Resenha: Se Liga, Dani Brown – Talia Hibbert

Oi galera, tudo bem?

Não se deixem enganar pela capa fofinha do livro de hoje: Se Liga, Dani Brown é um romance +18 cheio de cenas quentes e descrições bem gráficas, então fica o aviso. 😂 O livro é o segundo volume da trilogia Irmãs Brown, sendo que já falei sobre o primeiro (Acorda Pra Vida, Chloe Brown, protagonizado pela Brown primogênita) aqui no blog. Sem mais delongas, vamos conhecer a irmã do meio? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Dani Brown precisa de um sinal. Tudo que ela quer é alguém com quem possa se divertir, sem complicações ou sentimentos envolvidos. O problema é encontrar essa pessoa, por isso ela pede ao universo que lhe avise se aparecer alguém que preencha os requisitos. Quando acaba presa em um elevador durante um treinamento de incêndio e é resgatada por Zaf, o segurança rabugento de quem é mais ou menos amiga, Dani pensa ter entendido o recado e começa a bolar um plano para seduzi-lo. Nenhum dos dois espera que o resgate gere rumores de que eles estejam juntos. Muito menos que tais rumores tragam benefícios para suas vidas, o que os leva a encenar um namoro de mentira. Nos bastidores, porém, Dani continua firme com seu plano de seduzir Zaf e conseguir o que quer, mas aos poucos essa amizade colorida se torna mais complicada que sua tese de doutorado. Será que o tiro saiu pela culatra? Ou será que esse é o verdadeiro sinal do universo e Dani só precisa se ligar para ver?

Danika, ou Dani, é uma doutoranda cujo foco total está no trabalho, pois sua prioridade é conseguir atingir seus objetivos de carreira no tempo planejado. Ela, contudo, também tem suas necessidades enquanto mulher (risos) e por isso faz um ritual pedindo ao universo por um p** amigo. É aí que entra em jogo Zaf, segurança da universidade em que Dani trabalha. Os dois têm uma rotina de conversas breves e flertes diários, e existe uma atração física mútua. Acontece que ele não poderia ser mais diferente de Dani: apesar dele ser um muçulmano não-praticante, o que poderia levá-lo a sexo sem compromisso, Zaf leva relacionamentos e sexo bastante a sério, e sabe que qualquer relação casual com a mulher com a qual fantasia em segredo seria sua ruína emocional. Mas o universo dá o seu jeitinho, e em uma simulação de evacuação de emergência ele “resgata” Dani de um elevador quebrado e sai do prédio com ela no colo, cena que as pessoas filmam e gera uma hashtag viral. Todo esse destaque faz com que descubram duas coisas muito importantes sobre Zaf: ele é um jogador de rúgbi profissional aposentado e comanda uma ONG chamada Enfrente, voltada a auxiliar jovens com suas questões psicológicas por meio do esporte. A visibilidade gerada pela viralização começa a auxiliar a ONG, então a dupla resolve fingir um relacionamento em prol da organização. Clichê dos clichês, eu sei.

Vou ser sincera com vocês: achei de uma breguice tão grande a cena do resgate com a “princesa em apuros no colo” que já tive dificuldade de comprar todo o resto da trama, incluindo o namoro fingido. Não consigo entender o motivo pra tanta gente surtar com um casal saindo do prédio e o tanto que as pessoas shipparam isso pra se tornar viral por mais do que uma semana. E o fato de eu ter achado tudo tão forçado provavelmente me gerou uma experiência pior com a leitura do que poderia ter sido. Sempre digo que gosto de clichês, desde que eles sejam bem conduzidos, e infelizmente não senti isso aqui.

Dani é uma protagonista da qual não consegui gostar. Ainda que ela seja uma pessoa generosa e tenha ajudado Zaf, sua recusa em ter qualquer tipo de envolvimento sentimental me soou boba, teimosa e infantil. Os motivos que a levaram a isso são coerentes, e realmente vale a pena ficar de orelha em pé e desconfiada quando você viveu uma situação parecida. O problema é que ela tirou da equação o fato de Zaf ser… Zaf. Desde a primeira página, fica nítido o quanto o ex-jogador rabugento gosta dela – muito antes dele sequer pensar em admitir isso. Ele presta atenção em cada palavra de Danika, olha pra ela com verdadeira devoção, nunca a cobra ou a exige demais em relação à sua rotina puxada ou ao seu trabalho e, mais do que tudo, a incentiva a fazer o for necessário pra atingir seus objetivos. O máximo que ele cobra dela é que ela cuide de si mesma também, que se alimente, que descanse. Sério, Zaf é tão perfeito que chega a ser irritante.

Gostei do plot dele, falando nisso. O ex-jogador passou por uma perda pessoal devastadora que tirou toda a sua vida dos trilhos. Ele abandonou o rúgbi e ficou em um “dark place” por muito tempo, até conseguir se recuperar e retomar o controle da própria vida. Com essa experiência, e sabendo o quão vulneráveis os seres humanos podem ser, Zaf passou a se dedicar a ensinar a jovens garotos como lidar com as próprias emoções. Considerando que, apesar de algumas evoluções, ainda vivemos em uma situação patriarcal e machista na qual homens são inibidos de chorar e demonstrar o que sentem, foi muito legal ver um personagem masculino tão focado em 1) admitir suas próprias fraquezas e lidar com elas e 2) ajudar a construir um espaço seguro para que outros rapazes também possam se sentir assim.

Outro ponto positivo do livro é o mesmo que mencionei em Acorda Pra Vida, Chloe Brown: Talia Hibbert traz representatividade positiva em seus protagonistas. Dani é uma mulher plus size, negra e bissexual, e ela é muito feliz e segura com cada uma dessas características. Zaf é descendente de paquistaneses, então há representatividade não-branca no mocinho também. É muito bacana ver representações positivas de pessoas que fazem parte de minorias, e eu sempre defendo essa abordagem em livros que optam por esse caminho (como é o caso também de Heartstopper, por exemplo, que traz um olhar inspirador e otimista sobre um romance gay). Mais um elogio merecido ao livro são as descrições espirituosas de Talia Hibbert. Ela intercala capítulos em terceira pessoa focados em cada protagonista, e a autora escolhe palavras e formas de estruturar frases que fazem parecer que estamos contando ou ouvindo uma história de algum amigo, sabem? Queria ter separado um trecho pra explicar isso, mas como não o fiz eu peço que só acreditem em mim. 😂

Se Liga, Dani Brown é um romance despretensioso e bem clichê, mas que infelizmente não me marcou muito profundamente. É um livro legal, mas sem muito carisma, então ficam essas ressalvas pra que vocês decidam se estão curiosos o suficiente ou não pra conferir. 😉

Título Original: Take a Hint, Dani Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
 Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Pelo Amor de Cassandra – Lisa Kleypas

Oi pessoal, tudo bem?

A série Os Ravenels se aproxima da reta final, e hoje vim contar pra vocês como foi minha experiência com Pelo Amor de Cassandra, a última Ravenel a protagonizar a série (pois o próximo livro não tem a ver com a família o que é bizarro).

Garanta o seu!

Sinopse: Tom Severin, o magnata das ferrovias, tem dinheiro e poder suficientes para realizar todos os seus desejos. Por isso, quando resolve que está na hora de se casar, acha que deve ser fácil encontrar a esposa perfeita. Assim que ele pousa os olhos em lady Cassandra Ravenel pela primeira vez, decide que ela é essa mulher. O problema é que a bela e perspicaz Cassandra é tão determinada quanto ele, e faz questão de se casar por amor – a única coisa que Tom não pode oferecer. Além disso, ela não tem o menor interesse em viver no mundo frenético de alguém que só joga para vencer. No entanto, mesmo com o coração de gelo, ele é o homem mais charmoso que Cassandra já conheceu. E quando um inimigo recém-descoberto quase destrói a reputação dela, Tom aproveita a oportunidade que estava esperando para conquistá-la. Ao contrário do que pensa, porém, ele ainda não conseguiu o que queria. Porque a busca pela mão de Cassandra pode até ter chegado ao fim, mas a batalha por seu coração está apenas começando.

Diferente da irmã gêmea, Pandora, Cassandra sempre quis se casar por amor e construir uma família. Por isso, quando Tom Severin, amigo de longa data de seus primos Devon e West, a pede em casamento, ela recusa: o homem se encanta por ela à primeira vista e deseja oferecer uma vida de rainha a Cassandra, mas é muito claro sobre não ser capaz de oferecer amor. Apesar de serem totalmente diferentes nesse sentido, os dois têm uma afinidade instantânea, a conversa flui fácil e a atração mútua é óbvia. Ainda assim, Cassandra está determinada a não deixar seu coração ser partido, e segue recusando as propostas de Tom. Quando um escândalo recai sobre a família, Tom vê a oportunidade de conseguir o que tanto quer: a mão de Cassandra.

Começo essa resenha dizendo o quanto amei ler a perspectiva de Tom Severin nesse volume! Até então, o personagem era apresentado como alguém genial para os negócios, mas muito frio – inclusive tentando passar os próprios amigos pra trás em uma negociação lá em Um Sedutor Sem Coração. Porém, aqui vemos Tom se abrindo para os aspectos emocionais que qualquer relação (inclusive de amizade) envolve. Ele é um homem pragmático e lógico, tendo uma facilidade enorme de deixar o coração de lado, mas ao perceber que magoou seus amigos, ele entende que cometeu um erro. E por que estou dizendo isso? Porque é mais um elemento que ajuda a construir a mudança do personagem, que é fundamental para prepará-lo para o romance com Cassandra.

É nítido que Tom fica obcecado pela jovem e sua beleza de imediato. Mas logo ele também se encanta com sua personalidade, sua doçura e seu senso de humor. Ele faz Cassandra se sentir querida e apreciada, e pra ele isso é o bastante em um casamento – mas pra ela não. A jovem também fica fascinada pela inteligência de Tom, bem como pelos seus olhos de tons diferentes de verde com pontinhos azulados. Ela o admira, o deseja e contribui para que Tom se abra para o afeto. Um exemplo disso é o fato dela ser tão incisiva sobre Tom cuidar de Bazzle, um menino que trabalhava nas ruas e que ele contratou para varrer sua empresa; Tom também teve um começo de vida sofrido (e justamente por isso é tão fechado e rigoroso com suas emoções), e Cassandra mostra a ele como existem traços em comum com esse jovem menino que rapidamente conquista o coração de ambos.

Porém, nem tudo são flores nesse volume. Depois que o casal principal finalmente fica junto, a obra perde o fôlego. São poucas as cenas hot pra dar uma movimentada nas coisas, e também temos uma espécie de marasmo na trama que faz com que seja necessário dar às últimas páginas uma empurrada com a barriga. Fiquei muito mais entretida com as histórias individuais dos dois e aquele clima de tensão sexual do que encantada pelos dois como um casal formado. Além disso, os antagonistas são fraquíssimos e não são suficientes pra dar o senso de urgência que Lisa Kleypas provavelmente esperava. Em contrapartida, fica o elogio para a condução da união dos dois: Tom e Cassandra decidem negociar juntos os acordos do casamento em um formato de contrato (mais Tom, impossível), e essas passagens são divertidas e fofas ao mesmo tempo. É nítido o esforço de Tom para ser flexível, ao passo que Cassandra busca aplicar e compreender a lógica analítica dele. Essa negociação é uma das minhas partes favoritas dos dois como casal e é lindo de ver como eles vão aprendendo a ceder e encontrar um meio-termo. 

Pelo Amor de Cassandra não é meu favorito da série Os Ravenels, mas é um bom livro. Temos um casal formado por dois personagens muito bacanas, especialmente o protagonista masculino, mas infelizmente eles ficam um pouco sem sal depois que finalmente se unem. Apesar de tudo, fiquei muito feliz de ver o desenvolvimento pessoal de Tom Severin e ele se tornou meu terceiro mocinho favorito da série (sendo Devon e West os primeiros, é claro). Tirando as pequenas ressalvas, é uma bela história de amor e recomendo pra quem gosta do gênero. 😀

Título original: Chasing Cassandra
Série: Os Ravenels
Autora: Lisa Kleypas
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 272
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Resenha: É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo – Amal El-Mohtar e Max Gladstone

Oi pessoal, tudo bem?

Recentemente li uma obra com uma premissa bem diferente, cujas opiniões a respeito eram um pouco controversas (com alguns leitores amando, outros nem tanto): É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo. Tirei minhas próprias conclusões a respeito e hoje as divido com vocês. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Entre as cinzas de um mundo em ruínas, uma soldada encontra uma carta que diz: Queime antes de ler. E assim tem início uma correspondência improvável entre duas agentes de facções rivais travando uma guerra através do tempo e espaço para assegurar o melhor futuro para seus respectivos times. E então, o que começa como uma provocação se transforma em algo mais. Um romance épico que põe em jogo o passado e o futuro. Se elas forem descobertas, o destino será a morte. Ainda há uma guerra sendo travada, afinal. E alguém precisa vencer.

Red e Blue são guerreiras de facções rivais que batalham pelo controle do tempo. Elas são agentes enviadas para interferir no que chamam de “filamentos” do tempo, influenciando eventos com o intuito de garantir seus futuros tais como seus líderes desejam. Durante suas viagens entre passado e futuro, Blue deixa uma carta para Red. O que começa como provocação de uma rival aos poucos se transforma em um amor proibido, e elas precisam vencer muito mais do que o tempo pra ficarem juntas.

O primeiro adjetivo que me vem à cabeça para falar de É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo é… confuso. O segundo, poético. Vamos começar falando sobre o primeiro. O livro é intercalado entre capítulos das cartas propriamente ditas e capítulos que ora focam em Red, ora focam em Blue em suas missões, bem como o momento em que elas encontram a próxima carta. E ao pensar na palavra “carta”, peço que vocês façam o exercício de imaginar as cenas mais abstratas possíveis: uma delas é encontrada no couro de uma foca, por exemplo. E foram esses capítulos que tornaram o livro bem menos agradável pra mim do que poderia ser. Tive muita dificuldade de me engajar com as missões, porque o mundo fantasioso criado pelos autores não é palpável, e as explicações ficaram aquém das minhas expectativas. Me senti perdida sobre o universo proposto, mas também acredito que não era o intuito do livro se debruçar muito em cima disso. Toda a guerra e a viagem no tempo são temas secundários, então senti como se nem valesse a pena ler sobre eles. A sensação que ficou é de “só aceita que é assim e segue o flow”, sabem? E, comigo, isso não funcionou muito bem. Por conta desses fatores, tive imensa dificuldade de me conectar à ambientação criada pelos autores.

Agora, quando falamos no aspecto poético da obra, bem como do romance em si… aqui, sim, temos belas palavras, capazes de envolver e fazer o leitor torcer por Red e Blue. É palpável quando o tom das cartas começa a mudar e as mensagens deixam de ser meras provocações de duas agentes que respeitam o alto nível uma da outra. Aos poucos elas começam a revelar mais de si mesmas por meio das palavras, bem como os segredos de onde elas vêm. Red, por exemplo, faz parte da facção conhecida como Agência. Os soldados da Agência são melhorados com tecnologia, não precisam dormir nem se alimentar de formas tradicionais e vivem em um mundo distópico tecnomecânico. Blue não poderia ser mais diferente: sua origem é a facção chamada de Jardim, na qual os membros se fundem à natureza das mais diversas formas, fazendo parte de um universo “élfico” e praticamente bucólico – se não fosse pela guerra, é claro rs. O interessante é que, conforme baixam suas guardas e se abrem sobre si mesmas e suas origens, fica claro que elas já nem sabem mais porque lutam, e passam a perceber que além das diferenças existem muitas similaridades que as unem.

Não posso negar que É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo é bastante imaginativo. Em suas idas e vindas pelos filamentos do tempo, Red e Blue guiam o leitor por várias Atlântidas rumo à submersão, para inúmeras cenas de catástrofes, para um futuro tecnológico, para a época de Gengis Khan, entre outros períodos marcantes. Pra conseguir fazer com que as páginas fluíssem, precisei dar uma desapegada das explicações teóricas; como mencionei antes, o foco do livro não é esse. Se você conseguir “desligar a chavinha da implicância”, é bem provável que aproveite essas passagens com mais entusiasmo do que eu. Agora, como um elogio muito merecido, ressalto não apenas o belo romance entre as duas protagonistas, mas também a reta final da obra: há uma explicação muito interessante para algo que vinha aparecendo desde as primeiras páginas, e eu gostei de como deu sentido a todas essas cenas em questão.

É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo foi uma experiência… peculiar. Não posso dizer que amei, mas também não é justo dizer que odiei. O romance sáfico é bonito e comovente, além de ser bem-vindo em termos de representatividade lésbica na literatura. Porém, se você tiver alguma expectativa de que o pano de fundo das viagens no tempo seja explorado, é possível que você se decepcione. Recomendo que alinhe as expectativas quanto a isso antes de iniciar a leitura caso decida dar uma chance. 😉 Ademais, é um livro poético e cheio de palavras intensas, daquelas que transmitem a paixão e a dor de romances impossíveis. 

Título original: This Is How You Lose the Time War
Autores:
Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Editora: Suma
Número de páginas: 224
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Heartstopper: Volumes 1 e 2 – Alice Oseman

Oi pessoal, tudo bem?

Ser fangirl sempre foi algo que fez parte da minha “identidade”, por assim dizer. Quando eu gosto de uma coisa, gosto MESMO. 😂 Mas, mesmo com várias experiências literárias fantásticas que tive recentemente, fazia tempo que algo não me despertava esse sentimento específico… até Heartstopper chegar. ❤ Vamos conhecer essa série de quadrinhos maravilhosa? Ah! Dia 22 estreia a adaptação da Netflix, então bora que dá tempo de ler antes, hein? 😉

Garanta os seus!

Sinopse: Volume 1: Charlie Spring e Nick Nelson não têm quase nada em comum. Charlie é um aluno dedicado e bastante inseguro por conta do bullying que sofre no colégio desde que se assumiu gay. Já Nick é superpopular, especialmente querido por ser um ótimo jogador de rúgbi. Quando os dois passam a sentar um ao lado do outro toda manhã, uma amizade intensa se desenvolve, e eles ficam cada vez mais próximos. Charlie logo começa a se sentir diferente a respeito do novo amigo, apesar de saber que se apaixonar por um garoto hétero só vai gerar frustrações. Mas o próprio Nick está em dúvida sobre o que sente – e talvez os garotos estejam prestes a descobrir que, quando menos se espera, o amor pode funcionar das formas mais incríveis e surpreendentes. Volume 2: Charlie e Nick são melhores amigos, mas tudo muda depois que eles se beijam em uma festa. Charlie acredita que cometeu um grande erro e arruinou a amizade dos dois para sempre, e Nick está mais confuso do que nunca. Mas aos poucos Nick começa a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva e, com a ajuda de Charlie, descobre muitas coisas sobre o mundo que o cerca, sobre seus amigos – e, principalmente, sobre ele mesmo.

Charlie Spring é um garoto gay que sofreu bastante bullying quando foi tirado do armário contra a sua vontade. No novo ano escolar, apesar do pior ter passado, Charlie ainda lida com uma baixa autoestima e emoções conflitantes, pois está saindo com um cara que só o vê às escondidas. Seu dia a dia começa a ganhar um toque mais bonito de cor quando ele faz um novo amigo, o simpático e amigável Nick Nelson, um garoto popular que faz parte do time de rúgbi e que é sua dupla em uma das aulas. Apesar do estereótipo de “heterotop”, Nick é um cara livre de preconceitos, que rapidamente se afeiçoa a Charlie e constrói uma amizade muito forte com ele – convidando-o inclusive para fazer parte do time de rúgbi. Acontece que os caminhos do coração nem sempre são fáceis de trilhar: Charlie não demora a perceber que tem um crush em seu novo amigo, mas sabe que não será correspondido porque Nick é, na sua visão evidentemente hétero; já Nick começa a querer estar perto de Charlie de uma maneira que não ocorre com seus outros amigos, gerando uma dúvida sobre o que ele realmente sente e deixando-o confuso sobre sua sexualidade.

Eu já havia entrado em contato com a escrita de Alice Oseman por meio de Rádio Silêncio, em que ela também aborda temas como bullying, busca pela própria identidade e orientação sexual, sendo estes temas muito presentes em suas obras. Mas se Rádio Silêncio traz melancolia (inclusive um dos personagens dessa HQ aparece por lá), Heartstopper é uma história que vem para nos lembrar que nem sempre ser adolescente é fácil, mas que mudanças são bem-vindas e que é delicioso se apaixonar. A história de Charlie e Nick me deixou com um sorriso bobo no rosto, e ver a amizade dos dois crescendo para um sentimento mais profundo deixou meu coração absolutamente quentinho.

A autora deixa muito claro que a sexualidade das pessoas não é assunto de ninguém além dos próprios envolvidos, bem como evidencia que a aparência de alguém não deve ser levada em consideração para dizer se determinada pessoa é isso ou aquilo (como foi muito bem pontuado pela professora de Charlie e Nick ao ouvir comentários a respeito do segundo). Além disso, Alice Oseman também dá espaço principalmente a Nick, para que ele passe pelos momentos de dúvida necessários ao seu próprio processo. Vivemos em uma sociedade heteronormativa, o que faz com que a heterossexualidade seja esperada como padrão, sem necessidade de justificativa; quando os sentimentos mudam e Nick se vê apaixonado pelo melhor amigo, ele também sente medo e confusão, porque tudo que sabia sobre si mesmo parece nebuloso. Apesar de não forçar rótulos aos seus personagens, Alice Oseman permite que a bissexualidade (tão invisibilizada na mídia) ganhe destaque e faça parte do processo de construção identitária de Nick.

Enquanto no volume 1 acompanhamos com mais enfoque a amizade dos protagonistas sendo construída, é no volume 2 que esses debates que mencionei acontecem, bem como a evolução da relação dos dois. Charlie tem um papel de apoio fundamental a Nick, e isso é possível também graças a uma família amorosa que o acolhe da forma como ele é. Mas não se enganem, ser abertamente gay é só um dos aspectos sobre Charlie, existem muitos outros que o tornam encantador aos olhos de Nick e dos leitores: ele é um ótimo corredor, é super fofo, toca bateria e tem um All Star super cool. Além disso, mesmo tendo uma experiência amorosa triste com o boy que o escondia, ele jamais cobra que Nick saia do armário de forma forçada, acolhendo a necessidade de sigilo até que Nick entenda o que está vivenciando. Já no segundo volume da HQ, posso dizer que é Nick quem brilha ainda mais, sendo impossível não se apaixonar pelo carisma, caráter e gentileza do personagem, foi incrível acompanhar sua jornada de autodescoberta. ❤ Ele é, disparado, meu personagem favorito em toda a HQ (e em todas as minhas leituras recentes). Sua sensibilidade, sua preocupação com quem ele gosta e sua lealdade fazem de Nick um personagem que você quer guardar num potinho e proteger.

Além do casal principal, a autora traz para as páginas o carismático grupo de amigos de Charlie, composto por Tao, Elle e Aled (é ele um dos protagonistas de Rádio Silêncio). Aqui a representatividade se faz presente mais uma vez, sendo Elle uma garota trans e cujo crush em Tao é nitidamente correspondido. Do lado de Nick, ele faz amizade com um casal de namoradas, Tara e Darcy, que dão muita força para que ele se sinta acolhido e confortável com sua sexualidade. Ter essa rede de apoio faz toda a diferença para os personagens, e eles são aquela gang que qualquer um de nós gostaria de ter.

Eu sempre digo que acho importante que minorias possam se ver representadas em histórias felizes, não apenas tramas cheias de dor ou que falem sobre o peso do preconceito. Heartstopper é um exemplo maravilhoso disso, trazendo com muita doçura um relacionamento que começa com um “- Oi! – Oi!” diário e se transforma num amor puro e genuíno entre dois garotos que se encontram por acaso. É um acalento para o coração ler uma história tão fofa e adorável, cheia de cenas divertidas, bem-humoradas e fofíssimas, com direito a muitos beijos e demonstrações de afeto. Conteúdos que tragam a possibilidade de felicidade para quem é tão oprimido são necessários, e eu não poderia ter ficado mais feliz em ver tantas coisas boas na vida de Charlie e de Nick quanto vi em Heartstopper. E, com muita alegria no coração, digo: aqui renasce e reside uma fangirl entusiasmada, que quer ler e reler mil vezes essa história (e maratonar a adaptação da Netflix, é claro!). Se eu recomendo as HQs? Acho que a resenha já deixou isso óbvio, né! ❤

Título original: Heartstopper: A Graphic Novel
Autora:
Alice Oseman
Editora: Seguinte
Número de páginas: 288 (volume 1) e 320 (volume 2)
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Avesso da Pele – Jeferson Tenório

Oi pessoal, tudo bem?

Sempre que um livro me deixa sem palavras, tenho dificuldade de escrever a respeito. Os dedos pousam no teclado e eu fico reticente sobre como transmitir pra vocês as emoções que determinado título me causou. É o caso de O Avesso da Pele, vencedor do Prêmio Jabuti 2021, ao qual tentarei fazer justiça por meio dessa resenha.

Garanta o seu!

Sinopse: O Avesso da Pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção, superação e liberdade. Com habilidade incomum para conceber e estruturar personagens e de lidar com as complexidades e pequenas tragédias das relações familiares, Jeferson Tenório se consolida como uma das vozes mais potentes e estilisticamente corajosas da literatura brasileira contemporânea.

A trama acontece pelo ponto de vista de Pedro, um jovem que teve seu pai, Henrique, assassinado por uma ação policial desastrosa e incompetente. Ao visitar o apartamento de seu progenitor, ao olhar para as coisas que ele deixou, para a bagunça intocada, Pedro busca encontrar as peças do quebra-cabeças que formava seu silencioso, reflexivo, filosófico e ressentido pai. Mas, por mais que o leitor acompanhe as reflexões de Pedro, a narrativa é direcionada à segunda pessoa do singular: o protagonista “conversa” com Henrique enquanto relembra as informações de seu passado que conseguiu resgatar e tenta dar sentido à história da família.

De forma singela, mas impecável, Jeferson Tenório escreve sobre personagens com uma delicadeza ímpar. O foco é Henrique, cuja existência foi uma sucessão de dificuldades vencidas (e cansaço acumulado). Desde muito novo ele sentiu o peso que a cor de sua pele exerce, e as vezes em que foi parado pela polícia foram incontáveis – mesmo durante a infância, em uma partida de futebol inocente com os amigos, por exemplo. Conforme crescia, Henrique foi sendo exposto a diferentes formas de violência racial, demorando inclusive a entender que era vítima desse sistema. Sua primeira namorada, Juliana, é a personagem que representa a falta de autorresponsabilização branca pelo racismo, que se posiciona como não racista “por namorar um negro” e achar que o assunto será superado caso não se fale a respeito.

Com o tempo, Henrique entra em contato com os estudos raciais e ganha consciência de que o problema é muito maior do que ele. É também nessa época que seu relacionamento com Juliana termina – mas ela não será a única mulher a minar sua estrutura emocional. As memórias de Pedro sobre o casamento de seus pais são marcantes e intensas, repletas de cicatrizes psicológicas. É então que Martha, sua mãe, também ganha espaço na obra pra ter seu passado contado, o que auxilia o leitor a nutrir alguma empatia por ela, que causou diversas violências na vida de Henrique. A própria Martha teve uma vida de perdas, somadas à dificuldade de ser uma mulher negra em uma sociedade racista e machista: primeiro, ela perdeu seus pais, mortos em um acidente; depois, seus sonhos de um casamento feliz ao sofrer abusos de seu primeiro marido; e, por fim, o afeto de Henrique. A relação dos dois só perdura porque ambos sentem uma necessidade visceral de serem importantes para alguém. Essa necessidade dá espaço como uma “justificativa” para as ações descabidas e a toxicidade da relação, porque o ego de cada um se infla com a ideia de ser assim tão necessário. Por meio da voz de Pedro, o leitor navega por essa desestrutura familiar que foi a sina tanto de Henrique quanto de Martha, e que obviamente respingou em sua própria criação devido à posterior separação de seus pais.

Um aspecto muito marcante na vida de Henrique reside em sua decisão de se tornar professor. Jeferson Tenório se utiliza dessa escolha para criticar um sistema educacional falido, que invisibiliza o professor e o imenso abismo estrutural que existe entre as classes mais abastadas e as mais pobres. Henrique dá aula em uma escola de periferia e presencia as situações mais absurdas (como um aluno enrolando um baseado em sua aula), o que deixa explícito como nossos professores são expostos a situações extremas para as quais não foram preparados. É angustiante perceber como anos da vida de Henrique foram desperdiçados em uma triste resignação, especialmente quando consideramos a trajetória difícil que ele percorreu para chegar onde chegou.

Não posso falar de O Avesso da Pele sem mencionar a violência policial. Ao ler a sinopse, já conhecemos o desfecho de Henrique, mas ainda assim as páginas não nos preparam para o modo e para o terrível timing em que isso ocorre. Porém, não é apenas na morte que a violência policial marcou a história de Henrique. Como mencionei antes, desde a infância ele presenciou o modo como sua pele atrai olhares e provoca ações. Um episódio é bastante marcante: trabalhando como assistente em um escritório de advocacia, ele se esforça e junta dinheiro pra comprar uma roupa cara, semelhante a de seus pares no escritório. Mas, fugindo da chuva no Parcão (um parque localizado num bairro de classe alta aqui de Porto Alegre), ele é confundido com um assaltante e é parado pela polícia. A humilhação e a postura vinda daqueles que deveriam proteger a todos – ele incluso – são revoltantes, e Henrique se desfaz da jaqueta pela qual batalhou tanto. Afinal, de nada adiantam as peças de roupa que cobrem seu corpo; sua pele negra está sempre à vista, como um alvo. E é justamente por isso que o pai ensina ao filho a importância de preservar o avesso: aquilo que ninguém vê, aquilo que é só dele para ninguém tirar nem envenenar com ódio e preconceito. Porque, citando as páginas do livro, “não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo”.

O Avesso da Pele é um livro emocionante, intenso e envolvente. Mesmo tocando em temas tão difíceis, Jeferson Tenório mantém a narrativa fluida e poética, de forma a nos envolver e encantar, mesmo nas dificuldades. Esse é um daqueles livros que marcam a nossa experiência como leitores (sensação muito parecida com a que O Peso do Pássaro Morto me causou) e eu recomendo de coração que você dê espaço para conhecer a história de Henrique – bem como daqueles que o cercam.

Título original: O Avesso da Pele
Autor:
Jeferson Tenório
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 192
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow – Jessica Townsend

Oi pessoal, tudo bem?

A série Nevermoor conseguiu de novo, e mais uma vez entrou pra lista dos meus queridinhos! Hoje vim contar pra vocês minhas impressões sobre Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow, terceiro volume da saga – e meu favorito até agora! ❤ Atenção: como essa resenha fala do terceiro livro, existem alguns spoilers dos volumes anteriores.

Garanta o seu!

Sinopse: Morrigan Crow e seus amigos não só sobreviveram ao primeiro ano como integrantes da exclusiva Sociedade Fabulosa, mas também ajudaram a acabar com o Mercado Macabro e se provaram leais a Unidade 919. Agora, Morrigan enfrenta um novo e empolgante desafio: dominar as Artes Fabulosas e controlar o poder que ameaça consumi-la. Mas uma estranha doença tomou conta de Nevermoor, infectando os Fabulanimais, fazendo com que eles percam a razão e se tornem nãonimais raivosos e agressivos. Conforme o número de vítimas da Vazíola se multiplica e o pânico se instaura, a cidade que Morrigan tanto ama se vê dominada pelo medo e pela desconfiança. Morrigan então se dá conta de que talvez seja capaz de encontrar uma cura para a doença, mas sua solução pode colocar não só a ela, mas a toda Nevermoor em um perigo maior do que jamais imaginaria.

De uns anos pra cá, confesso pra vocês que tem sido difícil pra mim ler séries de fantasia porque elas trazem conceitos e nomes que eu esqueço entre o lançamento de um livro e outro. 😂🤡 Felizmente, Jessica Townsend é maravilhosa e ajuda as Dorys humanas como eu, rememorando tanto os nomes dos personagens como também os locais anteriormente mencionados e os principais fatos ocorridos nos volumes anteriores. Foi assim que lembrei do que era necessário para ler Vazíola: no segundo volume de Nevermoor, acompanhamos Morrigan tendo suas primeiras lições a respeito do Fabulânio na Sociedade Fabulosa, sendo todas elas carregadas de um julgamento negativo por parte do seu professor, Onstald. Acontece que o final do segundo livro traz uma reviravolta importante quando Onstald se sacrifica para salvar Morrigan e a garota mais uma vez é tentada por Ezra Squall, o maior inimigo de Nevermoor, a se tornar sua aprendiz. A jovem Mog segue categórica em sua decisão de aprender a controlar o Fabulânio sozinha, e é nessa situação que Vazíola começa. Quando Fabulanimais (seres que parecem animais, mas são tão inteligentes quanto seres humanos) começam a agir de modo estranho, transformando-se em nãonimais (animais comuns), Morrigan percebe que a Vazíola é muito mais do que uma simples doença.

Se eu tiver que escolher uma única palavra pra definir os caminhos tomados por Jessica Townsend em Vazíola, seria fascinante. Eu simplesmente amei a forma como a autora aprofundou assuntos anteriormente abordados na saga que até então não tinham tido tanto espaço. O primeiro deles é o desabrochar de Morrigan como estudante da Soculosa: se antes a garota só era ensinada sobre o lado negativo dos Fabuladores, em Vazíola ela começa a aprender as maravilhas projetadas e realizadas por eles. O leitor, assim como Mog, fica encantado ao descobrir que existe toda uma escola da Soculosa destinada aos Estudos Fabulosos (a Escola das Artes Fabulosas), e que há um grupo de estudos que se debruça sobre essa habilidade e sua história. Morrigan se aproxima dessas pessoas, em especial da Faburraposa chamada Sophia, que a guia pela Escola e a apresenta ao seu principal material de estudo: o Livro das Horas Fantasmagóricas. Aqui novamente eu faço um paralelo entre Nevermoor e Harry Potter, porque o Livro me remeteu instantaneamente à Penseira: é um objeto fantástico capaz de transportar o usuário até um momento específico do passado (ou trazer essa cena do passado para ser assistida no presente). É desse modo que Mog não apenas aprende mais técnicas sobre o domínio do Fabulânio como também se depara com um jovem – e ainda inocente – Ezra Squall.

Por mergulhar nos seus estudos fabulosos e por nutrir uma profunda curiosidade em saber mais sobre a juventude de Squall, Mog acaba se afastando dos seus amigos da Soculosa, que infelizmente perdem um pouco de espaço nas páginas do livro. A garota divide sua atenção entre os estudos de Fabulânio e a preocupação com a Vazíola pois, conforme ela se espalha pela cidade, a Sociedade Fabulosa e os cidadãos de Nevermoor começam a entrar em pânico, já que os Fabulanimais passam a atacar pessoas e, uma vez que a onda de fúria passa, eles entram em uma espécie de coma seguido pela perda daquilo que fazem deles seres pensantes. É em relação a esse fato que reside uma pequena decepção que tive: a obviedade do segredo por trás do vírus que acredita-se ser a Vazíola; não é nada difícil descobrir o que ele significa, ainda que isso tenha pouca importância ao olharmos o panorama geral da trama.

Um dos pontos mais importantes desse volume é o fato de que a autora traz o debate sobre a tolerância, o medo do desconhecido e o perigo do preconceito. Usando como desculpa o medo da Vazíola, as “pessoas de bem” (aqui citados como Cidadãos Preocupados de Nevermoor, um partido político que se coloca contra todos os Fabulanimais) começam eles mesmos a tomar atitudes violentas, repressoras e hostis contra Fabulanimais – não tendo nem o vírus pra justificar tais ações, diferente daqueles que perdem o controle devido à doença. Fica claro que existem muitas pessoas no reino que não consideram Fabulanimais como seus iguais, e o uso do vírus é o argumento para diminuí-los, isolá-los e ferir sua dignidade. Como se não bastasse, mesmo as instituições nas quais Mog deveria confiar passam a desapontá-la, tendo como exemplo disso as ações de cortina de fumaça utilizadas pela Soculosa (nós, brasileiros, conhecemos bem essa estratégia).

Enquanto Morrigan, seu Patrono Jupiter e outros membros influentes da Sociedade tentam vencer a ameaça da Vazíola, outro personagem bem instigante vai ganhando espaço nas páginas. Para a minha surpresa, me vi muito mais interessada nele do que em qualquer outro nesse momento: estou falando do nosso infame Ezra Squall. Não costumo ser fã de vilões, acho que Ezra tem mais a oferecer do que somente sua vilania. A participação de Squall foi muito mais relevante ao longo da trama, saindo um pouco da fórmula “seja minha aprendiz” usada nos livros um e dois. Como mencionei, Morrigan viu o passado dele nas Horas Fantasmagóricas e se pegou se perguntando em que momento ele se transformou de um menino aprendiz para um assassino que traiu seus amigos Fabuladores, provocando o massacre de Nevermoor. Nas interações entre os dois personagens, senti que existem aspectos não contados da história do antagonista que podem render reviravoltas na forma como o leitor o encara. Uma história de redenção, talvez? Ainda não sei. Mas no momento em que fica claro que a Soculosa é capaz de manipular os fatos a seu favor, sacrificando pessoas se necessário, e também com a presença de uma ameaça tão grande quanto a de Squall surgindo, essa teoria ganha força na minha cabeça.

Vazíola: A Caçada a Morrigan Crow é um livro que não para. Ele é cheio de novas informações, tem muitas reviravoltas e o final é incrível, fazendo com que o leitor mal possa esperar pelo próximo volume. Mas o que mais gostei na obra é ver que Morrigan está crescendo – assim como a série. É muito prazeroso ver que a trama evolui e amadurece junto da sua protagonista; Mog ainda é jovem e tem muito pela frente, mas Vazíola já fez com que a garota assumisse desafios e responsabilidades bastante pesados para seus pequenos ombros. Já estou ansiosa pra acompanhar seus próximos passos. E se você gosta de séries de fantasia com um universo criativo e bons personagens, se joga em Nevermoor. É fabulosa! 😉

Título original: Hollowpox: The Hunt for Morrigan Crow
Série: Nevermoor
Autora: Jessica Townsend
Editora: Rocco
Número de páginas: 400
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: A Cidade de Vapor: Contos Reunidos – Carlos Ruiz Zafón

Oi pessoal, tudo bem?

A resenha de hoje é sobre A Cidade de Vapor, o último livro publicado com escritos inéditos do aclamado autor Carlos Ruiz Zafón. Vamos conhecer?

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Sinopse:  A Cidade de Vapor reúne todos os contos de Carlos Ruiz Zafón. Pensado pelo autor como uma verdadeira homenagem aos leitores que o acompanharam ao longo da série iniciada com A Sombra do Vento, este livro contém todo o mistério, o terror, a magia e a fascinação que sempre permearam suas histórias. Um livro emocionante, do qual ecoa a magia de um escritor ainda capaz de nos fazer sonhar, A Cidade de Vapor é um passeio pelos temas, lugares e personagens do universo literário da série O Cemitério dos Livros Esquecidos. Criativos e envolventes, os contos aqui reunidos trazem à vida personagens conhecidos e novos, todos carregando a melancolia e a beleza da escrita de Zafón, e nos convidam a entrar em seu mundo onírico e em sua cidade de névoa.

Fazia um bom tempo que eu tinha vontade de conhecer a escrita de Zafón, e ter recebido A Cidade de Vapor foi uma boa forma de ter um gostinho de sua obra sem necessariamente precisar consumir todos os livros da série O Cemitério dos Livros Esquecidos. Os contos giram em torno de personagens e cenas da série, mas é possível entender o contexto sem tê-la lido.

A gente percebe que um autor sabe como manipular e explorar todo o potencial das palavras quando, mesmo sem ter lido a obra original e as referências prévias, ele consegue envolver o leitor em sua obra. Enquanto lia A Cidade de Vapor, mesmo sem conhecer a fundo os personagens mencionados, me mantive curiosa pra saber o que se desenrolaria em suas histórias.

Zafón tem um estilo muito poético de narrar, além de um vocabulário rico. Há algum tempo eu não me sentia desafiada por uma leitura nesse sentido, e A Cidade de Vapor me colocou para pesquisar palavras e conceitos, bem como me obrigou a ler com calma e paciência pra absorver todo o significado de cada alegoria, de cada metáfora. De certa forma, essa experiência me transportou para a minha infância e adolescência, quando eu lia obras destinadas a idades mais elevadas que a minha e tinha sempre um dicionário comigo pra “traduzir” os desafios de vocabulário apresentados. Foi uma sensação engraçada e gostosa de nostalgia, sabem? 

Meu conto favorito foi o primeiro, Blanca e o Adeus, que narra um episódio da infância de David Martín (protagonista do segundo livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos), que se encanta com uma menina rica que se aproxima dele e com quem constrói uma amizade. Eles não se veem todos os dias, pois ela mora com a mãe e só vai para aquela região ao visitar o pai, e o menino faz tudo que está ao seu alcance para ter uma nova chance de encontrá-la. O final do conto é surpreendente e traz uma dose sobrenatural para o universo de Zafón. Meu segundo conto favorito foi o segundo, Sem Nome, apesar dele ser muito triste. Nesse, conhecemos a história da mãe de David Martín, cuja gravidez e parto foram muito sofridos. É bastante angustiante perceber o que ela passa para colocar o filho no mundo, e o coração do leitor se parte ao fim do conto. Em poucas páginas, é fácil torcer por essa personagem sem nome.

Não tenho muito mais a dizer sobre A Cidade de Vapor porque, de modo geral, eu compreendi o livro até onde meu conhecimento sobre a série permitiu. Como mencionei, Zafón conseguiu me envolver em sua narrativa e manter meu interesse, mas o mérito reside mais em seu estilo narrativo do que nas histórias propriamente ditas. Pra quem é fã do autor e já leu O Cemitério dos Livros Esquecidos, imagino que a experiência seja ainda melhor, e nesse caso recomendo bastante que dê uma chance à obra. Afinal, já que Zafón nos deixou tão cedo, nada mais justo do que aproveitar cada palavra delineada por ele, né?

Título original: La Ciudad de Vapor
Autor:
Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma
Número de páginas: 184
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Evidências de uma Traição – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Adoro romances epistolares e sigo entusiasmada para conhecer novas obras de Taylor Jenkins Reid. Por isso, não perdi a chance de conferir Evidências de uma Traição quando foi liberado ao Time de Leitores da Companhia das Letras. Bora de resenha? 🙌

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Sinopse: Uma jovem desesperada no sul da Califórnia se senta para escrever uma carta para um homem que ela nunca conheceu – uma escolha que mudará sua vida para sempre. Pouco a pouco, a correspondência entre Carrie Allsop e David Mayer revela os detalhes de um caso devastador entre seus cônjuges. Ao longo das cartas, eles confessam seus medos e compartilham sentimentos escondidos no fundo de suas almas, tentando decidir como seguir em frente. Contada inteiramente por meio de cartas, Evidências de uma traição é uma história de decepções, mágoas e segredos, mas também de perdão e recomeços, e de como, no caso de algumas pessoas, a dor pode libertar.

Carrie Allsop e David Mayer se conhecem da pior forma possível: descobrindo que seus cônjuges estão tendo um caso. Carrie descobre a traição primeiro ao encontrar cartas de uma mulher (Janet) nas coisas do marido, e envia sua própria carta a David na busca de mais informações a respeito, pedindo que ele lhe envie cartas de seu marido (Ken) que possam estar com a amante. David, de início, fica estupefato e se recusa a acreditar no que está acontecendo, até ele próprio descobrir as cartas que sua esposa guarda. No meio de tanta mágoa e ressentimento, Carrie e David guardam esse segredo até decidirem o que fazer.

Os capítulos são intercalados entre as cartas de Carrie e de David, com algumas semanas de diferença, já que não moram na mesma cidade. Eles desabafam sobre vários aspectos de seus casamentos: Carrie conta como o marido tem deixado-a de lado, enquanto David revela que as condições financeiras da família têm sido fontes de stress entre ele e a esposa, por exemplo. Aos poucos, as cartas vão ganhando cada vez mais nuances pessoais, e os dois protagonistas vão se desnudando um pro outro por meio das palavras. A confiança cresce por compartilharem uma dor em comum, mas aos poucos percebemos que eles têm bastante afinidade, e o teor mais “polido” das cartas vai dando lugar a um tom afetuoso. Quando os dois decidem se encontrar pessoalmente, o livro causa no leitor uma grande curiosidade pra saber como foi esse momento, mas infelizmente não temos essa visualização: o romance epistolar, justamente por ter esse formato, nos faz aguardar o relato parcial de como foi o café que Carrie e David tomaram juntos.

Consigo entender a reticência dos protagonistas em confrontarem seus parceiros, pois ambos acreditam que ainda existe amor em seus relacionamentos. Abrir mão dessa crença pode ser muito difícil, mas conforme eles encontram mais cartas trocadas entre os amantes, pior esse dilema se torna. Senti muita pena de Carrie, especialmente, porque seu marido é um embuste de marca maior. Ela se sente culpada por não conseguir gerar um filho, e a pressão dessa situação sempre recaiu sobre ela. Em nenhum momento seu médico e seu marido (também médico) pensaram em examinar a taxa de espermatozóides de Ken, por exemplo, pra descartar alguma dificuldade na concepção. Carrie abriu mão de seus estudos e de seu futuro pra ser uma dona de casa e mulher exemplar, para atender às expectativas do marido, mas sua vida se transformou em solidão. David, por outro lado, se ressente da quantidade de filhos que teve, ainda que os ame de todo coração. Uma das gravidezes foi acidental e gerou gêmeos, o que comprometeu o orçamento familiar e levou a uma ruptura na parceria entre ele e a esposa. Os dois acabam fingindo que esse tema não existe, mas o elefante na sala está sempre lá.

Eu achei que os dois personagens criados por Taylor Jenkins Reid são muito humanos, e suas motivações, compreensíveis. Gostei do desenrolar dos fatos e de como Carrie e David vão entendendo mais sobre os próprios sentimentos. Um influencia o outro de forma positiva, e é inevitável que o leitor passe a shippá-los. Porém, a autora nem sempre opta pelos caminhos óbvios, e as questões que envolvem o coração e a família são mais complexas do que parecem. O final traz uma reviravolta bacana e que dá um gostinho de justiça, além de colocar os personagens em posições nas quais eles gostariam de estar – a gente concordando ou não com eles.

Resumindo, Evidências de uma Traição é um bom livro sobre os dilemas envolvendo o casamento, a confiança e o amor próprio. Taylor Jenkins Reid é excelente em criar personagens verossímeis, cujos sentimentos nós também poderíamos viver em algum momento. Ademais, o livro tem um ritmo veloz devido ao formato de cartas, fazendo com que seja muito rápido terminá-lo e descobrir as decisões de Carrie e David. Apesar de não ter sido a experiência literária mais marcante da minha vida, é um livro bacana que eu recomendo. 😉

P.S.: aqui temos referências à Daisy Jones, pra quem já leu, e também ao insuportável e odioso Mick Riva (que eu detonei na resenha de Malibu Renasce). Será que já dá pra chamar de Jenkinsverso? 😂

Título original: Evidence of the Affair
Autora:
Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 101
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: Mulher, Roupa, Trabalho – Mayra Cotta e Thais Farage

Oi pessoal, tudo bem?

Eu estava com saudades de ler um livro de não-ficção, e felizmente tive uma excelente experiência com minha primeira leitura concluída de 2022: Mulher, Roupa, Trabalho: Como se Veste a Desigualdade de Gênero. 

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Sinopse: Este não é mais um livro de estilo. Nestas páginas, a consultora de moda Thais Farage e a advogada Mayra Cotta investigam a relação da mulher com a roupa de trabalho e o que há por trás das escolhas diárias que fazemos diante do espelho. “Será que esse vestido me deixa velha?”, “Essa camisa me faz parecer séria demais?”, “Essa blusa é muito estampada?”, “Ainda tenho idade para usar esse tipo de saia?”. Quem é mulher sabe que, apesar de rotineira, arrumar-se para o trabalho não é tarefa fácil. Não importa o que vestimos, a roupa feminina é sempre avaliada, comentada e criticada por todo mundo, e o resultado é que quase nunca sentimos que nossas peças são apropriadas para a situação. Mas por que nossa relação com a roupa de trabalho é tão complicada? De onde vêm tantas questões que parecem nem existir para o gênero masculino? Foi com isso em mente que Mayra Cotta e Thais Farage escreveram Mulher, roupa, trabalho, um livro que repensa a moda a partir de suas raízes políticas e questiona a política a partir da moda, tendo como base a roupa das mulheres no espaço de trabalho. O objetivo aqui é questionar as estruturas engessadas que determinam o que devemos ou não vestir para trabalhar e tentar subvertê-las. Só assim poderemos nos divertir mais com os looks e nos preocupar menos em nos espremer para caber neles.

Eu passei a me interessar por moda recentemente, depois de ter produzido conteúdos com uma consultora de estilo em uma das marcas que minha equipe atendia na empresa em que trabalho. Porém, o assunto gênero me atrai faz muito tempo: costumo dizer que desde pequena eu era feminista, só não sabia o nome disso ainda – inclusive fiz meu TCC focado nesse assunto (analisei a representação feminina em Jessica Jones e o link está aqui, pra quem quiser conferir). Quando, via Time de Leitores, tive a oportunidade de ler um livro que unisse ambos os assuntos e ainda falasse sobre a mulher no mercado de trabalho (coisa que um dos meus livros favoritos, Clube da Luta Feminista, aborda), não pensei duas vezes em mergulhar de cabeça.

Mas é importante ressaltar que meu interesse por moda é superficial. Não acompanho tendências, alta costura, a história por trás desse mundo todo. Além disso, aproveito para sinalizar que o livro traz “roupa” no nome porque, muito mais do que moda, é nisso que ele foca: a forma como as roupas fazem parte da história da humanidade e como elas servem a papéis sociais e de poder ao longo desse tempo. Se você se identificou com a minha forma de pensar sobre moda e sobre essa temática que citei, é muito provável que você curta a leitura também. 😉

Mayra Cotta e Thais Farage fazem um trabalho primoroso em questionar e também elucidar as muitas formas pelas quais as mulheres tiveram seu papel no mercado de trabalho definido. Uma pergunta feita na obra é um ótimo exemplo disso: se você é mulher, é bem provável que já tenha se perguntado em algum momento se “tal roupa” é adequada para determinada situação, se alguma peça pode causar um efeito indesejado em alguma reunião ou se o tamanho e a modelagem da sua saia podem interferir na sua credibilidade no ambiente de trabalho, por exemplo. E a verdade é que, segundo a linha de raciocínio das autoras, o mercado de trabalho foi construído ao longo dos séculos para que nós, mulheres, nunca estejamos adequadas: ou seremos velhas demais, ou jovens demais, ou mostraremos pele demais, ou seremos “sisudas ou senhorinhas” demais na forma de nos vestirmos. Se usarmos maquiagem, pareceremos fúteis; se não usarmos, pareceremos desleixadas. É um jogo impossível de vencer. E o livro infelizmente não traz uma solução, porque não existe uma única resposta simples que seja capaz de reverter essa dinâmica: como Moda, Roupa e Trabalho habilmente demonstra, isso é uma herança antiga e propositalmente orquestrada.

Compreender o fato de que, desde o Renascimento, as mulheres têm sido colocadas na esfera privada da sociedade (o lar, a família, os filhos) enquanto homens são destinados à esfera pública (o trabalho) é a primeira coisa a ser feita para que possamos encarar os desdobramentos disso, que são sentidos ainda no presente. As autoras usam diversos exemplos pra conectar esse abismo na dinâmica de poder, e é claro que as vestimentas são os mais marcantes. As roupas desconfortáveis das mulheres entre o século XVII e XVIII (não me recordo com clareza agora, me perdoem) ilustram bem essa situação: espartilhos, anáguas e armações de ferro para sustentação dos tecidos são alguns dos itens que transformavam a mulher em um adorno, pois aquele era o papel a ela destinado. E ainda hoje temos a nossa aparência como balizadora da nossa capacidade como profissionais, que está sempre sendo questionada e até mesmo ameaçada.

A obra é dividida nos seguintes temas: uma introdução, “Rumo à construção o nosso próprio poder”, seguida dos capítulos “Mulheres e mundo do trabalho: como chegamos até aqui”, “A moda e os códigos”, “As roupas e o assédio sexual no trabalho”, “Mãe com estilo e estilo de mãe”, “A busca eterna pelo look ideal” e a conclusão: “Como fazer a roupa trabalhar para nós?”. Com esses títulos, acredito que seja possível que vocês captem a essência dos assuntos trabalhados ao longo das páginas, mas é importante deixar claro que as autoras se preocupam em costurar todos esses assuntos, conectando um capítulo aos conceitos vistos no anterior. Por mais que sejam muitos aspectos históricos e sociais a serem debatidos, Mayra Cotta e Thais Farage conseguiram tornar o livro muito fluido, interessante, dinâmico e nada cansativo. Cada problematização feita me deixou imersa e me colocou para refletir, provavelmente sendo esse o motivo pelo qual demorei a sentar e escrever uma resenha.

Mulher, Roupa, Trabalho é uma leitura imperdível pra quem se interessa por estudos de gênero e deseja se aprofundar em um dos muitos aspectos que giram em torno das dinâmicas de poder desiguais entre homens e mulheres. As autoras são didáticas e conseguem aprofundar várias questões – e, onde não conseguem, deixam sugestões de títulos e de bibliografia pra que o leitor possa continuar o estudo por si mesmo. Foi uma leitura que facilmente entrou pras melhores obras lidas recentemente e eu torço pra que você resolva dar uma chance também. Prometo que vale a pena. 😉

Título original: Mulher, roupa, trabalho: Como se veste a desigualdade de gênero
Autoras:
Mayra Cotta e Thais Farage
Editora: Paralela
Número de páginas: 228
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Minha Avó Pede Desculpas – Fredrik Backman

Oi pessoal, tudo bem?

Que Gente Ansiosa foi um dos meus queridinhos de 2021, vocês já sabem. Por isso, resolvi ler outras obras de Fredrik Backman e hoje divido minha experiência com Minha Avó Pede Desculpas.

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Sinopse: Elsa não é uma criança como qualquer outra. Dona de uma maturidade e inteligência acima da média (graças as suas constantes pesquisas na Wikipedia), ela só lê o que chama de literatura de qualidade: quadrinhos, Harry Potter e os clássicos infantis. Todas as noites, Elsa se refugia nas histórias que sua avó lhe conta, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Despertos, um lugar mágico onde o normal é ser diferente. Quando a avó morre de repente, Elsa perde o chão e também a capacidade de habitar locais imaginários. De tão desolada, Elsa inicialmente não se entusiasma com a missão que a avó lhe deixou: distribuir cartas que funcionam como um caça ao tesouro. As missivas devem ser entregues às pessoas do prédio onde a menina mora. É assim que começa a aventura de Elsa e também a aventura do leitor. Vamos aos poucos desvendando as cartas juntamente com ela para descobrir a fascinante vida que sua avó viveu e o que se esconde por trás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de uma comunidade muito especial.

Elsa é uma menina diferente. Em seus quase 8 anos de vida, ela já sabe como isso pode ser difícil. Sozinha na escola e alvo frequente de bullying, Elsa tem como única e melhor amiga a sua excêntrica avó. Mas quando eu digo excêntrica, acreditem em mim: ela é excêntrica mesmo. A ponto de pular a grade de um zoológico e atirar nas pessoas com uma arminha de paintball. Juntas, as duas vivem muitas aventuras, tanto no mundo real quanto em um lugar mágico criado por sua avó chamado Terra-dos-Quase-Despertos. Lá, as histórias sobre princesas, wurses, bichos-nuvem, sombras e cavaleiros se tornam reais. Por isso, quando a avó de Elsa morre, a angústia e a dor preenchem o coração da menina. Mas sua avó deixou para a pequena uma última missão: uma caça ao tesouro envolvendo cartas que ela deixou desculpando-se com diversas pessoas do prédio em que elas moram.

Diferente do que acontece em Gente Ansiosa, aqui Fredrik Backman não explora tanto o humor irônico em sua narrativa, o que é totalmente compreensível considerando que a protagonista é uma garotinha de quase 8 anos (essa informação sim é repetida à exaustão propositalmente). É bastante triste perceber que desde tão novinha Elsa precisa aprender a correr e a aguentar as pancadas provocadas por crianças já tão sombrias. Quando sua avó falece, nosso coração também pesa por ela. Porém, o que Elsa não imaginava é que a caça ao tesouro e a entrega das cartas proporcionaria muito mais do que cumprir um desejo final de sua avó, mas também a criação de novos vínculos e amizades. Uma delas com um wurse, outra com o grande guerreiro Coração de Lobo. Esses termos são oriundos diretamente da Terra-dos-Quase-Despertos. O wurse é um cachorro enorme que vivia no prédio escondido e que sua avó cuidava; Coração de Lobo é um ex-soldado que a avó de Elsa conheceu e salvou (pois era médica) quando ele ainda era uma criança. Eles se tornam um time inesperado, e tanto o wurse quanto Coração de Lobo passam a proteger Elsa de perigos que ela ainda não sabe que existem.

Essa transposição da Terra-dos-Quase-Despertos e do reino de Miamas (o favorito de Elsa naquela Terra) para a vida real é muito bacana. Até a metade do livro, eu não consegui mergulhar de cabeça e não via tanta atratividade nas passagens que falavam sobre os reinos. Porém, em determinado momento, Elsa começa a entender as conexões que sua avó fizera, e o leitor também compreende que tudo que existia nesse mundo da imaginação tinha uma contraparte no nosso mundo. Isso instiga nossa curiosidade e nos faz querer conectar outros links antes que eles sejam revelados de forma mais explícita.

Eu sou uma pessoa bem chorona, mas curiosamente eu não me emocionei com as passagens envolvendo a avó de Elsa. Achei um pouco forçada a excentricidade dela. Porém, a conexão que ela tem com cada morador do prédio é muito bonita e ajudou a criar uma afeição por sua personagem. Existem histórias ali que demoram a serem contadas, mas revelam camadas inesperadas em personagens que pareciam ser rasos. Um exemplo disso é Britt-Marie, a “nêmesis” da vovó, uma mulher implicante e cheia de manias (que protagoniza outro livro de Fredrik Backman), ou “a mulher da saia preta”, uma vizinha que transmite uma imagem inatingível mas guarda uma dor muito profunda dentro de si. Agora, se tem alguém que me emociona, esse alguém é o wurse. É facilmente um dos meus personagens favoritos, e a amizade dele com Elsa ganhou meu coração.

Minha Avó Pede Desculpas é excelente em nos mostrar que as pessoas vão além das aparências, que é importante pedir perdão pelos nossos erros e que está tudo bem ser diferente. Aliás, o livro celebra as diferenças das mais variadas formas: ao evidenciar que Elsa é perfeita do jeito que é, ao mostrar o brilho de seu vizinho com síndrome (cujo tipo nunca é dito, e nem é necessário) e mostrar que cada pessoa no prédio tem uma história e uma personalidade diferentes, mas que são pessoas incríveis mesmo assim – ou talvez por isso. Nesse sentido, o livro me lembrou Gente Ansiosa: mais do que a história sobre Elsa e sua avó, fiquei muito mais interessada nas relações entre os personagens. Apesar de não ter causado o mesmo efeito em mim que o meu queridinho já mencionado, é um ótimo título e eu certamente recomendo! 🙂

Título original: My Grandmother Asked Me to Tell You She’s Sorry
Autor:
Fredrik Backman
Editora: Fábrica231
Número de páginas: 384
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.