Review: Um Ninho Para Dois

Oi gente, tudo bem?

Desde o lançamento do trailer eu estava ansiosíssima pra conferir Um Ninho Para Dois, novo drama da Netflix com a Melissa McCarthy. Fica a dica: já pega uma caixa de lencinhos.

Sinopse: Uma mulher que tenta superar uma perda precisa lidar com um pássaro genioso que invadiu seu jardim e um marido que luta para seguir em frente.

O filme começa com uma cena fofa entre o casal Lilly e Jack, que estão pintando o quartinho de sua bebê recém-nascida, até que há um corte que nos leva para um futuro bem mais triste: Lilly está vivendo sozinha, pois seu marido está internado em uma instituição psiquiátrica. O motivo não demora a se revelar; o casal perdeu sua filha, Katie, para a síndrome da morte súbita infantil. Esse evento traumático gerou uma ruptura no casamento, e nenhum dos dois sabe como lidar com o presente.

Não sou mãe e mal posso imaginar a dor de perder um filho, mas Um Ninho Para Dois consegue, com delicadeza, transmitir essa devastação por meio das diferentes formas de sofrimento do casal. Lilly tenta seguir em frente da maneira que pode, voltando ao trabalho e tentando manter um senso de normalidade à rotina. Seus erros e falta de atenção durante o expediente, porém, são o primeiro e mais óbvio indício de que a personagem precisa de ajuda. Jack, por outro lado, é um homem cuja dor o paralisou. Sua internação na instituição psiquiátrica é advinda de uma tentativa de suicídio, e fica claro para o espectador de que ele não vem fazendo progresso em sua terapia. Quando uma visita de Lilly ao marido acaba de forma tensa, uma das terapeutas do lugar indica o contato de um velho conhecido que ela acredita poder ajudar Lilly: o Dr. Larry Fine (o jogo de palavras aqui não escapa à protagonista). Acontece que Larry abandonou a psiquiatria para se dedicar a outro ramo: a veterinária. E é com essa situação inusitada que Lilly se vê encarando verdades que ela não tinha tido coragem até então.

Lilly é o espírito do filme, e a atuação cheia de nuances de Melissa McCarthy me levou às lágrimas e aos risos durante a 1h44 de duração do longa. A personagem decide limpar e cultivar o seu quintal, mas acaba sendo atacada por um estorninho, uma espécie de pássaro territorialista que está protegendo seu ninho. Ao longo da trama, o ousado passarinho faz diversas investidas contra Lilly, que vai criando estratégias pra se proteger dele (como usar um capacete de futebol americano rs). Nesses momentos percebemos o tom de comédia dramática do longa, pois essas cenas quebram a tensão de uma forma que diverte e acalenta. O fato de Larry ser um veterinário não impede que os dois construam uma relação de “terapia não oficial”, na qual ele incentiva Lilly a falar sobre seus sentimentos também e processar o próprio luto – já que, até então, só pôde focar na dor do marido.

Mas Jack também mexe com o nosso coração. A apatia que o domina é um sinal claro da depressão que o acomete, e sua recusa em fazer o tratamento correto o leva cada vez mais para o fundo do poço. Mas é importante que isso seja mostrado, porque mesmo com todo o amor e suporte, muitas vezes essa doença ainda assim triunfa. E o filme não culpabiliza Jack por isso, ainda que demonstre que Lilly está carregando uma carga muito pesada por ter sido “abandonada” pelo marido, que não conseguiu apoiá-la com a perda de Katie. Larry inclusive tem uma fala muito importante sobre o ser humano buscar culpados em situações nas quais simplesmente não há quem culpar: é uma dificuldade nossa em aceitar que tragédias acontecem sem nenhuma razão plausível. O médico incentiva que Lilly converse com Jack e exponha seus sentimentos de luto e solidão, e quando a protagonista resolve fazê-lo, é com a intensidade de quem está magoada pelo abandono mas também com desejo de que o marido volte pra ela.

Um Ninho Para Dois é emocionante do início ao fim, sendo intercalado com cenas divertidas que ajudam você a não chorar durante toda a duração do filme. Ele é a história de um casal em luto, mas também de duas pessoas que estão buscando entender quem são e como seguir em frente após um acontecimento tão devastador. Para além disso, é também a história de um casal em busca do caminho que os leve de volta um ao outro: com cicatrizes, sim, mas também com muito amor. Amei (e me emocionei) muito! ❤

Título original: The Starling
Ano de lançamento: 2021
Direção: Theodore Melfi
Elenco: Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Kevin Kline, Kimberly Quinn

Review: Viúva Negra

Oi pessoal, tudo bem?

Nas últimas semanas, Viúva Negra esteve nos holofotes devido à decisão de Scarlett Johansson processar a Disney por quebra de contrato. Mas nem essa informação é capaz de ofuscar um fato: Natasha Romanoff é uma personagem incrível – e merecia mais. Vou explicar mais sobre isso no review, então vem comigo. 😉

Sinopse: Natasha Romanoff, também conhecida como Viúva Negra, confronta o lado mais sombrio de sua história quando surge uma perigosa conspiração ligada ao seu passado. Perseguida por uma força implacável disposta a tudo para destruí-la, Natasha precisa agora lidar com seu passado como espiã e com as relações que deixou para trás muito antes de se tornar uma Vingadora.

Depois de mais de 10 anos de MCU, finalmente Natasha ganhou seu primeiro (e único) filme solo. A personagem, que fez sua estreia de forma sexualizada e estereotipada em Homem de Ferro 2, veio crescendo ao longo dos anos e se tornando uma parte cada vez mais fundamental nos Vingadores, chegando inclusive a liderá-los junto de Steve Rogers. Porém, quem assistiu a Vingadores: Ultimato sabe qual foi o destino da personagem, o que nos deixa com duas sensações: “que desperdício” e “queria ver mais dela”.

A trama de Viúva Negra se passa após os eventos de Capitão América: Guerra Civil. Natasha está vivendo como foragida após apoiar Steve, mas sua rotina isolada chega ao fim quando ameaças do seu passado como espiã russa retornam para atormentá-la. A personagem se depara com uma substância capaz de controlar a mente das Viúvas Negras (esse título é compartilhado entre as meninas que fizeram parte da Sala Vermelha, na qual Nat cresceu) e entende uma verdade terrível: Dreykov, a pessoa por trás da Sala e que Natasha acreditava estar morto, na realidade está vivo e operante. A Vingadora então acaba reunindo forças com pessoas muito importantes de seu passado: sua “família”.

Esse é o primeiro filme em que descobrimos mais sobre a pessoa que Natasha é. Quando criança, ela já fazia parte de uma operação russa nos Estados Unidos, e convivia com uma família de agentes montada pelo governo. Ela tinha uma irmã mais nova, Yelena (que também foi transformada em Viúva Negra); um pai, Alexei (que foi uma figura semelhante ao Capitão América para os russos); e uma mãe, Melina (uma cientista genial). Ainda na infância, a missão nos Estados Unidos dá errado e todos são separados, e desde então Natasha nunca mais teve contato com eles. O surgimento de Dreykov e da substância capaz de controlar mentes é o que coloca a protagonista em movimento para reencontrar cada membro da família – o que gera um equilíbrio maravilhoso entre cenas de luta, momentos engraçados e também um revirar de ressentimentos.

Yelena é a personagem que mais brilha no filme, sendo uma adição muito bem-vinda ao MCU. Ela era muito pequena quando a família foi separada, e sofreu muito com o distanciamento. A jovem se ressente de Natasha por nunca tê-la procurado, mas aos poucos as duas conseguem se reconectar. Yelena é aquela personagem durona, mas de coração enorme, sabem? Ver a interação dela com os outros personagens é bem bacana e ela faz aflorar em Nat um lado que tivemos a oportunidade de ver poucas vezes: uma afeição genuína com uma dose de vulnerabilidade.

O filme também tem ótimas sequências de ação. Existem muitas cenas de luta corpo a corpo, e é bem empolgante assistir. Porém, pra quem espera uma missão que siga um perfil mais de “espionagem” pode acabar se frustrando, porque a pegada é muito mais tiro, porrada e bomba mesmo. E aqui entra um dos aspectos frustrantes que comentei: a história da Natasha é muito mal aproveitada, e a protagonista vai muito além de batalhas físicas e perseguições. O longa até menciona alguns detalhes de como ela desertou da Rússia e integrou a S.H.I.E.L.D., assim como menciona a missão em Budapeste com Clint, mas a gente fica com um gostinho de quero mais. Natasha viveu tantas experiências durante seu treinamento na Sala Vermelha e também como espiã (e Budapeste é só um exemplo delas) que eu, como fã da personagem no MCU, gostaria muito de ter tido a chance de conferir.

O outro ponto negativo do filme é o timing: assistir a uma aventura solo da heroína que serve “só” como uma explicação do que aconteceu entre Guerra Civil e Vingadores: Guerra Infinita, assim como introduzir uma possível “nova Viúva Negra”, é um grande desperdício, além de ser anticlimático. A Viúva Negra é muito mais interessante que o Thor e mesmo assim nunca teve um momento só seu, pois mesmo em seu filme solo quem se destaca é a Yelena. Se somarmos a tudo isso o fato de que já sabemos qual será o destino da Nat, o gosto que fica é bastante amargo.

Em resumo, eu gostei de Viúva Negra como um filme de ação e fiquei contente pelo fato de Natasha Romanoff finalmente ter um longa pra chamar de seu. Entretanto, não posso deixar de fora a tristeza por saber que uma personagem tão incrível e cheia de nuances, com tantas histórias pra contar, tenha recebido essa migalha em comparação com outros personagens do MCU. Agora me resta torcer para que a Marvel não falhe dessa forma com as outras personagens femininas que estão ganhando espaço nas telas.

Título original: Black Widow
Ano de lançamento: 2021
Direção: Cate Shortland
Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, Rachel Weisz, David Harbour, Ray Winstone

Review: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Oi pessoal, tudo bem?

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um play despretensioso que eu dei na Netflix, mas que me arrancou muitas risadas, me entreteve e também me comoveu. Preparados pra conhecer?

Sinopse: Uma revolta de robôs interrompe a viagem da família. Agora o destino da raça humana está nas mãos dos Mitchells — a família mais estranha do mundo.

A trama tem seu pontapé inicial quando Katie, a filha mais velha dos Mitchell, é aceita para cursar a faculdade de cinema. Empolgada para conhecer pessoas que compartilhem da sua paixão – já que, em geral, ela se sente uma outsider -, Katie não contava com a decisão de seu pai, Rick, de fazer uma viagem de carro em família (em vez de deixá-la ir de avião). A relação dos dois, que no passado era muito cúmplice, está num momento delicado: Katie não sente que seu pai a compreenda, enquanto Rick acha que a filha está distante. Em paralelo a esse plot, temos outro catalisador superimportante que acontece bem longe da road trip: no Vale do Silício, uma convenção de tecnologia comandada pelo gênio Mark Bowman, que inventou a inteligência artificial PAL, anuncia um modelo novo de robôs com tecnologia de ponta; o problema é que Mark descarta PAL como algo ultrapassado, fazendo com que ela decida se revoltar e comandar os robôs, colocando-os contra a humanidade. E é assim, em meio ao caos, que a família Mitchell é pega de surpresa e precisa encontrar não apenas uma forma de fugir e sobreviver, mas também de impedir PAL.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é produzido pelos responsáveis pelo excelente Homem-Aranha no Aranhaverso, e podemos encontrar algumas similaridades no que diz respeito à arte. Como no filme do Cabeça de Teia, aqui também temos um visual predominantemente 3D, mas cheio de elementos 2D e intervenções interessantes. Isso torna o longa visualmente atrativo e, no meu caso, foi um recurso que prendeu bastante minha atenção. A identidade visual é muito bacana e a atmosfera é muito divertida e imersiva, tornando as quase 2h de duração muito gostosas de assistir.

O filme também acerta em cheio no humor. Além dos quatro membros da família Mitchell (os já mencionados Katie e Rick, mas também Linda, a mãe, e Aaron, o filho mais novo), temos ainda dois robôs comandados por PAL que sofrem uma pane parcial ao serem danificados e acabam se tornando aliados improváveis de Katie e sua família. E todos eles se veem numa posição totalmente inesperada: a de heróis da humanidade. Enquanto PAL comanda os robôs para capturar os humanos, os Mitchell (com o auxílio dos seus novos companheiros inorgânicos) conseguem escapar, e precisam ir até o epicentro da revolta pra desativar a inteligência artificial – caso contrário, todas as pessoas capturadas serão enviadas para o espaço (sim, pra morrer mesmo). E todas as situações que a família passa pra tentar chegar até PAL em segurança são muito engraçadas, assim como as perseguições pela estrada e as interações com outros eletroeletrônicos. Pra fechar com chave de ouro há também o humor sarcástico em torno de um jovem genial que revolucionou a tecnologia e as consequências de suas atitudes. Qualquer semelhança com a realidade pode ou não ser mera coincidência. 😛

Mas meu elemento favorito de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas não poderia ser outro se não os próprios Mitchell (e seu maravilhoso pug, Monchi). Cada personagem tem uma personalidade marcante e protagoniza cenas engraçadas, por mais que o foco maior seja em Katie e Rick. Linda é uma mulher engraçada e, quando os filhos estão em perigo, reage como uma leoa; Aaron é um irmão mais novo fofíssimo que é tão “esquisito” quando Katie e olha pra irmã com admiração; Rick é um pai zeloso e que ama os filhos, mas que nem sempre consegue demonstrar isso da forma como eles – especialmente Katie – precisam; e a própria Katie é uma jovem criativa e irreverente, mas que também não consegue enxergar os sacrifícios que o pai fez por ela. Com o passar do tempo e com a convivência forçada no carro (somada ao medo da extinção, é claro), os personagens são obrigados a olhar com mais atenção um para o outro, e os laços vão se estreitando. Pra fechar, também adorei como a sexualidade de um dos personagens é trabalhada: de forma totalmente natural e leve.

Resumindo, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um dos melhores filmes de animação a que assisti recentemente, reunindo em si uma produção de alta qualidade, um enredo divertido e envolvente e personagens muito cativantes. Se você não sabe o que fazer nesse domingo, corre lá na Netflix e dê o play. Prometo que vai valer a pena! 😉

Título original: The Mitchells vs the Machines
Ano de lançamento: 2021
Direção: Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André, Olivia Colman

Review: Raya e o Último Dragão

Oi galera, tudo certo?

Faz tempo que não rola um review de animação por aqui, né? Então hoje vamos falar um pouquinho sobre um dos filmes mais recentes da Disney: Raya e o Último Dragão!

Sinopse: Há muito tempo, no mundo de fantasia de Kumandra, humanos e dragões viviam juntos em harmonia. Mas quando uma força maligna ameaçou a terra, os dragões se sacrificaram para salvar a humanidade. Agora, 500 anos depois, o mesmo mal voltou e cabe a uma guerreira solitária, Raya, rastrear o lendário último dragão para restaurar a terra despedaçada e seu povo dividido. No entanto, ao longo de sua jornada, ela aprenderá que será necessário mais do que um dragão para salvar o mundo – também será necessário confiança e trabalho em equipe.

Em um passado longínquo no reino de Kumandra, os dragões eram comuns e responsáveis pela prosperidade dos seres humanos. Porém, o surgimento de criaturas malignas chamadas Druun capazes de transformar aqueles com quem entram em contato em pedra – ameaçam a paz, e os dragões fazem um último esforço para salvar a humanidade. Sem os dragões, Kumandra se dividiu em vários países rivais, que desejam ser os detentores da Pedra do Dragão, uma relíquia deixada pela dragão Sisu no momento em que os Druun foram derrotados. Raya, a protagonista, é uma jovem que carrega um peso em sua consciência: durante um evento pacifista promovido por seu pai, a menina confiou na pessoa errada, Namaari, que tentou roubar a Pedra do Dragão. Essa atitude levou a uma batalha entre os países (Coração, Garra, Presa, Espinha e Cauda), fazendo com que a relíquia fosse partida em vários pedaços, o que culmina no retorno dos Druun e na transformação do pai de Raya (e muitos outros humanos) em pedra. Em sua busca para consertar as coisas, Raya acaba fazendo aliados improváveis e, principalmente, despertando a própria Sisu.

Esse é o contexto de Raya e o Último Dragão e, apesar das criaturas malignas terem dado início à desolação, o filme é muito mais pautado na rivalidade e nas relações humanas. O pai de Raya era um pacifista que acreditava que a união dos países era o melhor caminho para se protegerem do mal. Entretanto, o medo do desconhecido, o egoísmo, a desconfiança e o desejo de proteger os seus tornaram os outros líderes cegos para qualquer caminho diferente do poder. E as consequências disso são mostradas ao espectador: ao chegar na Espinha, por exemplo, Raya encontra um terreno desolado com apenas um único sobrevivente.

Um aspecto muito legal e que torna Raya e o Último Dragão bastante dinâmico é a forma como, a cada local visitado, a garota vai “recrutando” sem querer alguém como aliado. Tudo começa com seu sucesso em despertar Sisu, a única dragão que não foi transformada em pedra. Dali em diante a dupla se une a um pequeno empresário, Boun; ao trio de pilantrinhas composto por três macacos e a bebê Little Noi; e Tong, o guerreiro sobrevivente da Espinha. Apesar de suas personalidades totalmente diferentes, eles compartilham de uma coisa em comum: a perda de entes queridos para os Druun. Isso os motiva a trabalharem juntos em prol do mesmo objetivo, que é resgatar as peças da Pedra do Dragão e usar os poderes de Sisu para trazer as pessoas de volta. 

Ao longo do filme vamos percebendo que a própria Raya se tornou uma pessoa desconfiada. Se na infância ela era inspirada pelo coração e mente abertos do pai, a traição de Namaari deixou uma cicatriz profunda em seu coração. É totalmente compreensível o receio que ela tem de se abrir e tentar o caminho da negociação e da colaboração. Sisu, porém, é uma personagem alegre e cativante, cujo coração aberto pouco a pouco contagia Raya e a inspira a baixar a guarda e repensar seu caminho solitário.

Outro aspecto muito bacana de ser ressaltado é que o mundo fictício de Raya e o Último Dragão é inspirado nos países do Sudoeste Asiático. A cada local que Raya e seu grupo visita temos uma ambientação completamente diferente, o que é ótimo pra combater a ideia de que a Ásia tem apenas uma cultura e uma aparência. A animação é linda e as paisagens também, o que já é de praxe nas animações da Disney.

Raya e o Último Dragão é um ótimo filme de aventura que empolga e entretém. Apesar de ter um tipo de criatura aterrorizante dando o start nos acontecimentos, a trama acerta ao evidenciar que o maior desafio são as próprias fraquezas humanas, e como a colaboração é a peça-chave para vencer dificuldades coletivas. E se tem uma coisa que os últimos dois anos têm nos mostrado é que o individualismo não é uma opção quando um mal atinge a todos, e que a empatia e a cooperação são fundamentais para sairmos vitoriosos de momentos assim. 

Título original: Raya and the Last Dragon
Ano de lançamento: 2021
Direção: Don Hall, Carlos López Estrada
Elenco: Kelly Marie Tran, Awkwafina, Izaac Wang, Gemma Chan, Daniel Dae Kim, Benedict Wong, Jona Xiao, Thalia Tran

Review: A Mulher na Janela

Oi galera, tudo certo?

A Mulher na Janela foi um livro queridinho de muitos que me decepcionou bastante. Mas, como expliquei na minha resenha (bem negativa rs), eu tinha esperanças de que no formato cinematográfico a história pudesse funcionar. Será que deu certo?

Sinopse: Confinada em casa devido à agorafobia, uma psicóloga fica obcecada pelos novos vizinhos – e por solucionar o crime brutal que viu da janela.

Anna Fox é uma mulher que sofre de agorafobia, o que a impede de sair de casa. Separada do marido e da filha, ela vive sozinha e passa seus dias observando os vizinhos e misturando álcool e remédios. A chegada de novos vizinhos, os Russells, proporciona a Anna uma amizade inesperada com a dona da casa, Jane, com quem passa uma tarde divertida regada a conversas e taças de vinho. Além de Jane, a protagonista também cria um vínculo com seu filho, o adolescente Ethan – um jovem tímido e gentil que leva doces para Anna em nome de sua mãe. A chegada dos Russell não parece ser um problema, até que Anna presencia pela janela a cena de uma discussão que culmina com Jane recebendo uma facada. Porém, quando ela chama a polícia, o pai da família, Alistair, diz que só pode ter havido um engano, e apresenta sua esposa à Anna e aos policiais: só que esta Jane não é a mulher que Anna conheceu.

A premissa da história é muito boa, né? Temos uma narradora não confiável que nos faz duvidar do que ela viu, temos uma família aparentemente normal que esconde um segredo e temos um possível assassinato no centro de tudo isso. Pena que esse plot é desperdiçado e o que o diretor e o roteirista nos oferecem é um longa cansativo, lento e mal conduzido. 

A Mulher na Janela perde um bom tempo nos mostrando a rotina de Anna e, mesmo assim, falha em explorar o quão frágil psicologicamente ela está. A atuação e a caracterização de Amy Adams fazem um trabalho muito melhor em evidenciar o quanto a personagem desistiu de si mesma, mas o roteiro do longa não consegue transmitir o tanto que a personagem sofre. No livro, Anna faz parte de uma comunidade online e aconselha outras pessoas sobre agorafobia, o que é um elemento essencial da trama, mas no filme eles cortaram toda essa parte de sua vida. E, para piorar, incluíram cenas e acontecimentos desnecessários que não colaboraram em nada para o andamento da história. Até o fato dela dedicar grande parte dos seus dias a espiar a vida alheia com uma câmera mal é abordado, tornando o título da obra bem menos relevante rs.

Mesmo um elenco de peso não foi capaz de prender a atenção ao longo da 1h40 de duração do filme (que mais pareceram 3h). Amy Adams é maravilhosa, mas também temos Julianne Moore e Gary Oldman, que são figurantes de luxo. Ethan, um personagem fundamental e muito presente no livro, mal tem cenas relevantes, o que torna difícil até de engolir toda a vontade que Anna sente de protegê-lo de seu suposto pai abusivo. Todas essas pontas soltas, a pouca participação de personagens que não sejam a protagonista e mudanças no roteiro tornaram as duas revelações da trama totalmente anticlimáticas, especialmente na sequência final. A pessoa responsável pela angústia de Anna é revelada sem nem um “aquece” que permita ao espectador acreditar que aquilo que foi mostrado é crível. Só bola fora, na minha opinião.

A Mulher na Janela não me agradou como livro e conseguiu ser ainda mais fraco como filme. As poucas coisas boas que eu tinha gostado na trama original foram cortadas na adaptação e o que sobrou é um filme que não empolga, não angustia e, principalmente, não convence. Não foi dessa vez. :/

Título original: The Woman in the Window
Ano de lançamento: 2021
Direção: Joe Wright
Elenco: Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman, Wyatt Russell, Fred Hechinger

Review: Radioactive

Oi pessoal, tudo bem?

Nos últimos dias chegou à Netflix o filme Radioactive (dirigido por Marjane Satrapi, de Persépolis), que se propõe a ser uma cinebiografia da vida de Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel relacionados às suas pesquisas sobre radioatividade. Vamos descobrir o que eu achei? 😀

Sinopse: Movida por uma mente brilhante e uma grande paixão, Marie Curie embarca em uma jornada científica com o marido, Pierre. Suas descobertas vão mudar o mundo.

Antes de falar sobre minha opinião sobre o longa, acho importante dividir com vocês qual era a minha expectativa: eu imaginava que o filme fosse focado no processo da descoberta científica em si, com suas discussões, desafios, testes e avanços. Também imaginei que ele pudesse trazer uma luz ao fato de que Marie Curie era uma mulher em meio a um ambiente majoritariamente masculino e numa época em que o machismo era ainda mais intenso. Esse segundo ponto até é abordado, ainda que de forma superficial. O primeiro, porém, foi minha decepção: em cerca de 30 ou 40 minutos (em um filme de 1h50 de duração) ela já tinha descoberto os elementos rádio e polônio, fazendo com que o foco da trama se virasse para sua vida pessoal.

Segundo a visão trazida por Radioactive (e eu coloco isso dessa forma porque não conheço a fundo a história da cientista para contestar), Marie Curie era brilhante, destemida, autossuficiente e arrogante. Ao conhecer Pierre Curie, seu marido e grande amor, ela amplia seu estudo e os dois formam uma parceria de trabalho que os leva a ganharem o Prêmio Nobel pelas descobertas que fizeram em conjunto sobre a radioatividade. O machismo na trama começa a ser exposto aí (já que, na trama, Pierre é recebido sozinho na Suíça e discursa em nome dos dois), mas fica ainda mais grave quando Marie se envolve em escândalos em sua vida pessoal que a fazem ser hostilizada pelas pessoas e pelo meio acadêmico (sendo que o homem que deveria ser responsabilizado por tal escândalo não sofre nenhuma penalidade – não que seja muito diferente hoje em dia, né?).

A montagem do filme é estruturada de forma que a gente acompanhe os estudos de Marie e Pierre sobre radioatividade enquanto intercala com outras décadas no futuro nas quais essa descoberta foi relevante. Há cenas que expõem aspectos positivos, como uma criança com câncer podendo fazer um tratamento experimental com radioterapia, mas a maior parte dos paralelos é negativa: vemos os desastres de Hiroshima e Chernobyl, além de exposições turísticas de explosões atômicas nos Estados Unidos, o que me fez ter a sensação de que o roteiro colocou mais peso nos perigos e no mau uso da descoberta. Só nos minutos finais há um diálogo entre Marie e seu marido em que ele traz como contraponto o fato de que ela jogou uma pedra na água, mas que as ondas geradas por isso ela não é capaz de controlar. O conhecimento em si não é uma coisa ruim, mas sim a forma destrutiva que a humanidade muitas vezes o utiliza.

Minha maior frustração com Radioactive reside no fato de que me senti assistindo a um filme que flutua do drama às “fofocas” durante uma parte considerável de sua duração. Como as descobertas científicas acontecem muito rápido e não são bem exploradas (as explicações e discussões são rasas e não duram muito), o resto da trama tenta desenvolver 1) a relação de Marie com as filhas, que mal apareceram até então, 2) o luto após a perda do marido, 3) suas relações passionais, 4) sua reputação enfraquecida e 5) sua participação na Primeira Guerra Mundial, com a criação de um veículo equipado com máquinas de raio-X. Só o item 5 já dava muito pano pra manga, sabem? A sensação que fica é que tentaram enfiar um milhão de aspectos relevantes da vida de Marie Curie em um único filme, sem ter um foco principal. Existem biografias que focam na parte profissional de um nome célebre, ou então no seus dramas familiares. Acho que essa falta de foco de Radioactive deixou todos os âmbitos da vida da cientista muito superficiais.

Apesar dos pesares, Radioactive conta com boas atuações (a química entre Rosamund Pike e Sam Riley funciona muito bem) e não chega a ser cansativo. Gostei de ter a oportunidade de saber mais sobre a vida de uma mulher tão importante para a história e para a ciência, mas lamento que isso tenha sido feito de uma forma um tantinho mediana. :/

Fun facts: o filme foi lançado em 2019, mas só chegou à Netflix agora. Além disso, contou com a produção da Amazon (o que me surpreendeu bastante, considerando que eles têm seu próprio streaming).

Título original: Radioactive
Ano de lançamento: 2019
Direção: Marjane Satrapi
Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Simon Russell Beale, Aneurin Barnard, Anya Taylor-Joy

Review: Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Oi pessoal, tudo bem?

Que tal uma dica de filme pra curtir nesse domingo? Então prepara a pipoca, porque hoje vamos falar de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta.

Sinopse: Inspirada pelo passado rebelde da mãe e por uma nova amizade, uma adolescente tímida publica um texto anônimo que denuncia o machismo em sua escola.

Vivian é uma adolescente tímida (e super padrão) que passa pelo Ensino Médio com sua melhor amiga, Claudia, tentando não chamar a atenção. Quando Lucy, uma menina nova chega na escola questionando certos comportamentos (ao enfrentar os avanços do capitão do time de futebol, por exemplo), Vivian começa a perceber quão problemático é se manter alheia ao que acontece à sua volta, abrindo seus olhos para violências cotidianas causadas pelo machismo. Isso, somado ao fato de descobrir que sua mãe era uma militante feminista nos anos 90, motiva Vivian a criar um fanzine chamado Moxie em segredo e distribuí-lo pela escola, o que dá início a movimentos e discussões importantes.

Moxie é um filme que entretém ao mesmo tempo que traz uma mensagem positiva a jovens garotas. Vivian nunca pensou no quão ofensivo era ter uma lista que classifica as garotas da sua escola, por exemplo, mas ao fazer amizade com Lucy, que é objetificada não apenas por ser mulher, mas também pela cor de sua pele e pelos estereótipos racistas, ela começa a ver na prática as opressões que mulheres sofrem. Ao criar o fanzine Moxie, Vivian se aproxima de outras garotas e isso gera uma rede de apoio para enfrentar Mitchell (o capitão do time masculino) na disputa por uma bolsa estudantil, indicando sua amiga Kiera (uma atleta ainda mais competente) como concorrente. A aproximação de Vivian com novas meninas faz com que Claudia fique de lado e isso gere uma tensão entre as duas, e tive medo que o filme caísse em alguma armadilha que pudesse colocá-las uma contra a outra, mas felizmente não é o que acontece. Essa situação serve para dar uma pincelada em assuntos relacionados à xenofobia, mas é um toque muito raso e passageiro.

Aliás, esse é o maior defeito de Moxie: o filme é muito superficial em suas críticas. A vibe “garota branca e loira descobrindo o girl power” já não funciona comigo, e existem assuntos muito pesados (como assédio e abuso sexual) tratados de forma quase leviana – em especial nas últimas cenas, em que gritar parece ser a forma de resolver as coisas. Moxie peca em não mostrar os efeitos reais e posteriores de tudo que foi feito na escola graças ao movimento criado pelas meninas, o que faz com que ele perca a sua força e se torne um filme meio “qualquer coisa” em um mar vasto e cheio de opções de entretenimento que temos hoje. Para completar, o filme se passa inteiramente sobre a ótica de uma menina cheia de privilégios, ignorando questões importantes que o feminismo interseccional aborda. Se eu tivesse que indicar um título que faça esse trabalho de forma competente, diria que Sex Education é uma opção muito mais poderosa e responsável. Pra finalizar, Lisa (a mãe de Vivian), que em tese foi sua primeira inspiração, tem poucas falas e é muito mal desenvolvida, sem que a gente entenda o motivo do distanciamento entre as duas (ainda mais em um momento em que a protagonista poderia contar com os conselhos da mãe). 

Entretanto, apesar da superficialidade, acho legal ver que mais obras como Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta estão sendo feitas. Eu gostaria de ter crescido com mais exemplos assim, e acho que as futuras gerações terão contato com essas problematizações mais cedo – o que me faz ter um pouquinho mais de esperança no futuro.

Título original: Moxie
Ano de lançamento: 2021
Direção: Amy Poehler
Elenco: Hadley Robinson, Lauren Tsai, Alycia Pascual-Pena, Nico Hiraga, Sydney Park, Patrick Schwarzenegger, Amy Poehler

Review: Soul

Oi, pessoal, tudo certo?

Como fã devota da dupla Disney Pixar, obviamente corri para conferir Soul, o primeiro filme lançado no serviço de streaming Disney+. Vamos conhecer?

Sinopse: O que é que o torna… você? Joe Gardner – um professor de música do ensino fundamental – tem a chance de tocar no melhor clube de jazz da cidade. Mas um pequeno passo em falso o leva das ruas de Nova York para o Pré-vida – um lugar fantástico onde novas almas obtêm suas personalidades, peculiaridades e interesses antes de irem para a Terra.

Joe Gardner é um talentoso musicista que sempre sonhou em fazer sucesso tocando jazz. A realidade, porém, é um pouquinho diferente: em vez de brilhar por sua habilidade ao piano, ele dá aula de música em uma escola de ensino fundamental. Sua sorte parece virar quando um ex-aluno o convida para substituir um dos integrantes de uma banda de jazz já consagrada. Acontece que Joe sofre um acidente e sua alma é separada de seu corpo. O caminho natural é ele ir em direção à luz, mas ele se recusa a morrer e acaba fugindo para um espaço chamado Seminário Você, onde almas aprendem sobre sua personalidade, gostos e propósitos para posteriormente “encarnarem” em recém-nascidos. Nesse local Joe fica responsável por 22, uma alma que já passou por inúmeros tutores e jamais encontrou seu propósito. Isso faz com que 22 seja cética a respeito da experiência na Terra, topando então ajudar Joe a levá-lo de volta. E, novamente, o protagonista é desafiado pelo destino: quando os dois conseguem ir pra Terra, 22 fica no seu corpo e Joe fica em um… gato. Esse é o ponto de partida pra uma sequência de aprendizados para ambos os personagens.

Como vocês já devem imaginar, Soul, assim como qualquer filme da Pixar, tem um forte impacto nos adultos. A trama gira em torno de ser fiel ao seu propósito e encontrar sua razão de existir na vida, e Joe tem certeza de que só vai encontrar isso na música. 22, por sua vez, só consegue entender o motivo pelo qual todas as outras almas desejam ir para a Terra no momento em que tem a oportunidade de vivenciar a experiência na prática. Os cheiros, os sabores e mesmo as coisas desagradáveis são vistas sob a lente de um olhar deslumbrado de quem valoriza cada pequeno instante. Conviver com 22 e ser testemunha do seu encanto pela simplicidade coloca algumas coisas em perspectiva para Joe, e ele começa a olhar sua própria vida “de fora” (no corpo do gato rs), o que provoca uma reflexão sobre toda a sua trajetória.

Se essa provocação não bastasse, Soul ainda vai além: a lição que fica é a de que não somos definidos pelo nosso propósito, e a vida é mais do que isso. Quando o protagonista percebe que grande parte do que ele sonhava era mais uma idealização do que uma visão realista, Joe entende que não é apenas o seu talento que o torna alguém digno e amado. O nosso propósito vai além das nossas habilidades, da nossa profissão e das nossas paixões: claro, são elementos muito importantes, mas não são em sua totalidade aquilo que torna a experiência de viver válida. 

Apesar de ter curtido o longa, o final em si não me surpreendeu muito. Eu esperava um desfecho mais audacioso, que não aconteceu. Mas, mesmo se mantendo num otimismo meio lugar-comum, Soul conseguiu me emocionar. Não tanto pela personalidade de Joe ou de 22 (não me entendam mal, eles são muito legais, mas não foram exatamente inesquecíveis), mas sim porque os assuntos tratados dialogaram com questionamentos e dúvidas que eu mesma já tive. 

Em resumo, Soul é um belo filme, com cenas divertidas e um assunto que coloca você para pensar e examinar a sua história. O fato do longa mostrar como nossa vida não é definida pela nossa vocação tirou um peso enorme dos meus ombros, porque com tantos discursos que falam em propósito rolando nos perfis de Instagram da vida, às vezes eu sentia que eu estava “à deriva” por não ter certeza a respeito do meu, sabem? Por isso, Soul tocou meu coração e colocou um sorriso no meu rosto. Existem muitas coisas que trazem alegria: o amor, a família, as amizades, as experiências, as viagens, os sabores… E tá tudo bem a gente se agarrar nisso e valorizar cada minuto.

Título original: Soul
Ano de lançamento: 2021
Direção: Pete Docter, Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton

Review: Mulan

Oi pessoal, tudo bem?

O live action de Mulan vem dando o que falar desde muito antes de sua estreia no Disney+ e, agora que ele chegou à plataforma, vim dividir com vocês meus sentimentos em relação ao filme. 🙂

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Sinopse: Em Mulan, Hua Mulan (Liu Yifei) é a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro. Quando o Imperador da China emite um decreto que um homem de cada família deve servir no exército imperial, Mulan decide tomar o lugar de seu pai, que está doente. Assumindo a identidade de Hua Jun, ela se disfarça de homem para combater os invasores que estão atacando sua nação, provando-se uma grande guerreira.

Antes de tudo, acho importante ressaltar que eu acompanhei as notícias ao longo da produção do longa e, portanto, estava com expectativas alinhadas quanto ao fato do filme não ser um musical e não contar com a participação de personagens icônicos como Mushu e Li Shang. Pra quem não sabe do que estou falando, o novo live action da Disney tem um foco muito maior em honrar o público chinês, que vê no uso do dragão (uma figura mega sagrada) como alívio cômico e sidekick um desrespeito. Dito isso, saibam que minha opinião está pautada no filme pelo filme, e não (apenas) na comparação com o original, combinado? 😀

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Desde menina, Mulan demonstra algo especial: seu chi é intenso e ela é capaz de manipulá-lo como outras pessoas não o são. Porém, o chi é uma característica atrelada a guerreiros e ela, sendo mulher, deve ocultar tal habilidade e honrar sua família por meio do casamento. A jovem cresce com esse “segredo” e tenta se encaixar nos moldes tradicionais, mas quando cada família é convocada a ceder um homem para a guerra contra os Rourans que se aproximam, Mulan decide tomar o lugar de seu velho pai. Passando-se por um homem, ela treina para se aprimorar como guerreira enquanto busca entender seu verdadeiro papel.

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Sabendo que o filme é baseado no conto original de Mulan (que data lá do século VI), eu tentei me manter de coração aberto às novidades, como por exemplo o fato de haver uma mulher chamada de bruxa (apenas porque domina seu chi de maneira excepcional e consegue utilizá-lo como verdadeira magia) e pelo fato de Mulan se diferenciar de seus pares por também demonstrar domínio sobre essa energia. Acontece que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, Mulan foi um filme chato de assistir.

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A começar pela protagonista: a atriz que interpreta Mulan é uma versão oriental da Kristen Stewart em Crepúsculo. Ela não demonstra nenhuma emoção, tem zero carisma e me deixou profundamente agoniada com seus golpes no ar que serviam pra ela atirar o cabelo pra longe quando caía no chão, tipo comercial de shampoo. O fato da personagem se destacar devido ao seu chi, e não pelo trabalho duro e pela determinação, também foi outro aspecto broxante: Mulan foi criada para ser uma mulher tradicional, e vê-la rompendo com esses estigmas e se esforçando tanto quanto qualquer homem (e ainda se sobressaindo) era uma das coisas mais poderosas da animação – que aqui perde força porque, apesar do esforço, Mulan tem de fato um aspecto “mágico” que a torna única. A personagem, portanto, se torna menos relacionável com o espectador.

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Os vilões são muito mal desenvolvidos, e os Rourans são caricatos e não oferecem uma ameaça que nos faça temer de fato, já que (diferente do desenho) não causam nenhuma perda a nível “pessoal”. Por outro lado, Xian Lang (a “bruxa”) que os auxilia tem mais camadas e representa uma dualidade com a própria Mulan, levando a personagem a se questionar sobre a própria identidade e sobre a injustiça de ter seu chi oprimido porque os outros não sabem lidar com isso. Ela é uma anti-heroína que oferece uma reflexão sobre o machismo que até hoje nos desencoraja de demonstrar todo o nosso potencial enquanto mulheres, e eu diria que essa provocação quanto aos papéis de gênero é o principal ponto forte do filme.

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Poderíamos pensar que as lutas seriam capazes de salvar o filme, certo? Errado, pelo menos pra mim. O live action tem uma estética típica de filmes de luta orientais, o que inclui movimentos super coreografados em slow motion. Se você curte essa vibe, talvez curta também esse aspecto do longa. Eu não me identifico nadinha com esse tipo de produção, então fiquei com um pouquinho de vergonha alheia nesses momentos de slow motion. Entretanto, reconheço a importância de contar essa história de uma forma que não agrida a cultura chinesa e ressalto como é importante um filme blockbuster contar com um elenco de fenótipo 100% oriental.

Resumindo, eu diria que Mulan é no máximo um filme nota 6 (numa escala de 10). O maior problema é que ele não se destaca, não arrepia, não emociona. Mesmo sem fazer nenhum tipo de comparação, o live action de Mulan se mostrou uma produção genérica e esquecível, que eu provavelmente não vou assistir uma segunda vez. Espero que ao menos para o público ao qual ele foi destinado tenha sido uma boa experiência.

Título original: Mulan
Ano de lançamento: 2020
Direção: Niki Caro
Elenco: Liu Yifei, Donnie Yen, Jet Li, Gong Li, Yoson An, Jason Scott Lee, Susana Tang, Tzi Ma, Rosalind Chao

Review: Estou Pensando Em Acabar Com Tudo

Oi pessoal, tudo bem?

Estava ansiosa para conferir e contar pra vocês o que achei da adaptação do livro de Iain Reid que bugou a minha cabeça, então bora falar a respeito de Estou Pensando Em Acabar Com Tudo? 😂

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Sinopse: Uma jovem vai com o namorado conhecer os pais dele em uma fazenda remota e embarca em uma viagem para dentro de seu próprio psiquismo.

A trama do filme se inicia como a do livro: uma jovem está viajando com o namorado, Jake, para conhecer os seus pais. Apesar do casal estar dando esse passo importante, a moça passa a viagem inteira pensando que deseja acabar com tudo e romper o relacionamento. Quando os dois chegam na fazenda dos pais dele, a trama ganha um tom aflitivo e claustrofóbico, pois coisas estranhas começam a acontecer: há nítidas mudanças de linha temporal, a protagonista muda de nome e profissão, os pais de Jake aparecem cada vez de um jeito e aparece até uma foto da protagonista quando criança – que logo se transforma em uma foto de Jake.

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Essas mudanças surreais e o tom inquietante delas me lembraram muito da sensação que tive ao assistir Mãe!. Os acontecimentos parecem inocentes, mas você sabe, lá no fundo, que não são. Senti algo parecido durante a leitura também, um receio de que algo muito errado estivesse acontecendo por baixo da superfície, o que me fez temer pelos personagens na época. Acontece que, no filme, o diretor consegue deixar mais claro para o espectador que estamos vendo uma trama que se passa na cabeça dos personagens (ou melhor, de um determinado personagem). As cenas do casal na casa dos pais de Jake se intercala com cenas de um zelador idoso vivendo seu cotidiano, e os paralelos entre as situações servem como pista e também como provocação: o que é real?

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Quando li o livro, a viagem de carro e os diálogos na casa foram a parte mais cansativa da história pra mim, enquanto a perseguição na escola me fez devorar as páginas. Assistindo ao filme, o oposto aconteceu: a viagem de carro e a visita aos pais de Jake deram pistas fundamentais para a compreensão da trama, enquanto o final foi um tanto “wtf?”, apesar de ser compreensível. A partir daqui, há spoilers sobre o final: nesse terceiro ato do longa, fica claro que tudo que vimos até então aconteceu na mente do zelador. De forma fragmentada, ele relembra diversos momentos da sua vida, inclusive pessoas com quem namorou e até relações que não aconteceram (como quando a protagonista diz que nunca interagiu com o homem na noite de perguntas). Isso explica as passagens do tempo dentro da casa de seus pais, e explica também porque a foto da protagonista criança se transforma na foto de Jake criança: os dois são a mesma pessoa, ou melhor, a namorada não existe de fato – é a personificação de um desejo de Jake de ter um relacionamento. Na vida real, ou seja, na trama do zelador, fica nítido que ele é um homem solitário e que observa a vida como um espectador. Na última cena, Jake finalmente encontra a grandeza em sua imaginação, e ele “envelhece” mentalmente todas as pessoas com quem cruzou e de cujo reconhecimento ele gostaria de receber. Fim dos spoilers!

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De forma geral, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo me causou uma sensação parecida com a que senti lendo a obra de origem: boa parte da trama foi cansativa, senti sono, mas quando as engrenagens começam a funcionar e você se pega tentando conectar os pontos, o interesse surge. Entretanto, diferente do livro que me fez amar o final graças à surpresa, o filme não provocou a mesma sensação. É um final muito mais metafórico e cheio de cenas surreais que, para o meeeu gosto, são chatas de assistir. O impacto que tive com a leitura, daquela verdade nua e crua tão “óbvia” sendo jogada na minha cara, não aconteceu. Ainda assim, o filme não é um desperdício de tempo e é uma boa obra de forma geral: as atuações são competentes, a construção do suspense é eficiente e, se você prestar bem atenção, está tudo explicado nas entrelinhas. Vale espiar!

P.S.: que agonia que no título em português eles tiraram o primeiro “Eu” antes de “Estou” rs.

Título original: I’m Thinking of Ending Things
Ano de lançamento: 2020
Direção: Charlie Kaufman
Elenco: Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd