Review: Klaus

Oi gente, tudo bem?

Chega o final de ano e a onda de filmes natalinos chega junto. Apesar de eu não curtir muito esse tipo de longa, um deles chamou imediatamente minha atenção: a animação Klaus.

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Sinopse: Um carteiro egoísta e um fabricante de brinquedos solitário cultivam uma amizade improvável e levam alegria a uma cidade fria e sombria.

A primeira coisa que reparei em Klaus é que o traço do filme remete às produções da Disney na década de 90 e início dos anos 2000. E não é pra menos: o responsável por Klaus trabalhou como animador da empresa e, inclusive, fez um dos filmes favoritos, Planeta do Tesouro. ❤ Só nesse aspecto Klaus já ganhou alguns pontos comigo, porque sinto muita falta de animações 2D – e, nesse caso, a arte ainda tem alguns diferenciais em relação àquela época, tornando o filme visualmente encantador.

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A trama acompanha o jovem Jesper, o preguiçoso e mimado herdeiro de uma grande empresa de correios. Seu pai, cansado de dar diversas chances ao filho, decide enviá-lo como carteiro a uma cidade isolada, Smeerensburg, onde Jesper precisa permanecer por um ano trabalhando seriamente caso queira voltar à vida mansa que levava. Chegando lá, o rapaz percebe que seu ofício é desnecessário, já que o ódio e o rancor tomam conta da cidade devido a uma rixa antiga entre duas famílias e, portanto, ninguém envia cartas. Ao conhecer Klaus, um velho marceneiro que vive na floresta, Jesper acaba provocando uma situação inesperada: ao entregar um brinquedo feito por Klaus a uma criança, a notícia se espalha entre os pequenos e todos começam a enviar cartas na esperança de ganhar um presente também. E é assim que a parceria entre os dois começa.

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Klaus é o filme sobre o Papai Noel mais criativo a que já assisti. O longa ressignifica todos os aspectos da mitologia original e, ainda assim, reconhecemos claramente as referências presentes na trama. É muito divertido acompanhar cada cena e entender qual aspecto do personagem está sendo revelado, especialmente pela forma inesperada que muitas delas acontecem. A cena do trenó voador, por exemplo, é de arrancar risadas!

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Os personagens são carismáticos e têm papéis importantes a cumprir. Jesper é o clichê do egoísta que se transforma, mas seu carisma e jeito atrapalhado nos conquistam; Klaus é o personagem cujas dores são apresentadas, mas também seu coração gigante e sua vontade de fazer o bem; Alva é uma professora sem esperança que acaba sendo tocada pelo movimento iniciado (ainda que sem querer) por Jesper; e até a briga dos vilões acaba sendo divertida.

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A trama se desenrola de maneira cativante, e as mudanças que acontecem com os personagens são graduais e críveis. Aos poucos, a própria cidade vai se transformando, sendo tocada pelos atos generosos do homem misterioso que entrega brinquedos às crianças. São elas, inclusive, que aproximam os adultos e mostram que a rixa secular já está mais do que ultrapassada. Os personagens principais não escapam desse processo e, pouco a pouco, se veem como parte daquela comunidade, que abre mão das brigas sem fim em nome da empatia e da generosidade.

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Klaus é um filme doce, engraçado e emocionante, que vai muito além do conceito simplista de ser um filme de Natal. É uma história sobre mudanças (externas e internas) e sobre o poder da gentileza. Da animação à trama, Klaus encanta em cada detalhe, nos levando das risadas às lágrimas e deixando a sensação de que assistimos a algo incrível. O que é a mais pura verdade. ❤

Tìtulo original: Klaus
Ano de lançamento: 2019
Direção: Sergio Pablos
Elenco: Jason Schwartzman, J. K. Simmons, Rashida Jones, Joan Cusack, Will Sasso, Norm Macdonald, Neda Margrethe Labba

Dica de Série: The Boys

Oi gente, tudo bem?

Com a chegada do Amazon Prime (que eu corri pra assinar pois: só R$ 9,90 por mês rs), resolvi explorar as produções oferecidas na plataforma. E a primeira delas foi The Boys, que estava sendo muito elogiada pela crítica. Hoje conto pra vocês o que eu achei. 😀

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Sinopse: The Boys é uma visão irreverente do que acontece quando super-heróis, que são tão populares quanto celebridades, tão influentes quanto políticos e tão reverenciados como deuses, abusam de seus superpoderes ao invés de usá-los para o bem. É o sem poder contra o superpoder, quando os rapazes embarcam em uma jornada heroica para expor a verdade sobre “Os Sete” com o apoio da Vought.

Em uma realidade na qual ser um super-herói virou uma profissão que gera bilhões em lucro, quão fácil é se deixar corromper pelo sistema? Em The Boys, corporações enriquecem patrocinando diversos supers, mas as verdadeiras estrelas americanas são o grupo conhecido como Os Sete: além de salvarem a população, também são estrelas de comerciais, garotos e garotas-propaganda, modelos e tudo mais que for necessário. O problema, porém, é que tanto poder nas mãos de poucos não demora a corromper esses heróis que, em tese, deveriam proteger as pessoas. Vidas humanas perdidas são tratadas como fatalidades inevitáveis, como algo que “faz parte do jogo”. E uma dessas perdas dá o start na história.

Hughie perde sua namorada de uma maneira brutal: a um passo da calçada, enquanto se despedem, a moça é literalmente explodida em pedacinhos pela ultravelocidade de um super-herói chamado A-Train, um membro dos Sete. A empresa que o patrocina, Vought, oferece uma quantia ínfima como reparação, além de exigir a assinatura de um contrato de confidencialidade. Depois de recusar a proposta, Hughie decide se vingar, mas acaba se envolvendo numa confusão com outro membro dos Sete e sendo salvo por Butcher, um homem misterioso que vinha observando a situação das sombras. Hughie descobre então que Butcher é líder de um grupo que busca desmascarar os super (como são chamados), expondo seu abuso de poder para a sociedade. Mas como enfrentar seres tão inigualavelmente fortes? Especialmente quando o líder deles, o Capitão Pátria, têm poderes equivalentes ao do Super-Homem?

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The Boys é uma grande sátira à moral imaculada comumente apresentada em histórias de super-heróis. Tendo personagens que podem ser versões debochadas tanto de figuras da Marvel quanto da DC, a série utiliza cenas gore e humor ácido para mostrar uma realidade na qual super-heróis são movidos pelo capitalismo e por interesses próprios. Mesmo aqueles que ainda não perderam a fé em fazer a coisa certa são submetidos e dobrados em algum nível ao sistema. O maior exemplo disso é Starlight, a nova membro dos Sete: a jovem sempre foi motivada por ajudar as pessoas e fazer a diferença, mas é submetida a abuso sexual e uma transformação visual causada por motivos comerciais. E nesse ponto já faço um elogio a The Boys: apesar de ter cenas de sexo, em nenhum momento o abuso sexual é gráfico, ficando apenas nas entrelinhas, mas sendo poderoso o suficiente como denúncia. Starlight é uma das melhores personagens da série porque, paradoxalmente, ela é uma das mais humanas: seu poder grandioso não a salva de sofrer as mesmas pressões psicológicas que mulheres sofrem o tempo todo; além disso, sua essência é bondosa e ela genuinamente quer usar seus poderes para o bem.

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O grupo que dá nome à série também tem elementos interessantes. Butcher odeia todos os Supers porque atribui à Vought o desaparecimento de sua mulher. Seus aliados, Leitinho e Francês, têm uma relação de gato e rato divertida de assistir. A última membro do grupo, “A Fêmea”, também é interessante, tendo um relacionamento surpreendente com o Francês. De todos, eu diria que Hughie é o mais sem graça (mas, para ser honesta, tenho ranço do seu crush na Starlight, já que aparentemente rapidinho ele esquece que acabou de perder a namorada rs).

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É impossível não falar em personagens sem mencionar Os Sete. Odiosos de diversas maneiras, todos eles têm momentos de podridão escancarada, à exceção de Starlight e, em menor escala, Queen Maeve. Porém, nenhum membro dos Sete causa tanta repulsa quanto Capitão Pátria. Tido como símbolo americano e como sinônimo de paz, o personagem é conceitualmente uma mistura de Super-Homem (pelos poderes descomunais) com Capitão América (pela vibe “orgulho americano”). Mas só conceitualmente mesmo, já que na prática ele é um verdadeiro psicopata. Tendo um relacionamento doentio com Madellyn Still, um dos nomes mais importantes da Vought, o Capitão Pátria não hesita em abusar de seus poderes, matar inocentes e ameaçar qualquer um que ouse desafiá-lo. A maior fonte de desconforto que senti ao assistir The Boys veio das cenas em que ele estava envolvido, tamanha sua falta de caráter e humanidade.

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O desenvolvimento da temporada é ágil, há muita ação e reviravoltas interessantes na trama. A série desconstrói o conceito maniqueísta das HQs, onde normalmente é tudo preto no branco, com pouco espaço para tons de cinza. Porém, como eu disse anteriormente, há cenas de sexo e momentos bem gore ao longo da temporada (com direito a sangue e tripas pra todo lado), então talvez esses elementos não agradem todo mundo. Ainda assim, The Boys é uma excelente produção repleta de boas atuações e humor ácido, que traz uma visão nova e uma abordagem diferente do universo de super-heróis. Gostei muito e recomendo! 😉

Título original: The Boys
Ano de lançamento: 2019
Direção: Eric Kripke
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Dominique McElligott, Tomer Kapon, Laz Alonso, Karen Fukuhara, Elisabeth Shue, Jessie Usher, Chace Crawford

Review: Deixe a Neve Cair

Oi pessoal, tudo bem?

E cá estou para mais uma postagem da coluna Uma Amiga Indicou (uma parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de HistóriasInterrupted Dreamer e Tear de Informações). \o/

uma amiga indicou

Para novembro, escolhemos falar sobre Deixe a Neve Cair, o novo filme da Netflix baseado no romance de mesmo nome.

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Sinopse: Um forte nevasca atinge a cidade de Gracetown na véspera de Natal e a transforma em um inesperado refúgio romântico. Um trem retido no meio do nada, uma corrida com os amigos no frio congelante e lidar com a tristeza da perda do namorado ideal. Três histórias de amor distintas que se conectam entre si. 

Deixe a Neve Cair é um daqueles filmes de romance com histórias paralelas que têm elementos em comum. Nesse caso, os protagonistas provavelmente frequentam a mesma escola (afinal, o longa não deixa isso claro rs) e também uma casa de waffles da cidade (alguns como funcionários e outros como clientes). As histórias se convergem graças a uma festa de Natal que acontece no local.

São três os núcleos principais: Angie (também conhecida como Duke) e Tobin; Dorrie, sua melhor amiga Addie e sua crush; e Julie e Stuart. Angie e Tobin são melhores amigos desde sempre, mas o que a garota não sabe é que Tobin está perdidamente apaixonado por ela. Quando um rapaz parece demonstrar interesse em Angie, Tobin precisa decidir se vai tomar uma atitude e lutar por ela ou não. Dorrie e Addie também são melhores amigas, mas a relação fica complicada quando Addie coloca seu namorado em primeiro lugar. Ela stalkeia o rapaz e tenta controlar seus passos, e quando Dorrie aponta os erros que ela comete, as duas brigam feio. Para completar, Dorrie está interessada em uma garota com quem saiu e, apesar da jovem dizer o quanto gosta dela, na frente das outras pessoas ela finge que nem a conhece. Por último, temos Julie e Stuart: a primeira é uma jovem dividida entre ir para uma faculdade em Nova York ou ficar na cidade para cuidar da mãe doente, enquanto Stuart é um jovem cantor famoso que acaba passando o Natal sozinho por falta de companhia. Ao se conhecerem em um trem, eles acabam passando o dia juntos e uma química inevitável surge.

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A primeira coisa que preciso dizer sobre Deixe a Neve Cair é que ele é um romance clichê. Em geral, isso não é um problema pra mim, desde que os clichês sejam bem desenvolvidos – o que não acontece aqui. Para vocês terem ideia, a crush de Dorrie NEM TEM NOME! Ela aparece pela primeira vez e Dorrie se refere a ela com uma frase tipo “aquela garota e eu tivemos um lance”. E aí o filme passa o tempo todo tentando convencer o espectador de que devemos nos importar com os sentimentos existentes entre elas – sem nem se dar ao trabalho de desenvolver a tal garota. Eu sinceramente só fui descobrir que a jovem tinha nome olhando no IMDB, e não duvido que a informação tenha sido extraída do livro, mas enfim.

O plot de Julie e Stuart também não poderia ter sido mais forçado. O cantor famoso querendo passar o dia com uma desconhecida só porque ela não deu uma de fã louca foi muito “eye rolling” pra mim. A performance de Shameik Moore no papel não ajudou em nada a tornar Stuart um pouco mais verossímil, já que as expressões faciais eram basicamente as mesmas o tempo todo. Não consegui comprar o romance entre eles, infelizmente. 😦 Já a história de Angie e Tobin também é mais do mesmo. Não tenho muito a criticar, tampouco a elogiar. A melhor cena dos dois é quando cantam juntos, mas nada que tenha aquecido meu coração (como sempre espero desse tipo de filme).

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A personagem mais interessante de Deixe a Neve Cair é a mulher que usa roupas de alumínio. Além de engraçada e carismática, ela divide bons momentos com Addie, trazendo algumas verdades que a personagem precisa ouvir. A jovem é autocentrada, insegura e obcecada pelo namorado, o que a torna bastante controladora. Porém, com o passar do tempo, ela percebe a importância das amizades e de dar valor a quem gosta de você de verdade. Tudo isso em meio a várias brigas com a mulher das roupas de alumínio rs.

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Deixe a Neve Cair é um filme que provavelmente vou esquecer em pouco tempo. Pelo trailer, eu tinha expectativas bem mais altas e realmente esperava uma história que me fizesse dizer “own” em algum momento. Infelizmente, não rolou. 😦

Tìtulo original: Let it Snow
Ano de lançamento: 2019
Direção: Luke Snellin
Elenco: Isabela Merced, Shameik Moore, Odeya Rush, Liv Hewson, Mitchell Hope, Kiernan Shipka, Matthew Noszka, Jacob Batalon, Joan Cusack, Anna Akana

Review: Coringa

Oi gente, tudo bem?

Levei alguns dias, mas finalmente consegui organizar os pensamentos para trazer minha opinião sobre Coringa pra vocês. Talvez ela seja um pouco controversa em alguns pontos, então convido vocês pro debate também. 😉

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Sinopse: O comediante falido Arthur Fleck encontra violentos bandidos pelas ruas de Gotham City. Desconsiderado pela sociedade, Fleck começa a ficar louco e se transforma no criminoso conhecido como Coringa.

Acho que é redundante dizer que Coringa é tecnicamente impecável. As inúmeras reações positivas e o frisson da crítica especializada já são suficientes para evidenciar que o longa tem qualidade ímpar. Mas teve um sentimento para o qual as críticas não me prepararam: o desconforto.

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Coringa é um filme que, do início ao fim, da primeira à última cena, causa desconforto. Causa perturbação. Faz você querer olhar pro lado, sabem? A sessão inteira eu mantive minha testa franzida (sério), me sentindo incomodada mesmo em cenas aparentemente inofensivas. Além da óbvia violência explícita, os cenários e a trilha sonora colaboram para uma sensação aflitiva que nos persegue durante toda a exibição. Uma das maiores responsáveis por todas essas sensações é a atuação de Joaquin Phoenix: intensa, visceral e profundamente marcante. O ator dá vida a um Arthur Fleck/Coringa ambíguo: ora digno de pena, ora condenável. Sua expressão corporal e seu olhar revelam a perturbação que é essencial do personagem, e sua risada causa incômodo em todas as circunstâncias em que ocorre.

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E já que mencionei a ambiguidade do protagonista, devo dizer: para falar de Coringa é necessário falar primeiro de Arthur Fleck. Trabalhando como palhaço em diversos bicos, o personagem divide um apartamento caindo aos pedaços com a mãe doente e sofre de um problema neurológico que o faz rir em situações de desconforto (ou seja, quando ele NÃO deseja rir). Seu maior sonho é tornar-se um comediante de stand up, mas os acontecimentos ao longo do filme o afastam cada vez mais da vida “normal” que ele tenta construir. Quando as verbas destinadas à assistência social (que lhe fornecia sessões de terapia e medicamentos) são cortadas pelo governo, o caminho do personagem vai se tornando cada vez mais tortuoso.

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E agora entra a minha opinião possivelmente controversa. Peço que leiam com carinho pra gente debater, tá? Eu acredito que Coringa tenha pecado um pouco na demora para mostrar a “verdadeira face” de Arthur como um psicopata. Qualquer pessoa que conheça o personagem sabe que o vilão é capaz das maiores atrocidades, certo? Mas o filme não é sobre um Coringa já estabelecido, e sim sobre o homem que ele foi antes de tornar-se o Palhaço. E, devido a isso, a verdade é que metade do filme (ou até mais) é dedicada a mostrar as injustiças que Arthur enfrenta e o descaso do governo e da população em relação a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Somos obrigados a ver Arthur apanhando, sendo ridicularizado e hostilizado e confrontando seu passado difícil. O filme me fez sentir revolta em ver Arthur sofrendo tanto. Eu senti empatia por ele. E me senti mal por sentir empatia por um personagem que, eu sei, vai se tornar/se revelar um psicopata. Para mim, faltou explorar mais esse lado de Arthur: a manifestação de psicopatia que independe de sua condição psicológica, aquela que o conduz para o seu “verdadeiro eu”.

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Dito isso, ainda assim devo elogiar o fato do filme abordar com tanta crueza o abandono do Estado e as consequências disso. Arthur, entre outras coisas, é um fruto do meio: tentando se ajustar ao modelo de sociedade existente, quando as coisas que lhe davam suporte são tiradas dele seu autocontrole também se vai. E as pessoas de Gotham (que poderia facilmente ser qualquer outra metrópole, como Nova York) também sentem esse descaso e refletem o caos, causando destruição e agindo com maldade. Além dos aspectos econômicos e sociais abordados por Coringa, o longa também nos obriga a enfrentar uma dura realidade trazida pelo próprio protagonista: a pior parte de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não a tivesse. Nosso sistema funciona de modo a excluir quem não consegue se adequar a padrões de beleza, de comportamento e de “utilidade”; essas pessoas muitas vezes são forçadas a permanecerem em subempregos e em condições degradantes por terem transtornos psicológicos. E por mais que esse fato não seja algo totalmente novo, vê-lo totalmente sem maquiagem – como foi feito em Coringa – ainda assim é doloroso.

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Resumindo, Coringa é um filme que toca em diversas feridas. A responsabilidade e o descaso do Estado em cuidar de sua população, a exclusão de pessoas com transtornos psicológicos e até mesmo as consequências desse caos fazem parte da narrativa. É um filme que mostra a trajetória de um homem que abraça esse caos e essa destruição e faz disso sua essência, sem pudor e sem remorso. Em suma, é a origem de um dos maiores vilões da cultura pop narrada de forma realista e visceral. Recomendo, mas alerto: vai ser difícil você não se sentir desconfortável enquanto assiste.

Título original: Joker
Ano de lançamento: 2019
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen

Dica de Série: Special

Oi gente, tudo bem?

Hoje vim dar uma dica de série de comédia curtinha (curtinha MESMO, os episódios tem só 15 minutos), ideal pra passar o tempo: Special.

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Sinopse: Um jovem gay e com uma leve paralisia cerebral decide recomeçar sua vida e fazer tudo aquilo que sempre desejou, mas adiava: conquistar o primeiro emprego, morar sozinho e longe da mãe controladora e começar um relacionamento amoroso. Mas realizar esses sonhos tem um custo: se passar por vítima de um acidente.

Baseada no seu livro de memórias, Special é protagonizada e produzida por Ryan O’Connell, um rapaz gay e com paralisia cerebral. Eu já tinha lido algumas resenhas sobre o livro na blogosfera e, quando vi que a série estava disponível, resolvi dar uma chance. E, apesar do protagonista não ser alguém apaixonante, é muito interessante conferir uma trama que aborda um aspecto que não costuma ser retratado na mídia.

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Ryan vive com a mãe, Karen, que faz tudo que pode para auxiliá-lo em suas dificuldades. Contudo, aos 27 anos, o desejo do rapaz é viver experiências diferentes, explorar sua sexualidade e se afastar da co-dependência familiar (já que não somente ele depende da mãe, como ela também busca nele uma sensação de “utilidade/propósito”). Porém, as coisas saem um pouco do controle quando Ryan conquista uma vaga como produtor de conteúdo mentindo sobre sua condição física: ele não admite ter paralisia cerebral, mas alega que suas condições físicas são decorrentes de um acidente. E essa mentira traz algumas situações inusitadas e parte da carga cômica da trama.

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Duas coisas principais me chamaram a atenção em Special:
1) O espaço dado à diversidade: além do próprio Ryan fazer parte de uma minoria por conta de sua orientação sexual, ele também tem uma condição física limitante – porém, felizmente, a série não o reduz a isso. Ele é uma pessoa com qualidades E defeitos, e a série não passa pano para os erros do personagem só porque ele é deficiente. Além de Ryan, também temos Kim, sua melhor amiga, uma mulher gorda e não-branca bastante empoderada, apesar das dificuldades e pré-julgamentos que enfrenta por ter o corpo que tem (e o interessante é que o fato de Kim ser confiante não anula o impacto de comentários negativos, o que é bem realista e humano).
2) A naturalidade com que sexo é mostrado: eu nunca tinha visto uma série com uma cena tão explícita e crua de sexo, especialmente gay. Explícita no sentido da naturalidade mesmo, sem toda uma atmosfera ou romantizada ou agressiva, sabem? Ryan perde a virgindade e tudo é mostrado de forma orgânica, sem tabus, sem tornar um big deal. Achei incrível não apenas para naturalizar o sexo mas também para desestigmatizar as relações de pessoas deficientes.

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Com atuações dignas (especialmente por parte de Jessica Hecht, que interpreta Karen, e Punam Patel, que interpreta Kim) e episódios super curtinhos, Special é uma boa opção de série para quem quer se divertir e também conferir algo diferente do que existe por aí. A naturalidade com que Special mostra diversas situações que não costumam ser abordadas em séries e filmes é seu maior ponto forte, e só por isso já vale dar uma chance. 😉

Título original: Special
Ano de lançamento: 2019
Direção: Ryan O’Connell
Elenco: Ryan O’Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Marla Mindelle, Augustus Prew

Review: El Camino: A Breaking Bad Movie

Oi pessoal, tudo bem?

Quem já leu minha resenha de Breaking Bad sabe que minha relação com a série foi do ódio ao amor, e eu terminei de assisti-la totalmente impressionada com a qualidade narrativa e técnica. Portanto, era óbvia minha ansiedade para conferir El Camino: A Breaking Bad Movie, o longa da Netflix que mostra o desfecho da jornada do meu personagem favorito: Jesse Pinkman. Por tratar-se de um epílogo, há spoilers da série!

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Sinopse: O fugitivo Jesse Pinkman tenta superar o passado. Escrito e dirigido pelo criador de Breaking Bad, Vince Gilligan, e estrelado por Aaron Paul.

Após ser sequestrado, ver a mulher que gostava ser assassinada, ser torturado de todas as formas e finalmente conseguir escapar de Todd, Jack e seus capangas, o último vislumbre que tivemos de Jesse foi dele pilotando o carro que roubou de seus captores (um El Camino, que dá nome ao filme) com os olhos marejados e uma sensação de êxtase. Mas e o que acontece depois? Jesse consegue se recuperar psicologicamente? Ele é preso? Ele foge? São perguntas que o longa vem para esclarecer.

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Ao longo das cinco temporadas de Breaking Bad, sempre ficou nítido para mim que Jesse era uma pessoa que tomou decisões erradas, trilhou um caminho ruim, mas tinha um coração essencialmente bom. Senti muita pena de todas as vezes em que ele tentou se desvencilhar de Walter (conhecido como o personagem mais egoísta do mundo, te odeio Walter White bjs) e fiquei de coração partido quando ele foi capturado e torturado na reta final da trama. Por todos esses motivos, mesmo sabendo que o personagem tem sua parcela de culpa em tudo que aconteceu, eu sempre torci por ele, para que ele conseguisse mudar de vida e encontrar a felicidade. El Camino vem para mostrar como essa jornada se desenrola, afinal, os traumas, o remorso e a culpa que acompanham Jesse são profundos.

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Apesar de descobrirmos mais sobre o tempo de Jesse em cativeiro e também vislumbrarmos as cicatrizes (literais e metafóricas) que toda a vivência do personagem deixou, El Camino não se concentra tempo demais em torno desse drama, evitando superexpor as cenas de sofrimento. A história é ágil, direta, objetiva: são 2h e 2 minutos de duração que têm um ritmo muito semelhante ao da série, fazendo com que o longa pareça um episódio mais duradouro de Breaking Bad. Com adição de alguns flashbacks para contextualizar certas situações, El Camino ainda nos agracia com a possibilidade de matar a saudade de alguns personagens (ou de odiá-los mais um pouquinho rs). Porém, fica um pequeno alerta: mesmo com o resumo no início, há alguns detalhes da trama original que eu não consegui me lembrar tão bem quanto gostaria. O filme contextualiza depois, mas talvez valha a pena assistir à quinta temporada de novo, ou pelo menos aos episódios finais, caso você também fique com a sensação de “hmmm quem é esse mesmo?”. 😛

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Outro aspecto incrível sobre El Camino é a consistência em relação à série. Vince Gilligan conseguiu recriar toda a atmosfera de Breaking Bad mesmo 6 anos após seu fim. E olha que eu não sou a maior entusiasta de spin-offs! Aaron Paul, por sua vez, retoma todo o peso dramático com qual Jesse terminou na series finale e desenvolve os desdobramentos disso com perfeição, até chegar ao ponto de esperança e renovação para o personagem. E o que dizer da fotografia? Assim como sua contraparte televisiva, que trazia cenas icônicas, El Camino também tem momentos tão belos quanto a produção que o antecede. Destaque para um dos cenários finais, que traz toda a sensação de liberdade que a narrativa inteira buscou.

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El Camino é a história que os fãs de Breaking Bad não sabiam que precisavam: um desfecho digno para Jesse, que finalmente teve a chance de tomar as rédeas da própria vida. O longa faz isso com respeito ao legado da série, com consistência em relação a tudo que faz de Breaking Bad o que ela é e, principalmente, dá protagonismo ao personagem que foi usado como um fantoche em diversos momentos da produção original. Ter a chance de ver Jesse como alguém livre da influência de Walter, com a possibilidade de fazer o que quiser com essa liberdade, foi revigorante. Porque, ao contrário de Walter, Jesse é alguém cuja humanidade nunca desapareceu, apesar dos crimes cometidos. E é nessa humanidade que a gente aposta. 🙂

Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Ano de lançamento: 2019
Direção: Vince Gilligan
Elenco: Aaron Paul, Jonathan Banks, Matt Jones, Charles Baker, Jesse Plemons, Tom Bower

Dica de Série: Queer Eye

Oi gente, tudo bem?

Eu tenho um novo vício (por sinal, assisti inteiro em uma semana e meia) e ele se chama Queer Eye. ❤ Hoje vim contar um pouquinho mais pra vocês desse reality que, como o próprio subtítulo já diz, é muito mais que um makeover.

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Sinopse: As caras são novas, mas as missões continuam fabulosas! Estes gênios do makeover são muito mais que rostinhos bonitos.

Eu não sou uma espectadora de reality shows, de maneira geral. Entretanto, buscando por algo leve para passar o tempo, decidi conferir o elogiadíssimo Queer Eye. O reality é um remake da série Queer Eye for the Straight Guy e é formado pelos Fab Five (ou Fabulous Five): Jonathan, responsável pela aparência; Bobby, responsável pelo design e arquitetura; Tan, responsável pela moda; Antoni, responsável pela gastronomia e Karamo, responsável pelos aspectos sociais e psicológicos. Inicialmente, os episódios focavam em homens hétero no sul dos Estados Unidos (já dá pra imaginar o conflito cultural, né?), mas com o passar das temporadas outros tipos de participantes são selecionados.

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É impossível falar de Queer Eye sem falar do carisma dos Fab Five. Eles são homens gays especializados em coisas distintas, mas cujo maior objetivo é ajudar a mudar a vida das pessoas que participam do reality. Os membros do grupo são empáticos, gentis, sensíveis, educados e, quando precisam, não hesitam em pontuar verdades (algumas delas bem difíceis) que os participantes precisam ouvir. Além disso, com o passar dos episódios também vamos descobrindo detalhes das vidas particulares dos Fab Five, e percebemos que o rótulo “homem gay” é restrito demais para resumir toda uma identidade.

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Tan, por exemplo, é casado há anos com outro homem, mas nunca tinha adentrado o universo trans até trabalhar com o participante trans. Bobby cresceu frequentando a igreja e, devido ao preconceito religioso que sofreu, se afastou dela – o que torna difícil pra ele quando precisam ajudar uma senhora que vive dedicada à igreja e também tem um filho gay. Esses são apenas exemplos da diversidade de experiências e sentimentos que as pessoas (sejam elas gay ou não) sentem e vivem. Colocar pessoas em caixinhas jamais vai contemplar as inúmeras nuances, crenças, valores e sentimentos que elas podem sentir, e Queer Eye evidencia isso.

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Outro aspecto muito interessante é, como mencionei antes, o choque cultural que a série provoca em muitos episódios. Por exemplo: os Fab Five visitam a casa de um homem que votou no Trump, sendo que além deles serem gays, um dos membros tem ascendência paquistanesa e o outro é negro. O desconforto é óbvio, né? Mas isso não impede que as pessoas envolvidas tentem se entender e, principalmente, ouvir uns aos outros. Diálogos sobre machismo, racismo, xenofobia, transtornos psicológicos e muito mais fazem parte do reality. Resumindo, Queer Eye dá margem para discussões fundamentais e leva esses debates a pessoas que talvez não tivessem a chance de tê-los.

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Queer Eye realmente vai muito além de um makeover. A aparência é apenas um dos aspectos que os Fab Five utilizam para elevar a autoestima dos participantes. Eles buscam entender todos os problemas que a pessoa está vivenciando naquele momento e que a impedem de buscar seus objetivos ou aquilo que realmente querem ser. Tudo isso em meio a diálogos maravilhosos, MUITO carisma e bom humor e uma infinidade de cenas emocionantes (eu chorei em 95% dos episódios, sério). Assistam, vocês não vão se arrepender! ❤

Título original: Queer Eye
Ano de lançamento: 2018
Criador: David Collins
Elenco: Antoni Porowski, Tan France, Karamo Brown, Bobby Berk, Jonathan Van Ness