Resenha: Morte no Verão – Benjamin Black

Oi galera, tudo bem?

Hoje vim compartilhar com vocês minhas percepções a respeito de Morte no Verão, um livro policial de estilo noir.

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Sinopse: Em uma sufocante tarde de verão em Dublin, o magnata Richard Jewell – conhecido por seus inúmeros inimigos como Diamond Dick – é encontrado com a cabeça estourada por um tiro de espingarda. Jewell era o proprietário de grande parte dos veículos de imprensa do país e diretor do sensacionalista Daily Clarion, o jornal de maior vendagem da capital. Embora tudo leve a crer que tenha sido suicídio, os jornais, por convenção, não mencionam essa possibilidade. Caberá então ao detetive inspetor Hackett tocar as investigações, nas quais irá contar com a ajuda de seu velho amigo, o patologista Garret Quirke.

O que é literatura noir, para início de conversa? Segundo a biblioteca da PUCRS, ela “se caracteriza por apresentar histórias que misturam terror, mistério e elementos policiais, detetives e investigações que vão além dos conhecimentos de investigação criminal.” Na prática, o que eu senti é que é uma narrativa mais lenta, focada nas reflexões dos personagens, com uma ambientação urbana e “pálida”. Morte no Verão se passa na Dublin dos anos 50 e acompanha a investigação da morte de um magnata que aparentemente se suicidou na sua casa de campo. Quando o detetive inspetor Hackett encontra o corpo, ele percebe que, apesar da tentativa de forjar o suicídio, provavelmente trata-se de um homicídio. Então Garret Quirke (um médico forense com quem ele já trabalhou antes) é acionado, sendo ele o verdadeiro protagonista da obra.

Desde o início do livro, especialmente após a chegada de Quirke, senti que a narrativa contava com elementos prévios que eu não conhecia. Fui para o Google e bingo: trata-se do quarto livro de uma série, e nos volumes anteriores provavelmente é explicada a parceria entre Quirke e Hackett, bem como a notoriedade que o primeiro ganhou nos últimos anos. Infelizmente minha leitura foi bastante prejudicada por isso, mas foi desatenção de minha parte ao solicitar o livro à editora sem conferir previamente se era um volume único ou não.

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A narrativa é bastante vagarosa e foca pouquíssimo na investigação policial; entretanto, quando isso acontece, temos as melhores passagens da obra. No geral, acompanhamos o relacionamento de Quirke com sua filha, de quem ele não era muito próximo, e também sua atração pela viúva da vítima, com quem ele passa a ter um caso. A ênfase da história reside na descrição de cenários e das sensações dos personagens, sendo também um livro com uma narrativa um pouco mais rebuscada e metafórica. A vantagem disso é que Morte no Verão me ajudou a expandir meu vocabulário, e fazia tempo que um livro não me proporcionava essa experiência.

Eu esperava mais do final: a resolução do caso é clichê e bastante insossa. Como comentei anteriormente, a investigação não é o que chama a atenção na obra e, pra falar a verdade, não teve nenhum elemento que realmente tenha me conquistado. Os personagens não são carismáticos, você não torce por nenhum deles e não houve conexão entre mim e a obra. Provavelmente o ponto que mais influenciou nisso foi pegar o bonde andando mesmo: Morte no Verão é o tipo de livro que tem início, meio e fim, mas que precisa do background apresentado nos volumes anteriores pra compreensão plena dos personagens.

Apesar de eu amar livros policiais, Morte no Verão não conseguiu me cativar. Parte dessa constatação eu já expliquei no parágrafo anterior, mas outra parte reside no fato de que a obra não me provocou absolutamente nenhum sentimento: nem curiosidade pela investigação e nem afeição pelos personagens (o que me prende à série Cormoran Strike, por exemplo, mesmo quando a investigação não é tão boa). Não recomendo a obra como porta de entrada pra série mas, se você acompanhou os livros anteriores, talvez sua experiência seja diferente da minha. 🙂

Título original: A Death in Summer
Autor:
Benjamin Black
Editora: Rocco
Número de páginas: 256
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Você É Fodona – Jen Sincero

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi como parte de uma ação de divulgação da Editora Rocco Você É Fodona, um livro de autoajuda de Jen Sincero que promete colocar o leitor no controle da própria vida e ajudá-lo a conquistar seus objetivos. Mesmo não sendo um gênero do qual eu goste, pensei: por que não? E agora bora que vou contar pra vocês o que achei. 🙂

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Sinopse: Mais de 2 milhões de exemplares vendidos no mundo. Neste divertido livro, a autora nº 1 de best-sellers do The New York Times e coach de sucesso, Jen Sincero, oferece capítulos curtos, cheios de histórias hilariantes e inspiradoras, conselhos sábios, exercícios fáceis e palavrões ocasionais. Mostrará como criar uma vida que você ama totalmente, e como criá-la agora.

Eu tenho uma resistência fortíssima à ideia de coaches. Em geral, acredito que a maior parte deles ganha dinheiro com frases prontas e repetidas à exaustão. Por isso, sempre que pego um livro de autoajuda, eu inicio a leitura com desconfiança, e o livro precisa provar que vale a mudança de opinião. Não foi diferente com Você É Fodona, cujo título vergonha alheia já me causou um certo… receio. E em diversos pontos a obra acabou reforçando minha opinião pré-concebida. Felizmente, algumas partes foram capazes de gerar uma reflexão positiva, e vou concentrar os próximos parágrafos em prós e contras da leitura.

Jen Sincero inicia o livro explicando que temos a consciência (que determina o que queremos fazer) e a inconsciência (o que foi incutido na gente sem percebermos). A partir da inconsciência surgem o que ela chama de crenças limitantes – conceito que eu, particularmente, não comprei. Para Jen Sincero, são essas crenças que nos impedem de avançar e atingir nossas metas, e ao longo dos capítulos ela discorre sobre formas de superar esse obstáculo. Gostei que ela fala sobre o perigo das piadas autodepreciativas, que minam a nossa autoconfiança e são uma repetição de impressões negativas a respeito de nós mesmos. Jen Sincero incentiva que sejamos capazes de aceitar os elogios de coração aberto, sem decliná-los. Eu pessoalmente sou uma pessoa que fico bastante sem jeito com elogios, e de uns tempos pra cá tenho tentado me acostumar à ideia de recebê-los e, principalmente, acreditar neles.

Outro conteúdo interessante do livro diz respeito a sermos mais gentis com nossos erros. Esse tema também conversou diretamente comigo, porque sou alguém cuja autocobrança é elevadíssima. Ao aceitar a nossa falibilidade, a gente entende que tá tudo bem tentar algo pela primeira vez e não necessariamente se sair bem nisso, afinal, o erro também faz parte do aprendizado. Por fim, outro conceito bacana abordado pela autora diz respeito à procrastinação: muitas vezes deixamos de cumprir uma tarefa ou objetivo por esperar que saia tudo 100% perfeito, o que é basicamente impossível. Ela sugere então que as tarefas sejam divididas em objetivos menores, de forma que cada passo seja mais factível, não parecendo uma tarefa hercúlea que cause a procrastinação por puro medo de tentar.

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E do que eu não gostei? Bom, a começar pela gama de assuntos que Jen Sincero aborda. Ela fala sobre tantas áreas da vida (carreira, dinheiro, vida amorosa) que parece que nenhum conselho é aprofundado o bastante, sabem? Além disso, faltam exemplos pessoais que justifiquem as dicas – afinal, por que eu acreditaria na autora se ela quase não tem situações reais para provar que aquilo funciona? Acredito que a falta de exemplos, somada a um milhão frases de efeito piegas, foi um dos maiores responsáveis pela minha desconexão com a leitura.

Outra abordagem que não colou comigo diz respeito à vibração dos pensamentos. Segundo Jen Sincero, precisamos emitir a vibração certa ao Universo pra atrair coisas positivas, e para que algo se torne realidade você primeiro precisa acreditar que aquilo é verdade. Com todo respeito a quem acredita nisso mas, pra mim, simplesmente não dá. Considero isso o suprassumo do papo de coach e ainda culpa você por estar atraindo porcaria pra sua vida, sem considerar os diversos fatores externos que podem atravancar o caminho – incluindo privilégios. Isso fica ainda mais grave quando ela começa a falar de prosperidade financeira: os conselhos dela não poderiam ser mais desconectados da realidade, afirmando que “se você sintonizar sua energia à abundância do Universo, você será recompensado” ou, ainda pior, ela exemplifica com o fato de ter comprado um carro caro em vez de um carro barato porque isso deu o sinal necessário para o Universo compreender que ela tava pronta pra prosperar. Bah, apenas não. Eu acredito que sim, precisamos arregaçar as mangas e correr atrás dos nossos objetivos, mas compreendo também que existem muitos fatores envolvidos em fazer um objetivo dar certo ou não: falta de grana, falta de acesso a determinados espaços, desigualdade social… Enfim, já deu pra entender meu ponto, né? Por fim, não posso evitar dizer que as escolhas de analogia dela não poderiam ser mais bregas. Ela se refere ao ego como Grande Dorminhoco, por exemplo… Simplesmente constrangedor.

Em suma, Você É Fodona foi capaz de dialogar com alguns aspectos que eu venho tentado trabalhar em mim mesma há algum tempo. Mas, honestamente? O mérito tá na terapia rs. Alguns conselhos são legais, a intenção é boa, só que pra mim não funcionou. Por isso, não é um livro que eu recomendaria diretamente mas, se a proposta chama a sua atenção, vá em frente. 😉

Título original: You Are a Badass
Autor:
Jen Sincero
Editora: Rocco
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Filhos de Sangue e Osso – Tomi Adeyemi

Oi pessoal, tudo bem?

Elogiadíssimo pela crítica e com direitos comprados para uma adaptação cinematográfica, Filhos de Sangue e Osso é o primeiro livro da trilogia O Legado de Orïsha. Hoje eu conto pra vocês o que achei dessa aventura épica!

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Sinopse: Zélie Adebola se lembra de quando o solo de Orïsha vibrava com a magia. Queimadores geravam chamas. Mareadores formavam ondas, e a mãe de Zélie, ceifadora, invocava almas. Mas tudo mudou quando a magia desapareceu. Por ordens de um rei cruel, os maji viraram alvo e foram mortos, deixando Zélie sem a mãe e as pessoas sem esperança. Agora Zélie tem uma chance de trazer a magia de volta e atacar a monarquia. Com a ajuda de uma princesa fugitiva, Zélie deve despistar e se livrar do príncipe, que está determinado a erradicar a magia de uma vez por todas. O perigo espreita em Orïsha, onde leopanários-das-neves rondam e espíritos vingativos aguardam nas águas. Apesar disso, a maior ameaça para Zélie pode ser ela mesma, enquanto se esforça para controlar seus poderes — e seu coração.

No passado, o reino de Orïsha (leia-se Orixá) era rico em magia. As pessoas capazes de realizá-la eram conhecidas como maji e eram escolhidos diretamente pelos deuses. Entretanto, um dia a magia enfraqueceu, e o rei de Orïsha, Saran, aproveitou o momento de vulnerabilidade dos maji para incitar a Ofensiva – um ataque mortal a todos capazes de usar a magia. A mãe de Zélie, nossa protagonista, foi uma das maji a sucumbir. Desde então a vida da garota é marcada pela dor, que se intensifica pelo fato dela ser uma divinal: alguém que nasceu para se tornar um futuro maji, mas que nunca alcançará tal potencial devido à morte da magia. Ou pelo menos é o que todos pensavam…

Filhos de Sangue e Osso é um livro que introduz muitos conceitos novos, de modo a ambientar o leitor no rico universo no qual se passa. A autora utiliza a cultura iorubá como base para descrever os deuses que concedem poderes aos maji, utiliza de seu idioma para os encantamentos e explora também suas vestimentas e características. Foi o primeiro livro de fantasia que li voltado à cultura e religião de matrizes africanas, e fiquei ao mesmo tempo admirada com sua riqueza e triste ao pensar na falta de mais obras que deem voz a essa cultura e ao povo negro.

A trama é conduzida por meio de três pontos de vista: o de Zélie, a protagonista, uma garota divinal que mora com o pai e o irmão mais velho, Tzain; ela é treinada em segredo na arte da luta com o bastão por Mama Agba, uma senhora de seu vilarejo que apoia divinais, sendo constantemente punida por isso. Temos também o ponto de vista de Amari, filha de Saran: a jovem princesa vê sua melhor amiga, uma divinal, morrer pelas mãos de seu pai. Essa atitude motiva um ato de rebeldia que muda completamente o destino de Orïsha, pois Amari rouba um pergaminho encontrado pelo exército de Saran que aparentemente é capaz de trazer a magia de volta. Por fim, temos como terceiro narrador Inan, irmão de Amari e futuro rei: o jovem segue os passos do pai por acreditar que é a única forma de proteger o reino, mas quando a magia se manifesta em seu próprio corpo, ele começa a questionar (e temer) tudo que sempre acreditou.

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Dos três narradores, sem dúvidas Amari é minha favorita. A garota tem uma natureza bondosa, pacífica e até mesmo amedrontada. Contudo, quando sua melhor amiga, Binta, é assassinada na sua frente, Amari decide pôr fim às atrocidades do pai de alguma forma – e é assim que ela resolve roubar o pergaminho que ativa a magia nos divinais. O destino dela se cruza com o de Zélie e, por mais que a protagonista não queira, elas acabam formando uma equipe. O amadurecimento de Amari ao longo do livro é nítido, e mesmo nos momentos de maior temor, a jovem acaba decidindo pelo que é correto. Amari é empática, decidida e justa, e é impossível não passar a admirá-la ao longo da trama. Zélie, por outro lado, não me conquistou tanto. Para falar a verdade, em muitos momentos ela me lembrou a Katniss: teimosa, impulsiva, egoísta. E o que mais me irritou nela é a autopiedade: ela não pensa antes de agir, faz merda e depois fica se lamentando e dizendo que sempre estraga tudo (mas sem mudar seu jeito de agir, ou seja, sem aprender com os erros rs). Não posso dizer, entretanto, que a personagem não seja forte: ela passa por traumas inimagináveis, além de sofrer com preconceito a vida inteira por ser uma divinal. Com o passar do tempo, as características incômodas dela vão se atenuando, e no final do livro meu ranço diminuiu consideravelmente.

Os personagens masculinos principais são Inan e Tzain. No caso de Inan, acompanhamos um personagem cheio de dúvidas e questionamentos. Ele foi criado para acreditar no mantra do pai, “o dever antes do eu” (ele repete isso tantas vezes que eu quis entrar no livro e gritar: JÁ ENTENDI, PORRA!, mas tudo bem), mas quando a magia começa a se manifestar em si mesmo, Inan passa a sofrer por se sentir amaldiçoado. Somente quando consegue ler os pensamentos de Zélie (pois é esse o dom que sua magia permite) ele entende a dor que Saran causou e se aproxima da garota. Entretanto, a volatilidade de suas crenças e atitudes é bastante irritante, fazendo com que ele perdesse minha confiança. Tzain, por outro lado, é uma rocha para Zélie: mesmo quando a irmã erra e coloca todos em risco, o irmão mais velho está lá para protegê-la. Contudo, por mais querido que Tzain seja, ele é um personagem cujo POV não conhecemos, o que o torna mais linear e unilateral que os outros, não permitindo ao leitor acompanhar sua evolução.

O preconceito é constantemente trabalhado em Filhos de Sangue e Osso. A dinâmica entre Zélie e Inan é a mais interessante nesse sentido, porque o príncipe não consegue entender o abismo que separa seu sofrimento do de Zélie. A jovem deixa claro que não vai deixar a ignorância de Inan silenciar sua dor – e quantas vezes isso não pode ser dito na vida real também? A ignorância e o preconceito que atingem a população negra são diários. A própria falta de representatividade é uma violência, provocando uma não-identificação que abala a autoestima e a construção do orgulho das raízes e da ancestralidade. Inan é a representação disso, odiando suas características de maji e a magia por si só: ele odeia seus traços porque não consegue enxergar representações positivas deles.

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Como crítica negativa, eu diria que a autora repete palavras e expressões à exaustão. Além do já mencionado “o dever antes do eu”, me irritei muito lendo o excesso de uso da palavra “régia” e da palavra “monarquia”. Felizmente, Tomi Adeyemi alivia a mão nessas expressões da metade pro final, mas foi algo que inicialmente me causou um “tá, chega, varia o vocabulário, por favor”. Em contrapartida, preciso elogiar o universo cheio de detalhes criado por ela. Dos cenários aos clãs maji e até mesmo às criaturas que vivem em Orïsha (que a autora utiliza os nomes originais para fazer o leitor criar uma relação e imaginar o animal, como por exemplo um leonário, que é basicamente um leão gigante), tudo é bem descrito e nos transporta para um mundo realmente mágico e cheio de possibilidades.

Filhos de Sangue e Osso foi uma das melhores histórias de fantasia que li nos últimos tempos. Com um ritmo frenético e cheio de ação, as mais de 500 páginas não deixam o leitor entediado em momento algum. Com um pano de fundo riquíssimo, explorando uma cultura pouco abordada na literatura, a obra é original e envolvente. Vale também elogiar a Rocco pela edição física, que conta com o mapa do reino e detalhes brilhantes na capa e na contracapa. Resumindo: se você adora fantasia, esse livro é imperdível. Recomendo muito!

Título Original: Children of Blood and Bone
Série: O Legado de Orïsha
Autor:
Tomi Adeyemi
Editora: Fantástica Rocco
Número de páginas: 550
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: A Última Palavra – Tamara Ireland Stone

Oi pessoal, tudo bem?

Vim contar pra vocês o que achei de A Última Palavra, um Young Adult que fala sobre Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

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Sinopse: Samantha McAllister esconde de todos o que se passa em sua cabeça. Sam sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo caracterizado por pensamentos intrusivos. Seus pensamentos não param um segundo do dia, cada passo e palavra suas são controladas, e esconder isso tudo faz com que viver seja um grande esforço. Tudo piora quando suas amizades começam a se tornar tóxicas e ela é julgada por conta de pequenos erros com suas roupas, comida ou o garoto por quem ela se interessa. Mesmo assim, Sam sabe que ela estaria verdadeiramente louca se deixasse de ser amiga das garotas mais populares da escola. Por causa disso, Sam é constantemente aconselhada por sua terapeuta a conhecer novas pessoas e fazer novos amigos, pessoas que não lhe provoquem crises de ansiedade e pânico constantes. Em um primeiro dia de aula assustador, Sam conhece Caroline, uma menina que vai levá-la para uma sala secreta em que um grupo de pessoas que são ignoradas pelo resto da escola se reúne. Ela rapidamente se identifica com eles, especialmente com um talentoso garoto que toca violão, e começa a descobrir uma nova versão de si mesma. Aos poucos ela passa a se sentir mais normal do que nunca, coisa que jamais tinha se sentido antes… até ela encontrar um novo motivo para questionar sua sanidade e tudo o que ama.

Samantha parece ter tudo o que uma adolescente poderia querer: é bonita, popular e tem um grupo de amigas com quem (teoricamente) pode sempre contar. O que ninguém sabe é que, por trás da fachada de perfeição, Sam esconde um TOC que se manifesta na forma de pensamentos obsessivos intrusivos. Isso significa que, diferentemente de quem manifesta a doença com hábitos físicos, Sam fica obcecada por determinados pensamentos e não consegue se desvencilhar deles. Um dos maiores gatilhos para seus picos de ansiedade são, justamente, suas supostas amigas, um grupo que há muito tempo não colabora com o desenvolvimento de Sam. Em um dia especialmente ruim, a jovem conhece Caroline, com quem (de maneira surpreendente) ela se abre. Caroline então leva Sam a um local secreto na escola chamado Canto da Poesia, e é lá que tudo muda.

A Última Palavra aborda um sentimento muito comum na adolescência: o desejo de pertencimento e o medo da exclusão. Mesmo sabendo que seu grupo de amigas é tóxico, Sam tem dificuldade em abrir mão dele por receio de ser abandonada. Durante suas sessões de terapia, sua psicóloga a incentiva constantemente a buscar novas amizades e a criar novos vínculos, de modo que existam menos gatilhos na rotina de Sam. Quando a garota conhece Caroline e finalmente admite seu TOC, é como se um grande peso fosse retirado de seus ombros, e isso dá a Sam a oportunidade de experimentar uma nova forma de ser ela mesma – ou melhor, quem ela quer ser a partir de agora.

Entretanto, existe um aspecto bastante negativo na obra: o modo com a autora lida com as consequências do bullying. No Canto da Poesia, Sam reencontra um ex-colega, AJ, que parece querer distância dela. A protagonista então se recorda que, no passado, ela e uma amiga praticaram um bullying tão intenso com o garoto que ele até mudou de escola temporariamente. E, para a minha surpresa, não demora para que esse assunto seja perdoado e (pasmem!) os pombinhos fiquem juntos. A química entre os dois existe e as cenas são bem românticas, mas teria sido muito melhor se o episódio do bullying não tivesse existido. A verdade é que as consequências do que Sam e sua amiga fizeram foram muito suavizadas, ainda mais quando consideramos quão rápido AJ se apaixonou pela garota que o traumatizou.

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Em A Última Palavra, o TOC não ganha tanta profundidade e detalhamento, diferente do que ocorre no excelente Daniel, Daniel, Daniel, por exemplo. Ainda que no caso de Sam o transtorno seja mais focado em pensamentos obsessivos, eu não senti o mesmo impacto (e até consciência) lendo sobre seu sofrimento (o que ocorreu de maneira intensa com o livro de Wesley King). A doença em si é mais abordada como algo que a incomoda e que a faz se sentir anormal do que evidenciada como algo que a atrapalha de verdade.

Apesar de falhar ao abordar algumas questões de saúde mental, há um aspecto muito positivo na obra: a relação de Sam e Sue, sua terapeuta. Assim como acontece em A Lista Negra, aqui a terapia tem um papel fundamental no processo de melhora de Sam, e é muito bonita a forma como o livro desenvolve essa relação. Além disso, a trama me emocionou bastante na sua reta final, a ponto de me fazer chorar. Há uma reviravolta que fica ameaçando eclodir durante um bom tempo (e que eu senti chegar), mas que ainda assim me balançou. Os últimos capítulos trabalham muito mais a questão da perda do que o TOC, e esse tema em particular sempre me toca profundamente.

Por último, mas não menos importante, devo ressaltar o quanto gostei de todo o conceito do Canto da Poesia. Desde a sua fundação, cujas razões são emocionantes, até o presente, o lugar acolhe todos que precisam dele (Hogwarts feelings) de uma maneira intensa. Dentro daquele espaço, os jovens que fazem parte do grupo têm a oportunidade de se expressar e mostrar a sua vulnerabilidade, e muitas vezes isso já é o bastante para conseguir vencer um período tão turbulento e cheio de emoções quanto a adolescência. O grupo também permitiu à protagonista enxergar como as pessoas são repletas de camadas, indo muito além do universo superficial ao qual ela estava acostumada. E, nesse processo, o leitor simpatiza com aqueles jovens também.

A Última Palavra é um livro que gira em torno de dilemas bastante adolescentes (tanto no sentido positivo quanto negativo disso – os medos e implicâncias do grupo de Sam são bastante superficiais, de maneira geral). Não é a melhor opção de leitura pra quem busca uma história mais crível no que diz respeito a bullying e TOC, mas é um YA que cumpre seu papel como entretenimento e apresenta o processo de terapia de maneira muito saudável. Se você curte esse estilo literário, vale espiar. 😉

Título Original: Every Last Word
Autor: Tamara Ireland Stone
Editora: Rocco
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Biblioteca Sobre Rodas – David Whitehouse

Oi pessoal, tudo bem?

Devido à sinopse fofa e a proposta de cenário peculiar (uma biblioteca itinerante), fiquei bem curiosa a respeito de Biblioteca Sobre Rodas. Hoje conto pra vocês o que achei dessa leitura. 😉

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Sinopse: Bobby Nusku tem um amigo: Sunny Clay. E depois Bobby Nusku tem dois amigos: Sunny Clay e Rosa Reed. E depois Bobby Nusku tem três amigos: Sunny Clay, Rosa Reed e Val Reed. E depois Bobby Nusku tem quatro amigos: Sunny Clay, Rosa Reed, Val Reed e Joe Joe. E depois Bobby Nusku tem quatro amigos e um cachorro: Sunny Clay, Rosa Reed, Val Reed, Joe Joe e Bert. E finalmente Bobby Nusku tem uma família. Em Biblioteca sobre rodas conheceremos a história dessa família às avessas, onde os laços de sangue são o que menos importa na trajetória deles. O que importa de verdade quando todos eles entram naquele caminhão lotado de livros e clássicos valiosos é a confiança que tem uns nos outros e a forma genuína como se amam, cada um com suas características, cada um com seu passado torto, cada um com suas diferenças que os tornam únicos.

Bobby Nusku é um garoto solitário, que vive apenas com seu pai (que frequentemente o agride) e sua madrasta desde que sua mãe partira. Como companhia ele tem um único amigo, Sunny Clay, e também seu hábito de guardar pequenos “fragmentos” da casa e das coisas da mãe para quando ela voltar. Porém, quando a mãe de Sunny decide se mudar, Bobby se vê na posição de ter que enfrentar a solidão e o bullying sozinho. Até que ele conhece Rosa Reed, uma menina doce e muito especial que traz Bobby para dentro de sua família (composta pela própria Rosa, pela sua mãe, Val, e pelo seu cachorro preguiçoso, Bert). Quando Val se depara com sua demissão iminente da biblioteca itinerante na qual trabalha, somando-se ao fato de que Bobby apresenta hematomas causados pelo pai, a personagem decide tomar uma decisão impactante: colocar todos na biblioteca e partir.

Biblioteca Sobre Rodas é uma história sobre formas de ser família. O livro questiona de maneira sensível esse conceito: a família não precisa ser tradicional, mas sim feita de pessoas que se amam e se apoiam. Convivendo uns com os outros, Bobby, Val, Rosa e Bert aprendem a respeitar suas particularidades, apreciando cada instante que vivem juntos e aceitando verdadeiramente uns aos outros. Quando um quarto elemento, Joe, se une ao time, a dinâmica entre eles sofre alguns ruídos mas, mesmo nesse novo contexto, os personagens aprendem a conviver em harmonia.

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Outra característica bem interessante da narrativa diz respeito às próprias histórias. Por estarem em meio aos livros (afinal, a biblioteca itinerante por si só é uma espécie de personagem, além de cenário), a nova família de Bobby passa muito tempo lendo e divagando sobre as tramas, e Bobby se questiona se aquelas histórias fantásticas poderiam acontecer com alguém tão normal quanto ele. O menino, porém, não se dá conta que sua própria vida é uma aventura, com direito a perseguição policial, revelações impactantes e até mesmo um plot twist no final. 😛 Entretanto, é importante ressaltar que, apesar de ser um livro doce e gentil, Biblioteca Sobre Rodas carece de ganchos que deixem o leitor ávido por continuar. Mesmo sendo curtinho, eu levei um tempo pra ler devido a essa característica.

Acho que o ensinamento mais valioso de Biblioteca Sobre Rodas reside no fato de que não importa muito o destino ou os desafios no caminho, mas sim quem você tem ao seu lado pra se agarrar e se amparar. E essa lição já é suficiente pra deixar um quentinho no coração ao fechar das páginas – lembrando que, segundo a Val, as histórias nunca têm fim; elas continuam mesmo quando as páginas terminam. E eu gosto de pensar que a história de Bobby Nusku e sua família continua. 🙂

Título Original: Mobile Library
Autor: David Whitehouse
Editora: Rocco
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Nevermoor: Os Desafios de Morrigan Crow – Jessica Townsend

Oi galera, tudo bem?

Fazia tempo que eu não lia um livro de fantasia, e Nevermoor: Os Desafios de Morrigan Crow (primeiro volume de uma série com 9 títulos planejados) foi uma grata surpresa. Vamos conhecer? 🙂

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Sinopse: Nascida no Escurecer, o pior dia para uma criança nascer, Morrigan é considerada culpada por todos os infortúnios de sua cidade – de tempestades de granizo a ataques cardíacos – e, o que é pior, a maldição a condena a morrer à meia-noite de seu décimo primeiro aniversário. Mas, enquanto Morrigan aguarda seu destino, um homem estranho e extraordinário chamado Jupiter North aparece. Perseguidos por cães de fumaça e sombrios caçadores montados a cavalo, ele a leva para a segurança de uma cidade secreta e mágica: Nevermoor. Mas, para permanecer definitivamente em Nevermoor, Morrigan precisará passar por quatro desafios difíceis e perigosos, competindo com centenas de outras crianças – caso contrário, terá de deixar a cidade e enfrentar seu destino fatal.

Morrigan Crow é uma menina muito azarada. Nascida no último dia do Escurecer, ela se enquadra na categoria de Crianças Amaldiçoadas e é responsabilizada por tudo de errado que acontece em seu lar, Chacalfax. Mas a pior parte de ser uma Criança Amaldiçoada reside no fato de que Morrigan está fadada a morrer em seu aniversário de 11 anos. Entretanto, no fatídico dia, algo surpreendente acontece: um homem misterioso chamado Jupiter North surge e se oferece como patrono de Morrigan (uma tradição em que escolas prestigiadas fazem ofertas a crianças para que sejam suas alunas). A menina, entusiasmada com a oferta e assustada com a iminência de seu fim, aceita o convite de Jupiter, que não a leva para uma simples escola, mas sim para um lugar até então desconhecido pela protagonista: Nevermoor. Lá, Morrigan terá de vencer diversos desafios para ser considerada digna de entrar para a prestigiada Sociedade Fabulosa, da qual Jupiter faz parte. Entretanto, quando problemas relacionados ao fabulânio (a fonte de energia utilizada no livro) começam a acontecer, Morrigan desconfia que a maldição a seguiu, enquanto os locais temem pelo retorno de uma ameaça secular conhecida como Fabulador – responsável por um verdadeiro massacre que ainda assombra Nevermoor.

Ufa! Acreditem, isso é só a pontinha do iceberg de Os Desafios de Morrigan Crow. O livro, como praticamente toda obra introdutória de uma série de fantasia, traz diversos conceitos novos que são fundamentais para a construção de seu universo e mitologia. Começando pela própria Nevermoor, que é um Estado Livre, diferente de Chacalfax (que faz parte da República do Mar Invernal). Lá não existe a cultura das Crianças Amaldiçoadas, as pessoas são vibrantes e a mágica acontece. Acostumada a ser hostilizada por todos (inclusive sua própria família) devido à maldição, Morrigan encontra em Nevermoor a possibilidade de viver uma vida inimaginável, em que ela não é culpada por tudo de errado que acontece e onde, pela primeira vez, existe a chance de fazer amigos.

resenha nevermoor

Morrigan é uma menina carismática e da qual é possível sentir muita pena. Ela nunca conheceu afeto nem carinho e, mesmo assim, não é uma personagem amarga – ainda que tenha uma personalidade inquieta e por vezes levemente birrenta. Quando ela faz seu primeiro amigo, Hawthorne, outro candidato à Sociedade Fabulosa, é muito bacana vê-la desabrochar e vivenciar momentos que toda criança de 11 anos deveria, inclusive as traquinagens. Jupiter, seu patrono, é um personagem que conquista o leitor de imediato, ainda que pareça maluco em diversos momentos. Suas respostas evasivas às dúvidas de Morrigan me fizeram lembrar de Dumbledore ao tentar escapar de certas perguntas feitas por Harry. E mesmo o vilão tem os elementos que o tornam interessante, desde o mistério sobre sua identidade até a extensão de seus poderes.

E já que mencionei Harry Potter, vale dizer que solicitei Nevermoor à editora Rocco em parte pelos comentários que comparavam as duas séries. Em certo nível, sim, existem semelhanças: a protagonista é uma jovem criança que é resgatada de uma realidade horrível e adentra um mundo mágico onde praticamente tudo é possível. Mas, apesar de seguir a clássica fórmula da Jornada do Herói, Jessica Townsend conseguiu conceber um universo de fantasia bastante original e um enredo que nos prende devido aos desafios que Morrigan precisa ultrapassar. São quatro no total (numa vibe meio Torneio Tribruxo rs), que testam inteligência, determinação e talento, entre outras qualidades. Com o passar das páginas, vamos descobrindo junto da protagonista todos os elementos que tornam Nevermoor tão fantástica – e desejando fazer parte daquela Sociedade também.

Nevermoor: Os Desafios de Morrigan Crow inicia com o pé direito uma série que tem tudo para ser divertida, envolvente e eletrizante. Com uma ótima promessa de vilão, uma personagem aprendendo sobre seu real potencial e um mentor cheio de carisma, não faltam bons personagens para nos conduzir por um universo criativo e cheio de boas promessas. Recomendo! 😉

Título Original: Nevermoor: The Trials of Morrigan Crow
Série: Nevermoor
Autor: Jessica Townsend
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 352
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Rádio Silêncio – Alice Oseman

Oi gente, tudo bem?

O post de hoje é sobre Rádio Silêncio, um young adult cheio de diversidade e referências geek.

rádio silêncio alice osemanGaranta o seu!

Sinopse: Rádio Silêncio não é um livro leve e apresenta uma trama que prende o leitor até suas páginas finais. A história principal que envolve Frances e os gêmeos Last é acompanhada por dramas secundários que são tão envolventes quanto o cerne principal desta narrativa. É apenas lutando contra nossos medos mais secretos que podemos superá-los. E é apenas sendo verdadeiros com nós mesmos que podemos encontrar a felicidade. Frances vai precisar de cada gota de coragem que ela tem para viver esta aventura.

Frances é uma garota estudiosa, cujo maior objetivo é entrar em Cambridge. Representante de classe, todos os seus esforços no ensino médio se direcionam para o sonho da universidade. Entretanto, Frances não é a garota tímida e focada que aparenta ser: ela adora roupas coloridas, entende todas as referências geek, é divertida e fã número 1 de um podcast chamado Universe City – que aborda as aventuras de Rádio, o protagonista agênero que precisa enfrentar criaturas ameaçadoras em sua universidade. Quando Frances descobre que Aled, seu vizinho, é o criador do podcast, a vida de Frances se transforma, e ela finalmente vê a oportunidade de agir naturalmente e ser ela mesma.

Apesar de ter Frances como protagonista, Aled é a peça central de Rádio Silêncio. Seu background é peculiar o bastante para nos deixar curiosos: sua irmã, Carys (que por acaso foi amiga de Frances), fugiu de casa há um ano, ele produz Universe City sozinho e em segredo e, por fim, tem uma essência totalmente diferente daquilo que demonstra no exterior, assim como Frances. O jovem é solitário e tímido, mas perto de Daniel (seu amigo de infância) e de Frances, Aled consegue demonstrar sua vulnerabilidade e sua personalidade criativa. Porém, existem segredos que ele esconde, diretamente ligados à fuga de sua irmã – e é aí que o livro entra em temas mais pesados, como relacionamento abusivo (e não de uma forma romântica, mas doméstica, o que me fez lembrar de Eleanor & Park).

Rádio Silêncio também aposta forte na diversidade. Seus protagonistas não são heterossexuais e Frances é não-branca. Esses aspectos são apenas características, o que é algo muito positivo: desde o início sabemos que Frances é bi e em nenhum momento o livro faz disso um big deal. É simplesmente quem ela é. Em vez de utilizar esses recursos como parte do drama, a obra percorre um caminho mais interessante, focando nas consequências da pressão pelo sucesso em uma fase muito mutável da vida, que é a saída da adolescência e o início da vida adulta. O livro consegue desenvolver muito bem as dúvidas que passam pela cabeça de Aled e de Frances, ainda que ambos não se deem conta dos questionamentos sobre o futuro. No caso da protagonista, não entrar em Cambridge nunca foi uma opção, até que ela é obrigada a pensar sobre essa escolha. Sendo eu uma pessoa que entrou na universidade muito jovem, não curtiu o curso, passou por meses (talvez anos?) de pressão psicológica e insatisfação até ter coragem de trocar de faculdade, posso dizer com propriedade que me senti representada por esse plot.

resenha rádio silêncio

Mas existem alguns pontos negativos que fizeram com que Rádio Silêncio perdesse pontos comigo. O primeiro deles diz respeito a Frances. Por mais que ela tenha um ótimo coração, sejamos sinceros: ela é desinteressante. Frances não tem carisma suficiente pra segurar a trama, e Aled é o personagem que rouba a cena. Além disso, a enormidade de referências à cultura pop me cansa (falei disso em outra resenha por aqui), parece que o autor quer forçar o leitor a se conectar com os personagens com um recurso que considero pobre. Por fim, devo dizer que o livro é desnecessariamente longo e por muitas vezes arrastado; somente no final temos uma reviravolta e, quando ela finalmente acontece, tudo se resolve de forma absurdamente simples e corrida. Bastante inverossímil, eu diria. 😦

Apesar de não ter arrebatado meu coração, Rádio Silêncio é uma boa experiência. As discussões sobre futuro e, principalmente, sobre a incerteza quanto ao que seremos e se teremos sucesso em nossas empreitadas são relacionáveis e bem conduzidas. Além disso, é sempre bacana ver um livro que aborda a diversidade de maneira natural, e não como um motivo de sofrimento para os personagens. Se você se identifica com o tema, vale a pena conferir! 😉

Título Original: Radio Silence
Autor: Alice Oseman
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 448
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Conto da Aia: Graphic Novel – Margaret Atwood e Renee Nault

Oi pessoal, tudo bem?

No ano passado eu contei aqui no blog todas as inquietações e reflexões provocadas pela leitura de O Conto da Aia. 2019 me trouxe a oportunidade de revivê-las por meio de uma graphic novel maravilhosa (e, em breve, com a continuação da história, Os Testamentos). Hoje eu mostro pra vocês alguns detalhes da versão ilustrada desse livro que precisa ser lido por todo mundo. Vem ver!

o conto da aia graphic novelGaranta o seu!

Sinopse: Tudo o que as Aias usam é vermelho: como a cor do sangue, que nos define. Offred é uma aia da República de Gilead, um lugar onde as mulheres são proibidas de ler, trabalhar e manter amizades. Ela serve na casa do Comandante e de sua esposa, e sob a nova ordem social ela tem apenas um propósito: uma vez por mês, deve deitar-se de costas e rezar para que o Comandante a engravide, porque em uma época de declínio da natalidade, Offred e as outras Aias têm valor apenas se forem férteis. Mas Offred se recorda dos anos anteriores a Gilead, quando era uma mulher independente, com um emprego, uma família e um nome próprio. Hoje, suas lembranças e sua vontade de sobreviver são atos de rebeldia. Provocante, surpreendente, profético. O conto da Aia é um fenômeno mundial, já adaptado para cinema, ópera, balé e uma premiada série de TV. Nessa nova versão em graphic novel, com arte arrebatadora de Renée Nault, a aterrorizante realidade de Gilead é trazida à vida como nunca antes.

Não é fácil adaptar um livro denso em uma história em quadrinhos. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa por Offred, uma Aia, cujo fluxo de pensamento não é linear. Enquanto rememora o passado e tenta reconstruir o passo a passo vivido pela sociedade para chegarem até onde estão, Offred também narra o presente opressivo no qual vive. E apesar de não ser fácil retratar essas idas e vindas de maneira clara, a graphic novel consegue fazer isso mantendo a fluidez da narrativa. Algumas ilustrações falam por si só, com frases mais soltas que retratam a desconexão das memórias de Offred – bem como sua tentativa de se desconectar com o próprio corpo, para tornar a vida mais suportável.

resenha o conto da aia graphic novel

Porém, obviamente, nem todos os detalhes da obra original têm espaço na graphic novel (não quero dar spoilers, mas tem um relacionamento importante, especialmente pelo caráter afrontoso, que ganha pouco espaço na HQ). Esse aspecto não chega a atrapalhar a condução da história, e mesmo o controverso (e chocante) epílogo aparece na graphic novel, ainda que de maneira condensada. É normal que algumas coisas precisem ser deixadas de fora quando uma obra é adaptada para os quadrinhos, e nesse caso os principais fatos foram mantidos e a história permaneceu coesa. Entretanto, a narrativa de Margaret Atwood é ímpar, e vale a pena conferir a obra original para absorver toda a intensidade de O Conto da Aia.

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Por último, mas não menos importante: a edição em si está incrível. A capa é aveludada, há um marca-páginas acetinado e as laterais das páginas trazem um pattern floral lindo. Não poderia deixar de mencionar o vermelho, cor marcante da obra (a cor das Aias), que faz parte de todos esses detalhes que mencionei. E o que dizer das ilustrações? Renee Nault usa a aquarela e o vermelho vibrante como pilares em toda a graphic novel. O traço da artista é muito bonito e cada virar de página merece uma atenção especial, para absorver cada detalhe.

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O Conto da Aia: Graphic Novel é uma obra imperdível pra quem já é apaixonado pela obra de Margaret Atwood, pela série The Handmaid’s Tale ou pra quem quer ter um primeiro contato com essa história impactante e necessária. Recomendo mil vezes! ❤

Título Original: The Handmaid’s Tale: Graphic Novel
Autor: Margaret Atwood e Renee Nault
Editora: Rocco
Número de páginas: 240
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Resenha: Criatividade S.A. – Ed Catmull (com Amy Wallace)

Oi gente, tudo bem?

A resenha de hoje é de um livro que normalmente não faria parte das minhas leituras, mas que escolhi justamente por me tirar da zona de conforto (e ter um tema muito útil pra mim no momento): Criatividade S.A., escrito pelo fundador da Pixar, Ed Catmull.

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Sinopse: Qual a fórmula do sucesso por trás de filmes adorados por multidões como Toy Story, Monstros S.A. ou Procurando Nemo? Em Criatividade S.A., Ed Catmull conta a trajetória de sucesso do mais importante e lucrativo estúdio de animação da atualidade, a Pixar, que ele ajudou a fundar, ao lado de Steve Jobs e John Lasseter, em 1986. Dos encontros da equipe às sessões de brainstorm, o autor conta a história da empresa que revolucionou a indústria de animação cinematográfica e divide com o leitor sua experiência na gestão de uma das mais bem-sucedidas companhias de criação do mundo, mostrando como se constrói uma cultura da criatividade, num livro definitivo para quem busca inspiração para os próprios negócios.

Para quem não sabe, eu sou publicitária e trabalho com Social Media e conteúdo desde 2015. No início desse ano eu assumi a liderança da minha equipe e, inexperiente no cargo, senti necessidade de estudar a respeito de gestão. Felizmente, Criatividade S.A. conseguiu reunir tudo que eu buscava: é um livro que fala sobre liderança e processos gerenciais, mas também fala sobre uma empresa que eu admiro desde sempre, a Pixar. Foi a oportunidade perfeita para eu me desafiar numa leitura diferente (e realmente foi mais difícil pra mim, levei quase o mês inteiro pra concluir, apesar de ter gostado) e ainda aprender muito no processo. 😀

Criatividade S.A. é um misto de livro de memórias e ensinamentos sobre gestão. Ed Catmull, o fundador da Pixar, era apaixonado por animação e pela Disney desde criança, porém não se via com o talento necessário para trabalhar como animador (nos moldes da época, ou seja, em 2D). Também interessado em física e tecnologia, Ed Catmull voltou seus estudos à área da Ciência da Computação, onde teve grandes oportunidades de trabalhar com pesquisa e desenvolver as ferramentas que conduziriam à realização de seu maior sonho: criar o primeiro longa-metragem inteiramente animado por computador. Essa ambição foi alimentada por cerca de 20 anos, Ed Catmull precisou passar por diversas empresas – entre elas a Lucasfilm –, até que Steve Jobs comprou aquela que futuramente seria conhecida como Pixar Animation Studios (confesso que não sei o que me surpreendeu mais, o envolvimento de George Lucas ou de Steve Jobs rs).

Conforme Ed Catmull narra as etapas que transformaram a Pixar no que ela é hoje, lições importantes são passadas em meio às memórias. O fundador e presidente da Pixar, entre outras coisas, valoriza as pessoas acima de boas ideias, é a favor de sinceridade total independentemente da hierarquia, acredita no poder do feedback e vê a criatividade como algo a ser construído por nós. Além dessas opiniões terem me feito refletir bastante sobre gestão, os fracassos narrados pelo autor também tiveram o mesmo efeito: Ed Catmull não vê as falhas como um problema a ser temido, mas sim como parte fundamental e inevitável de qualquer processo criativo. É muito bacana entender mais sobre o backstage da Pixar, com seus erros e acertos, e saber como uma empresa que quase operou no vermelho e foi engolida pelo mercado transformou-se em referência na arte de contar histórias. Sem dúvidas, é inspirador.

resenha criatividade sa

Porém, em determinado ponto da leitura, me senti um pouco desconfortável sem saber bem a razão, até que um momento de clareza me atingiu: Criatividade S.A. é um livro majoritariamente sobre homens exaltando outros homens. Existem algumas mulheres importantes na história da Pixar? Sim. Elas recebem grande espaço no livro? Não. Entendo que na época a participação de mulheres nesse mercado pudesse ser mais restrita (especialmente por envolver tecnologia), e até hoje vemos disparidade nessa proporção. Mas, apesar do contexto histórico, foi cansativo ler Ed Catmull falando sobre seus brilhantes colegas homens o tempo todo. A sensação de desconforto ficou mil vezes pior quando descobri – não pelo livro, mas pela Wikipédia – que John Lasseter (diretor criativo da Pixar, responsável por Toy Story, o primeiro sucesso do estúdio) foi acusado de assédio sexual. Ler tantos elogios sobre o homem ao longo do livro, ver Ed Catmull exaltando seu brilhantismo e sua importância para a Pixar, tornou-se bem nauseante à luz desses novos fatos. É uma ironia amarga ler sobre a importância da criação de uma cultura empresarial sadia onde um dos principais envolvidos é acusado de assédio. 

Tirando essa importante ressalva, eu diria que Criatividade S.A. é um excelente livro para quem se interessa por liderança e criatividade. Existem partes da obra que são de fato mais enfadonhas, mas o somatório de ensinamentos (e fun facts) é valioso. Eu não tenho o hábito de marcar minhas quotes favoritas nos livros que leio, mas no caso de Criatividade S.A. eu acabei separando alguns pensamentos que, para mim, se destacaram (vou listar alguns no fim do texto pra vocês conferirem). Em resumo, foi ótimo sair da minha zona de conforto e com certeza vou refletir sobre muitas das lições originadas na Pixar. 😉

  • “Acredito que os melhores gerentes reconhecem e abrem espaço para aquilo que não conhecem – não apenas porque a humildade é uma virtude, mas porque até que a pessoa adote essa atitude mental, os grandes avanços mais importantes não podem acontecer.”
  • “[…] os líderes bem-sucedidos aceitam a realidade de que seus modelos podem estar errados ou incompletos. Só quando admitimos não saber algo é que podemos aprender.”
  • “[…] você não é sua ideia e, caso se identifique demais com suas ideias, irá se ofender quando elas forem questionadas. Para montar um sistema de feedback saudável, você precisa remover da equação a dinâmica de poder – em outras palavras, deve ser capaz de focalizar o problema, e não a pessoa.”
  • “Uma boa observação diz o que está errado, o que está faltando, o que não está claro e o que não faz sentido. Uma boa observação é feita no momento oportuno, e não tarde demais para corrigir o problema. […] Mas, acima de tudo, uma boa observação é específica.”
  • “Isto é vital: quando a experimentação é vista como necessária e produtiva, não como uma frustrante perda de tempo, as pessoas gostam do seu trabalho – mesmo que ele as esteja confundindo.”
  • “O trabalho do gerente não é evitar riscos, mas desenvolver a capacidade para se recuperar.”

Título Original: Creativity, Inc.
Autor: Ed Catmull (com Amy Wallace)
Editora: Rocco
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Daniel, Daniel, Daniel – Wesley King

Oi gente, tudo bem?

Hoje vim falar sobre um livro incrível, que fala sobre um assunto ainda pouco explorado na literatura: o TOC. Trata-se de Daniel, Daniel, Daniel.

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Sinopse: Daniel é o reserva do time de futebol da escola, e isso significa que ele é basicamente o garoto da água. Ele gasta todo o tempo dos treinos arrumando e organizando os copos para seu time – e rezando para que ninguém perceba. Na verdade, Daniel passa a maior parte do tempo esperando que ninguém note seus hábitos estranhos – ele os chama de Choques. Eles incluem ter uma lista de números “ruins” e evitar escrevê-los, por exemplo, ou ligar e desligar o interruptor dezenas de vezes até se sentir bem de novo. Daniel acha que é maluco e esconde essa impressão sobre si mesmo, principalmente de seus pais, seu melhor amigo Max e Raya, a garota por quem é secretamente apaixonado. Sua vida fica ainda mais estranha quando ele recebe um bilhete misterioso com um pedido de ajuda assinado pela “Colega das Crianças das Estrelas”, seja lá o que isso significa. E de repente, Daniel, que era um zé-ninguém na escola, se vê dentro da investigação de um grande mistério. Este livro é sobre se sentir diferente e deslocado e encontrar aquelas pessoas que conseguem enxergar e entender você de verdade.

Daniel é um garoto aparentemente normal de 13 anos: apesar de sentir-se um pouco desengonçado, ele é inteligente, adora ler e escrever, tem um melhor amigo chamado Max, um crush tremendo na colega de escola, Raya e, por fim, faz parte do time de futebol americano (apesar de odiar o esporte). O que ninguém sabe sobre Daniel é que ele esconde um segredo: ele se sente maluco. Por motivos que ele não compreende, Daniel sofre com o que ele chama de Choques, que o impulsionam a tentar “consertar coisas” de maneira obsessiva, caso contrário ele sente que vai morrer. O que o protagonista não sabe é que existe um nome para isso, e o fato de ele escovar os dentes até a gengiva sangrar ou ligar e desligar o interruptor várias vezes não é maluquice: Daniel sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Porém, por não ter conhecimento do que realmente acontece com ele, o jovem vive uma vida bastante solitária, escondendo seu segredo e usando uma máscara social para tentar parecer o mais normal possível. Porém, quando uma outra colega de escola, Sara Malvern, entra em contato com ele, as coisas viram de cabeça para baixo. Conhecida como PsicoSara (por ser introspectiva e não falar com ninguém, além de ter transtornos como bipolaridade e depressão), a jovem parece enxergar o verdadeiro Daniel, aquele que ninguém mais vê. Quando ela pede o auxílio do garoto para investigar o sumiço do pai – que ela acredita ter sido um assassinato –, Daniel se envolve não apenas em situações de risco físico, mas também descobre um novo mundo no qual ele não é tão anormal assim.

Meu conselho é: não se apeguem à parte investigativa da sinopse; ela é simples e com resoluções fáceis, onde tudo dá certo apesar da improbabilidade. Mas isso nem de longe é um problema, afinal, o livro não é sobre isso. A investigação é o mote que dá início à amizade inesperada entre Daniel e Sara: a busca pela verdade sobre o que aconteceu com o pai da menina nos mantém curiosos e tem um ótimo desfecho, mas o grande brilho do livro está na relação entre os personagens e na maneira como o autor fala sobre um assunto tão delicado de maneira tão comovente.

resenha daniel daniel daniel

Os quatro personagens principais do livro são muito carismáticos. São pessoas boas, cativantes e que ganham a nossa torcida. Sara é uma jovem com inúmeros transtornos, que optou por fechar-se em si mesma, até que vê em Daniel a oportunidade de ser autêntica. O que as pessoas não imaginam sobre ela é que ela é inteligente, engraçada e irreverente. Max, por sua vez, é o melhor amigo de Daniel e um cara super confiável. Os dois não tem tantos gostos em comum (sendo Max um apaixonado por futebol americano, enquanto Dani só joga para não ser excluído), mas ainda assim Max está sempre “watching Daniel’s back”, sabem? Ele cuida do amigo e faz o que está ao seu alcance para incentivá-lo. Raya, o interesse amoroso do protagonista, é uma jovem simpática, inteligente e madura, que vê em Daniel as qualidades que muitos consideram defeitos: a esperteza, a sensibilidade e o bom papo. É fácil shippar os dois, por mais que eu entenda quem o shippe com Sara (mas eu os prefiro como amigos, não gosto da ideia de que o apoio e o conforto venham somente de um possível romance, sabem?). Por fim, temos Daniel: perspicaz, educado, inteligente e gentil, é impossível não gostar dele. Mesmo achando Sara esquisita, ele tem empatia o suficiente para ajudá-la em seus planos ousados; mesmo odiando futebol americano, ele se dedica como pode porque sabe o quanto importa para Max. O fato de Daniel ter TOC, apesar de MUITO pesado para o personagem, é só um dos aspectos que o fazem ser quem ele é. Há muitas qualidades apaixonantes em Daniel, e enquanto lemos suas experiências é difícil não sentir a dor do personagem e torcer pra que ele encontre um caminho que o ajude.

Falando um pouco sobre a narrativa, ela acontece em primeira pessoa, exceto quando Daniel está trabalhando em seu livro (que, por sinal, eu super leria!). Seu discurso é irreverente e há diversos momentos e diálogos com um humor ácido que eu adorei. Entretanto, há cenas bastante angustiantes: Daniel narra as suas crises explicando seu desespero e seus sentimentos de pânico. Lemos quando o personagem escova os dentes até a gengiva sangrar, quando crava as unhas na bochecha ou quando dorme em meio a lágrimas. E é doloroso perceber que 1) ele não se sente seguro pra pedir ajuda e 2) seus pais, quando percebem algo errado, são meio negligentes e preferem acreditar nas desculpas que Daniel inventa. Durante os momentos de crise, a vontade é de entrar no livro e tentar ajudar Daniel da maneira que for possível (e justamente por ser uma situação tão tensa, esse livro nos faz questionar qualquer piadinha com “hmmm isso tá desorganizado, meu TOC pira”). Felizmente, quem exerce esse papel é Sara: a garota, que sempre conviveu com os próprios transtornos, enxerga Daniel como ele é e o faz confrontar a realidade de que ele tem TOC. É um primeiro passo para entender a situação e, a partir daí, buscar apoio. Afinal, como o próprio autor comenta no início do livro, é muito mais difícil enfrentar isso sem ajuda.

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Daniel, Daniel, Daniel é um livro apaixonante, com personagens que realmente te conquistam e com um tema super importante e pouco explorado. Mais do que falar sobre TOC, transtornos psicológicos e investigação de um assassinato, a obra também aborda o peso da solidão. Em seu livro, Daniel escreve sobre um garoto que cometeu um erro e exterminou a raça humana; na vida real, Daniel veste uma máscara que impede que suas conexões e relacionamentos sejam 100% reais, devido ao medo de ser rotulado e resumido ao seu transtorno – o que é quase tão solitário quanto ser o único ser humano no mundo. Com o tempo, porém, Daniel enxerga que ser vulnerável não é uma fraqueza e que a solidão não é a solução. E acho que essa lição serve pra todos nós.

Título Original: OCDaniel
Autor: Wesley King
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 280
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