Resenha: Se Liga, Dani Brown – Talia Hibbert

Oi galera, tudo bem?

Não se deixem enganar pela capa fofinha do livro de hoje: Se Liga, Dani Brown é um romance +18 cheio de cenas quentes e descrições bem gráficas, então fica o aviso. 😂 O livro é o segundo volume da trilogia Irmãs Brown, sendo que já falei sobre o primeiro (Acorda Pra Vida, Chloe Brown, protagonizado pela Brown primogênita) aqui no blog. Sem mais delongas, vamos conhecer a irmã do meio? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Dani Brown precisa de um sinal. Tudo que ela quer é alguém com quem possa se divertir, sem complicações ou sentimentos envolvidos. O problema é encontrar essa pessoa, por isso ela pede ao universo que lhe avise se aparecer alguém que preencha os requisitos. Quando acaba presa em um elevador durante um treinamento de incêndio e é resgatada por Zaf, o segurança rabugento de quem é mais ou menos amiga, Dani pensa ter entendido o recado e começa a bolar um plano para seduzi-lo. Nenhum dos dois espera que o resgate gere rumores de que eles estejam juntos. Muito menos que tais rumores tragam benefícios para suas vidas, o que os leva a encenar um namoro de mentira. Nos bastidores, porém, Dani continua firme com seu plano de seduzir Zaf e conseguir o que quer, mas aos poucos essa amizade colorida se torna mais complicada que sua tese de doutorado. Será que o tiro saiu pela culatra? Ou será que esse é o verdadeiro sinal do universo e Dani só precisa se ligar para ver?

Danika, ou Dani, é uma doutoranda cujo foco total está no trabalho, pois sua prioridade é conseguir atingir seus objetivos de carreira no tempo planejado. Ela, contudo, também tem suas necessidades enquanto mulher (risos) e por isso faz um ritual pedindo ao universo por um p** amigo. É aí que entra em jogo Zaf, segurança da universidade em que Dani trabalha. Os dois têm uma rotina de conversas breves e flertes diários, e existe uma atração física mútua. Acontece que ele não poderia ser mais diferente de Dani: apesar dele ser um muçulmano não-praticante, o que poderia levá-lo a sexo sem compromisso, Zaf leva relacionamentos e sexo bastante a sério, e sabe que qualquer relação casual com a mulher com a qual fantasia em segredo seria sua ruína emocional. Mas o universo dá o seu jeitinho, e em uma simulação de evacuação de emergência ele “resgata” Dani de um elevador quebrado e sai do prédio com ela no colo, cena que as pessoas filmam e gera uma hashtag viral. Todo esse destaque faz com que descubram duas coisas muito importantes sobre Zaf: ele é um jogador de rúgbi profissional aposentado e comanda uma ONG chamada Enfrente, voltada a auxiliar jovens com suas questões psicológicas por meio do esporte. A visibilidade gerada pela viralização começa a auxiliar a ONG, então a dupla resolve fingir um relacionamento em prol da organização. Clichê dos clichês, eu sei.

Vou ser sincera com vocês: achei de uma breguice tão grande a cena do resgate com a “princesa em apuros no colo” que já tive dificuldade de comprar todo o resto da trama, incluindo o namoro fingido. Não consigo entender o motivo pra tanta gente surtar com um casal saindo do prédio e o tanto que as pessoas shipparam isso pra se tornar viral por mais do que uma semana. E o fato de eu ter achado tudo tão forçado provavelmente me gerou uma experiência pior com a leitura do que poderia ter sido. Sempre digo que gosto de clichês, desde que eles sejam bem conduzidos, e infelizmente não senti isso aqui.

Dani é uma protagonista da qual não consegui gostar. Ainda que ela seja uma pessoa generosa e tenha ajudado Zaf, sua recusa em ter qualquer tipo de envolvimento sentimental me soou boba, teimosa e infantil. Os motivos que a levaram a isso são coerentes, e realmente vale a pena ficar de orelha em pé e desconfiada quando você viveu uma situação parecida. O problema é que ela tirou da equação o fato de Zaf ser… Zaf. Desde a primeira página, fica nítido o quanto o ex-jogador rabugento gosta dela – muito antes dele sequer pensar em admitir isso. Ele presta atenção em cada palavra de Danika, olha pra ela com verdadeira devoção, nunca a cobra ou a exige demais em relação à sua rotina puxada ou ao seu trabalho e, mais do que tudo, a incentiva a fazer o for necessário pra atingir seus objetivos. O máximo que ele cobra dela é que ela cuide de si mesma também, que se alimente, que descanse. Sério, Zaf é tão perfeito que chega a ser irritante.

Gostei do plot dele, falando nisso. O ex-jogador passou por uma perda pessoal devastadora que tirou toda a sua vida dos trilhos. Ele abandonou o rúgbi e ficou em um “dark place” por muito tempo, até conseguir se recuperar e retomar o controle da própria vida. Com essa experiência, e sabendo o quão vulneráveis os seres humanos podem ser, Zaf passou a se dedicar a ensinar a jovens garotos como lidar com as próprias emoções. Considerando que, apesar de algumas evoluções, ainda vivemos em uma situação patriarcal e machista na qual homens são inibidos de chorar e demonstrar o que sentem, foi muito legal ver um personagem masculino tão focado em 1) admitir suas próprias fraquezas e lidar com elas e 2) ajudar a construir um espaço seguro para que outros rapazes também possam se sentir assim.

Outro ponto positivo do livro é o mesmo que mencionei em Acorda Pra Vida, Chloe Brown: Talia Hibbert traz representatividade positiva em seus protagonistas. Dani é uma mulher plus size, negra e bissexual, e ela é muito feliz e segura com cada uma dessas características. Zaf é descendente de paquistaneses, então há representatividade não-branca no mocinho também. É muito bacana ver representações positivas de pessoas que fazem parte de minorias, e eu sempre defendo essa abordagem em livros que optam por esse caminho (como é o caso também de Heartstopper, por exemplo, que traz um olhar inspirador e otimista sobre um romance gay). Mais um elogio merecido ao livro são as descrições espirituosas de Talia Hibbert. Ela intercala capítulos em terceira pessoa focados em cada protagonista, e a autora escolhe palavras e formas de estruturar frases que fazem parecer que estamos contando ou ouvindo uma história de algum amigo, sabem? Queria ter separado um trecho pra explicar isso, mas como não o fiz eu peço que só acreditem em mim. 😂

Se Liga, Dani Brown é um romance despretensioso e bem clichê, mas que infelizmente não me marcou muito profundamente. É um livro legal, mas sem muito carisma, então ficam essas ressalvas pra que vocês decidam se estão curiosos o suficiente ou não pra conferir. 😉

Título Original: Take a Hint, Dani Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
 Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 288
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Evidências de uma Traição – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Adoro romances epistolares e sigo entusiasmada para conhecer novas obras de Taylor Jenkins Reid. Por isso, não perdi a chance de conferir Evidências de uma Traição quando foi liberado ao Time de Leitores da Companhia das Letras. Bora de resenha? 🙌

Garanta o seu!

Sinopse: Uma jovem desesperada no sul da Califórnia se senta para escrever uma carta para um homem que ela nunca conheceu – uma escolha que mudará sua vida para sempre. Pouco a pouco, a correspondência entre Carrie Allsop e David Mayer revela os detalhes de um caso devastador entre seus cônjuges. Ao longo das cartas, eles confessam seus medos e compartilham sentimentos escondidos no fundo de suas almas, tentando decidir como seguir em frente. Contada inteiramente por meio de cartas, Evidências de uma traição é uma história de decepções, mágoas e segredos, mas também de perdão e recomeços, e de como, no caso de algumas pessoas, a dor pode libertar.

Carrie Allsop e David Mayer se conhecem da pior forma possível: descobrindo que seus cônjuges estão tendo um caso. Carrie descobre a traição primeiro ao encontrar cartas de uma mulher (Janet) nas coisas do marido, e envia sua própria carta a David na busca de mais informações a respeito, pedindo que ele lhe envie cartas de seu marido (Ken) que possam estar com a amante. David, de início, fica estupefato e se recusa a acreditar no que está acontecendo, até ele próprio descobrir as cartas que sua esposa guarda. No meio de tanta mágoa e ressentimento, Carrie e David guardam esse segredo até decidirem o que fazer.

Os capítulos são intercalados entre as cartas de Carrie e de David, com algumas semanas de diferença, já que não moram na mesma cidade. Eles desabafam sobre vários aspectos de seus casamentos: Carrie conta como o marido tem deixado-a de lado, enquanto David revela que as condições financeiras da família têm sido fontes de stress entre ele e a esposa, por exemplo. Aos poucos, as cartas vão ganhando cada vez mais nuances pessoais, e os dois protagonistas vão se desnudando um pro outro por meio das palavras. A confiança cresce por compartilharem uma dor em comum, mas aos poucos percebemos que eles têm bastante afinidade, e o teor mais “polido” das cartas vai dando lugar a um tom afetuoso. Quando os dois decidem se encontrar pessoalmente, o livro causa no leitor uma grande curiosidade pra saber como foi esse momento, mas infelizmente não temos essa visualização: o romance epistolar, justamente por ter esse formato, nos faz aguardar o relato parcial de como foi o café que Carrie e David tomaram juntos.

Consigo entender a reticência dos protagonistas em confrontarem seus parceiros, pois ambos acreditam que ainda existe amor em seus relacionamentos. Abrir mão dessa crença pode ser muito difícil, mas conforme eles encontram mais cartas trocadas entre os amantes, pior esse dilema se torna. Senti muita pena de Carrie, especialmente, porque seu marido é um embuste de marca maior. Ela se sente culpada por não conseguir gerar um filho, e a pressão dessa situação sempre recaiu sobre ela. Em nenhum momento seu médico e seu marido (também médico) pensaram em examinar a taxa de espermatozóides de Ken, por exemplo, pra descartar alguma dificuldade na concepção. Carrie abriu mão de seus estudos e de seu futuro pra ser uma dona de casa e mulher exemplar, para atender às expectativas do marido, mas sua vida se transformou em solidão. David, por outro lado, se ressente da quantidade de filhos que teve, ainda que os ame de todo coração. Uma das gravidezes foi acidental e gerou gêmeos, o que comprometeu o orçamento familiar e levou a uma ruptura na parceria entre ele e a esposa. Os dois acabam fingindo que esse tema não existe, mas o elefante na sala está sempre lá.

Eu achei que os dois personagens criados por Taylor Jenkins Reid são muito humanos, e suas motivações, compreensíveis. Gostei do desenrolar dos fatos e de como Carrie e David vão entendendo mais sobre os próprios sentimentos. Um influencia o outro de forma positiva, e é inevitável que o leitor passe a shippá-los. Porém, a autora nem sempre opta pelos caminhos óbvios, e as questões que envolvem o coração e a família são mais complexas do que parecem. O final traz uma reviravolta bacana e que dá um gostinho de justiça, além de colocar os personagens em posições nas quais eles gostariam de estar – a gente concordando ou não com eles.

Resumindo, Evidências de uma Traição é um bom livro sobre os dilemas envolvendo o casamento, a confiança e o amor próprio. Taylor Jenkins Reid é excelente em criar personagens verossímeis, cujos sentimentos nós também poderíamos viver em algum momento. Ademais, o livro tem um ritmo veloz devido ao formato de cartas, fazendo com que seja muito rápido terminá-lo e descobrir as decisões de Carrie e David. Apesar de não ter sido a experiência literária mais marcante da minha vida, é um livro bacana que eu recomendo. 😉

P.S.: aqui temos referências à Daisy Jones, pra quem já leu, e também ao insuportável e odioso Mick Riva (que eu detonei na resenha de Malibu Renasce). Será que já dá pra chamar de Jenkinsverso? 😂

Título original: Evidence of the Affair
Autora:
Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 101
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Mulher, Roupa, Trabalho – Mayra Cotta e Thais Farage

Oi pessoal, tudo bem?

Eu estava com saudades de ler um livro de não-ficção, e felizmente tive uma excelente experiência com minha primeira leitura concluída de 2022: Mulher, Roupa, Trabalho: Como se Veste a Desigualdade de Gênero. 

Garanta o seu!

Sinopse: Este não é mais um livro de estilo. Nestas páginas, a consultora de moda Thais Farage e a advogada Mayra Cotta investigam a relação da mulher com a roupa de trabalho e o que há por trás das escolhas diárias que fazemos diante do espelho. “Será que esse vestido me deixa velha?”, “Essa camisa me faz parecer séria demais?”, “Essa blusa é muito estampada?”, “Ainda tenho idade para usar esse tipo de saia?”. Quem é mulher sabe que, apesar de rotineira, arrumar-se para o trabalho não é tarefa fácil. Não importa o que vestimos, a roupa feminina é sempre avaliada, comentada e criticada por todo mundo, e o resultado é que quase nunca sentimos que nossas peças são apropriadas para a situação. Mas por que nossa relação com a roupa de trabalho é tão complicada? De onde vêm tantas questões que parecem nem existir para o gênero masculino? Foi com isso em mente que Mayra Cotta e Thais Farage escreveram Mulher, roupa, trabalho, um livro que repensa a moda a partir de suas raízes políticas e questiona a política a partir da moda, tendo como base a roupa das mulheres no espaço de trabalho. O objetivo aqui é questionar as estruturas engessadas que determinam o que devemos ou não vestir para trabalhar e tentar subvertê-las. Só assim poderemos nos divertir mais com os looks e nos preocupar menos em nos espremer para caber neles.

Eu passei a me interessar por moda recentemente, depois de ter produzido conteúdos com uma consultora de estilo em uma das marcas que minha equipe atendia na empresa em que trabalho. Porém, o assunto gênero me atrai faz muito tempo: costumo dizer que desde pequena eu era feminista, só não sabia o nome disso ainda – inclusive fiz meu TCC focado nesse assunto (analisei a representação feminina em Jessica Jones e o link está aqui, pra quem quiser conferir). Quando, via Time de Leitores, tive a oportunidade de ler um livro que unisse ambos os assuntos e ainda falasse sobre a mulher no mercado de trabalho (coisa que um dos meus livros favoritos, Clube da Luta Feminista, aborda), não pensei duas vezes em mergulhar de cabeça.

Mas é importante ressaltar que meu interesse por moda é superficial. Não acompanho tendências, alta costura, a história por trás desse mundo todo. Além disso, aproveito para sinalizar que o livro traz “roupa” no nome porque, muito mais do que moda, é nisso que ele foca: a forma como as roupas fazem parte da história da humanidade e como elas servem a papéis sociais e de poder ao longo desse tempo. Se você se identificou com a minha forma de pensar sobre moda e sobre essa temática que citei, é muito provável que você curta a leitura também. 😉

Mayra Cotta e Thais Farage fazem um trabalho primoroso em questionar e também elucidar as muitas formas pelas quais as mulheres tiveram seu papel no mercado de trabalho definido. Uma pergunta feita na obra é um ótimo exemplo disso: se você é mulher, é bem provável que já tenha se perguntado em algum momento se “tal roupa” é adequada para determinada situação, se alguma peça pode causar um efeito indesejado em alguma reunião ou se o tamanho e a modelagem da sua saia podem interferir na sua credibilidade no ambiente de trabalho, por exemplo. E a verdade é que, segundo a linha de raciocínio das autoras, o mercado de trabalho foi construído ao longo dos séculos para que nós, mulheres, nunca estejamos adequadas: ou seremos velhas demais, ou jovens demais, ou mostraremos pele demais, ou seremos “sisudas ou senhorinhas” demais na forma de nos vestirmos. Se usarmos maquiagem, pareceremos fúteis; se não usarmos, pareceremos desleixadas. É um jogo impossível de vencer. E o livro infelizmente não traz uma solução, porque não existe uma única resposta simples que seja capaz de reverter essa dinâmica: como Moda, Roupa e Trabalho habilmente demonstra, isso é uma herança antiga e propositalmente orquestrada.

Compreender o fato de que, desde o Renascimento, as mulheres têm sido colocadas na esfera privada da sociedade (o lar, a família, os filhos) enquanto homens são destinados à esfera pública (o trabalho) é a primeira coisa a ser feita para que possamos encarar os desdobramentos disso, que são sentidos ainda no presente. As autoras usam diversos exemplos pra conectar esse abismo na dinâmica de poder, e é claro que as vestimentas são os mais marcantes. As roupas desconfortáveis das mulheres entre o século XVII e XVIII (não me recordo com clareza agora, me perdoem) ilustram bem essa situação: espartilhos, anáguas e armações de ferro para sustentação dos tecidos são alguns dos itens que transformavam a mulher em um adorno, pois aquele era o papel a ela destinado. E ainda hoje temos a nossa aparência como balizadora da nossa capacidade como profissionais, que está sempre sendo questionada e até mesmo ameaçada.

A obra é dividida nos seguintes temas: uma introdução, “Rumo à construção o nosso próprio poder”, seguida dos capítulos “Mulheres e mundo do trabalho: como chegamos até aqui”, “A moda e os códigos”, “As roupas e o assédio sexual no trabalho”, “Mãe com estilo e estilo de mãe”, “A busca eterna pelo look ideal” e a conclusão: “Como fazer a roupa trabalhar para nós?”. Com esses títulos, acredito que seja possível que vocês captem a essência dos assuntos trabalhados ao longo das páginas, mas é importante deixar claro que as autoras se preocupam em costurar todos esses assuntos, conectando um capítulo aos conceitos vistos no anterior. Por mais que sejam muitos aspectos históricos e sociais a serem debatidos, Mayra Cotta e Thais Farage conseguiram tornar o livro muito fluido, interessante, dinâmico e nada cansativo. Cada problematização feita me deixou imersa e me colocou para refletir, provavelmente sendo esse o motivo pelo qual demorei a sentar e escrever uma resenha.

Mulher, Roupa, Trabalho é uma leitura imperdível pra quem se interessa por estudos de gênero e deseja se aprofundar em um dos muitos aspectos que giram em torno das dinâmicas de poder desiguais entre homens e mulheres. As autoras são didáticas e conseguem aprofundar várias questões – e, onde não conseguem, deixam sugestões de títulos e de bibliografia pra que o leitor possa continuar o estudo por si mesmo. Foi uma leitura que facilmente entrou pras melhores obras lidas recentemente e eu torço pra que você resolva dar uma chance também. Prometo que vale a pena. 😉

Título original: Mulher, roupa, trabalho: Como se veste a desigualdade de gênero
Autoras:
Mayra Cotta e Thais Farage
Editora: Paralela
Número de páginas: 228
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Malibu Renasce – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Falar de Malibu Renasce é desafiador por dois motivos: é um livro muito popular na blogosfera e foi escrito por uma autora que me impressionou muito em seu primeiro romance que eu li, Depois do Sim. Será que essa popularidade toda me arrebatou?

Garanta o seu!

Sinopse: Malibu, agosto de 1983. É o dia da festa anual de Nina Riva, e todos anseiam pelo cair da noite e por toda a emoção que ela promete trazer. A pessoa menos interessada no evento é Nina, que nunca gostou de ser o centro das atenções e acabou de ter o fim do relacionamento com um tenista profissional totalmente explorado pela mídia. Talvez Hud também esteja tenso, pois precisa admitir para o irmão algo que tem mantido em segredo por tempo demais, e parece que esse é o momento. Jay está contando os minutos, pois não vê a hora de encontrar uma menina que não sai de sua cabeça. E Kit também tem seus segredos ― e convidado ― especiais. Até a meia-noite, a festa estará completamente fora de controle. O álcool vai fluir, a música vai tocar e segredos acumulados ao longo de gerações vão voltar para assombrar todos ― até as primeiras horas do dia, quando a primeira faísca surgir e a mansão Riva for totalmente consumida pelas chamas.

Malibu Renasce gira em torno de duas linhas do tempo: a do passado começa nos anos 50, a do presente, nos anos 80. No passado, acompanhamos a criação da família Riva; no presente, a história gira em torno da festa lendária que acontece todo ano e é oferecida pelos quatro irmãos Riva. E são esses cenários que levam o leitor a um drama familiar cheio de sofrimento, traição, resiliência, força, altruísmo, dor e abnegação.

Para começar a falar dos Riva, é importante citar as duas figuras centrais, June e Mick. Os jovens se conhecem e rapidamente se apaixonam, o que leva a um romance ardente que não demora a virar casamento. Mick é um rapaz de origem humilde que tem o sonho de se tornar um cantor famoso, enquanto June deseja mais que tudo escapar do seu futuro inevitável, que é assumir o restaurante da família. Ela encontra em Mick não apenas o amor e a paixão, mas também a possibilidade de realizar esse sonho, enquanto Mick encontra em June a chance de constituir a própria família, já que a sua é completamente desestruturada. Mas conforme Mick ascende na carreira, ele passa a ter diversos affairs e abandona June com os filhos mais de uma vez. É desesperador “presenciar” toda a dor que ele causa à esposa, humilhando-a seguidamente e pedindo a ela que o aceite de volta sempre que se arrepende (momentaneamente, é claro, porque não demora a traí-la de novo). Depois da última e derradeira traição, Mick a deixa de vez e June se afunda cada vez mais no álcool como forma de consolo.

A relação de June e Mick tem como frutos Nina, Jay e Kit – mas, além dos três, June adota Hud, filho de uma das escapadas do então marido. Os quatro crescem tendo a mãe como pilar, e Nina é a única que chegou a conviver com o pai durante mais tempo. Ela cria um vínculo forte com ele, e quando Mick abandona a família mais uma vez, Nina é tão atingida quanto a mãe por essa quebra de confiança. Conforme os anos passam, uma sequência triste de fatos leva Nina a assumir a responsabilidade pela família, e aí o leitor passa a sofrer novamente ao acompanhar tudo que ela precisou abrir mão. A jovem, cedo demais, precisa abandonar suas perspectivas de futuro e dar tudo de si para cuidar dos irmãos mais novos para que nenhum deles caia nas mãos do sistema de adoção. Nina se vê contando cada centavo e administrando uma família e um restaurante sem nenhuma rede de apoio. Felizmente, ela é descoberta por um olheiro e passa a ganhar a vida como modelo, mas nem isso é capaz de tirar dela o medo da pobreza e a postura de abnegação que foi obrigada a tomar durante toda a vida. Em determinado momento, na linha temporal da festa, sua melhor amiga a provoca sobre isso, dizendo que Nina nunca tomou nenhuma decisão sequer pautada em seus verdadeiros desejos. 😦

Apesar desses três nomes (June, Mick e Nina) terem sido os grandes destaques do livro pra mim, Malibu Renasce também trabalha os dramas de Jay, Hud e Kit. Os dois primeiros, além de irmãos, são melhores amigos e parceiros, e ambos escondem segredos sobre os quais estão criando coragem para falar; Kit, a caçula, está em uma fase de autodescoberta e a festa é “o momento da verdade” para ela. Eu gostei dos três, mas nenhum deles ganhou tanto meu coração quanto Nina. Seus dramas são relevantes, mas quando a gente sente “na pele” por meio da narrativa tudo que a irmã mais velha passou, acaba que as histórias dos três não impactam tanto assim.

Mas por mais que as atitudes de Nina sejam admiráveis, são também irritantes. Eu amei a personagem ao mesmo tempo em que queria sacudi-la pelos ombros e gritar “reage, mulher!” (bota um cropped rs), sabem? Tive uma sensação parecida em relação a June, mas em menor intensidade (no caso desta, tive mais pena mesmo). Fiquei muito aflita com tudo que a autora fez as duas passarem por causa de Mick, mas sei que é reflexo de uma cultura e de uma época que esperavam esse tipo de postura das mulheres, voltada para a constituição de uma família e na posição de cuidadoras. E já que o assunto é o sofrimento causado por Mick, quero ressaltar que ele foi o personagem mais odioso das minhas últimas leituras. Ele é um ególatra autocentrado e narcisista que só soube destruir a vida de todo mundo que já se importou com ele. E o pior de tudo é que, além de usar o discursinho do arrependimento, ele parecia realmente achar que suas justificativas pra todo o mal que causou eram válidas. Se preparem pra odiá-lo, caso ainda não tenham lido Malibu Renasce ou Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (fiquei sabendo que ele aparece por lá também, mas ainda não li).

O maior problema de Malibu Renasce pra mim (além do desgraçado do Mick rs) foi a festa em si. Desculpe quem gostou, mas achei muito chata. O livro usa os capítulos da festa pra focar em vários figurantes e na realidade dos ricos de Malibu (regada a glamour, álcool, drogas e sexo), e eu não via a hora de passar logo por aquilo pra chegar de novo ao que me interessava. Se não fosse o estilo envolvente de Taylor Jenkins Reid, teria sido muito mais difícil encarar toda essa encheção de linguiça. E aqui aproveito pra trazer também a dificuldade de ler uma obra quando a gente vem cheio de expectativas: eu esperava muito tanto do título em si quanto da autora, e como não me apaixonei pelo livro, acabei ficando com aquele gostinho levemente decepcionado na boca. E já que estou falando em aspectos negativos, não posso deixar de fora um aspecto técnico: a diagramação do ebook que recebi. No arquivo que foi para o meu Kindle a estrutura das frases tava com uma péssima fluidez devido ao fato de que inúmeras frases e nomes próprios iniciavam sem letra maiúscula e muitas delas eram “partidas” por parágrafo. Uma pena, porque truncou bastante a minha leitura.

Para resumir, Malibu Renasce é mais uma demonstração de que Taylor Jenkins Reid é capaz de construir uma narrativa envolvente mesmo quando a história em si é capaz de nos fazer odiar vários personagens e aspectos dela rs. Amei? Não, tanto que avaliei com 3 estrelas no Skoob (o que encaro como um “bom”). Mas é inegável o talento que a autora tem de construir personagens e situações tão reais que mexem com o leitor em um nível muito intenso. Infelizmente não me arrebatou como Depois do Sim, mas é uma história muito bem construída. Deixo pra cada um de vocês tirar suas conclusões finais a respeito. 😉

Título original: Malibu Rising
Autora:
Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 368
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Acorda Pra Vida, Chloe Brown – Talia Hibbert

Oi pessoal, tudo bem?

Minha experiência com chick-lits ainda não é muito vasta, então quando a editora Paralela me proporcionou a chance de ler mais um, não hesitei. Fiquei ainda mais animada por ter sido ele escrito e protagonizado por uma mulher negra, afinal, precisamos de mais representatividade na literatura. Então bora conhecer Acorda Pra Vida, Chloe Brown? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Depois de quase ser atingida por um carro em alta velocidade, Chloe Brown se deu conta de que seu obituário seria um tanto entediante. Para reverter essa situação, ela decide montar uma lista de atividades necessárias para finalmente “acordar para a vida”. Mudar assim não é nada fácil, mas, para sua sorte, Chloe encontra alguém que — mesmo a contragosto — pode ajudá-la nessa missão. Seu vizinho Red Morgan é um motoqueiro misterioso, que tem várias tatuagens e mais sex appeal que uma estrela de Hollywood. No entanto, um acordo leva Chloe e Red a se aproximarem e perceberem que suas primeiras impressões um do outro estavam erradas. E que, mesmo com traumas do passado e receios quanto ao futuro, o amor nunca perde a chance de surpreender.

Após quase ser atropelada, Chloe Brown se põe a refletir sobre sua vida e chega à conclusão de que ela é muito tediosa. Com o desejo de ter um epitáfio mais digno, ela decide criar uma lista pra “acordar pra vida”, que inclui marcos como acampar, se embebedar e fazer sexo sem compromisso. A lista não parece muito fora da curva, né? Acontece que pra Chloe são verdadeiros desafios: ela sofre de fibromialgia, uma doença crônica que causa dores e fraqueza pelo corpo todo e pode ser muito debilitante. Mas, para tomar o controle da própria vida, Chloe se muda da (rica) casa dos pais para um apartamento alugado e lá ela conhece Redford Morgan, o (charmoso) zelador que parece se dar bem com todo mundo, menos com ela. Acontece que o próprio Red tem uma visão deturpada da personalidade de Chloe, confundindo sua reserva e timidez com esnobismo, mas os dois têm a chance de conversar quando ele a ajuda a… resgatar um gato de uma árvore!

Já começo dizendo que esse plot do gato é maravilhoso. Mesmo dolorida e sabendo que seu corpo vai cobrar um preço, é adorável ver uma rabugenta Chloe se propondo a escalar uma árvore para salvar um gatinho – pelo qual ela se afeiçoa, mesmo sem querer admitir. A personagem é irônica, mau humorada e divertida, ainda mais quando ela fica conversando mentalmente com o gato. 😂 Também é muito gostoso de acompanhar a forma como Red percebe que Chloe não é a menina rica de nariz empinado do apartamento em frente, mas sim uma mulher que se esconde atrás de roupas fofas (e cheias de botões) e uma expressão gelada. E já que falamos no protagonista masculino, vale ressaltar: Red é incrível. Eu gosto dos caras legais (zero fetiche em bad boys), e Red é um deles, brilhando do início ao fim! Carismático, sedutor e seguro de si mesmo, foi impossível não me deixar ser fisgada por ele também.

A narração do livro é em terceira pessoa e intercala os pontos de vista de ambos os personagens. Tanto Chloe quanto Red são pessoas que já tiveram seus corações partidos, e o livro faz questão de mostrar um outro lado do relacionamento abusivo que até então eu não tinha visto – no qual o homem é a vítima. A ex de Red era uma jovem rica que se achava superior a ele e minou tanto sua autoconfiança que isso impactou diretamente na sua profissão, fazendo com que o personagem fique na defensiva com Chloe devido ao seu status social. A protagonista feminina, por sua vez, se viu cada vez mais sozinha conforme suas dores crônicas passaram a ser um impedimento em suas relações, o que fez com que ela simplesmente desistisse de tentar se abrir pro mundo. Mas a química entre os dois e a atração inegável que sentem são o primeiro passo pra que essas barreiras comecem a ser quebradas.

Um ponto que me chamou a atenção reside no fato de que a capa e a sinopse dão a entender que veremos um romance apenas fofo, mas na verdade encontramos também uma trama +18, cheia de palavrões e cenas explícitas de sexo. Não sei vocês, mas eu falo muuuito palavrão, então o fato dos personagens usarem também não me incomodou em nada, porque pra mim eles ficaram ainda mais reais (apesar de reconhecer que o uso de “caralho” pra ênfase foi um pouco exaustivo). No livro há masturbação, cenas de sexo e descrições bem ~calientes, o que até então eu não tinha visto nos chick-lits que li. Isso proporcionou um equilíbrio bem interessante entre ser fofo e provocativo. Além disso, corpos femininos fora do padrão hegemônico e eurocêntrico (não apenas por Chloe ser negra, mas por ser plus size) sendo desejados e apreciados é algo que precisa estar mais presente na cultura pop. Mulheres de todas as formas precisam ser descritas e vistas como pessoas dignas de amor e desejo, independentemente do que o padrão de beleza tente ditar. Arrasou, Acorda Pra Vida, Chloe Brown!

Como pontos negativos, eu diria que o exagero no jeito turrão da Chloe me incomodou, apesar de entender seu mau humor constante. Sofro de enxaqueca e é foda mesmo ser legal quando você tá morrendo de dor.  Agora, o aspecto que mais testou minha paciência (pra não dizer que me irritou profundamente rs) foi a falta de diálogo entre o casal, sendo este o maior gerador de conflitos. Os personagens tem mais de 30 anos mas nem sempre se comportam de acordo. As brigas deles acontecem sempre por mal entendidos, e esse é um dos clichês de que eu menos gosto na literatura (o dos personagens que não conversam como adultos). É meio inadmissível que duas pessoas dessa idade se comportem como jovens de 15 anos que não são capazes de dialogar com clareza e maturidade. Se eu não tenho paciência pra isso nem com protagonistas de YAs, imagina com dois marmanjos. Foi muito por causa disso que diminuí a nota do livro, ainda que tenha gostado bastante dele.

Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance gostoso, picante, envolvente e com um casal que transborda química. O fato de ter sido escrito por uma mulher negra que traz como protagonista também uma mulher negra é mais um ponto importante, pois precisamos dar espaço pra esse tipo de obra brilhar. Trazer a negritude e o corpo não-padrão como dignos de uma história de amor comum, não guiada exclusivamente por  debates mais profundos, é bacana pra mostrar que pessoas negras podem encontrar espaço em tramas que fazem a gente suspirar – e não apenas com as que evidenciam sua dor. Inclusive, se alguma pessoa negra estiver lendo esse post e quiser se manifestar, vou adorar saber sua opinião sobre isso nos comentários! 😊 Em resumo, Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance envolvente e que, apesar dos defeitinhos, me entreteve do início ao fim. Recomendo!

Título Original: Get a Life, Chloe Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 296
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Impulso – Ashley Audrain

Oi pessoal, tudo bem?

Uma das grandes apostas da editora Paralela para 2021 é O Impulso, cuja prova antecipada tive a oportunidade de conferir. E olha, não vai ser fácil falar desse livro bombástico não, viu? Mas prometo fazer o meu melhor. 😂

Garanta o seu!

Sinopse: Blythe Connor está decidida a ser a mãe perfeita, calorosa e acolhedora que nunca teve. Porém, no começo exaustivo da maternidade, ela descobre que sua filha Violet não se comporta como a maioria das crianças. Ou ela estaria imaginando? Seu marido Fox está certo de que é tudo fruto do cansaço e que essa é apenas uma fase difícil. Conforme seus medos são ignorados, Blythe começa a duvidar da própria sanidade. Mas quando nasce Sam, o segundo filho do casal, a experiência de Blythe é completamente diferente, e até Violet parece se dar bem com o irmãozinho. Bem no momento em que a vida parecia estar finalmente se ajustando, um grave acidente faz tudo sair dos trilhos, e Blythe é obrigada a confrontar a verdade. Neste eletrizante romance de estreia, Ashley Audrain escreve com maestria sobre o que os laços de família escondem e os dilemas invisíveis da maternidade, nos convidando a refletir: até onde precisamos ir para questionar aquilo em que acreditamos?

O Impulso é narrado em primeira pessoa por Blythe em um discurso direcionado ao seu ex-marido, Fox. A obra inicia com Blythe observando a casa do ex, que parece o cenário perfeito com sua esposa grávida e seus dois filhos – sendo a criança mais velha, Violet, filha de Fox com Blythe. A protagonista-narradora diz então que vai contar a ele o seu ponto de vista sobre tudo que aconteceu na vida do casal, e a partir desse ponto ela remonta ao início do relacionamento, bem como nos fornece informações sobre sua mãe e sua avó.

O Impulso é, em essência, um thriller sobre maternidade. Tanto Blythe quanto sua mãe, Cecilia, e sua avó, Ella, tiveram histórias muito difíceis e traumatizantes. Cecilia chegou a dizer à filha que as mulheres da família são problemáticas, e essas palavras marcaram Blythe. Quando ela conhece Fox, que vem de um lar estruturado e feliz, Blythe vê a oportunidade de se afastar das sombras que a acompanham, mas também de fazer diferente. Sabendo que Fox deseja casar e ter filhos, Blythe proporciona isso a ele – mas ela não demora a perceber que a maternidade não é simples e, principalmente, não deveria ser exercida sem vontade genuína.

É impossível ler O Impulso sem pensar em Precisamos Falar Sobre o Kevin. Até a cena do parto, em que Blythe reluta para deixar sua filha vir ao mundo, lembra a reação de Eva (mãe de Kevin). A verdade é que Blythe demora a perceber que a tomada de decisão para ser mãe foi motivada por vontade de agradar ao marido e por pressão social, já que espera-se que toda mulher queira ser mãe. O Impulso expõe as pressões da maternidade compulsória de forma intensa, deixando claro que essas inseguranças e medos são reforçados diariamente quando vemos discursos repetidos à exaustão de que “a maternidade é uma benção” e que “só olhar pro rostinho faz valer a pena”. E não me entendam mal, eu não estou dizendo que não vale a pena ser mãe. O que estou dizendo é que a romantização da maternidade é perigosa e não nos prepara, enquanto mulheres, para uma realidade cheia de mudanças físicas, exaustão mental e até mesmo solidão. Blythe vivencia isso na pele ao achar que é a única mulher do mundo a vivenciar tais problemas, e basta seguir UM Instagram de maternidade real pra sabermos que não, ela não é a única.

O livro ganha a atmosfera de thriller conforme Violet cresce. Blythe e a filha não conseguem criar um vínculo, e a menina só ama e respeita o pai. Recusa em mamar, choro ao ficar no colo de Blythe e uma negação em tratar a mãe com carinho são alguns dos sinais de alerta que preocupam Blythe (e que Fox se recusa a enxergar). Quando Violet passa a demonstrar sinais de crueldade e falta de remorso, a protagonista sente que o abismo entre elas aumenta e que está mais só do que nunca, já que seu marido parece responsabilizá-la pela falta de vínculo. Aliás, já que estou falando no Fox, vamos parar um minutinho pra ressaltar quão lixo é este homem? O cara idealiza a família perfeita e culpa Blythe por não consegui-la, causando também um silenciamento amargo e difícil de digerir. Por amar Violet incondicionalmente, ele tira a voz de sua esposa ao se recusar a tentar compreendê-la, partindo para uma suposição de que Blythe está exercendo seu maternar de um jeito errado (alô alô, gaslighting). Fox queria uma mulher dócil e capaz de suprir as expectativas irreais e idealizadas dele, colocando Blythe em uma posição que a obriga a não apenas tentar atingir os padrões da sociedade, mas também os seus.

Quando Blythe se vê grávida do segundo filho, ela enxerga também a oportunidade de fazer tudo diferente. Dessa vez ela deseja a criança de todo o coração, e o vínculo é imediato. Ela finalmente vê um caminho que a absolva de sua própria culpa, mas o leitor sabe que algo está para acontecer; a protagonista-narradora já deixou isso claro. E é aí que O Impulso fica perturbador, causando em mim uma sensação muito parecida com a que Verity causou (mas no sentido do desconforto, não no do ritmo frenético e impossível de largar). A sensação sufocante e o medo do que vem a seguir permeiam o relato de Blythe, tornando a experiência bem angustiante.

Como pontos negativos, eu traria o formato do relato e a “barriga” que a obra ganha após um evento traumático. Apesar de intercalar a narrativa em primeira pessoa de Blythe com descrições sobre as vidas de Ella e Cecilia, grande parte do livro é um monólogo. Isso pode cansar um pouco, já que traz somente o ponto de vista de Blythe, o que inclui suas divagações. E a “barriga” acontece depois da metade do livro, quando a obra parece não evoluir muito em direção à resolução do mistério. Na minha opinião, isso poderia ter sido um pouco mais ágil e enxuto.

O Impulso é um livro excelente para colocar em xeque nossas crenças a respeito da maternidade. Com um ritmo inquietante e fatos que mexem com o leitor, ele também funciona muito bem como o thriller que se propõe a ser – mas exercendo também o papel de um drama familiar. Acho improvável que ele não faça o leitor refletir em algum nível, e só por isso já vale a pena conferir. Romantizar a maternidade é algo que prejudica a todas as mulheres, e eu adoraria ver mais obras que tocassem nessa ferida por aí.

Título original: The Push
Autora: Ashley Audrain
Editora: Paralela
Número de páginas: 328
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Depois do Sim – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Faz um tempo que o nome da Taylor Jenkins Reid está no meu radar e, felizmente, tive a chance de entrar em contato com a escrita da autora por meio do excelente Depois do Sim. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Após onze anos de casamento, Lauren e Ryan chegam à triste conclusão de que não estão felizes juntos. Esse poderia ser o fim, mas para os dois é só o começo. Eles vão passar por um ano diferente de tudo aquilo que já viveram, no qual aprenderão muito mais sobre si mesmos do que seriam capazes de imaginar. “Depois do sim” é uma história sobre o que acontece quando a paixão parece não estar mais lá. Sobre as várias facetas do amor. Sobre aprender a mantê-lo, perdê-lo, redescobri-lo e aceitá-lo como ele é. Acima de tudo, é a história de um casal preso nas armadilhas de seus hábitos e manias, mas disposto a buscar um novo e inusitado caminho para fazer dar certo.

O livro começa nos apresentando a um casal visivelmente contrariado na companhia um do outro. O motivo do stress e da animosidade é simples (bobo até) e reside no fato dos dois estarem saindo de um estádio lotado e não lembrarem onde deixaram o carro. Desse ponto, a narradora – Lauren  volta no tempo e começa a contar como seu relacionamento iniciou e como ele chegou àquele momento que acabamos de presenciar. Conhecemos a versão jovem universitária de Lauren e também de seu marido, Ryan, e o amor intenso, saudável e sólido que os dois construíram. Depois lemos a respeito do pedido de noivado e do casamento. Até aqui, a história de amor é de fazer suspirar. Pouco a pouco, conforme vamos chegando perto do presente, pequenos sinais de desgaste vão surgindo: o sexo é quase inexistente, as brigas por coisas corriqueiras aumentam e a distância entre os dois também. E o leitor fica tão triste quanto Lauren e Ryan ao presenciar essa transição, que culmina num acordo desesperado: eles ficarão separados por um ano, sem contato, na tentativa de retomarem a relação após esse prazo. E essa decisão promove mudanças profundas nos protagonistas – especialmente Lauren, cujo ponto de vista nos guia.

Qualquer pessoa que já viveu um relacionamento longo tem grandes chances de se identificar bastante com Depois do Sim. Taylor Jenkins Reid é muito competente em fazer a transição natural que acontece do início do namoro (repleta de paixão) para uma relação duradoura (mais baseada na rotina), colocando um ingrediente fundamental pra fazer com que Lauren e Ryan fracassem: o ressentimento. Se no início da relação um era mais paciente com o outro, dispostos inclusive a concordar com certas coisas só pra ver o parceiro feliz, com o tempo essa prática se torna insustentável. Então Lauren e Ryan carregam uma carga de coisas não-ditas e de mágoas não resolvidas que mina a relação ao ponto de ser impossível dividir o mesmo lar. A decisão de ficarem um ano separados é pouco ortodoxa e causa estranhamento, mas os dois decidem que será necessário esse tempo longe pra entenderem se ainda se amam e sentem saudade um do outro.

Adoro que a autora trate da separação e da mudança do amor com realismo, mas sem ser cínica. Lauren não se torna alguém que não acredita mais no amor ou no próprio casamento – mas se questiona pra entender onde eles erraram, o que poderia ter sido diferente. Isso é muito relacionável, especialmente se você já passou por algum tipo de rompimento significativo. Por mais que no início a separação seja sufocante e Lauren ache impossível viver sem Ryan, aos poucos ela percebe que existe muito na vida além da relação que iniciou aos 19 anos. Sua família tem um papel primordial nisso, e eu adorei os pequenos detalhes que caracterizam cada membro dela. Os Spencer são muito carismáticos, incluindo a ácida e divertida vó Lois. Lauren descreve pequenas “manias” da família, como disputar a melhor rota no trânsito, e há pinceladas disso em várias cenas de forma muito natural, o que causa a sensação de que conhecemos aqueles personagens. Além deles, Lauren também conta com o apoio dos amigos para manter a cabeça ocupada e expandir seus horizontes a respeito de onde a vida pode levá-la (e do quão surpreendente ela pode ser).

Um ponto importante reside no fato de que Lauren busca exemplos à sua volta, desejando ser um deles pra saber o que vem a seguir (como sua mãe, tendo um namorado aos 59 anos, ou sua avó, que amou seu avô a vida toda). Mas a verdade é que cada vida e cada relacionamento são únicos. A gente não consegue, por mais que queira, saber o que vem pela frente. E quando ela se dá conta de que precisa deixar a vida acontecer e ser surpreendida pelo que cada dia reserva, Lauren começa a amadurecer de uma forma que ela não imaginava ser possível.

Depois do Sim é um livro que trata de um tema complexo e por vezes doloroso, mas Taylor Jenkins Reid narra cada passo dessa relação de uma forma divertida, suave e inspiradora, mesmo nos momentos mais difíceis. A visão da autora e da protagonista sobre as relações é bastante real, mas de forma que deixe espaço para a esperança e para a renovação. Lauren é uma narradora fácil de gostar, assim como as pessoas que a cercam, e o leitor se vê torcendo pra que de fato o melhor aconteça após aquele ano (mesmo que isso possa significar um divórcio). Mas, mais do que ser um livro envolvente, Depois do Sim também é uma obra que nos mostra o quanto vale a pena nos conhecermos e estarmos felizes com a nossa própria companhia para então apreciarmos a do outro. Terminei o livro com o coração quentinho, acreditando no amor mas também nas inúmeras possibilidades de recomeço que a vida nos oferece. Favoritado! ❤

Título original: After I Do
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 320
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.