Criminal: UK e sua problemática segunda temporada

Oi pessoal, tudo bem?

Esse é um Dica de Série e ao mesmo tempo não é. Recentemente assisti à versão britânica de Criminal (que tem versões na Espanha, na França e na Alemanha também) e curti muito a proposta: cada episódio é focado em um acusado que um grupo de detetives precisa interrogar. E Criminal: UK já inicia com um nome de peso, David Tennant, na posição do acusado – cuja interpretação foi, como sempre, brilhante. Durante a primeira temporada, fiquei muito empolgada com cada trama. Eram acusações diversificadas, com backgrounds distintos e ainda assim muito atuais: enquanto no episódio de David a investigação era o abuso e o assassinato de uma adolescente, no segundo episódio falou-se de violência doméstica e, no terceiro, imigração ilegal. Até que chegamos à segunda temporada e… Bom, pra conseguir problematizá-la, terei que dar spoilers, ok?

O hype em cima da última season vem acompanhado de um nome ilustre no elenco: Kit Harington, pouco depois de ter finalizado Game of Thrones. Em seu episódio, Kit interpreta um empresário sendo acusado de estupro por uma de suas funcionárias. Acontece que, para a surpresa do espectador, descobre-se que ela fez uma falsa acusação para conseguir dinheiro. Sim. Isso mesmo. A série faz um episódio inteiro focado em um homem de poder sendo falsamente acusado de estupro.

E antes que vocês me acusem e digam que isso acontece na vida real: eu sei. Existem sim difamações, calúnias e falsas acusações. Mas a proporção, gente, é absurdamente discrepante. E quando uma série de amplo alcance (por estar na Netflix) escolhe justamente esse olhar enviesado pra abordar algo que costuma ser exceção, temos um problema. Argumentos como “a denúncia acabou com a vida do cara” e “mas como ela vai provar que não foi consensual?” são um desencorajamento a mulheres que têm medo de denunciar seus agressores. Porque, em geral, a mulher não sofre apenas na mão do abusador; ela sofre de novo na mão do Estado e da mídia ao ter sua história questionada e inúmeras vezes repassada. Lembram de Inacreditável? A minissérie, que dramatiza fatos reais, é um tapa na cara que mostra o quanto estamos despreparados enquanto sociedade pra lidar com a dor das vítimas de abuso sexual – e o impacto negativo que não dar o devido crédito ao relato causa.

E, quanto ao argumento de que uma denúncia dessas “acaba com a vida de um homem”, bom… O goleiro Bruno conseguiu emprego mesmo após esquartejar a mãe de seu filho e dar os pedaços pros cães comerem, né? Até publi ele já fez. 🙂 E o Robinho? Só teve seu contrato com o Santos pausado após muita pressão popular.

Mas tá, até o momento tinha sido apenas um episódio de Criminal: UK a me causar desconforto. Seguimos, certo? Cheguei então no episódio seguinte, em que uma mulher é acusada de difamação ao usar seu site para acusar homens de pedofilia. O episódio é bastante chato, o plot twist no final é sem pé nem cabeça mas o foco aqui é: a dona do site acusou um homem de maneira errônea e causou graves consequências à sua vida.

É óbvio que acusar as pessoas sem provas é errado. No caso do episódio, a mulher era uma desocupada que fazia as vezes de justiceira na internet. E, de fato, ela trouxe problemas enormes para a vida de um homem inocente, o que é bastante condenável. Entretanto, a causa maior de desconforto aqui foi, novamente, em episódios consecutivos, ver uma mulher na posição de falsa acusadora. A segunda temporada da série, roteirizada por homens, parece gostar de colocar suas personagens femininas em um papel de “destruidoras de vidas”, o que corrobora em muito para a visão deturpada que muitos ainda têm e que se reflete diretamente em casos de estupro e abuso, como debati mais acima.

Eu não sou contra colocar mulheres em papel de vilania, pelo contrário. Acho importante romper o estereótipo angelical, afinal, mulheres também são capazes de atrocidades por pura maldade. Mas eu sou MUITO contra o uso de estereótipos deturpados e machistas que causam impactos reais na vida de muitas de nós. Usar o espaço midiático e o amplo alcance pra reforçar esse tipo de visão é problemático e, diria também, misógino: qualquer mulher vítima de abuso que não teve coragem de denunciar, por exemplo, pode assistir a essas tramas e se sentir ainda pior, sabendo que o Estado e a sociedade não iriam acreditar nela.

Então, por mais que Criminal: UK tenha atuações incríveis e uma ótima primeira temporada, não é o tipo de série que eu vá panfletar. Prefiro indicar e fortalecer tramas como a já citada Inacreditável, que faz um trabalho impecável em mostrar o ponto de vista da vítima e a diferença abismal entre a abordagem masculina e a feminina no que diz respeito à sensibilidade quanto a vítimas de estupro. Se tiverem que escolher uma dessas séries para a sua próxima maratona, sugiro que escolham a segunda.

Título original: Criminal: UK
Ano de lançamento: 2019
Criadores: Jim Field Smith
Elenco: Katherine Kelly, Lee Ingleby, Rochenda Sandall, Mark Stanley, Shubham Saraf, David Tennant, Kit Harington, Hayley Atwell, Sharon Horgan, Kunal Nayyar

Dica de Série: Curta Essa com Zac Efron

Oi pessoal, tudo bem?

Desde a leitura de Contágio eu comecei a refletir com mais frequência sobre o nosso papel enquanto seres humanos na preservação do planeta – e consequentemente nas doenças causadas por sua destruição. Isso me fez querer assistir ao documentário Curta Essa com Zac Efron, no qual o ator viaja pelo mundo para conhecer modos de vida mais sustentáveis. Vamos conhecer? 😀

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Sinopse: O ator Zac Efron roda o mundo com o guru dos superalimentos Darin Olien em busca de formas de viver com saúde e sustentabilidade.

Na companhia de seu amigo Darin Olien, conhecido por ser uma espécie de guru dos superalimentos, Zac Efron viaja para diversos locais, alguns mais remotos do que outros, e aprende sobre assuntos variados relacionados à sustentabilidade, ao poder dos nutrientes na nossa saúde, ao “segredo” da longevidade, a tecnologias modernas que permitem a criação de energia sem combustíveis fósseis, entre outros temas. Cada episódio se passa em alguma cidade e foca em alguns desses assuntos, sendo 8 no total.

Um dos aspectos que mais curti em Curta Essa com Zac Efron é a ignorância do protagonista – e eu falo isso no melhor dos sentidos! Calma que eu vou explicar. Zac Efron não assume uma postura arrogante frente ao novo e se permite deslumbrar pelas novas experiências que vive. Ele genuinamente demonstra não entender nada do assunto, mas querer aprender a respeito. É como se ele representasse os olhos do espectador, fazendo as perguntas que qualquer um de nós gostaria de fazer se estivesse em seu lugar. Enquanto Darin tem mais conhecimento e vivência nos assuntos abordados, auxiliando Zac ao longo da jornada mas também aprendendo junto com ele, o próprio Zac fica surpreso, maravilhado, curioso, inseguro e pensativo a respeito de tudo que vivencia.

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De maneira geral, a série é bastante feliz em escolher as pessoas com as quais a dupla vai conversar. Existem episódios que fazem a gente colocar tudo em perspectiva, como por exemplo o que se passa em Porto Rico, que até hoje enfrenta as consequências do furacão Maria – responsável pela destruição de grande parte da ilha. É palpável o desconforto de Zac ao pensar na desigualdade que existe entre pessoas como ele e pessoas como as que moram em Porto Rico, e ele demonstra muita humildade ao conversar com os moradores (ficando visivelmente desconfortável de ser homenageado em pé de igualdade com outros famosos que atuaram na ilha na época do desastre, por exemplo).

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A série comete alguns deslizes? Sim, comete. O episódio que se passa na Costa Rica é bem descolado da realidade alienado, até. Quando Zac e Darin vão de barco até uma comunidade que vive numa ilha pertencente à Costa Rica (sendo levados por dois rapazes que parecem ser adolescentes e nativos do local), somos apresentados a uma comunidade cheia de gente branca não nativa que inevitavelmente nos faz pensar em hippies privilegiados. A abordagem natureba e afastada da tecnologia e das coisas “mundanas” parece mais um ano sabático de americanos que resolveram fugir do seu cotidiano, ao passo que, na minha opinião, seria muito mais interessante conhecer a perspectiva real dos moradores da ilha. Mas enfim, acho que foi o único episódio que me causou esse desconforto.

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Assistir Curta Essa com Zac Efron foi bastante emocionante em muitos momentos e, mais uma vez, me peguei pensando sobre meus hábitos e sobre a vontade de mudá-los. Desde que assisti a série eu passei a seguir perfis vegetarianos e busquei reduzir meu consumo de carne; ainda que esteja longe do ideal e que eu não tenha planos concretos de fazer uma virada de chave alimentar no momento, a série foi capaz de provocar em mim pequenas mudanças de hábito e muuuitas reflexões. Perceber o quão afastados estamos do cuidado com o nosso planeta é um chacoalhão que coloca muita coisa sob uma nova lente, e acho difícil sair ileso ao final da temporada – especialmente com a virada surpreendente (e trágica) que acontece no último episódio.

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Curta Essa com Zac Efron é uma série leve, mas emocionante; divertida, mas capaz de provocar reflexão; aparentemente despretensiosa, mas envolvente. Eu, que não cresci sendo fã do Zac Efron e de High School Musical, fiquei positivamente impressionada com a postura e com a consciência do ator. Espero que retornem para uma segunda temporada mas, caso isso não aconteça, já fico satisfeita com as mudanças que ele e Darin estimularam em mim. Recomendo e torço pra que essa ótima série documental mexa com você também. 😀

Título original: Down to Earth with Zac Efron
Ano de lançamento: 2020
Produtores executivos: Zac Efron, Darin Olien
Elenco: Zac Efron, Darin Olien

Dica de Série: Cobra Kai

Oi galera, tudo bem?

A indicação de hoje é perfeita pra quem está buscando entretenimento puro de qualidade: Cobra Kai!

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Sinopse: Décadas depois da competição que mudou suas vidas, a rivalidade entre Johnny e Daniel está de volta nesta sequência da trilogia Karatê Kid.

Antes de começar a falar sobre a série em si, é importante dizer que eu nunca assisti a Karatê Kid inteiro (e muito menos seus sucessores). Eu sempre acabava pegando o filme já rolando na TV mas, por ser uma história clássica, sei o que acontece de tanto ver referências na internet. Por que essa introdução é importante? Porque mesmo sem ser um fã dos filmes originais, eu me apaixoneeei e me diverti demais com Cobra Kai.

A trama acontece, obviamente, muitos anos depois daquele embate que culminou na vitória de Daniel-san. Enquanto este se tornou um bem-sucedido dono de uma franquia de automóveis de luxo, Johnny viu sua vida afundando cada vez mais: ele trabalha como faz-tudo, mora em uma kitnet, não se dá bem com o filho e vive de cerveja barata. Certo dia, ele vê uma briga de adolescentes envolvendo seu vizinho, Miguel e, quando a briga o atinge pessoalmente (ou melhor, ao seu carro), Johnny intervém e bate em todo o grupo que agredia o jovem. Isso é o bastante para que Miguel implore que Johnny seja seu sensei, o que o impulsiona a reabrir o Cobra Kai. Ao ficar sabendo do retorno do dojo que tanto lhe causou sofrimento, Daniel se coloca como um antagonista aos objetivos de Johnny.

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Tem uma coisa muito engraçada que me fez querer conferir Cobra Kai: sou fã de How I Met Your Mother e, nela, o personagem Barney alega que o verdadeiro vilão de Karatê Kid é o Daniel, e não o Johnny. O William Zabka inclusive fez participações especiais na série e são bem engraçadas. Mas o propósito de Cobra Kai é muito claro: mostrar que para toda história existem dois lados e, como diz um amigo meu, “ninguém é o vilão da própria história”. A série nos permite entender o background de Johnny e simpatizar com o personagem, que na série esbanja carisma – ainda que tenha inúmeros defeitos, especialmente por ser antiquado e meio machista. Por outro lado, a postura moralista e cheia de boas intenções de Daniel pode ser lida como preconceito e presunção, especialmente porque ele não dá margem ao diálogo. Ou seja, a vida real não é preto no branco e todos estamos suscetíveis a errar.

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É legal perceber a inversão de papéis que acontece em Cobra Kai. Se no filme oitentista o dojo de Johnny era símbolo de bullying e agressão, agora ele é o local que jovens que sofrem disso procuram para se defender e se empoderar. Ainda assim, a série não é irresponsável de fazer com que os ensinamentos do Cobra Kai sejam vistos com romantização: há um personagem em especial que é diretamente influenciado pelo lema do dojo (ataque primeiro, ataque com força e não tenha misericórdia) e se torna um agressor. Ainda assim, ele é uma exceção à regra e, com o passar dos episódios, o próprio Johnny vai aprendendo com seus erros e entendendo que o seu passado não foi pautado em honra, mas que seu futuro vai ser. E ao buscar ensinar a diferença entre não ter misericórdia e não ter honra, percebemos a grande evolução do personagem.

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A rivalidade está presente não apenas entre Johnny e Daniel: seus pupilos também herdam esse comportamento. A segunda temporada trata disso com mais peso, especialmente porque os envolvidos em ambos os dojos têm ligações pessoais bastante fortes, de modo que as emoções ficam à flor da pele. E conforme os treinamentos dos dois senseis progride, as consequências dessa rivalidade vão ficando cada vez mais sérias – até um final CHOCANTE que faz o espectador implorar pela terceira temporada.

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Além de entreter com um ritmo envolvente e uma narrativa cheia de ação, Cobra Kai conta com ótimos personagens. Além dos já citados Johnny e Daniel, o núcleo de adolescentes também é muito bom. Miguel é o meu queridinho, o típico good guy que tenta sempre fazer o que é certo. Ainda que ele cometa erros, o que é esperado de qualquer jovem de 16 anos, ele busca se redimir e evoluir. O mesmo acontece com o filho de Johnny, Robby, que encontra no karatê um modo de fugir da negligência da mãe e do abandono do pai. A única personagem que não me desce é a Samantha, filha de Daniel: ela tem uma postura de boa moça e se coloca num pedestal, mas quando sua antiga amiga sofreu bullying nas mãos do seu novo e popular grupo, ela não fez nada para impedir. Por fim, fica um elogio a Amanda, esposa do Daniel, também conhecida como pessoa mais sensata da série. 😂

Com episódios curtos, ritmo envolvente e muito carisma, Cobra Kai foi uma série que me divertiu do início ao fim. É aquele entretenimento puro, que faz você mergulhar de cabeça, te distrai e te faz vibrar e sofrer com os personagens. Tudo isso com uma trilha sonora cheia de clássicos dos anos 80 e uma ótima temática – afinal, como não se empolgar com uma luta de karatê? 😉 Vale conferir!

Título original: Cobra Kai
Ano de lançamento: 2018
Criador: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg
Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Xolo Maridueña, Tanner Buchanan, Mary Mouser, Courtney Henggeler

Dica de Série: Eu Nunca…

Oi pessoal, tudo bem?

Nas minhas últimas férias aproveitei para conferir alguns títulos que amigos vinham me indicando na Netflix, e um deles é Eu Nunca… (sim, com reticências rs).

Sinopse: Ela teve um ano complicado. Agora, tudo que essa jovem quer é melhorar seu status social. Será que os amigos, a família e seus sentimentos vão ajudar?

A série acompanha a rotina de Devi, uma adolescente de ascendência indiana que passou por maus bocados no último ano: ela perdeu o pai, seu melhor amigo, subitamente e, devido ao trauma, ficou com as pernas paralisadas por meses. Agora que ela voltou a andar, seu maior objetivo é perder a virgindade e se tornar popular na sua escola, de modo a afastar o estigma de “garota estranha e paralisada”.

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Eu Nunca… é uma série bastante engraçada, com episódios de aproximadamente 30 minutos cada. Devi tem duas melhores amigas, a inteligente Fabiola e a criativa Eleanor, que fazem de tudo por ela. O problema é que Devi está obcecada pelo seu crush, Paxton, e ao longo da trama eles vão se aproximando de forma inesperada. Um outro elemento importante nessa equação é o rival de Devi, Ben: os dois competem pelas melhores notas desde crianças, mas aos poucos eles percebem que têm mais em comum do que imaginam.

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Uma das principais características de Eu Nunca… é o fato de que Devi é uma personagem imperfeita. Ela age por impulso, magoa as pessoas e pisa na bola muitas vezes com suas amigas. Mas antes de julgá-la, vamos relembrar como é ter 15 anos? Não sei vocês, mas eu cometia vários erros de julgamento na época e também trocava os pés pelas mãos em muitas situações. Isso não quer dizer que Devi não seja irritante, porque ela é (e eu acho que a atuação linear de Maitreyi Ramakrishnan não ajuda em nada nesse quesito). Sua obsessão por Paxton a torna negligente com sua família e amigos e se revela como uma das válvulas de escape da garota para não lidar com o luto pela perda do pai. O interessante, porém, é vê-la amadurecer: conforme Devi é obrigada a lidar com as consequências dos seus atos, ela passa a crescer como pessoa e, no fim das contas, a adolescência é também sobre isso.

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Outro acerto de Eu Nunca… reside na representatividade. O trio de melhores amigas (Devi, Fabiola e Eleanor) é composto por uma menina indiana, uma negra e uma asiática. Há também uma naturalidade muito grande para lidar com o processo de descoberta de determinada personagem LGBTQI+. Os aspectos culturais da família de Devi também são abordados ao longo da temporada, sendo protagonizados pela própria Devi, sua mãe e sua prima (que mora com elas). O bacana é que a série fala sobre a cultura indiana sem recorrer a estereótipos e, principalmente, sem ser ofensiva – ainda que levante um debate tímido sobre determinadas práticas.

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Eu Nunca… é uma série muito gostosinha e divertida, daquelas que você dá o play e nem vê o tempo passar. Pra quem busca uma comédia adolescente bacana e respeitosa com diferentes culturas e pessoas, é uma ótima pedida! E o melhor: com poucos episódios curtinhos e uma segunda temporada já confirmada. 😉

Título original: Never Have I Ever
Ano de lançamento: 2020
Criador: Mindy Kaling, Lang Fisher
Elenco: Maitreyi Ramakrishnan, Darren Barnet, Jaren Lewison, Lee Rodriguez, Ramona Young, Poorna Jagannathan, Richa Moorjani, Sendhil Ramamurthy

Review: Mulan

Oi pessoal, tudo bem?

O live action de Mulan vem dando o que falar desde muito antes de sua estreia no Disney+ e, agora que ele chegou à plataforma, vim dividir com vocês meus sentimentos em relação ao filme. 🙂

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Sinopse: Em Mulan, Hua Mulan (Liu Yifei) é a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro. Quando o Imperador da China emite um decreto que um homem de cada família deve servir no exército imperial, Mulan decide tomar o lugar de seu pai, que está doente. Assumindo a identidade de Hua Jun, ela se disfarça de homem para combater os invasores que estão atacando sua nação, provando-se uma grande guerreira.

Antes de tudo, acho importante ressaltar que eu acompanhei as notícias ao longo da produção do longa e, portanto, estava com expectativas alinhadas quanto ao fato do filme não ser um musical e não contar com a participação de personagens icônicos como Mushu e Li Shang. Pra quem não sabe do que estou falando, o novo live action da Disney tem um foco muito maior em honrar o público chinês, que vê no uso do dragão (uma figura mega sagrada) como alívio cômico e sidekick um desrespeito. Dito isso, saibam que minha opinião está pautada no filme pelo filme, e não (apenas) na comparação com o original, combinado? 😀

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Desde menina, Mulan demonstra algo especial: seu chi é intenso e ela é capaz de manipulá-lo como outras pessoas não o são. Porém, o chi é uma característica atrelada a guerreiros e ela, sendo mulher, deve ocultar tal habilidade e honrar sua família por meio do casamento. A jovem cresce com esse “segredo” e tenta se encaixar nos moldes tradicionais, mas quando cada família é convocada a ceder um homem para a guerra contra os Rourans que se aproximam, Mulan decide tomar o lugar de seu velho pai. Passando-se por um homem, ela treina para se aprimorar como guerreira enquanto busca entender seu verdadeiro papel.

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Sabendo que o filme é baseado no conto original de Mulan (que data lá do século VI), eu tentei me manter de coração aberto às novidades, como por exemplo o fato de haver uma mulher chamada de bruxa (apenas porque domina seu chi de maneira excepcional e consegue utilizá-lo como verdadeira magia) e pelo fato de Mulan se diferenciar de seus pares por também demonstrar domínio sobre essa energia. Acontece que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, Mulan foi um filme chato de assistir.

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A começar pela protagonista: a atriz que interpreta Mulan é uma versão oriental da Kristen Stewart em Crepúsculo. Ela não demonstra nenhuma emoção, tem zero carisma e me deixou profundamente agoniada com seus golpes no ar que serviam pra ela atirar o cabelo pra longe quando caía no chão, tipo comercial de shampoo. O fato da personagem se destacar devido ao seu chi, e não pelo trabalho duro e pela determinação, também foi outro aspecto broxante: Mulan foi criada para ser uma mulher tradicional, e vê-la rompendo com esses estigmas e se esforçando tanto quanto qualquer homem (e ainda se sobressaindo) era uma das coisas mais poderosas da animação – que aqui perde força porque, apesar do esforço, Mulan tem de fato um aspecto “mágico” que a torna única. A personagem, portanto, se torna menos relacionável com o espectador.

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Os vilões são muito mal desenvolvidos, e os Rourans são caricatos e não oferecem uma ameaça que nos faça temer de fato, já que (diferente do desenho) não causam nenhuma perda a nível “pessoal”. Por outro lado, Xian Lang (a “bruxa”) que os auxilia tem mais camadas e representa uma dualidade com a própria Mulan, levando a personagem a se questionar sobre a própria identidade e sobre a injustiça de ter seu chi oprimido porque os outros não sabem lidar com isso. Ela é uma anti-heroína que oferece uma reflexão sobre o machismo que até hoje nos desencoraja de demonstrar todo o nosso potencial enquanto mulheres, e eu diria que essa provocação quanto aos papéis de gênero é o principal ponto forte do filme.

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Poderíamos pensar que as lutas seriam capazes de salvar o filme, certo? Errado, pelo menos pra mim. O live action tem uma estética típica de filmes de luta orientais, o que inclui movimentos super coreografados em slow motion. Se você curte essa vibe, talvez curta também esse aspecto do longa. Eu não me identifico nadinha com esse tipo de produção, então fiquei com um pouquinho de vergonha alheia nesses momentos de slow motion. Entretanto, reconheço a importância de contar essa história de uma forma que não agrida a cultura chinesa e ressalto como é importante um filme blockbuster contar com um elenco de fenótipo 100% oriental.

Resumindo, eu diria que Mulan é no máximo um filme nota 6 (numa escala de 10). O maior problema é que ele não se destaca, não arrepia, não emociona. Mesmo sem fazer nenhum tipo de comparação, o live action de Mulan se mostrou uma produção genérica e esquecível, que eu provavelmente não vou assistir uma segunda vez. Espero que ao menos para o público ao qual ele foi destinado tenha sido uma boa experiência.

Título original: Mulan
Ano de lançamento: 2020
Direção: Niki Caro
Elenco: Liu Yifei, Donnie Yen, Jet Li, Gong Li, Yoson An, Jason Scott Lee, Susana Tang, Tzi Ma, Rosalind Chao

 

Review: Estou Pensando Em Acabar Com Tudo

Oi pessoal, tudo bem?

Estava ansiosa para conferir e contar pra vocês o que achei da adaptação do livro de Iain Reid que bugou a minha cabeça, então bora falar a respeito de Estou Pensando Em Acabar Com Tudo? 😂

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Sinopse: Uma jovem vai com o namorado conhecer os pais dele em uma fazenda remota e embarca em uma viagem para dentro de seu próprio psiquismo.

A trama do filme se inicia como a do livro: uma jovem está viajando com o namorado, Jake, para conhecer os seus pais. Apesar do casal estar dando esse passo importante, a moça passa a viagem inteira pensando que deseja acabar com tudo e romper o relacionamento. Quando os dois chegam na fazenda dos pais dele, a trama ganha um tom aflitivo e claustrofóbico, pois coisas estranhas começam a acontecer: há nítidas mudanças de linha temporal, a protagonista muda de nome e profissão, os pais de Jake aparecem cada vez de um jeito e aparece até uma foto da protagonista quando criança – que logo se transforma em uma foto de Jake.

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Essas mudanças surreais e o tom inquietante delas me lembraram muito da sensação que tive ao assistir Mãe!. Os acontecimentos parecem inocentes, mas você sabe, lá no fundo, que não são. Senti algo parecido durante a leitura também, um receio de que algo muito errado estivesse acontecendo por baixo da superfície, o que me fez temer pelos personagens na época. Acontece que, no filme, o diretor consegue deixar mais claro para o espectador que estamos vendo uma trama que se passa na cabeça dos personagens (ou melhor, de um determinado personagem). As cenas do casal na casa dos pais de Jake se intercala com cenas de um zelador idoso vivendo seu cotidiano, e os paralelos entre as situações servem como pista e também como provocação: o que é real?

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Quando li o livro, a viagem de carro e os diálogos na casa foram a parte mais cansativa da história pra mim, enquanto a perseguição na escola me fez devorar as páginas. Assistindo ao filme, o oposto aconteceu: a viagem de carro e a visita aos pais de Jake deram pistas fundamentais para a compreensão da trama, enquanto o final foi um tanto “wtf?”, apesar de ser compreensível. A partir daqui, há spoilers sobre o final: nesse terceiro ato do longa, fica claro que tudo que vimos até então aconteceu na mente do zelador. De forma fragmentada, ele relembra diversos momentos da sua vida, inclusive pessoas com quem namorou e até relações que não aconteceram (como quando a protagonista diz que nunca interagiu com o homem na noite de perguntas). Isso explica as passagens do tempo dentro da casa de seus pais, e explica também porque a foto da protagonista criança se transforma na foto de Jake criança: os dois são a mesma pessoa, ou melhor, a namorada não existe de fato – é a personificação de um desejo de Jake de ter um relacionamento. Na vida real, ou seja, na trama do zelador, fica nítido que ele é um homem solitário e que observa a vida como um espectador. Na última cena, Jake finalmente encontra a grandeza em sua imaginação, e ele “envelhece” mentalmente todas as pessoas com quem cruzou e de cujo reconhecimento ele gostaria de receber. Fim dos spoilers!

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De forma geral, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo me causou uma sensação parecida com a que senti lendo a obra de origem: boa parte da trama foi cansativa, senti sono, mas quando as engrenagens começam a funcionar e você se pega tentando conectar os pontos, o interesse surge. Entretanto, diferente do livro que me fez amar o final graças à surpresa, o filme não provocou a mesma sensação. É um final muito mais metafórico e cheio de cenas surreais que, para o meeeu gosto, são chatas de assistir. O impacto que tive com a leitura, daquela verdade nua e crua tão “óbvia” sendo jogada na minha cara, não aconteceu. Ainda assim, o filme não é um desperdício de tempo e é uma boa obra de forma geral: as atuações são competentes, a construção do suspense é eficiente e, se você prestar bem atenção, está tudo explicado nas entrelinhas. Vale espiar!

P.S.: que agonia que no título em português eles tiraram o primeiro “Eu” antes de “Estou” rs.

Título original: I’m Thinking of Ending Things
Ano de lançamento: 2020
Direção: Charlie Kaufman
Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd

Dica de Série: Little Fires Everywhere

Oi pessoal, tudo bem?

O post de hoje é pra gente conversar a respeito de Little Fires Everywhere, a minissérie que adapta o livro de mesmo nome (Pequenos Incêndios Por Toda Parte). Bora?

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Sinopse: Em Little Fires Everywhere, um encontro entre duas famílias completamente diferentes vai afetar a vida de todos. A dona de casa perfeita Elena Richardson (Reese Witherspoon) aluga a casa de hóspedes à Mia Warren (Kerry Washington), uma artista solteira e enigmática que se muda para Shaker Heights com sua filha adolescente. Em pouco tempo, as duas se tornam mais do que meras inquilinas: todos os quatro filhos da família Richardson se encantam com as novas moradoras de Shaker. Porém, Mia carrega um passado misterioso e um desprezo pelo status quo que ameaça desestruturar uma comunidade tão cuidadosamente ordenada.

A trama se passa em um típico subúrbio norte-americano cheio de famílias de classe média abastadas na cidade de Shaker Heights. A chegada de Mia Warren e sua filha Pearl é o ponto de partida para uma sequência de conflitos entre elas e a família de Elena Richardson, que aluga uma de suas casas para as recém-chegadas. A diferença entre as mulheres vai além da questão racial: Mia, além de negra, é uma artista e mãe solo que vive sem criar raízes, o que causa um conflito com a própria filha; Elena é uma mulher que devota a vida aos filhos e ao trabalho de meio-turno como jornalista que ela tenta fazer parecer mais significativo do que de fato é. Ao longo dos episódios, a animosidade entre as duas cresce, especialmente quando elas se veem em lados opostos em uma briga pela custódia de uma criança.

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Little Fires Everywhere fala de muitos temas, como racismo, xenofobia e desigualdade socioeconômica, mas o principal deles é a maternidade. Apesar do abismo que as separa, Mia e Elena têm uma característica em comum: tudo que fazem e tudo que priorizam está relacionado ao amor pelos filhos. E a minissérie torna fácil de enxergar que a maternidade pode ser vista e encarada de múltiplas formas: assim como existem os sacrifícios pessoais que mães são capazes de fazer, existe também egoísmo ao projetar suas expectativas nos filhos.

Elena é a típica salvadora branca, que tenta “ajudar” Mia em sua chegada em Shaker Heights mas não é capaz de entender como sua abordagem (ao oferecer a casa por um preço mais baixo, ao contratá-la como “governanta” – para não chamar de empregada) é ofensiva, sendo uma representação do racismo estrutural. Além disso, ela tem uma relação problemática com a filha mais nova, Lizzie, que foge de todos os padrões de comportamento que Elena espera. Com o desenrolar da trama, entendemos que Lizzie nunca foi desejada, e o peso da maternidade e a responsabilidade em criar 4 filhos afastou Elena de sonhos profissionais e aventuras que ela não teve coragem de viver.

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Mia, por sua vez, é uma mulher cheia de mistérios. Ela não fala sobre seu passado, não divide com Pearl informações sobre seu pai e é bastante reservada. Em nome do desejo de Pearl em ter um lugar fixo para chamar de lar, ela aceita trabalhar meio-turno para os Richardson e alugar a casa deles, ainda que isso exija que ela lide com a condescendência de Elena. A trama ganha intensidade quando sua colega de trabalho em seu segundo emprego, Bebe, revela que foi obrigada a abandonar sua bebê recém-nascida porque não tinha dinheiro para alimentá-la, mas que faria de tudo para tê-la de volta. Mia reconhece a descrição de Bebe na filha adotiva da melhor amiga de Elena e resolve interferir, emprestando dinheiro a Bebe para a abertura de um processo judicial. Esse plot é o que toca o dedo na ferida a respeito da xenofobia, e um episódio ilustra de maneira cirúrgica a diferença que alguns poucos centavos exercem na vida de uma pessoa de cor (Bebe, uma imigrante chinesa) e uma pessoa branca.

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Apesar dos temas relevantes e bem construídos, teve uma coisa em Little Fires Everywhere que não funcionou comigo: a dupla de protagonistas. A Elena de Reese Whiterspoon é uma versão mais fútil de sua personagem em Big Little Lies, enquanto a Mia de Kerry Washington tem uma série de tiques que me deixaram agoniada. Eu não consegui me afeiçoar a nenhuma das duas, e isso é uma das coisas que levo em consideração quando estou consumindo uma obra: é difícil eu me envolver 100% quando os personagens não me causam nenhum tipo de sentimento.

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Fora essa pequena ressalva, recomendo muito que você dê uma chance a Little Fires Everywhere. A trama gira em torno de temas que causam desconforto e fazem o espectador refletir, não utilizando uma abordagem maniqueísta para falar de nenhum desses assuntos. Expondo as fragilidades de famílias “perfeitas”, colocando em xeque nossas crenças sobre maternidade e jogando na nossa cara o racismo estrutural que dá oportunidades muito diferentes aos indivíduos (como é brilhantemente apontado por Mia em um diálogo ácido com Elena), Little Fires Everywhere certamente vai deixar você intrigado e pensativo. Vale a pena! 😉

Título original: Little Fires Everywhere
Ano de lançamento: 2020
Criador: Liz Tigelaar
Elenco: Reese Whiterspoon, Kerry Washington, Lexi Underwood, Joshua Jackson, Megan Stott, Jade Pettyjohn, Gavin Lewis, Jordan Elsass, Rosemarie DeWitt, Huang Lu

Dica de Série: Disque Amiga Para Matar

Oi gente, tudo bem?

Hoje vim falar a respeito de uma grata e inesperada surpresa que a Netflix me ofereceu: a série Disque Amiga Para Matar (ou Dead to Me, na versão original).

disque amiga para matar

Sinopse: Uma viúva furiosa procura quem estava ao volante do carro que matou seu marido e fica amiga de uma otimista excêntrica – mas ela não é bem o que parece.

Ao perder o marido em um acidente de carro, a sarcástica Jen passa a frequentar um grupo de apoio ao luto. Lá ela conhece Judy, que parece ser seu exato oposto: extrovertida e good vibes. Conforme elas se aproximam, uma amizade surge e elas encontram conforto para suas perdas uma na outra. Acontece que Judy esconde segredos que ameaçam colocar essa relação a perder.

Disque Amiga Para Matar (ou Dead to Me, no original) já me ganhou no trailer. A acidez de Jen contrasta de forma tão gritante com a amabilidade de Judy que é impossível resistir à vontade de conferir como essa amizade vai se desenrolar. Além disso, os segredos de Judy trazem a dose certa de suspense e aflição que fazem você dar play no próximo episódio. A duração curta dos episódios (cerca de 30 minutos) também torna Disque Amiga Para Matar uma série fácil de maratonar, apesar de girar em torno do luto.

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Embora seja uma série de comédia, existem diversos momentos emocionantes ao longo das duas temporadas. A dupla de protagonistas carrega um grande peso nas costas: ao perder o marido de forma súbita, Jen se encontra sozinha e perdida, mas com a responsabilidade de manter seus dois filhos em segurança (física e emocional); Judy, por sua vez, tem um histórico de abortos que a separam do sonho de ser mãe, além de uma relação cheia de idas e vindas com Steve, seu ex-noivo. Essas dores unem as duas e rapidamente Judy passa a fazer parte da vida de Jen e sua família. Não são raras as cenas em que vemos a vulnerabilidade da dupla e ficamos com vontade de chorar junto com elas.

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Aliás, esse é um ponto forte que merece ser exaltado: as atuações de Christina Applegate e Linda Cardellini são maravilhosas e versáteis. Eu só as conhecia de Friends (Christina interpretou Jill, a irmã de Rachel) e Scooby Doo (Linda interpretou Velma) e não fazia ideia do potencial de ambas. Christina Applegate consegue equilibrar o sarcasmo e o gênio difícil de Jen com momentos de fragilidade, enquanto Linda Cardellini traz profundidade e ambiguidade à doçura de Judy. As atrizes têm uma química que funciona perfeitamente, além de esbanjarem carisma.

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Disque Amiga Para Matar também flerta com assuntos mais sérios. Além de abordar a temática do luto – situação complexa e multifacetada por si só –, existem muitas cenas girl power e exposição de comportamento abusivo ao longo das duas temporadas já disponíveis (com uma terceira temporada final a caminho). Jen e Judy são mulheres fortes, e seus momentos de vulnerabilidade não diminuem essa característica, mas a reforçam. Na segunda temporada, Jen enfrenta uma situação de assédio e tem a coragem de denunciar de cabeça erguida, o que é muito inspirador. Judy, por outro lado, vai revelando aos poucos os sinais de uma relação abusiva que começa na infância e se estende pelos seus relacionamentos afetivos. Apesar de não girar em torno desses temas, a série deixa clara a perspectiva feminina nessas situações. É possível dizer que todo o relacionamento das duas é pautado em três pilares: remorso, cumplicidade e sororidade.

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Disque Amiga Para Matar é uma comédia que chegou de forma despretensiosa e me fisgou. Com o equilíbrio perfeito de humor ácido, atuações impecáveis e um pouquinho de caos, a série é um entretenimento no qual vale a pena investir o seu tempo. Bora dar o play? 😉

Título original: Dead to Me
Ano de lançamento: 2019
Criador: Liz Feldman
Elenco: Christina Applegate, Linda Cardellini, James Marsden, Sam McCarthy, Luke Roessler

Dica de Série: Say I Do

Oi pessoal, tudo bem?

Prontos pra uma dica perfeita pra aquecer o coração? Hoje vamos conversar sobre Say I Do (ou, na versão em português, Finalmente… Sim!), um reality show da Netflix focado em casamentos.

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Sinopse: Neste reality show, casais devem superar obstáculos para celebrar o amor com uma festa de casamento surpresa preparada por três especialistas em menos de uma semana.

Quando recebi a recomendação de Say I Do, a frase que me convenceu a dar uma chance foi “é a Queer Eye dos casamentos”. Já deixei claro aqui no blog o quanto eu amo Queer Eye, então não é surpresa que eu tenha corrido para dar o play na sua “contraparte casamenteira”. E, apesar de eu costumar levar um tempinho pra mergulhar de cabeça num reality (por sentir a necessidade de entender a dinâmica e me conectar aos “apresentadores”), Say I Do conseguiu me conquistar rapidamente.

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De fato, o reality bebe muito na fonte de Queer Eye, já que compartilha de seu criador em comum. Say I Do tem como protagonistas três homens gays competentes e criativos: Jeremiah (expert em design), Thai (estilista) e Gabe (chef de cozinha). Cada episódio é focado em um casal que os três precisam ajudar. Os apaixonados de cada episódio são ótimos exemplos de representatividade: há casais negros, casais gays e, no caso dos casais hétero, existe a subversão do estereótipo da mulher como a organizadora do casamento – aqui isso fica a cargo do homem, responsável inclusive pela inscrição no reality.

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Falo com tranquilidade que é impossível não se emocionar assistindo Say I Do. Eu sou chorona, admito, então em 7 dos 8 episódios eu fui às lágrimas (de modo abundante, vale dizer). Mas mesmo se você não faz o tipo chorão, tenho certeza de que ainda assim os episódios vão aquecer seu coração. As histórias dos casais são emocionantes e transbordam amor, afeto e, em muitos casos, superação: há uma noiva que precisa superar o luto pela perda do pai e da irmã; há um jovem que venceu o câncer e atribui grande parte da sua recuperação ao amor do parceiro; há um homem gay que ainda internaliza uma homofobia que o impede de viver a vida plenamente, entre outras histórias comoventes. E é claro que Jer, Thai e Gabe dão o seu melhor para tornar o casamento um dia único de amor e celebração, além de oferecer conselhos e ombro amigo em vários momentos.

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Além das histórias, é muito legal acompanhar o processo criativo dos três em suas respectivas áreas. O trabalho do Jeremiah foi o que mais chamou a minha atenção, o que lembrou um pouco minha relação com Bobby, o designer de Queer Eye, responsável pela transformação dos lares. Eu fico de queixo caído com o que eles conseguem fazer em tão pouco tempo, e no caso de Jeremiah ele constrói cenários deslumbrantes e únicos para cada celebração. Agora, em nível de conexão pessoal, a mais forte aconteceu com Thai: ao longo dos episódios ele vai dando pistas de que o assunto “casamento” tem um peso importante na sua vida e vamos compreendendo que, por questões familiares e culturais, ele ainda não pode realizar esse sonho. É bastante emocionante e no episódio final (o meu favorito da temporada!) ficam bem mais claros os desafios que ele enfrenta.

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Resumindo, Say I Do é um reality show perfeito pra quem quer acreditar no amor. Em meio à tanta desesperança, eu fico bastante grata quando encontro uma produção que me mostra o melhor dos sentimentos e das pessoas. Em apenas 8 episódios, Say I Do fez isso com competência e carisma. Recomendo muito! ❤

Título original: Say I Do
Ano de lançamento: 2020
Criador: David Collins
Elenco: Jeremiah Brent, Gabriele Bertaccini, Thai Nguyen

Dica de Série: Peaky Blinders

Oi galera, tudo bem?

Já que o isolamento me obriga a passar quase todo o tempo livre na frente da TV (como se eu já não fizesse isso antes), vim contar pra vocês o que achei de uma das séries que a que assisti recentemente: Peaky (“focking” – sim, com “o”) Blinders.

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Sinopse: Uma notória gangue da Inglaterra de 1919 é liderada pelo cruel Tommy Shelby, um criminoso disposto a subir na vida a qualquer preço.

Ambientada no início do século XX, a série dramatiza a história do grupo criminoso de mesmo nome. A gangue Peaky Blinders realmente existiu, mas sua influência na vida real foi bem menor. Nas telas, entretanto, vemos a ascensão do grupo – comandado por Thomas Shelby – nos territórios de corridas e apostas ilegais e, posteriormente, com outros tipos de contrabando.

Peaky Blinders é capaz de transportar o espectador para o tempo na qual se passa, dos cenários sujos de fuligem aos figurinos típicos da época. A produção, que se passa pouco depois da Primeira Guerra Mundial, trata de assuntos como Transtorno do Estresse Pós-Traumático, luta de classes, greves operárias, popularização de ideais comunistas, corrupção policial e, é claro, muita violência. Por meio de movimentos estratégicos inteligentes, mas também inúmeras lutas sangrentas com outras gangues e rivais, Thomas guia os Peaky Blinders por um caminho que os eleva a “donos” de Birmingham. Conforme as temporadas avançam, os Shelby buscam expandir seu território, entrando em conflito com outros gângsters e até mesmo com nomes importantes da política inglesa.

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Com a ressalva de ser uma série bastante focada na “virilidade” dos irmãos Shelby (aspecto que pode causar uma reviradinha de olho), Peaky Blinders tem um desenrolar bastante envolvente. A busca de Thomas por ascensão o coloca em diversas situações em que a sagacidade se faz necessária. Entre alianças e traições, o líder do grupo acaba sendo um anti-herói pelo qual nos vemos torcendo. Somado a isso, especialmente na primeira temporada, há toda a tensão causada pela existência de uma infiltrada em seus negócios: Grace é uma agente da coroa que passa a trabalhar em um  dos pubs dos Shelby para fornecer informações à polícia. A tensão sexual entre ela e Thomas vai crescendo com o passar dos episódios, e as reviravoltas no final da primeira temporada são ótimas.

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É difícil dizer que os personagens são exemplares porque, afinal, a maioria deles está envolvida com merda até o pescoço. Ainda assim, as atuações competentes e o desenvolvimento gradual da trama faz com que a gente comece a empatizar com eles, especialmente quando a fragilidade oculta pela dureza do cotidiano se manifesta. Thomas, por exemplo, é um líder implacável, mas também alguém atormentado pelas lembranças da guerra. Arthur, seu irmão mais velho, é um dos personagens mais emocionalmente quebrados da série: ele se questiona por não ser o líder da família (apesar de ser o primogênito), busca consolo nas brigas e na bebida, se envolve com drogas, enfim… tem diversos problemas emocionais com os quais ele não sabe lidar. E, com o passar dos episódios, a série vai revelando as nuances dos outros personagens também – com um foco maior, é claro, em Tommy.

Peaky Blinders trabalha bem a realidade e as dificuldades vividas pela sociedade inglesa no início do século XX. As cenas de violência podem incomodar um pouco os mais sensíveis, mas não chegam nem perto de ser grotescas ou gore. A qualidade da produção – da trama às atuações e ambientação – é inegável, e se você procura uma série capaz de envolver e transportar você pra realidade de outrora, vale a pena dar uma chance. 🙂

Título original: Peaky Blinders
Ano de lançamento: 2013
Direção: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson (XVIII), Annabelle Wallis, Joe Cole