Resenha: Rua do Medo – R. L. Stine

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje a dica é bem nostálgica, porque é a resenha de um livro que me levou pros meus tempos de criança, em que eu pegava livros na biblioteca da escola. O título em questão é Rua do Medo, do R. L. Stine, autor da série Goosebumps e de inúmeros títulos da própria série Rua do Medo, que é enorme rs. A Editora Rocco reuniu três desses títulos em um livro só e, apesar de fazerem parte da mesma série, são histórias independentes. Outro ponto legal de ressaltar é que Rua do Medo inspirou os filmes da Netflix, mas eles não são adaptações dessas histórias sobre as quais falaremos aqui, belê? Agora partiu conhecê-las!

Garanta o seu!

Sinopse: Não leia à noite!!! Edição especial em capa dura e com fitilho, reunindo três das histórias mais aterrorizantes da série que inspirou os filmes de sucesso da Netflix.

Começo essa resenha elogiando a edição física do livro, que está caprichadíssima. Eu tinha na memória as capas breguíssimas e antigas da série Rua do Medo, Casa do Pesadelo e Goosebumps, então foi um colírio ver um livro tão bem feito dessa série. 😂 Além da ilustração linda que acompanha a capa dura, ele tem fitilho e uma diagramação super confortável, que permite ler sem cansar. Claro, outro aspecto que colabora muito pra isso é o fato da narrativa ser bem infantojuvenil, o que torna a experiência de leitura bem tranquila e fluida.

Esse volume reúne três livros da série: Paixão Mortal, Fim de Semana Alucinante e Festa de Halloween. O primeiro tem um quê meio sobrenatural, o segundo me lembra algo meio “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado” e o terceiro tem uma pitada de “E Não Sobrou Nenhum” (tá, forcei um pouco a barra aqui, mas eu queria um paralelo pros três HAHAHA).

Paixão Mortal foi a história de que menos gostei. Nela, acompanhamos a paixão à primeira vista de um ginasta do colégio Sunnyside, Cory, pela aluna nova, Anna. Acontece que, quando ele decide ligar para a casa da garota para convidá-la pra sair, quem atende o telefone diz que não existe nenhuma Anna lá, pois ela está morta. Eu, que morro de medo de histórias de fantasmas, inicialmente fiquei entusiasmada com esse plot. Mas ao longo da trama esse teor sobrenatural vai se perdendo e a história fica bastante cansativa, porque o autor repete à exaustão o quanto Cory está obcecado por Anna. Eu entendo que essa repetição de palavras e estruturas textuais é provavelmente proposital, de modo que facilite o entendimento de leitores muito jovens, mas pra mim acabou tornando a experiência irritante. Como ponto positivo temos a revelação no final, que é convincente o bastante.

Fim de Semana Alucinante já é bem mais divertido! Aqui acompanhamos a empreitada dos membros do Clube de Campo do colégio Sunnyside (sim, tudo é ambientado no mesmo lugar), que resolvem aproveitar a ausência do monitor do Clube para acamparem sozinhos naquela que é conhecida como Ilha do Medo. Eles estão empolgadíssimos para passar uma noite por lá, mas tudo muda quando uma das alunas, Della, se perde do grupo e é abordada por um homem estranho e violento. Ao se desvencilhar dele, Della o empurra para uma queda fatal, e o grupo precisa encarar o fato de que agora compartilham um segredo terrível que envolve sua morte. As coisas pioram quando eles retornam da ilha, pois começam a ser ameaçados por uma figura misteriosa que aparentemente sabe o que aconteceu por lá. Gostei bastante do senso de urgência que o autor causou ao longo da história, com um perigo iminente à espreita. O desenvolvimento da trama foi bem mais legal que Paixão Mortal mas, em contrapartida, o final foi um banho de água fria sem nenhum plot twist. Talvez eu tenha esperado demais da trama, especialmente por lembrar da minha ótima experiência com Bela Gentileza (da série Casa do Pesadelo, também infantojuvenil), que compartilha dessa vibe de alguém perigoso vigiando os protagonistas.

Por fim, temos o terceiro título, Festa de Halloween. Aqui temos um outro grupo de alunos do Sunnyside sendo convidado para a festa de uma garota misteriosa, Justine, na sua mansão na Rua do Medo. Justine convida apenas 9 pessoas para sua festa, e quando eles chegam lá a garota revela uma noite de surpresas e brincadeiras assustadoras. Com o passar das horas, porém, as coisas começam a sair de controle e um dos convidados aparece morto no meio da festa. Enquanto uns tentam buscar ajuda, outros permanecem na casa tentando descobrir a verdade sobre Justine, com foco para o casal Terry e Niki, de quem gostei bastante. Festa de Halloween foi minha história favorita; adoro essa vibe claustrofóbica e de gente maluca fazendo os outros de refém rs. Considero essa a trama que mais tentou se desenvolver, tanto no aprofundamento de alguns personagens quanto na motivação por trás de tudo que aconteceu. 🙂

Sendo bem honesta com vocês, não dá pra esperar que Rua do Medo seja super profundo e mega desenvolvido, pois além do seu público-alvo ser bem jovem, o livro não se propõe a ser uma obra-prima do terror. É uma obra divertida, despretensiosa e muito nostálgica, especialmente pra quem cresceu lendo as obras da série Goosebumps ou Rua do Medo (e, no meu caso, Casa do Pesadelo também). Acredito que se você encarar essa leitura tendo em mente todos os seus pontos fortes e fracos com clareza, você pode se divertir como eu me diverti. 👻

Título original: Fear Street
Série: Rua do Medo
Autor: R. L. Stine
Editora: Rocco
Número de páginas: 448
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Aurora Ascende – Amie Kaufman e Jay Kristoff

Oi pessoal, tudo bem?

Finalmente pude conferir Aurora Ascende, que recebi em parceria com a Editora Rocco e fez bastante sucesso na blogosfera (tanto aqui quanto lá fora). O livro promete ser uma aventura sci-fi “a la Guardiões da Galáxia”, e hoje eu divido com vocês como foi minha experiência.

Garanta o seu!

Sinopse: O ano é 2380, a humanidade deixou seu ninho para se espalhar pela galáxia: não apenas a Via Láctea, mas dezenas de outras e os recém-formados cadetes da Academia Aurora estão sendo enviados em suas primeiras missões. Tyler Jones, o garoto prodígio, está pronto para recrutar o esquadrão dos sonhos, mas seu próprio heroísmo idiota faz com que ele fique com o que mais ninguém da academia quis… E esse esquadrão nem é o maior problema de Tyler — ele se chama Aurora Jie-Lin O’Malley, uma garota que foi resgatada no meio do espaço interdimensional. Presa em um sono criogênico por dois séculos, Auri é uma garota fora de seu tempo que pode ser o estopim de uma guerra que vem se formando há milhões de anos. Mas a chegada dela não é uma coincidência, e sim o prenúncio de uma grande batalha vindoura. Uma que decidirá o destino de todas as espécies. E o esquadrão de desajustados de Tyler é a última esperança de toda a galáxia.

Tyler Jones é o Garoto de Ouro da Academia Aurora, uma instituição intergaláctica que visa treinar novos cadetes e agentes espaciais da Legião Aurora, uma organização independente pacificadora cujos membros mediam conflitos e patrulham áreas neutras do espaço, em uma atuação similar à da ONU. No dia da formatura de Tyler, ele finalmente colheria os frutos de seus esforços, sendo o primeiro Alfa (ou seja, líder de esquadrão) a escolher os membros do seu, podendo ficar apenas com a nata dos cadetes. Porém, tudo dá errado quando ele recebe um sinal de vida encontrada naquilo que é conhecido como Dobra (uma espécie de “buraco” no espaço que permite viagens galácticas mais curtas, mas também oferece riscos ao corpo humano). Ao ir em busca desse sinal, Tyler não apenas perde a cerimônia (ficando preso ao esquadrão 312 que, apesar de felizmente ter sua irmã, Scarlett, e sua melhor amiga, Cat, é também formado por três membros problemáticos que ninguém mais quis) como também se depara com uma nave que estava desaparecida há mais de 200 anos – e o mais surpreendente é que há uma garota viva dentro dele. O jovem consegue resgatá-la e levá-la para a Academia, mas essa decisão é somente a primeira de uma série de consequências que o resgate da jovem – que, coincidência ou não, se chama Aurora  representa.

Todo esse parágrafo foi uma tentativa de resumir a pontinha do iceberg de Aurora Ascende. O livro tem um universo bastante rico e cheio de informações para serem absorvidas pelo leitor, como costuma acontecer em livros que iniciam uma série. Aprendemos, durante a leitura, que cada esquadrão da Legião é formado por um Alfa (líder), um Ás (piloto), uma Frente (diplomata), um Cérebro (responsável por ciências médicas), um Tanque (guerreiro) e um Mecanismo (uma espécie de engenheiro). Apesar de Tyler ter a melhor Ás (Cat) e uma Frente impecável (Scarlett), os outros três membros que ele recebe são inconsequentes, insubordinados e insolentes. O Cérebro é Zila Madran, uma jovem que adora explodir coisas e usar sua pistola em tudo que se mexe. Ela não sabe lidar com outros seres humanos e tem pouquíssimas falas ao longo da obra, o que espero que seja remediado no próximo volume. 

resenha aurora ascende

O Mecanismo é meu personagem favorito, Finian (ou Fin). Ele é um personagem alienígena irreverente e debochado, que usa de piadas para aliviar qualquer tensão – mas também para esconder sua dor de ser rejeitado por todos que o cercam devido a uma condição física que o fragiliza. Por fim, temos Kal, o guerreiro. Esse personagem é outro alienígena, mas da espécie Sildrathi, que tem uma trama própria correndo paralela. Kal é um cara que é julgado no minuto em que pisa em qualquer ambiente devido ao glifo tatuado em sua testa, que marca seu clã dos Guerreiros, visto com desconfiança devido à rebelião promovida por esse mesmo clã contra o acordo de pacificação entre a Terra e os Sildrathi. Pra finalizar, temos as já mencionadas Scarlett e Cat. A primeira é o estereótipo da garota sexy que conquista tudo com seu charme, o que é cansativo, mas felizmente ela se revela uma jovem empática, sensível e capaz de ajudar todos ao seu redor. Cat é a garota durona que reclama a todo instante da presença de Auri. Ciúmes de Tyler? Vão ter que ler pra descobrir.

E como falar dos personagens sem mencionar aquela que se une ao esquadrão se querer? Aurora O’Malley passa mais de 200 anos em hibernação e, quando acorda, tudo que conhece se foi: seus amigos, sua família, seu lar. Ela estava em uma expedição que iria desbravar um novo planeta conhecido como Octavia III, mas todas as pesquisas que faz negam a existência de qualquer colônia lá. Para piorar, Auri passa a ser acometida por visões estranhas em idiomas que ela nunca ouviu, além de revelar poderes perigosos que surgem sem explicação – colocando não apenas Aurora como todo o esquadrão em perigo.

Aurora Ascende é um livro cheio de ação, e a partir do minuto em que Tyler resgata Aurora nenhum personagem tem paz. Eles partem em uma missão de rotina, mas tudo demonstra ser muito mais perigoso quando a própria Força de Defesa Terráquea e a Agência de Inteligência Global (duas instituições perigosas e poderosas que regulam muitas das dinâmicas intergalácticas) surgem para “levar Aurora para casa”. Só que as visões da jovem a alertam para o real intuito dessas pessoas, e de alguma forma ela sabe que desejam apagá-la do mapa, assim como fizeram com toda a colônia de Octavia III. Movido por seu senso de justiça (e pelo conselho do melhor amigo de seu falecido pai), Tyler decide acreditar em Aurora e defendê-la, aceitando ir até o fim do mistério que cerca a garota e seus poderes telecinéticos – que vão se revelando cada vez mais fortes e instáveis. Quando o esquadrão 312 se torna oficialmente fugitivo, as páginas são tomadas de um ritmo ainda mais intenso, porque nenhum personagem pode relaxar nem por um minuto sem o risco de ser capturado. Essa fuga os leva a novos planetas, faz com que o grupo encontre novos inimigos e também revela que existem segredos mantidos a sete chaves pela FDT e pela AIG – segredos que podem ser uma ameaça não apenas para a Legião Aurora, mas para a galáxia inteira.

resenha aurora ascende 2

Entretanto, Aurora Ascende peca em ser um livro que traz a sensação de “eu já vi isso antes”. A protagonista tendo visões que não entende e sendo possuída por algum tipo de ser/poder/inteligência que perde o controle e coloca seus amigos em perigo me fez lembrar automaticamente de Kira, de Dormir em um Mar de Estrelas. As viagens dos personagens por diferentes planetas e lugares, cheias de perseguições e planos arriscados, me remeteram a Desafiando as Estrelas. E a relação entre Kal e Aurora me lembrou uma versão fraca do imprinting de Jacob por Renesmee em Amanhecer. 😂 O casal tem zero química e em nenhum momento consegui torcer ou suspirar por ele; pelo contrário, fiquei meio que enjoada com a melosidade do instalove que Kal sente por Aurora, assim como achei bem repentino ela subitamente decidir que vai dar uma chance de gostar dele de volta. Essa sensação se agravou pra mim principalmente porque Aurora não é uma protagonista carismática. Todos os personagens possuem características marcantes (mesmo Zila, que mal tem falas), mas Aurora é genérica e esquecível.

Aurora Ascende tem bons personagens, que iniciam sua relação de forma disfuncional mas, com o passar das páginas, aprendem a confiar e a respeitar uns aos outros. É bacana ver o relacionamento deles se desenvolver e, principalmente, ver a evolução que cada um deles tem com as próprias questões. O final do livro traz um clímax bem impactante e me emocionou, ainda que eu nem goste da personagem envolvida – ou seja, foi conduzido de forma competente e convincente. Passei cerca de um mês lendo Aurora Ascende de forma arrastada, mas o final foi capaz de me instigar a querer ler a continuação o mais breve possível. Pena que falte carisma à personagem-título, com a qual não consegui simpatizar, e que muitos aspectos da obra sejam meio lugar-comum. Mas, pra ser honesta, como mencionei na resenha de Lightyear, sci-fi não é a minha praia e sempre exige mais da minha paciência enquanto leitora. Juro que aqui o “não é você, sou eu” não é desculpa esfarrapada. 😂 Então, se você não tem dificuldade com o gênero, é bem provável que adore e se divirta com Aurora Ascende. 😉

Título original: Aurora Rising
Série: Ciclo Aurora
Autores: Amie Kaufman e Jay Kristoff
Editora: Rocco
Número de páginas: 368
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Os Amadores – Sara Shepard

Oi pessoal, tudo bem?

Sara Shepard é muito conhecida pela famosa, Pretty Little Liars, cujos livros inspiraram uma adaptação televisiva de sucesso. Mas hoje vamos conhecer o primeiro volume da sua mais recente série investigativa: Os Amadores.

Garanta o seu!

Sinopse: Há cinco anos, a estudante do ensino médio Helena Kelly desapareceu do quintal de sua casa, em Dexby, Connecticut. Ninguém nunca mais ouviu falar dela e sua família ficou sem respostas sobre quem sequestrou e matou Helena ou o porquê. Quando Seneca Fraiser, de dezoito anos, vê uma postagem desesperada no site Caso Não Encerrado, ela sabe que é hora de mudar isso. Afinal, o desaparecimento de Helena é o motivo de ela ter ficado obcecada por casos não resolvidos e estar nesse site. Determinada a desvendar esse mistério, ela resolve passar o recesso de primavera em Connecticut trabalhando nesse caso junto com Maddy Wright, sua principal conexão do site Caso Não Encerrado. Mas desde o momento em que ela sai do trem, tudo começa a dar errado. Maddy não é quem ela esperava que fosse, e Aerin, a irmã de Helena, parece não querer nenhuma ajuda. Além disso, Seneca tem um segredo que pode colocar em cheque toda a investigação. Junto com outro usuário do site, Brett, eles vão descobrindo aos poucos os segredos que Helena mantinha até as semanas que antecederam seu desaparecimento. Mas o assassino está por perto… e está determinado a manter esse caso sem solução.

Seneca Fraiser é uma jovem estudante apaixonada por casos de true crime. Ela participa de um fórum chamado Caso Não Encerrado, em que vários usuários contribuem com teorias, imagens, vídeos e evidências sobre inúmeros crimes sem solução. É nesse fórum que Seneca se depara com o pedido de ajuda de Aerin, irmã mais nova de Helena Kelly, cujo desaparecimento seguido de morte nunca foi solucionado. Seneca é obcecada por esse caso e não hesita em viajar para Dexby (a cidade de Aerin) a convite de sua amiga Maddy Wright, que também mora lá. Para a surpresa de Seneca, ao chegar ela descobre que Maddy é na verdade um garoto chamado Maddox, Aerin está menos propensa a colaborar do que Seneca imaginava e alguém misterioso está empenhado em impedir o curso da investigação.

Os Amadores é um livro com narrativa de fácil entendimento e uma pegada BEM teen. Faço esse disclaimer porque, se você não se identifica com esse estilo, talvez acabe se decepcionando – como foi o meu caso. Eu amo tramas investigativas, mas não ando tendo muita afinidade ou paciência para abordagens mais superficiais, e Sara Shepard nos apresenta a personagens bem unidimensionais e previsíveis, ainda que ela tente usar o passado deles como oportunidade de aprofundamento. Outro ponto importante é o uso de recursos inverossímeis para destravar situações impossíveis (um exemplo disso é uma empresa cair em uma engenharia social fraquíssima bolada por um grupo de adolescentes).

Seneca não é uma protagonista cativante, muito pelo contrário. Ao descobrir que Maddy é um garoto, ela muda completamente com ele e permanece assim ao longo da maior parte do livro. Ao mesmo tempo em que ela fica constrangida por ter se aberto com ele na internet imaginando que ele fosse uma garota, ela também se sente atraída por Maddox. Esse clima de “não-romance” não funciona e torna bem difícil não só se envolver com os dois como torcer por eles também. O fato de Maddox ter um rápido romance com sua treinadora também não ajuda, e ele acaba exercendo um papel menos de co-protagonista e mais de coadjuvante.

Aerin é o estereótipo de garota linda e loura que usa o corpo e o álcool pra afogar os sentimentos mais profundos que não deseja enfrentar. A perda da irmã a assombra e a sufoca, e sua solução para lidar com o luto e a ruptura de sua família é sair com o máximo de rapazes possíveis. Sara Shepard constrói a personagem como uma pessoa viciada em flertar, e ela faz isso tanto com o policial que posteriormente surge na história quanto com o quarto membro do grupo de investigadores, Brett, outro membro assíduo do Caso Não Encerrado que foi convidado por Maddox a integrar o time. E já que estamos falando do comportamento de Aerin, a obra me causou uma sensação bem incômoda com relação ao modo que Shepard retrata o gênero feminino. O fato de Aerin ter pouco mais a oferecer do que cenas de flerte somado a vários diálogos que reforçam estereótipos (como quando os irmãos Madison e Maddox falam “garotas sempre mentem” ao se referir à instrutora do segundo) transmitem uma sensação de machismo e misoginia velados na narrativa da escritora, o que me fez ficar de cara fechada em mais de uma ocasião ao longo da leitura.

Como mérito da obra, a investigação do caso de Helena é bem fluida e interessante. A forma como o grupo de amadores vai construindo o caso é bacana e vai adicionando peça por peça ao quebra-cabeça que o caso Kelly representa. Além disso, o plot twist do final é MUITO bom, sendo capaz de me surpreender e me fazer dar uma estrela a mais ao livro. Sara Shepard amarrou direitinho as pontas soltas da história e deixou um ótimo gancho para a continuação – que já foi lançada pela editora Rocco e se chama Os Seguidores (em breve leio e resenho pra vocês).

Os Amadores é uma opção de leitura bem despretensiosa pra quando você estiver buscando um livro investigativo leve, de narrativa simples e sem grandes pretensões. Ele entretém, mas não é uma obra marcante, daquelas que fazem o leitor querer falar sobre sem parar, e também necessita de um olhar crítico para que os estereótipos de gênero não sejam reforçados no imaginário do leitor. Acredito que eu não seja mais o público-alvo dos livros da Sara Shepard, mas muitas pessoas são fãs do estilo de escrita da autora. Fica a seu critério decidir se essa leitura entra na lista. 😉

Título original: The Amateurs
Série: Os Amadores
Autora: Sara Shepard
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow – Jessica Townsend

Oi pessoal, tudo bem?

A série Nevermoor conseguiu de novo, e mais uma vez entrou pra lista dos meus queridinhos! Hoje vim contar pra vocês minhas impressões sobre Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow, terceiro volume da saga – e meu favorito até agora! ❤ Atenção: como essa resenha fala do terceiro livro, existem alguns spoilers dos volumes anteriores.

Garanta o seu!

Sinopse: Morrigan Crow e seus amigos não só sobreviveram ao primeiro ano como integrantes da exclusiva Sociedade Fabulosa, mas também ajudaram a acabar com o Mercado Macabro e se provaram leais a Unidade 919. Agora, Morrigan enfrenta um novo e empolgante desafio: dominar as Artes Fabulosas e controlar o poder que ameaça consumi-la. Mas uma estranha doença tomou conta de Nevermoor, infectando os Fabulanimais, fazendo com que eles percam a razão e se tornem nãonimais raivosos e agressivos. Conforme o número de vítimas da Vazíola se multiplica e o pânico se instaura, a cidade que Morrigan tanto ama se vê dominada pelo medo e pela desconfiança. Morrigan então se dá conta de que talvez seja capaz de encontrar uma cura para a doença, mas sua solução pode colocar não só a ela, mas a toda Nevermoor em um perigo maior do que jamais imaginaria.

De uns anos pra cá, confesso pra vocês que tem sido difícil pra mim ler séries de fantasia porque elas trazem conceitos e nomes que eu esqueço entre o lançamento de um livro e outro. 😂🤡 Felizmente, Jessica Townsend é maravilhosa e ajuda as Dorys humanas como eu, rememorando tanto os nomes dos personagens como também os locais anteriormente mencionados e os principais fatos ocorridos nos volumes anteriores. Foi assim que lembrei do que era necessário para ler Vazíola: no segundo volume de Nevermoor, acompanhamos Morrigan tendo suas primeiras lições a respeito do Fabulânio na Sociedade Fabulosa, sendo todas elas carregadas de um julgamento negativo por parte do seu professor, Onstald. Acontece que o final do segundo livro traz uma reviravolta importante quando Onstald se sacrifica para salvar Morrigan e a garota mais uma vez é tentada por Ezra Squall, o maior inimigo de Nevermoor, a se tornar sua aprendiz. A jovem Mog segue categórica em sua decisão de aprender a controlar o Fabulânio sozinha, e é nessa situação que Vazíola começa. Quando Fabulanimais (seres que parecem animais, mas são tão inteligentes quanto seres humanos) começam a agir de modo estranho, transformando-se em nãonimais (animais comuns), Morrigan percebe que a Vazíola é muito mais do que uma simples doença.

Se eu tiver que escolher uma única palavra pra definir os caminhos tomados por Jessica Townsend em Vazíola, seria fascinante. Eu simplesmente amei a forma como a autora aprofundou assuntos anteriormente abordados na saga que até então não tinham tido tanto espaço. O primeiro deles é o desabrochar de Morrigan como estudante da Soculosa: se antes a garota só era ensinada sobre o lado negativo dos Fabuladores, em Vazíola ela começa a aprender as maravilhas projetadas e realizadas por eles. O leitor, assim como Mog, fica encantado ao descobrir que existe toda uma escola da Soculosa destinada aos Estudos Fabulosos (a Escola das Artes Fabulosas), e que há um grupo de estudos que se debruça sobre essa habilidade e sua história. Morrigan se aproxima dessas pessoas, em especial da Faburraposa chamada Sophia, que a guia pela Escola e a apresenta ao seu principal material de estudo: o Livro das Horas Fantasmagóricas. Aqui novamente eu faço um paralelo entre Nevermoor e Harry Potter, porque o Livro me remeteu instantaneamente à Penseira: é um objeto fantástico capaz de transportar o usuário até um momento específico do passado (ou trazer essa cena do passado para ser assistida no presente). É desse modo que Mog não apenas aprende mais técnicas sobre o domínio do Fabulânio como também se depara com um jovem – e ainda inocente – Ezra Squall.

Por mergulhar nos seus estudos fabulosos e por nutrir uma profunda curiosidade em saber mais sobre a juventude de Squall, Mog acaba se afastando dos seus amigos da Soculosa, que infelizmente perdem um pouco de espaço nas páginas do livro. A garota divide sua atenção entre os estudos de Fabulânio e a preocupação com a Vazíola pois, conforme ela se espalha pela cidade, a Sociedade Fabulosa e os cidadãos de Nevermoor começam a entrar em pânico, já que os Fabulanimais passam a atacar pessoas e, uma vez que a onda de fúria passa, eles entram em uma espécie de coma seguido pela perda daquilo que fazem deles seres pensantes. É em relação a esse fato que reside uma pequena decepção que tive: a obviedade do segredo por trás do vírus que acredita-se ser a Vazíola; não é nada difícil descobrir o que ele significa, ainda que isso tenha pouca importância ao olharmos o panorama geral da trama.

Um dos pontos mais importantes desse volume é o fato de que a autora traz o debate sobre a tolerância, o medo do desconhecido e o perigo do preconceito. Usando como desculpa o medo da Vazíola, as “pessoas de bem” (aqui citados como Cidadãos Preocupados de Nevermoor, um partido político que se coloca contra todos os Fabulanimais) começam eles mesmos a tomar atitudes violentas, repressoras e hostis contra Fabulanimais – não tendo nem o vírus pra justificar tais ações, diferente daqueles que perdem o controle devido à doença. Fica claro que existem muitas pessoas no reino que não consideram Fabulanimais como seus iguais, e o uso do vírus é o argumento para diminuí-los, isolá-los e ferir sua dignidade. Como se não bastasse, mesmo as instituições nas quais Mog deveria confiar passam a desapontá-la, tendo como exemplo disso as ações de cortina de fumaça utilizadas pela Soculosa (nós, brasileiros, conhecemos bem essa estratégia).

Enquanto Morrigan, seu Patrono Jupiter e outros membros influentes da Sociedade tentam vencer a ameaça da Vazíola, outro personagem bem instigante vai ganhando espaço nas páginas. Para a minha surpresa, me vi muito mais interessada nele do que em qualquer outro nesse momento: estou falando do nosso infame Ezra Squall. Não costumo ser fã de vilões, acho que Ezra tem mais a oferecer do que somente sua vilania. A participação de Squall foi muito mais relevante ao longo da trama, saindo um pouco da fórmula “seja minha aprendiz” usada nos livros um e dois. Como mencionei, Morrigan viu o passado dele nas Horas Fantasmagóricas e se pegou se perguntando em que momento ele se transformou de um menino aprendiz para um assassino que traiu seus amigos Fabuladores, provocando o massacre de Nevermoor. Nas interações entre os dois personagens, senti que existem aspectos não contados da história do antagonista que podem render reviravoltas na forma como o leitor o encara. Uma história de redenção, talvez? Ainda não sei. Mas no momento em que fica claro que a Soculosa é capaz de manipular os fatos a seu favor, sacrificando pessoas se necessário, e também com a presença de uma ameaça tão grande quanto a de Squall surgindo, essa teoria ganha força na minha cabeça.

Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow é um livro que não para. Ele é cheio de novas informações, tem muitas reviravoltas e o final é incrível, fazendo com que o leitor mal possa esperar pelo próximo volume. Mas o que mais gostei na obra é ver que Morrigan está crescendo – assim como a série. É muito prazeroso ver que a trama evolui e amadurece junto da sua protagonista; Mog ainda é jovem e tem muito pela frente, mas Vazíola já fez com que a garota assumisse desafios e responsabilidades bastante pesados para seus pequenos ombros. Já estou ansiosa pra acompanhar seus próximos passos. E se você gosta de séries de fantasia com um universo criativo e bons personagens, se joga em Nevermoor. É fabulosa! 😉

Título original: Hollowpox: The Hunt for Morrigan Crow
Série: Nevermoor
Autora: Jessica Townsend
Editora: Rocco
Número de páginas: 400
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Coraline (Graphic Novel) – Neil Gaiman e P. Craig Russell

Oi meu povo, tudo certo?

Fazia tempo que eu não lia uma graphic novel, e recentemente pude conferir a adaptação de Coraline (ilustrada por P. Craig Russell, que trabalhou em parceria com Neil Gaiman na adaptação para graphic novels de O Livro do Cemitério – Volume 1 e Volume 2).

Garanta o seu!

Sinopse: O aclamado artista P. Craig Russell dá nova vida ao encantador bestseller Coraline nessa versão adaptada para comics. Primeiro livro de Neil Gaiman escrito especialmente para o público juvenil, Coraline é um conto de fadas às avessas que reconhece a subestimada e, por vezes esquecida, maturidade da maioria dos jovens leitores. Em Coraline, a jovem descobre uma porta para um misterioso apartamento no prédio para onde acabou de se mudar. Uma história arrepiante, que vai além dos tradicionais dragões, príncipes encantados, frágeis princesas ou gigantes padronizados que habitam o universo infantil.

As férias de verão são um verdadeiro tédio para Coraline. A garota recentemente se mudou com seus pais para um casarão dividido em apartamentos, e ela tem como companhia vizinhos idosos pitorescos, um gato preto que sempre foge dela e muito tempo livre, pois seus pais não têm muito tempo para brincar com ela. Para completar, a menina não se sente ouvida, porque frequentemente seus pais lidam com ela daquela forma que adultos muitas vezes fazem: minimizando a opinião das crianças. Com todo esse contexto e cheia de vontade de explorar a nova casa, Coraline se depara com uma porta que dava para uma parede fechada – até que, subitamente, ela revela um corredor escuro, e não mais essa parede. Ao atravessar, Coraline sente arrepios e a presença de algo muito antigo e onipresente, e acaba em um mundo semelhante ao dela, com a exceção de que todas as pessoas têm olhos de botão e uma aparência assustadora. Seus “novos pais” fazem de tudo para que ela permaneça lá, mas Coraline resolve voltar para sua casa original. Ao perceber que seus verdadeiros pais sumiram, ela entende que vai precisar reunir toda a sua coragem para confrontar sua “nova mãe” em busca do paradeiro deles.

Se eu tivesse lido (ou assistido ao filme) Coraline quando era pequena, provavelmente sentiria medo, viu? 😂 A aparência dos “novos pais”, especialmente da mãe, é bastante intimidadora. As unhas em forma de garras, os olhos de botão, o sorriso com dentes que mais parecem presas… tudo isso forma uma imagem ameaçadora na figura da “nova mãe”. Mas de início Coraline não a encara desse modo, e vê com alegria o fato de que seus “novos pais” querem dar atenção a ela e agradá-la. Mas aos poucos a menina entende que as intenções dessas criaturas não são aquelas que demonstram, e dois elementos são de grande ajuda nesse processo: o primeiro deles é um artefato circular que ela ganhou no seu mundo das duas vizinhas idosas e que é usado em suas missões; o segundo é o gato preto, que no mundo depois da porta é capaz de falar e não a apenas alerta Coraline sobre os perigos que ela corre, como também a auxilia.

A trama de Coraline gira em torno da missão da menina de salvar os pais, mas também almas que ela descobre estarem presas no mundo espelhado atrás da porta. Não vou contar muito a respeito para não tirar a graça do livro, mas a protagonista age de forma corajosa e altruísta em uma situação desesperadora. Imagine como é perceber que está sozinha no mundo e seus pais sumiram sem deixar rastros? E que existem criaturas misteriosas que querem manter você presa em seu mundo? Com tudo isso em xeque, fiquei bastante admirada com os nervos de aço que Coraline demonstrou mesmo sendo tão jovem. Além da própria protagonista, gostei muito do gato preto, o aliado fiel cuja sabedoria surge nos momentos mais necessários.

É interessante que, apesar de ser uma história sombria e cheia de aventuras, a obra traz lições muito importantes. Eu, por exemplo, refleti e me incomodei com a postura dos pais verdadeiros de Coraline ao deixarem as opiniões da menina de lado. É como se, apenas por ela ser uma criança, seu gosto pessoal e seus sentimentos pudessem ser tratados com “deixa disso”, sabem? Claro, existem situações que podem ser birra ou pela criança ser mimada, mas ainda assim acredito que há formas diferentes de explicar por que determinado pedido não será atendido sem minimizar os sentimentos da criança. Enfim. O segundo ponto que Coraline aborda com força é a coragem. Em determinado momento, a protagonista se lembra de um episódio em que seu pai a protegeu de um enxame de abelhas e, mesmo com muito medo, ele fez o necessário para zelar por ela. Coraline se vê na mesma posição: tendo que enfrentar uma situação perigosa em nome de pessoas que ela precisa salvar. E é aí que a bela lição fica clara: ter coragem não é sobre não sentir medo, mas sim sobre sentir medo e agir mesmo assim. É algo que eu pessoalmente acredito muito e adorei ver nas páginas da graphic novel. ❤

Tecnicamente falando, as ilustrações de P. Craig Russell são muito bonitas e transmitiram o clima sombrio da história muito bem. Já tinha gostado bastante dos traços dele em O Livro do Cemitério, e aqui não foi diferente. O ritmo da história é ágil e rapidamente você lê os quadrinhos e passa as páginas, tornando a graphic novel de Coraline uma obra perfeita pra consumir em um único dia.

Coraline é um ótimo livro e tem como pilares a imaginação infantil, a coragem e o toque de horror causado por esse novo mundo. É uma história que dá um arrepiozinho, mas também inspira. Além da ótima trama, a graphic novel traz ilustrações que fazem você pousar os olhos com vontade de absorver cada detalhe. Recomendo muito!

Título original: Coraline: The Graphic Novel
Autores:
Neil Gaiman e P. Craig Russell
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 190
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Minha Avó Pede Desculpas – Fredrik Backman

Oi pessoal, tudo bem?

Que Gente Ansiosa foi um dos meus queridinhos de 2021, vocês já sabem. Por isso, resolvi ler outras obras de Fredrik Backman e hoje divido minha experiência com Minha Avó Pede Desculpas.

Garanta o seu!

Sinopse: Elsa não é uma criança como qualquer outra. Dona de uma maturidade e inteligência acima da média (graças as suas constantes pesquisas na Wikipedia), ela só lê o que chama de literatura de qualidade: quadrinhos, Harry Potter e os clássicos infantis. Todas as noites, Elsa se refugia nas histórias que sua avó lhe conta, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Despertos, um lugar mágico onde o normal é ser diferente. Quando a avó morre de repente, Elsa perde o chão e também a capacidade de habitar locais imaginários. De tão desolada, Elsa inicialmente não se entusiasma com a missão que a avó lhe deixou: distribuir cartas que funcionam como um caça ao tesouro. As missivas devem ser entregues às pessoas do prédio onde a menina mora. É assim que começa a aventura de Elsa e também a aventura do leitor. Vamos aos poucos desvendando as cartas juntamente com ela para descobrir a fascinante vida que sua avó viveu e o que se esconde por trás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de uma comunidade muito especial.

Elsa é uma menina diferente. Em seus quase 8 anos de vida, ela já sabe como isso pode ser difícil. Sozinha na escola e alvo frequente de bullying, Elsa tem como única e melhor amiga a sua excêntrica avó. Mas quando eu digo excêntrica, acreditem em mim: ela é excêntrica mesmo. A ponto de pular a grade de um zoológico e atirar nas pessoas com uma arminha de paintball. Juntas, as duas vivem muitas aventuras, tanto no mundo real quanto em um lugar mágico criado por sua avó chamado Terra-dos-Quase-Despertos. Lá, as histórias sobre princesas, wurses, bichos-nuvem, sombras e cavaleiros se tornam reais. Por isso, quando a avó de Elsa morre, a angústia e a dor preenchem o coração da menina. Mas sua avó deixou para a pequena uma última missão: uma caça ao tesouro envolvendo cartas que ela deixou desculpando-se com diversas pessoas do prédio em que elas moram.

Diferente do que acontece em Gente Ansiosa, aqui Fredrik Backman não explora tanto o humor irônico em sua narrativa, o que é totalmente compreensível considerando que a protagonista é uma garotinha de quase 8 anos (essa informação sim é repetida à exaustão propositalmente). É bastante triste perceber que desde tão novinha Elsa precisa aprender a correr e a aguentar as pancadas provocadas por crianças já tão sombrias. Quando sua avó falece, nosso coração também pesa por ela. Porém, o que Elsa não imaginava é que a caça ao tesouro e a entrega das cartas proporcionaria muito mais do que cumprir um desejo final de sua avó, mas também a criação de novos vínculos e amizades. Uma delas com um wurse, outra com o grande guerreiro Coração de Lobo. Esses termos são oriundos diretamente da Terra-dos-Quase-Despertos. O wurse é um cachorro enorme que vivia no prédio escondido e que sua avó cuidava; Coração de Lobo é um ex-soldado que a avó de Elsa conheceu e salvou (pois era médica) quando ele ainda era uma criança. Eles se tornam um time inesperado, e tanto o wurse quanto Coração de Lobo passam a proteger Elsa de perigos que ela ainda não sabe que existem.

Essa transposição da Terra-dos-Quase-Despertos e do reino de Miamas (o favorito de Elsa naquela Terra) para a vida real é muito bacana. Até a metade do livro, eu não consegui mergulhar de cabeça e não via tanta atratividade nas passagens que falavam sobre os reinos. Porém, em determinado momento, Elsa começa a entender as conexões que sua avó fizera, e o leitor também compreende que tudo que existia nesse mundo da imaginação tinha uma contraparte no nosso mundo. Isso instiga nossa curiosidade e nos faz querer conectar outros links antes que eles sejam revelados de forma mais explícita.

Eu sou uma pessoa bem chorona, mas curiosamente eu não me emocionei com as passagens envolvendo a avó de Elsa. Achei um pouco forçada a excentricidade dela. Porém, a conexão que ela tem com cada morador do prédio é muito bonita e ajudou a criar uma afeição por sua personagem. Existem histórias ali que demoram a serem contadas, mas revelam camadas inesperadas em personagens que pareciam ser rasos. Um exemplo disso é Britt-Marie, a “nêmesis” da vovó, uma mulher implicante e cheia de manias (que protagoniza outro livro de Fredrik Backman), ou “a mulher da saia preta”, uma vizinha que transmite uma imagem inatingível mas guarda uma dor muito profunda dentro de si. Agora, se tem alguém que me emociona, esse alguém é o wurse. É facilmente um dos meus personagens favoritos, e a amizade dele com Elsa ganhou meu coração.

Minha Avó Pede Desculpas é excelente em nos mostrar que as pessoas vão além das aparências, que é importante pedir perdão pelos nossos erros e que está tudo bem ser diferente. Aliás, o livro celebra as diferenças das mais variadas formas: ao evidenciar que Elsa é perfeita do jeito que é, ao mostrar o brilho de seu vizinho com síndrome (cujo tipo nunca é dito, e nem é necessário) e mostrar que cada pessoa no prédio tem uma história e uma personalidade diferentes, mas que são pessoas incríveis mesmo assim – ou talvez por isso. Nesse sentido, o livro me lembrou Gente Ansiosa: mais do que a história sobre Elsa e sua avó, fiquei muito mais interessada nas relações entre os personagens. Apesar de não ter causado o mesmo efeito em mim que o meu queridinho já mencionado, é um ótimo título e eu certamente recomendo! 🙂

Título original: My Grandmother Asked Me to Tell You She’s Sorry
Autor:
Fredrik Backman
Editora: Fábrica231
Número de páginas: 384
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Jack e o Porquinho de Natal – J. K. Rowling

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje vim fazer uma resenha que me causou diversos dilemas, porque enquanto eu fazia a leitura, a autora trouxe mais uma vez comentários preconceituosos à tona. Acho importante ser honesta com vocês – como sempre – e dizer que eu gosto muito do que a J. K. Rowling escreve (tive uma ótima experiência com seu outro livro infantil O Ickabog), mas que não corroboro em nada com seus posicionamentos sobre a comunidade trans. Com isso em pratos limpos, partiu resenhar Jack e o Porquinho de Natal, o novo livro infantil da autora que recebi em parceria com a Rocco. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Jack tem um porquinho de pelúcia cor-de-rosa que ele chama de O Poto. OP, como ficou conhecido, está ao lado de Jack nos bons e maus momentos e compreende todos os seus sentimentos. Até que, em uma véspera de Natal, para grande tristeza do menino, OP é perdido. Jack ganha um novo brinquedo, o Porquinho de Natal, e é este substituto que vai armar um plano para que, juntos, eles embarquem em uma jornada repleta de magia em busca do que foi perdido e a fim de reencontrar o melhor amigo que Jack já teve.

Jack é um menino de 8 anos que tem a sorte de ter um melhor amigo capaz de entendê-lo sem que ele nem precise abrir a boca. Esse amigo é O Poto (ou OP), seu porquinho de pelúcia. Mesmo no período mais difícil que Jack viveu, marcado pela separação de seus pais, ele sabia que podia contar com o cheirinho meio sujo do Poto, com a maciez do seu tecido já gasto e com suas orelhinhas tortas. Porém, quando sua mãe se casa novamente, a vida de Jack se torna um pouco mais difícil: a filha do marido de sua mãe, Holly, é uma colega de escola de Jack que está passando por um período de muita revolta devido ao fato de seu pai ter encontrado um novo amor e também por estar sendo pressionada pela mãe em um esporte que ela não gosta mais. Holly desconta toda essa frustração em Jack e eles começam a brigar feito gato e rato, até que em um certo dia, andando de carro, Holly fica furiosa e joga OP pela janela. Jack entra em desespero e, apesar dos melhores esforços, eles não conseguem encontrar O Poto. Para se desculpar, Holly o presenteia com um porco novinho, que Jack despreza; mas é véspera de Natal, e coisas mágicas acontecem nesse dia. O novo porquinho, que se chama O Porquinho de Natal, ganha vida e oferece a Jack a chance de recuperar OP. Como? Infiltrando-se na Terra das Coisas Perdidas.

Jack e o Porquinho de Natal é um livro infantil lúdico e muito gostoso de ler. Quando a dupla inusitada se une para resgatar O Poto, diversas aventuras têm início. A Terra das Coisas Perdidas é o lugar para onde tudo aquilo que perdemos vai. Lá, as Coisas são categorizadas de acordo com o quão amadas elas são e o quanto seus donos sentem sua falta. Quando você perde algo, aquele item fica durante 1h em Extraviada, onde há maiores chances de ser encontrado e voltar para a Terra dos Vivos. Depois desse tempo, as Coisas são separadas e destinadas a três cidades: Descartável, Alguém-Se-Importa e A Cidade dos Saudosos. Ou é isso que Jack e o Porquinho pensam, pelo menos.

A dinâmica dos dois protagonistas é a clássica “enemies to friends”. Jack é muito relutante em aceitar a ajuda do Porquinho, porque acha ofensivo que ele tenha sido dado como um substituto ao Poto. Já o Porquinho se ressente de Jack pela sua grosseria, já que o menino bateu e quase arrancou a cabeça do bichinho de pelúcia quando Holly o entregou. O acordo entre os dois é que O Porquinho de Natal vai ajudá-lo no resgate a OP, mas depois ele próprio será presenteado a Holly. Jack, obviamente, topou na hora. Mas conforme eles vão adentrando a Terra das Coisas Perdidas, eles percebem o perigo que os rodeia: esse “reino” é comandado pelo Perdedor, uma criatura capaz de matar as Coisas ao comê-las e destruí-las; desse modo, elas nunca poderão ser encontradas na Terra dos Vivos. Enquanto tentam passar despercebidos e fazer de conta que Jack é um boneco articulado, o menino e o porco percebem a necessidade de se unir para vencer as adversidades.

A criatividade de J. K. Rowling está em cada página de Jack e o Porquinho de Natal. Esse universo que ela construiu é muito rico e as explicações seguem uma lógica que torna muito fácil mergulhar de cabeça na proposta da trama. Além disso, é inevitável torcer para que a dupla seja bem-sucedida na missão de resgatar O Poto, porque a autora dedicou um bom tempo nos primeiros capítulos para nos mostrar (e não deixar dúvidas) de quão importante ele é para Jack. Ao longo das páginas, conhecemos personagens que não têm a mesma sorte de serem tão amados quanto OP, e vários deles se tornam aliados da dupla – ganhando também nossa afeição e torcida. Com o desenrolar da trama, vemos que a postura dos protagonistas vai mudando devagarinho: Jack deixa de ser tão implicante com O Porquinho de Natal e se aproxima dele; já O Porquinho vai assumindo uma posição de porto-seguro para Jack.

No fim das contas, Jack e o Porquinho de Natal é um livro infantil encantador que traz lições muito bonitas. Ele nos mostra a importância da amizade e de não desistir daqueles que amamos, assim como também nos faz refletir sobre o fato de que nem tudo é como aparenta ser. Muitas vezes as pessoas ao nosso redor estão lidando com coisas pesadas e difíceis, e ao olharmos somente para o nosso sofrimento nos tornamos insensíveis a essas dores. Além disso, aproveito pra elogiar a edição física, que é em capa dura e recheada de belas ilustrações. Leitura super aprovada!

Título original: The Christmas Pig
Autora:
 J. K. Rowling
Editora: Rocco
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Roube Como Um Artista – Austin Kleon

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de ler a trilogia do Austin Kleon de trás pra frente, hoje vim dividir minha opinião sobre seu primeiro livro, Roube Como Um Artista.

Garanta o seu!

Sinopse: Verdadeiro manifesto ilustrado de como ser criativo na era digital, Roube como um artista, do designer e escritor Austin Kleon, ganhou a lista dos mais vendidos do The New York Times e figurou no ranking de 2012 da rede Amazon ao mostrar – com bom humor, ousadia e simplicidade – que não é preciso ser um gênio para ser criativo, basta ser autêntico. Baseado numa palestra feita pelo autor na Universidade do Estado de Nova York que em pouco tempo se viralizou na internet, Roube como um artista coloca os leitores em contato direto com seu lado criativo e artístico e é um verdadeiro manual para o sucesso no século XXI.

Após ter tido ótimas experiências com as publicações posteriores do autor, ler Roube Como Um Artista foi como um belo fechamento dessa experiência. De certo modo, ainda que teoricamente não faça sentido dizer isso em função da cronologia, pra mim a obra serviu como um lembrete de tudo que havia mexido comigo em seus livros até então, principalmente o incentivo que Austin Kleon dá à criação de hobbies (e não sentirmos uma necessidade urgente de capitalizarmos em cima disso), assim como à coragem de colocar seu trabalho no mundo.

Como uma pessoa frequentemente autossabotadora, já deixei vários dos meus trabalhos criativos pela metade ou guardados na gaveta. Se você leu meu post sobre Mostre Seu Trabalho!, talvez possa lembrar que tenho um conto que ainda não tive coragem de publicar. Porém, temos vitórias no caminho também: no post sobre Siga Em Frente eu conto um pouquinho sobre como foi retomar um hobby que eu amava e sentir zero pressão a respeito de ser a melhor possível e ganhar dinheiro com ele. ❤ Essas são duas dicas importantes de Roube Como um Artista: “projetos paralelos e hobbies são importantes” e “o segredo: faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas”. 

Além delas, que são fundamentais para que o trabalho criativo ganhe vida e inspiração, o autor também desmistifica a genialidade criativa. Para ele, o trabalho criativo é a soma de várias ideias e referências, pois nada é 100% original, e devemos praticar os “bons roubos” durante o processo de criação. E o que são os “bons roubos”? Diferentes do plágio, eles dão os devidos créditos, são retirados de várias inspirações diferentes, se dedicam a estudar outros trabalhos e transformam o que eram fragmentos de referências em algo seu. Na minha opinião, esse modo de pensar é libertador, pois retira um peso enorme dos ombros daqueles que pensam que somente quando tiverem uma ideia inovadora e totalmente única, sem nenhuma influência externa, é que estarão fazendo um bom trabalho – quando provavelmente quase ninguém consegue fazer isso.

Também existe uma dica dada por Austin Kleon que eu já havia aprendido há pouco tempo, com um líder que tive, que diz: “fingir até conseguir”. Não espere estar totalmente preparado, não espere as condições perfeitas, não espere ser um mestre na skill que você deseja aprimorar: simplesmente comece. Finja desde já que você já é um artista, que você já é um escritor, que você já é um ator ou seja lá a profissão que você deseja conseguir. Coloque a sua energia em tentar todos os dias ser aquilo que você deseja ser até que, quando se der conta, vai ter aprendido o suficiente para que não seja mais fingimento. E, acreditem em mim, ter essa postura no ambiente profissional é capaz de tirar vários quilos dos seus ombros!

Roube Como Um Artista não trouxe muitas novidades pra mim em termos de insights, mas curiosamente funcionou como um bom fechamento aos livros que li anteriormente. A lógica de publicação faz sentido, porque aqui Austin Kleon aborda vários temas que são mais esmiuçados nas obras seguintes, e eu te diria pra ler todas elas na ordem correta – mesmo que você não tenha uma profissão “tradicionalmente” criativa. Afinal, todos nós temos essa habilidade de forma inerente, basta exercitá-la. 😉 

Título original: Steal Like an Artist: 10 Things Nobody Told You About Being Creative
Autor:
 Austin Kleon
Editora: Rocco
Número de páginas: 160
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Gente Ansiosa – Fredrik Backman

Oi pessoal, tudo bem?

Cá estou para falar sobre minha última leitura favoritada, Gente Ansiosa, que em breve vai ganhar uma adaptação na Netflix. ❤ Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: A busca por um apartamento não costuma ser uma situação de vida ou morte, mas uma visita imobiliária toma tais dimensões quando um fracassado assaltante de banco invade o apartamento e faz de reféns um grupo de desconhecidos. O grupo inclui um casal recém-aposentado que procura sem parar, casas para reformar, evitando a verdade dolorosa de que não é possível reformar o casamento. Há um diretor de banco rico, ocupado demais para se preocupar com outras pessoas, e um casal que, prestes a ter o primeiro filho, não concorda sobre nada. Acrescenta-se uma mulher de 87 anos que já viveu demais para temer uma ameaça à mão armada, um corretor imobiliário assustado, mas ainda disposto a vender, e um homem misterioso que se trancou no único banheiro do apartamento, e assim completamos o pior grupo de reféns do mundo. Cada personagem carrega uma vida de reclamações, mágoas, segredos e paixões prestes a transbordar. Ninguém é exatamente o que parece. E todos — inclusive o ladrão — estão desesperados por algum tipo de resgate. Conforme as autoridades e a imprensa cercam o prédio, os aliados relutantes revelam verdades surpreendentes e desencadeiam eventos tão inusitados que nem eles próprios são capazes de explicar.

“A vida não devia ser assim.” Você já teve a sensação de que a sua vida tomou um rumo completamente errado e você nem teve tempo de reajustar a rota? Ou, de maneira ainda mais simples, já enfrentou um daqueles dias de cão em que você tem a certeza de ter levantado com o pé esquerdo da cama? Sob certo ponto de vista, é isso que acontece em Gente Ansiosa: um assaltante de banco tem a brilhante ideia de assaltar um banco que não trabalha com dinheiro físico. Na fuga, ele acaba se refugiando em um apartamento que estava aberto para visitação em plena véspera da véspera de Ano Novo, 30 de dezembro. O que era pra ser um assalto a banco rápido e indolor se transforma em um drama de reféns, já que 8 pessoas estão presentes no tal apartamento. A polícia está com poucos funcionários em serviço devido à proximidade do Réveillon, o assaltante de banco não queria machucar ninguém e as 8 pessoas não poderiam ser mais diversas – inclusive nas reações à situação. Esse é o cenário com que o autor, Fredrik Backman, nos apresenta a uma história cativante desde a primeira página.

Gente Ansiosa é um livro tragicômico, e isso fica nítido no estilo narrativo da obra. O autor usa de ironias muito bem colocadas e tem um senso de humor meio “autodepreciativo” que eu gostei muito. O livro intercala três tipos de narração: uma em que o narrador onisciente se afasta da situação dos reféns pra revelar fatos importantes sobre o passado de uma ponte, na qual 10 anos atrás um homem se suicidou (e isso é relevante); uma em que é a narração do que está ocorrendo dentro do apartamento durante o incidente ou entre os policiais responsáveis pelo caso (que, por sinal, são pai e filho); e uma terceira que são as transcrições dos depoimentos dos reféns após sua liberação por parte do assaltante (que é a parte mais chatinha, confesso). Ao navegar por esses momentos, Fredrik Backman nos conduz por uma história essencialmente simples, mas cheias de conexões entre os personagens que, pouco a pouco, ganham o coração do leitor.

E como falar de Gente Ansiosa sem mencionar as pessoas que inspiram esse título? O livro se passa em uma cidade no interior da Suécia, e o departamento de polícia está despreparado para um caso de sequestro, o que pede o envolvimento de autoridades de Estocolmo, a cidade grande da qual os “figurões” tomam as decisões – e que causa grande mal-estar entre os policiais que conduzem o caso. Acontece que Estocolmo também é uma referência à síndrome referente a vítimas que tentam se identificar ou até mesmo conquistar a simpatia de seus captores, e certamente essa decisão não foi por acaso: talvez eu, como leitora, também tenha sofrido dessa síndrome ao simpatizar imediatamente com o assaltante de banco. Esse personagem tem um background impossível de não provocar empatia, principalmente quando o autor nos fornece informações sobre a quantia que ele desejava do banco e também os motivos pelos quais ele fez o que fez.

Mas a ansiedade (de forma às vezes mais, às vezes menos literal) se manifesta de formas diferentes em cada personagem. Há um casal, por exemplo, cujo “hobby” de aposentados é comprar e reformar apartamentos para vender. Ele, Roger, lida com a falta de propósito da nova rotina. Ela, Anna-Lena, com o medo de não ter mais conexão com o marido e seu único vínculo ser esse hobby. Os dois ilustram muito bem aquele arrependimento de quando a vida passa e você não realizou tudo que queria/podia, e nesse caso a figura que experienciou isso foi Roger, que optou por ficar em casa cuidando dos filhos devido à decolagem da carreira da esposa. Quem nunca se perguntou se não estava vivendo seu máximo potencial, né? Ademais, é uma inversão de gênero muito legal também, que subverte a ideia de que a carreira da mulher deve ser pausada na hora de constituir família.

Outra personagem marcante, ainda que irritante, é Zara. Ela é diretora de um banco e, no passado, recusou um empréstimo para o homem que se jogou da ponte que mencionei antes. Ela é antipática e desagradável mas, ao mesmo tempo, o autor também consegue trazer sua angústia para as páginas, amenizando um pouco o efeito negativo da sua personalidade. Zara também tem alguns dos melhores diálogos, e sua acidez rende frases bem engraçadas. Encontramos representatividade LGBTQIA+ no casal lésbico formado por Julia e Ro, que estão esperando um bebê. Julia é ainda mais irritante do que Zara e só sabe reclamar de Ro, não sendo uma personagem da qual eu tenha gostado. E é claro que vale uma menção honrosa a Estelle, uma senhora que perdeu o marido e foi à visitação do apartamento na tentativa de não se sentir tão sozinha na época do final de ano (revelando-se excelente em acabar com uma garrafa de vinho rs).

Os policiais responsáveis pelo caso, Jack e Jim, não ficam pra trás, tendo seus próprios dramas desenvolvidos. Os motivos pelos quais Jack virou policial são bem comoventes, e é nítido que ele passa a vida tentando fazer o melhor possível para salvar quem está ao seu redor – ainda que isso não dependa dele. Jim, como todo pai deveria fazer, se preocupa com o sofrimento do filho e que sua vida fique paralisada por essa pressão que ele coloca em si mesmo. Os dois brigam em diversos momentos do livro por serem obrigados a trabalhar juntos em um caso complexo, e nesses momentos o leitor percebe os sentimentos não ditos entre os dois.

Ao longo das páginas, o leitor vai se deparando com os pequenos tiques de cada personagem que denunciam sua ansiedade (um tensiona os dedos dos pés, outro esfrega a ponta dos dedos), e aos poucos as preocupações de cada um deles vêm chegando à superfície. Por mais que existam assuntos pesados como a depressão e o suicídio, Gente Ansiosa lida com eles com muita leveza, mas sem deixar de lado a importância de cuidar da saúde mental. Os medos dos personagens são relacionáveis e, ainda que não na mesma medida, muitos de nós provavelmente vão se identificar com eles – porque são medos humanos. Medos de não ser bom o suficiente pra determinada função, remorso por uma culpa do passado, pressão para dar conta de todas as responsabilidades da vida adulta, solidão de enfrentar o mundo sozinho. Gente Ansiosa é sobre isso. E também sobre empatia, sobre a criação de laços e sobre amizades surgindo dos lugares mais inesperados.

Acho que ficou claro que amei Gente Ansiosa, né? Pra mim, é um daqueles livros que a gente lê querendo marcar todas as quotes possíveis, porque elas dialogam diretamente com o nosso coração. Me apaixonei pelos personagens e por tudo que eles viveram juntos, e não vejo a hora de conferir outros livros de Fredrik Backman. Recomendo muito e espero que vocês sejam envolvidos por esse livro que, segundo o próprio autor, é um livro sobre idiotas. E eu amei o tempo que passei com cada um desses idiotas.

Título original: Anxious People
Autor:
Fredrik Backman
Editora: Rocco
Número de páginas: 368
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Dormir em um Mar de Estrelas – Christopher Paolini

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje chegou a vez de conversar sobre o calhamaço que conquistou o título de maior livro que eu já li: Dormir em um Mar de Estrelas, do Christopher Paolini (autor de Eragon). Essa resenha vai ser mais longa que de costume, mas é um livro de mais de 800 páginas, então peço que vocês relevem e tenham paciência comigo, tá? 🙈

Garanta o seu!

Sinopse: Durante uma missão de pesquisa de rotina, Kira encontra uma relíquia alienígena. A princípio, ela fica maravilhada com a descoberta, mas logo esse sentimento se transforma em terror. Depois de cair em uma câmara no meio de um planeta desconhecido, a poeira ao seu redor começa a se mexer. Kira é lançada em uma odisseia de descobertas e transformações que atravessa a galáxia ao mesmo tempo em que uma guerra eclode em meio às estrelas. O primeiro contato com seres alienígenas não é como ela imaginava, e uma série de acontecimentos a levam até seu limite humano. A Terra e suas colônias estão à beira da aniquilação, e Kira, mesmo tendo que encarar seus próprios medos, se torna a última esperança da humanidade.

O ano é 2257 e a humanidade expandiu suas fronteiras para além da Terra. No espaço, há diversas colônias e profissionais especialistas em fazer missões em novos planetas para verificar a viabilidade de a humanidade se instalar ali ou somente minerar materiais necessários. Uma dessas profissionais é Kira Navárez, uma experiente xenobióloga apaixonada pelo que faz e por descobrir novos mundos e formas de vida. Entretanto, em uma missão de rotina, ela entra em contato com um artefato alienígena: uma espécie de traje simbiótico que se liga ao seu corpo e tem atitude própria, o que infelizmente leva à morte de toda a equipe de Kira (incluindo Alan, seu noivo). A partir desse momento, Kira é levada para uma nave do CMU (Comando Militar Unido, responsável pela segurança de todos os planetas da Liga dos Mundos Aliados) para ser examinada e seu corpo é exposto a vários níveis de stress e testes invasivos. Vocês acham que desgraça pouca é bobagem? Essa nave é atacada por outros alienígenas, que também estão em busca do traje. Kira, porém, consegue explodir a nave e escapar em uma pequena nave de fuga, sendo resgatada por aqueles que serão seus novos companheiros de viagem: a tripulação da Wallfish, liderada pelo capitão Falconi.

Isso é só o inicinho da história, e já deu pra sentir que Dormir em um Mar de Estrelas é tiro, porrada e bomba, né? Do instante em que entra em contato com o xeno, a coitada da Kira não tem um minuto de paz. Não somente ela perde autonomia sobre seu corpo, já que existe um novo ser perigoso em simbiose com ela, como também vira alvo de experimentos e desconfianças. Mas, com a tripulação da Wallfish, ela aos poucos vai encontrando seu lugar. Graças ao traje, Kira consegue ter visões de “vidas anteriores” que o xeno experimentou ao estar ligado a outros corpos – e um desses corpos é justamente a espécie alienígena que atacou a nave na qual Kira se encontrava. Por meio das lembranças do traje (que descobrimos se chamar Lâmina Macia), a protagonista vira uma peça-chave para evitar que a humanidade seja extinta e que tenha alguma chance em uma guerra interestelar iminente.

De início, vou dizer que achei o ritmo de Dormir em um Mar de Estrelas bem cansativo. Paolini descreve bastaaante, e demora pra que a ação aconteça (ainda que, quando aconteça, seja bem explosiva). Mas quando a Kira é resgatada pelo pessoal da Wallfish, o livro fica mais legal. Os membros da tripulação são muito carismáticos, cada um a sua maneira: Falconi é o clichê do “macho alfa”/cara durão, mas é muito leal e justo; Sparrow e Hua-Jung são um casal lésbico (e esse relacionamento é tratado com muita naturalidade, o que é sempre bem-vindo!) muito foda, sendo a primeira uma ex-soldado e a segunda a chefe de engenharia; Nielsen é a segunda em comando, muito inteligente e sensata; Vishal é o médico da nave, gentil e atencioso; Trig é um garoto empolgado com a vida e com as novidades que Kira trouxe; e Gregorovich é o Cérebro da Nave, um ser humano que abriu mão do corpo para expandir sua capacidade cerebral. Ah, e como deixar de mencionar o Runcible e o Sr. Fofuchinho, os pets da Wallfish? ❤

Kira é uma protagonista muito corajosa. Ela não é uma guerreira, mas uma cientista, e se vê em uma situação em que precisa lutar, se defender e proteger as pessoas com quem criou um novo vínculo. Tudo isso enquanto precisa superar o luto por (indiretamente) ter causado a morte de seus antigos companheiros e grande amor. Admiro muito as decisões difíceis que ela tomou, pois seria muito compreensível caso ela paralisasse pelo medo. E não me entendam mal: ela sente medo, e muito. Isso deixa seus sentimentos bem mais críveis e demonstra o tamanho de seu mérito. 

Uma coisa importante de pontuar é que o livro é cheio de termos específicos e desconhecidos de seu universo. No fim dele, há um glossário que explica a maioria deles, mas optei por utilizá-lo pouquíssimas vezes. Além desse vai e vem deixar a leitura truncada pra mim, também achei interessante tentar viver a experiência de me sentir tão perdida quanto Kira no que dizia respeito às informações sobre os alienígenas. Essa inclusive foi uma sensação que eu já havia experimentado com Laranja Mecânica, cuja linguagem própria faz o leitor se sentir um outsider do universo jovem e ultraviolento de Alex. 

O autor foca em tornar tudo tão crível e realista do ponto de vista astrofísico que, pra mim, se tornou abstrato imaginar as cenas e lugares, o que atrapalhou minha imersão. Entre algo mega técnico/específico e fluidez narrativa, eu prefiro a fluidez. Algumas passagens que focavam muito em explicações físicas e tecnicidades das naves espaciais e dos processos eu só lia por cima, porque realmente não são temas que me interessam e nem faziam tanta diferença assim pra história. E é nesse ponto que mora o maior problema que tive com o livro: a falta de objetividade tornou muito difícil pra mim mergulhar de cabeça na trama. Mesmo que a história estivesse em momentos legais, a trama de Paolini se arrastou demais, então levei mais de 3 meses pra concluir a leitura. 

Dormir em um Mar de Estrelas é um épico de ficção científica que tem tudo pra conquistar os amantes desse estilo literário. Você vê a profundidade dos estudos do autor pra fazer uma história coerente e verossímil, e isso é um prato cheio pros amantes de boas histórias espaciais. A mitologia criada por ele é muito bacana e, apesar da história de Kira ter sido iniciada e encerrada aqui, o universo do autor tem muito a se expandir. Não dei 5 estrelas pra leitura porque acredito que um bom pedaço do livro poderia ser “cortado” em nome da agilidade narrativa, mas reconheço que isso é uma questão de gosto pessoal e que pode não interferir na experiência de vocês com essa leitura. Espero que gostem da dica e mergulhem de cabeça nessa viagem espacial. 😉

P.S.: vi vários comentários de pessoas que não curtiram o final, cujo gostinho é meio agridoce. Mas, pra mim, ele fez todo sentido com a trajetória de Kira. Gostei muito!

Título original: To Sleep in a Sea of Stars
Autor:
Christopher Paolini
Editora: Rocco
Número de páginas: 832
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.