Resenha: A Última Festa – Lucy Foley

Oi gente, tudo certo?

Um dos lançamentos do ano da Intrínseca foi A Última Festa, um livro que me chamou a atenção por me lembrar de E Não Sobrou Nenhum (um dos meus livros favoritos). Li a obra recentemente e hoje vou dividir com vocês se as expectativas foram atingidas ou não. 😉

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Sinopse: Todo ano, nove amigos comemoram o réveillon juntos. Desta vez, apenas oito vão voltar para a casa depois da festa. Programado para acontecer em um cenário idílico, o réveillon que Miranda, Katie e os outros amigos que conheceram na faculdade passarão juntos este ano promete refeições deliciosas regadas a champanhe, música, jogos e conversas descontraídas. No entanto, as tensões começam já na viagem de trem — o grupo não tem mais nada em comum além de um passado de convivência, feridas jamais cicatrizadas e segredos potencialmente destrutivos. E então, em meio à grande festa da última noite do ano, o fio que os mantém unidos enfim arrebenta. No dia seguinte, alguém está morto e uma forte nevasca impede a vinda do resgate. Ninguém pode entrar. Ninguém pode sair. Nem o assassino. Contada em flashbacks a partir das perspectivas dos vários personagens, a história deste malfadado encontro é um daqueles mistérios de assassinato cheio de tensão e de ritmo perfeito. Com uma trama assustadora e brilhantemente construída, A Última Festa planta no leitor a semente da dúvida: será que velhos amigos são sempre os melhores amigos?

Todo ano, um grupo de amigos se reúne para celebrar o Ano Novo. Para a virada de 2018 para 2019, a responsável pela organização é Emma, a membro mais recente do grupo – que entrou para a turma por namorar um dos rapazes, Mark. Na tentativa de fazer uma celebração memorável (afinal, ela sempre se sente uma outsider, já que todos os outros se conhecem desde a faculdade), ela organiza um Réveillon no interior da Escócia, em uma mansão afastada da civilização que promete oferecer uma verdadeira experiência highlander. Contudo, nada sai como o planejado: uma nevasca terrível deixa o grupo isolado, o que inclui os três funcionários da mansão, e uma das pessoas presentes é encontrada morta – mas o leitor não sabe quem.

Essa premissa foi o suficiente para me instigar e, como comentei antes, me lembrou da vibe claustrofóbica presente na obra de Agatha Christie. Os oito amigos, o guarda-caça da mansão (Doug) e a responsável pelas reservas (Heather) se veem presos no ambiente devido à nevasca e, quando uma das pessoas desaparece e é encontrada morta, todos percebem que o responsável está entre eles, dando à trama um clima mais pesado. Isso na teoria, tá gente? Na prática a coisa é bem diferente, e vou explicar porquê.

Desde o início da viagem, percebemos que há algo errado no grupo. À exceção de Emma, como comentei antes, todos se conhecem desde a faculdade, então muitas das conversas e memórias que vêm à tona são dessa época. Fora isso, o grupo não parece ter mais nada em comum. Os capítulos são intercalados entre alguns narradores: antes do desaparecimento, por indivíduos do grupo de amigos; depois do desaparecimento, por Heather ou sob o ponto de vista de Doug. Nos capítulos antes da tragédia fica nítido como existem mágoas não resolvidas e expectativas não atendidas em toda a relação de “amizade” ali presente.

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O que complica e muito a leitura desses capítulos é que nenhum dos personagens do grupo de amigos cativa (sendo honesta, eles são péssimos!). Miranda é o “Sol” do grupo, em torno de quem todos os outros orbitam. Ela é mesquinha, vingativa, egocêntrica e faz questão de que tudo saia do jeito que ela quer. Ao longo do feriado, ela se ressente de Katie, sua melhor amiga, que está mais diferente do que nunca: de visual renovado e personalidade mais independente, ela já não lembra mais a garota que era sua sombra na faculdade. Mas Katie não é flor que se cheire: apesar de transparecer ser alguém que só quer “ficar na sua” e estar na viagem a contragosto, ela se revela uma amiga mentirosa e, em até certo nível, interesseira. Foi muito conveniente usar o prestígio de Miranda enquanto ela era jovem e deslocada, mas agora ela não se digna a dedicar nem um instante do seu tempo àquela que chama de melhor amiga. A terceira narradora mais relevante é a organizadora da viagem, Emma. Ela tem um complexo de inferioridade por ter entrado no grupo por último e coloca Miranda num pedestal: esse combo de características faz dela uma pessoa desesperada por aprovação.

A Última Festa gira muito em torno de saber quando temos que deixar algo pra trás. Ele aborda como nem sempre nossos planos na juventude dão certo quando caímos no “mundo real” e o quão frustrados podemos nos tornar por conta disso. O apego do grupo de amigos é um sintoma dessa incapacidade de abandonar o que já não faz bem e revela uma tentativa desesperada de manter um vínculo que já se perdeu, talvez pelo desejo de manter aquele espírito da juventude vivo, bem como os sonhos da época. Esses temas são bem interessantes, o problema é que são narrados por personagens irritantes e com os quais o leitor simplesmente não se importa (pelo menos essa foi a minha experiência). Para completar, o final me lembrou muito outro livro que li, Bela Gentileza. Isso, somado à sensação de similaridade com E Não Sobrou Nenhum, fez de A Última Festa um livro sem surpresas, pois pareceu que eu já tinha visto tudo aquilo antes, em outras obras. 😦

A Última Festa foi um livro que exigiu um pouco de paciência pra ser terminado. Apesar de ter alguns temas relevantes e relacionáveis, a condução da história foi exaustiva e os personagens me causaram asco. Se você decidir ler, é por sua conta e risco – mas fico na torcida pra que seja uma experiência melhor que a minha.

Título original: The Hunting Party
Autor:
Lucy Foley
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 304
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Resenha: Modern Love – Daniel Jones

Oi galera, tudo certo?

Vocês sabiam que Modern Love, da Amazon Prime Video, é baseada numa coluna do New York Times? Esse ano foi publicado pela Editora Rocco o livro homônimo, que reúne não apenas as 8 histórias da série, mas inúmeras outras. Vamos conhecer? 😀

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Sinopse: Algumas das histórias de Modern Love não são nada convencionais, enquanto outras parecem bem familiares. Algumas revelam como a tecnologia mudou para sempre o namoro, outras exploram as lutas atemporais vividas por quem já procurou amor. Acima de tudo, todas constituem relatos honestos que mostram como os relacionamentos começam, como geralmente fracassam e, quando temos sorte, perduram. Organizado pelo editor Daniel Jones, este é o livro perfeito para quem é amado, está perdido ou sendo perseguido por um ex nas redes sociais, ou para aqueles que sempre desejaram um romance verdadeiro. Em outras palavras, uma leitura para qualquer pessoa interessada no funcionamento infinitamente complicado do coração humano.

Modern Love é dividido em 4 partes, focadas em diferentes formas de amor. Entretanto, é importante pontuar que desde a introdução do livro o leitor é avisado de que nem todas as histórias são bonitas e com finais felizes. Existem amores doloridos, amores que não deram certo, amores que mudaram, amores de diferentes tipos. Essa multiplicidade de maneiras de amar torna Modern Love um livro muito real e relacionável, sendo este o primeiro ponto positivo que faz a leitura valer a pena.

E a primeira parte do livro, “Em algum lugar lá fora”, já exemplifica o aviso da introdução: ela conta histórias de relações que não foram para frente ou, quando foram, não necessariamente tiveram seu “felizes para sempre”. As histórias narradas aqui evidenciam que grande parte dos amores não são aqueles vistos em novelas ou filmes, sendo feitos de diferentes formas de viver esse sentimento. Há uma carta que narra a idealização de um rapaz pela namorada (sua própria Maniac Pixie Dream Girl, nas palavras dele); há a reflexão de uma mulher que só quer viver os relacionamentos casuais, mas acaba sofrendo devido a promessas vazias feitas pelos homens com quem se relaciona; e há a minha história favorita dessa primeira parte, que é o material de inspiração para o último episódio da minissérie: “A corrida fica mais gostosa perto da última volta”. Esse capítulo é delicioso e emocionante, mostrando uma relação madura que, apesar de ter a morte como elemento fundamental, não se torna menos importante, feliz ou valiosa.

A segunda parte do livro, “Acho que amo você”, é mais romântica e conta histórias de inúmeros relacionamentos felizes (alguns à primeira vista, outros que sobreviveram aos percalços). Uma história que me surpreendeu bastante foi a de uma mãe que diz que nada supera seu amor pelo marido, nem mesmo os próprios filhos. A maternidade é muito romantizada na nossa sociedade, e eu costumo ser bem crítica disso; entretanto, me vi enfrentando minhas próprias ideias pré-concebidas inconscientes ao me ver surpresa com a narrativa de uma mulher que ama os filhos, mas cujo amor pelo marido é ainda maior. Gosto quando um livro me faz questionar as minhas crenças, e esse capítulo foi interessante por isso. Mas o capítulo que mais gostei foi “Você talvez queira se casar com o meu marido”, escrito por uma mulher com câncer em fase terminal que deseja que seu amado siga em frente após sua partida. Encarar a própria finitude não é uma tarefa fácil, principalmente quando tudo que você gostaria é de mais tempo com quem você ama. Ainda assim, a abnegação da autora em querer que o marido encontre alguém e ame novamente é comovente.

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O título da terceira parte, “Segurando firme nas curvas”, já nos dá uma pista do que vamos encontrar: narrativas cheias de desafios, momentos complicados a serem vencidos e a luta para erguer a cabeça e seguir em frente. Os capítulos aqui agrupados focam nas dores e nas adversidades dos diversos tipos de amores que, mesmo imperfeitos, valem a pena ser contados. É nessa parte que está uma das cartas que originou um dos melhores episódios da minissérie, protagonizado por Anne Hathaway: “Aceite-me como eu sou, não importa quem eu seja”. Apesar de menos intensa e emocionante que sua contraparte televisiva, ainda sim é relevante por falar de saúde mental. A história dos Beatles (“Agora eu preciso de um lugar para me esconder”), de uma mãe que perdeu a filha quando ela ainda era criança, foi dolorosa de ler. Mas a resiliência do ser humano é algo inspirador, e essa história traz essa característica com muita delicadeza. Por fim, a quarta parte, “Assuntos de família”, narra principalmente o amor familiar – romântico ou não. E, encerrando o livro, temos a história que dá início à adaptação televisiva, a respeito da amizade entre uma jovem e seu porteiro (eu amo essa história!).

Assim como ocorre na maioria das coletâneas, existem contos melhores do que outros em Modern Love, o que é esperado e natural. Alguns são meio enfadonhos, outros não provocam muita simpatia, mas em compensação existem inúmeros que renovam sua esperança no amor e na humanidade, bem como provocam muita gratidão pelas pessoas que nos cercam. Agora, falando especificamente sobre as 8 histórias que viraram episódios de TV, eu diria que a dramatização nos episódios conferiu um peso bem maior a elas. No livro, os relatos são mais breves e menos aprofundados, não causando a mesma comoção das contrapartes audiovisuais. Além disso, existem no livro histórias muito mais emocionantes do que as escolhidas para a série (eu realmente não gostei de uns 3 episódios, achei cansativos), e vejo um potencial enorme para uma segunda temporada focada em algumas delas.

Resumindo, Modern Love é uma leitura fácil, gostosa e cheia de emoções. O livro me fez sorrir e me fez chorar enquanto me conectava às histórias de vida de pessoas reais que, assim como eu e você, amam, sorriem, se magoam e seguem em frente dando o melhor de si. Vale a pena? Com toda a certeza. ❤

Título original: Modern Love
Autor:
Daniel Jones
Editora: Rocco
Número de páginas: 304
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Segredo de Emma Corrigan – Sophie Kinsella

Oi pessoal, tudo bem?

Após uma ótima primeira experiência com chick-lits a partir de Lendo de Cabeça Para Baixo, fiquei ansiosa pra conferir mais obras do gênero. Unindo essa vontade com o desejo de conhecer a escrita da elogiada Sophie Kinsella, nas últimas semanas eu li O Segredo de Emma Corrigan. Bora descobrir o que eu achei?

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Sinopse: Emma Corrigan tem alguns segredinhos… Mas quem não tem? Durante uma viagem de avião bem turbulenta, Emma acredita que não sobreviverá aos solavancos, e acaba contando todos – mas todos! – os seus segredos para o homem sentado na poltrona ao lado. Quando a aeronave pousa em segurança, ela pede desculpas ao companheiro de voo pelo desabafo, pensando que nunca mais veria aquele estranho bonitão. No dia seguinte, no entanto, ela descobre que seu colega de viagem era ninguém menos que Jack Harper, um dos fundadores da grande Corporação Panther, empresa na qual Emma trabalha como assistente de marketing. E que seu encontro desajeitado com o milionário a colocaria na maior confusão.

O que você faria se estivesse enfrentando uma turbulência terrível e jurasse de pés juntos que o avião iria cair? No caso de Emma Corrigan, embalada por algumas doses de álcool, a opção escolhida foi tagarelar para o estranho sentado ao seu lado sobre seus segredos pessoais, dos mais bobos até às inseguranças familiares. Ora, mas se você nunca mais vai ver esse homem, não tem nenhum problema, né? Acontece que o avião não cai, Emma segue a vida e, para completar, reencontra o homem – que, por acaso, é Jack Harper, o dono da empresa na qual ela trabalha. Jack tem suas próprias razões para manter o encontro prévio dos dois em segredo, o que Emma encara com gratidão. Acontece que os dois vão se aproximando e a atração física logo fica evidente.

A partir dessa premissa, eu esperava um livro fofo e que me fizesse rir. O que encontrei, entretanto, foi uma história por muitas vezes enervante. A leitura de O Segredo de Emma Corrigan me deixou clara uma coisa: eu já não tenho mais paciência pro estereótipo da mocinha atrapalhada. A Emma é uma mulher infantil. Ela não fala o que pensa e reage de forma boba a diversas situações que pedem uma atitude mais condizente com seus 25 anos. Esse aspecto da protagonista, que é também a narradora, tornou muito difícil pra mim me afeiçoar à história e à própria Emma.

O romance também não flui de uma maneira legal. Jack é o clichê do cara poderoso, mas “humilde”, aquele “chefe legalzão”. A verdade é que, aos meus olhos, Jack não é nada apaixonante: ele manda sinais estranhos pra Emma, critica o (até então) namorado atencioso dela sem nenhuma intimidade pra isso e tem atitudes bastante questionáveis – saindo como vítima ainda por cima, o que me deixou indignada. Além disso, o modo como ele trata a garota nos encontros é simplesmente detestável. Parece que Emma acaba sempre o perdoando por não acreditar que alguém tão bonito e inteligente tenha se interessado por ela, motivação esta que eu acho bastante perigosa.

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O aspecto mais interessante do livro foi ver Emma ganhando voz. Tanto no trabalho, no qual ela defende uma ideia audaciosa e perspicaz, quanto em sua conturbada relação familiar, na qual seus pais privilegiam sua prima (adotada por eles) em detrimento de Emma, o leitor percebe que existe evolução no modo como a protagonista lida com os problemas. 

Fora isso, não acontece muita coisa realmente instigante na história. Há o dilema da protagonista sobre amar ou não o atual namorado, os encontros estranhos com Jack e um plot twist que, como em toda comédia romântica, visa separar o casal. Talvez se eu tivesse conhecido a trama por meio de sua adaptação cinematográfica, eu tivesse gostado mais. Agora, na forma de leitura, não senti nada além de “preferia ter investido meu tempo em outra coisa”. Não me sinto confortável em indicar O Segredo de Emma Corrigan, mas acho importante lembrar que aquilo que não funciona para um leitor pode funcionar superbem para outro. Então, se a premissa te despertou curiosidade e você está disposto a arriscar (apesar das ressalvas), vá em frente. 😉

Título original: Can You Keep a Secret?
Autor:
Sophie Kinsella
Editora: Record
Número de páginas: 384
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Resenha: Contágio – David Quammen

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de parecer contraditório após tantas dicas com entretenimento leve pra curtir na quarentena, acabei fazendo uma leitura que pode soar pesada para o momento: Contágio, de David Quammen. Por isso, antes de entrar na resenha propriamente dita, tem uma informação sobre mim que vocês precisam saber: eu sempre gostei muito de Biologia. Quase me formei em Nutrição (e curtia disciplinas como Microbiologia e Parasitologia, por exemplo) e vira e mexe assisto a programas do National Geographic ou do Animal Planet. Espero que isso ajude a entender por que decidi ler um livro chamado Contágio em plena pandemia de coronavírus rs. Introdução feita, bora pra resenha!

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Sinopse: Em Contágio, publicado originalmente em 2012, David Quammen demonstra que havia consenso entre os especialistas sobre as características de uma próxima pandemia: o causador seria um vírus novo aos humanos, atingiria primeiro algum tipo de animal selvagem, como um primata ou um morcego, e seria altamente mutável, ao estilo de um vírus influenza ou de um… coronavírus. Escrito com ritmo de tirar o fôlego, o livro investiga os patógenos responsáveis pelas grandes epidemias da história — entre elas, a gripe espanhola, a aids, o ebola e a SARS — e os desafios que elas representam para os seres humanos. Quammen antecipa vários dos embates que enfrentamos hoje, indicando que temos muito o que aprender com os surtos pregressos para combater a atual pandemia. Como afirmou em uma entrevista recente: “Seja uma catástrofe ou algo que consigamos controlar, uma coisa que sabemos sobre essa nova pandemia é que não será a última”. Esta edição inclui um texto de Quammen publicado em 2020 no New York Times sobre o novo coronavírus.

Contágio (não confundir com o filme homônimo, fictício) é um livro de não-ficção escrito pelo escritor de ciência, natureza e viagens David Quammen, cujos textos já foram publicados na National Geographic, Rolling Stone, entre outros títulos importantes. O livro é dividido em capítulos focados em doenças zoonóticas (ou seja, de origem animal) distintas, responsáveis pelas maiores epidemias já enfrentadas. Esses capítulos contam com subcapítulos, nos quais o autor discorre sobre cada patologia: o surgimento dela, os locais onde houve picos, os estudos conduzidos por cientistas que fizeram a diferença e diversas explicações sobre como doenças infecciosas agem. Hendra (descoberta na Austrália), Ebola (endêmica em certos países da África), Malária (transmitida por um vetor) e HIV (cuja origem foram os chimpanzés) são alguns exemplos de doenças infecciosas descritas e explicadas em Contágio.

De modo geral, a leitura é acessível para leigos, e você se sente lendo uma grande matéria jornalística a respeito do assunto. Contudo, apesar de em geral não ter uma narrativa complexa, um aspecto negativo da leitura é que com frequência o autor é repetitivo nos subcapítulos, dizendo de formas diferentes a mesma coisa (talvez para facilitar a compreensão de leitores menos habituados a esse assunto). Sem esse recurso, provavelmente Contágio ganharia agilidade. Contudo, de maneira geral a estrutura narrativa do livro é bastante envolvente: o autor vai criando uma timeline dos eventos e consegue inclusive criar cliffhangers instigantes para as informações que estão por vir.

O autor também relata em detalhes ao longo das páginas sobre o processo investigativo quando surge uma nova doença. Desde pesquisas de campo em meio a florestas tropicais até à reconstrução da linha do tempo a partir do paciente zero são etapas complexas e arriscadas que muitas vezes levam os próprios profissionais a ficarem doentes e/ou falecerem. Esse comprometimento com a agilidade na busca pela solução do problema e pela compreensão do novo são o que nos permitem ter respostas mais rápidas às pandemias (o Covid-19, por exemplo, foi identificado pouco mais de um mês após seu surgimento, em dezembro de 2019). Depois de ler sobre todos esses processos (existem doenças que levaram duas décadas para serem compreendidas, sabe!) eu fico ainda mais abismada com a desvalorização da ciência.

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Contágio tem como objetivo explicar as origens e as consequências de importantes zoonoses, ou seja, doenças transmitidas de um animal para um humano, normalmente de modo acidental. E um ponto importante nesse processo, o fator comum às pandemias, reside no fato de que grande parte desse contágio é causado pela invasão humana à natureza, bem como predação de animais selvagens. A falta de equilíbrio ecológico, causado por queimadas, árvores derrubadas para plantio, caça a animais silvestres, entre outros fatores, saltou aos meus olhos como um grande problema responsável pela variedade de doenças às quais estamos suscetíveis. Evoluímos rapidamente em termos de tecnologia e conhecimento, mas a verdade é que existe uma infinidade de coisas que ainda não sabemos (e a pandemia do coronavírus é uma prova do perigo ao qual estamos expostos a micro-organismos ainda desconhecidos).

Com isso, fica evidente a necessidade de repensarmos nosso modo de vida e de consumo. O jeito que a sociedade se estrutura hoje não é compatível com um futuro sustentável e saudável. A pandemia de Covid-19 não foi uma surpresa total para os estudiosos da área, porque na verdade eles compreendem que a Próxima Grande Pandemia sempre está a um passo de acontecer – basta que um vírus ou bactéria “salte” para um ser humano (ou seja, faça um spillover, termo que designa o pulo de um animal hospedeiro para outro, no qual o patógeno também consegue se desenvolver). Pode ser por meio de um contato com uma árvore derrubada, com um animal morto na floresta ou proveniente do comércio de carne, mas a iminência de uma nova pandemia está à espreita.

Por mais que esse fato possa parecer sensacionalista e/ou assustador, é um assunto necessário. Acho praticamente impossível ler Contágio sem, no mínimo, refletir um instante sobre nossos hábitos de consumo. Não digo que você vai se tornar vegetariano ao fechar o livro. Mas quem sabe você vire. A questão é que, no mínimo, Contágio instiga o leitor a refletir sobre o nosso papel no ecossistema, e deixa uma mensagem muito clara: estamos todos juntos nisso. Não podemos esquecer de que também somos animais – porém, muito mais destrutivos e em total desequilíbrio com os outros que habitam o planeta. A leitura de Contágio nos relembra que somos um elo dessa grande corrente, e não necessariamente o mais importante. Nos resta ter humildade pra entender que somos um fragmento do ecossistema e que, se não buscarmos mais equilíbrio nas nossas relações, não podemos garantir nossa longevidade enquanto espécie.

Título original: Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic
Autor: David Quammen
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 492
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Morte no Verão – Benjamin Black

Oi galera, tudo bem?

Hoje vim compartilhar com vocês minhas percepções a respeito de Morte no Verão, um livro policial de estilo noir.

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Sinopse: Em uma sufocante tarde de verão em Dublin, o magnata Richard Jewell – conhecido por seus inúmeros inimigos como Diamond Dick – é encontrado com a cabeça estourada por um tiro de espingarda. Jewell era o proprietário de grande parte dos veículos de imprensa do país e diretor do sensacionalista Daily Clarion, o jornal de maior vendagem da capital. Embora tudo leve a crer que tenha sido suicídio, os jornais, por convenção, não mencionam essa possibilidade. Caberá então ao detetive inspetor Hackett tocar as investigações, nas quais irá contar com a ajuda de seu velho amigo, o patologista Garret Quirke.

O que é literatura noir, para início de conversa? Segundo a biblioteca da PUCRS, ela “se caracteriza por apresentar histórias que misturam terror, mistério e elementos policiais, detetives e investigações que vão além dos conhecimentos de investigação criminal.” Na prática, o que eu senti é que é uma narrativa mais lenta, focada nas reflexões dos personagens, com uma ambientação urbana e “pálida”. Morte no Verão se passa na Dublin dos anos 50 e acompanha a investigação da morte de um magnata que aparentemente se suicidou na sua casa de campo. Quando o detetive inspetor Hackett encontra o corpo, ele percebe que, apesar da tentativa de forjar o suicídio, provavelmente trata-se de um homicídio. Então Garret Quirke (um médico forense com quem ele já trabalhou antes) é acionado, sendo ele o verdadeiro protagonista da obra.

Desde o início do livro, especialmente após a chegada de Quirke, senti que a narrativa contava com elementos prévios que eu não conhecia. Fui para o Google e bingo: trata-se do quarto livro de uma série, e nos volumes anteriores provavelmente é explicada a parceria entre Quirke e Hackett, bem como a notoriedade que o primeiro ganhou nos últimos anos. Infelizmente minha leitura foi bastante prejudicada por isso, mas foi desatenção de minha parte ao solicitar o livro à editora sem conferir previamente se era um volume único ou não.

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A narrativa é bastante vagarosa e foca pouquíssimo na investigação policial; entretanto, quando isso acontece, temos as melhores passagens da obra. No geral, acompanhamos o relacionamento de Quirke com sua filha, de quem ele não era muito próximo, e também sua atração pela viúva da vítima, com quem ele passa a ter um caso. A ênfase da história reside na descrição de cenários e das sensações dos personagens, sendo também um livro com uma narrativa um pouco mais rebuscada e metafórica. A vantagem disso é que Morte no Verão me ajudou a expandir meu vocabulário, e fazia tempo que um livro não me proporcionava essa experiência.

Eu esperava mais do final: a resolução do caso é clichê e bastante insossa. Como comentei anteriormente, a investigação não é o que chama a atenção na obra e, pra falar a verdade, não teve nenhum elemento que realmente tenha me conquistado. Os personagens não são carismáticos, você não torce por nenhum deles e não houve conexão entre mim e a obra. Provavelmente o ponto que mais influenciou nisso foi pegar o bonde andando mesmo: Morte no Verão é o tipo de livro que tem início, meio e fim, mas que precisa do background apresentado nos volumes anteriores pra compreensão plena dos personagens.

Apesar de eu amar livros policiais, Morte no Verão não conseguiu me cativar. Parte dessa constatação eu já expliquei no parágrafo anterior, mas outra parte reside no fato de que a obra não me provocou absolutamente nenhum sentimento: nem curiosidade pela investigação e nem afeição pelos personagens (o que me prende à série Cormoran Strike, por exemplo, mesmo quando a investigação não é tão boa). Não recomendo a obra como porta de entrada pra série mas, se você acompanhou os livros anteriores, talvez sua experiência seja diferente da minha. 🙂

Título original: A Death in Summer
Autor:
Benjamin Black
Editora: Rocco
Número de páginas: 256
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Acima do Véu – Garth Nix

Oi pessoal, tudo bem?

Estava com saudades do universo construído por Garth Nix, então aproveitei minhas curtas férias para ler Acima do Véu, o quarto volume de A Sétima Torre.

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Sinopse: O Povo Inferior é incansável. Por muito tempo, essa gente se manteve quieta, ocupando os níveis mais baixos do Castelo. Mas, agora, vai se fazer ouvir… Tal e Milla não estão mais sozinhos na busca da verdade sobre seu mundo. O Corvo, um renegado do Povo Inferior, aliou-se a eles, juntamente com seu bando de rebeldes. Eles conhecem muitos segredos sobre o Castelo – e estão prestes a descobrir o maior de todos. A escuridão está ficando cada vez mais intensa. As sombras estão se tornando mais fortes. E, mais que nunca, Tal e Milla estão correndo perigo.

Seguindo o padrão da série, o livro inicia em uma sequência direta do volume antecessor, após o embate com o Mestre-das-Sombras Sushin (que não parece ter se abalado após a perfuração pela lâmina de chifre de Merwin de Milla). Durante a fuga dos protagonistas pelos níveis mais baixos do Castelo, eles reencontram os jovens que os ajudaram nos túneis de aquecimento, mas o clima não é amigável: comandados por um jovem chamado Corvo, o grupo se autodenomina Resistentes – ou seja, membros do Povo Inferior que se recusam a seguir a ordem dos Escolhidos. Apesar da animosidade, o grupo de Corvo, Tal e Milla se veem do mesmo lado, já que os Resistentes têm como líderes Ebbit e Jarnil, um antigo professor do Lectorium dado como morto. Quando Milla e Tal contam a eles sobre tudo que descobriram em Aenir (e Sushin), Ebbitt e Jarnil compreendem que o Véu que protege o Mundo das Trevas dos Aeniranos está em risco. Para restabelecer a segurança, é necessário impedir que Sushin se apodere das Grandes Pedras que o mantêm intacto.

Basicamente, esse é o fio condutor de Acima do Véu. Conforme a série avança, Tal e Milla vão descobrindo pouco a pouco os segredos mantidos tanto pelos Escolhidos quanto pelos Homens-do-Gelo a respeito da origem do Véu e da relação entre os dois povos. Enquanto Tal deseja apenas ter a normalidade de sua vida de volta (e impedir Sushin no processo), Milla ainda se ressente por ter perdido sua sombra natural e está determinada a voltar ao Gelo, contar tudo que descobriu às Matriarcas e dar fim à sua vida. Com isso, é nesse volume que o caminho dos dois protagonistas se separa: a jovem parte rumo ao seu povo enquanto Tal se alia (contra a própria vontade) ao Corvo. E eu acho que foi por causa dessa separação que não curti tanto a obra quanto esperava.

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A dinâmica de Tal e Milla é uma das coisas de que mais gosto na série de Garth Nix, além da criatividade do autor na concepção de seu universo (que eu sempre reforço nas resenhas e até hoje considero único). Quando os dois se separam, um pouco do carisma da narrativa se perde, porque sempre foi muito interessante acompanhar o equilíbrio proporcionado pela sua relação de gato e rato, mas cheia de aprendizado mútuo. Tal e Corvo, por outro lado, são muito clichês: o protagonista desconfia do rapaz hostil, enquanto este odeia Tal por ele ser um Escolhido. Apesar desse ponto negativo, Acima do Véu tem diversas cenas de ação, com capítulos que intercalam entre a missão de Tal e a de Milla. E, mesmo não curtindo a relação entre Tal e o Corvo, reconheço o mérito de sua missão: os dois passam por inúmeras situações capazes de deixar o leitor apreensivo, porque o risco de roubar uma Grande Pedra e não serem capturados por Sushin no processo é bastante considerável.

Em relação ao desenvolvimento dos personagens, Acima do Véu oferece poucos avanços. Como os livros acontecem em um espaço muito pequeno de tempo, sendo sequências diretas uns dos outros, a aventura de Tal desde sua queda para fora do Castelo iniciou há pouco mais de um mês. E eu compreendo isso, de verdade, mas também me decepcionei ao ver o protagonista repetindo preconceitos que eu já esperava que ele estivesse apto a, pelo menos, questionar. Com a intensidade de suas experiências com Milla e ao se dar conta de quão vasto é o mundo fora das paredes onde nasceu e cresceu, eu supunha que Tal já estivesse pronto para não olhar para o Povo Inferior como… inferior. Considerando que eu elogiei justamente o amadurecimento dos protagonistas no volume anterior, fiquei um tantinho chateada.

Acima do Véu foi o primeiro volume inédito desde que decidi revisitar a série A Sétima Torre. Por enquanto, a experiência tem sido bacana, apesar dos altos e baixos (reli minhas resenhas e percebi que intercalei entre “nossa, amei” e “hmmm só gostei” 😂). Estou curiosa para saber o que os dois últimos volumes da saga me reservam e pretendo concluí-la até o fim do ano. Continuo com a opinião de que a série é uma ótima opção pra quem gosta de livros de fantasia e buscam uma leitura rápida, mas criativa e instigante.

Título original: Above the Veil
Série:
A Sétima Torre
Autor:
Garth Nix
Editora:
Nova Fronteira
Número de páginas:
255
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Resenha: Você É Fodona – Jen Sincero

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi como parte de uma ação de divulgação da Editora Rocco Você É Fodona, um livro de autoajuda de Jen Sincero que promete colocar o leitor no controle da própria vida e ajudá-lo a conquistar seus objetivos. Mesmo não sendo um gênero do qual eu goste, pensei: por que não? E agora bora que vou contar pra vocês o que achei. 🙂

jen sincero voce é fodonaGaranta o seu!

Sinopse: Mais de 2 milhões de exemplares vendidos no mundo. Neste divertido livro, a autora nº 1 de best-sellers do The New York Times e coach de sucesso, Jen Sincero, oferece capítulos curtos, cheios de histórias hilariantes e inspiradoras, conselhos sábios, exercícios fáceis e palavrões ocasionais. Mostrará como criar uma vida que você ama totalmente, e como criá-la agora.

Eu tenho uma resistência fortíssima à ideia de coaches. Em geral, acredito que a maior parte deles ganha dinheiro com frases prontas e repetidas à exaustão. Por isso, sempre que pego um livro de autoajuda, eu inicio a leitura com desconfiança, e o livro precisa provar que vale a mudança de opinião. Não foi diferente com Você É Fodona, cujo título vergonha alheia já me causou um certo… receio. E em diversos pontos a obra acabou reforçando minha opinião pré-concebida. Felizmente, algumas partes foram capazes de gerar uma reflexão positiva, e vou concentrar os próximos parágrafos em prós e contras da leitura.

Jen Sincero inicia o livro explicando que temos a consciência (que determina o que queremos fazer) e a inconsciência (o que foi incutido na gente sem percebermos). A partir da inconsciência surgem o que ela chama de crenças limitantes – conceito que eu, particularmente, não comprei. Para Jen Sincero, são essas crenças que nos impedem de avançar e atingir nossas metas, e ao longo dos capítulos ela discorre sobre formas de superar esse obstáculo. Gostei que ela fala sobre o perigo das piadas autodepreciativas, que minam a nossa autoconfiança e são uma repetição de impressões negativas a respeito de nós mesmos. Jen Sincero incentiva que sejamos capazes de aceitar os elogios de coração aberto, sem decliná-los. Eu pessoalmente sou uma pessoa que fico bastante sem jeito com elogios, e de uns tempos pra cá tenho tentado me acostumar à ideia de recebê-los e, principalmente, acreditar neles.

Outro conteúdo interessante do livro diz respeito a sermos mais gentis com nossos erros. Esse tema também conversou diretamente comigo, porque sou alguém cuja autocobrança é elevadíssima. Ao aceitar a nossa falibilidade, a gente entende que tá tudo bem tentar algo pela primeira vez e não necessariamente se sair bem nisso, afinal, o erro também faz parte do aprendizado. Por fim, outro conceito bacana abordado pela autora diz respeito à procrastinação: muitas vezes deixamos de cumprir uma tarefa ou objetivo por esperar que saia tudo 100% perfeito, o que é basicamente impossível. Ela sugere então que as tarefas sejam divididas em objetivos menores, de forma que cada passo seja mais factível, não parecendo uma tarefa hercúlea que cause a procrastinação por puro medo de tentar.

resenha você é fodona

E do que eu não gostei? Bom, a começar pela gama de assuntos que Jen Sincero aborda. Ela fala sobre tantas áreas da vida (carreira, dinheiro, vida amorosa) que parece que nenhum conselho é aprofundado o bastante, sabem? Além disso, faltam exemplos pessoais que justifiquem as dicas – afinal, por que eu acreditaria na autora se ela quase não tem situações reais para provar que aquilo funciona? Acredito que a falta de exemplos, somada a um milhão frases de efeito piegas, foi um dos maiores responsáveis pela minha desconexão com a leitura.

Outra abordagem que não colou comigo diz respeito à vibração dos pensamentos. Segundo Jen Sincero, precisamos emitir a vibração certa ao Universo pra atrair coisas positivas, e para que algo se torne realidade você primeiro precisa acreditar que aquilo é verdade. Com todo respeito a quem acredita nisso mas, pra mim, simplesmente não dá. Considero isso o suprassumo do papo de coach e ainda culpa você por estar atraindo porcaria pra sua vida, sem considerar os diversos fatores externos que podem atravancar o caminho – incluindo privilégios. Isso fica ainda mais grave quando ela começa a falar de prosperidade financeira: os conselhos dela não poderiam ser mais desconectados da realidade, afirmando que “se você sintonizar sua energia à abundância do Universo, você será recompensado” ou, ainda pior, ela exemplifica com o fato de ter comprado um carro caro em vez de um carro barato porque isso deu o sinal necessário para o Universo compreender que ela tava pronta pra prosperar. Bah, apenas não. Eu acredito que sim, precisamos arregaçar as mangas e correr atrás dos nossos objetivos, mas compreendo também que existem muitos fatores envolvidos em fazer um objetivo dar certo ou não: falta de grana, falta de acesso a determinados espaços, desigualdade social… Enfim, já deu pra entender meu ponto, né? Por fim, não posso evitar dizer que as escolhas de analogia dela não poderiam ser mais bregas. Ela se refere ao ego como Grande Dorminhoco, por exemplo… Simplesmente constrangedor.

Em suma, Você É Fodona foi capaz de dialogar com alguns aspectos que eu venho tentado trabalhar em mim mesma há algum tempo. Mas, honestamente? O mérito tá na terapia rs. Alguns conselhos são legais, a intenção é boa, só que pra mim não funcionou. Por isso, não é um livro que eu recomendaria diretamente mas, se a proposta chama a sua atenção, vá em frente. 😉

Título original: You Are a Badass
Autor:
Jen Sincero
Editora: Rocco
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Verity – Colleen Hoover

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar da Colleen Hoover ter uma legião de fãs, os livros dela nunca me chamaram a atenção. Até o lançamento de Verity. Sendo eu apaixonada por thrillers e livros policiais como sou, mal pude esperar para conferir essa obra que deu o que falar na blogosfera. Vamos descobrir o que eu achei? 😉

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Sinopse: Verity Crawford é a autora best-seller por trás de uma série de sucesso. Ela está no auge de sua carreira, aclamada pela crítica e pelo público, no entanto, um súbito e terrível acidente acaba interrompendo suas atividades, deixando-a sem condições de concluir a história… E é nessa complexa circunstância que surge Lowen Ashleigh, uma escritora à beira da falência convidada a escrever, sob um pseudônimo, os três livros restantes da já consolidada série. Para que consiga entender melhor o processo criativo de Verity com relação aos livros publicados e, ainda, tentar descobrir seus possíveis planos para os próximos, Lowen decide passar alguns dias na casa dos Crawford, imersa no caótico escritório de Verity – e, lá, encontra uma espécie de autobiografia onde a escritora narra os fatos acontecidos desde o dia em que conhece Jeremy, seu marido, até os instantes imediatamente anteriores a seu acidente – incluindo sua perspectiva sobre as tragédias ocorridas às filhas do casal. Quanto mais o tempo passa, mais Lowen se percebe envolvida em uma confusa rede de mentiras e segredos, e, lentamente, adquire sua própria posição no jogo psicológico que rodeia aquela casa. Emocional e fisicamente atraída por Jeremy, ela precisa decidir: expor uma versão que nem ele conhece sobre a própria esposa ou manter o sigilo dos escritos de Verity?

“Ouço o barulho do crânio se quebrando antes mesmo de o sangue respingar em mim.” É com essa frase que Verity inicia, e com ela já é possível sentir o impacto de muitas coisas que serão narradas dali em diante. O livro nos apresenta a Lowen, uma autora com problemas financeiros que se depara com um acidente a caminho de uma reunião importante. Ainda em choque, ela é auxiliada por um homem bem vestido que também presenciou a cena e, para a surpresa de ambos, eles voltam a se reencontrar na sala de reuniões. Ele é Jeremy Crawford, marido de uma escritora de sucesso chamada Verity, que se encontra em estado vegetativo após sofrer uma colisão enquanto dirigia. Lowen então recebe a proposta de ser co-autora da série que Verity deixou inacabada, já que o estilo literário de ambas se assemelha. Apesar da insegurança e do medo de assumir um trabalho tão aclamado, as dificuldades financeiras de Lowen fazem com que ela aceite a proposta de trabalho e tope passar alguns dias na casa dos Crawford para conferir todos os materiais deixados por Verity. O que Lowen encontra, porém, é um manuscrito autobiográfico que narra a história do casal de modo perturbador – fazendo com que a casa não pareça mais tão segura assim.

Acredito que eu nunca tenha lido algo tão perturbador quanto o manuscrito de Verity. A obra (dentro da obra rs) inicia com a autora-personagem avisando que as próximas páginas trarão à luz o seu pior lado, os aspectos mais sinistros de sua vida. E Verity cumpre a promessa. Ao longo dos capítulos, ela discorre sobre sua vida após conhecer e se apaixonar por Jeremy, descreve como os dois são o encaixe perfeito e como o sexo é fantástico. Aos poucos, vai se revelando mais do que uma história de amor, mas sim uma obsessão doentia. Em seu manuscrito, Verity se revela como uma mulher manipuladora, dissimulada e extremamente cruel, cujo objetivo é manter Jeremy perto de si e com as atenções voltadas somente a ela. Isso por si só já é bastante incômodo, mas a coisa piora quando o casal engravida: eu não tenho palavras pra descrever os horrores causados por Verity como resposta à gravidez indesejada. A personagem odeia as filhas (pois são gêmeas) antes mesmo delas nascerem, o que não necessariamente ameniza após a chegada das crianças. Eu não vou descrever aqui determinadas situações que Verity protagoniza porque foram capazes de me provocar náuseas, mas preciso avisá-los de que a descrição dos eventos é muito gráfica e perturbadora. Eu provavelmente nunca senti um incômodo tão grande quanto essas cenas me proporcionaram, e olha que eu adoro ler livros policiais que descrevem corpos mutilados sem pudor.

Porém, assim como Lowen, o leitor também não consegue desgrudar os olhos. Inclusive, os capítulos do manuscrito são muito mais interessantes do que os capítulos de Lowen interagindo com os Crawford e lidando com a presença (aparentemente) inofensiva de Verity. Acontece que, com o decorrer das páginas, as atrocidades cometidas por Verity não vão deixando apenas Lowen assustada: o leitor também fica angustiado, temendo pela segurança das pessoas na casa. Essa capacidade de um autor de nos deixar verdadeiramente apreensivos é algo que eu tenho em alta conta, especialmente em livros do gênero. E Colleen Hoover conseguiu provocar esse sentimento com maestria, porque não foram poucas as vezes em que eu, na vida real, senti meu coração acelerar.

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Mas nem tudo são flores. Verity recai em alguns clichês do gênero para os quais eu não tenho muita tolerância e nem paciência. O principal deles é o fato de Lowen não tomar uma atitude para se proteger: sério que você tá lendo sobre a psicopatia de uma mulher que no momento divide o teto com você e ainda assim você não saiu correndo? A desculpa utilizada por Colleen Hoover também é fraca: Lowen precisava ficar na casa para terminar de pesquisar para a série de livros inacabada, ou Lowen duvidava da sua própria sanidade e por isso não conseguia decidir se Verity estava realmente em estado vegetativo ou apenas fingindo… Sério? Gente, se alguém me descreve o que Verity descreveu, eu saía correndo porta afora de calcinha e sutiã se fosse preciso.

Outro aspecto bem fraco da leitura é o romance entre Lowen e Jeremy. De certa forma, ao ler o manuscrito (recheado de cenas sexuais bem explícitas), a protagonista começa a projetar o sentimento de Verity nele. Mesmo com o momento que eles partilharam após o acidente, no início do livro, a conexão entre os personagens não me convenceu. Jeremy é perfeitinho demais, Lowen é o clichê da personagem que duvida de si mesma… Não curti nenhum dos dois e achei a relação bem artificial.

Por fim, me decepcionei também com o final. Após um desenrolar tão envolvente, eu simplesmente… esperava mais. Conduzido de forma mega corrida e com uma revelação totalmente anticlimática, parece que Colleen Hoover se perdeu na conclusão da sua história. O desfecho é ambíguo e não me agradou, parecendo uma tentativa meio forçada de encerrar a história com certa “genialidade”, pensando em chocar. A verdade é que a personagem Verity foi tão intensa que simplesmente eu esperava uma condução mais digna dela (afinal, vilões também podem ser muito bem construídos e merecem algo à altura).

Em resumo, Verity é um excelente livro com um final decepcionante, que não consegue causar a mesma sensação que o resto da obra proporciona. Com isso em mente, ainda assim recomendo a leitura, porque Colleen Hoover faz um excelente trabalho em proporcionar angústia e causar um medo real pela segurança dos personagens. É uma história de arrepiar e eu curti muito a experiência de modo geral. 😉

Título original: Verity
Autor: Colleen Hoover
Editora: Galera Record
Número de páginas: 320
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Resenha: Conectadas – Clara Alves

Oi pessoal, tudo bem?

Quando vi que Conectadas, da Clara Alves, reunia o amor pelo universo dos jogos, protagonismo feminino e visibilidade LGBTQI+, não pensei duas vezes em solicitar para a Editora Seguinte. E, nesse Mês do Orgulho, nada melhor do que conversar sobre livros que dão espaço a essas vozes, não é mesmo?

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Sinopse: Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais — pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina. Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir — muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer. Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?

Raíssa é uma adolescente lésbica e geek, completamente apaixonada pelo universo dos games. Porém, a jovem se obrigou a criar um personagem masculino no seu jogo favorito, Feéricos, para não ser mais vítima do machismo de outros gamers, que a evitavam por ser mulher. Entretanto, ao ajudar Ayla, uma nova jogadora, uma amizade se inicia – que acaba se tornando uma paixão correspondida, ainda que aparentemente impossível: as duas são menores de idade, moram em cidades diferentes e dificilmente se encontrariam, certo? Acontece que a empresa responsável pelo jogo anuncia um evento gigante ao qual Raíssa e Ayla estão determinadas a comparecer. Enquanto Ayla imagina que vai conhecer “Leo”, seu crush da internet, Raíssa começa a surtar com a iminência de ser desmascarada pela menina que ama.

Se você é mulher e já jogou online, provavelmente vai se identificar com os motivos de Raíssa para esconder sua identidade: a comunidade nerd pode ser (e muitas vezes é) demasiado tóxica e machista. Contudo, a personagem perde o timing de dizer a verdade a Ayla, usando a identidade do melhor amigo, Leo, para tentar manter a farsa. Além do medo de ser descoberta e rejeitada, Raíssa também sofre com a sua sexualidade, que mantém em segredo. Ouvir comentários homofóbicos de seus parentes não a ajuda em nada, servindo apenas como um reforço ao seu pânico de se assumir. O que Raíssa não imagina é que, do outro lado da tela, Ayla sofre com uma dor parecida: a garota tenta se convencer que a atração que já sentiu por outras meninas foi apenas uma fase, e parece encontrar alívio no fato de estar apaixonada por “Leo”. Com o passar das páginas o leitor compreende – assim como Ayla – que estamos lidando com a bissexualidade, uma letrinha muitas vezes invisibilizada quando falamos na temática LGBTQI+.

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Confesso que, ao longo da leitura, por diversas vezes eu fiquei com um pouquinho de vergonha alheia pelo exagero nas reações de Raíssa, Leo e até mesmo Ayla. Aquela coisa de dar pulinhos de empolgação ou fazer alguma dancinha em público, sabem? Aí eu lembrei que quando eu tinha a idade dos personagens e frequentava eventos de anime eu fazia a mesmíssima coisa! 😂 Foi um belo puxão de orelha em mim mesma – afinal, eu sei BEM o que é surtar de empolgação por alguma coisa da qual você é realmente fã. Relembrar essa fase da minha vida por meio da leitura acabou sendo divertido e empolgante.

Claro, existem algumas frases prontas e clichês que acabaram tirando a naturalidade de certos diálogos, mas de maneira geral Conectadas faz um ótimo trabalho em mostrar o sentimento de fangirl e os relacionamentos online proporcionados por um forte vínculo em comum. O jogo é onde Raíssa e Ayla se sentem à vontade para serem honestas consigo mesmas, onde podem ser quem são sem julgamentos externos. Além disso, temos significativa representatividade na obra: Ayla é oriental, Raíssa tem mãe negra e pai indígena e, é claro, há a questão da sexualidade. O livro consegue transmitir as aflições e dúvidas que as duas meninas sentem, especialmente frente à perspectiva de se assumirem. E, apesar de uma abordagem realista, Clara Alves consegue fugir de um tom desnecessariamente dramático ou pesado em uma obra que se propõe a ser leve.

Resumindo, Conectadas me proporcionou uma viagem no tempo. Lembrei como era ter fakes dos meus personagens favoritos no Orkut, de quando eu adorava o universo gamer e também da época em que não perdia eventos de anime. Eu sempre fui bem fangirl das coisas que eu gosto e consegui me identificar com o que Raíssa e Ayla sentiam em relação a Feéricos. Além de dialogar diretamente com quem já vivenciou esse tipo de hobby, o livro é também um romance fofo entre duas personagens capazes de cativar mesmo não sendo (ou até por isso) perfeitas. E, não somente no Mês do Orgulho, mas sempre, fica aquele lembrete de que todo tipo de amor é válido e importante – afinal, seja no RPG online ou na vida real, é libertador quando podemos ser honestos sobre quem somos e amamos.

Título original: Conectadas
Autor: Clara Alves
Editora: Seguinte
Número de páginas: 320
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Tudo o Que Poderíamos Ter Sido – Zeka Sixx

Oi pessoal, tudo bem?

Fazia tempo que não rolava resenha de literatura nacional por aqui, né? Então hoje vamos conversar sobre Tudo o Que Poderíamos Ter Sido, que recebi do autor gaúcho Zeka Sixx. 🙂

tudo o que poderíamos ter sido

Sinopse: Porto Alegre, abril de 2016. Em meio aos dias tensos que sucederam à votação do impeachment, três jovens sem planos para o futuro – ou mesmo para o presente – se apaixonam e desapaixonam, enquanto flertam com outras tentações e procuram, sem muito esforço, entender se a manjada tríade sexo, drogas e rock-and-roll ainda é a única resposta para o vazio e a desesperança. Lola domina a noite da cidade como uma rainha, entornando toneladas de drinques enquanto digere uma paixonite por um cara que não lhe dá notícias. César tenta se adequar aos novos tempos, que ele não quer realmente compreender, pois deseja, no fundo, que tudo seja simples como antes. Júlia quer se reinventar, após se ver forçada a terminar um relacionamento por divergências políticas. “Tudo o que Poderíamos Ter Sido” é a fotografia de uma geração já nem tão jovem assim, cujo maior pesadelo é simplesmente amadurecer.

O livro, ambientado em Porto Alegre na época do golpe impeachment de 2016, é narrado principalmente por três personagens: Lola, uma DJ sensual que aproveita a vida colecionando transas de uma noite; César, um advogado privilegiado e desmotivado com a vida; e Júlia, irmã de César, que recém terminou um namoro longo e fracassado e está em busca de alguma sensação “real”. Com o decorrer das páginas, o caminho dos três personagens se cruza e provoca algumas reflexões em cada um deles.

Sendo eu mesma de Porto Alegre, reconheci em vários momentos da leitura as características que marcam, principalmente, a noite gaúcha. Entre lugares icônicos da cidade, festas super conhecidas e bairros marcantes, foi fácil imaginar os acontecimentos do livro fora das páginas. Devo dizer inclusive que conheço pessoas que agem (ou um dia agiram) exatamente como Lola, César e Júlia, o que faz com que os personagens sejam bem realistas. Essa característica marca a escrita de Zeka Sixx: a narrativa é bastante direta e o linguajar é chulo, se assemelhando a conversas e diálogos reais – com seu bônus, mas também seu ônus.

Foi interessante ler um livro de teor tão erótico diferente dos romances aos quais estou acostumada. Existe uma objetividade no sexo em Tudo o Que Poderíamos Ter Sido que revela muito dos próprios personagens: eles usam as transas para aliviar o tesão e ter um momento de diversão, e nada mais. Mesmo os personagens que se apaixonam o fazem de modo totalmente diferente de romances mais tradicionais, pendendo mais para um crush intenso do que qualquer outra coisa. Essa escolha é verossímil e reflete muito do comportamento contemporâneo, onde é fácil arranjar uma ficada sem compromisso.

resenha tudo o que poderiamos ter sido

Por outro lado, preciso ser honesta a respeito do que não deu certo comigo. Quando li a sinopse do livro e topei resenhá-lo, eu tinha uma expectativa bem maior em relação ao cenário político. Infelizmente, porém, as discussões a respeito do impeachment não se aprofundam, aparecendo apenas em um ou outro diálogo. Além disso, cada capítulo tinha necessariamente uma cena de sexo no presente ou uma lembrança de sexo épico no passado. É um recurso que acabou me cansando um pouco, porque parecia que a história não tinha um rumo certo além de narrar as noites dos três personagens principais. :/ Aliás, não consegui me afeiçoar a nenhum deles, especialmente aos dois irmãos: César e Júlia são filhinhos de papai – ele, machista de marca maior; ela, feminista classe média cheia de hipocrisias – e me fizeram revirar os olhos várias vezes.

Outra problemática que vale pontuar é o modo como o sexo é explorado no que diz respeito às personagens femininas. É costumeiro confundir liberdade sexual com empoderamento feminino, mas essas duas coisas não necessariamente andam juntas – em um país onde ocorrem em média 180 estupros por dia, eu acredito que a possibilidade de dizer “não” (e ter sua decisão respeitada) é um dos maiores sinais de empoderamento. E, para concluir esse tópico, existe uma cena de revenge porn cujo peso e importância não ganham o destaque merecido, parecendo mais uma fetichização que um crime capaz de destruir vidas.

Apesar dos pontos levantados, eu li Tudo o Que Poderíamos Ter Sido em apenas 2 dias. Os capítulos não cansam e a escrita de Zeka Sixx foi capaz de me manter envolvida com a trama – mesmo que eu não concorde com praticamente nenhuma das decisões tomadas por ele na condução da história e no desenvolvimento dos personagens. Se eu sentisse que houve reflexões sobre esses pontos que levantei, certamente daria outra chance para a escrita do autor. Mas, de modo geral, é um livro que difere muito do que eu pessoalmente acredito. Com tudo isso em mente, reforço que é sempre válido dar uma chance para tirar suas próprias conclusões. 😉

Título original: Tudo o Que Poderíamos Ter Sido
Autor: Zeka Sixx
Editora: Coralina
Número de páginas: 216