Dica de Série: Inacreditável

Oi pessoal, tudo certo?

No finzinho do ano passado conferi uma série poderosa da Netflix – mas muito difícil de assistir, tamanha a dor envolvida na trama: Inacreditável.

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Sinopse: Uma jovem é acusada de falsa denúncia de estupro. Anos depois, duas investigadoras encaram casos assustadoramente parecidos. Série inspirada em fatos reais.

Inacreditável é uma dramatização em 8 episódios de uma reportagem (vencedora do prêmio Pulitzer) que narra a história de uma jovem acusada de falsa denúncia de estupro. A série conta essa história por meio de duas linhas temporais: 2008 e 2011. Em 2008, Marie Adler é estuprada em seu próprio dormitório durante a madrugada. Ao acionar as autoridades, a menina tem dificuldade de lembrar detalhes do ocorrido, e a abordagem é bastante invasiva. Pela falta de evidências físicas e pelas ditas inconsistências no discurso de Marie, a dupla de detetives (homens) responsável pelo caso conduz a investigação de modo que Marie simplesmente desiste de contar a sua história, afirmando ter mentido. Para piorar a situação, o Estado decide processá-la por falso testemunho, o que impacta na vida da jovem em diversas instâncias. Em 2011, em outra parte do país, a detetive Karen Duvall atende a um caso de estupro muito semelhante ao de Marie (ainda que na época ela não saiba disso). Conversando com seu marido, também policial, ela descobre que outra detetive, a experiente Grace Rasmussen, também está lidando com um caso parecido. Karen procura Grace e ambas percebem que as semelhanças nos casos não podem ser coincidência, fundindo as investigações e chegando ao culpado (isso não é spoiler, faz parte do caso real).

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Inacreditável é uma série de paralalelos. Paralelos entre a maneira irresponsável e negligente com que os policiais cuidaram do caso de Marie versus a empatia e a sensibilidade das investigadoras em 2011, que perseguiram o estuprador serial. Paralelos entre as falas das pessoas que circundavam Marie, duvidando de sua história e posicionando-se ao lado do sistema versus a revolta de Karen e Grace ao perceber como seus colegas lidaram com os casos. Paralelos até mesmo entre a forma de lidar com a agressão: enquanto Marie teve dificuldade para lembrar dos detalhes, Amber (a vítima do caso de Karen) podia dar informações precisas. E a série deixa claro como cada reação é particular: outras vítimas também bloquearam completamente a memória do ocorrido (sendo inclusive um mecanismo de defesa do cérebro), mas não foram desacreditadas por isso – diferente do que ocorreu no caso de Marie, em que os envolvidos (tanto os investigadores quanto sua família) não tinham sensibilidade suficiente para entender isso.

Esses paralelos permeiam todos os episódios, que vão e voltam entre 2008 e 2011, deixando o espectador ainda mais desconfortável ao assistir o abismo que existe no tratamento e na condução dos casos. Os dois primeiros episódios evidenciam isso, com uma diferença gritante entre o caso de Marie (hostilizada pela polícia, tratada sem nenhuma delicadeza no hospital e desacreditada pela família) e o caso de Amber (que teve acompanhamento de Karen o tempo todo, além do reforço de que as decisões dela não precisam de justificativa e que ela tem o poder sobre elas – algo que vítimas de estupro sentem que foi tirado delas, o poder sobre o próprio corpo).

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Inacreditável ainda levanta uma discussão pertinente até hoje: ninguém questiona a veracidade de um sequestro, ninguém questiona a veracidade de um assalto. Por que se questiona a veracidade de uma agressão sexual? É um reflexo da cultura do estupro, em que o corpo feminino não é visto como dono de si mesmo, mas sim como parte do prazer masculino, como algo que serve, que está disponível. Marie Adler não foi violentada somente na ocasião do estupro; ela foi violentada pela polícia, pelo sistema e pelas pessoas de seu círculo social. E presenciar o sofrimento silencioso da personagem expõe uma verdade difícil de aceitar: a de que nossa palavra não tem valor. Assistir Inacreditável torna mais fácil de entender porque tantas mulheres hesitam em denunciar seus agressores; quem garante que elas não passarão por uma lente de aumento, em busca de suas fragilidades ou “inconsistências” discursivas? É compreensível que, após sofrer uma violência tão permanente, as vítimas não queiram vivenciar detalhe por detalhe ao fazer uma denúncia (o que faz nosso estômago revirar quando vemos as autoridades obrigando Marie a reviver cada detalhe do estupro).

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Outro ponto positivo de Inacreditável reside no fato de que a produção não explora visualmente os estupros. Existem flashbacks que, sim, são perturbadores, mas que não utilizam o corpo das vítimas como produto. Mesmo quando Karen e Grace conseguem encontrar as fotografias que o estuprador serial tirava de suas vítimas, a câmera passa muito mais tempo concentrada nas expressões faciais das duas. Confesso que, em determinado momento as fotos são mostradas rapidamente e, pra mim, isso não era necessário. Achei mais poderoso enquanto a luz ia piscando no monitor, com o foco no rosto das detetives. Ainda assim, a série trata o assunto com muito respeito, dando destaque a todas as mulheres que fizeram parte daquela história. Ter uma mulher como diretora de uma história assim fez toda a diferença.

Também é impossível não elogiar as atuações. Merritt Wever, que eu conhecia de The Walking Dead, dá vida a uma Karen sensível, comprometida e profundamente empática. A personagem é uma detetive que não mede esforços para fazer seu trabalho e dar suporte às vítimas. Uma de suas cenas, em que ela repreende a falta de urgência de um de seus colegas (homens), é impactante. Toni Collette também está fantástica como Grace, uma detetive badass com uma carreira extensa e admirável. A relação das duas não engrena de início, mas elas aprendem a lidar com a personalidade (tão diferente) uma da outra e se tornam uma dupla incansável. Grace também se mostra uma mulher generosa e aplica a sororidade na prática, ao deixar Karen (ainda construindo sua reputação) brilhar. Kaitlyn Dever impressiona como Marie, trazendo todas as nuances de uma personagem cujo sofrimento não era compreendido. Revolta, tristeza e solidão são alguns dos sentimentos que a atriz transmite na fala, no olhar e na linguagem corporal. Esse comportamento também aparece na atuação de Danielle Macdonald, que interpreta Amber. Eu só conhecia a atriz de Dumplin’ e fiquei admirada com a sua performance.

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Não é fácil assistir Inacreditável, ainda mais se você for mulher. A série retrata uma violência física e sistêmica que causa um sentimento de revolta e de impotência, mas também dá voz a mulheres fortes e que sobreviveram às mais diversas dificuldades. É uma produção que coloca as mulheres no centro da narrativa, mas também nos obriga a encarar uma dor que é legitimada por discursos ainda utilizados (duvido que você nunca tenha lido ou ouvido algo semelhante a “ah, mas saiu com essa roupa? Tava pedindo”). Não é fácil lidar com uma trama tão intensa e dolorida, mas é imprescindível que esse tema seja abordado. Torço para que a reflexão proporcionada chegue em quem ainda não entendeu que nossos corpos pertencem somente a nós.

Título original: Unbelievable
Ano de lançamento:
2019
Direção:
Susannah Grant
Elenco: 
Kaitlyn Dever, Merritt Wever, Toni Collette

Dica de Série: Safe

Oi pessoal, tudo bem?

Harlan Coben é um autor mega popular entre os fãs de livros policiais, e agora ele também roteirizou uma minissérie da Netflix, Safe. Hoje eu te conto o que achei dela. 😉

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Sinopse: Após o desaparecimento de sua filha mais velha, um cirurgião viúvo faz descobertas terríveis sobre pessoas bem próximas.

Safe narra a busca de Tom Delaney, um pai viúvo cuja filha mais velha, Jenny, desaparece após sair para uma festa com os amigos em uma das casas do condomínio fechado onde vivem. A comunidade fica ainda mais inquieta quando, além do sumiço de Jenny, seu namorado, Chris, é encontrado morto. Tom então coloca todos os seus esforços em investigar o paradeiro da filha, tendo como apoio seu melhor amigo, Pete, e a detetive Sophie (sua vizinha e envolvimento amoroso).

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Eu amo histórias policiais com todas as forças. Basta ter um sumiço ou uma morte misteriosa que eu já fico enlouquecida querendo maratonar (seja livro, seja série). Safe tem uma premissa bem legal e os episódios mostram flashbacks da noite da festa, de modo que a curiosidade sobre o destino de Jenny é crescente. Ao longo dos 8 episódios que compõem a minissérie vamos descobrindo segredos que a garota esconde – não somente sobre si mesma, mas sobre sua própria família. E fica evidente que apesar da suposta segurança oferecida pelo condomínio, muitos dos problemas estão na verdade no lado de dentro de suas grades.

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Apesar da premissa instigante, Safe sofre com algumas reviravoltas dignas de novela mexicana. Eu nunca li nada do Harlan Coben, então fica difícil dizer se a obra original também tem esse problema ou se a adaptação não conseguiu tornar certas situações mais verossímeis no curto espaço de episódios disponíveis. Existem momentos que a única reação possível é o meme “não pode c”, sinceramente: um corpo sendo encoberto da maneira mais burra possível, um médico metido a McGyver no meio da quebrada e um plot meio DNA no Programa do Ratinho são alguns exemplos disso.

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As atuações também não brilham, sendo raros os momentos em que algum personagem conquista simpatia. O próprio protagonista não tem muito carisma, e isso que ele é interpretado pelo Michael C. Hall, que ganhou meu coração em Dexter. Foi a primeira vez que o vi em um papel diferente e infelizmente não fiquei impressionada. Por outro lado, elogio o fato da série trazer personagens que transitam em uma zona cinza, com qualidades e defeitos facilmente encontrados fora da ficção.

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Não posso negar que há diversas tosquices de Safe, mas também preciso admitir que a série tem um bom ritmo e consegue prender a atenção. Porém, fiquei curiosa pra saber se os livros do Harlan Coben são mais verossímeis, porque não foi apenas uma vez que eu me perguntei “sério que isso é Harlan Coben?” rs. Resumindo, não é uma série perfeita, mas é ágil e entretém. Se você estiver de bobeira e quiser um entretenimento rápido e com temporada única, pode ser uma boa opção.

Título original: Safe
Ano de lançamento: 2018
Direção: Harlan Coben, Danny Brocklehurst
Elenco: Michael C. Hall, Amanda Abbington, Marc Warren, Amy James-Kelly, Hannah Aterton, Audrey Fleurot

Review: Frozen 2

Oi pessoal, tudo bem?

Seis anos depois da estreia do icônico Frozen, finalmente sua sequência chegou aos cinemas, e eu corri pra conferir. Fiquem tranquilos que o review não tem spoilers!

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Sinopse: De volta à infância de Elsa e Anna, as duas garotas descobrem uma história do pai, quando ainda era príncipe de Arendelle. Ele conta às meninas a história de uma visita à floresta dos elementos, onde um acontecimento inesperado teria provocado a separação dos habitantes da cidade com os quatro elementos fundamentais: ar, fogo, terra e água. Esta revelação ajudará Elsa a compreender a origem de seus poderes.

Tudo parece bem em Arendelle. Elsa governa com carinho e sabedoria, Anna (que segue em um relacionamento com Kristoff) está sempre ali para apoiar a irmã e as coisas seguem seu curso em paz. Porém, quando Elsa começa a ouvir uma voz misteriosa e manifestações estranhas da natureza passam a ocorrer em seu reino, as duas irmãs descobrem que há um segredo oculto sobre o passado de Arendelle. Para descobri-lo – e acalmar os elementos que perturbam o reino –, Elsa e Anna terão que adentrar a chamada Floresta Encantada, cuja névoa a separa do resto do mundo desde que seu povo e o povo nativo da floresta guerreou, há muitos e muitos anos. Nesse processo elas aprendem não apenas sobre o conflito de seus ancestrais, mas também sobre si mesmas.

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Frozen 2 traz um novo elemento à mitologia pouco explorada no primeiro filme: agora somos apresentados ao conceito de que existem espíritos da natureza responsáveis pelo fogo, pelo ar, pela terra e pela água. Esses espíritos estão inquietos e demandam de Elsa e Anna que elas descubram a verdade sobre o conflito entre o exército de Arendelle e o povo de Northuldra que, teoricamente, estavam confraternizando em paz. Uma vez dentro da Floresta Encantada, o grupo carismático que tanto nos conquistou no primeiro longa (formado por Elsa, Anna, Kristoff, Sven e Olaf) se depara com as pessoas que estiveram presas durante todos esses anos e percebem que mesmo para elas o motivo do conflito não era claro. Esse plot promove às jovens uma jornada de aprendizado a respeito do passado de seus pais e da sua verdadeira origem.

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Se Frozen é um filme sobre autoaceitação, Frozen 2 é sobre identificação, sobre a busca do seu lugar no mundo. O primeiro longa termina com Elsa em um lugar feliz, mas ainda assim deslocado. Sem saber de onde vem sua magia (e mesmo o porquê dela ser mágica), a jovem não sabe exatamente qual o seu propósito. Em Frozen 2, entretanto, Elsa parte em uma missão própria que não é motivada apenas pelo desejo de salvar Arendelle, mas também para descobrir mais sobre si mesma e seu papel. Essa jornada confere mais complexidade à personagem, que desde o primeiro filme já era interessante. Outro ponto positivo desse plot é que ele serve para romper o cordão umbilical que conecta Elsa a Anna – por mais que o amor entre as irmãs seja lindo e admirável, eu honestamente fico meio cansada da Anna correndo atrás da Elsa que nem uma desesperada. É sufocante!

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Frozen 2 também é um filme muito engraçado. Olaf é, obviamente, um dos pontos altos da sequência, e ele protagoniza a MELHOR CENA de retrospectiva possível. Fica a dica: o filme tem cena pós-créditos e vale a pena esperar! Mas Olaf não é o único responsável pelas minhas risadas; a cena musical do Kristoff é constrangedoramente engraçada e remete a clipes dos anos 80-90 (eu ri pra caramba!). Já Elsa vivencia uma cena que homenageia e ao mesmo tempo brinca com o primeiro longa, ironizando alguns momentos dramáticos e divertindo ao mesmo tempo. Outro aspecto que merece elogios é a direção de arte: Frozen 2 é um filme deslumbrante. Dos novos figurinos aos ricos detalhes do cenário, cada cena é um deleite visual. Os flocos de neve deixam de ser as únicas estrelas e a Floresta Encantada torna-se o palco de momentos incríveis, com suas folhas coloridas pelo outono. Amei cada detalhe!

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Porém, o filme não é perfeito. Existem dois detalhes que preciso pontuar: o primeiro é referente à trilha sonora. Apesar de ter músicas excelentes (e muitas delas usam o mesmo campo harmônico das canções do primeiro filme, ativando a nossa memória afetiva), a verdade é que não existe uma “Let it Go” em Frozen 2. Nenhuma música me desagradou, mas nenhuma marcou o suficiente pra me fazer sair cantando após a sessão. O segundo aspecto é referente à falta de plot twist: não há um vilão em Frozen 2, não há uma revelação que faça cair o queixo ou um momento de aflição que nos faça temer pelos personagens. O filme transita em um terreno muito seguro e acaba sendo um pouco previsível por conta disso (foi fácil descobrir os dois elementos revelados no longa). Apesar disso, a trama não deixa de ter brilho próprio, porque a jornada de crescimento de Elsa e Anna compensa a falta de surpresas.

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Frozen 2 é uma ótima sequência, que aprofunda a mitologia iniciada no primeiro longa e promove a evolução de suas protagonistas. É nítido o quanto Elsa e Anna crescem no final, assumindo papeis que se encaixam com aquilo que elas acreditam e defendem. E, é claro, reforça a ideia de que o amor nos conecta de qualquer lugar, sendo uma força que motiva e impulsiona mesmo nos momentos mais escuros. Apesar de não ser tão marcante quanto o primeiro filme, Frozen 2 é uma experiência que enriquece muito esse universo (não mais tão) congelado que amamos. ❤

Título original: Frozen II
Ano de lançamento: 2020
Direção: Jennifer Lee, Chris Buck
Elenco: Kristen Bell, Idina Menzel, Josh Gad, Jonathan Groff, Sterling K. Brown, Evan Rachel Wood

Review: Star Wars: A Ascensão Skywalker

Oi pessoal, tudo bem?

Finalmente Star Wars: A Ascensão de Skywalker chegou aos cinemas, encerrando a trajetória da família mais problemática da galáxia. 😂 E podem ficar tranquilos que a resenha não tem spoilers!

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Sinopse: Com o retorno do Imperador Palpatine, todos voltam a temer seu poder e, com isso, a Resistência toma a frente da batalha que ditará os rumos da galáxia. Treinando para ser uma completa Jedi, Rey (Daisy Ridley) ainda se encontra em conflito com seu passado e futuro, mas teme pelas respostas que pode conseguir a partir de sua complexa ligação com Kylo Ren (Adam Driver), que também se encontra em conflito pela Força.

Para falar do episódio IX, preciso esclarecer um ponto: eu não espero de Star Wars roteiros mega complexos e disruptivos. Considero a saga um dos exemplos mais clássicos da jornada do herói e, portanto, não me importo muito que existam alguns clichês do gênero. Com isto posto, devo dizer que curti o longa, apesar dele não ser perfeito.

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O terceiro episódio da nova trilogia traz os personagens principais em momentos decisivos de sua jornada: Poe e Finn estão em busca de informações que possam ajudar a derrotar a Primeira Ordem, Rey está treinando com Leia para se tornar uma Jedi e Kylo Ren (agora líder da Primeira Ordem, após o assassinato de Snoke) se torna aliado de um inimigo poderoso que não esperávamos re-encontrar: Palpatine, que de alguma forma conseguiu ressurgir dos mortos graças ao Lado Negro da Força. Porém, os vilões têm planos dissonantes: Palpatine deseja a morte de Rey, enquanto Kylo Ren deseja trazê-la para o Lado Negro. O filme ganha fôlego quando Rey e seu grupo decidem ir atrás do esconderijo dos seus inimigos em um planeta chamado Exegol, a mesma missão que Luke Skywalker um dia tentou cumprir.

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Se tem uma coisa que não falta em A Ascensão de Skywalker é guerra nas estrelas (ba dum tss). O filme conta com muitas cenas de ação, desde batalhas aéreas até ótimas coreografias com sabres de luz. A conexão de Kylo e Rey permanece aqui, e o rapaz insiste em plantar dúvidas na mente da protagonista – especialmente relacionadas à sua verdadeira origem, finalmente revelada. Pra mim, ambos os personagens mantiveram a coerência e traçaram caminhos condizentes com o que foi apresentado até então. Rey enfrenta questionamentos e inseguranças relacionadas à sua identidade, mas a jornada de Kylo acaba sendo mais cheia de camadas e rende uma das cenas mais bonitas do filme (tem uma frase ali que dificilmente não vai emocionar). Seu caminho bifurcado, que poderia ou guiá-lo para a liderança de um novo império ou para a redenção, é bem interessante e vinha sendo trabalhado desde que o personagem decidiu matar o próprio pai no episódio VII. Porém, gostaria que Kylo Ren tivesse tido mais protagonismo e tempo de tela – o que daria ainda mais peso ao seu arco (que é provavelmente meu favorito).

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Devo confessar que logo que Palpatine é revelado como o verdadeiro maestro por trás da Primeira Ordem, torci o nariz. Reciclar um personagem icônico e subitamente dar a ele uma frota de naves poderosíssimas e destruidoras de planetas foi conveniente demais. Porém, acabei decidindo entrar no modo “let it go” quanto a isso, afinal, não é difícil encontrar incoerências no roteiro de todos os filmes de Star Wars. Ainda abordando aspectos que me incomodaram, teve um elemento que eu curti muito e foi abandonado: a ideia apresentada no filme anterior de que a Força pode ser exercida por qualquer um, e não apenas pelas “figurinhas carimbadas” cujo sobrenome tem poder. Essa disrupção do conceito da Força foi algo muito interessante de Os Últimos Jedi, e trazer a linhagem para o centro da narrativa soou como um retrocesso. 😦

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Vale ressaltar que A Ascensão de Skywalker traz um lembrete bem interessante, especialmente quando pensamos sobre a realidade política que vivemos hoje: o mal vence nos fazendo pensar que estamos sozinhos. É a esperança que motiva a Aliança Rebelde, que faz com que exista uma resistência e que pessoas se coloquem em risco pela causa. Ainda que Star Wars nunca aborde com maior profundidade as questões políticas e sociais causadas pelo sistema totalitário (ora do Império, ora da Primeira Ordem), essa mensagem é algo bacana de ser transmitido.

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Eu entendo quem diz que o filme é uma reciclagem de ideias antigas e remonta a mesma estrutura dos longas anteriores. Pra mim, entretanto, isso não chegou a se tornar um problema (ainda que eu tenha gostado muito das ousadias de Os Últimos Jedi, que é menos maniqueísta e transita em uma zona muito mais cinza). Eu curti o ritmo do filme, as ótimas cenas de ação, o desfecho dos personagens e suas decisões. Como disse inicialmente, não espero muito brilhantismo de Star Wars, e sim um filme de ação que me cative e empolgue – o que A Ascensão de Skywalker conseguiu fazer. Saí do cinema satisfeita e já sentindo aquela pontinha de saudades dos personagens – novos e antigos.

Título original: Star Wars: The Rise of Skywalker
Ano de lançamento: 2019
Direção: J. J. Abrams
Elenco: Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Mark Hamill, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Jonas Suotamo, Anthony Daniels

Review: Klaus

Oi gente, tudo bem?

Chega o final de ano e a onda de filmes natalinos chega junto. Apesar de eu não curtir muito esse tipo de longa, um deles chamou imediatamente minha atenção: a animação Klaus.

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Sinopse: Um carteiro egoísta e um fabricante de brinquedos solitário cultivam uma amizade improvável e levam alegria a uma cidade fria e sombria.

A primeira coisa que reparei em Klaus é que o traço do filme remete às produções da Disney na década de 90 e início dos anos 2000. E não é pra menos: o responsável por Klaus trabalhou como animador da empresa e, inclusive, fez um dos filmes favoritos, Planeta do Tesouro. ❤ Só nesse aspecto Klaus já ganhou alguns pontos comigo, porque sinto muita falta de animações 2D – e, nesse caso, a arte ainda tem alguns diferenciais em relação àquela época, tornando o filme visualmente encantador.

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A trama acompanha o jovem Jesper, o preguiçoso e mimado herdeiro de uma grande empresa de correios. Seu pai, cansado de dar diversas chances ao filho, decide enviá-lo como carteiro a uma cidade isolada, Smeerensburg, onde Jesper precisa permanecer por um ano trabalhando seriamente caso queira voltar à vida mansa que levava. Chegando lá, o rapaz percebe que seu ofício é desnecessário, já que o ódio e o rancor tomam conta da cidade devido a uma rixa antiga entre duas famílias e, portanto, ninguém envia cartas. Ao conhecer Klaus, um velho marceneiro que vive na floresta, Jesper acaba provocando uma situação inesperada: ao entregar um brinquedo feito por Klaus a uma criança, a notícia se espalha entre os pequenos e todos começam a enviar cartas na esperança de ganhar um presente também. E é assim que a parceria entre os dois começa.

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Klaus é o filme sobre o Papai Noel mais criativo a que já assisti. O longa ressignifica todos os aspectos da mitologia original e, ainda assim, reconhecemos claramente as referências presentes na trama. É muito divertido acompanhar cada cena e entender qual aspecto do personagem está sendo revelado, especialmente pela forma inesperada que muitas delas acontecem. A cena do trenó voador, por exemplo, é de arrancar risadas!

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Os personagens são carismáticos e têm papéis importantes a cumprir. Jesper é o clichê do egoísta que se transforma, mas seu carisma e jeito atrapalhado nos conquistam; Klaus é o personagem cujas dores são apresentadas, mas também seu coração gigante e sua vontade de fazer o bem; Alva é uma professora sem esperança que acaba sendo tocada pelo movimento iniciado (ainda que sem querer) por Jesper; e até a briga dos vilões acaba sendo divertida.

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A trama se desenrola de maneira cativante, e as mudanças que acontecem com os personagens são graduais e críveis. Aos poucos, a própria cidade vai se transformando, sendo tocada pelos atos generosos do homem misterioso que entrega brinquedos às crianças. São elas, inclusive, que aproximam os adultos e mostram que a rixa secular já está mais do que ultrapassada. Os personagens principais não escapam desse processo e, pouco a pouco, se veem como parte daquela comunidade, que abre mão das brigas sem fim em nome da empatia e da generosidade.

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Klaus é um filme doce, engraçado e emocionante, que vai muito além do conceito simplista de ser um filme de Natal. É uma história sobre mudanças (externas e internas) e sobre o poder da gentileza. Da animação à trama, Klaus encanta em cada detalhe, nos levando das risadas às lágrimas e deixando a sensação de que assistimos a algo incrível. O que é a mais pura verdade. ❤

Tìtulo original: Klaus
Ano de lançamento: 2019
Direção: Sergio Pablos
Elenco: Jason Schwartzman, J. K. Simmons, Rashida Jones, Joan Cusack, Will Sasso, Norm Macdonald, Neda Margrethe Labba

Dica de Série: The Boys

Oi gente, tudo bem?

Com a chegada do Amazon Prime (que eu corri pra assinar pois: só R$ 9,90 por mês rs), resolvi explorar as produções oferecidas na plataforma. E a primeira delas foi The Boys, que estava sendo muito elogiada pela crítica. Hoje conto pra vocês o que eu achei. 😀

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Sinopse: The Boys é uma visão irreverente do que acontece quando super-heróis, que são tão populares quanto celebridades, tão influentes quanto políticos e tão reverenciados como deuses, abusam de seus superpoderes ao invés de usá-los para o bem. É o sem poder contra o superpoder, quando os rapazes embarcam em uma jornada heroica para expor a verdade sobre “Os Sete” com o apoio da Vought.

Em uma realidade na qual ser um super-herói virou uma profissão que gera bilhões em lucro, quão fácil é se deixar corromper pelo sistema? Em The Boys, corporações enriquecem patrocinando diversos supers, mas as verdadeiras estrelas americanas são o grupo conhecido como Os Sete: além de salvarem a população, também são estrelas de comerciais, garotos e garotas-propaganda, modelos e tudo mais que for necessário. O problema, porém, é que tanto poder nas mãos de poucos não demora a corromper esses heróis que, em tese, deveriam proteger as pessoas. Vidas humanas perdidas são tratadas como fatalidades inevitáveis, como algo que “faz parte do jogo”. E uma dessas perdas dá o start na história.

Hughie perde sua namorada de uma maneira brutal: a um passo da calçada, enquanto se despedem, a moça é literalmente explodida em pedacinhos pela ultravelocidade de um super-herói chamado A-Train, um membro dos Sete. A empresa que o patrocina, Vought, oferece uma quantia ínfima como reparação, além de exigir a assinatura de um contrato de confidencialidade. Depois de recusar a proposta, Hughie decide se vingar, mas acaba se envolvendo numa confusão com outro membro dos Sete e sendo salvo por Butcher, um homem misterioso que vinha observando a situação das sombras. Hughie descobre então que Butcher é líder de um grupo que busca desmascarar os super (como são chamados), expondo seu abuso de poder para a sociedade. Mas como enfrentar seres tão inigualavelmente fortes? Especialmente quando o líder deles, o Capitão Pátria, têm poderes equivalentes ao do Super-Homem?

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The Boys é uma grande sátira à moral imaculada comumente apresentada em histórias de super-heróis. Tendo personagens que podem ser versões debochadas tanto de figuras da Marvel quanto da DC, a série utiliza cenas gore e humor ácido para mostrar uma realidade na qual super-heróis são movidos pelo capitalismo e por interesses próprios. Mesmo aqueles que ainda não perderam a fé em fazer a coisa certa são submetidos e dobrados em algum nível ao sistema. O maior exemplo disso é Starlight, a nova membro dos Sete: a jovem sempre foi motivada por ajudar as pessoas e fazer a diferença, mas é submetida a abuso sexual e uma transformação visual causada por motivos comerciais. E nesse ponto já faço um elogio a The Boys: apesar de ter cenas de sexo, em nenhum momento o abuso sexual é gráfico, ficando apenas nas entrelinhas, mas sendo poderoso o suficiente como denúncia. Starlight é uma das melhores personagens da série porque, paradoxalmente, ela é uma das mais humanas: seu poder grandioso não a salva de sofrer as mesmas pressões psicológicas que mulheres sofrem o tempo todo; além disso, sua essência é bondosa e ela genuinamente quer usar seus poderes para o bem.

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O grupo que dá nome à série também tem elementos interessantes. Butcher odeia todos os Supers porque atribui à Vought o desaparecimento de sua mulher. Seus aliados, Leitinho e Francês, têm uma relação de gato e rato divertida de assistir. A última membro do grupo, “A Fêmea”, também é interessante, tendo um relacionamento surpreendente com o Francês. De todos, eu diria que Hughie é o mais sem graça (mas, para ser honesta, tenho ranço do seu crush na Starlight, já que aparentemente rapidinho ele esquece que acabou de perder a namorada rs).

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É impossível não falar em personagens sem mencionar Os Sete. Odiosos de diversas maneiras, todos eles têm momentos de podridão escancarada, à exceção de Starlight e, em menor escala, Queen Maeve. Porém, nenhum membro dos Sete causa tanta repulsa quanto Capitão Pátria. Tido como símbolo americano e como sinônimo de paz, o personagem é conceitualmente uma mistura de Super-Homem (pelos poderes descomunais) com Capitão América (pela vibe “orgulho americano”). Mas só conceitualmente mesmo, já que na prática ele é um verdadeiro psicopata. Tendo um relacionamento doentio com Madellyn Still, um dos nomes mais importantes da Vought, o Capitão Pátria não hesita em abusar de seus poderes, matar inocentes e ameaçar qualquer um que ouse desafiá-lo. A maior fonte de desconforto que senti ao assistir The Boys veio das cenas em que ele estava envolvido, tamanha sua falta de caráter e humanidade.

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O desenvolvimento da temporada é ágil, há muita ação e reviravoltas interessantes na trama. A série desconstrói o conceito maniqueísta das HQs, onde normalmente é tudo preto no branco, com pouco espaço para tons de cinza. Porém, como eu disse anteriormente, há cenas de sexo e momentos bem gore ao longo da temporada (com direito a sangue e tripas pra todo lado), então talvez esses elementos não agradem todo mundo. Ainda assim, The Boys é uma excelente produção repleta de boas atuações e humor ácido, que traz uma visão nova e uma abordagem diferente do universo de super-heróis. Gostei muito e recomendo! 😉

Título original: The Boys
Ano de lançamento: 2019
Direção: Eric Kripke
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Dominique McElligott, Tomer Kapon, Laz Alonso, Karen Fukuhara, Elisabeth Shue, Jessie Usher, Chace Crawford

Review: Deixe a Neve Cair

Oi pessoal, tudo bem?

E cá estou para mais uma postagem da coluna Uma Amiga Indicou (uma parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de HistóriasInterrupted Dreamer e Tear de Informações). \o/

uma amiga indicou

Para novembro, escolhemos falar sobre Deixe a Neve Cair, o novo filme da Netflix baseado no romance de mesmo nome.

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Sinopse: Um forte nevasca atinge a cidade de Gracetown na véspera de Natal e a transforma em um inesperado refúgio romântico. Um trem retido no meio do nada, uma corrida com os amigos no frio congelante e lidar com a tristeza da perda do namorado ideal. Três histórias de amor distintas que se conectam entre si. 

Deixe a Neve Cair é um daqueles filmes de romance com histórias paralelas que têm elementos em comum. Nesse caso, os protagonistas provavelmente frequentam a mesma escola (afinal, o longa não deixa isso claro rs) e também uma casa de waffles da cidade (alguns como funcionários e outros como clientes). As histórias se convergem graças a uma festa de Natal que acontece no local.

São três os núcleos principais: Angie (também conhecida como Duke) e Tobin; Dorrie, sua melhor amiga Addie e sua crush; e Julie e Stuart. Angie e Tobin são melhores amigos desde sempre, mas o que a garota não sabe é que Tobin está perdidamente apaixonado por ela. Quando um rapaz parece demonstrar interesse em Angie, Tobin precisa decidir se vai tomar uma atitude e lutar por ela ou não. Dorrie e Addie também são melhores amigas, mas a relação fica complicada quando Addie coloca seu namorado em primeiro lugar. Ela stalkeia o rapaz e tenta controlar seus passos, e quando Dorrie aponta os erros que ela comete, as duas brigam feio. Para completar, Dorrie está interessada em uma garota com quem saiu e, apesar da jovem dizer o quanto gosta dela, na frente das outras pessoas ela finge que nem a conhece. Por último, temos Julie e Stuart: a primeira é uma jovem dividida entre ir para uma faculdade em Nova York ou ficar na cidade para cuidar da mãe doente, enquanto Stuart é um jovem cantor famoso que acaba passando o Natal sozinho por falta de companhia. Ao se conhecerem em um trem, eles acabam passando o dia juntos e uma química inevitável surge.

deixe a neve cair

A primeira coisa que preciso dizer sobre Deixe a Neve Cair é que ele é um romance clichê. Em geral, isso não é um problema pra mim, desde que os clichês sejam bem desenvolvidos – o que não acontece aqui. Para vocês terem ideia, a crush de Dorrie NEM TEM NOME! Ela aparece pela primeira vez e Dorrie se refere a ela com uma frase tipo “aquela garota e eu tivemos um lance”. E aí o filme passa o tempo todo tentando convencer o espectador de que devemos nos importar com os sentimentos existentes entre elas – sem nem se dar ao trabalho de desenvolver a tal garota. Eu sinceramente só fui descobrir que a jovem tinha nome olhando no IMDB, e não duvido que a informação tenha sido extraída do livro, mas enfim.

O plot de Julie e Stuart também não poderia ter sido mais forçado. O cantor famoso querendo passar o dia com uma desconhecida só porque ela não deu uma de fã louca foi muito “eye rolling” pra mim. A performance de Shameik Moore no papel não ajudou em nada a tornar Stuart um pouco mais verossímil, já que as expressões faciais eram basicamente as mesmas o tempo todo. Não consegui comprar o romance entre eles, infelizmente. 😦 Já a história de Angie e Tobin também é mais do mesmo. Não tenho muito a criticar, tampouco a elogiar. A melhor cena dos dois é quando cantam juntos, mas nada que tenha aquecido meu coração (como sempre espero desse tipo de filme).

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A personagem mais interessante de Deixe a Neve Cair é a mulher que usa roupas de alumínio. Além de engraçada e carismática, ela divide bons momentos com Addie, trazendo algumas verdades que a personagem precisa ouvir. A jovem é autocentrada, insegura e obcecada pelo namorado, o que a torna bastante controladora. Porém, com o passar do tempo, ela percebe a importância das amizades e de dar valor a quem gosta de você de verdade. Tudo isso em meio a várias brigas com a mulher das roupas de alumínio rs.

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Deixe a Neve Cair é um filme que provavelmente vou esquecer em pouco tempo. Pelo trailer, eu tinha expectativas bem mais altas e realmente esperava uma história que me fizesse dizer “own” em algum momento. Infelizmente, não rolou. 😦

Tìtulo original: Let it Snow
Ano de lançamento: 2019
Direção: Luke Snellin
Elenco: Isabela Merced, Shameik Moore, Odeya Rush, Liv Hewson, Mitchell Hope, Kiernan Shipka, Matthew Noszka, Jacob Batalon, Joan Cusack, Anna Akana