Resenha: Desafiando as Estrelas – Claudia Gray

Oi gente, tudo bem?

A resenha de hoje é sobre Desafiando as Estrelas, um livro de ficção científica cheio de cenas de ação.

desafiando as estrelas claudia gray.pngGaranta o seu!

Sinopse: Noemi Vidal é uma soldado do planeta Gênesis, que um dia já foi uma colônia da Terra e hoje está em guerra por sua independência. Os humanos da Gênesis lutaram contra os exércitos de mecans, robôs humanoides terrestres, por décadas e o conflito não parece estar chegando ao fim. Depois de um ataque surpresa, Noemi acaba presa em uma nave abandonada, onde conhece Abel, o protótipo mecan mais sofisticado já feito. E ele deveria ser seu inimigo. Mas a programação de Abel o força a obedecer a Noemi como sua comandante, o que significa que ele tem que ajudar a salvar a Gênesis — mesmo que o plano dela para chegar à vitória implique a morte dele. Forçados a trabalhar juntos, os dois embarcam numa perigosíssima aventura pela galáxia e se veem obrigados a questionar tudo o que sempre tomaram como verdade absoluta.

Em um futuro muito distante, a Terra atingiu avanços tecnológicos memoráveis, criando inclusive andróides humanóides – chamados mecans, cujos modelos vão de B a Z – com as mais diversas funções: temos o modelo Tare, para a medicina, as Rainhas e os Charlies para a guerra, entre muitos outros. Porém, o avanço tecnológico também culminou na total destruição do meio ambiente, tornando o planeta incapaz de suportar a quantidade de seres humanos que nele vivia. Assim, a Terra conseguiu colonizar outros planetas no que agora é chamado de Loop, um sistema que envolve a própria Terra e seus mundos: Stronghold (onde se extrai ferro, minério e afins), Cray (um local árido, em que vivem as maiores mentes e cientistas oriundos da Terra), Kismet (uma espécie de destino paradisíaco, para onde vão os ricos e famosos de férias) e Gênesis (o planeta mais parecido com a própria Terra). Acontece que a Gênesis iniciou a chamada Guerra da Liberdade, de modo a ter independência da Terra, pois acredita que os terráqueos farão com eles o mesmo que fizeram com o próprio planeta: exploração e destruição.

O plot por si só já é extremamente interessante, com uma construção de universo riquíssima e cheia de detalhes a serem explorados. Isso fica ainda mais interessante quando conhecemos nossos dois protagonistas-narradores: Noemi Vidal, uma jovem de 17 anos e soldado da Gênesis, e Abel, o mecan mais avançado da galáxia e único exemplar do modelo A, criado pelo próprio Burton Mansfield (a mente por trás da invenção dos mecans). Os dois se reúnem da maneira mais improvável: Noemi vê sua melhor amiga se ferir em uma batalha inesperada e a conduz até uma nave aparentemente abandonada; o que ela não sabia é que Abel estava preso lá há 30 anos, após a fuga da tripulação e de seu criador. As coisas ficam ainda mais surpreendentes quando Abel é forçado por sua programação a obedecer a maior autoridade humana à bordo, tornando Noemi sua comandante. A jovem agarra essa chance e traça um plano envolvendo Abel e a destruição do Portão Gênesis, uma construção que une buracos de minhoca e permite viagens espaciais – inclusive dos mecans da Terra, que dizimam cada vez mais soldados da Gênesis. Para isso, os dois partem em uma missão que envolve explorar a galáxia em busca do objeto capaz de destruir o Portão.

É muito difícil falar sobre esse livro sem me aprofundar um pouco mais sobre o enredo, mas acredito que tenha conseguido contar tudo que vocês precisam saber para entender a trama. Apesar de parecer complexo, Desafiando as Estrelas vai apresentando os fatos de maneira gradual e facilmente compreensível. Com o passar dos capítulos, vamos aprendendo mais sobre a personalidade fechada e a baixa autoestima de Noemi, sobre sua relação com a melhor amiga, sobre sua conexão com o planeta natal, sobre a extensão do universo, bem como sobre a solidão sentida por Abel ao longo dos 30 anos presos na nave, sua maneira peculiar de funcionar, os aspectos orgânicos e cibernéticos que formam seu corpo, as novas conexões neurais que seu cérebro foi capaz de produzir nas últimas três décadas… Ou seja, nenhuma informação é jogada de modo brusco ao leitor, tornando fácil acreditar e assimilar esse novo mundo que Claudia Gray propõe.

resenha desafiando as estrelas.png

E como não amar a dinâmica de Noemi e Abel? Os dois começam a trama como inimigos declarados, tornam-se cúmplices e parceiros, desenvolvem uma amizade sólida e, por fim, sentimentos mais profundos florescem. Só que tudo isso ocorre de maneira gradual, após atitudes e situações que fazem com que tudo faça sentido. Abel inicialmente é compelido a ajudar Noemi devido à sua programação, mas ao conviver com ela percebe sua coragem, seu altruísmo e seu caráter. A jovem, por outro lado, pouco a pouco percebe que Abel está longe de ser somente uma máquina, mas sim um ser diferente de tudo que ela já viu, com pensamentos e opiniões próprias… com uma alma (e vamos separar um minuto para exaltar o fato da personagem ser latina? Já quero ver essa representatividade em um filme ou série!). O melhor de tudo é que cada um aflora no outro o melhor que eles podem ser: enquanto Noemi é a primeira a acreditar na alma de Abel, ele mostra a ela o quanto sua vida é valiosa e o quanto ela é importante. Mas, se eu tivesse que escolher um favorito, acho que ficaria com Abel. Os comentários práticos e diretos dele me divertiram demais (especialmente quando ele sugere prostituição como a solução óbvia para conseguirem dinheiro HAHAHA! Sério, essa cena é bem engraçada).

Outro aspecto muito bacana do livro é que ele nos mostra que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Conforme vai conhecendo outras realidades – e as dificuldades que os seres humanos passam em todos os planetas do Loop –, Noemi passa a questionar o quão correto é a Gênesis se fechar para os outros mundos. Ao conviver com pessoas diferentes, a jovem passa a abrir sua mente e entender que nada é preto no branco, e que suas crenças sobre os mundos do Loop eram deturpadas e sem proximidade com a realidade; isso fica nítido em sua relação com Abel. Se antes ela julgava os mecans seres descartáveis, somente objetos, o dia a dia com ele a faz perceber que muito do que ela acreditava não era correto. Perceber como a personagem se abre a novas experiências e permite que suas crenças sejam questionadas é algo interessante e saudável, afinal, nem sempre existe uma única verdade que sirva para todos. Agora, como crítica negativa, deixo somente a obviedade do plot twist, que eu já havia previsto muito tempo antes de acontecer.

Desafiando as Estrelas tem uma excelente construção de universo, uma narrativa muito envolvente e personagens excelentes (inclusive os secundários, que surgem enquanto Abel e Noemi exploram o universo). Eu até admito que demorei mais do que o normal para terminar essa leitura e, em alguns momentos, acabei ficando entediada ou com sono, mas atribuo isso ao fato de que o último mês foi muito exaustivo pra mim (por motivos pessoais e profissionais). Desafiando as Estrelas é uma obra excelente, que tem todos os elementos necessários para agradar a fãs de sci-fi ou, simplesmente, leitores que adoram histórias cheias de ação, novos mundos, personagens divertidos e ambientação bem desenvolvida. Recomendo! ❤

Título Original: Defy the Stars
Série: Constelação
Autor: Claudia Gray
Editora: Fantástica Rocco
Número de páginas: 387
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.
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Resenha: Aenir – Garth Nix

Oi povo, tudo bem?

Seguindo as resenhas da série A Sétima Torre, fiz a releitura do terceiro volume, Aenir. Spoiler alert: que experiência ótima! ❤

resenha aenir garth nix

Sinopse: O mundo de sonhos de Aenir não é um lugar seguro. Um passo em falso pode levar ao perigo, a ciladas ou… à morte. Tal e Milla precisam encontrar seu caminho através dessa paisagem enganosa. Estão procurando o Códex, um estranho objeto mágico que decidirá o destino de seus mundos. Muitas criaturas se interpõem em seu caminho – desde os Pastores de Tempestades, feitos de nuvens, e do enxame de Vêsboras até uma figura horripilante chamada Rudbrut. Tal e Milla não podem ir embora de Aenir sem o Códex. Mas encontrá-lo é muito mais perigoso do que poderiam imaginar…

Aenir começa logo após o final de O Castelo. Tal, o Escolhido, e Milla, a Garota-do-Gelo, conseguiram fazer a passagem a Aenir, o Reino dos Espíritos. O problema é que, logo de cara, eles são atacados por duas criaturas ameaçadoras, conhecidos como Pastores de Tempestades. A contragosto, Tal acaba selando um pacto com eles, tornando-os Espíritos-Sombra dos dois garotos. Porém, essa atitude impensada causa uma ruptura em sua frágil amizade com a jovem, o que os leva à separação; afinal, os Homens-do-Gelo valorizam as sombras naturais e têm aversão pelos Espíritos-Sombra.

Depois que Tal e Milla partem em jornadas diferentes, o leitor tem a oportunidade de conhecer ambos com mais profundidade. Tal está incomodado por ter tomado para si um Espírito-Sombra que ele julga pouco imponente; Milla sente-se desonrada e acredita que seu sonho de virar uma Donzela Guerreira terminou. A busca pelo Códex dos Escolhidos, missão que os levou a Aenir, é cheia de percalços – que ficam ainda mais desafiadores por estarem separados.

O crescimento dos protagonistas é palpável nesse volume. Apesar de muito jovens, Tal e Milla carregam uma grande responsabilidade. Para o garoto, a missão envolve proteger sua família e descobrir o que aconteceu com seu pai; para a garota, conseguir uma Pedra-do-Sol significa salvar seu clã e provar seu valor como guerreira. Durante seu tempo em Aenir, Tal e Milla enfrentam diversos inimigos e criaturas ameaçadoras, o que só se torna possível com a ajuda dos Pastores de Tempestades.

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Aliás, que adição carismática a desses dois! Adras e Odris são irmãos com personalidades distintas: Adras é “macho”, muito forte, mas completamente burro; Odris é fêmea, tem um tamanho menor, mas é muito inteligente. De certa forma, eles são complementares a Tal e Milla. Enquanto o jovem “letrado e culto” conseguiu um Espírito-Sombra de inteligência abaixo da média, a “bruta e rude” Milla ficou com uma Espírito-Sombra gentil e racional. Essas relações acabam auxiliando os protagonistas em seu crescimento pessoal, por terem que lidar com diferenças tão gritantes de modo tão próximo.

Aenir é um mundo à parte, com criaturas totalmente novas e muita magia. Novamente preciso elogiar a construção de universo feita por Garth Nix, que nos apresenta a uma fantasia infantojuvenil muito original e diversificada. Os mistérios – que envolvem o sumiço do pai de Tal, as diferentes visões que Escolhidos e Homens-do-Gelo têm das sombras e, é claro, as intenções do Mestre-das-Sombras Sushin – permanecem nesse volume, que tem um desfecho cheio de ação. Além disso, nesse volume percebemos ainda mais semelhanças entre o povo dos Escolhidos e o povo dos Homens-do-Gelo, o que inclui antepassados em comum. Espero que em breve mais respostas sejam dadas (já que, a partir daqui, as leituras serão inéditas pra mim, já que nunca concluí a série).

Eu adorei reler Aenir e fiquei, novamente, encantada com o universo de A Sétima Torre. Foi uma leitura muito prazerosa e envolvente, com aquela narrativa fluida típica de livros infantojuvenis – mas sem se tornar superficial ou boba. Se você gosta de universos fantásticos criativos, vale muito a pena dar uma chance a essa série. 😉 Recomendo muito!

Título Original: Aenir
Série: A Sétima Torre
Autor: Garth Nix
Editora: Nova Fronteira
Número de páginas: 240

Resenha: A Sutil Arte de Ligar o F*da-se – Mark Manson

Oi gente, tudo bem?

Antes de irmos para o post de hoje, queria lembrá-los de que tá rolando sorteio de A Fogueira (livro de estreia de Krysten Ritter, a Jessica Jones) aqui no blog. Bora participar! ❤
E agora vamos à resenha: o livro em questão é A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, uma das minhas últimas leituras de 2018.

a sutil arte de ligar o foda-seGaranta o seu!

Sinopse: Chega de tentar buscar um sucesso que só existe na sua cabeça. Chega de se torturar para pensar positivo enquanto sua vida vai ladeira abaixo. Chega de se sentir inferior por não ver o lado bom de estar no fundo do poço. Coaching, autoajuda, desenvolvimento pessoal, mentalização positiva – sem querer desprezar o valor de nada disso, a grande verdade é que às vezes nos sentimos quase sufocados diante da pressão infinita por parecermos otimistas o tempo todo. É um pecado social se deixar abater quando as coisas não vão bem. Ninguém pode fracassar simplesmente, sem aprender nada com isso. Não dá mais. É insuportável. E é aí que entra a revolucionária e sutil arte de ligar o foda-se. Mark Manson usa toda a sua sagacidade de escritor e seu olhar crítico para propor um novo caminho rumo a uma vida melhor, mais coerente com a realidade e consciente dos nossos limites.

Eu não sou muito adepta a obras de autoajuda, mas foi difícil ignorar um livro cujo título incentiva o leitor a literalmente ligar o foda-se. Sendo eu uma pessoa bastante ansiosa e que se preocupa (até demais) com os outros – e o que os outros pensam de mim -, achei que me faria bem sair da caixa e ler algo com uma proposta como essa. E não é que a experiência foi interessante?

Mark Manson é um autor direto, que dá sua opinião sem meandros. Confesso que durante parte da leitura não simpatizei com ele (vamos combinar, ele é um cara cheio de privilégios), mas não posso negar que as reflexões que ele me propôs foram valiosas. Começando pelo título do livro: ao sugerir que a gente ligue mais o foda-se para as coisas, o autor não quer dizer que a gente não deva ligar pra nada nem ninguém. O que ele quer dizer é que precisamos PRIORIZAR aquilo que verdadeiramente é importante, para que possamos deixar de lado o que não é. Desse modo, paramos de nos estressar com situações que fogem ao nosso controle, que são triviais, que não valem o nosso sono. Esse conceito já foi suficiente pra me fazer pensar e refletir sobre o modo como lido com diversas coisas na vida, então nesse ponto já estava considerando a leitura útil.

resenha a sutil arte de ligar o foda-se.png

Posteriormente, o autor também discorre sobre como a busca constante pela felicidade é um erro. Em sua opinião, as pessoas fogem tanto das decepções e dores que não se permitem crescer; elas acreditam que seus problemas são únicos, que elas são especiais (no sucesso ou no fracasso) e que ninguém compreende as dificuldades que elas passam – quando, na verdade, a maioria de nós compartilha de problemas muito semelhantes (em maior ou menor grau) e ninguém é tão especial assim. Para Mark Manson, a partir do momento que aceitamos que a dor e a desilusão fazem parte do processo de crescimento, temos coragem para tomar atitudes, resolver problemas e, aí sim, encontrar a felicidade.

Para tal, Mark Manson propõe que repensemos nossos valores. Ele acredita que existam valores ruins e valores bons para guiar nossas escolhas. Os valores ruins estão, basicamente, ligados a terceiros: “sucesso pra mim é ser amado por todos”, por exemplo. É algo que não depende de você, mas de outras pessoas. Portanto, é um grande gerador de ansiedade. Quando você muda seus valores para algo que você possa realizar (como, por exemplo, “ser honesto(a) em meus relacionamentos”), é possível administrar muito melhor aquilo que você realmente deseja para si, inclusive mudar a sua visão sobre sucesso e fracasso.

Eu não concordei com todas as teorias de Mark Manson sobre a vida e nem sempre achei o autor a pessoa mais carismática do mundo. Contudo, não posso negar que A Sutil Arte de Ligar o F*da-se me fez pensar. Ao terminar a leitura, cheguei à conclusão de que ela me fez bem por abrir a minha mente e me mostrar como pode ser saudável ligar o botão do “foda-se” pro que não é importante. 🙂 Vale a pena dar uma chance.

Título original: The Subtle Art of Not Giving a F*ck
Autor: Mark Manson
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 224
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Resenha: Para Sempre Perdida – Amy Gentry

Oi gente, tudo bem?

Mas é claro que a primeira resenha de 2019 seria de um thriller, né? Hoje conto pra vocês o que achei de Para Sempre Perdida.

para sempre perdida amy gentry.pngGaranta o seu!

Sinopse: Transcorridos oito anos de seu sequestro, Julie Whitaker retorna subitamente para casa. A família, ainda que petrificada pela tragédia, se manteve unida e esperou muito por esse momento. Para Anna, no entanto, a volta da filha ao lar desperta mais questões do que respostas, mais dúvidas do que conforto. Ao notar incoerências no discurso da filha, Anna conclui que o seu pesadelo está apenas começando: ela suspeita da identidade da jovem, duvida de seus relatos e conclui que precisa descobrir a verdade sobre o sequestro da filha a qualquer custo.

Quando bati o olho nessa capa e nessa sinopse já me senti instantaneamente curiosa para conferir a trama de uma família que, após enfrentar o sequestro e a perda de sua filha mais velha, se depara com seu súbito retorno oito anos depois. Com o elemento da desconfiança presente – afinal, a mulher que retornou é mesmo Julie, a menina desaparecida? –, esse livro provoca no leitor a sensação de que nenhuma informação é verdadeira.

A narrativa colabora com esse sentimento: os capítulos são intercalados, sendo narrados em primeira pessoa por Anna (mãe de Julie) e em terceira pessoa por jovens que são parte fundamental da trama. São esses os capítulos mais confusos, especialmente no início, porque aparentemente eles não possuem conexão alguma. Com o passar do tempo, entretanto, as peças vão se encaixando e tudo começa a fazer sentido (não posso falar mais nada sem dar spoiler!!!). Minha dica, portanto, é a seguinte: prestem atenção nesses capítulos, pois eles fornecem informações valiosas para compreender o grande mistério da trama.

Ao longo da trama, a autora também aborda as rachaduras familiares causadas pelo sequestro de Julie. Anna e o marido se afastaram, a filha mais nova – que presenciou o sequestro – foi negligenciada pela mãe e os laços entre elas são completamente fragilizados. Achei uma pena que a autora não tenha utilizado Jane, a filha mais nova, como uma das narradoras, já que a personagem carrega um grande trauma e possível culpa por ter presenciado o sequestro da irmã sem poder fazer nada para impedi-lo.

Apesar da autora ter conseguido demonstrar os problemas que a família enfrentou, senti falta de um maior aprofundamento emocional dos personagens. Nos capítulos de Anna temos vislumbres do sofrimento vivido pela família, mas que rapidamente são substituídos pela desconfiança de que aquela mulher não seja realmente sua filha. A partir daí, Anna aceita a ajuda de um detetive particular que está determinado a resolver o mistério. Em contrapartida, os capítulos em terceira pessoa são mais ricos em aprofundamento – porém são todos narrados no passado. Novamente, o desenvolvimento dos personagens no tempo presente acaba sendo superficial.

resenha para sempre perdida amy gentry.png

Nesse sentido, os capítulos narrados no passado se destacam. Com o passar das páginas, o leitor conhece as dores e as dificuldades vividas pela narradora, que precisou vencer muitos desafios cruéis para sobreviver. É bem interessante como o livro utiliza a performance da fragilidade feminina como meio de sobrevivência: nossa narradora em diversos momentos aparenta ser alguém frágil, que precisa ser salva, como estratégia para atingir seus objetivos. Porém, não digo isso de modo a recriminá-la (apesar das atitudes erradas); ela realmente precisava sobreviver, e usou das ferramentas que tinha para tal. Esse aspecto da obra me lembrou muito de Alias Grace, em que também temos uma personagem feminina valendo-se do estereótipo errôneo construído em torno das mulheres para evitar a morte.

Existem algumas coisas que, para mim não fizeram muito sentido. São spoilers, então pule para o próximo parágrafo se não quiser ler. Primeira questão: se Julie é mesmo Julie, por que a obsessão por esconder o cabelo natural? É normal que cabelos loiros escureçam um pouco ao longo dos anos. Segunda questão: quantos anos afinal tinha Charlie/Maxwell? Ele é descrito como um cara mais velho, mas ao mesmo tempo fazia parte do grupo de jovens da igreja (?). Terceira questão: Julie sumiu aos 13 anos e voltou aos 21. Como Anna teve dificuldades em reconhecer seu rosto? Se fosse uma criança muito mais jovem, eu compreenderia, mas não era o caso. Pessoas não mudam TANTO a fisionomia dos 13 aos 21 anos, o rosto permanece reconhecível, já que nossos traços principais já estão bem definidos. Por outro lado, Julie sofreu muito e isso pode ter envelhecido ou mudado um pouco seu semblante, mas ainda assim… Achei meio forçado, uma conveniência de roteiro (para que Julie tivesse idade e ideias próprias o suficiente para ser ~corrompida por alguém na internet).

O final do livro é bastante satisfatório e consegue conectar a maioria das peças apresentadas ao longo da trama. A justificativa para o que acontece é verossímil, tanto que existem casos parecidos (e bem recentes) no mundo real. O desfecho proporciona algumas reflexões sobre como nem sempre conhecemos a fundo as pessoas que amamos e como é fundamental que exista comunicação e apoio no ambiente familiar. E, é claro, do cuidado que devemos ter com a internet, onde jovens podem ser facilmente seduzidos. Aproveito esse momento também para elogiar a capa, que é fantástica: a foto é super aflitiva e os olhos da menina tendo sua boca tapada são expressivos e comoventes. As cruzes espalhadas pela capa também são muito significativas. No final do livro você compreende como a capa foi bem pensada.

Para Sempre Perdida foi uma leitura satisfatória, com um mistério instigante e uma situação bastante delicada e importante como tema. A autora conseguiu concluir a maior parte das pontas soltas com eficiência, entregando uma história redondinha e bem construída – apesar de triste e dolorosa. Recomendo!

Título original: Good As Gone
Autor: Amy Gentry
Editora: Rocco
Número de páginas: 304
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Todos Nós Vemos Estrelas – Larissa Siriani e Leo Oliveira

Oi gente, tudo bem?

Estamos em vibes natalinas por aqui! 🎅🎄 Como diria a Phoebe, de Friends: “Happy Christmas Eve Eve!” 😂 E é claro que vai rolar resenha temática, né? Em parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias e Interrupted Dreamer, a coluna Uma Amiga Indicou do mês decidiu falar de obras de Natal. 😍uma amiga indicou

Eu resolvi seguir a dica da Pâm e conferir Todos Nós Vemos Estrelas, da Larissa Siriani e Leo Oliveira.

todos nos vemos estrelas.pngGaranta o seu!

Sinopse: Quando o Natal se aproxima, as pessoas ficam mais nostálgicas, amáveis e caridosas. Bem, isso é o que se espera. Porque para Lisa as coisas não são bem assim. Ela só gostaria de passar as férias trancada em seu quarto com seu livro favorito, lendo novamente as aventuras do príncipe Lucien em Trinitam. Mas… E quando seus planos falham miseravelmente e você precisa lidar com acontecimentos inesperados e visitas que parecem – ou talvez sejam mesmo – de outro mundo? Uma novela de fantasia recheada de magia, amizade, família, amor e estrelas. Porque é disso que o Natal é feito.

O que mais me surpreendeu nesse conto é o fato de que, apesar do número limitado de páginas (pouco mais de 100), os autores conseguiram criar duas histórias igualmente instigantes que se conectam e nos conquistam. Lisa é uma menina tímida que ama ler. Sua série favorita é A Glória do Traidor, protagonizada pelo príncipe Lucien. O caminho dos dois se cruza quando Lisa escreve em um caderno que ganhou de amigo secreto (da sua crush, Helô, que faz uma descrição bem ofensiva de Lisa na hora de entregar o presente) que gostaria de ter alguém que realmente a entendesse. Nesse momento, Lucien é transportado das páginas para o mundo real, o que causa uma confusão tremenda em ambos.

É muuuito divertido acompanhar o estranhamento de Lucien no nosso mundo. Lisa tem que explicar tudo a ele, inclusive o uso do banheiro HAHAHA! Existe uma mudança no estilo narrativo que me agradou bastante: os capítulos de Lisa são em primeira pessoa e trazem a fluidez e a modernidade da época dela; os de Lucien são narrados em terceira pessoa por um narrador onisciente. Achei essa escolha acertada, porque mantém o estilo narrativo do livro fictício e combina com obras de fantasia, fazendo o leitor sentir que mesmo em nosso mundo Lucien ainda faz parte de um universo fantástico.

Outro aspecto positivo da leitura é o fato de que 1) Lisa é lésbica e 2) isso não é a coisa mais importante sobre ela. A naturalidade com que a sexualidade da protagonista é trabalhada é muito bacana, e eu sempre fico contente quando vejo esse tema sendo abordado de modo tão tranquilo (como deveria mesmo ser! Espero que um dia cheguemos lá). Representatividade é sempre bem-vinda! ❤ Além disso, o conto consegue abordar a personalidade da protagonista, assim como sua relação com a família e as dificuldades que ela sente de se aproximar da madrasta, Tatiana. Apesar dos assuntos não serem suuuper aprofundados – até pelo número curto de páginas –, eles são trabalhados de modo eficiente para o contexto.

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Minha maior frustração com o conto é saber que A Gloria do Traidor não é de verdade. 😦 Achei a história de Lucien tão interessante que ia amar se os autores decidissem publicá-la! E, como crítica, achei o final um pouco abrupto; é revelada uma grande reviravolta e o leitor não sabe se aquilo realmente acontece ou não. Quando você termina a leitura, a sensação é de “preciso saber o final!!!”, sabem? E eu não gosto dessa sensação. 😛

Tá, mas e o Natal? Ele é só pano de fundo mesmo. O conto acontece na época de Natal, o que pode justificar um pouco a “magia” capaz de realizar o sonho de Lisa e trazer Lucien de Trinitam para nosso mundo. Mas, fora isso, o conto não se preocupa tanto em explorar a data no modo mais “tradicional” (decoração, ceia, etc.). A trama é mais voltada à amizade, a entender as diferenças, a abrir o coração para outra pessoa entrar… Lições muito bonitas que, na minha opinião, combinam muito com essa época. ❤

Todos Nós Vemos Estrelas foi uma grata surpresa que superou minhas expectativas. Divertido, com bons personagens e uma trama construída de maneira eficiente para o número de páginas proposto, é uma ótima opção de leitura para terminar o ano. E também um lembrete de que, se olharmos para o céu, podemos estar mais próximos de quem amamos.

Feliz Natal, povo! 😍🎄

Título Original: Todos Nós Vemos Estrelas
Autores: Larissa Siriani e Leo Oliveira
Editora: Amazon
Número de páginas: 119
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Resenha: Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja – Mindy Mejia

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje vim contar pra vocês o que achei do ótimo suspense Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja.

tudo que voce quiser que eu seja mindy mejia.pngGaranta o seu!

Sinopse: Hattie Hoffman passou os 17 anos de sua vida representando papéis – de boa filha, ótima aluna, namorada ideal. Mas Hattie espera mais do que isso da vida, e o que ela deseja acaba se tornando muito, muito perigoso. Quando a jovem é encontrada brutalmente assassinada, todos da cidadezinha onde vivia ficam estarrecidos com o crime. Logo vem à tona que Hattie estava envolvida num relacionamento com potencial explosivo. A questão é: alguém mais sabia disso? Será que o namorado de Hattie seria capaz de cometer um crime, se soubesse da traição? Ou será que o comportamento impulsivo da jovem a colocou no lugar errado, na hora errada? Com uma trama repleta de reviravoltas, Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja desafia o leitor a reconhecer o tênue limite entre inocência e culpa, identidade e decepção. E fica a questão: o amor leva ao autoconhecimento ou à destruição?

Hattie Hoffman ama atuar. Sua atuação, entretanto, não se restringe aos palcos. A garota tem diversos papéis prontos que executa com maestria: aluna perfeita, filha dedicada, excelente amiga, namorada ideal. Entretanto, quando ela é encontrada brutalmente assassinada, todos em sua pequena cidade natal, Pine Valley, ficam perplexos e devastados. Com uma narrativa não linear, que alterna entre passado e presente, vamos desvendando esse mistério pela perspectiva de três personagens: Del, o xerife; Peter, o professor de inglês e amante de Hattie; e, por fim, a própria Hattie.

Além do título, a capa do livro já evidencia a principal característica da protagonista: a personalidade de Hattie é fragmentada, e não sabemos ao certo quem ela realmente é. Após sua morte, acompanhamos diversos segredos da vida da personagem sendo desvendados por meio de seus relatos e também da investigação de Del. E, para ser sincera, enquanto a garota ia sendo desvendada, foi impossível não pensar em Hattie quase que como uma sociopata. Ela é capaz de interpretar múltiplas personagens, dependendo do interlocutor, sem o mínimo de remorso, ensaiando mentalmente tudo que precisa dizer ou fazer para obter o que deseja.

Peter, por outro lado, é um personagem que inicialmente causa pena. Ele foi arrastado para o interior porque a mãe de sua esposa está doente e, desde a mudança, sua mulher parece cada vez mais distante e indiferente, fazendo pouco caso de qualquer tentativa de aproximação. Porém, não demora para que o personagem conquiste meu ranço. Quando ele descobre que a mulher com quem conversava pela internet era Hattie, sua primeira atitude é botar um ponto final na relação (o correto a se fazer). Entretanto, após muita “insistência da jovem”, Peter cede aos seus desejos quando a garota completa 18 anos, e os dois vivem um caso durante meses.

Muitas coisas me causaram incômodo nessa relação: em primeiro lugar, é um homem mais velho em uma posição de poder (professor > aluna) olhando de modo sexual para uma adolescente e se relacionando com ela; em segundo, obviamente, a traição em si; por último, mas não menos importante, o fato de que a autora coloca Hattie como a pessoa que “faz” Peter ceder. É Hattie quem insiste e “corrompe o pobre professor” até ele perder a sanidade e não resistir aos seus encantos. Essa vibe de “jovem provocante que seduz o homem mais velho relutante” é muito problemática, porque reforça o estereótipo da menina sedutora e ardilosa, a verdadeira culpada pela corrupção moral do homem. Pelo amor de Deus, Peter era o adulto na relação, ele era o responsável por tomar a atitude correta!

resenha tudo que voce quiser que eu seja mindy mejia

Agora, falando um pouquinho sobre Del. O personagem, assim como o leitor, tenta encaixar as peças para entender o que aconteceu. Apesar de ter menos espaço narrativo do que Hattie e Peter, ainda assim conseguimos conhecer um pouco mais sobre ele e seu passado. Ele é um homem íntegro, solitário, mas que valoriza as amizades acima de tudo (em especial com os Hoffman, de quem é amigo há mais de 20 anos). Para o xerife, é extremamente doloroso investigar a morte de Hattie, devido à sua aproximação com a família. E, é claro, também é doloroso perceber como a garota vivia uma vida de segredos.

O mistério em relação à morte de Hattie não é o que prende o leitor. Inclusive, a resolução do caso deixa bastante a desejar. Mas o brilho de Tudo O Que Você Quiser Que Eu Seja não está no mistério, e sim na excelente construção dos personagens. Mindy Mejia consegue criar indivíduos muito verossímeis, cheios de qualidades e, principalmente, falhas. Seus questionamentos e sentimentos são realistas, e a trama não coloca as coisas preto no branco. Não, eu não me afeiçoei aos personagens, mas isso não quer dizer que eu não tenha conseguido admirar o modo como eles foram sendo desenvolvidos ao longo das páginas. As relações humanas – incluindo as obsessões doentias, as escolhas morais duvidosas e os atos extremos – são apresentadas de uma forma extremamente envolvente e bem construída. Como uma leitora que valoriza MUITO personagens bem desenvolvidos, fiquei totalmente satisfeita.

Enquanto lia Tudo Que Você Quiser Que Eu Seja, percebi que estava menos interessada no mistério em si do que na vida dos personagens. Nesse sentido, me lembrei de O Segredo do Meu Marido, que também faz um ótimo trabalho em destrinchar as relações e os sentimentos humanos. Mindy Mejia consegue atingir esse objetivo neste livro, trazendo à vida personagens ambíguos e diversos questionamentos sobre identidade, culpa, responsabilidade, escolhas e sobre como nem sempre conhecemos de verdade as pessoas que amamos. Recomendo muito!

Título original: Everything You Want Me To Be
Autor: Mindy Mejia
Editora: Rocco
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Vox – Christina Dalcher

Oi gente, tudo bem?

No final de setembro eu recebi da Editora Arqueiro o convite para ler Vox, um de seus lançamentos mais comentados, e hoje eu vim contar pra vocês o que achei dessa distopia. Aproveito também para agradecer à Editora Arqueiro pelo convite e pela confiança, foi um grande prazer realizar essa leitura. ❤

vox christina dalcher.pngGaranta o seu!

Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo… Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. Mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

É impossível não notar as semelhanças de Vox com O Conto da Aia, do conteúdo às cores da capa. O primeiro tem nítidas inspirações no segundo: um governo autoritário baseado no extremismo religioso (aqui conhecido como Movimento Puro), a retirada dos direitos civis das mulheres, uma protagonista que rememora o passado e não consegue acreditar como as coisas chegaram àquele ponto. Entretanto, de certo modo, Vox é menos “radical” que a obra de Atwood. Explico: nesta distopia, as mudanças que ocorrem na sociedade são muito mais próximas da nossa realidade. As mulheres são excluídas da força de trabalho e passam a ter uma quantia contada de palavras por dia (caso ultrapassem o número 100, levam choques), mas têm permissão de conversar entre si – com essa limitação, é claro –, manter suas casas e também suas famílias. Essa proximidade com a nossa realidade torna Vox um livro tão assustador quanto O Conto da Aia, justamente porque é muito fácil e possível imaginar as coisas acontecendo do modo como é descrito por Christina Dalcher.

O primeiro terço do livro nos dá muitos tapas na cara. Jean McClellan, a protagonista, foi uma renomada cientista que agora se vê presa aos indesejados afazeres domésticos. Enquanto relembra seu passado, uma personagem muito importante se faz presente em seus pensamentos: Jackie, sua antiga colega de quarto e ativista feminista. Em diversos momentos, as duas tiveram diferenças ideológicas na juventude, especialmente porque Jackie insistia na importância de se posicionar contra o retrocesso, enquanto Jean preferia estudar e focar na própria vida acadêmica. Existe um momento do livro em que Jean relembra, inclusive, que não votou nas eleições para presidente, e agora reflete as consequências disso no governo autoritário que ela é obrigada a aceitar. Ela é a típica cidadã comum que pensa que “não vai dar nada” e que acaba se omitindo para manter a consciência tranquila. Conseguem perceber semelhanças com a realidade? Enquanto eu lia Vox, foi inevitável refletir sobre o contexto político brasileiro e os retrocessos que pairam sobre nós. Pra mim, foi apavorante.

Por mais que o início do livro seja uma sequência de socos no estômago e relatos desconfortáveis, ele provoca e nos faz refletir. Eu fiquei totalmente imersa nos relatos de Jean sobre o presente e sobre o passado, por mais que a inquietude também estivesse ali. Infelizmente, da metade para o final o livro ganha um rumo completamente diferente. Após um acidente, o irmão do Presidente Myers desenvolve afasia de Wernicke (tema do estudo de Jean antes das mudanças políticas), e ela é recrutada para fazer parte da equipe que deve curá-lo. Essa afasia, causada por um dano cerebral, faz com que o indivíduo não consiga interpretar as palavras, muito menos proferi-las de modo que façam sentido. Depois de relutar, Jean aceita a proposta e passa a trabalhar com sua antiga chefe, Lin, e Lorenzo, seu amante. A partir desse momento, Vox perde um pouco de seu tom reflexivo e provocativo, ganhando ares de um livro de espionagem. Jean descobre diversos segredos do governo e, junto de seus colegas (especialmente Lorenzo), decide agir. O terço final do livro destoa completamente do resto: as sequências são corridas, cheias de Deus ex-machina e não trazem a verossimilhança que tanto elogiei no início da trama. Vox acaba deixando de lado as questões morais e políticas para focar em sequências mal desenvolvidas com uma pegada de livro de ação/policial.

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Falando um pouco sobre os personagens agora: eu não aprovo traição e, portanto, não consegui achar certo o relacionamento de Jean e Lorenzo. Porém, esse aspecto da vida da protagonista não me fez odiá-la, ou ao próprio Lorenzo. A Jean é uma personagem cheia de privilégios, mas só se dá conta disso quando é tarde demais. Ela tem defeitos e qualidades, o que faz dela alguém bastante real. Ela sofre ao assistir os homens de sua vida (principalmente o marido, Patrick, e os três filhos) vivendo normalmente, tendo a capacidade de falar sem restrições, enquanto ela e a filha mais nova, Sonia, precisam contar cada palavra. Ela se esforça para não odiá-los, mas irracionalmente a mágoa toma conta dela, especialmente porque Patrick demonstra certa apatia durante boa parte da trama. Somando tudo isso ao fato de que ela vive uma paixão avassaladora por Lorenzo, é fácil perceber que seu casamento é sustentado apenas por obrigação, já que o governo não permite que mulheres vivam sozinhas.

E já que o assunto são os personagens, novamente devo mencionar Jackie. Ela é aquela mulher vista como histérica pelas pessoas, especialmente por sua ênfase discursiva ao falar sobre privilégios masculinos. De certo modo, é o estereótipo de “feminista” que as pessoas costumam utilizar pejorativamente. Entretanto, a verdade é que Jackie tem a visão que faltava a Jean, percebendo muito antes os movimentos da sociedade rumo ao retrocesso. Sua determinação em protestar e abrir os olhos das pessoas à sua volta era extremamente necessária mas, infelizmente, as pessoas se recusaram a ouvir. Pra mim, Jackie é alguém muito lúcida e com motivos muito coerentes para sentir tanta raiva; afinal, como não sentir raiva quando seus direitos são ameaçados?

Vox é um livro com uma premissa excelente e uma narrativa muito boa. Só não dou nota máxima por causa do final mesmo, que é um tanto forçado e abrupto, ainda mais comparado ao início da trama. Apesar disso, recomendo demais a leitura! Os acontecimentos narrados por Jean são incômodos e revoltantes, mas não impossíveis. Livros como Vox são cada vez mais necessários, especialmente quando observamos o conservadorismo ganhando voz em diversas partes do mundo, inclusive aqui. E é nossa responsabilidade não ficar em silêncio.

Título original: Vox
Autor: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.