Review: Um Ninho Para Dois

Oi gente, tudo bem?

Desde o lançamento do trailer eu estava ansiosíssima pra conferir Um Ninho Para Dois, novo drama da Netflix com a Melissa McCarthy. Fica a dica: já pega uma caixa de lencinhos.

Sinopse: Uma mulher que tenta superar uma perda precisa lidar com um pássaro genioso que invadiu seu jardim e um marido que luta para seguir em frente.

O filme começa com uma cena fofa entre o casal Lilly e Jack, que estão pintando o quartinho de sua bebê recém-nascida, até que há um corte que nos leva para um futuro bem mais triste: Lilly está vivendo sozinha, pois seu marido está internado em uma instituição psiquiátrica. O motivo não demora a se revelar; o casal perdeu sua filha, Katie, para a síndrome da morte súbita infantil. Esse evento traumático gerou uma ruptura no casamento, e nenhum dos dois sabe como lidar com o presente.

Não sou mãe e mal posso imaginar a dor de perder um filho, mas Um Ninho Para Dois consegue, com delicadeza, transmitir essa devastação por meio das diferentes formas de sofrimento do casal. Lilly tenta seguir em frente da maneira que pode, voltando ao trabalho e tentando manter um senso de normalidade à rotina. Seus erros e falta de atenção durante o expediente, porém, são o primeiro e mais óbvio indício de que a personagem precisa de ajuda. Jack, por outro lado, é um homem cuja dor o paralisou. Sua internação na instituição psiquiátrica é advinda de uma tentativa de suicídio, e fica claro para o espectador de que ele não vem fazendo progresso em sua terapia. Quando uma visita de Lilly ao marido acaba de forma tensa, uma das terapeutas do lugar indica o contato de um velho conhecido que ela acredita poder ajudar Lilly: o Dr. Larry Fine (o jogo de palavras aqui não escapa à protagonista). Acontece que Larry abandonou a psiquiatria para se dedicar a outro ramo: a veterinária. E é com essa situação inusitada que Lilly se vê encarando verdades que ela não tinha tido coragem até então.

Lilly é o espírito do filme, e a atuação cheia de nuances de Melissa McCarthy me levou às lágrimas e aos risos durante a 1h44 de duração do longa. A personagem decide limpar e cultivar o seu quintal, mas acaba sendo atacada por um estorninho, uma espécie de pássaro territorialista que está protegendo seu ninho. Ao longo da trama, o ousado passarinho faz diversas investidas contra Lilly, que vai criando estratégias pra se proteger dele (como usar um capacete de futebol americano rs). Nesses momentos percebemos o tom de comédia dramática do longa, pois essas cenas quebram a tensão de uma forma que diverte e acalenta. O fato de Larry ser um veterinário não impede que os dois construam uma relação de “terapia não oficial”, na qual ele incentiva Lilly a falar sobre seus sentimentos também e processar o próprio luto – já que, até então, só pôde focar na dor do marido.

Mas Jack também mexe com o nosso coração. A apatia que o domina é um sinal claro da depressão que o acomete, e sua recusa em fazer o tratamento correto o leva cada vez mais para o fundo do poço. Mas é importante que isso seja mostrado, porque mesmo com todo o amor e suporte, muitas vezes essa doença ainda assim triunfa. E o filme não culpabiliza Jack por isso, ainda que demonstre que Lilly está carregando uma carga muito pesada por ter sido “abandonada” pelo marido, que não conseguiu apoiá-la com a perda de Katie. Larry inclusive tem uma fala muito importante sobre o ser humano buscar culpados em situações nas quais simplesmente não há quem culpar: é uma dificuldade nossa em aceitar que tragédias acontecem sem nenhuma razão plausível. O médico incentiva que Lilly converse com Jack e exponha seus sentimentos de luto e solidão, e quando a protagonista resolve fazê-lo, é com a intensidade de quem está magoada pelo abandono mas também com desejo de que o marido volte pra ela.

Um Ninho Para Dois é emocionante do início ao fim, sendo intercalado com cenas divertidas que ajudam você a não chorar durante toda a duração do filme. Ele é a história de um casal em luto, mas também de duas pessoas que estão buscando entender quem são e como seguir em frente após um acontecimento tão devastador. Para além disso, é também a história de um casal em busca do caminho que os leve de volta um ao outro: com cicatrizes, sim, mas também com muito amor. Amei (e me emocionei) muito! ❤

Título original: The Starling
Ano de lançamento: 2021
Direção: Theodore Melfi
Elenco: Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Kevin Kline, Kimberly Quinn

Dica de Série: Clickbait

Oi galera, tudo bem?

O Dica de Série de hoje é um misto de (não) indicação provocada pela indignação. 😂 Mas eu não podia deixar de comentar a série que tem estado no Top 10 da Netflix Brasil e que é do meu gênero favorito (tramas policiais). Estou falando de Clickbait.

Sinopse: Quando Nick Brewer é sequestrado e sua vida passa a depender de um sinistro jogo online, as pessoas próximas a ele correm para descobrir quem está por trás disso.

Clickbait é uma minissérie de 8 episódios que gira em torno do sequestro de Nick Brewer, um fisioterapeuta respeitado, marido e pai amoroso. O fato mais grotesco do sequestro é que os raptores filmaram Nick segurando uma placa dizendo que ele abusa de mulheres e que, quando o vídeo atingir 5 milhões de visualizações, ele vai morrer – sim, no melhor estilo Black Mirror. É desnecessário dizer que não leva 24h pra um vídeo apelativo assim, que descreve perfeitamente o nome da série, viralizar, certo? Com isso, os episódios se concentram em não apenas investigar o caso de Nick, mas também desnudar o personagem (e os segredos por trás das acusações nas placas).

Cada episódio de Clickbait é focado em um personagem, começando pela irmã e melhor amiga de Nick, Pia. Ela é uma mulher intensa e cheia de defeitos, mas com uma vulnerabilidade e um amor tão profundo pelo irmão que fazem o espectador nutrir certa simpatia por ela (mesmo com suas grosserias). Além dela, temos o ponto de vista do detetive Amir (um personagem íntegro, justo e muito comprometido com o seu trabalho), da viúva de Nick, Sophie (outra personagem que não é muito palatável, mas por quem nos solidarizamos), entre outros que não vou mencionar porque seriam spoilers. O bacana dessa dinâmica é que cada personagem tem seu próprio espaço para ser desenvolvido enquanto a trama principal – a investigação – acontece.

Aliás, a investigação em si é muito bacana e envolve muito mais do que os personagens já citados. A série trabalha superbem os cliffhangers e faz com que você não queira sair da frente da tv até descobrir toda a verdade sobre o caso. Obviamente, como o nome da série sugere, existe sim um apelo relacionado ao “cuidado com o que você compartilha por aí” e “cuidado com o que você acredita na internet”, e algumas pessoas podem achar um pouco forçado. A mim, não incomodou. Discussões sobre fornecimento de dados, golpes e fraudes não são coisas recentes, então não vi problema da série abusar um pouco disso pra fins ilustrativos.

O que me incomodou a ponto de causar a indignação do início do post, então? 😂 O final, gente, o final. Quem me acompanha aqui há mais tempo sabe o quanto valorizo bons finais, a ponto de aumentar uma nota de uma obra mediana quando o desfecho é bom ou diminuí-la no caso de uma obra incrível mas cujo final não seja. E Clickbait peca gravemente em seu encerramento, porque se desfaz de todas as premissas construídas até ali em busca de um plot twist chocante que parece ter sido pensado apenas com esse propósito: chocar. Os motivos pelos quais toda a história acontece são esdrúxulos e tudo que a trama estabelece até a season finale é desperdiçado em nome de um caminho completamente sem sentido e preguiçoso – incluindo até mesmo as discussões sobre segurança na internet e (a falta de) limites da mídia sensacionalista e obcecada por cliques. Eu prefiro finais mais óbvios, mas coerentes, do que plot twists de explodir a cabeça que não fazem sentido nenhum, e pra mim esse é o grande problema da série.

Conversei com algumas pessoas que também se frustraram com o final de Clickbait, então queria saber de vocês: quem já assistiu, gostou? Porque se eu tiver que resumir, diria que Clickbait é uma minissérie de ritmo envolvente, premissa instigante e que joga fora seu potencial com um final fraco e mal executado. Uma pena. :/

Título original: Clickbait
Ano de lançamento: 2021
Criação: Tony Ayres, Christian White
Elenco: Zoe Kazan, Betty Gabriel, Phoenix Raei, Adrian Grenier, Camaron Engels, Jaylin Fletcher, Becca Lish

Review: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Oi pessoal, tudo bem?

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um play despretensioso que eu dei na Netflix, mas que me arrancou muitas risadas, me entreteve e também me comoveu. Preparados pra conhecer?

Sinopse: Uma revolta de robôs interrompe a viagem da família. Agora o destino da raça humana está nas mãos dos Mitchells — a família mais estranha do mundo.

A trama tem seu pontapé inicial quando Katie, a filha mais velha dos Mitchell, é aceita para cursar a faculdade de cinema. Empolgada para conhecer pessoas que compartilhem da sua paixão – já que, em geral, ela se sente uma outsider -, Katie não contava com a decisão de seu pai, Rick, de fazer uma viagem de carro em família (em vez de deixá-la ir de avião). A relação dos dois, que no passado era muito cúmplice, está num momento delicado: Katie não sente que seu pai a compreenda, enquanto Rick acha que a filha está distante. Em paralelo a esse plot, temos outro catalisador superimportante que acontece bem longe da road trip: no Vale do Silício, uma convenção de tecnologia comandada pelo gênio Mark Bowman, que inventou a inteligência artificial PAL, anuncia um modelo novo de robôs com tecnologia de ponta; o problema é que Mark descarta PAL como algo ultrapassado, fazendo com que ela decida se revoltar e comandar os robôs, colocando-os contra a humanidade. E é assim, em meio ao caos, que a família Mitchell é pega de surpresa e precisa encontrar não apenas uma forma de fugir e sobreviver, mas também de impedir PAL.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é produzido pelos responsáveis pelo excelente Homem-Aranha no Aranhaverso, e podemos encontrar algumas similaridades no que diz respeito à arte. Como no filme do Cabeça de Teia, aqui também temos um visual predominantemente 3D, mas cheio de elementos 2D e intervenções interessantes. Isso torna o longa visualmente atrativo e, no meu caso, foi um recurso que prendeu bastante minha atenção. A identidade visual é muito bacana e a atmosfera é muito divertida e imersiva, tornando as quase 2h de duração muito gostosas de assistir.

O filme também acerta em cheio no humor. Além dos quatro membros da família Mitchell (os já mencionados Katie e Rick, mas também Linda, a mãe, e Aaron, o filho mais novo), temos ainda dois robôs comandados por PAL que sofrem uma pane parcial ao serem danificados e acabam se tornando aliados improváveis de Katie e sua família. E todos eles se veem numa posição totalmente inesperada: a de heróis da humanidade. Enquanto PAL comanda os robôs para capturar os humanos, os Mitchell (com o auxílio dos seus novos companheiros inorgânicos) conseguem escapar, e precisam ir até o epicentro da revolta pra desativar a inteligência artificial – caso contrário, todas as pessoas capturadas serão enviadas para o espaço (sim, pra morrer mesmo). E todas as situações que a família passa pra tentar chegar até PAL em segurança são muito engraçadas, assim como as perseguições pela estrada e as interações com outros eletroeletrônicos. Pra fechar com chave de ouro há também o humor sarcástico em torno de um jovem genial que revolucionou a tecnologia e as consequências de suas atitudes. Qualquer semelhança com a realidade pode ou não ser mera coincidência. 😛

Mas meu elemento favorito de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas não poderia ser outro se não os próprios Mitchell (e seu maravilhoso pug, Monchi). Cada personagem tem uma personalidade marcante e protagoniza cenas engraçadas, por mais que o foco maior seja em Katie e Rick. Linda é uma mulher engraçada e, quando os filhos estão em perigo, reage como uma leoa; Aaron é um irmão mais novo fofíssimo que é tão “esquisito” quando Katie e olha pra irmã com admiração; Rick é um pai zeloso e que ama os filhos, mas que nem sempre consegue demonstrar isso da forma como eles – especialmente Katie – precisam; e a própria Katie é uma jovem criativa e irreverente, mas que também não consegue enxergar os sacrifícios que o pai fez por ela. Com o passar do tempo e com a convivência forçada no carro (somada ao medo da extinção, é claro), os personagens são obrigados a olhar com mais atenção um para o outro, e os laços vão se estreitando. Pra fechar, também adorei como a sexualidade de um dos personagens é trabalhada: de forma totalmente natural e leve.

Resumindo, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas foi um dos melhores filmes de animação a que assisti recentemente, reunindo em si uma produção de alta qualidade, um enredo divertido e envolvente e personagens muito cativantes. Se você não sabe o que fazer nesse domingo, corre lá na Netflix e dê o play. Prometo que vai valer a pena! 😉

Título original: The Mitchells vs the Machines
Ano de lançamento: 2021
Direção: Michael Rianda
Elenco: Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André, Olivia Colman

Dica de Série: O Inocente

Oi pessoal, tudo bem?

Prontos pra mais uma dica de minissérie bem bacana pra maratonar? Hoje vamos conhecer O Inocente que, até agora, é minha produção favorita das que adaptam os livros do Harlan Coben e estão sendo disponibilizadas na Netflix. 😀

Sinopse: Uma morte acidental lança um homem em uma espiral de intrigas e assassinato. Ele encontra o amor e recupera a liberdade, mas um telefonema traz de volta o seu passado.

Mateo era um jovem com um futuro brilhante pela frente, até que um piscar de olhos mudou sua vida completamente: em uma briga de bar, causada por um homem que ficou com ciúmes dele, Mat acabou empurrando um dos envolvidos, que caiu e quebrou o pescoço. Mesmo tendo sido um acidente, a justiça condenou Mat à maior pena possível, transformando sua vida de forma permanente. Apesar disso, ao sair da cadeia Mat teve apoio para se restabelecer: seu irmão, já formado, chamou Mat para trabalhar em seu escritório de advocacia e, por coincidência, no escritório Mat reencontrou uma jovem com quem ele teve uma noite incrível em uma das suas saídas condicionais no tempo de prisão. Esse reencontro reacendeu a chama entre Mat e a jovem, Olivia, e os dois casaram e deram início a uma vida juntos… até que Olivia some misteriosamente e Mat começa a receber vídeos dela adormecida com um homem ao seu lado.

De início, podemos dizer que O Inocente conta com duas narrativas: a primeira delas é a de Mat e Olivia, e gira em torno do desaparecimento desta. Mat está determinado a encontrá-la custe o que custar, contando com a ajuda de uma hacker bastante leal para rastrear os movimentos da esposa. A segunda narrativa é mais focada em Lorena Ortiz, uma detetive da polícia competente e focada, que é acionada para investigar o suposto suicídio de uma freira. E por mais que ambas as histórias não pareçam ter o menor link, aos poucos as camadas da trama vão sendo removidas e o espectador vai chegando ao cerne do mistério – junto com Mat e com Lorena.

Um recurso muito bacana utilizado pela série é o de começar cada episódio focando em um personagem-chave da trama, contando um pouco mais sobre seu passado e sobre como ele chegou até o presente momento. Isso ajuda o espectador a criar empatia de forma mais rápida, ao mesmo tempo em que instiga a curiosidade de saber qual é a relação daquelas pessoas. O episódio 1, por exemplo, é totalmente focado na história de Mat. O episódio 2 mal o menciona, pois é focado em Lorena, chegando até a dar uma “bugada” na mente de quem assiste. 😛 Eu gostei bastante dessa estrutura, acho que ajudou a manter o mistério e, ao mesmo tempo, provocar a imaginação na tentativa de juntar as peças também.

Eu diria que O Inocente gira em torno de três grandes problemáticas: a prostituição (e toda a sujeira por trás), a crueldade do sistema carcerário e a corrupção policial. Não posso me alongar muito em cada tema pra não dar nenhum tipo de spoiler, mas é importante dizer que a série expõe toda a crueldade que jovens mulheres passam nas mãos de seus cafetões, que lucram quantias exorbitantes em cima de seus corpos e de sua falta de liberdade. Somado a isso, vemos com revolta como pessoas ricas, poderosas e bem-relacionadas fazem uso desse privilégio pra fortalecer não apenas esse sistema de opressão às mulheres como também manipular a justiça.

Assim como acontece em Safe e em Não Fale Com Estranhos, existem momentos beeem forçados e inverossímeis em O Inocente. Felizmente, aqui eles são mais escassos, o que já me fez gostar bem mais dessa minissérie do que das adaptações anteriores de trabalhos do Harlan Coben. Os personagens me cativaram bastante, especialmente as mulheres fortes que fazem a história girar. Mat, infelizmente, não tem nenhum carisma, e eu juro pra vocês que não entendo porque 1) acham que o Mario Casas é um galã e 2) dizem que ele é um ótimo ator. Assisti Um Contratempo e ele tem a mesmíssima expressão facial o filme inteiro, assim como acontece aqui. 🤷‍♀ #sorrynotsorry

Com apenas 8 episódios, O Inocente é uma ótima opção na Netflix pra quem busca uma série investigativa capaz de envolver, construir bem os momentos de tensão e trazer personagens pelos quais queremos torcer. Recomendo bastante! 😉

Título original: El Inocente
Ano de lançamento: 2021
Direção: Oriol Paulo
Elenco: Mario Casas, Aura Garrido, Alexandra Jiménez, Xavi Sáez, Santi Pons, Miki Esparbé, Jose Coronado, Martina Gusman, Juana Acosta, Susi Sánchez

Dica de Série: Sombra e Ossos

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de não ter lido os livros da Leigh Bardugo, sei que são bem queridinhos na blogosfera, então fiquei animada para conferir Sombra e Ossos, série da Netflix que adapta suas obras. Bora saber mais! 😉

Sinopse: Em um mundo destruído pela guerra, a órfã Alina Starkov descobre que tem poderes extraordinários e vira alvo de forças sombrias.

Minha primeira impressão sobre a série é: puta que pariu, que série confusa. Levei 2 ou 3 episódios pra me habituar ao que estava acontecendo, e só descobri graças ao TV Time (app que uso pra acompanhar e registrar as séries a que assisto) que Sombra e Ossos adaptava duas séries distintas da autora ao mesmo tempo. Então, vamos lá: em um núcleo da trama acompanhamos o mercenário Kaz e seus leais companheiros (a assassina Inej e o pistoleiro Jesper) em busca de missões cada vez mais lucrativas; no núcleo principal, acompanhamos Alina Starkov descobrindo que tem um poder raríssimo e sendo levada para longe de seu melhor amigo (e crush) Mal para treinar sob a supervisão do General Kirigan. Com o desenvolvimento da trama, esses núcleos passam a se cruzar e a história fica mais interessante.

As pessoas que têm poderes no universo de Sombra e Ossos são chamadas de Grishas. Os Grishas sofreram perseguição por muito tempo, mas agora são respeitados e até temidos, trabalhando para o rei. Entretanto, o reino é dividido pela Dobra, uma parede de sombras criada há muito tempo e cheia de criaturas malignas. É por causa dessa parede que Alina se torna tão valiosa: ela é capaz de conjurar a luz do sol, um poder tão raro que já era considerado uma lenda. Quando ela é levada para o castelo para aprender a lidar com seu poder, ela se aproxima do General Kirigan, um homem sedutor e cheio de segredos que é também o líder dos Grisha e responde diretamente ao rei.

Sombra e Ossos tem bons momentos, especialmente no núcleo de Kaz. Jesper, por exemplo, é um personagem que eu amei muito! Ele é espirituoso, charmoso e sua habilidade com as pistolas é de cair o queixo. A dinâmica de Kaz e Inej também é muito legal de acompanhar: é palpável que existem sentimentos não pronunciados ali e que ambos são muito reservados, mas fico na torcida para que no futuro eles fiquem juntos. Agora, quando entramos no núcleo da Alina… gente, não curti não. 😂 A protagonista é chata, não tem carisma nenhum, e sua relação com Mal não convence nem faz vibrar. Apesar de ter gostado muito da lealdade que os une, não fiquei empolgada com nenhum dos dois em cena. 

Um outro ponto que eu achei bem negativo da trama é que, principalmente no início, parece que focaram somente nos fãs dos livros. Minha opinião é de que mesmo adaptações devem falar por si mesmas, afinal, são obras independentes. Demorei a me habituar a tantos termos específicos, porque a série já começa com um ritmo bastante intenso, e isso quase me fez desistir dela nos primeiros episódios. Some isso a uma protagonista apagada e com atuação fraca e já dá pra sacar por que não fui arrebatada por Sombra e Ossos, né?

Mas justiça seja feita: a série é muitíssimo bem produzida. Os efeitos especiais são incríveis, os cenários e os figurinos são lindos e você se sente imerso nesse mundo particular criado por Leigh Bardugo. A Netflix caprichou muito na parte estética da obra e não deixa nada a desejar em relação a outras séries de fantasia famosas.

Resumindo, eu não me tornei fã de Sombra e Ossos mas, conforme me habituei ao universo e aos personagens, achei mais tranquilo de acompanhar. Se você for fã dos livros é bem provável que curta muito mais do que eu. Se você não for, talvez tenha uma dificuldadezinha também (ou não, vai saber). No andar da carruagem acabei me envolvendo com a trama e o final dela teve um gancho que vai me fazer conferir a segunda temporada. Espero que eu me empolgue mais quando ela chegar. 

Título original: Shadow and Bone
Ano de lançamento: 2021
Criador: Eric Heisserer
Elenco: Jessie Mei Li, Archie Renaux, Ben Barnes, Freddy Carter, Amita Suman, Kit Young, Danielle Galligan, Calahan Skogman

Review: A Mulher na Janela

Oi galera, tudo certo?

A Mulher na Janela foi um livro queridinho de muitos que me decepcionou bastante. Mas, como expliquei na minha resenha (bem negativa rs), eu tinha esperanças de que no formato cinematográfico a história pudesse funcionar. Será que deu certo?

Sinopse: Confinada em casa devido à agorafobia, uma psicóloga fica obcecada pelos novos vizinhos – e por solucionar o crime brutal que viu da janela.

Anna Fox é uma mulher que sofre de agorafobia, o que a impede de sair de casa. Separada do marido e da filha, ela vive sozinha e passa seus dias observando os vizinhos e misturando álcool e remédios. A chegada de novos vizinhos, os Russells, proporciona a Anna uma amizade inesperada com a dona da casa, Jane, com quem passa uma tarde divertida regada a conversas e taças de vinho. Além de Jane, a protagonista também cria um vínculo com seu filho, o adolescente Ethan – um jovem tímido e gentil que leva doces para Anna em nome de sua mãe. A chegada dos Russell não parece ser um problema, até que Anna presencia pela janela a cena de uma discussão que culmina com Jane recebendo uma facada. Porém, quando ela chama a polícia, o pai da família, Alistair, diz que só pode ter havido um engano, e apresenta sua esposa à Anna e aos policiais: só que esta Jane não é a mulher que Anna conheceu.

A premissa da história é muito boa, né? Temos uma narradora não confiável que nos faz duvidar do que ela viu, temos uma família aparentemente normal que esconde um segredo e temos um possível assassinato no centro de tudo isso. Pena que esse plot é desperdiçado e o que o diretor e o roteirista nos oferecem é um longa cansativo, lento e mal conduzido. 

A Mulher na Janela perde um bom tempo nos mostrando a rotina de Anna e, mesmo assim, falha em explorar o quão frágil psicologicamente ela está. A atuação e a caracterização de Amy Adams fazem um trabalho muito melhor em evidenciar o quanto a personagem desistiu de si mesma, mas o roteiro do longa não consegue transmitir o tanto que a personagem sofre. No livro, Anna faz parte de uma comunidade online e aconselha outras pessoas sobre agorafobia, o que é um elemento essencial da trama, mas no filme eles cortaram toda essa parte de sua vida. E, para piorar, incluíram cenas e acontecimentos desnecessários que não colaboraram em nada para o andamento da história. Até o fato dela dedicar grande parte dos seus dias a espiar a vida alheia com uma câmera mal é abordado, tornando o título da obra bem menos relevante rs.

Mesmo um elenco de peso não foi capaz de prender a atenção ao longo da 1h40 de duração do filme (que mais pareceram 3h). Amy Adams é maravilhosa, mas também temos Julianne Moore e Gary Oldman, que são figurantes de luxo. Ethan, um personagem fundamental e muito presente no livro, mal tem cenas relevantes, o que torna difícil até de engolir toda a vontade que Anna sente de protegê-lo de seu suposto pai abusivo. Todas essas pontas soltas, a pouca participação de personagens que não sejam a protagonista e mudanças no roteiro tornaram as duas revelações da trama totalmente anticlimáticas, especialmente na sequência final. A pessoa responsável pela angústia de Anna é revelada sem nem um “aquece” que permita ao espectador acreditar que aquilo que foi mostrado é crível. Só bola fora, na minha opinião.

A Mulher na Janela não me agradou como livro e conseguiu ser ainda mais fraco como filme. As poucas coisas boas que eu tinha gostado na trama original foram cortadas na adaptação e o que sobrou é um filme que não empolga, não angustia e, principalmente, não convence. Não foi dessa vez. :/

Título original: The Woman in the Window
Ano de lançamento: 2021
Direção: Joe Wright
Elenco: Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman, Wyatt Russell, Fred Hechinger

Dica de Série: O Gambito da Rainha

Oi gente, tudo bem?

Mesmo um pouquinho atrasada, resolvi conversar com vocês sobre a aclamada minissérie O Gambito da Rainha. Meu único arrependimento é não ter assistido antes, então espero convencer quem ainda não viu a correr e fazer o mesmo. Vamos conhecer! ❤

Sinopse: Em um orfanato nos anos 1950, uma garota-prodígio do xadrez luta contra o vício em uma jornada improvável para se tornar a número 1 do mundo.

Aos 9 anos, Elizabeth Harmon é envolvida em um acidente de carro causado pela sua mãe, que vem a óbito. A garota é então levada para um orfanato feminino, em que a apatia se faz presente nas aulas do coral, nos ensinamentos religiosos e no dia a dia como um todo. Dois elementos tornam-se fundamentais nesses seus anos de formação: o primeiro é a amizade com uma colega, Jolene, que ensina a Beth a “guardar para mais tarde” as pílulas que elas recebem diariamente (o que inicia o vício da protagonista em tranquilizantes); o segundo é a amizade inesperada e monossilábica com o Sr. Shaibel, o zelador do orfanato, que ensina a Beth como jogar xadrez. Fascinada pelo jogo e com um talento natural, logo Beth vai se destacando e o Sr. Shaibel a incentiva a participar de eventos do clube de xadrez de uma escola próxima. Aos 15 anos, Beth é adotada, e sua vida passa por transformações importantes – todas girando em torno do tabuleiro.

Na adoção, Beth não encontra de cara um lar afetuoso. O seu novo “pai” é alguém que não suporta mais a esposa e vive viajando, chegando ao ponto de abandoná-las. Sua mãe adotiva, Alma, é alguém que afoga as mágoas e frustrações no álcool, sendo uma pianista frustrada presa em um casamento infeliz. Contudo, quando ela percebe o talento de Beth no xadrez e a jovem começa a vencer pequenos campeonatos locais, Alma se torna uma espécie de empresária, impulsionando Beth ainda mais. Temi que a relação das duas fosse evoluir para uma abordagem de “mãe sanguessuga”, mas não é o que acontece: as duas realmente vinculam e querem o bem uma da outra, e Alma investe em Beth não como alguém que dá retorno financeiro, e sim como uma mãe que quer incentivar os sonhos da filha. 

Conforme vai se destacando em campeonatos locais, Beth vai sendo convidada para participar de eventos maiores. Ela se apaixona, tem suas primeiras experiências sexuais, vivencia o vício nos tranquilizantes que começou na infância e passa por diversas dificuldades inerentes ao amadurecimento e à sua origem cheia de traumas. Sua frustração ao perder as primeiras partidas para enxadristas mais experientes é palpável, mas serve como combustível para que ela nunca desista. E um dos aspectos mais bacanas desse processo é que, mesmo sendo muito introspectiva, Beth vai criando laços com mais pessoas – algo que ela praticamente não construiu até encontrar Jolene. Nesse sentido, a série aposta bastante nas amizades que ela faz com os homens que enfrenta, e na admiração deles por ela; é bacana, mas achei um pouco fantasioso. A série se passa majoritariamente nos anos 60, então achei difícil de acreditar que os homens que cruzam o caminho de Beth não sejam todos uns babacas com o ego masculino frágil ferido. Digo isso não porque me tornei cínica quanto ao assunto, mas porque em pleno 2021 mulheres em ambientes tipicamente masculinos precisam lutar (e muito) para serem respeitadas, e esse assunto é pouco tratado (percebam que eu não disse “inexistente”, mas sim “pouco”) em O Gambito da Rainha.

Mas não adianta, quem rouba a cena é Anya Taylor-Joy e seu magnetismo. Mesmo dando vida a uma personagem cheia de vícios e comportamentos autodestrutivos, a atriz – e consequentemente Beth – é capaz de se conectar com o público e fazer com que a gente torça por ela não apenas nas partidas, mas também em cada passo da jornada na sua vida pessoal. Ver Beth crescer como enxadrista e como mulher é muito interessante, e mesmo pra quem não entende nada do jogo (como eu), é impossível desviar os olhos da protagonista quando ela move suas peças pelo tabuleiro. Some isso a uma produção de qualidade inquestionável e figurinos que me fizeram querer usar todo o guarda-roupa de Beth (a partir do momento em que ela passa a escolher e comprar o que veste, claro rs) e temos uma série que é impossível de largar.

O Gambito da Rainha merece todos os prêmios que ganhou desde sua estreia na Netflix e é uma minissérie instigante e redondinha, que desenvolve sua protagonista como alguém humano, cheio de falhas, mas com um espírito imbatível. Se você, assim como eu, demorou pra conferir essa produção, te aconselho a dar o play o mais breve possível. Você não vai se arrepender! 😉

Título original: The Queen’s Gambit
Ano de lançamento: 2020
Criador: Scott Frank, Allan Scott
Elenco: Anya Taylor-Joy, Thomas Brodie-Sangster, Harry Melling, Marielle Heller, Jacob Fortune-Lloyd, Moses Ingram, Bill Camp

Review: Radioactive

Oi pessoal, tudo bem?

Nos últimos dias chegou à Netflix o filme Radioactive (dirigido por Marjane Satrapi, de Persépolis), que se propõe a ser uma cinebiografia da vida de Marie Curie, vencedora de dois prêmios Nobel relacionados às suas pesquisas sobre radioatividade. Vamos descobrir o que eu achei? 😀

Sinopse: Movida por uma mente brilhante e uma grande paixão, Marie Curie embarca em uma jornada científica com o marido, Pierre. Suas descobertas vão mudar o mundo.

Antes de falar sobre minha opinião sobre o longa, acho importante dividir com vocês qual era a minha expectativa: eu imaginava que o filme fosse focado no processo da descoberta científica em si, com suas discussões, desafios, testes e avanços. Também imaginei que ele pudesse trazer uma luz ao fato de que Marie Curie era uma mulher em meio a um ambiente majoritariamente masculino e numa época em que o machismo era ainda mais intenso. Esse segundo ponto até é abordado, ainda que de forma superficial. O primeiro, porém, foi minha decepção: em cerca de 30 ou 40 minutos (em um filme de 1h50 de duração) ela já tinha descoberto os elementos rádio e polônio, fazendo com que o foco da trama se virasse para sua vida pessoal.

Segundo a visão trazida por Radioactive (e eu coloco isso dessa forma porque não conheço a fundo a história da cientista para contestar), Marie Curie era brilhante, destemida, autossuficiente e arrogante. Ao conhecer Pierre Curie, seu marido e grande amor, ela amplia seu estudo e os dois formam uma parceria de trabalho que os leva a ganharem o Prêmio Nobel pelas descobertas que fizeram em conjunto sobre a radioatividade. O machismo na trama começa a ser exposto aí (já que, na trama, Pierre é recebido sozinho na Suíça e discursa em nome dos dois), mas fica ainda mais grave quando Marie se envolve em escândalos em sua vida pessoal que a fazem ser hostilizada pelas pessoas e pelo meio acadêmico (sendo que o homem que deveria ser responsabilizado por tal escândalo não sofre nenhuma penalidade – não que seja muito diferente hoje em dia, né?).

A montagem do filme é estruturada de forma que a gente acompanhe os estudos de Marie e Pierre sobre radioatividade enquanto intercala com outras décadas no futuro nas quais essa descoberta foi relevante. Há cenas que expõem aspectos positivos, como uma criança com câncer podendo fazer um tratamento experimental com radioterapia, mas a maior parte dos paralelos é negativa: vemos os desastres de Hiroshima e Chernobyl, além de exposições turísticas de explosões atômicas nos Estados Unidos, o que me fez ter a sensação de que o roteiro colocou mais peso nos perigos e no mau uso da descoberta. Só nos minutos finais há um diálogo entre Marie e seu marido em que ele traz como contraponto o fato de que ela jogou uma pedra na água, mas que as ondas geradas por isso ela não é capaz de controlar. O conhecimento em si não é uma coisa ruim, mas sim a forma destrutiva que a humanidade muitas vezes o utiliza.

Minha maior frustração com Radioactive reside no fato de que me senti assistindo a um filme que flutua do drama às “fofocas” durante uma parte considerável de sua duração. Como as descobertas científicas acontecem muito rápido e não são bem exploradas (as explicações e discussões são rasas e não duram muito), o resto da trama tenta desenvolver 1) a relação de Marie com as filhas, que mal apareceram até então, 2) o luto após a perda do marido, 3) suas relações passionais, 4) sua reputação enfraquecida e 5) sua participação na Primeira Guerra Mundial, com a criação de um veículo equipado com máquinas de raio-X. Só o item 5 já dava muito pano pra manga, sabem? A sensação que fica é que tentaram enfiar um milhão de aspectos relevantes da vida de Marie Curie em um único filme, sem ter um foco principal. Existem biografias que focam na parte profissional de um nome célebre, ou então no seus dramas familiares. Acho que essa falta de foco de Radioactive deixou todos os âmbitos da vida da cientista muito superficiais.

Apesar dos pesares, Radioactive conta com boas atuações (a química entre Rosamund Pike e Sam Riley funciona muito bem) e não chega a ser cansativo. Gostei de ter a oportunidade de saber mais sobre a vida de uma mulher tão importante para a história e para a ciência, mas lamento que isso tenha sido feito de uma forma um tantinho mediana. :/

Fun facts: o filme foi lançado em 2019, mas só chegou à Netflix agora. Além disso, contou com a produção da Amazon (o que me surpreendeu bastante, considerando que eles têm seu próprio streaming).

Título original: Radioactive
Ano de lançamento: 2019
Direção: Marjane Satrapi
Elenco: Rosamund Pike, Sam Riley, Simon Russell Beale, Aneurin Barnard, Anya Taylor-Joy

Review: Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Oi pessoal, tudo bem?

Que tal uma dica de filme pra curtir nesse domingo? Então prepara a pipoca, porque hoje vamos falar de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta.

Sinopse: Inspirada pelo passado rebelde da mãe e por uma nova amizade, uma adolescente tímida publica um texto anônimo que denuncia o machismo em sua escola.

Vivian é uma adolescente tímida (e super padrão) que passa pelo Ensino Médio com sua melhor amiga, Claudia, tentando não chamar a atenção. Quando Lucy, uma menina nova chega na escola questionando certos comportamentos (ao enfrentar os avanços do capitão do time de futebol, por exemplo), Vivian começa a perceber quão problemático é se manter alheia ao que acontece à sua volta, abrindo seus olhos para violências cotidianas causadas pelo machismo. Isso, somado ao fato de descobrir que sua mãe era uma militante feminista nos anos 90, motiva Vivian a criar um fanzine chamado Moxie em segredo e distribuí-lo pela escola, o que dá início a movimentos e discussões importantes.

Moxie é um filme que entretém ao mesmo tempo que traz uma mensagem positiva a jovens garotas. Vivian nunca pensou no quão ofensivo era ter uma lista que classifica as garotas da sua escola, por exemplo, mas ao fazer amizade com Lucy, que é objetificada não apenas por ser mulher, mas também pela cor de sua pele e pelos estereótipos racistas, ela começa a ver na prática as opressões que mulheres sofrem. Ao criar o fanzine Moxie, Vivian se aproxima de outras garotas e isso gera uma rede de apoio para enfrentar Mitchell (o capitão do time masculino) na disputa por uma bolsa estudantil, indicando sua amiga Kiera (uma atleta ainda mais competente) como concorrente. A aproximação de Vivian com novas meninas faz com que Claudia fique de lado e isso gere uma tensão entre as duas, e tive medo que o filme caísse em alguma armadilha que pudesse colocá-las uma contra a outra, mas felizmente não é o que acontece. Essa situação serve para dar uma pincelada em assuntos relacionados à xenofobia, mas é um toque muito raso e passageiro.

Aliás, esse é o maior defeito de Moxie: o filme é muito superficial em suas críticas. A vibe “garota branca e loira descobrindo o girl power” já não funciona comigo, e existem assuntos muito pesados (como assédio e abuso sexual) tratados de forma quase leviana – em especial nas últimas cenas, em que gritar parece ser a forma de resolver as coisas. Moxie peca em não mostrar os efeitos reais e posteriores de tudo que foi feito na escola graças ao movimento criado pelas meninas, o que faz com que ele perca a sua força e se torne um filme meio “qualquer coisa” em um mar vasto e cheio de opções de entretenimento que temos hoje. Para completar, o filme se passa inteiramente sobre a ótica de uma menina cheia de privilégios, ignorando questões importantes que o feminismo interseccional aborda. Se eu tivesse que indicar um título que faça esse trabalho de forma competente, diria que Sex Education é uma opção muito mais poderosa e responsável. Pra finalizar, Lisa (a mãe de Vivian), que em tese foi sua primeira inspiração, tem poucas falas e é muito mal desenvolvida, sem que a gente entenda o motivo do distanciamento entre as duas (ainda mais em um momento em que a protagonista poderia contar com os conselhos da mãe). 

Entretanto, apesar da superficialidade, acho legal ver que mais obras como Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta estão sendo feitas. Eu gostaria de ter crescido com mais exemplos assim, e acho que as futuras gerações terão contato com essas problematizações mais cedo – o que me faz ter um pouquinho mais de esperança no futuro.

Título original: Moxie
Ano de lançamento: 2021
Direção: Amy Poehler
Elenco: Hadley Robinson, Lauren Tsai, Alycia Pascual-Pena, Nico Hiraga, Sydney Park, Patrick Schwarzenegger, Amy Poehler

Dica de Série: Cidade Invisível

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje tenho mais uma dica de série imperdível pra compartilhar com vocês: Cidade Invisível, uma produção original Netflix focada no folclore brasileiro. ❤

Sinopse: Após uma tragédia familiar, um homem descobre criaturas folclóricas vivendo entre os humanos e logo se dá conta de que elas são a resposta para seu passado misterioso.

Desde criança eu sempre tive bastante fascínio pelas lendas do nosso folclore. Temos uma variedade muito rica de personagens e histórias e, quando eu soube que a nova série da Netflix usava essa mitologia como pano de fundo, não pude deixar de conferir. Em Cidade Invisível, acompanhamos a busca de Eric, um policial da Delegacia Ambiental, em sua busca para sanar o mistério do incêndio florestal que matou sua esposa. Em sua busca, porém, ele encontra um outro tipo de verdade: coisas estranhas começam a acontecer, mais mortes são provocadas e existe uma aura de sobrenatural nisso que Eric não consegue explicar – como o fato de ele ter encontrado um boto cor de rosa que se transforma em um homem, por exemplo. Isso porque as novas vítimas não são seres ordinários, mas lendas folclóricas que existem e vivem entre nós.

Com episódios curtos, de cerca de 30-40 minutos, Cidade Invisível tem um ritmo frenético que mantém o espectador ansioso pelo que está por vir. A trama é focada na investigação de Eric, mas sem deixar de lado o mistério sobre as verdadeiras intenções dos seres folclóricos – e de qual o seu envolvimento com o incêndio. Marco Pigossi entrega uma ótima atuação como Eric, equilibrando o seu luto com a sua motivação irrefreável de descobrir o que realmente aconteceu com sua esposa. O personagem também tem um dilema interno porque sabe que sua investigação está sendo priorizada em detrimento de sua filha, Luna, que visivelmente está tendo problemas pra lidar com todos os acontecimentos recentes. Mas quem rouba a cena em Cidade Invisível são os personagens místicos.

O Saci, a Iara, a Cuca, o Curupira são alguns dos que aparecem na série de uma forma muito legal. A série faz uma releitura interessante de como esses seres viveriam em meio à civilização, muitos deles distanciados da sua verdadeira origem. Unidos pela sobrevivência, são liderados por Inês (a Cuca), interpretada pela ótima Alessandra Negrini. A atriz mantém a aura de mistério da personagem e nos deixa em dúvida sobre seu envolvimento nos acontecimentos e tragédias recentes. Isac, o Saci, também é puro carisma e protagoniza cenas que me levaram de volta à infância (como por exemplo o truque para fazer uma “arapuca” pro Saci).

A produção está muito caprichada e os efeitos especiais são ótimos. A cauda de Iara encanta, assim como as transições envolvendo a Cuca e suas borboletas. O elenco como um todo é competente (tirando talvez a Márcia, parceira de Eric, e a avó do protagonista rs) e o ritmo narrativo nunca perde o fôlego, tornando muito fácil (e divertido) maratonar os episódios. Porém, existe um fato importante de ser abordado: a série também foi alvo de críticas pela falta de representatividade indígena. A lenda da Iara, por exemplo, é baseada em uma mulher indígena que vivia na região amazônica. Considerando que o nosso país foi construído em cima de muito sangue indígena e que sua cultura sofre tanto para permanecer viva, esse é um vacilo que poderia ter sido evitado com mais responsabilidade e sensibilidade. Espero que isso seja corrigido numa possível season 2.

Cidade Invisível é mais uma prova de que produções brasileiras podem bater de frente com as americanas. Roteirizada por uma dupla de escritores conhecidos (Raphael Draccon e Carolina Munhóz) e dirigida por Carlos Saldanha (responsável por A Era do Gelo e Rio), a série também demonstra o potencial desse nicho de entretenimento – tanto produções que adaptem livros existentes como construídas junto a autores criativos e reconhecidos. Mas, principalmente, Cidade Invisível é importante porque exalta um aspecto fundamental da nossa identidade e, ainda que por um momento, traz aquele orgulhinho de ser brasileira (que há muito tempo eu não sentia). Recomendo muito!

Título original: Cidade Invisível
Ano de lançamento: 2021
Criador: Carlos Saldanha
Elenco: Marco Pigossi, Alessandra Negrini, Jéssica Córes, Wesley Guimarães, Manuela Dieguez, José Dumont, Áurea Maranhão, Julia Konrad