Resenha: Heartstopper: Volumes 1 e 2 – Alice Oseman

Oi pessoal, tudo bem?

Ser fangirl sempre foi algo que fez parte da minha “identidade”, por assim dizer. Quando eu gosto de uma coisa, gosto MESMO. 😂 Mas, mesmo com várias experiências literárias fantásticas que tive recentemente, fazia tempo que algo não me despertava esse sentimento específico… até Heartstopper chegar. ❤ Vamos conhecer essa série de quadrinhos maravilhosa? Ah! Dia 22 estreia a adaptação da Netflix, então bora que dá tempo de ler antes, hein? 😉

Garanta os seus!

Sinopse: Volume 1: Charlie Spring e Nick Nelson não têm quase nada em comum. Charlie é um aluno dedicado e bastante inseguro por conta do bullying que sofre no colégio desde que se assumiu gay. Já Nick é superpopular, especialmente querido por ser um ótimo jogador de rúgbi. Quando os dois passam a sentar um ao lado do outro toda manhã, uma amizade intensa se desenvolve, e eles ficam cada vez mais próximos. Charlie logo começa a se sentir diferente a respeito do novo amigo, apesar de saber que se apaixonar por um garoto hétero só vai gerar frustrações. Mas o próprio Nick está em dúvida sobre o que sente – e talvez os garotos estejam prestes a descobrir que, quando menos se espera, o amor pode funcionar das formas mais incríveis e surpreendentes. Volume 2: Charlie e Nick são melhores amigos, mas tudo muda depois que eles se beijam em uma festa. Charlie acredita que cometeu um grande erro e arruinou a amizade dos dois para sempre, e Nick está mais confuso do que nunca. Mas aos poucos Nick começa a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva e, com a ajuda de Charlie, descobre muitas coisas sobre o mundo que o cerca, sobre seus amigos – e, principalmente, sobre ele mesmo.

Charlie Spring é um garoto gay que sofreu bastante bullying quando foi tirado do armário contra a sua vontade. No novo ano escolar, apesar do pior ter passado, Charlie ainda lida com uma baixa autoestima e emoções conflitantes, pois está saindo com um cara que só o vê às escondidas. Seu dia a dia começa a ganhar um toque mais bonito de cor quando ele faz um novo amigo, o simpático e amigável Nick Nelson, um garoto popular que faz parte do time de rúgbi e que é sua dupla em uma das aulas. Apesar do estereótipo de “heterotop”, Nick é um cara livre de preconceitos, que rapidamente se afeiçoa a Charlie e constrói uma amizade muito forte com ele – convidando-o inclusive para fazer parte do time de rúgbi. Acontece que os caminhos do coração nem sempre são fáceis de trilhar: Charlie não demora a perceber que tem um crush em seu novo amigo, mas sabe que não será correspondido porque Nick é, na sua visão evidentemente hétero; já Nick começa a querer estar perto de Charlie de uma maneira que não ocorre com seus outros amigos, gerando uma dúvida sobre o que ele realmente sente e deixando-o confuso sobre sua sexualidade.

Eu já havia entrado em contato com a escrita de Alice Oseman por meio de Rádio Silêncio, em que ela também aborda temas como bullying, busca pela própria identidade e orientação sexual, sendo estes temas muito presentes em suas obras. Mas se Rádio Silêncio traz melancolia (inclusive um dos personagens dessa HQ aparece por lá), Heartstopper é uma história que vem para nos lembrar que nem sempre ser adolescente é fácil, mas que mudanças são bem-vindas e que é delicioso se apaixonar. A história de Charlie e Nick me deixou com um sorriso bobo no rosto, e ver a amizade dos dois crescendo para um sentimento mais profundo deixou meu coração absolutamente quentinho.

A autora deixa muito claro que a sexualidade das pessoas não é assunto de ninguém além dos próprios envolvidos, bem como evidencia que a aparência de alguém não deve ser levada em consideração para dizer se determinada pessoa é isso ou aquilo (como foi muito bem pontuado pela professora de Charlie e Nick ao ouvir comentários a respeito do segundo). Além disso, Alice Oseman também dá espaço principalmente a Nick, para que ele passe pelos momentos de dúvida necessários ao seu próprio processo. Vivemos em uma sociedade heteronormativa, o que faz com que a heterossexualidade seja esperada como padrão, sem necessidade de justificativa; quando os sentimentos mudam e Nick se vê apaixonado pelo melhor amigo, ele também sente medo e confusão, porque tudo que sabia sobre si mesmo parece nebuloso. Apesar de não forçar rótulos aos seus personagens, Alice Oseman permite que a bissexualidade (tão invisibilizada na mídia) ganhe destaque e faça parte do processo de construção identitária de Nick.

Enquanto no volume 1 acompanhamos com mais enfoque a amizade dos protagonistas sendo construída, é no volume 2 que esses debates que mencionei acontecem, bem como a evolução da relação dos dois. Charlie tem um papel de apoio fundamental a Nick, e isso é possível também graças a uma família amorosa que o acolhe da forma como ele é. Mas não se enganem, ser abertamente gay é só um dos aspectos sobre Charlie, existem muitos outros que o tornam encantador aos olhos de Nick e dos leitores: ele é um ótimo corredor, é super fofo, toca bateria e tem um All Star super cool. Além disso, mesmo tendo uma experiência amorosa triste com o boy que o escondia, ele jamais cobra que Nick saia do armário de forma forçada, acolhendo a necessidade de sigilo até que Nick entenda o que está vivenciando. Já no segundo volume da HQ, posso dizer que é Nick quem brilha ainda mais, sendo impossível não se apaixonar pelo carisma, caráter e gentileza do personagem, foi incrível acompanhar sua jornada de autodescoberta. ❤ Ele é, disparado, meu personagem favorito em toda a HQ (e em todas as minhas leituras recentes). Sua sensibilidade, sua preocupação com quem ele gosta e sua lealdade fazem de Nick um personagem que você quer guardar num potinho e proteger.

Além do casal principal, a autora traz para as páginas o carismático grupo de amigos de Charlie, composto por Tao, Elle e Aled (é ele um dos protagonistas de Rádio Silêncio). Aqui a representatividade se faz presente mais uma vez, sendo Elle uma garota trans e cujo crush em Tao é nitidamente correspondido. Do lado de Nick, ele faz amizade com um casal de namoradas, Tara e Darcy, que dão muita força para que ele se sinta acolhido e confortável com sua sexualidade. Ter essa rede de apoio faz toda a diferença para os personagens, e eles são aquela gang que qualquer um de nós gostaria de ter.

Eu sempre digo que acho importante que minorias possam se ver representadas em histórias felizes, não apenas tramas cheias de dor ou que falem sobre o peso do preconceito. Heartstopper é um exemplo maravilhoso disso, trazendo com muita doçura um relacionamento que começa com um “- Oi! – Oi!” diário e se transforma num amor puro e genuíno entre dois garotos que se encontram por acaso. É um acalento para o coração ler uma história tão fofa e adorável, cheia de cenas divertidas, bem-humoradas e fofíssimas, com direito a muitos beijos e demonstrações de afeto. Conteúdos que tragam a possibilidade de felicidade para quem é tão oprimido são necessários, e eu não poderia ter ficado mais feliz em ver tantas coisas boas na vida de Charlie e de Nick quanto vi em Heartstopper. E, com muita alegria no coração, digo: aqui renasce e reside uma fangirl entusiasmada, que quer ler e reler mil vezes essa história (e maratonar a adaptação da Netflix, é claro!). Se eu recomendo as HQs? Acho que a resenha já deixou isso óbvio, né! ❤

Título original: Heartstopper: A Graphic Novel
Autora:
Alice Oseman
Editora: Seguinte
Número de páginas: 288 (volume 1) e 320 (volume 2)
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Blackout – Dhonielle Clayton e outras autoras

Oi pessoal, tudo bem?

Quem aí está no clima de muito romance? ❤ A dica de hoje é um livro encantador publicado pela Seguinte e escrito por várias autoras contemporâneas de sucesso: Blackout: O Amor Também Brilha no Escuro.

Garanta o seu!

Sinopse: Uma onda de calor causa um apagão em Nova York. Multidões se formam nas ruas, o metrô para de funcionar e o trânsito fica congestionado. Conforme o sol se põe e a escuridão toma conta da cidade, seis jovens casais veem outro tipo de eletricidade surgir no ar…Um primeiro encontro ao acaso. Amigos de longa data. Ex-namorados ressentidos. Duas garotas feitas uma para a outra. Dois garotos escondidos sob máscaras. Um namoro repleto de dúvidas. Quando as luzes se apagam, os sentimentos se acendem. Relacionamentos se transformam, o amor desperta e novas possibilidades surgem ― até que a noite atinge seu ápice numa festa a céu aberto no Brooklyn. Neste romance envolvente e apaixonante, composto de seis histórias interligadas, as aclamadas autoras Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon celebram o amor entre adolescentes negros e nos dão esperança mesmo quando já não há mais luz.

A trama de Blackout acompanha diversos personagens passando por situações inusitadas durante um inesperado apagão em Nova York. Cada trama é escrita por uma autora e os personagens estão conectados de alguma forma (amigo de fulano, primo de beltrano, irmã de ciclano). Essa vibe de “você conhece alguém que eu conheço” pode confundir um pouco em função dos muitos nomes dos personagens, mas conforme você se liga em quem é quem se torna muito fácil enxergar as conexões e as histórias ficam ainda mais legais. Pra completar a naturalidade dessas relações, outro ponto muito bacana é a forma como os diálogos são escritos: os personagens usam expressões muito “vida real”, e não de jeito forçado. O uso de expressões como “dar rolê”, “fala, cara” e afins realmente trouxe uma pegada realista e fácil de se identificar. 😀

Outro aspecto super importante de Blackout é a representatividade: os personagens são todos negros e/ou latinos, e há também casais LGBTQIA+. É muito bom ler romances em que esses grupos protagonizam cenas fofas, alegres, otimistas e positivas. O preconceito e as dores causadas pelo racismo e pela homofobia são inegáveis, mas acho importante que esses grupos também possam se sentir representados em histórias nas quais a felicidade, o amor e as conquistas existam (algo que elogiei também em Acorda Pra Vida, Chloe Brown). Ainda assim, a obra traz toques sutis – mas certeiros – sobre como jovens negros são obrigados a se preocupar com os riscos do racismo: Kareem (do primeiro conto) não quis ficar no meio da multidão até escurecer, preferindo ir pra casa; JJ (do segundo conto) anda com um chaveiro com ferramentas e foi ensinado pelo pai a sair de qualquer transporte público em caso de emergência.

Além da ambientação (um blackout em Nova York) e das ligações entre os personagens, os contos têm mais uma coisa em comum: os personagens precisam se dirigir ao Brooklyn – ou pra voltar pra casa, ou pra participar de uma festa incrível de fechar quarteirão que vai rolar por lá. E enquanto a maior parte das histórias tem seu início e fim em si mesmas, existe uma delas (a mais longa) que é dividida em atos. Dá pra dizer que é um dos romances principais, e acompanha um casal de ex-namorados que se vê competindo pela mesma vaga de emprego e tendo que voltar a pé juntos pra casa (já que o transporte público não funciona). E já a ambientação está em pauta, vale dizer que Blackout nos faz querer viajar por Nova York. Os contos acompanham espaços icônicos da cidade, como a Biblioteca Pública de Nova York e o Apollo Theater.

Pra fechar, fiz um resuminho de cada conto pra vocês ficarem ainda mais curiosos com Blackout. 😉

  • A Longa Caminhada: é o conto dividido em atos que acompanha os ex-namorados voltando juntos pra casa e descobrindo que talvez a decisão de terminar não tenha sido tão boa assim.
  • Sem Máscara: meu conto favorito! ❤ Acompanha um jovem que está redescobrindo sua sexualidade. No metrô, ele encontra um antigo e secreto crush, com quem passou conversando durante uma noite em um baile de máscaras. Será que ele vai ter coragem de dizer a verdade?
  • Feitas Para se Encaixar: duas meninas se conhecem e se encantam uma pela outra em um lar para idosos – uma sendo voluntária, a outra sendo neta de um dos moradores (que, aliás, é um belo cupido!).
  • Todas as Grandes Histórias de Amor… e Pó: um conto muito fofo sobre uma garota que está reunindo coragem para contar ao seu melhor amigo de infância que está apaixonada por ele! Difícil não querer estar no mesmo lugar em que os dois: a Biblioteca Pública que mencionei antes. 
  • Sem Dormir até o Brooklyn: esse conto é bem interessante porque tem uma perspectiva diferente sobre amor e relacionamentos. Uma menina está vivendo um triângulo amoroso e precisa refletir sobre com quem deseja ficar – ou se essa é mesmo a melhor decisão.
  • Seymour & Grace: meu segundo conto favorito. 🥰 Aqui acompanhamos uma jovem que está magoada pelo término do namoro indo de Uber até a festa no Brooklyn. O que ela não imaginava era ter tanta afinidade com o motorista (que também narra trechos da história).

Em suma, Blackout é um livro muito gostoso de ler, cheio de histórias fofas e encantadoras e com uma representatividade necessária. Recomendo! 🙌

Título original: Blackout
Autoras:
Dhonielle Clayton, Tiffany D. Jackson, Nic Stone, Angie Thomas, Ashley Woodfolk e Nicola Yoon
Editora: Seguinte
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Meu Corpo Virou Poesia – Bruna Vieira

Oi pessoal, tudo bem?

Fazia muito tempo que eu não lia um livro de poemas, então aproveitei a oportunidade de ler Meu Corpo Virou Poesia, disponibilizado pela editora Seguinte ao Time de Leitores. Foi minha primeira experiência lendo a Bruna Vieira e hoje compartilho com vocês como foi. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Em 2017, Bruna Vieira fez as malas, deixou a vida no Brasil de lado e foi escrever uma nova história em outro país, vestida de coragem e guiada por um sentimento que sempre foi sua maior prioridade: o amor. Com o tempo, porém, os dias foram ficando cada vez mais longos e solitários. Era como se naquele lugar o amor tivesse perdido o equilíbrio e se tornado uma obrigação. Foi bem perto do fim e de jeito mais frio que ela finalmente se deu conta: é impossível ser “nós” sozinha. Formado por quatro partes – cabeça, garganta, pulmão e ventre –, este livro é um mapa. Um mapa que leva Bruna de volta à escrita e a si mesma. São relatos reais, repletos de lembranças, aprendizados e cicatrizes, que agora deixam o corpo da autora para encontrar o seu, em forma de poesia. Ao tocar em temas como autoestima, amizade feminina e relacionamentos (com o outro e sobretudo consigo mesma), Bruna olha para dentro e nos convida a percorrer nestes versos nossa própria viagem de autodescoberta.

Eu sigo a Bruna no Instagram há algum tempo e acompanhei a época em que ela se mudou pra Califórnia com o então namorado. Eles chegaram a noivar, mas o relacionamento acabou, ela voltou para o Brasil e lançou um vídeo-poesia contando um pouco sobre as dores que não havia revelado sobre a relação. Esse parece ter sido o primeiro passo do processo de cura da autora, que transformou os últimos anos em poemas que falam com mais profundidade (e exposição) tudo que ela viveu e como tem sido se reencontrar.

O livro é dividido em quatro momentos: cabeça, garganta, pulmão e ventre. A primeira parte é mais sombria e explora a sensação de invisibilidade e inadequação que Bruna experimentou durante o relacionamento e seu período na Califórnia. Fica claro que, em seu coração, ela sente que se doou muito mais do que o parceiro para uma relação que, em grande parte, só existiu verdadeiramente na sua cabeça. Por isso, a solidão também é um tema recorrente nesses primeiros poemas. Bruna também revela o quanto de si ela “perdeu” ao tentar se encaixar em uma vida e em um namoro que não fazia mais sentido, se moldando a expectativas alheias e se encolhendo cada vez mais em si mesma.

resenha meu corpo virou poesia bruna vieira

Conforme avançamos nas páginas, o tom dos poemas vai mudando e ganhando um teor de cura e amor próprio. Ao deixar pra trás o relacionamento e a cidade que não lhe faziam bem, a autora entra num processo de redescobrir a si mesma e curar suas cicatrizes emocionais. Aqui encontramos poemas que falam sobre respeitar e honrar suas diferentes versões, abraçar suas imperfeições e valorizar a mulher que você é. Até o final do livro, o leitor se depara com o processo de libertação e cura de Bruna, que a coloca no momento em que se sente mais confortável consigo mesma: o presente.

Falando sobre o livro no geral, curti boa parte dos poemas e achei vários trechos bem bonitos. Porém, como ponto negativo, ressalto aqui o uso exaustivo do recurso de falar em “todas as suas versões”, é como se Bruna ficasse batendo na mesma tecla porque gosta muito de como a frase soa. Inclusive, senti que esse tipo de frase de efeito traz um teor meio “bobinho” e adolescente pro livro.

Com um ritmo gostoso e vários poemas legais, Meu Corpo Virou Poesia foi uma experiência bem bacana. Apesar de segui-la no Instagram, não me considero uma superfã da Bruna Vieira, então fui com expectativas bem neutras e acabei me surpreendendo positivamente. Se você busca um livro de poesias com várias reflexões sobre buscar o melhor de nós mesmos, vale incluir o título na lista. 😉

Título original: Meu Corpo Virou Poesia
Autora:
Bruna Vieira
Editora: Seguinte
Número de páginas: 184
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: Arlindo – Ilustralu

Oi pessoal, tudo bem?

Apesar de já ter visto anteriormente o trabalho da Luiza Souza (mais conhecida como @ilustralu) no Twitter, não fazia ideia do tema da sua webcomic, Arlindo. Porém, já sabia que a história tinha muitos fãs – inclusive rolou um projeto de financiamento coletivo para o livro. Quando a Editora Seguinte me oportunizou a chance de ler, é óbvio que não pensei duas vezes e mergulhei na história desse menino doce, fã de Sandy & Junior e que fala os “ah meu Deus” mais fofos do mundo! ❤

Garanta o seu!

Sinopse: Arlindo é um garoto cheio de sonhos e vontade de encontrar seu lugar no mundo. Tudo o que ele quer é seguir sua vida de adolescente na cidadezinha onde mora, no interior do Rio Grande do Norte. Ele aluga filmes na locadora com as amigas todo sábado, sente o coração bater mais forte pelas primeiras paqueras, canta muito Sandy & Júnior no chuveiro, e ainda cuida da irmã mais nova e ajuda a mãe a fazer doces para vender. Por mais que ele se esforce e dê o seu melhor, muita gente na cidade não aceita Arlindo ― o que traz uma série de problemas na escola e até mesmo dentro de casa. Aos poucos, porém, ele vai perceber que vale a pena lutar para ser quem ele é, ainda mais quando tem tanta gente com quem contar. Com um traço divertido, cores vibrantes e um monte de referências aos anos 2000, esta história em quadrinhos que já conquistou milhares de fãs na internet fala sobre encontrar forças nas pessoas que a gente ama e dentro de nós mesmos.

Arlindo – ou Lindo, como as pessoas mais próximas o chamam – é um adolescente leal aos amigos, gentil com as pessoas e muito cúmplice da mãe, que trabalha fazendo doces. Porém, existe uma face da sua intimidade que o aflige e que ele não consegue revelar: Lindo é um rapaz gay. Vivendo no Rio Grande do Norte e tendo um pai extremamente machista (o próprio estereótipo de “cabra macho”), é comum para o protagonista ouvir comentários negativos sobre outras pessoas que já assumiram sua sexualidade, o que causa um sofrimento constante em seu coração. Ao longo das páginas, o leitor acompanha as aflições de Arlindo e sua transformação enquanto busca se encontrar – no mundo e em si mesmo.

Arlindo é uma HQ que provoca uma identificação imediata em quem cresceu nos anos 2000. Não faltam referências à época, da trilha sonora a hábitos como ir até uma locadora e escolher um filme, por exemplo. Quando Lindo e sua tia cantam Sandy & Junior, o leitor canta junto. Quando Lis, uma das amigas mais próximas do protagonista, coloca “Na Sua Estante” para tocar, a voz da Pitty vem automaticamente à mente. Arlindo nos leva para uma época em que conversar com o crush no MSN depois da meia-noite era uma prática comum, que passávamos menos tempo nas redes sociais e mais tempo de pernas pro ar com os amigos e, é claro, nos faz lembrar de como é ser um adolescente que ainda não sabe muita coisa sobre si mesmo e sobre o mundo.

resenha arlindo ilustralu

Apesar das cores felizes e do traço fofo, existem cenas em Arlindo que são capazes de transmitir com intensidade a dor causada pela homofobia. O que conheço do lado mais machista da cultura nordestina (pelo meu falecido pai, que era de lá) me faz enxergar muitas semelhanças com esse lado da cultura gaúcha (de onde sou) no que diz respeito à masculinidade tóxica. O pai de Arlindo, cujo nome ele passou ao filho (que é Junior), destila seu preconceito sem pensar duas vezes. Quando um amigo gay de Lindo é agredido, seu pai acha que o que aconteceu “foi pouco”. Ele intimida o filho até mesmo quando o menino está ajudando a mãe na cozinha pra que ela não fique sobrecarregada. Esses são exemplos de situações muito reais que inúmeros jovens LGBTQIA+ sofrem diariamente pelo simples fato de serem quem são. Em Arlindo a homofobia é exposta desde suas camadas mais “superficiais” até medidas mais extremas.

Mas, apesar de ter algumas cenas tristes como essas, Arlindo é uma HQ alto astral e que enche o nosso coração de amor. O leitor acompanha de perto Lindo ter seu primeiro crush correspondido e torce pra que tudo dê certo entre eles. O jovem, que nunca tinha revelado esse lado de si, encontra um espaço seguro para trazer seu verdadeiro eu à tona, e isso é muito bonito de ver – além de ser inspirador pra quem possa estar na mesma situação. E a representatividade não termina no protagonista, pois a HQ também tem espaço para outros personagens terem suas questões trabalhadas. Com isso, a história vai avançando para um lugar no qual os personagens conseguem encontrar colo e segurança uns nos outros, substituindo o medo e a solidão por uma sensação de pertencimento.

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Arlindo é uma história em quadrinhos linda e acolhedora que fala sobre a coragem de sermos nós mesmos e a busca pelo nosso lugar no mundo. A HQ traz uma mensagem poderosa sobre não ser errado ser quem somos, porque (como diz Amanda, tia de Lindo) “tudo que a gente tem é a gente”. Histórias assim deveriam ser lidas por todos, pra que a empatia prospere e pra que todos tenham o direito de viver a vida plena que merecem. 🌈

Título original: Arlindo
Autora:
Ilustralu
Editora: Seguinte
Número de páginas: 200
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sem Ar – Jennifer Niven

Oi galera, tudo bem?

Quando li Por Lugares Incríveis, da Jennifer Niven, me apaixonei e me emocionei. Por isso, fiquei animadíssima pra ler Sem Ar, seu mais recente livro publicado no Brasil. E agora conto pra vocês o que achei dessa experiência. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Passar o verão numa ilha remota não era o plano de Claudine Henry. Ela deveria estar viajando de carro com sua melhor amiga, aproveitando cada minuto antes de ir para a faculdade. Mas depois que seus pais anunciam o divórcio, o mundo dela vira de cabeça para baixo — e Claude vai parar nesse destino improvável, acompanhando a mãe que tenta se reconstruir depois da separação. Ali, a garota não tem internet, sinal de celular ou amigos. Até que conhece Jeremiah. Com o espírito livre e um passado misterioso, a química entre os dois é imediata e irresistível. Enquanto vivem aventuras pelas praias, dunas e florestas, Claude e Miah tentam não se apaixonar — afinal, esse relacionamento tem os dias contados. Mas talvez viver esse romance seja exatamente do que Claude precisa para começar a escrever sua própria história.

Claude é uma jovem padrão com uma vida ótima: tem pais amorosos, uma melhor amiga (Saz) cujo carinho e lealdade são inquestionáveis e é bem resolvida com sua autoestima e com sua sexualidade. Ela está prestes a se formar no Ensino Médio e, a poucos dias da formatura, Claude recebe a notícia de que seus pais não apenas estão se divorciando como também pedem segredo a ela até que resolvam como conduzir a situação. Claude então viaja com a mãe para uma ilha remota na qual seus antepassados viveram, para que sua mãe possa fazer pesquisas para seu próximo livro enquanto tenta juntar os pedaços do próprio coração. Chegando na ilha, Claude faz amizade com alguns jovens que trabalham lá no verão e rapidamente se apaixona por Jeremiah (ou, simplesmente, Miah) – um garoto de sorriso fácil que a conduz por diversas primeiras experiências.

Apesar do título, eu diria que “Sem Chão” seria uma metáfora bem melhor para nomear este livro, de tantas vezes que a protagonista usa esse termo ao longo da obra. Toda a confiança na família cai por terra quando ela descobre aquele segredo que os pais ocultaram dela e, principalmente, quando o pedido mais egoísta é feito: de que ela não fale com ninguém a respeito. De um minuto pro outro os planos de Claude viram de cabeça para baixo e a jovem se vê sem nenhum ombro amigo para onde correr, já que ela também está com rancor da mãe por ter guardado segredo. É possível entender porque Claude hesita em confiar e em se abrir, já que as pessoas que ela mais ama a deixaram confusa e, de certa forma, sozinha. É nesse contexto que ela encontra conforto em Miah.

O jovem trabalha na ilha como parte de um programa reformatório para jovens infratores. Ele próprio fez parte desse programa, entrando para o sistema muito jovem. Entretanto, graças ao acolhimento que ele recebeu, foi capaz de dar a volta por cima e se tornar um exemplo para os jovens que vão para a ilha. Ele é a pessoa que acolhe Claude de braços abertos, porque entende bem o que a desestrutura familiar causa: responsável pela mãe e pelas irmãs e com um pai que foi embora, Miah se sente em uma encruzilhada em que um dos caminhos o leva para onde realmente deseja, perseguindo seus sonhos, enquanto o outro o mantém “preso” à família para o caso de sua mãe precisar dele. E com a atração óbvia que sentem um pelo outro, logo Claude e Miah começam a ficar e, mais do que isso, a se abrir um com o outro e expor suas fragilidades sabendo que a outra pessoa estará ali para ouvir.

O plot de Sem Ar não é inovador, me lembrando uma mescla de A Última Música (especialmente pelo rancor de Claude pelo pai e da missão de salvar as tartarugas) com Um Amor Para Recordar (com aquela promessa de “não podemos nos apaixonar”). E eu não me importo com clichês, desde que eles funcionem bem e os personagens cativem. Infelizmente, não foi o caso aqui. Consigo entender os sentimentos de Claude e as dificuldades que ela tem de lidar com tudo que está acontecendo ao seu redor, mas a personagem em si não é carismática o bastante para que o leitor se afeiçoe de verdade e queira protegê-la de sua dor. Miah cumpre melhor esse papel, ainda que reforce o estereótipo do garoto bonitão cheio de gingado que transforma a vida da garota levando-a para várias situações inusitadas e encantadoras (parece que a Jennifer Niven bebeu da própria fórmula de Por Lugares Incríveis, né?).

O romance é fofo e a forma como a sexualidade e a primeira vez são trabalhadas na obra também são bacanas, dando um exemplo positivo de como garotas devem ser donas do próprio corpo e das próprias experiências, além de se conhecerem sem tabus. Mas, apesar disso, não consegui me conectar verdadeiramente com a trama, e achei-a demasiado longa. Sem Ar não precisava de tantas páginas para contar a sua história, que é bastante mediana e clichê, ainda que conte com cenas bonitinhas entre o casal. Um outro ponto importante que influenciou minhas expectativas foi saber que esse é um livro muito pessoal para a autora, então esperei a mesma emoção que encontrei em Por Lugares Incríveis, mas sugiro que vocês não façam o mesmo, para evitar frustrações.

O final do livro merece elogios! Ao longo das páginas, vemos o vínculo entre Claude e Miah crescer, ainda que ambos saibam que aquela relação está com os dias contados, já que cada um deles precisa voltar para sua rotina após o verão. Ainda assim, é nítido que eles se apaixonam e estão sofrendo com a separação. Por isso, as cenas finais deixam o leitor aflito e sem saber o que esperar – da mesma forma que Claude se sente. Essas páginas finais foram aquelas que conseguiram me emocionar e, finalmente, sentir a dor dos personagens. E, ao mesmo tempo em que mexe com o nosso coração, Jennifer Niven também traz uma dose extra de coragem a Claude, que ao longo de toda a trama buscou a sua própria forma de protagonismo, o seu lugar no mundo.

Sem Ar não é um livro ruim, mas não se diferencia dos muitos outros romances que existem por aí. Não recomendaria como um título pra quem quer entrar em contato com a escrita de Jennifer Niven pela primeira vez, porque sei que ela é capaz de emocionar e envolver muito mais. Mas se você busca um romance coming of age bem focado em primeiras vezes e encantamento com o outro e com o mundo, é bem provável que você possa gostar. 😀

P.S.: preciso desabafar que, apesar dessa capa lindíssima, fiquei agoniada com a representação da Claude, porque no livro ela corta o cabelo Joãozinho pouco tempo depois de chegar à ilha rs.

Título original: Breathless
Autora:
Jennifer Niven
Editora: Seguinte
Número de páginas: 392
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis – Jarid Arraes

Oi pessoal, tudo bem?

Amanhã, às 19h, vai rolar uma live no perfil da Editora Seguinte pra divulgar o lançamento do livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, e eu aproveitei a oportunidade pra indicar essa leitura indispensável pra vocês. Bora conhecer?

heroinas negrasGaranta o seu!

Sinopse: Talvez você já tenha ouvido falar de Dandara e Carolina Maria de Jesus. Mas e Eva Maria do Bonsucesso? Luisa Mahin? Na Agontimé? Tia Ciata? Essas (e tantas outras) mulheres negras foram verdadeiras heroínas brasileiras, mas pouco se fala delas, seja na escola ou nos meios de comunicação. Diante desse apagamento, há anos a escritora Jarid Arraes tem se dedicado a recuperar ― e recontar ― suas histórias. O resultado é uma coleção de cordéis que resgata a memória dessas personagens, que lutaram pela sua liberdade e seus direitos, reivindicaram seu espaço na política e nas artes, levantaram sua voz contra a injustiça e a opressão. A multiplicidade de histórias revela as mais diversas estratégias de sobrevivência e resistência, seja na linha de frente ― como Tereza de Benguela, que liderou o quilombo de Quariterê ― ou pelas brechas ― como a quituteira Luisa Mahin, que transmitia bilhetes secretos durante a Revolta dos Malês. Este livro reúne quinze dessas histórias impressionantes, ilustradas por Gabriela Pires. Agora, cabe a você conhecê-las, espalhá-las, celebrá-las. Para que as próximas gerações possam crescer com seu próprio panteão de heroínas negras brasileiras.

Após a leitura de Extraordinárias, fiquei com bastante vontade de conhecer mais histórias inspiradoras de mulheres brasileiras que fizeram a diferença na conquista de direitos que temos hoje. Mas, mais do que isso, fui sentindo cada vez mais necessidade de conhecer o papel das mulheres negras nessa construção, já que muitas delas têm suas histórias invisibilizadas.

E, no formato de cordel, a escritora Jarid Arraes traz à luz o nome de inúmeras mulheres que foram primordiais na história do nosso país. De princesas africanas que lideraram seu povo contra a escravidão até a primeira mulher negra eleita no Brasil, Jarid Arraes conta histórias que precisamos conhecer de uma forma poética, envolvente e lúdica. Ao fim de cada capítulo há também um pequeno resumo sobre a protagonista do cordel que amplia as informações trazidas até então em um formato mais tradicional, completando a experiência.

heroinas

Jarid Arraes faz questão de romper com um estereótipo deturpado de que as pessoas negras foram escravas passivas e sem orgulho de sua ancestralidade. Muito pelo contrário: a cordelista exalta as origens do povo negro e evidencia quanta luta, quanta resistência, quanto enfrentamento o povo precisou enfrentar até que esse aspecto hediondo da nossa sociedade fosse abolido. Até hoje a desigualdade se faz presente e ainda hoje as pessoas parecem esperar que os negros falem apenas sobre esse viés, mas Jarid Arraes rompe com essa expectativa ao nos apresentar personalidades fortes, líderes, determinadas e, em meio a muito sofrimento, lutadoras. 

Isso me faz pensar na necessidade de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis estar presente desde cedo entre as crianças negras, estar presente nas escolas, com fácil acesso a jovens que estão em processo de construção da sua identidade. O livro exala orgulho da ancestralidade e das raízes, dos traços que se originaram de príncipes e princesas, e coloca em destaque as mulheres que fizeram parte da construção da identidade brasileira. Falamos muito em representatividade – e precisamos continuar falando cada vez mais –, e esse livro é uma adição valiosa nesse sentido, porque cada palavra traz afeto e orgulho ao contar cada história nele presente.

Como mulher branca, eu posso apenas imaginar o impacto que um livro como Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis pode provocar em uma jovem negra. Por isso, usando esse espaço de privilégio, gostaria de convidar você a conferi-lo. Precisamos reconhecer o árduo caminho que ainda temos pela frente para combater as desigualdades que seguem presentes, e parte disso é entregar o microfone (ou as páginas) para pessoas negras que tem muito o que dizer. E Jarid Arraes tem muito a dizer.

Título original: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis
Autor: Jarid Arraes
Editora: Seguinte
Número de páginas: 176
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Conectadas – Clara Alves

Oi pessoal, tudo bem?

Quando vi que Conectadas, da Clara Alves, reunia o amor pelo universo dos jogos, protagonismo feminino e visibilidade LGBTQI+, não pensei duas vezes em solicitar para a Editora Seguinte. E, nesse Mês do Orgulho, nada melhor do que conversar sobre livros que dão espaço a essas vozes, não é mesmo?

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Sinopse: Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais — pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina. Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir — muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer. Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?

Raíssa é uma adolescente lésbica e geek, completamente apaixonada pelo universo dos games. Porém, a jovem se obrigou a criar um personagem masculino no seu jogo favorito, Feéricos, para não ser mais vítima do machismo de outros gamers, que a evitavam por ser mulher. Entretanto, ao ajudar Ayla, uma nova jogadora, uma amizade se inicia – que acaba se tornando uma paixão correspondida, ainda que aparentemente impossível: as duas são menores de idade, moram em cidades diferentes e dificilmente se encontrariam, certo? Acontece que a empresa responsável pelo jogo anuncia um evento gigante ao qual Raíssa e Ayla estão determinadas a comparecer. Enquanto Ayla imagina que vai conhecer “Leo”, seu crush da internet, Raíssa começa a surtar com a iminência de ser desmascarada pela menina que ama.

Se você é mulher e já jogou online, provavelmente vai se identificar com os motivos de Raíssa para esconder sua identidade: a comunidade nerd pode ser (e muitas vezes é) demasiado tóxica e machista. Contudo, a personagem perde o timing de dizer a verdade a Ayla, usando a identidade do melhor amigo, Leo, para tentar manter a farsa. Além do medo de ser descoberta e rejeitada, Raíssa também sofre com a sua sexualidade, que mantém em segredo. Ouvir comentários homofóbicos de seus parentes não a ajuda em nada, servindo apenas como um reforço ao seu pânico de se assumir. O que Raíssa não imagina é que, do outro lado da tela, Ayla sofre com uma dor parecida: a garota tenta se convencer que a atração que já sentiu por outras meninas foi apenas uma fase, e parece encontrar alívio no fato de estar apaixonada por “Leo”. Com o passar das páginas o leitor compreende – assim como Ayla – que estamos lidando com a bissexualidade, uma letrinha muitas vezes invisibilizada quando falamos na temática LGBTQI+.

resenha conectadas clara alves

Confesso que, ao longo da leitura, por diversas vezes eu fiquei com um pouquinho de vergonha alheia pelo exagero nas reações de Raíssa, Leo e até mesmo Ayla. Aquela coisa de dar pulinhos de empolgação ou fazer alguma dancinha em público, sabem? Aí eu lembrei que quando eu tinha a idade dos personagens e frequentava eventos de anime eu fazia a mesmíssima coisa! 😂 Foi um belo puxão de orelha em mim mesma – afinal, eu sei BEM o que é surtar de empolgação por alguma coisa da qual você é realmente fã. Relembrar essa fase da minha vida por meio da leitura acabou sendo divertido e empolgante.

Claro, existem algumas frases prontas e clichês que acabaram tirando a naturalidade de certos diálogos, mas de maneira geral Conectadas faz um ótimo trabalho em mostrar o sentimento de fangirl e os relacionamentos online proporcionados por um forte vínculo em comum. O jogo é onde Raíssa e Ayla se sentem à vontade para serem honestas consigo mesmas, onde podem ser quem são sem julgamentos externos. Além disso, temos significativa representatividade na obra: Ayla é oriental, Raíssa tem mãe negra e pai indígena e, é claro, há a questão da sexualidade. O livro consegue transmitir as aflições e dúvidas que as duas meninas sentem, especialmente frente à perspectiva de se assumirem. E, apesar de uma abordagem realista, Clara Alves consegue fugir de um tom desnecessariamente dramático ou pesado em uma obra que se propõe a ser leve.

Resumindo, Conectadas me proporcionou uma viagem no tempo. Lembrei como era ter fakes dos meus personagens favoritos no Orkut, de quando eu adorava o universo gamer e também da época em que não perdia eventos de anime. Eu sempre fui bem fangirl das coisas que eu gosto e consegui me identificar com o que Raíssa e Ayla sentiam em relação a Feéricos. Além de dialogar diretamente com quem já vivenciou esse tipo de hobby, o livro é também um romance fofo entre duas personagens capazes de cativar mesmo não sendo (ou até por isso) perfeitas. E, não somente no Mês do Orgulho, mas sempre, fica aquele lembrete de que todo tipo de amor é válido e importante – afinal, seja no RPG online ou na vida real, é libertador quando podemos ser honestos sobre quem somos e amamos.

Título original: Conectadas
Autor: Clara Alves
Editora: Seguinte
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Mulheres na Luta – Marta Breen e Jenny Jordahl

Oi pessoal, tudo bem?

Graças à leva de e-books gratuitos disponibilizados nessa quarentena, tive a oportunidade de conferir Mulheres na Luta: 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade. Vamos conhecer? 🙂

mulheres na lutaGaranta o seu!

Sinopse: Há 150 anos, a vida das mulheres era muito diferente: elas não podiam tomar decisões sobre seu corpo, votar ou ganhar o próprio dinheiro. Quando nasciam, os pais estavam no comando; depois, os maridos. O cenário só começou a mudar quando elas passaram a se organizar e a lutar por liberdade e igualdade. Neste livro, Marta Breen e Jenny Jordahl destacam batalhas históricas das mulheres — pelo direito à educação, pela participação na política, pelo uso de contraceptivos, por igualdade no mercado de trabalho, entre várias outras —, relacionando-as a diversos movimentos sociais. O resultado é um rico panorama da luta feminista, que mostra o avanço que já foi feito — e tudo o que ainda precisamos conquistar.

Antes de entrar no conteúdo propriamente dito, a primeira coisa que gostaria de pontuar é que, mesmo sendo e-book, o app do Kindle oferece a experiência de leitura necessária. O que isso quer dizer? Mulheres na Luta é contado essencialmente por meio de ilustrações e quadrinhos. Imaginei que, por conta disso, a leitura no app seria prejudicada, o que não acontece: cada clique para virar a página leva você para o quadrinho seguinte, de maneira bastante fluida. Confesso que o movimento por vezes me deu um pouco de enjoo, mas acho que é uma particularidade minha enquanto leio (às vezes me sentia enjoada no ônibus também). 😛

Dito isso, afirmo que gostei muito de conferir Mulheres na Luta. A obra narra as ondas feministas e fala sobre os principais nomes que fizeram parte das conquistas das mulheres. Contudo, diferente de Extraordinárias, que tenta sair do lugar-comum ao trazer nomes pouco lembrados, Mulheres na Luta dá mais espaço para a visão branca e de classe média do movimento.

resenha mulheres na luta

Apesar desse porém, o livro é muito legal e de fácil leitura. Para quem está se interessando pelo assunto, a obra é ilustrativa e didática, trazendo drops da história do movimento feminista de maneira envolvente. As ilustrações também são muito bacanas e vale a pena dedicar alguns momentos para conferi-las com atenção.

Mulheres na Luta é uma obra mais introdutória a respeito do feminismo, mas nem por isso dispensável. Por meio de tirinhas e ilustrações, o livro passa sua mensagem de maneira leve, mas ainda assim relevante. É uma leitura que eu indicaria especialmente para meninas mais jovens, por exemplo, para instigar a curiosidade a respeito do movimento. E, é claro, pra todo mundo que se interessa em saber um pouco mais sobre a história da luta que possibilitou nossas conquistas. Quando nos damos conta de que não faz muito tempo que determinados direitos foram adquiridos é que a gente percebe que não podemos relaxar. Que a luta das que vieram antes nos inspire sempre. 🙂

Título Original: Women in Battle
Autor: Marta Breen e Jenny Jordahl
Editora: Seguinte
Número de páginas: 128
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Resenha: Extraordinárias – Aryane Cararo e Duda Porto de Souza

Oi pessoal, tudo bem?

Várias editoras estão disponibilizando e-books gratuitos nesse período de quarentena, e um dos que eu baixei foi Extraordinárias: Mulheres Que Revolucionaram o Brasil (que por sorte eu queria ler faz tempo e fiquei bem contente por ter sido liberado rs).

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Sinopse: Dandara foi uma guerreira negra fundamental para o Quilombo dos Palmares. Bertha Lutz foi a maior representante do movimento sufragista no Brasil. Maria da Penha ficou paraplégica e por pouco não perdeu a vida, mas sua luta resultou na principal lei contra a violência doméstica do país. Essas e muitas outras brasileiras impactaram a nossa história e, indiretamente, a nossa vida, mas raramente aparecem nos livros. Este volume, resultado de uma extensa pesquisa, chega para trazer o reconhecimento que elas merecem. Aqui, você vai encontrar perfis de revolucionárias de etnias e regiões variadas, que viveram desde o século XVI até a atualidade, e conhecer os retratos de cada uma delas, feitos por artistas brasileiras. O que todas essas mulheres têm em comum? A força extraordinária para lutar por seus ideais e transformar o Brasil.

A história do movimento feminista é costumeiramente retratada por meio do que chamamos de ondas do feminismo. Entretanto, quando vamos estudar mais a fundo esse assunto, duas coisas precisam ser ressaltadas: 1) os holofotes de muitos dos conteúdos sobre o tema não trazem tanto a importância das mulheres na história do Brasil; 2) a voz das mulheres negras e indígenas também não ganha o espaço merecido, já que muitos momentos marcantes das ondas feministas foram contados pela ótica das mulheres brancas de classe média que tinham oportunidade de se manifestar (ainda que, mesmo elas, com muito mais privilégios, sofressem repressão em todas essas lutas). Extraordinárias, portanto, é uma leitura excelente pra quem quer descobrir um pouco mais sobre esses pontos. A obra traz diversos nomes de mulheres fundamentais para o movimento  feminista no Brasil, assim como também nos conta a história de mulheres não-brancas inspiradoras e protagonistas de diversas conquistas.

O livro ainda evidencia como tivemos mulheres pioneiras na história do nosso país. Campeãs de atletismo, artistas inovadoras, militantes incansáveis, guerreiras destemidas. Cantoras, atrizes, professoras. Ricas, pobres, brancas, negras, indígenas. Mulheres de todos os tipos, retratadas de uma maneira que permite ao leitor entender um pouquinho mais sobre elas, mas por meio de uma linguagem acessível e de fácil compreensão (algo que nem sempre encontramos em estudos acadêmicos).

resenha extraordinárias

Eu li a versão e-book, portanto não posso opinar sobre a edição física, mas não lembro de ter encontrado erros de revisão ou gramática. Os capítulos são divididos pelos nomes das mulheres, e cada um deles tem uma ilustração (também feita por artistas mulheres) da protagonista daquela história. Suas 208 páginas transcorrem com tranquilidade e instigam o leitor a querer saber mais sobre as pessoas retratadas nas páginas.

Resumindo, Extraordinárias: Mulheres Que Revolucionaram o Brasil é uma excelente porta de entrada para quem quer saber mais sobre feminismo e sobre o papel da mulher nas mudanças históricas e sociais do nosso país. De forma leve e com muita informação interessante, o livro tem a excelente iniciativa de dar espaço a nomes muitas vezes esquecidos. Recomendo!

Título Original: Extraordinárias: Mulheres Que Revolucionaram o Brasil
Autor: Aryane Cararo e Duda Porto de Souza
Editora: Seguinte
Número de páginas: 208
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Resenha: Mentirosos – E. Lockhart

Oi pessoal, tudo bem?

Para o post de hoje, trago uma resenha de um livro que estava na minha wishlist há muito tempo (graças às resenhas na blogosfera, que super elogiavam a história): Mentirosos, da E. Lockhart.

mentirosos e lockhart.pngGaranta o seu!

Sinopse: Os Sinclair são uma família rica e renomada, que se recusa a admitir que está em decadência e se agarra a todo custo às tradições. Assim, todo ano eles passam as férias de verão numa ilha particular. Cadence — neta primogênita e principal herdeira —, seus primos Johnny e Mirren e o amigo Gat são inseparáveis desde pequenos, e juntos formam um grupo chamado Mentirosos. Cadence admira Gat por suas convicções políticas e, conforme os anos passam, a amizade com aquele garoto intenso evolui para algo mais. Mas tudo desmorona durante o verão de seus quinze anos, quando Cadence sofre um estranho acidente. Ela passa os próximos dois anos em um período conturbado, com amnésia, depressão, fortes dores de cabeça e muitos analgésicos. Toda a família a trata com extremo cuidado e se recusa a dar mais detalhes sobre o ocorrido… até que Cadence finalmente volta à ilha para juntar as lembranças do que realmente aconteceu.

A sinopse de Mentirosos já resume muito bem a trama, então não vou explicá-la novamente pra não tornar essa resenha maior do que precisa ser. Vou partir direto para a minha análise da obra. 🙂

A narrativa em primeira pessoa tem um tom poético, reminiscente e melancólico. Existem dois momentos da vida da protagonista que são mais esmiuçados ao longo do livro: o verão dos quinze (ou o verão do acidente) e o verão dos dezessete (o presente). Com o passar das páginas, vamos descobrindo fatos sobre o verão dos quinze que Cadence esqueceu ao mesmo tempo em que vivenciamos com ela o que acontece com sua família no presente. O livro tem um desenrolar lento, ainda que não seja maçante. O problema é que os finais de capítulo não tinham ganchos imperdíveis, então nem sempre eu tinha vontade de prosseguir a leitura (por mais curiosa que estivesse pra saber o que havia acontecido). Isso me fez demorar mais do que pretendia pra terminar Mentirosos, que é um livro curto. As descrições também vem na medida certa, sem exageros. A autora se preocupa muito em trabalhar as relações familiares e os personagens, o que é fundamental para a trama.

Falando em personagens, preciso comentar sobre os quatro Mentirosos. Infelizmente, a narrativa de Cadence não foi o ponto forte. Não consegui me afeiçoar a ela no verão dos quinze, e tampouco no verão dos dezessete. A personagem era uma adolescente apaixonada como qualquer outra, mas depois do acidente ela se vê num looping de sofrimento e autopiedade que não causou grandes emoções em mim. Gat, outro personagem fundamental, tinha tudo para ser interessante: ele era o primeiro amor de Cadence, era questionador, era o “estranho no ninho” na família Sinclair… mas faltou carisma. Mirren não ganhou minha simpatia nem no passado, nem no presente. A menina não parecia ter vontade alguma de questionar seus privilégios, além do comportamento autoritário e mimado. Johnny, por fim, foi meu Mentiroso favorito. Tudo que faltou nos outros três elementos do quarteto foi reunido nele: Johnny é carismático, divertido e envolvente. Em determinado momento, ele também mostra a força de seu caráter. O resto da família Sinclair, infelizmente, não tenho como elogiar. Harris, o avô, é o exemplo do patriarca da “família tradicional”, preconceituoso e preocupado com seu poder em primeiro lugar. As filhas são mulheres fracassadas que não conseguem sair debaixo da asa do pai e precisam se humilhar constantemente para garantir seu sustento – com os luxos a que estão acostumadas. E as crianças menores são pouco desenvolvidas, não tendo grande impacto durante a narrativa.

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Mentirosos traz alguns temas bem interessantes em suas páginas, como a crítica às aparências. E. Lockhart nos mostra uma família decadente, cada vez mais fracassada em diversos aspectos da vida, mas que se recusa a deixar a soberba de lado. A verdade é que os quatro Mentirosos não são os únicos a merecer esse título. Além da crítica a essa “aristocracia” da família Sinclair, a autora também traz discussões (ainda que superficiais) raciais e de classe – principalmente pela voz de Gat, que é o personagem responsável por levar Cadence à reflexão.

O final é simplesmente… arrebatador. A autora faz você pensar em mil possibilidades, traça uma linha que parece a explicação mais plausível para, na revelação final, te mostrar que você estava completamente errado. Quando li o final, tive que parar na mesma hora e, juro pra vocês, fiquei olhando pro teto e pras paredes, atordoada. Senti como se tivesse levado um soco na boca do estômago e perdi o fôlego, então precisei reler várias vezes pra assimilar não apenas o final – mas toda a trajetória. Na hora eu pude entender porque tudo foi contado tão aos poucos, com tantos detalhes que, em um primeiro momento, poderiam parecer preciosistas. Se durante a leitura eu havia pensado “ok, já entendi que os Sinclair são assim”, ao terminar o livro eu soube as razões da autora pra desenvolver a história – e os personagens – da forma que desenvolveu. E como eu sou fã de bons finais (sim, um final ruim pode estragar uma experiência pra mim), esse livro, que já era bom, subiu de patamar, entrou pra lista de leituras que provavelmente não vou esquecer e me causou uma ressaca literária violenta, já que não consigo parar de pensar nele. Mesmo agora, que já comecei a próxima leitura, Mentirosos segue constantemente na minha cabeça.

Mentirosos é um livro com alguns problemas (como a falta de carisma de Cadence e o desenrolar lento da trama), mas faz um excelente trabalho ao construir as relações familiares e apresentar aos poucos as memórias da protagonista. O final é de tirar o fôlego, junta todas as peças soltas e te faz questionar como você não percebeu a verdade antes. Só por esse final eu já recomendo Mentirosos sem pensar duas vezes: vale a pena!

Título Original: We Were Liars
Autor: E. Lockhart
Editora: Seguinte
Número de páginas: 272
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