Resenha: Acorda Pra Vida, Chloe Brown – Talia Hibbert

Oi pessoal, tudo bem?

Minha experiência com chick-lits ainda não é muito vasta, então quando a editora Paralela me proporcionou a chance de ler mais um, não hesitei. Fiquei ainda mais animada por ter sido ele escrito e protagonizado por uma mulher negra, afinal, precisamos de mais representatividade na literatura. Então bora conhecer Acorda Pra Vida, Chloe Brown? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Depois de quase ser atingida por um carro em alta velocidade, Chloe Brown se deu conta de que seu obituário seria um tanto entediante. Para reverter essa situação, ela decide montar uma lista de atividades necessárias para finalmente “acordar para a vida”. Mudar assim não é nada fácil, mas, para sua sorte, Chloe encontra alguém que — mesmo a contragosto — pode ajudá-la nessa missão. Seu vizinho Red Morgan é um motoqueiro misterioso, que tem várias tatuagens e mais sex appeal que uma estrela de Hollywood. No entanto, um acordo leva Chloe e Red a se aproximarem e perceberem que suas primeiras impressões um do outro estavam erradas. E que, mesmo com traumas do passado e receios quanto ao futuro, o amor nunca perde a chance de surpreender.

Após quase ser atropelada, Chloe Brown se põe a refletir sobre sua vida e chega à conclusão de que ela é muito tediosa. Com o desejo de ter um epitáfio mais digno, ela decide criar uma lista pra “acordar pra vida”, que inclui marcos como acampar, se embebedar e fazer sexo sem compromisso. A lista não parece muito fora da curva, né? Acontece que pra Chloe são verdadeiros desafios: ela sofre de fibromialgia, uma doença crônica que causa dores e fraqueza pelo corpo todo e pode ser muito debilitante. Mas, para tomar o controle da própria vida, Chloe se muda da (rica) casa dos pais para um apartamento alugado e lá ela conhece Redford Morgan, o (charmoso) zelador que parece se dar bem com todo mundo, menos com ela. Acontece que o próprio Red tem uma visão deturpada da personalidade de Chloe, confundindo sua reserva e timidez com esnobismo, mas os dois têm a chance de conversar quando ele a ajuda a… resgatar um gato de uma árvore!

Já começo dizendo que esse plot do gato é maravilhoso. Mesmo dolorida e sabendo que seu corpo vai cobrar um preço, é adorável ver uma rabugenta Chloe se propondo a escalar uma árvore para salvar um gatinho – pelo qual ela se afeiçoa, mesmo sem querer admitir. A personagem é irônica, mau humorada e divertida, ainda mais quando ela fica conversando mentalmente com o gato. 😂 Também é muito gostoso de acompanhar a forma como Red percebe que Chloe não é a menina rica de nariz empinado do apartamento em frente, mas sim uma mulher que se esconde atrás de roupas fofas (e cheias de botões) e uma expressão gelada. E já que falamos no protagonista masculino, vale ressaltar: Red é incrível. Eu gosto dos caras legais (zero fetiche em bad boys), e Red é um deles, brilhando do início ao fim! Carismático, sedutor e seguro de si mesmo, foi impossível não me deixar ser fisgada por ele também.

A narração do livro é em terceira pessoa e intercala os pontos de vista de ambos os personagens. Tanto Chloe quanto Red são pessoas que já tiveram seus corações partidos, e o livro faz questão de mostrar um outro lado do relacionamento abusivo que até então eu não tinha visto – no qual o homem é a vítima. A ex de Red era uma jovem rica que se achava superior a ele e minou tanto sua autoconfiança que isso impactou diretamente na sua profissão, fazendo com que o personagem fique na defensiva com Chloe devido ao seu status social. A protagonista feminina, por sua vez, se viu cada vez mais sozinha conforme suas dores crônicas passaram a ser um impedimento em suas relações, o que fez com que ela simplesmente desistisse de tentar se abrir pro mundo. Mas a química entre os dois e a atração inegável que sentem são o primeiro passo pra que essas barreiras comecem a ser quebradas.

Um ponto que me chamou a atenção reside no fato de que a capa e a sinopse dão a entender que veremos um romance apenas fofo, mas na verdade encontramos também uma trama +18, cheia de palavrões e cenas explícitas de sexo. Não sei vocês, mas eu falo muuuito palavrão, então o fato dos personagens usarem também não me incomodou em nada, porque pra mim eles ficaram ainda mais reais (apesar de reconhecer que o uso de “caralho” pra ênfase foi um pouco exaustivo). No livro há masturbação, cenas de sexo e descrições bem ~calientes, o que até então eu não tinha visto nos chick-lits que li. Isso proporcionou um equilíbrio bem interessante entre ser fofo e provocativo. Além disso, corpos femininos fora do padrão hegemônico e eurocêntrico (não apenas por Chloe ser negra, mas por ser plus size) sendo desejados e apreciados é algo que precisa estar mais presente na cultura pop. Mulheres de todas as formas precisam ser descritas e vistas como pessoas dignas de amor e desejo, independentemente do que o padrão de beleza tente ditar. Arrasou, Acorda Pra Vida, Chloe Brown!

Como pontos negativos, eu diria que o exagero no jeito turrão da Chloe me incomodou, apesar de entender seu mau humor constante. Sofro de enxaqueca e é foda mesmo ser legal quando você tá morrendo de dor.  Agora, o aspecto que mais testou minha paciência (pra não dizer que me irritou profundamente rs) foi a falta de diálogo entre o casal, sendo este o maior gerador de conflitos. Os personagens tem mais de 30 anos mas nem sempre se comportam de acordo. As brigas deles acontecem sempre por mal entendidos, e esse é um dos clichês de que eu menos gosto na literatura (o dos personagens que não conversam como adultos). É meio inadmissível que duas pessoas dessa idade se comportem como jovens de 15 anos que não são capazes de dialogar com clareza e maturidade. Se eu não tenho paciência pra isso nem com protagonistas de YAs, imagina com dois marmanjos. Foi muito por causa disso que diminuí a nota do livro, ainda que tenha gostado bastante dele.

Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance gostoso, picante, envolvente e com um casal que transborda química. O fato de ter sido escrito por uma mulher negra que traz como protagonista também uma mulher negra é mais um ponto importante, pois precisamos dar espaço pra esse tipo de obra brilhar. Trazer a negritude e o corpo não-padrão como dignos de uma história de amor comum, não guiada exclusivamente por  debates mais profundos, é bacana pra mostrar que pessoas negras podem encontrar espaço em tramas que fazem a gente suspirar – e não apenas com as que evidenciam sua dor. Inclusive, se alguma pessoa negra estiver lendo esse post e quiser se manifestar, vou adorar saber sua opinião sobre isso nos comentários! 😊 Em resumo, Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance envolvente e que, apesar dos defeitinhos, me entreteve do início ao fim. Recomendo!

Título Original: Get a Life, Chloe Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 296
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Filhos de Virtude e Vingança – Tomi Adeyemi

Oi pessoal, tudo bem?

Filhos de Sangue e Osso, o primeiro livro da trilogia O Legado de Orïsha, foi um verdadeiro sucesso. Por isso, a ansiedade para conferir a continuação, Filhos de Virtude e Vingança, era alta. Hoje conto pra vocês o que achei. 😀

Garanta o seu!

Sinopse: No segundo volume da série, depois de enfrentar o impossível, Zélie e Amari conseguiram trazer a magia de volta para Orïsha. Entretanto, o ritual foi mais poderoso do que elas imaginaram e os poderes reapareceram não somente para os maji, mas também para todos que tinham ancestrais mágicos. Agora, Zélie se esforça para unir todos os maji em uma Orïsha onde o inimigo é tão poderoso quanto eles. Quando a realeza e os militares formam uma aliança perigosa, Zélie precisa lutar para garantir o direito de Amari ao trono e proteger os novos maji da ira da monarquia. Com uma guerra civil iminente, Zélie tem uma missão: encontrar uma forma de unir o reino ou assistir a Orïsha ruir.

O livro começa poucas semanas depois do fim do primeiro. Após o ritual que trouxe a magia de volta, descobrimos que algo no processo saiu errado e despertou magia também naqueles que tivessem ancestrais mágicos, criando assim os tîtán. Com isso, as tensões sociais ficam ainda mais desequilibradas: os maji conseguiram sua magia de volta, sim, mas agora precisam enfrentar a nobreza e o exército que os odeiam e que agora têm magia pra contra-atacar. É nesse contexto que o trio composto por Zélie, Amari e Tzain precisa agir, mas o espírito da protagonista está profundamente abalado. Desde a morte de seu pai, Zél acha que toda a sua jornada não valeu a pena e que só serviu para dar ainda mais poder aos opressores. A personagem está apática e mergulhada na dor, diferente da sua versão no primeiro livro que era impetuosa (e até imprudente). Para tornar a dinâmica ainda mais complicada, uma guerra civil ameaça estourar: um grupo de maji conhecido como Iyika (A Revolução) está disposto a atacar a monarquia com força total, indo contra o desejo de Amari de reivindicar o trono.

Começo essa resenha dizendo que início do livro foi MUITO confuso e truncado pra mim. Ele já mostra Amari tentando realizar comícios para convencer o povo a aceitá-la como rainha, ao mesmo tempo em que a narrativa simplesmente insere o novo conceito de tîtán do nada, como se já tivesse usado esse termo antes (o que volta a se repetir mais pra frente, quando a autora insere nomes de personagens como se já os conhecêssemos). Me obriguei a reler algumas páginas do início para ter certeza de que não, Tomi Adeyemi não tinha feito uma explicação prévia sobre aqueles novos conceitos, e eu meio que me forcei a simplesmente aceitá-los.

Os personagens também estão em lugares sombrios. Zélie está deprimida (e com razão) após perder seu Baba e ser traída por Inan. O que me incomodou nela, na verdade, não foi sua apatia. Foi a forma como sua relação com Amari retrocedeu: a protagonista deixa os Iyika tratarem sua amiga com muita rispidez e preconceito, o que pra mim é um gesto de deslealdade. Esperava que a personagem defendesse o caráter de Amari frente aos Iyika, e não é o que acontece. Em compensação, Zélie floresce ao conhecer três ceifadores que fazem parte do grupo rebelde, em especial seu novo braço direito, Mâzeli. Se responsabilizar por aqueles jovens e ensinar a eles tudo que sabe sobre o poder dado por Oya são duas motivações que a engrandecem como líder e como pessoa. Ainda na família Adebola, preciso dizer quão frustrante foi ver Tzain sendo esquecido no churrasco. O irmão de Zélie foi uma figura central no primeiro livro, ainda que não tenha tido espaço para se desenvolver. Eu torcia para que isso acontecesse nesse volume, mas infelizmente Tzain segue sendo preterido.

Agora vamos falar da monarquia? Os dilemas morais de Amari e Inan não me convenceram. Ambos ficavam argumentando para si mesmos coisas como “se eu fizer isso, serei uma pessoa horrível; mas se eu não fizer, não darei fim a este horror causado pela guerra”. Parecia que eles mudavam seus parâmetros morais o tempo todo, trazendo uma inconsistência irritante pros dois. Amari em especial me incomodou demais, não me lembrando em nada a menina cheia de atitude e justiça do primeiro livro, e sim uma garota mimada que coloca os outros em risco desnecessariamente. Esse vai e vem de decisões e dilemas deixou o livro bem mais cansativo do que precisava ser. Já Inan mete os pés pelas mãos mais de uma vez, em especial sob a influência de sua mãe, Nehanda. Nada de novo no front, né? O príncipe (agora rei) nunca foi consistente, então nem esperava isso dele – ainda que no final ele tenha surpreendido positivamente.

Existem outros personagens importantes, mas não quero entrar no detalhe sobre todos eles, com exceção de dois: Roën, o mercenário do primeiro livro, apareceu pouco, mas roubou a cena. Gostaria que ele tivesse tido uma participação mais constante, considerando seu carisma e sua relação com Zélie. Mama Agma novamente se torna uma presença importante, ainda que não apareça o tempo todo. Ela é decisiva para a condução da guerra e obriga Zélie a abrir mãos dos medos e laços do passado que a impedem de agir.

O que foi complicado pra mim ao ler Filhos de Virtude e Vingança é que o livro anda em círculos. Há diversos momentos que poderiam ter sido mais curtos, o que evitaria tantas inconsistências no comportamento e nos sentimentos dos personagens. A história não é ruim, ela tem bons momentos, mas não consegue atingir o mesmo patamar do livro que iniciou a trilogia. Apesar dos pesares, Tomi Adeyemi nos traz um final bombástico e chocante, e eu realmente não sei o que esperar do que vem por aí. Com todas essas ressalvas e ponderações, continuo gostando e indicando a trilogia O Legado de Orïsha, mas recomendo apenas que vocês não esperem de Filhos de Virtude e Vingança a mesma maestria narrativa vista no livro anterior.

Título Original: Children of Virtue and Vengeance
Série: O Legado de Orïsha
Autor:
 Tomi Adeyemi
Editora: Fantástica Rocco
Número de páginas: 432
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Impulso – Ashley Audrain

Oi pessoal, tudo bem?

Uma das grandes apostas da editora Paralela para 2021 é O Impulso, cuja prova antecipada tive a oportunidade de conferir. E olha, não vai ser fácil falar desse livro bombástico não, viu? Mas prometo fazer o meu melhor. 😂

Garanta o seu!

Sinopse: Blythe Connor está decidida a ser a mãe perfeita, calorosa e acolhedora que nunca teve. Porém, no começo exaustivo da maternidade, ela descobre que sua filha Violet não se comporta como a maioria das crianças. Ou ela estaria imaginando? Seu marido Fox está certo de que é tudo fruto do cansaço e que essa é apenas uma fase difícil. Conforme seus medos são ignorados, Blythe começa a duvidar da própria sanidade. Mas quando nasce Sam, o segundo filho do casal, a experiência de Blythe é completamente diferente, e até Violet parece se dar bem com o irmãozinho. Bem no momento em que a vida parecia estar finalmente se ajustando, um grave acidente faz tudo sair dos trilhos, e Blythe é obrigada a confrontar a verdade. Neste eletrizante romance de estreia, Ashley Audrain escreve com maestria sobre o que os laços de família escondem e os dilemas invisíveis da maternidade, nos convidando a refletir: até onde precisamos ir para questionar aquilo em que acreditamos?

O Impulso é narrado em primeira pessoa por Blythe em um discurso direcionado ao seu ex-marido, Fox. A obra inicia com Blythe observando a casa do ex, que parece o cenário perfeito com sua esposa grávida e seus dois filhos – sendo a criança mais velha, Violet, filha de Fox com Blythe. A protagonista-narradora diz então que vai contar a ele o seu ponto de vista sobre tudo que aconteceu na vida do casal, e a partir desse ponto ela remonta ao início do relacionamento, bem como nos fornece informações sobre sua mãe e sua avó.

O Impulso é, em essência, um thriller sobre maternidade. Tanto Blythe quanto sua mãe, Cecilia, e sua avó, Ella, tiveram histórias muito difíceis e traumatizantes. Cecilia chegou a dizer à filha que as mulheres da família são problemáticas, e essas palavras marcaram Blythe. Quando ela conhece Fox, que vem de um lar estruturado e feliz, Blythe vê a oportunidade de se afastar das sombras que a acompanham, mas também de fazer diferente. Sabendo que Fox deseja casar e ter filhos, Blythe proporciona isso a ele – mas ela não demora a perceber que a maternidade não é simples e, principalmente, não deveria ser exercida sem vontade genuína.

É impossível ler O Impulso sem pensar em Precisamos Falar Sobre o Kevin. Até a cena do parto, em que Blythe reluta para deixar sua filha vir ao mundo, lembra a reação de Eva (mãe de Kevin). A verdade é que Blythe demora a perceber que a tomada de decisão para ser mãe foi motivada por vontade de agradar ao marido e por pressão social, já que espera-se que toda mulher queira ser mãe. O Impulso expõe as pressões da maternidade compulsória de forma intensa, deixando claro que essas inseguranças e medos são reforçados diariamente quando vemos discursos repetidos à exaustão de que “a maternidade é uma benção” e que “só olhar pro rostinho faz valer a pena”. E não me entendam mal, eu não estou dizendo que não vale a pena ser mãe. O que estou dizendo é que a romantização da maternidade é perigosa e não nos prepara, enquanto mulheres, para uma realidade cheia de mudanças físicas, exaustão mental e até mesmo solidão. Blythe vivencia isso na pele ao achar que é a única mulher do mundo a vivenciar tais problemas, e basta seguir UM Instagram de maternidade real pra sabermos que não, ela não é a única.

O livro ganha a atmosfera de thriller conforme Violet cresce. Blythe e a filha não conseguem criar um vínculo, e a menina só ama e respeita o pai. Recusa em mamar, choro ao ficar no colo de Blythe e uma negação em tratar a mãe com carinho são alguns dos sinais de alerta que preocupam Blythe (e que Fox se recusa a enxergar). Quando Violet passa a demonstrar sinais de crueldade e falta de remorso, a protagonista sente que o abismo entre elas aumenta e que está mais só do que nunca, já que seu marido parece responsabilizá-la pela falta de vínculo. Aliás, já que estou falando no Fox, vamos parar um minutinho pra ressaltar quão lixo é este homem? O cara idealiza a família perfeita e culpa Blythe por não consegui-la, causando também um silenciamento amargo e difícil de digerir. Por amar Violet incondicionalmente, ele tira a voz de sua esposa ao se recusar a tentar compreendê-la, partindo para uma suposição de que Blythe está exercendo seu maternar de um jeito errado (alô alô, gaslighting). Fox queria uma mulher dócil e capaz de suprir as expectativas irreais e idealizadas dele, colocando Blythe em uma posição que a obriga a não apenas tentar atingir os padrões da sociedade, mas também os seus.

Quando Blythe se vê grávida do segundo filho, ela enxerga também a oportunidade de fazer tudo diferente. Dessa vez ela deseja a criança de todo o coração, e o vínculo é imediato. Ela finalmente vê um caminho que a absolva de sua própria culpa, mas o leitor sabe que algo está para acontecer; a protagonista-narradora já deixou isso claro. E é aí que O Impulso fica perturbador, causando em mim uma sensação muito parecida com a que Verity causou (mas no sentido do desconforto, não no do ritmo frenético e impossível de largar). A sensação sufocante e o medo do que vem a seguir permeiam o relato de Blythe, tornando a experiência bem angustiante.

Como pontos negativos, eu traria o formato do relato e a “barriga” que a obra ganha após um evento traumático. Apesar de intercalar a narrativa em primeira pessoa de Blythe com descrições sobre as vidas de Ella e Cecilia, grande parte do livro é um monólogo. Isso pode cansar um pouco, já que traz somente o ponto de vista de Blythe, o que inclui suas divagações. E a “barriga” acontece depois da metade do livro, quando a obra parece não evoluir muito em direção à resolução do mistério. Na minha opinião, isso poderia ter sido um pouco mais ágil e enxuto.

O Impulso é um livro excelente para colocar em xeque nossas crenças a respeito da maternidade. Com um ritmo inquietante e fatos que mexem com o leitor, ele também funciona muito bem como o thriller que se propõe a ser – mas exercendo também o papel de um drama familiar. Acho improvável que ele não faça o leitor refletir em algum nível, e só por isso já vale a pena conferir. Romantizar a maternidade é algo que prejudica a todas as mulheres, e eu adoraria ver mais obras que tocassem nessa ferida por aí.

Título original: The Push
Autora: Ashley Audrain
Editora: Paralela
Número de páginas: 328
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Depois do Sim – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Faz um tempo que o nome da Taylor Jenkins Reid está no meu radar e, felizmente, tive a chance de entrar em contato com a escrita da autora por meio do excelente Depois do Sim. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Após onze anos de casamento, Lauren e Ryan chegam à triste conclusão de que não estão felizes juntos. Esse poderia ser o fim, mas para os dois é só o começo. Eles vão passar por um ano diferente de tudo aquilo que já viveram, no qual aprenderão muito mais sobre si mesmos do que seriam capazes de imaginar. “Depois do sim” é uma história sobre o que acontece quando a paixão parece não estar mais lá. Sobre as várias facetas do amor. Sobre aprender a mantê-lo, perdê-lo, redescobri-lo e aceitá-lo como ele é. Acima de tudo, é a história de um casal preso nas armadilhas de seus hábitos e manias, mas disposto a buscar um novo e inusitado caminho para fazer dar certo.

O livro começa nos apresentando a um casal visivelmente contrariado na companhia um do outro. O motivo do stress e da animosidade é simples (bobo até) e reside no fato dos dois estarem saindo de um estádio lotado e não lembrarem onde deixaram o carro. Desse ponto, a narradora – Lauren  volta no tempo e começa a contar como seu relacionamento iniciou e como ele chegou àquele momento que acabamos de presenciar. Conhecemos a versão jovem universitária de Lauren e também de seu marido, Ryan, e o amor intenso, saudável e sólido que os dois construíram. Depois lemos a respeito do pedido de noivado e do casamento. Até aqui, a história de amor é de fazer suspirar. Pouco a pouco, conforme vamos chegando perto do presente, pequenos sinais de desgaste vão surgindo: o sexo é quase inexistente, as brigas por coisas corriqueiras aumentam e a distância entre os dois também. E o leitor fica tão triste quanto Lauren e Ryan ao presenciar essa transição, que culmina num acordo desesperado: eles ficarão separados por um ano, sem contato, na tentativa de retomarem a relação após esse prazo. E essa decisão promove mudanças profundas nos protagonistas – especialmente Lauren, cujo ponto de vista nos guia.

Qualquer pessoa que já viveu um relacionamento longo tem grandes chances de se identificar bastante com Depois do Sim. Taylor Jenkins Reid é muito competente em fazer a transição natural que acontece do início do namoro (repleta de paixão) para uma relação duradoura (mais baseada na rotina), colocando um ingrediente fundamental pra fazer com que Lauren e Ryan fracassem: o ressentimento. Se no início da relação um era mais paciente com o outro, dispostos inclusive a concordar com certas coisas só pra ver o parceiro feliz, com o tempo essa prática se torna insustentável. Então Lauren e Ryan carregam uma carga de coisas não-ditas e de mágoas não resolvidas que mina a relação ao ponto de ser impossível dividir o mesmo lar. A decisão de ficarem um ano separados é pouco ortodoxa e causa estranhamento, mas os dois decidem que será necessário esse tempo longe pra entenderem se ainda se amam e sentem saudade um do outro.

Adoro que a autora trate da separação e da mudança do amor com realismo, mas sem ser cínica. Lauren não se torna alguém que não acredita mais no amor ou no próprio casamento – mas se questiona pra entender onde eles erraram, o que poderia ter sido diferente. Isso é muito relacionável, especialmente se você já passou por algum tipo de rompimento significativo. Por mais que no início a separação seja sufocante e Lauren ache impossível viver sem Ryan, aos poucos ela percebe que existe muito na vida além da relação que iniciou aos 19 anos. Sua família tem um papel primordial nisso, e eu adorei os pequenos detalhes que caracterizam cada membro dela. Os Spencer são muito carismáticos, incluindo a ácida e divertida vó Lois. Lauren descreve pequenas “manias” da família, como disputar a melhor rota no trânsito, e há pinceladas disso em várias cenas de forma muito natural, o que causa a sensação de que conhecemos aqueles personagens. Além deles, Lauren também conta com o apoio dos amigos para manter a cabeça ocupada e expandir seus horizontes a respeito de onde a vida pode levá-la (e do quão surpreendente ela pode ser).

Um ponto importante reside no fato de que Lauren busca exemplos à sua volta, desejando ser um deles pra saber o que vem a seguir (como sua mãe, tendo um namorado aos 59 anos, ou sua avó, que amou seu avô a vida toda). Mas a verdade é que cada vida e cada relacionamento são únicos. A gente não consegue, por mais que queira, saber o que vem pela frente. E quando ela se dá conta de que precisa deixar a vida acontecer e ser surpreendida pelo que cada dia reserva, Lauren começa a amadurecer de uma forma que ela não imaginava ser possível.

Depois do Sim é um livro que trata de um tema complexo e por vezes doloroso, mas Taylor Jenkins Reid narra cada passo dessa relação de uma forma divertida, suave e inspiradora, mesmo nos momentos mais difíceis. A visão da autora e da protagonista sobre as relações é bastante real, mas de forma que deixe espaço para a esperança e para a renovação. Lauren é uma narradora fácil de gostar, assim como as pessoas que a cercam, e o leitor se vê torcendo pra que de fato o melhor aconteça após aquele ano (mesmo que isso possa significar um divórcio). Mas, mais do que ser um livro envolvente, Depois do Sim também é uma obra que nos mostra o quanto vale a pena nos conhecermos e estarmos felizes com a nossa própria companhia para então apreciarmos a do outro. Terminei o livro com o coração quentinho, acreditando no amor mas também nas inúmeras possibilidades de recomeço que a vida nos oferece. Favoritado! ❤

Título original: After I Do
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Fabulador: O Chamado de Morrigan Crow – Jessica Townsend

Oi pessoal, tudo bem?

A resenha de hoje é um combo entre manter o foco na minha meta literária de 2021 e matar a curiosidade sobre a continuação de Nevermoor, uma série que já me cativou. Fabulador é o segundo volume e desenvolve ainda mais a história da ex-azarada Morrigan Crow. Atenção: a resenha tem alguns spoilers do volume anterior!

Garanta o seu!

Sinopse: Morrigan Crow pode ter derrotado sua maldição mortal, superado os desafios perigosos e entrado para a Sociedade Fabulosa, mas sua jornada por Nevermoor e todos os seus segredos está apenas começando… Os cidadãos da mágica e secreta cidade de Nevermoor têm uma memória viva dos ataques orquestrados pelo único Fabulador que conhecem, Ezra Squall – e sem dar uma chance para Morrigan, agem como se ela fosse tão mortal quanto. Por isso, não é surpresa que, quando integrantes da Sociedade Fabulosa começam a sumir, Morrigan se torne a principal suspeita. Agora, Morrigan e seus amigos, os antigos e os novos, terão que provar sua inocência antes que ela seja expulsa da Sociedade, o único lugar que ela chama de casa, para sempre.

Após descobrir que é uma Fabuladora, compartilhando da mesma habilidade que o grande vilão Ezra Squall possui, Morrigan fica bastante insegura com o seu futuro em Nevermoor. A jovem conseguiu vencer os desafios e ser aceita na Sociedade Fabulosa, mas será que seus colegas de unidade também farão o mesmo por ela? Quando um bilhete que ameaça expor o segredo de Morrigan e da Unidade 919 para toda a Sociedade chega, seus membros passam a ser chantageados – e quase todos se ressentem de Morrigan por isso. Para tornar o ano da garota ainda mais difícil, seu patrono Jupiter North está em uma missão para encontrar membros desaparecidos da Soculosa, e Ezra Squall segue como uma presença que vigia cada passo da menina que ele deseja como aprendiz.

Nevermoor: Os Desafios de Morrigan Crow terminou de um jeito que tornou impossível não aguardar ansiosamente pela continuação. O desejo do vilão em ser professor de Morrigan, somado ao fato de que finalmente conheceremos a Sociedade Fabulosa pela perspectiva da protagonista, foram o gancho perfeito para a continuação. Fabulador flerta bastante com Harry Potter, mais do que o primeiro livro: há uma escola dividida por “casas” (aqui representadas pelas Artes Arcanas e as Artes Mundanas), há um vilão usando uma conexão secreta com a protagonista para plantar dúvidas em sua mente e há até mesmo uma traição. Mas, apesar de isso tornar Fabulador um pouquinho mais lugar-comum, não chega a tirar o brilho da obra. Jessica Townsend conseguiu manter o carisma de sua história e desenvolver mais elementos interessantes.

Jupiter, infelizmente, fica um pouco apagado nesse volume, perdendo aquele arzinho de Chapeleiro Maluco que eu achava bem charmoso nele. Morrigan, por outro lado, se torna uma protagonista da qual gosto mais. Ela tem mais atitude, mas não é egoísta; ela pensa no bem dos outros, mas também luta por si mesma; ela fica triste pela sua exclusão, mas tem empatia para compreender os dilemas de seus colegas. Hawthorne continua sendo o amigo mais leal possível, enquanto Cadence ganha um espaço bastante merecido no trio (mais uma semelhança com Harry Potter, invertendo o gênero dos personagens rs).

Além de aprofundar o cenário que envolve a Sociedade Fabulosa, Fabulador também nos leva a outros lugares em Nevermoor (como o interessantíssimo Museu dos Momentos Roubados). O plot do desaparecimento de membros da Soculosa é muito legal e coloca os jovens protagonistas em uma missão investigativa cheia de ação, o que torna a leitura ágil e envolvente. Além disso, ver Morrigan aprender pouco a pouco sobre o que significa ser uma Fabuladora e a controlar seus poderes é muito instigante.

Fabulador é uma ótima sequência para a série Nevermoor e não caiu na “maldição do segundo livro”. Apesar das semelhanças com outras séries infantojuvenis do gênero, gosto da proposta de Jessica Townsend e do universo construído por ela. Enxergo muito potencial na saga e mal posso esperar pra ver Morrigan aprendendo mais sobre seus poderes e convivendo com outras pessoas habilidosas. ❤ E se você curte esse estilo de livro, te digo que com certeza vale a pena adicionar a série à sua listinha de leituras!

Título original: Wundersmith: The Calling of Morrigan Crow
Série: Nevermoor
Autora: Jessica Townsend
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 368
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Ickabog – J. K. Rowling

Oi pessoal, tudo certo?

Assim como boa parte do fandom, eu também me decepcionei demais com a J. K. Rowling desde seus tweets transfóbicos. Inclusive não pretendia (nem pretendo, até o momento) adquirir seus livros novos, mas acabei recebendo como uma ação de divulgação da Editora Rocco um exemplar de O Ickabog. Decidi fazer um esforço de descolar um pouco a experiência de leitura da obra das coisas horríveis que ela disse, e felizmente esse esforço foi recompensado, porque eu me deparei com um ótimo livro (e devo admitir: mesmo zangada, continuo gostando de tudo que essa mulher escreve – exceto seus tweets, obviamente).

Garanta o seu!

Sinopse: Com a altura de dois cavalos, olhos que brilham como bolas de fogo, garras afiadas e compridas feito navalhas, o Ickabog está chegando. Um monstro mítico, um reino em perigo e uma aventura que irá testar a bravura de duas crianças. Descubra uma história brilhantemente original, divertida e irônica, sobre o poder da esperança e da amizade, de J.K. Rowling, autora de Harry Potter, uma das maiores contadoras de história de todos os tempos. O reino da Cornucópia já foi o mais feliz do mundo. Tinha muito ouro, um rei com os melhores bigodes que você poderia imaginar, e açougueiros, padeiros e queijeiros cujas comidas deliciosas faziam uma pessoa dançar de prazer. Tudo parecia perfeito, mas nos pântanos enevoados ao norte, segundo a lenda, vivia o monstruoso Ickabog. Qualquer pessoa sensata sabia que o Ickabog era apenas um mito para assustar as crianças e fazê-las se comportar. Mas quando esse mito ganha vida própria, lançando uma sombra sobre o reino, duas crianças – os melhores amigos Bert e Daisy – embarcam em uma grande aventura para desvendar a verdade, descobrir onde está o verdadeiro monstro e trazer a esperança e a felicidade de volta para Cornucópia. Em uma bela edição capa dura O Ickabog traz 34 ilustrações coloridas de crianças brasileiras de 7 a 12 anos de vários estados do Brasil, vencedoras do Concurso de Ilustração Ickabog.

O Ickabog é um livro que J. K. começou a escrever para os seus filhos quando eles eram pequenos, mas só concluiu durante a pandemia no ano passado. Cada capítulo foi sendo disponibilizado na internet e também rolou um concurso no qual crianças brasileiras foram escolhidas para ilustrar o livro. A edição física está fantástica, a Editora Rocco caprichou muito em cada detalhe: a capa é dura e alguns elementos têm um brilho dourado muito bonito, além das ilustrações nas páginas internas. 

A história começa com um típico “Era uma vez…”, que já nos transporta para o tempo tranquilo da infância. A autora conta a história do reino da Cornucópia, um lugar feliz, tranquilo e conhecido por sua excelente gastronomia e produção de vinho. O reino era governado pelo gentil (mas ingênuo e vaidoso) Rei Fred, cujos amigos mais próximos eram o vil Lorde Cuspêncio e Lorde Palermo, braço direito de Cuspêncio. Quando um aldeão pede ajuda ao rei para que salve seu cachorro desaparecido de um monstro conhecido como Ickabog (até então apenas uma lenda), uma série de eventos trágicos dá a Cuspêncio a desculpa perfeita para manipular o rei e fazer da Cornucópia apenas uma sombra do que era. E mudar esse destino é algo que está em mãos muito jovens: mais precisamente os amigos de infância Daisy e Bert.

Dá pra notar como a premissa já transmite o caráter lúdico da história, não é mesmo? A obra trata de assuntos pertinentes de uma forma fácil para que as crianças entendam, mas também capaz de fazer os adultos refletirem: há um governo que se isenta da responsabilidade (causando muita desigualdade e sofrimento), a corrupção destruindo a vida de milhares de pessoas, as graves consequências das “fake news” (ainda que ditas de outra forma) e também o preconceito contra aquilo que é desconhecido. E ao mesmo tempo em que fiquei impressionada com o quanto o livro dialoga com a realidade em que vivemos, também foi impossível não ficar me perguntando como uma autora que fala com tanta sensibilidade sobre esses assuntos pode corroborar na vida real com discursos que oprimem grupos já marginalizados. Tenho muita dificuldade de assimilar isso, sério. :/

Agora, falando sobre os protagonistas, Daisy e Bert são personagens cativantes. Ambos tiveram perdas familiares causadas pelas pessoas no poder e tiveram suas vidas radicalmente mudadas. Daisy em especial é uma personagem que causa muita afeição: mesmo com toda a crueldade que ela presenciou e mesmo com uma carga tão grande de dor ainda na infância, a menina se transformou numa jovem que cuida do próximo e que crê na bondade dos outros. Daisy é um ótimo exemplo para as crianças, tanto de coragem quanto de resiliência e de empatia.

Como pontos negativos eu traria somente dois aspectos: o livro ganha uma certa “barriga” lá pela metade que torna um pouco mais difícil prosseguir, especialmente porque há uma longa sequência de negatividade acontecendo; o segundo ponto é o final, que soou apressado em comparação a todo o tempo que a autora dedicou ao resto da narrativa – especialmente porque é no terço final que um personagem MUITO importante aparece, e ele merecia mais espaço.

O Ickabog foi uma leitura leve, divertida e que me transportou pras histórias que eu lia quando era pequena, ainda que com uma crítica social mais elaborada. É difícil não fazer paralelos com os (des)governos que ganharam força nos últimos anos e pensar que países como o nosso estão sendo jogados cada vez mais fundo na lama por irresponsabilidade e crueldade alheia. Mas, apesar de trazer a dor e o sofrimento da Cornucópia ao longo das páginas, O Ickabog termina como um livro infantil deve terminar: com a esperança de um “felizes para sempre”. E em tempos como esses, toda dose de esperança é bem-vinda. 🙂

Título original: The Ickabog
Autora:
J. K. Rowling
Editora: Rocco
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos – Nick Littlehales

Oi pessoal, tudo bem?

Em função da pandemia, a parceria com as editoras foi um pouquinho diferente esse ano. No caso da Editora Rocco, o foco dos envios foi lançamentos e livros de ação promocional, o que me fez sair da zona de conforto em mais de uma oportunidade. Nem todas foram experiências bacanas, como por exemplo Você É Fodona!, mas Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos, de Nick Littlehales, é um exemplo um pouco melhor. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Neste livro inovador, Nick Littlehales, coach do sono para algumas das principais estrelas do mundo do esporte, como Cristiano Ronaldo e David Beckham, expõe suas estratégias para que as utilizemos de forma ideal. Ele apresenta seu programa de recuperação do sono R90 sustentado por sete elementos que chama de Indicadores-Chave, ou os sete passos para melhorar a qualidade do descanso e da recuperação. Você vai descobrir como mapear seu próprio ciclo do sono, melhorar o ambiente em que dorme, identificando qual a temperatura ideal e o melhor colchão, e por que tirar um cochilo é realmente bom para você. A observação dessas condições, aliada a uma consequente mudança de hábitos, fará com que utilize o tempo que passa dormindo para obter o máximo de recuperação física e mental. Você sentirá uma melhora de ânimo e, em consequência, na sua capacidade de desempenho no trabalho, em casa, nas relações interpessoais, assim como conseguirá identificar o momento certo para se desligar (e também as luzes e o celular) e, desta forma, evitar o estresse, outras doenças e viver mais confiante e feliz.

Eu sempre tive problemas pra dormir, tanto para pegar no sono quanto com a leveza dele. Eu culpo, no geral, minha ansiedade. 😛 Mas ao ler Sono eu aprendi que existem outros fatores que interferem na qualidade do nosso descanso, e alguns deles são mais fáceis de controlar do que eu pensava.

Nick Littlehales ascendeu como coach do sono ao trabalhar para grandes clubes de futebol, como Real Madrid e Manchester United. Ao estudar o assunto e conseguir colocar suas orientações em prática com atletas de elite, o autor criou sua própria metodologia, o programa R90. O ambiente em que você dorme, o tamanho do colchão e sua rotina diária são alguns exemplos que estão contemplados nesse programa, e não faltam dicas práticas pra tentarmos adaptar em casa.

Apesar de o livro ter uma narrativa “bem de coach” (o que, vindo de mim, não é um elogio), eu aprendi várias informações interessantes sobre o sono. Uma delas diz respeito ao nosso ritmo circadiano, ou seja, a forma como nosso cérebro reage às mudanças de horário e de luz do sol ao longo de 24h. Entender o ritmo circadiano é entender também o porquê algumas medidas práticas são importantes pra nos levar ao repouso. Quer um exemplo? Usar luzes azuis ou brancas à noite é prejudicial porque atrapalha a síntese de melatonina pela glândula pineal; a melatonina é liberada à medida que escurece, portanto o cuidado com a luz ambiente é fundamental após determinado horário. Pra ser honesta, eu já sabia dessa informação antes de ler Sono, mas Nick Littlehales reforça a necessidade desse tipo de cuidado e é um exemplo fácil do tipo de conteúdo que o livro traz. 🙂

Outro ponto que eu gostei bastante diz respeito aos nossos cronótipos, ou seja, nosso modo de funcionamento natural. Existem pessoas matutinas (cronótipo M), vespertinas (cronótipo V) e intermediárias, que se adequam a ambas as faixas com mais facilidade. As pessoas M têm muito mais facilidade de serem produtivas pela manhã, enquanto as pessoas V são o posto. Sabendo qual é o nosso cronótipo (e o autor indica um teste de uma universidade que auxilia nisso) é possível remanejar as nossas tarefas diárias para os momentos em que estamos mais despertos e, portanto, mais alertas. Se você tem o cronótipo M, pode deixar aquele relatório importante para o período da manhã e atividades mais chatas e mecânicas, como organizar um arquivo, para o período da tarde, por exemplo.

Apesar de ter dicas relevantes e que fazem sentido, o livro cansa pelo já mencionado tom de coach, que considerei meio exagerado. Em determinado momento eu não aguentava mais ler as palavras “com o programa R90”, e fiquei incomodada com o quanto o texto parecia um publipost em forma de livro. Mas, relevando esse aspecto, dá pra tirar informações e dicas proveitosas – ainda que eu tenha sido uma cara de pau que pegava o celular depois de fechar o livro, mesmo sabendo que isso prejudica o sono. 😂

Sono: Mude Seu Modo de Dormir em 90 Minutos talvez não transforme totalmente a sua vida, mas é uma boa leitura pra quem quer entender mais sobre a importância da recuperação para o nosso cérebro e pra nossa saúde. Colocar o repouso adequado com o mesmo peso de “alimentação saudável” e “praticar exercícios regularmente” no discurso para uma vida mais saudável é algo que Nick Littlehales defende e que faz todo o sentido. Vale a pena olhar com mais carinho pra esse momento e fazer o possível pra dar ao nosso corpo o descanso que ele merece.

Título original: Sleep: Change the Way You Sleep with this 90 Minute Read
Autor:
Nick Littlehales
Editora: Rocco
Número de páginas: 192
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Pessoas Normais – Sally Rooney

Oi pessoal, tudo bem?

Desde que vi a Pam Gonçalves falando sobre Pessoas Normais, fiquei com o título no meu radar. O fato de ter sido adaptado em uma série foi o incentivo que faltava pra eu finalmente dar uma chance, e hoje divido com vocês minha experiência com a leitura.

Garanta o seu!

Sinopse: Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes – contudo, um deles está determinado a esconder a relação. Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Pessoas Normais tem uma narrativa ágil em terceira pessoa, focada principalmente nos diálogos dos dois protagonistas, Marianne e Connell, cobrindo um período de tempo que vai do final do ensino médio até o final da faculdade. A mãe de Connell trabalha como faxineira para a família de Marianne, e as interações entre os dois ficam restritas a quando ele passa para buscá-la. Enquanto a jovem não é aceita socialmente na escola e tampouco tem amigos, Connell faz parte do grupo dos populares, fingindo inclusive não conhecer Marianne para manter as aparências. Um dia, porém, os dois se beijam e começam a sair juntos às escondidas, e essa dinâmica sexual se mantém por anos a fio, cheia de idas e vindas.

A primeira coisa que eu preciso dizer sobre Pessoas Normais é que ele é um livro que parece nunca sair do lugar, e a culpa é exclusiva da falta de diálogo entre os protagonistas. Gente, eu tenho 27 anos, não tenho mais paciência pra adulto agindo feito adolescente. Por isso, esse aspecto do livro foi enervante pra mim. Marianne e Connell (especialmente Connell) causaram mágoas um no outro ao longo dos anos, mas eles funcionam como ímãs que não conseguem se afastar completamente. A química sexual é o que os une em primeiro lugar, mas também existe uma segunda camada nesse relacionamento, que é encontrar compreensão, adequação e aceitação em alguém. 

No ensino médio, Marianne era a excluída, mas na faculdade os papéis se invertem. Agora é ela quem brilha, enquanto Connell se sente desajustado ao conviver com pessoas que não parecem aceitá-lo por quem ele é, e o abismo de classes sociais também o intimida. Na época da escola, Connell interpretava um papel fácil e consolidado que funcionava, não se permitindo ser vulnerável. Marianne, por outro lado, com sua sinceridade implacável e jeito blasé, se encaixou no novo meio – um meio muitas vezes permeado por arrogância intelectual. Quem nunca foi presunçoso aos 20 e poucos anos em uma conversa com outros colegas universitários que atire a primeira pedra.

Apesar de ser um livro muito bom em abordar o sentimento de se sentir perdido e em um lugar ao qual você não pertence, ele também me deixou muito nervosa e irritada, especialmente por causa de Connell. A maneira como ele usa Marianne ao longo dos anos me enojou. Transar com ela às escondidas no ensino médio e, na faculdade, se beneficiar dos confortos que ela poderia proporcionar (como um apartamento no qual ele poderia ficar) foram atitudes horríveis que Marianne não merecia. Connell sabe que gosta dela e ainda assim não expõe seus verdadeiros sentimentos, e ao mesmo tempo ele tem plena consciência do poder que exerce sobre ela, se aproveitando disso. Marianne, por outro lado, vem de uma família desestruturada: ela aprendeu desde cedo que violência é a forma de lidar com as relações, já que presenciou seu falecido pai agredindo sua mãe, e ela própria foi vítima disso. No presente, seu irmão também a trata de forma violenta, tanto física quanto verbal, e Marianne não encontra forças para se defender. Sua autoestima é comprometida e ela acredita não ser digna de amor, o que explica toda a dinâmica autodestrutiva de passividade e permissividade que ela tem não apenas com Connell como também com todos os homens (problemáticos) com quem se relaciona ao longo dos anos. 

O terço final do livro é um pouco decepcionante, porque a autora entra no território da saúde mental de forma abrupta e sai dele de forma tão abrupta quanto. O leitor não tem tempo pra absorver a nova condição e as consequências que isso causa na vida dos personagens, e o capítulo final faz com que isso tudo seja ainda pior. Ele é repentino e causa uma sensação de que faltaram páginas pra construir aquela mudança tão representativa na forma de pensar e agir de Connell e Marianne. A próxima frase tem spoiler, selecione se quiser ler: quando Connell recebe a proposta para ir a Nova York, novamente eles poderiam ter resolvido com diálogo e com planos. Marianne poderia terminar a faculdade e ir encontrá-lo, por exemplo. Mas eles decidem de forma tácita que Connell deve ir e Marianne se sente feliz e conformada com isso. De novo, insisto: cadê o diálogo?

Pessoas Normais é um bom livro, mas nem de longe entrou para a minha lista de favoritos. Como ponto positivo ressalto principalmente o foco em assuntos que dialogam com as nossas experiências de jovens adultos, mas infelizmente a dinâmica da narrativa é cíclica de um jeito cansativo. Você passa páginas e mais páginas e não sente que ninguém ali está amadurecendo de verdade, e o final da história é tão repetitivo quanto seu começo. Agora pretendo conferir a série pra ver se nela eu me sinto menos desconfortável com essa relação conturbada e confusa. Vou torcer para que sim.

Título original: Normal People
Autora:
Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 264
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: O Caçador – Lars Kepler

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi da Alfaguara, selo do grupo Companhia das Letras, o thriller policial O Caçador – e óbvio que corri para ler, já que sou apaixonada pelo gênero. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: O detetive Joona Linna passou dois anos em uma prisão de segurança máxima quando recebeu uma inesperada visita. A polícia precisa de sua ajuda para deter um misterioso assassino: o chamam de O Caçador de Coelhos, pois a única conexão entre suas vítimas é que ouvem uma canção de ninar sobre coelhos antes de morrer. Joona agora tem a chance de sair da prisão para, com a policial Saga Bauer, tentar desvendar quem é esse misterioso caçador e salvar seus próximos alvos. Mas o que aparentemente parece ter motivações terroristas se transforma em um dos casos mais complexos de sua carreira. Em O caçador, o romance mais vendido da Suécia e da Noruega em 2016, Lars Kepler apresenta novamente sua fórmula imbatível: ritmo frenético, situações limite e personagens impagáveis.

O Caçador é um livro da série Joona Linna e, como a maior parte das séries policiais que seguem essa fórmula, a história tem início, meio e fim próprios, mas conta com elementos dos volumes anteriores que auxiliam no aprofundamento dos personagens. Mas, diferente da minha experiência com Morte no Verão (em que me senti perdida por não conhecer o background dos personagens), O Caçador foi muito tranquilo de ler. O autor relembrava informações (suponho) relevantes necessárias para entendermos o básico dos personagens, aproximando minha experiência de leitura com a que tive lendo os romances de Cormoran Strike ou o ótimo Boneco de Neve. O fato de ser um romance nórdico também me fez perceber algumas similaridades no estilo narrativo em relação a este último.

A obra acompanha um assassino implacável que não deixa rastros ao eliminar suas vítimas. O governo da Suécia acredita estar lidando com um terrorista, já que sua primeira vítima conhecida é o Ministro das Relações Exteriores. A responsável pelo caso, Saga Bauer, desconfia dessa conclusão, já que o assassino deixou uma testemunha viva – uma atitude bastante inusitada. Ela insiste então que Joona Linna seja envolvido na investigação, um ex-detetive com quem ela já trabalhou e encontra-se preso (por um crime que o livro não explica muito bem). A partir daí, eles passam a correr contra o tempo para descobrir a motivação do crime e impedir os futuros assassinatos.

Até a metade do livro, a história parece não evoluir muito. Os detetives investem muito tempo investigando a hipótese do terrorismo, então eu me senti perdendo um pouco de tempo enquanto essa parte da trama se desenrolava. Entretanto, quando eles começam a juntar as peças, o livro fica impossível de largar. Ao descobrirem a associação entre as vítimas e irem atrás do passado delas, a história fica instigante e as pontas soltas começam a se unir, levando a um ótimo e angustiante final cheio de ação em um ambiente claustrofóbico.

Depois que descobrimos o assassino (e o livro te dá pistas suficientes pra isso), a trama perde um pouquinho de fôlego, porque alguns capítulos narrados por outros personagens nos afastam da investigação em curso. Isso me deixou ansiosa pra voltar pra ação logo rs. Só que a narrativa é tão ágil que mesmo assim você passa as páginas rapidamente, de forma fluida. Eu amo capítulos curtos, eles me dão uma vontade enorme de não largar o livro e isso me fez passar horas imersa na obra de Lars Kepler.

O Caçador é um livro cujo ritmo narrativo é envolvente, os investigadores são competentes e os motivos para o crime são bem embasados (quando eu descobri até passei um pano pro vilão rs). Gostei muito da experiência e fiquei com vontade de conhecer os outros livros da série. Se você é fã de romances policiais, vale deixar esse título no radar. 😉

Título original: Kaninjägaren
Série: Joona Linna
Autor:
Lars Kepler
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 528
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Renegados – Marissa Meyer

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de escrever a aclamada série sci-fi Crônicas Lunares e reimaginar a origem da Rainha de Copas em Sem Coração, Marissa Meyer agora se aventura pelo mundo dos super-heróis com Renegados, o primeiro livro de sua nova trilogia. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Os Renegados são um grupo de prodígios – humanos com habilidades extraordinárias – que emergiram das ruínas de uma sociedade colapsada. Foram eles que estabeleceram a paz onde, antes, o caos reinava. Eles continuaram sendo um símbolo de esperança e coragem para todos… exceto para os vilões que foram derrotados por eles. Nova, que faz parte do grupo dos Anarquistas, tem um motivo para odiar os Renegados, e está em uma missão em busca de vingança. Enquanto se aproxima de seu alvo, ela conhece Adrian, um garoto Renegado que acredita na justiça – e em Nova. Mas a lealdade de Nova está com os Anarquistas e há um vilão que tem o poder de acabar com os dois, e tudo em que acreditam.

The Boys encontra My Hero Academia e X-Men: esse é o meu resumo para Renegados. No passado, os prodígios (pessoas com poderes) eram perseguidos pela sociedade, até que Ace Anarquia iniciou uma revolução que deu início à Era da Anarquia. Com a sociedade em colapso, surgiram os super-heróis conhecidos como Renegados, que deram um fio à revolução de Ace e passaram a governar a sociedade. Nossos narradores estão de lados opostos dessa rivalidade: Nova é uma anarquista que nutre profundo rancor dos Renegados após seus pais terem morrido sem a proteção dos heróis; Adrian é filho adotivo de dois Renegados originais, que fazem parte hoje do Conselho que rege a cidade. O destino dos dois se cruza em definitivo quando Nova decide entrar para os Renegados como uma espiã dos anarquistas, e a química entre os dois fica impossível de negar.

Quem acompanha o blog e vê meus reviews empolgadíssimos a respeito dos filmes da Marvel sabe que adoro o universo de super-heróis. Mas, por algum motivo, a proposta de Marissa Meyer simplesmente não me arrebatou como achei que faria. Não me entendam mal: Renegados é um bom livro, mas não foi uma experiência memorável, sabem? Não sei se foi o clichê do romance entre rivais, se foram os inúmeros erros de revisão da edição (ou a mania da autora/da tradução de escrever “a revolução do Ace” em vez de “a revolução de Ace” HAHAHAHAHA implicância boba, mas que eu precisava comentar) ou se foi porque senti que a obra foi uma colcha de retalhos de outras histórias que consumi antes.

Mas não tive dificuldades com todos os aspectos do livro, e eu preciso ser justa com ele. As cenas de ação de Renegados são muuuito boas! É fácil de imaginar esse universo da Marissa Meyer ganhando vida em uma série ou filme, sabem? Os diversos poderes criados pela autora também tornam o livro instigante, porque queremos ver os personagens colocando suas habilidades em prática durante o confronto. A habilidade de Rabisco/Adrian é uma das mais interessantes: ele é capaz de dar vida aos seus desenhos. Isso permite que ele faça experimentos que o transformam no Sentinela, um alterego justiceiro que ele mantém em segredo. O plot do personagem também traz o mistério da morte de sua mãe biológica, que também era uma Renegada original, e essa dúvida que paira na mente do jovem também instiga o leitor a continuar.

Apesar de eu não ter sido a maior entusiasta do romance clichê entre rivais, novamente preciso fazer uma ressalva em nome da justiça: Marissa Meyer soube construí-lo de modo que nos faça torcer por Nova e Adrian. Os personagens são fofos juntos, eles fazem com que o outro questione as próprias verdades e repense os mitos e ideias pré-estabelecidas a respeito de suas origens. Isso é bem legal e eu torço para que essa relação se desenvolva ainda mais nos próximos volumes. 

Nova não é uma protagonista muito carismática. Eu entendo o rancor dela e o fato dela sentir que os Renegados falharam com os seus pais. Também entendo que ela não ache certo que os super-heróis governem a cidade, pois existe uma distribuição injusta de poder (que é um ponto importantíssimo no desenvolvimento da história). Mas eu não consegui comprar a vibe “badass amargurada” dela – pra mim ela é só cansativa mesmo. Porém, apesar dessa falta de conexão com a protagonista, eu gosto desse questionamento que ela levanta sobre o quão perigoso é deixar a condução da sociedade nas mãos de poucos poderosos. É nesse ponto que lembrei de The Boys, que justamente levanta esse ponto (de uma maneira bem mais pungente) ao evidenciar que nem todas as pessoas com poderes são boas pessoas, dispostas a fazer a coisa certa.

Renegados é um livro bacana e que entretém, mas não foi uma obra especialmente marcante. Senti a mesma coisa com Sem Coração, minha única outra experiência com a Marissa Meyer: foi legal, mas talvez em breve eu esqueça de você, sabem? Se você é fã da autora ou da temática de super-heróis, acho que há grandes chances de aproveitar a experiência. Se você não se enquadra em nenhum desses casos, recomendo só que tenha as expectativas sob controle pra curtir essa obra de entretenimento sem se frustrar. 😉

Título original: Renegades
Série: Renegados
Autora:
Marissa Meyer
Editora: Rocco Jovens Leitores
Número de páginas: 512
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.