoas normais, com vidas e famílias. Acho que grande parte da carga emocional do livro reside nesses dois momentos (a inadequação fora da guerra e a morte do soldado francês), e eu teria adorado ver ambos retratados na tela.

Nada de Novo no Front é um filme melancólico, intenso e que causa um desconforto no estômago (ainda mais pelas mudanças que o roteiro optou por fazer no final, me pegando desprevenida). Ele revolta, especialmente quando coloca homens cheios de ego – mas convenientemente bem longe da batalha – tomando decisões que vão afetar permanentemente a vida dos soldados, ou até mesmo causando suas mortes. O patriotismo incentivado pelas figuras de referência dos jovens é usado para manipulá-los e levá-los a lutar uma batalha que não é sua, em nome de uma honra que não existe. Porque não existe honra na guerra, ela nada mais é do que a evidência de que falhamos enquanto seres humanos e falhamos na capacidade de dialogar. Nesse sentido, filmes como Nada de Novo no Front servem como um alerta doloroso e necessário de que os poderosos não ligam para a vida humana, desde que seus objetivos sejam alcançados. Assim como o livro, recomendo sem pensar duas vezes.

Título original: Im Westen nichts Neues
Ano de lançamento: 2022
Direção: Edward Berger
Elenco: Felix Kammerer, Albrecht Schuch, Aaron Hilmer, Moritz Klaus, Adrian Grünewald, Edin Hasanovic, Daniel Brühl, Devid Striesow

Dica de Série: Dahmer: Um Canibal Americano

Oi pessoal, tudo bem?

Que eu adoro histórias policiais, de serial killer e thrillers, quem me acompanha aqui já sabe. Por isso, minha curiosidade foi ativada quando estreou Dahmer: Um Canibal Americano na Netflix, série que é fortemente baseada na história real de Jeffrey Dahmer e dramatiza a história de um dos piores assassinos dos EUA desde sua infância até sua morte.

Sinopse: Por mais de uma década, Jeffrey Dahmer conseguiu matar 17 jovens rapazes sem levantar suspeitas da polícia. Como ele conseguiu evitar a prisão por tanto tempo?

Começo essa resenha dizendo que o primeiro episódio da série foi um dos mais aflitivos a que já assisti em um bom tempo. Como eu já tinha lido sobre o caso Dahmer – um serial killer que sequestrava, estuprava e matava homens, especialmente negros, além de canibalizá-los –, sabia várias informações sobre seu MO e também a forma como ele foi capturado. Mas fui pega de surpresa ao perceber que a série começa a contar a história de trás pra frente, ou seja, mostrando como foi sua tentativa de assassinar Tracy Edwards, a vítima que fugiu e conseguiu levar a polícia ao apartamento de Dahmer, ocasionando a sua prisão. Como o episódio inteiro gira em torno do modo como Dahmer trata Edwards, o espectador fica com uma bola no estômago durante toda sua duração, torcendo pra que acabe logo, pra que Tracy Edwards fuja. Mal sabia eu que os próximos episódios seriam ainda mais desconfortáveis, pois sei que os outros rapazes não tiveram a mesma sorte. 😦 

Existe uma crítica muito forte à espetacularização do true crime, algo que o livro Garota, 11 (resenhado aqui) também trata. Concordo bastante que seja necessário um olhar crítico e não colocar o assassino em uma posição de destaque e protagonismo, porque esse viés pode causar uma certa idolatria (Ted Bundy e o próprio Dahmer são ótimos exemplos de criminosos que tinham fãs). Houve críticas a Dahmer: Um Canibal Americano, especialmente por parte de algumas famílias cuja dor foi exposta pela série; porém, no meu humilde ponto de vista, acredito que Ryan Murphy não tenha colocado Dahmer como alguém a ser admirado, mas sim como um ser humano problemático, porém no controle das ações monstruosas que tomou. O fato de enxergarmos Dahmer como um ser humano é importante, pois não nos deixa esquecer que não é um “monstro possuído pelo demônio” que é capaz de atrocidades; seu vizinho pode ser essa pessoa.

Além disso, Dahmer: Um Canibal Americano tem uma abordagem que até então eu não tinha visto em nenhuma série baseada em true crime: ela foca na perspectiva das vítimas, fazendo com que o espectador se lembre que elas são pessoas de verdade, com sonhos, famílias e aspirações. Enquanto outros títulos por aí apenas trazem nomes e fotos em uma linha do tempo, nessa dramatização da história de Dahmer nós realmente conseguimos criar conexão com as vítimas, sentir empatia e torcer pra que de alguma forma elas consigam escapar – ainda que saibamos que isso é impossível. Em Um Canibal Americano, as vítimas não são nomes numa lista, mas pessoas pelas quais torcemos e por quem sentimos luto.

Um dos maiores pontos fortes da série é também o que causa mais revolta: ela evidencia sem hesitar a podridão do sistema policial e judicial americano. Dahmer chegou a carregar sua primeira vítima desmembrada em sacos de lixo no banco de trás do carro, mas ao ser parado por um policial simplesmente foi mandado pra casa. Um garoto asiático de 14 anos conseguiu fugir do seu apartamento, mas estava tão drogado pelas substâncias que Dahmer colocou em sua bebida que a polícia simplesmente acreditou na história que Dahmer contou do menino ser maior de idade, ser seu namorado e ter bebido demais. Os policiais não apenas compram a história do assassino como ajudam a colocar o jovem Konerak Sinthasomphone de volta no apartamento do seu algoz, em cujas mãos o garoto morreu na mesma noite. Com o passar do tempo, mais e mais nomes de pessoas não-brancas (principalmente negras) vão aparecendo na lista de “desaparecidos” da cidade, mas ninguém mexe um dedo pra investigar além da superfície. A vizinha de Dahmer escuta sons, gritos e sente um cheiro desagradável vindo do apartamento do serial killer, mas mesmo após meses e meses de súplica por telefone, a polícia nunca veio checar. E mesmo quando Dahmer é julgado e condenado por se masturbar em público, ele é tratado de forma indulgente pelo juiz, que afirma não querer estragar a vida do rapaz por causa de um erro causado pelo alcoolismo. Com tudo isso posto, fica claro que Dahmer entendeu seu privilégio branco e o usou em todas as oportunidades que teve para sair impune de seus crimes, que iniciaram no fim dos anos 70 e terminaram com sua prisão nos anos 90 (com alguns anos de inatividade nesse intervalo). O racismo, a xenofobia e a homofobia das autoridades foram tão culpados quanto Jeffrey Dahmer pelo seu rastro de horror.

Se você tem curiosidade de conferir a série mas tem receio dela ser muito gráfica, aproveito pra te tranquilizar: poderia ser bem mais, mas optou-se por dar bem menos foco à parte da violência e dos assassinatos e mais no Modus Operandi de Dahmer e de sua história pessoal. Fica claro que sua família desestruturada, a sensação de abandono e a negligência parental frente a problemas que ele nitidamente apresentava são elementos que constituem o caminho que Dahmer tomou, ainda que jamais justifiquem. Nesse sentido, fiquei aliviada, pois odeio cenas de violência, especialmente quando desnecessárias e gráficas demais. A dificuldade em assistir veio mais da revolta que senti contra a polícia e o Estado do que em relação a sangue e ao que ele fazia com os corpos das vítimas (na série nem fala sobre necrofilia e mal mostra o canibalismo, por exemplo).

Dahmer: Um Canibal Americano é uma série muito imersiva e revoltante, mas que coloca sob um forte holofote as consequências de um sistema que privilegia pessoas de determinada cor enquanto negligencia outras que não se enquadram nesse padrão. Ao focar nas vítimas em vez de endeusar os atos do criminoso, a dramatização também coloca o espectador na posição de encarar o fato de que essas pessoas eram reais e tiveram tudo tomado de si, deixando buracos incapazes de serem preenchidos em suas comunidades e famílias. Não posso deixar de elogiar também a performance dos atores, com destaque para Evan Peters, que encarna todas as nuances de Dahmer: a vazia, a explosiva, a machucada, a cruel. Depois de assistir à série eu conferi o documentário com as falas reais de Dahmer e é bem impressionante o quanto o ator conseguiu dar vida de forma convincente a esse serial killer terrível. Pra quem gosta de true crime, Dahmer: Um Canibal Americano vale o play!

Título original: Dahmer – Monster: The Jeffrey Dahmer Story
Ano de lançamento: 2022
Criação: Ian Brennan, Ryan Murphy
Elenco: Evan Peters, Richard Jenkins, Molly Ringwald, Niecy Nash

Review: A Mulher Rei

Oi pessoal, tudo bem?

Eu admiro demais o trabalho da Viola Davis, uma atriz que dispensa apresentações, tamanho seu talento e influência. Por isso, fiz questão de assistir ao longa A Mulher Rei no cinema, protagonizado e produzido por ela. ❤ Vamos conhecer?

Sinopse: Em 1800, o general Nanisca treina um grupo de mulheres guerreiras para proteger o reino africano de Dahomey de um inimigo estrangeiro.

Além do envolvimento de Viola Davis no projeto, outras duas razões me deixaram animada com essa produção: o protagonismo feminino negro e o fato de ser baseado em uma história real. A trama acompanha o treinamento de um grupo de soldadas de elite – as Agojie – no reino de Dahomey, ou Daomé, na África, que está em guerra com reinos rivais e sob ameaça da escravidão europeia. Nanisca é a general responsável por esse exército feminino, e ao mesmo tempo em que ela e suas lideradas precisam treinar as recém-chegadas, Nanisca também deseja convencer o seu rei de que vender os prisioneiros de guerra para os europeus é um erro – pois ela entende que, no fim das contas, os brancos não os enxergam como iguais, independentemente de estarem negociando com seu rei.

Como contraponto à experiência da protagonista, temos o ponto de vista da jovem Nawi, uma garota que foi cedida pelo pai para fazer parte do exército. A garota é impulsiva e tem uma dificuldade tremenda de agir em conjunto e seguir ordens, mas consegue criar um vínculo bastante forte com a tenente que a treina, Izogie. Aos poucos, Nawi vai se destacando no treinamento, tendo como objetivo ser a melhor guerreira dentre as novatas e ser notada por Nanisca.

A Mulher Rei é um filme que impressiona. O treinamento das novatas faz com que você não pisque o olho pra não perder nenhum movimento. As lutas são incrivelmente coreografadas, os exercícios são intensos e o filme consegue deixar claro o porquê daquele grupo de mulheres ser tão potente e ameaçador. A força de Nanisca, impressa em cada gesto e expressão facial de Viola Davis, transborda e contagia todas que fazem parte das Agojie. Não há dor que elas não suportem nem desafio que não vençam em nome de seu rei e de seu povo. As lutas não são menos brutais por serem protagonizadas por mulheres, e inclusive as Agojie – e Nanisca – têm mais prestígio junto ao rei do que seu exército masculino. Ver essa inversão de papéis sendo transmitida com tanta potência é de arrepiar, especialmente se você é mulher.

Apesar do foco maior na ação e nas batalhas sangrentas, A Mulher Rei também trabalha com competência as relações entre os personagens. Nanisca é muito próxima de Izogie, sua tenente, e também de Amenza, a líder espiritual do grupo, e é nas cenas com elas que vemos os traços da sua fragilidade. Porque mesmo sendo uma general implacável, a protagonista tem sombras e dores ainda não curadas em seu coração. Nawi é como seu oposto: ela ainda é “inocente” (mesmo que se ache madura) e curiosa, se aproximando dos europeus e flertando com soldados de Dahomey, uma clara afronta às regras das Agojie, que não permitem relacionamentos conjugais. O bacana nessa personagem é ver seu crescimento conforme ela é obrigada a confrontar os horrores da guerra, sem o prisma glamuroso pelo qual ela enxergava as Agojie e seu treinamento.

Porém é Nawi que está envolvida em minhas duas únicas críticas negativas ao roteiro. Não tenho como falar sobre sem soltar spoilers, então selecione se quiser ler: o filme infelizmente cai no clichê em duas circunstâncias diferentes envolvendo a personagem. A primeira delas está na relação com o europeu descendente de uma escrava, Malik, que se encanta por Nawi. Os dois flertam um pouco e têm uma ou duas conversas significativas, mas já é o suficiente para que ele a salve e lute para protegê-la. Achei inverossímil e rápido demais, mesmo que ele tenha como justificativa o fato de sua mãe ter sido escrava. A segunda situação está na relação entre Nawi e Nanisca: o fato de serem mãe e filha foi um recurso preguiçoso e conveniente do roteiro, e não curti nem um pouco. Quando Nanisca assume um papel de “mãezona” no final, chamando a garota de filha, me soou forçado e não consegui me emocionar. Se não fossem essas duas decisões, eu teria dado nota máxima em todos os aspectos para A Mulher Rei.

A Mulher Rei é um filme que acerta em cheio ao mostrar a perspectiva feminina e negra num momento importante da história africana, colocando não só o poder dessas mulheres em destaque, como também o debate sobre a escravidão e as consequências dela para os reinos e tribos que negociavam seus prisioneiros com brancos europeus. Sabemos o quanto essa prática ganhou escala e os terrores gerados, mas diferente de muitas produções que falem do tema, A Mulher Rei evidencia a força, a garra, a vontade de lutar e o espírito livre dos homens e mulheres negros que lutaram em e por Dahomey. Esse é um daqueles filmes que merecem ser assistidos na telona, tamanha sua imponência. Mas, se não for possível, deixe esse nome anotadinho e assista assim que conseguir: prometo que vai valer (muito!) o seu tempo.

Título original: The Woman King
Ano de lançamento: 2022
Direção: Gina Prince-Bythewood
Elenco: Viola Davis, Thuso Mbedu, Lashana Lynch, Sheila Atim, John Boyega, Hero Fiennes Tiffin, Jordan Bolger