Dica de Série: Wandinha

Oi gente, tudo bem?

Ainda dá tempo de falar sobre a série que se tornou febre no TikTok? Espero que sim, porque eu amei Wandinha e não poderia deixar de indicar por aqui. 🤭

Sinopse: Inteligente, sarcástica e apática, Wandinha Addams pode estar meio morta por dentro, mas na Escola Nunca Mais ela vai fazer amigos, inimigos e investigar assassinatos.

Após um… digamos… “incidente” na escola que Wandinha frequentava (também conhecido como defender seu irmão de bullies usando piranhas enquanto eles treinavam na piscina), a jovem Addams é transferida pra uma escola especial, na qual seus pais também estudaram: a Nevermore Academy. Ela é conhecida por ser um internato para quem tem habilidades e características especiais, então por lá existem lobisomens, vampiros, sereias e outras pessoas excluídas da sociedade que possuem dons. A escola fica ao lado de uma cidade minúscula, Jericho, cuja economia até gira em torno do internato, mas tem um histórico não superado de ódio aos excluídos. Quando mortes estranhas começam a acontecer e todos passam a desconfiar dos alunos da Nevermore, Wandinha decide investigar por conta própria, dando início a uma trama muito maior do que ela – e com consequências letais.

É impossível falar desse fenômeno da Netflix sem mencionar a atuação de Jenna Ortega, que entregou uma Wandinha maravilhosamente ácida e cativante, mesmo que cheia de defeitos. A arrogância é um deles, por exemplo. 😂 Pra completar, ela tem uma postura totalmente fechada a novos amigos e relações. Por outro lado, Wandinha é inteligente, destemida e obstinada, além de engraçada justamente pelo seu modo seco, apático e cínico de ver a vida. Os comentários dela envolvendo morte e outras coisas obscuras são divertidos e rapidamente você se afeiçoa ao jeito turrão da personagem. O grande mérito por trás disso reside na atuação entregue e dedicada de Jenna Ortega, que se empenhou a criar vários “detalhes” na personagem (como o fato de atuar sem piscar). 

As amizades que a série constrói também são um ponto forte. Wandinha e Mãozinha, sua fiel escudeira, bolam planos juntas e Mãozinha está sempre ali para o que a protagonista precisa: seja entrar num cômodo trancado e desligar as câmeras, seja para amolecer um pouco o coração de gelo da garota. Como pode a gente torcer tanto pra uma mão, né? 😂 A outra amizade que surge na vida de Wandinha é Enid, sua colega de quarto e exato oposto em todos os sentidos possíveis. Eu adoro os paralelos de como tudo que cerca Enid é colorido, vibrante e otimista, enquanto o universo de Wandinha é preto, branco e cinza. Enid tem que insistir nessa amizade e por um bom tempo se doa mais do que Wandinha, mas é também com essa persistência que Enid consegue transformar o coração da amiga de uma forma significativa e bonita.

O único ponto que não gostei é o triângulo amoroso da primeira temporada, envolvendo um “normie” de Jericho e um aluno da Nevermore. Enquanto o primeiro, Tyler, vai conquistando Wandinha aos poucos por mostrar que, independentemente dela ser diferente, ela merece seu afeto, o segundo, Xavier, tem uma aura de mistério e uma química com a garota que fica clara desde o início da série. Os dois acabam envolvidos na investigação de Wandinha, que descobre que há um monstro à solta causando as mortes, e são muito importantes para todo o desenrolar da trama. Não posso falar muito sobre nenhum deles pra não soltar spoilers, mas posso dizer que são nomes que vão estar presentes de forma significativa em toda a investigação – e na conclusão dela.

Adorei o plot investigativo, porque naturalmente tenho afinidade com esse tipo de história. O fato de Wandinha não ser só uma série adolescente sobre romance, os poderes de clarividência da protagonista ou sua adaptação à escola nova me agradou muito, porque deu um senso de propósito à história e ótimos ganchos. A cada nova descoberta que Wandinha faz sobre o monstro e os mistérios envolvendo Jericho e Nevermore, você fica com mais e mais vontade de continuar dando play. Gostei bastante do desfecho da história e acho que amarrou bem as pontas soltas, deixando um caminho de possibilidades para uma segunda temporada, mas sem depender exclusivamente dela (ainda bem que a confirmação da renovação já chegou!).

Independentemente da coreografia que tomou conta do TikTok, Wandinha é uma série divertida e envolvente por si só. O clima macabro, o humor ácido e a investigação são pontos fortes que tornam a produção um entretenimento de qualidade, daqueles que divertem e fazem você nem ver o tempo passar, mesmo com episódios mais longos. Vale o hype e vale o play! 📺

Título original: Wednesday
Ano de lançamento: 2022
Criação: Alfred Gough, Miles Millar
Elenco: Jenna Ortega, Emma Myers, Hunter Doohan, Percy Hynes White, Joy Sunday, Georgie Farmer, Christina Ricci, Victor Dorobantu, Gwendoline Christie, Riki Lindhome

Review: Uma Garota de Muita Sorte

Oi pessoal, tudo bem?

Assisti há algumas semanas Uma Garota de Muita Sorte, mas outros conteúdos ganharam prioridade e só agora consegui trazer minha opinião a respeito. Vamos conhecer?

Sinopse: A vida perfeita de uma escritora começa se despedaçar quando um documentário sobre crimes reais faz com que ela confronte seu angustiante passado no colégio.

No longa, estrelado pela carismática Mila Kunis, conhecemos Ani, uma mulher com a vida dos sonhos: ela tem um emprego bacana como escritora numa revista, é noiva de um homem charmoso e rico e tem aquele corpo magro que o padrão de beleza impõe. Sua vida começa a ser balançada quando o diretor de um documentário a procura, insistindo que ela tope dar seu depoimento sobre um evento traumático do seu tempo de escola. Ani hesita, pois não quer que as sombras de seu passado atrapalhem seu presente e futuro brilhantes – até que, aos poucos, vai ficando claro que o castelo que ela construiu é feito de cartas, e qualquer sopro pode fazê-lo desmoronar.

Não demora a ficar claro como o dia que tudo no comportamento de Ani é milimetricamente calculado. Ela sai para almoçar com o namorado e come somente duas fatias da sua pizza napoletana individual, pedindo à garçonete para embalar o resto pra viagem. Quando o noivo vai ao banheiro, ela come o resto da pizza com uma voracidade digna de episódio de compulsão alimentar. Ela então finge que a garçonete derrubou a bebida em cima da pizza e eles vão embora. Esse é apenas um exemplo simples pra evidenciar a atuação que Ani aplica em cada aspecto de sua vida, porque ela deseja ser perfeita e construir a vida perfeita, já que ela não teve nada disso quando era adolescente (e aos poucos vamos entendendo a profundidade do seu trauma). Só que isso também torna a personagem difícil de gostar, pelo menos na maior parte do filme: é difícil torcer por alguém que interpreta um papel forçado para agradar a todos à sua volta. Ani não tem espontaneidade e nem vulnerabilidade, e isso afasta o espectador dela.

Quando ela decide participar do documentário, o filme vai entrando no âmbito do suspense/thriller. Começam a ser exibidas cenas da época em que a protagonista estudou em um colégio particular graças a uma bolsa dada por seu brilhantismo, especialmente em termos de redação. Ao mesmo tempo em que faz amizade com dois outsiders da escola, ela também consegue criar vínculo com o grupinho dos populares, e começa a namorar um deles. Uma festa dos alunos é o estopim para uma sequência de eventos destrutiva para todos os envolvidos, e as peças aos poucos se encaixam. O filme demora um pouco a trazer esses elementos à luz, o que pode cansar um pouco o espectador, mas a moral da história por trás de tudo isso vale a espera.

Esse parágrafo é pra discutir o principal ponto do filme, mas é spoiler, então pule para o parágrafo seguinte não quiser ler, tá bem? Uma Garota de Muita Sorte não se destacou pra mim por ser um filme de suspense excelente, mas sim por trazer o tema “consentimento” com tanta veemência e seriedade. Ani foi vítima de um estupro coletivo que, de certa forma, serviu como incentivo para que seus amigos – que já odiavam os populares – somassem o trauma dela aos seus próprios e resolvessem fazer um tiroteio na escola. Tudo isso faz com que a personagem de Mila Kunis sofra um trauma que a impede de seguir a vida normal, porque ela nunca se curou desse passado. Enquanto isso, um dos rapazes que a estuprou ficou paraplégico no tiroteio e se tornou uma espécie de “herói nacional” ao escrever livros e dar palestras contra o armamento da população; acontece que ninguém sabe do estupro, porque quando Ani tentou denunciar, ninguém deu ouvidos. Uma Garota de Muita Sorte machuca ao mostrar a dura realidade do que acontece quando pessoas que deveriam proteger simplesmente negligenciam a vítima, que precisa viver não apenas a violência do ato como também a humilhação de ser desacreditada. A atuação de Mila Kunis e de Chiara Aurelia, que a interpreta quando jovem, também merecem destaque: ambas conseguem demonstrar com muita competência a profundidade das cicatrizes emocionais causadas por tudo que aconteceu. Como crítica negativa, fica uma decisão desnecessária do roteiro: precisavam mesmo terem sido tão gráficos nas cenas de estupro? Eu respondo: não. É desconfortável e degradante ver Ani naquela situação, e a falta de um trigger warning pra quem já passou por violências semelhantes me preocupa. Não me impressiona que o filme tenha sido dirigido por um homem, porque acho improvável que uma mulher que se preocupe minimamente com o impacto da violência sexual fosse escolher esse caminho narrativo. :/ 

Uma Garota de Muita Sorte é um bom filme sobre traumas, sobre o peso de ser mulher em uma sociedade que nos sexualiza e nos descredibiliza e sobre ser fiel a si mesma. A jornada de Ani para recuperar o controle da própria vida e narrativa é bastante comovente, porque aos poucos ela vai percebendo que precisa de bases mais sólidas do que aquelas que criou, e vemos sua mudança e seus sacrifícios pra encarar esse novo momento. Ainda que inicialmente a protagonista não seja cativante, aos poucos entendemos o seu jeito e passamos a torcer por ela. Recomendo, mas deixo aqui o trigger warning a respeito da violência sexual.

Título original: Luckiest Girl Alive
Ano de lançamento: 2022
Direção: Mike Barker
Elenco: Mila Kunis, Chiara Aurelia, Finn Wittrock, Connie Britton, Justine Lupe, Alex Barone

Review: Nada de Novo no Front

Oi pessoal, tudo bem?

Nada de Novo no Front é um romance de Erich Maria Remarque (sobre o qual já falei aqui no blog) e que ganhou uma nova adaptação este ano pela Netflix. Considerando que o livro foi um dos mais intensos que já li, estava mais do que ansiosa para conferir esse longa cheio de potencial.

Sinopse: Convocado para a linha de frente da Primeira Guerra Mundial, o adolescente Paul encara a dura realidade da vida nas trincheiras.

A trama gira em torno da Primeira Guerra Mundial, sob o ponto de vista dos soldados alemães – especialmente do protagonista, Paul Bäumer. O filme começa em 1917, no terceiro ano de guerra, e Paul e seus três amigos (Ludwig, Franz e Kropp) são motivados pelos professores e pelo idealismo nacionalista a se alistarem. Ainda que a família de Paul fosse contra, o rapaz não deseja ficar pra trás, querendo cumprir seu papel de herói patriótico ao lado dos camaradas. O filme evidencia de cara os sorrisos nos rostos dos recrutas, a forma empolgada como eles cantam suas canções e a inflamação provocada por discursos apaixonados de professores e figuras de poder em relação à guerra e ao papel da Alemanha nela. Porém, quando chegam no acampamento e se preparam para ir até o front, o grupo de amigos sente o baque do que a guerra realmente representa: fome, frio, falta de higiene, doenças e, é claro, a iminência constante da morte. Paul então vê cada um desses elementos atingirem a si e ao seu grupo, enquanto os rapazes vão perecendo e deixando Paul sozinho.

Quando terminei o longa, cheguei à conclusão de que ele é um excelente filme sobre guerra, mas não uma excelente adaptação literária. O início de Nada de Novo no Front segue bastante a atmosfera e a trama criadas por Remarque em sua obra, mas da metade pro final o filme toma decisões próprias que o afastam do material base. Como eu não sou fã de filmes de guerra e só estava assistindo por amar o livro, isso acabou me desapontando um pouco. Mas, se você não leu a obra original e curte esse estilo de filme, certamente vai adorar, porque é um longa muito competente em equilibrar excelentes atuações, cenas de guerra aflitivas e violentas e também expor as hipocrisias dos diplomatas, que bebem vinho e tomam decisões literalmente de vida ou morte enquanto os soldados se matam no campo de batalha.

A entrega total do elenco é fundamental pra tornar Nada de Novo no Front mais do que um filme de guerra. O desespero de Ludwig, por exemplo, é palpável: ele não demora a perceber o risco que corre e o arrependimento por ter se alistado. Paul, por sua vez, tem seu rosto completamente mudado do início pro meio e pro fim do filme: o brilho no olhar se vai e os sorrisos se tornam mais raros, o cansaço está estampado em cada linha de expressão, bem como sua desolação. Felix Kammerer, o ator que dá vida ao protagonista, me impactou com sua performance, transmitindo com poucas palavras o quanto a guerra destruiu os sonhos do jovem Paul.

E já que estamos falando sobre as emoções dos personagens, é aqui que entra uma diferença absurda da adaptação que eu senti muita falta. Enquanto o longa se concentra 100% na guerra nas trincheiras e nas negociações que acontecem em paralelo, o livro tem momentos emocionantes fora desses cenários. Paul chega a ir para casa duas vezes na obra original, e eu lembro que essas ocasiões foram muito marcantes durante a leitura, porque evidenciam a sensação de desconexão do personagem com o “mundo normal”. Ao tentar se readequar à sociedade, Paul se sente um outsider, pois ninguém ali sabe o que ele vivenciou e é capaz de compartilhar da sua dor e de seus traumas. Por outro lado, fiquei contente em ver que o filme adaptou uma das melhores sequências do livro: o surto de Paul após vitimar um homem na luta corpo a corpo pela primeira vez. O rapaz fica desesperado por suas mãos terem sido a causa daquela vida ter chegado ao fim, e é uma cena marcante porque mostra ao protagonista que os inimigos também são pessoas normais, com vidas e famílias. Acho que grande parte da carga emocional do livro reside nesses dois momentos (a inadequação fora da guerra e a morte do soldado francês), e eu teria adorado ver ambos retratados na tela.

Nada de Novo no Front é um filme melancólico, intenso e que causa um desconforto no estômago (ainda mais pelas mudanças que o roteiro optou por fazer no final, me pegando desprevenida). Ele revolta, especialmente quando coloca homens cheios de ego – mas convenientemente bem longe da batalha – tomando decisões que vão afetar permanentemente a vida dos soldados, ou até mesmo causando suas mortes. O patriotismo incentivado pelas figuras de referência dos jovens é usado para manipulá-los e levá-los a lutar uma batalha que não é sua, em nome de uma honra que não existe. Porque não existe honra na guerra, ela nada mais é do que a evidência de que falhamos enquanto seres humanos e falhamos na capacidade de dialogar. Nesse sentido, filmes como Nada de Novo no Front servem como um alerta doloroso e necessário de que os poderosos não ligam para a vida humana, desde que seus objetivos sejam alcançados. Assim como o livro, recomendo sem pensar duas vezes.

Título original: Im Westen nichts Neues
Ano de lançamento: 2022
Direção: Edward Berger
Elenco: Felix Kammerer, Albrecht Schuch, Aaron Hilmer, Moritz Klaus, Adrian Grünewald, Edin Hasanovic, Daniel Brühl, Devid Striesow

Dica de Série: Dahmer: Um Canibal Americano

Oi pessoal, tudo bem?

Que eu adoro histórias policiais, de serial killer e thrillers, quem me acompanha aqui já sabe. Por isso, minha curiosidade foi ativada quando estreou Dahmer: Um Canibal Americano na Netflix, série que é fortemente baseada na história real de Jeffrey Dahmer e dramatiza a história de um dos piores assassinos dos EUA desde sua infância até sua morte.

Sinopse: Por mais de uma década, Jeffrey Dahmer conseguiu matar 17 jovens rapazes sem levantar suspeitas da polícia. Como ele conseguiu evitar a prisão por tanto tempo?

Começo essa resenha dizendo que o primeiro episódio da série foi um dos mais aflitivos a que já assisti em um bom tempo. Como eu já tinha lido sobre o caso Dahmer – um serial killer que sequestrava, estuprava e matava homens, especialmente negros, além de canibalizá-los –, sabia várias informações sobre seu MO e também a forma como ele foi capturado. Mas fui pega de surpresa ao perceber que a série começa a contar a história de trás pra frente, ou seja, mostrando como foi sua tentativa de assassinar Tracy Edwards, a vítima que fugiu e conseguiu levar a polícia ao apartamento de Dahmer, ocasionando a sua prisão. Como o episódio inteiro gira em torno do modo como Dahmer trata Edwards, o espectador fica com uma bola no estômago durante toda sua duração, torcendo pra que acabe logo, pra que Tracy Edwards fuja. Mal sabia eu que os próximos episódios seriam ainda mais desconfortáveis, pois sei que os outros rapazes não tiveram a mesma sorte. 😦 

Existe uma crítica muito forte à espetacularização do true crime, algo que o livro Garota, 11 (resenhado aqui) também trata. Concordo bastante que seja necessário um olhar crítico e não colocar o assassino em uma posição de destaque e protagonismo, porque esse viés pode causar uma certa idolatria (Ted Bundy e o próprio Dahmer são ótimos exemplos de criminosos que tinham fãs). Houve críticas a Dahmer: Um Canibal Americano, especialmente por parte de algumas famílias cuja dor foi exposta pela série; porém, no meu humilde ponto de vista, acredito que Ryan Murphy não tenha colocado Dahmer como alguém a ser admirado, mas sim como um ser humano problemático, porém no controle das ações monstruosas que tomou. O fato de enxergarmos Dahmer como um ser humano é importante, pois não nos deixa esquecer que não é um “monstro possuído pelo demônio” que é capaz de atrocidades; seu vizinho pode ser essa pessoa.

Além disso, Dahmer: Um Canibal Americano tem uma abordagem que até então eu não tinha visto em nenhuma série baseada em true crime: ela foca na perspectiva das vítimas, fazendo com que o espectador se lembre que elas são pessoas de verdade, com sonhos, famílias e aspirações. Enquanto outros títulos por aí apenas trazem nomes e fotos em uma linha do tempo, nessa dramatização da história de Dahmer nós realmente conseguimos criar conexão com as vítimas, sentir empatia e torcer pra que de alguma forma elas consigam escapar – ainda que saibamos que isso é impossível. Em Um Canibal Americano, as vítimas não são nomes numa lista, mas pessoas pelas quais torcemos e por quem sentimos luto.

Um dos maiores pontos fortes da série é também o que causa mais revolta: ela evidencia sem hesitar a podridão do sistema policial e judicial americano. Dahmer chegou a carregar sua primeira vítima desmembrada em sacos de lixo no banco de trás do carro, mas ao ser parado por um policial simplesmente foi mandado pra casa. Um garoto asiático de 14 anos conseguiu fugir do seu apartamento, mas estava tão drogado pelas substâncias que Dahmer colocou em sua bebida que a polícia simplesmente acreditou na história que Dahmer contou do menino ser maior de idade, ser seu namorado e ter bebido demais. Os policiais não apenas compram a história do assassino como ajudam a colocar o jovem Konerak Sinthasomphone de volta no apartamento do seu algoz, em cujas mãos o garoto morreu na mesma noite. Com o passar do tempo, mais e mais nomes de pessoas não-brancas (principalmente negras) vão aparecendo na lista de “desaparecidos” da cidade, mas ninguém mexe um dedo pra investigar além da superfície. A vizinha de Dahmer escuta sons, gritos e sente um cheiro desagradável vindo do apartamento do serial killer, mas mesmo após meses e meses de súplica por telefone, a polícia nunca veio checar. E mesmo quando Dahmer é julgado e condenado por se masturbar em público, ele é tratado de forma indulgente pelo juiz, que afirma não querer estragar a vida do rapaz por causa de um erro causado pelo alcoolismo. Com tudo isso posto, fica claro que Dahmer entendeu seu privilégio branco e o usou em todas as oportunidades que teve para sair impune de seus crimes, que iniciaram no fim dos anos 70 e terminaram com sua prisão nos anos 90 (com alguns anos de inatividade nesse intervalo). O racismo, a xenofobia e a homofobia das autoridades foram tão culpados quanto Jeffrey Dahmer pelo seu rastro de horror.

Se você tem curiosidade de conferir a série mas tem receio dela ser muito gráfica, aproveito pra te tranquilizar: poderia ser bem mais, mas optou-se por dar bem menos foco à parte da violência e dos assassinatos e mais no Modus Operandi de Dahmer e de sua história pessoal. Fica claro que sua família desestruturada, a sensação de abandono e a negligência parental frente a problemas que ele nitidamente apresentava são elementos que constituem o caminho que Dahmer tomou, ainda que jamais justifiquem. Nesse sentido, fiquei aliviada, pois odeio cenas de violência, especialmente quando desnecessárias e gráficas demais. A dificuldade em assistir veio mais da revolta que senti contra a polícia e o Estado do que em relação a sangue e ao que ele fazia com os corpos das vítimas (na série nem fala sobre necrofilia e mal mostra o canibalismo, por exemplo).

Dahmer: Um Canibal Americano é uma série muito imersiva e revoltante, mas que coloca sob um forte holofote as consequências de um sistema que privilegia pessoas de determinada cor enquanto negligencia outras que não se enquadram nesse padrão. Ao focar nas vítimas em vez de endeusar os atos do criminoso, a dramatização também coloca o espectador na posição de encarar o fato de que essas pessoas eram reais e tiveram tudo tomado de si, deixando buracos incapazes de serem preenchidos em suas comunidades e famílias. Não posso deixar de elogiar também a performance dos atores, com destaque para Evan Peters, que encarna todas as nuances de Dahmer: a vazia, a explosiva, a machucada, a cruel. Depois de assistir à série eu conferi o documentário com as falas reais de Dahmer e é bem impressionante o quanto o ator conseguiu dar vida de forma convincente a esse serial killer terrível. Pra quem gosta de true crime, Dahmer: Um Canibal Americano vale o play!

Título original: Dahmer – Monster: The Jeffrey Dahmer Story
Ano de lançamento: 2022
Criação: Ian Brennan, Ryan Murphy
Elenco: Evan Peters, Richard Jenkins, Molly Ringwald, Niecy Nash

Dica de Série: Uncoupled

Oi pessoal, tudo bem?

Eu adoooro séries de comédia, especialmente se forem sitcoms ou mais “vida real”. A dica de hoje se enquadra bastante nessa segunda categoria, equilibrando comédia e uma pitadinha de drama: Uncoupled, da Netflix.

Sinopse: Atordoado depois do rompimento com o namorado de longa data, Michael enfrenta as expectativas do recomeço e dos encontros depois dos 40.

Quem chamou a minha atenção pra série foi o Neil Patrick Harris, um ator de quem eu gosto muito por causa de How I Met Your Mother. Aí descobri que tinha também a Tisha Campbell-Martin (a inesquecível Jay, de Eu, a Patroa e as Crianças) no elenco e pronto, já quis conferir. Além disso, o enredo gira em torno de um assunto bem interessante: ficar solteiro depois de muitos anos de um relacionamento e em uma idade um pouco mais madura. Uncoupled é, em poucas palavras, uma série sobre recomeçar e redescobrir a si mesmo.

Na trama, Michael (o personagem de Neil) é subitamente abandonado pelo namorado, Colin, com quem se relaciona há 17 anos. Ele descobre a notícia na festa surpresa de 50 anos que preparou para o parceiro, e vê a sua vida virar de cabeça para baixo, especialmente devido à recusa de Colin em conversar a respeito e revelar seus motivos. Inicialmente, parece que Colin está apenas tendo uma crise de meia-idade, mas o personagem “acusa” certos comportamentos de Michael que, com o passar dos episódios, vamos percebendo também. Ainda assim, nada justifica terminar uma relação de modo tão egoísta quanto Colin terminou, o que torna impossível ter muita empatia pelo personagem.

O aspecto da personalidade de Michael que se revela mais difícil é o fato de que ele demonstra fazer tudo girar em torno dele. Porém, é compreensível que durante os primeiros meses do término esse comportamento se acentue; o lado positivo é que o protagonista é obrigado a confrontar esse seu defeito não apenas por causa do que Colin fez, mas também pelos feedbacks de seus amigos, que estão tentando ajudá-lo a dar a volta por cima. E esse é um elemento crucial em Uncoupled: a importância de um círculo de amizades forte para ser sua rede de apoio. São três os principais amigos de Michael: Suzanne (com quem ele trabalha e é um grande alívio cômico, além de ser uma mulher forte e independente que cria um filho sozinha), Stanley (um amigo leal e que provoca um momento de amadurecimento importante em Michael) e Billy (que acaba exercendo um pouco o estereótipo de cara bonitão que só sai com parceiros mais jovens e de forma superficial). Apesar do foco em Michael, esses três personagens ganham um tempo de tela bem interessante e têm plots próprios, de forma que não se transformem apenas em nomes sem importância que orbitam o personagem principal.

Uncoupled também trata da homossexualidade de forma natural, não sendo o único fio condutor da trama. Michael e seus dois amigos homens são gays, e é claro que a vida de solteiro deles gira em torno de conhecer novas pessoas e se abrir pro mundo, mas a trama não é sobre identidade, sobre preconceito ou nada do tipo. É uma comédia dramática sobre ficar solteiro aos 40 e poucos anos com romance gay, e não uma série sobre ser gay necessariamente. Isso traz uma representatividade importante justamente por ser natural, a sexualidade dos personagens é apenas um dos elementos que compõem suas vidas e o desenrolar da história.

Em resumo, Uncoupled é uma série que vale o play. São poucos episódios de curta duração, e meu único receio é que não tenha segunda temporada, porque a primeira termina com um baita cliffhanger. Mas, mesmo que não tenha, acho que a mensagem principal transmitida compensa o tempo investido, porque é sempre bom ser impactada por histórias que nos relembram que nunca é tarde pra mudar de rota, recomeçar, se reinventar e se redescobrir. 😀

P.S.: gente, estou saindo em uma viagem de férias e não levarei meu computador, então os posts retornam dia 21. Até lá! ❤

Título original: Uncoupled
Ano de lançamento: 2022
Criação: Jeffrey Richman, Darren Star
Elenco: Neil Patrick Harris, Tisha Campbell, Brooks Ashmanskas, Emerson Brooks, Marcia Gay Harden, Tuc Watkins

Dica de Série: The Sandman

Oi pessoal, tudo bem?

Se tem um título que anda no topo da lista de mais assistidos da Netflix nas últimas semanas, é The Sandman. Obviamente eu, que adoro uma boa série de fantasia e um quê sombrio, corri pra assistir. Vamos conhecer? 😉 

Sinopse: Após anos aprisionado, Morpheus, o Rei dos Sonhos, embarca em uma jornada entre mundos para recuperar o que lhe foi roubado e restaurar seu poder.

A trama gira em torno de Sonho, ou Morpheus, que foi invocado por feiticeiros humanos que desejavam invocar sua irmã, a Morte. Aprisionado por mais de cem anos – o que gerou consequências catastróficas no nosso mundo, ou “Mundo Desperto” –, quando Morpheus finalmente retoma sua liberdade ele precisa partir numa jornada em busca de seus três artefatos roubados: um elmo, um rubi e sua poderosa areia. Porém, em seu caminho ele encontrará Pesadelos que fugiram de seu reino e não desejam retornar, além de cruzar com inimigos que não vão facilitar a sua missão.

No universo de The Sandman, existem seres chamados de Perpétuos. Eles existem desde que tudo existe, não sendo deuses, mas sim aquilo que representam em si mesmos, sendo governantes de seus próprios reinos e senhores daquilo que influenciam. Nessa primeira temporada conhecemos quatro deles: Sonho, Morte, Desejo e Desespero. Todos os Perpétuos são irmãos, mas não esperem uma relação necessariamente próxima de todos eles: tirando a boa relação de Morpheus e Morte, a série nos mostrou que existem rivalidades e disputas de poder bem perigosas entre eles. Tudo que eu sabia sobre Sandman era bem superficial, pois não li as HQs, mas foi o bastante pra acompanhar a série sem maiores problemas, ainda que existam elementos que tenham ficado somente nas entrelinhas (como a própria rivalidade entre alguns dos Perpétuos, por exemplo).

Sandman acerta em cheio em não se estender demais na busca de Morpheus por seus itens mágicos, pois isso dá espaço a outras histórias bem bacanas ao longo da temporada. Pode-se dizer que ela é dividida em duas: na primeira parte, acompanhamos a recém retomada liberdade de Morpheus, e na segunda temos como foco sua perseguição a Coríntio, um Pesadelo que deseja se livrar de Morpheus para seguir causando seus terrores no Mundo Desperto. A série tem episódios bem marcantes, sendo o meu favorito o episódio 6, focado na Morte. Ele é um episódio longo com duas histórias amarradinhas: começa com o reencontro de Morpheus e da Morte, em que a série mostra um lado gentil, afetuoso, otimista e caloroso de um momento que costuma ser assustador em nossa cultura (o momento da despedida final); e depois se desenvolve para a amizade do protagonista com um humano que foi agraciado pela Morte com a imortalidade, desde que se encontrasse a cada século com Morpheus para contar se a dádiva havia se transformado em tortura ou não. Sob alguns aspectos, a série funciona quase como uma antologia dentro do universo do protagonista, tendo vários plots que abordam situações e personagens distintos.

E o que dizer da beleza visual de The Sandman? A produção teve um investimento pesado na produção dos efeitos especiais, e cada episódio é deslumbrante. Em tempos nos quais os profissionais de CGI estão tendo burnout ao trabalhar pra Marvel (o que gera memes com terceiros olhos e pele verde), foi um verdadeiro deleite poder assistir a cenários tão bonitos e animações tão caprichadas. O próprio mundo de Morpheus, o Sonhar, é composto dos mais diversos ambientes. Os Perpétuos por si só também têm a aparência que mais se adequa à pessoa ou ao ser com o qual estão interagindo. Ou seja, essa preocupação em fazer com que tudo fosse bem feito e visualmente impactante deu muito certo, porque fiquei de queixo caído em diversos momentos.

Como aspecto mais fraco da produção, pode-se dizer que o desenvolvimento dos personagens secundários acaba sendo preterido. Ao mesmo tempo em que histórias individuais começam e terminam nos mesmos episódios, o que é bacana por passar uma “vibe antológica”, poucos personagens ganham camadas que os transformem em algo além de sua função para aquele momento. Um exemplo disso é Johanna Constantine, cuja aparição pontual serve pra um único fim: ajudar Morpheus em sua busca pela areia mágica. A própria Morte, tão carismática, só aparece em um episódio de transição entre os arcos da busca pelos artefatos e a o arco de Rose Walker, a Vórtice dos Sonhos que é o ponto-chave da segunda metade da temporada. E, já que mencionei Rose, a série perde um pouco de seu fôlego quando a trama passa a girar em torno dela, fazendo com que meu interesse tenha sido levemente diminuído.

The Sandman é uma produção cara e tem chances de cancelamento por conta disso, segundo o próprio criador da HQ, Neil Gaiman. Por isso, fica o convite: vamos mostrar que séries de qualidade, com roteiros interessantes e fora do óbvio, também merecem permanecer na Netflix? Fica o convite para cair de cabeça nesse universo tão criativo, cheio de reflexões e questionamentos sobre a vida. 

Título original: The Sandman
Ano de lançamento: 2022
Criação: Neil Gaiman, David S. Goyer, Allan Heinberg
Elenco: Tom Sturridge, Boyd Holbrook, Patton Oswalt, Vivienne Acheampong, Vanesu Samunyai, Mason Alexander Park, Gwendoline Christie, David Thewlis

Dica de Série: Fundamentos do Prazer

Oi pessoal, tudo bem?

Vamos de dica +18 hoje? Vamos! Quero apresentar a vocês a um documentário curtinho – mas bem relevante – da Netflix chamado Fundamentos do Prazer. 🙂

Sinopse: Sexo, alegria e ciência moderna se unem nesta série reveladora para enaltecer a complexidade do prazer feminino e destruir mitos antiquados.

A produção de apenas 3 episódios tem como objetivo principal levantar o debate sobre como o sexo e o prazer se relacionam com o gênero feminino. O fato é que ainda vivemos em uma sociedade machista, que inibe as mulheres de descobrirem o próprio corpo e aquilo que funciona pra elas no âmbito erótico, portanto é muito comum encontrar mulheres adultas que nunca experimentaram um orgasmo ou tiveram uma relação sexual satisfatória. Some isso ao fato de que o conservadorismo também cumpre seu papel de tentar impedir a educação sexual nas escolas e teremos como resultado um número enorme de mulheres insatisfeitas sexualmente ou propensas a aceitar relações que não as satisfazem por tratar tal situação como normalidade.

O primeiro episódio é focado no corpo feminino. E aqui vale mencionar o acerto do documentário em trazer uma diversidade enorme: mulheres de diversas faixas etárias, heterossexuais, lésbicas ou bissexuais, trans, negras, gordas, magras… as convidadas que participam com seus depoimentos são diversas e consequentemente causam uma empatia imediata, pois é possível nos enxergarmos em seus relatos. Além disso, o documentário também traz pesquisadoras importantes do ramo, bem como profissionais do meio sexual (como uma empresária dona de uma sex shop) para aprofundar o debate. O primeiro episódio gira em torno da biologia por trás do orgasmo feminino: o documentário apresenta claramente o potencial clitoriano, que por tantos (homens, cof cof) é visto como algo tão pequeno e insignificante – sendo um órgão bem maior do que o que vemos no exterior. As participantes do documentário focadas em elucidar questões e tirar dúvidas explicam como o corpo feminino opera do ponto de vista mais funcional, enquanto as mulheres que compartilham suas experiências revelam seu processo de aprender mais sobre o próprio corpo.

O segundo episódio tem como pauta o poder da mente e do impacto dos pensamentos para o prazer feminino. Mas não de um jeito estereotipado, de que as mulheres têm mais dificuldades do que os homens para sentirem prazer. Na verdade, o documentário provoca a reflexão de que o sexo deve começar muito antes da iniciativa física, e que uma responsividade corporal não necessariamente reflete uma disposição mental para o ato em si. O que eu quero dizer com isso? Que mesmo uma resposta física positiva ao estímulo pode não significar necessariamente que a mulher esteja pronta para de fato engajar em uma relação, porque sua mente pode não estar no lugar certo naquele momento. E por que falar sobre isso é importante? Porque entender como funcionamos é essencial para saber quando queremos de fato dizer sim ou não a uma investida – o famoso consentimento, mais aprofundado no episódio 3.

É no último episódio do documentário que ele se debruça sobre as relações de afeto e a sexualidade. E aqui vale trazer novamente o peso do consentimento para as relações. Um tema ainda nebuloso, mas real, é o estupro marital. Em um casamento (principalmente heterossexual), existem parceiros que podem sentir que possuem “direito” ao corpo do outro, sendo o sexo uma obrigação que faz parte do relacionamento. Essa objetificação do corpo feminino é grave e trata-se de um sintoma de uma sociedade que ainda coloca mulheres como seres à disposição dos homens, devendo cumprir seus “deveres” pressupostos. Por isso é tão importante refletir sobre a saúde das relações afetivo-sexuais e empoderar mulheres a respeito de seus corpos e seus prazeres, de modo a entender o que é uma resposta genuína ao desejo daquilo que é uma resposta unicamente física e biológica.

Fundamentos do Prazer é um documentário curtinho, com abordagem irreverente e traz participantes diversas – todas com suas próprias histórias, medos, dúvidas e conquistas. É um lembrete importante do quão empoderador é ser dona do próprio corpo e das próprias vontades, e nada como o autoconhecimento para nos dar as ferramentas necessárias a esse processo. Talvez, como crítica negativa, tenha faltado um pouco mais de aprofundamento nas questões que envolvam prevenção de ISTs e afins, que também é um fator importante que deve ser levado em consideração em cada relação. Recomendo não apenas às mulheres, mas também aos homens que desejam abrir a mente e entender mais sobre o universo do prazer feminino. Todo mundo sai ganhando. 🙂

Título original: The Principles of Pleasure
Ano de lançamento: 2022
Direção: Niharika Desai
Elenco: Michelle Buteau, Supriya Ganesh, Annie Pisapia, Gina Nicole Brown

Dica de Série: Heartstopper

Oi pessoal, tudo bem?

Quem me acompanha no Twitter ou no Instagram já deve ter percebido que há tempos estou monotemática devido a Heartstopper. 😂 Fazia muito tempo que uma leitura feita por puro prazer não me proporcionava tanta endorfina e um sentimento tão gostoso de fangirl, sabem? E sexta-feira estreou a adaptação na Netflix, que eu maratonei e cujo resultado ficou absolutamente perfeito. Tão perfeito que estou escrevendo esse post com um sorriso no rosto e a esperança de convencer vocês a maratonarem também. ❤ Ah, observação: vou fazer algumas comparações com o material original, mas sem spoilers!

Sinopse: Nesta série sobre amadurecimento, os adolescentes Charlie e Nick descobrem que são mais que apenas amigos e precisam lidar com as dificuldades da vida escolar e amorosa.

Pra não ser muito repetitiva com quem leu o post anterior (resenha dos dois primeiros volumes da HQ), vou resumir o plot de Heartstopper: Nick Nelson é o astro do rúgbi, Charlie Spring é o único menino gay assumido na escola para meninos que ambos estudam. Ao se tornarem uma dupla em uma das aulas, uma amizade rapidamente se forma, e eles descobrem uma grande afinidade. Charlie não demora a sentir um crush forte em Nick, mas presume que o garoto seja hétero; Nick começa, aos poucos, a sentir dúvidas sobre se o que sente por Charlie é somente amizade. Quando fica nítido que a relação evoluiu para outro tipo de sentimento, os dois precisam entender a melhor forma de ficarem juntos, especialmente quando sair do armário pode ser um processo tão difícil e particular.

Vamos começar a falar da série pelo casting dos protagonistas. O QUE SÃO KIT CONNOR (Nick) E JOE LOCKE (Charlie), meu Deus do céu??? A química de milhões existe, e é entre eles. Kit Connor tem um jeitinho tão meigo que, inclusive, me lembrou o Rony de Rupert Grint nos primeiros filmes de Harry Potter. A testa franzida, a carinha de sem jeito, o sorrisinho torto… esses trejeitos que ele tem em comum com o Rony me fizeram ter ainda mais simpatia pela interpretação de Kit. Nick é meu personagem favorito de Heartstopper, e a atuação de Kit foi tudo que eu pedi e muito mais.Joe Locke também encaixa perfeitamente no papel de Charlie, principalmente por conseguir transmitir as nuances bastante diversas que o personagem sente: Char é deixado de lado por um boy lixo que tem vergonha dele, sofre bullying, tem seu coração partido enquanto pensa que Nick é hétero, se sente um peso na vida das pessoas que o cercam… são vários elementos que trazem complexidade ao personagem. Mas além dos aspectos mais delicados e tristes, por assim dizer, ele também tem um olhar encantado, um sorriso sem graça, um jeitinho de provocar Nick que é tão FOFO que você se pega sorrindo só de olhar. Melhor casal não há! ❤

A série acerta em cheio ao dar espaço aos dilemas dos personagens secundários que fazem parte do grupo de amigos de Charlie. Tao, por exemplo: o melhor amigo de Char é um personagem bem mais unidimensional na HQ (e pouco carismático, diga-se de passagem). Na série, ele tem algumas atitudes irritantes envolvendo ciúmes de Charlie, mas no geral o espectador consegue compreender seus motivos e simpatizar mais com ele. Ele é um verdadeiro leão defendendo seus amigos, e teme que Charlie sofra o bullying que sofreu ao ser tirado do armário – por isso é tão resistente a sua aproximação com Nick. Além de Tao, a melhor amiga dos dois, Elle, é outra que ganha destaque: a jovem é uma garota trans que recém se mudou para o colégio para meninas que fica em frente (ou ao lado, a geografia que me perdoe rs) ao dos meninos, do qual ela saiu. Ela sente medo de ficar só e tem dificuldades de se enturmar, até que conhece Tara e Darcy, um casal lésbico que acolhe Elle e cria um laço muito bonito com ela. Essa dupla inclusive é super relevante para que Nick tenha coragem de ser honesto sobre o que sente, e a série acertou mais uma vez ao dar mais dimensão para as duas: Tara não se arrepende de ter se assumido, mas ela enfrenta comentários de hate no Instagram e isso abala seus sentimentos. Por isso, todo o processo de ganhar autoconfiança e se empoderar se torna ainda mais bonito na série, sendo uma camada bem-vinda a algo que já funcionava bem nos quadrinhos. 

Existem poucas mudanças substanciais em relação à trama, sendo que nenhuma delas impacta a história a ponto de deturpar aquilo que lemos. Além disso, o roteiro é sagaz em colocar pistas de aspectos que foram trabalhados na HQ 3 (que não foi o material base pra primeira temporada, somente os volumes 1 e 2 por enquanto) e provavelmente nas HQs seguintes. Aliás, Heartstopper é uma das adaptações mais fieis que já vi na minha vida! Tem cenas que são exatamente iguais às das páginas, inclusive com falas icônicas que eu nem acreditei que estava vendo na tela. ❤ Além de elementos gráficos que deixam os episódios lindos (como as folhinhas desenhadas voando ao vento), há pequenos detalhes que os leitores conseguem perceber de imediato: o quarto de Nick e Charlie é igual aos dos quadrinhos, o All Star branco de Char e o Vans de Nick estão sempre ali, e até a touquinha de lã onipresente do Tao não foi esquecida. 😍 Achei uma pena apenas que tenham substituído Aled (um dos protagonistas de Rádio Silêncio, outro livro da autora) por Isaac – que é um fofo, mas não é Aled. Pelo que li por aí, a autora não quis “desperdiçar” o personagem de Aled porque talvez exista uma chance de Rádio Silêncio ser adaptada, mas o tempo dirá.

Além de contar uma bela história de amor, Heartstopper é uma série que dá espaço não apenas à representatividade gay, mas bissexual, lésbica e trans – que costumam ser menos retratadas nas mídias. De modo geral, ela trabalha com muita sensibilidade o processo de se descobrir não-heterossexual. Enquanto Nick tenta entender seus sentimentos, o espectador sente o coração se apertar com o medo que ele sente, especialmente ao se deparar com notícias sobre homofobia. Ao mesmo tempo, a trama de Alice Oseman (seja na HQ, seja na série) não é focada em priorizar a possível dor que envolve se identificar como parte de uma minoria, mas sim em florescer a partir disso e se descobrir como alguém digno de todo o amor que qualquer um merece. O personagem de Charlie representa bem esse processo: se de início ele se esmaga para caber em espaços que não lhe foram dedicados, com o tempo ele percebe (e é ajudado pelo amor de Nick) que não deve aceitar migalhas e tem direito de reivindicar o espaço que merece.

Nem sei descrever o quão delicioso foi ver Heartstopper em carne e osso. Terminei o último episódio com lágrimas que eu não sei se eram de emoção ou de alegria (provavelmente os dois!) por ver essa história sendo contada de um jeito tão lindo, inspirador e importante. A representatividade de Heartstopper é maravilhosa e imprescindível, sendo uma série que mexe com o nosso coração e nossas memórias afetivas ao mostrar o lado mais fofo da adolescência com uma perspectiva queer tão necessária. Desejo que cada vez mais produções desse tipo ganhem espaço na TV, no cinema, nos streamings e no coração das pessoas. ❤ 🌈

Título original: Heartstopper
Ano de lançamento: 2022
Criação: Alice Oseman
Direção: Euros Lyn
Elenco: Joe Locke, Kit Connor, William Gao, Yasmin Finney, Tobie Donovan, Cormac Hyde-Corrin, Rhea Norwood, Sebastian Croft, Olivia Colman

Dica de Série: Um de Nós Está Mentindo

Oi pessoal, tudo bem?

Já faz um tempo que tramas adolescentes e eu não damos match, mas como eu já quis ler Um de Nós Está Mentindo no passado (e não li), resolvi conhecer a trama por meio da sua adaptação, que estreou recentemente na Netflix. 😉

Sinopse: A detenção reúne cinco estudantes extremamente diferentes. Mas um assassinato e muitos segredos vão manter esse grupo unido até que o mistério seja desvendado.

Cinco alunos são colocados em detenção juntos. Somente quatro saem vivos. Esse é o plot da série, cujo objetivo é fazer o espectador duvidar da inocência dos envolvidos enquanto revela os segredos deles aos poucos. O aluno que morre é Simon, um adolescente que publicava os podres dos colegas em um app chamado About That. Os alunos que restam da detenção são Bronwyn (uma aluna exemplar), Nate (um rapaz problemático que vende drogas), Cooper (um atleta promissor) e Addy (a típica garota loira popular). A morte de Simon acontece na detenção quando a professora se ausenta pra impedir um trote, e o rapaz tem uma reação alérgica. O problema é que não há adrenalina nem na sua bolsa, nem na enfermaria da escola, e é a partir disso que a polícia começa a trabalhar com a hipótese de assassinato. Os suspeitos? Quem estava na detenção, é claro. E enquanto desconfiam uns dos outros, o Clube dos Assassinos (como passam a ser chamados) também precisa contar com o apoio mútuo para irem até o fundo dessa história e descobrirem quem está por trás de tudo.

Eu adoro histórias de investigação, então foi mais fácil pra mim relevar os clichês adolescentes devido a esse atenuante. Um de Nós Está Mentindo tem bons ganchos no final de cada episódio – ou bons o suficiente para me manter interessada, ainda que existam vários probleminhas de roteiro. Além disso, é difícil pra mim assistir atores de 30 anos na cara interpretando jovens de 17, especialmente quando eles têm menos expressão facial do que a Bella em Crepúsculo (Bronwyn, estou falando de você). 😂

O Clube dos Assassinos é composto por estereótipos muito óbvios. Mas, com o passar dos episódios, os adolescentes vão mostrando um pouco mais de profundidade, o que ajuda a criar simpatia. Cooper, por exemplo, é um atleta popular que sofre com um segredo que o impede de ser verdadeiramente honesto consigo mesmo. Addy é uma garota que todos enxergam como “a loira bonitinha”, resumindo-a a isso. Além disso, toda a sua vida gira em torno do namorado rico, Jake, com quem ela já traçou todos os seus planos. Quando a confusão em torno de Simon acontece, ela se vê sem o namorado e acaba passando por transformações que a tornaram minha personagem favorita. Nate é carismático, e tem uma família desestruturada. Ele vende drogas pra sobreviver e perdeu a fé em si mesmo, mas aos poucos a aproximação com Bronwyn o instiga a enxergar seu próprio valor para além de seus atos criminosos. Por último temos a inteligente Bronwyn, a personagem mais sem sal que eu vi em muito tempo. A atriz (que aparenta a idade que tem, o que torna ainda mais esquisito interpretar uma aluna de ensino médio) mantém sempre a mesma expressão seja para transmitir ansiedade, confusão, tristeza, raiva, emoção, alegria – e o mesmo tom de voz também. A química entre ela e Nate não funciona e o relacionamento simplesmente não cola.

Os episódios finais foram meus favoritos em termos de ritmo: eles colocam mais tensão à trama e uma ameaça mais real também. Fiquei curiosa pra descobrir quem era a pessoa responsável pela morte de Simon, e em nenhum momento desconfiei da verdade, o que considero positivo. Entretanto, o motivo pelo qual as coisas aconteceram do modo como aconteceram foi esdrúxulo. Dadas as características de Simon apresentadas pela série, não faz o menor sentido que tudo tivesse transcorrido daquele modo. Se você já assistiu, selecione a frase a seguir: Simon era inteligente e não precisava da aprovação dos outros, por que raios ele arriscaria a própria vida por causa de um desafio de um cara que FOI seu amigo, mas que há tempos não é mais? Ridículo.

Um de Nós Está Mentindo está longe de ser uma obra-prima e tem vários clichês tosquinhos de séries adolescentes. Mas, se você der o play com o intuito de se entreter sem grandes reflexões, a série cumpre bem esse papel. O Clube dos Assassinos (com exceção de Bronwyn) é carismático e me fez querer acompanhar sua missão de descobrir a verdade, bem como torcer para que limpassem seus nomes. Recomendo como entretenimento passageiro e com todas as ressalvas ditas ao longo do post. 😉

Título original: One of Us is Lying
Ano de lançamento: 2022
Criação: Erica Saleh
Elenco:  Annalisa Cochrane, Chibuikem Uche, Marianly Tejada, Cooper van Grootel, Barrett Carnahan, Jessica McLeod, Mark McKenna, Melissa Collazo

Dica de Série: Arcane

Oi pessoal, tudo bem?

Começo esse post desejando um feliz Ano Novo a todos, cheio de esperanças renovadas, muita saúde e #ForaBolsonaro. ❤ Espero que tenham passado uma boa virada ao lado de quem vocês amam!

Pra começar 2022, ainda que o timing esteja um pouco atrasado, gostaria de compartilhar uma dica imperdível da Netflix: Arcane, uma série de animação impecável que, por sinal, é baseada nos personagens de League of Legends. E por que digo isso de forma tão casual? Pra não te assustar caso você não goste do jogo: a série não depende nadinha de conhecimentos acerca dele e você não precisa ser gamer pra gostar. 😉 Bora lá?

Sinopse: Em meio ao conflito entre as cidades-gêmeas de Piltover e Zaun, duas irmãs lutam em lados opostos de uma guerra entre tecnologias mágicas e convicções incompatíveis.

A trama de Arcane é focada na rica Piltover, conhecida como a Cidade do Progresso, e sua antítese, a Subferia – uma parte subterrânea da cidade deixada à própria sorte pelos governantes de Piltover. Em ambas as cidades, existem tramas que vão se desenvolvendo paralelamente até se encontrarem e darem início a combates cada vez mais ferrenhos entre elas. Em Piltover, acompanhamos principalmente uma dupla de cientistas (Jayce e Viktor) tentando provar que é seguro usar magia atrelada à tecnologia, no que eles chamam de Hextec. Seu mentor, Heimerdinger, é o principal oponente dessa ideia, porque sabe dos perigos de colocar algo com potencial tão destrutivo nas mãos humanas. Enquanto isso, na Subferia, acompanhamos a ascensão de Silco, um homem determinado a conquistar independência para a região, transformando-a numa própria cidade chamada Zaun. É nesse contexto que conhecemos as duas protagonistas mais marcantes de Arcane: Vi e Powder (ou Jinx).

As duas são irmãs cujos pais morreram numa batalha entre a Subferia e Piltover, mas foram acolhidas pelo gentil Vander, que “comanda” a Subferia com temperança. Quando Silco ascende na região, uma sequência de eventos afasta Vi de Powder, o que dá a Silco a oportunidade de usar o trauma da mais nova (que a leva à beira da insanidade) para transformá-la em Jinx. A partir dessa ruptura, Vi sofre diariamente pelo arrependimento de ter brigado com a irmã, querendo tê-la de volta, enquanto Jinx se vincula de forma intensa a Silco, encontrando um pai substituto nele. Existe uma passagem de tempo entre o início da série, em que as duas são crianças, para a metade final, em que já são adultas, e a transição de Arcane é muito bem feita para que o espectador entenda como elas chegaram onde chegaram. Minha única exceção, e é um ponto de que não gostei, foi a mudança abrupta de Powder para Jinx, que subitamente aceitou como seu mentor o homem que destruiu sua família e seus amigos – mesmo que ela seja desequilibrada mentalmente, me soou forçado, já que nos primeiros episódios ela não demonstra ser alguém desequilibrada a esse ponto. Sim, dá pra ver que ela tem problemas, mas aceitar Silco como seu novo “pai”? Depois de tudo que ele fez? Pra mim, não rolou.

Vale pontuar também que Arcane é uma série visualmente impecável. O traço é maravilhoso e as cores me lembram pintura a óleo, com pinceladas marcadas e uma singularidade que confere muita personalidade à obra. As cenas de luta são bem coreografadas e a animação é fluida, o que torna cada episódio muito bom de assistir. É muito bacana ver as discrepâncias entre Piltover e a Subferia: enquanto a primeira é brilhante, cheia de tons claros, com pessoas bem vestidas e cenários deslumbrantes, a segunda é marcada por tons de preto, roxo e cinza, com muita escuridão, sujeira e contraste. A “fotografia” (entre aspas porque né, é uma animação) dá o tom certo pra ficarem nítidas as desigualdades entre os dois locais.

O plot de Piltover foi o que menos me agradou. Jayce é um personagem muito do chatinho, bem sapatênis mesmo, e a sua luta para fazer a tecnologia Hextec acontecer simplesmente não dialogou comigo. Há em seu plot algumas maquinações políticas que até produzem alguma reviravolta, mas eu fiquei muito mais intrigada pela trama de seu melhor amigo, Viktor. Tão brilhante quanto Jayce, Viktor tem o azar de estar com os dias contados devido a uma doença, e coloca suas esperanças na tecnologia Hextec. Como eu já joguei League of Legends, sei que ele é um personagem jogável bem diferente, então fiquei muito curiosa pra ver como seria seu desenrolar.

Gostei muito da trama da Vi e da Jinx, ainda que eu já tenha dito ali em cima o que não gostei na transformação da segunda. Mas, na busca da irmã mais velha por resgatar a mais nova, vale comentar sobre outra personagem: Caitlyn, uma jovem policial de Piltover que deseja resolver um caso envolvendo a Subferia e acaba se tornando aliada de Vi. As duas têm uma química fortíssima e pra mim já são o shipp do momento. ❤ Cait é uma jovem muito responsável, corajosa e determinada, e traz um pouco de prudência à personalidade explosiva e impulsiva de Vi.

Arcane é uma série tecnicamente impecável e com um roteiro que te prende do início ao fim. Tanto pra quem gosta quanto pra quem não gosta de League of Legends, digo sem sombra de dúvidas que é um play muito bem dado na Netflix. E eu duvido que você não fique com a música de abertura na cabeça (de autoria do Imagine Dragons) por alguns dias depois de começar a assistir. 😛

Título original: Arcane
Ano de lançamento: 2021
Criação: Christian Linke, Alex Yee
Elenco: Hailee Steinfeld, Ella Purnell, Kevin Alejandro, Jason Spisak, Harry Lloyd, Katie Leung