Resenha: Gente Ansiosa – Fredrik Backman

Oi pessoal, tudo bem?

Cá estou para falar sobre minha última leitura favoritada, Gente Ansiosa, que em breve vai ganhar uma adaptação na Netflix. ❤ Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: A busca por um apartamento não costuma ser uma situação de vida ou morte, mas uma visita imobiliária toma tais dimensões quando um fracassado assaltante de banco invade o apartamento e faz de reféns um grupo de desconhecidos. O grupo inclui um casal recém-aposentado que procura sem parar, casas para reformar, evitando a verdade dolorosa de que não é possível reformar o casamento. Há um diretor de banco rico, ocupado demais para se preocupar com outras pessoas, e um casal que, prestes a ter o primeiro filho, não concorda sobre nada. Acrescenta-se uma mulher de 87 anos que já viveu demais para temer uma ameaça à mão armada, um corretor imobiliário assustado, mas ainda disposto a vender, e um homem misterioso que se trancou no único banheiro do apartamento, e assim completamos o pior grupo de reféns do mundo. Cada personagem carrega uma vida de reclamações, mágoas, segredos e paixões prestes a transbordar. Ninguém é exatamente o que parece. E todos — inclusive o ladrão — estão desesperados por algum tipo de resgate. Conforme as autoridades e a imprensa cercam o prédio, os aliados relutantes revelam verdades surpreendentes e desencadeiam eventos tão inusitados que nem eles próprios são capazes de explicar.

“A vida não devia ser assim.” Você já teve a sensação de que a sua vida tomou um rumo completamente errado e você nem teve tempo de reajustar a rota? Ou, de maneira ainda mais simples, já enfrentou um daqueles dias de cão em que você tem a certeza de ter levantado com o pé esquerdo da cama? Sob certo ponto de vista, é isso que acontece em Gente Ansiosa: um assaltante de banco tem a brilhante ideia de assaltar um banco que não trabalha com dinheiro físico. Na fuga, ele acaba se refugiando em um apartamento que estava aberto para visitação em plena véspera da véspera de Ano Novo, 30 de dezembro. O que era pra ser um assalto a banco rápido e indolor se transforma em um drama de reféns, já que 8 pessoas estão presentes no tal apartamento. A polícia está com poucos funcionários em serviço devido à proximidade do Réveillon, o assaltante de banco não queria machucar ninguém e as 8 pessoas não poderiam ser mais diversas – inclusive nas reações à situação. Esse é o cenário com que o autor, Fredrik Backman, nos apresenta a uma história cativante desde a primeira página.

Gente Ansiosa é um livro tragicômico, e isso fica nítido no estilo narrativo da obra. O autor usa de ironias muito bem colocadas e tem um senso de humor meio “autodepreciativo” que eu gostei muito. O livro intercala três tipos de narração: uma em que o narrador onisciente se afasta da situação dos reféns pra revelar fatos importantes sobre o passado de uma ponte, na qual 10 anos atrás um homem se suicidou (e isso é relevante); uma em que é a narração do que está ocorrendo dentro do apartamento durante o incidente ou entre os policiais responsáveis pelo caso (que, por sinal, são pai e filho); e uma terceira que são as transcrições dos depoimentos dos reféns após sua liberação por parte do assaltante (que é a parte mais chatinha, confesso). Ao navegar por esses momentos, Fredrik Backman nos conduz por uma história essencialmente simples, mas cheias de conexões entre os personagens que, pouco a pouco, ganham o coração do leitor.

E como falar de Gente Ansiosa sem mencionar as pessoas que inspiram esse título? O livro se passa em uma cidade no interior da Suécia, e o departamento de polícia está despreparado para um caso de sequestro, o que pede o envolvimento de autoridades de Estocolmo, a cidade grande da qual os “figurões” tomam as decisões – e que causa grande mal-estar entre os policiais que conduzem o caso. Acontece que Estocolmo também é uma referência à síndrome referente a vítimas que tentam se identificar ou até mesmo conquistar a simpatia de seus captores, e certamente essa decisão não foi por acaso: talvez eu, como leitora, também tenha sofrido dessa síndrome ao simpatizar imediatamente com o assaltante de banco. Esse personagem tem um background impossível de não provocar empatia, principalmente quando o autor nos fornece informações sobre a quantia que ele desejava do banco e também os motivos pelos quais ele fez o que fez.

Mas a ansiedade (de forma às vezes mais, às vezes menos literal) se manifesta de formas diferentes em cada personagem. Há um casal, por exemplo, cujo “hobby” de aposentados é comprar e reformar apartamentos para vender. Ele, Roger, lida com a falta de propósito da nova rotina. Ela, Anna-Lena, com o medo de não ter mais conexão com o marido e seu único vínculo ser esse hobby. Os dois ilustram muito bem aquele arrependimento de quando a vida passa e você não realizou tudo que queria/podia, e nesse caso a figura que experienciou isso foi Roger, que optou por ficar em casa cuidando dos filhos devido à decolagem da carreira da esposa. Quem nunca se perguntou se não estava vivendo seu máximo potencial, né? Ademais, é uma inversão de gênero muito legal também, que subverte a ideia de que a carreira da mulher deve ser pausada na hora de constituir família.

Outra personagem marcante, ainda que irritante, é Zara. Ela é diretora de um banco e, no passado, recusou um empréstimo para o homem que se jogou da ponte que mencionei antes. Ela é antipática e desagradável mas, ao mesmo tempo, o autor também consegue trazer sua angústia para as páginas, amenizando um pouco o efeito negativo da sua personalidade. Zara também tem alguns dos melhores diálogos, e sua acidez rende frases bem engraçadas. Encontramos representatividade LGBTQIA+ no casal lésbico formado por Julia e Ro, que estão esperando um bebê. Julia é ainda mais irritante do que Zara e só sabe reclamar de Ro, não sendo uma personagem da qual eu tenha gostado. E é claro que vale uma menção honrosa a Estelle, uma senhora que perdeu o marido e foi à visitação do apartamento na tentativa de não se sentir tão sozinha na época do final de ano (revelando-se excelente em acabar com uma garrafa de vinho rs).

Os policiais responsáveis pelo caso, Jack e Jim, não ficam pra trás, tendo seus próprios dramas desenvolvidos. Os motivos pelos quais Jack virou policial são bem comoventes, e é nítido que ele passa a vida tentando fazer o melhor possível para salvar quem está ao seu redor – ainda que isso não dependa dele. Jim, como todo pai deveria fazer, se preocupa com o sofrimento do filho e que sua vida fique paralisada por essa pressão que ele coloca em si mesmo. Os dois brigam em diversos momentos do livro por serem obrigados a trabalhar juntos em um caso complexo, e nesses momentos o leitor percebe os sentimentos não ditos entre os dois.

Ao longo das páginas, o leitor vai se deparando com os pequenos tiques de cada personagem que denunciam sua ansiedade (um tensiona os dedos dos pés, outro esfrega a ponta dos dedos), e aos poucos as preocupações de cada um deles vêm chegando à superfície. Por mais que existam assuntos pesados como a depressão e o suicídio, Gente Ansiosa lida com eles com muita leveza, mas sem deixar de lado a importância de cuidar da saúde mental. Os medos dos personagens são relacionáveis e, ainda que não na mesma medida, muitos de nós provavelmente vão se identificar com eles – porque são medos humanos. Medos de não ser bom o suficiente pra determinada função, remorso por uma culpa do passado, pressão para dar conta de todas as responsabilidades da vida adulta, solidão de enfrentar o mundo sozinho. Gente Ansiosa é sobre isso. E também sobre empatia, sobre a criação de laços e sobre amizades surgindo dos lugares mais inesperados.

Acho que ficou claro que amei Gente Ansiosa, né? Pra mim, é um daqueles livros que a gente lê querendo marcar todas as quotes possíveis, porque elas dialogam diretamente com o nosso coração. Me apaixonei pelos personagens e por tudo que eles viveram juntos, e não vejo a hora de conferir outros livros de Fredrik Backman. Recomendo muito e espero que vocês sejam envolvidos por esse livro que, segundo o próprio autor, é um livro sobre idiotas. E eu amei o tempo que passei com cada um desses idiotas.

Título original: Anxious People
Autor:
Fredrik Backman
Editora: Rocco
Número de páginas: 368
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.