Resenha: Sem Ar – Jennifer Niven

Oi galera, tudo bem?

Quando li Por Lugares Incríveis, da Jennifer Niven, me apaixonei e me emocionei. Por isso, fiquei animadíssima pra ler Sem Ar, seu mais recente livro publicado no Brasil. E agora conto pra vocês o que achei dessa experiência. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Passar o verão numa ilha remota não era o plano de Claudine Henry. Ela deveria estar viajando de carro com sua melhor amiga, aproveitando cada minuto antes de ir para a faculdade. Mas depois que seus pais anunciam o divórcio, o mundo dela vira de cabeça para baixo — e Claude vai parar nesse destino improvável, acompanhando a mãe que tenta se reconstruir depois da separação. Ali, a garota não tem internet, sinal de celular ou amigos. Até que conhece Jeremiah. Com o espírito livre e um passado misterioso, a química entre os dois é imediata e irresistível. Enquanto vivem aventuras pelas praias, dunas e florestas, Claude e Miah tentam não se apaixonar — afinal, esse relacionamento tem os dias contados. Mas talvez viver esse romance seja exatamente do que Claude precisa para começar a escrever sua própria história.

Claude é uma jovem padrão com uma vida ótima: tem pais amorosos, uma melhor amiga (Saz) cujo carinho e lealdade são inquestionáveis e é bem resolvida com sua autoestima e com sua sexualidade. Ela está prestes a se formar no Ensino Médio e, a poucos dias da formatura, Claude recebe a notícia de que seus pais não apenas estão se divorciando como também pedem segredo a ela até que resolvam como conduzir a situação. Claude então viaja com a mãe para uma ilha remota na qual seus antepassados viveram, para que sua mãe possa fazer pesquisas para seu próximo livro enquanto tenta juntar os pedaços do próprio coração. Chegando na ilha, Claude faz amizade com alguns jovens que trabalham lá no verão e rapidamente se apaixona por Jeremiah (ou, simplesmente, Miah) – um garoto de sorriso fácil que a conduz por diversas primeiras experiências.

Apesar do título, eu diria que “Sem Chão” seria uma metáfora bem melhor para nomear este livro, de tantas vezes que a protagonista usa esse termo ao longo da obra. Toda a confiança na família cai por terra quando ela descobre aquele segredo que os pais ocultaram dela e, principalmente, quando o pedido mais egoísta é feito: de que ela não fale com ninguém a respeito. De um minuto pro outro os planos de Claude viram de cabeça para baixo e a jovem se vê sem nenhum ombro amigo para onde correr, já que ela também está com rancor da mãe por ter guardado segredo. É possível entender porque Claude hesita em confiar e em se abrir, já que as pessoas que ela mais ama a deixaram confusa e, de certa forma, sozinha. É nesse contexto que ela encontra conforto em Miah.

O jovem trabalha na ilha como parte de um programa reformatório para jovens infratores. Ele próprio fez parte desse programa, entrando para o sistema muito jovem. Entretanto, graças ao acolhimento que ele recebeu, foi capaz de dar a volta por cima e se tornar um exemplo para os jovens que vão para a ilha. Ele é a pessoa que acolhe Claude de braços abertos, porque entende bem o que a desestrutura familiar causa: responsável pela mãe e pelas irmãs e com um pai que foi embora, Miah se sente em uma encruzilhada em que um dos caminhos o leva para onde realmente deseja, perseguindo seus sonhos, enquanto o outro o mantém “preso” à família para o caso de sua mãe precisar dele. E com a atração óbvia que sentem um pelo outro, logo Claude e Miah começam a ficar e, mais do que isso, a se abrir um com o outro e expor suas fragilidades sabendo que a outra pessoa estará ali para ouvir.

O plot de Sem Ar não é inovador, me lembrando uma mescla de A Última Música (especialmente pelo rancor de Claude pelo pai e da missão de salvar as tartarugas) com Um Amor Para Recordar (com aquela promessa de “não podemos nos apaixonar”). E eu não me importo com clichês, desde que eles funcionem bem e os personagens cativem. Infelizmente, não foi o caso aqui. Consigo entender os sentimentos de Claude e as dificuldades que ela tem de lidar com tudo que está acontecendo ao seu redor, mas a personagem em si não é carismática o bastante para que o leitor se afeiçoe de verdade e queira protegê-la de sua dor. Miah cumpre melhor esse papel, ainda que reforce o estereótipo do garoto bonitão cheio de gingado que transforma a vida da garota levando-a para várias situações inusitadas e encantadoras (parece que a Jennifer Niven bebeu da própria fórmula de Por Lugares Incríveis, né?).

O romance é fofo e a forma como a sexualidade e a primeira vez são trabalhadas na obra também são bacanas, dando um exemplo positivo de como garotas devem ser donas do próprio corpo e das próprias experiências, além de se conhecerem sem tabus. Mas, apesar disso, não consegui me conectar verdadeiramente com a trama, e achei-a demasiado longa. Sem Ar não precisava de tantas páginas para contar a sua história, que é bastante mediana e clichê, ainda que conte com cenas bonitinhas entre o casal. Um outro ponto importante que influenciou minhas expectativas foi saber que esse é um livro muito pessoal para a autora, então esperei a mesma emoção que encontrei em Por Lugares Incríveis, mas sugiro que vocês não façam o mesmo, para evitar frustrações.

O final do livro merece elogios! Ao longo das páginas, vemos o vínculo entre Claude e Miah crescer, ainda que ambos saibam que aquela relação está com os dias contados, já que cada um deles precisa voltar para sua rotina após o verão. Ainda assim, é nítido que eles se apaixonam e estão sofrendo com a separação. Por isso, as cenas finais deixam o leitor aflito e sem saber o que esperar – da mesma forma que Claude se sente. Essas páginas finais foram aquelas que conseguiram me emocionar e, finalmente, sentir a dor dos personagens. E, ao mesmo tempo em que mexe com o nosso coração, Jennifer Niven também traz uma dose extra de coragem a Claude, que ao longo de toda a trama buscou a sua própria forma de protagonismo, o seu lugar no mundo.

Sem Ar não é um livro ruim, mas não se diferencia dos muitos outros romances que existem por aí. Não recomendaria como um título pra quem quer entrar em contato com a escrita de Jennifer Niven pela primeira vez, porque sei que ela é capaz de emocionar e envolver muito mais. Mas se você busca um romance coming of age bem focado em primeiras vezes e encantamento com o outro e com o mundo, é bem provável que você possa gostar. 😀

P.S.: preciso desabafar que, apesar dessa capa lindíssima, fiquei agoniada com a representação da Claude, porque no livro ela corta o cabelo Joãozinho pouco tempo depois de chegar à ilha rs.

Título original: Breathless
Autora:
Jennifer Niven
Editora: Seguinte
Número de páginas: 392
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sete Mentiras – Elizabeth Kay

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi da Editora Suma o livro Sete Mentiras, um thriller elogiado por nomes como Harlan Coben e Shari Lapena. Prontos pra conhecer? 😀

Garanta o seu!

Sinopse: Desde crianças, Jane e Marnie são inseparáveis. As duas têm muito em comum. Aos vinte e poucos anos, ambas se apaixonam e se casam com homens jovens e bonitos. Só que Jane nunca gostou do marido de Marnie. Ele é tão arrogante, tão exibicionista, age como se chamar atenção fosse seu objetivo de vida. O que é bem irônico… agora que ele está morto. Se Jane tivesse sido sincera desde o início, se não tivesse mentido, talvez o marido de sua melhor amiga ainda estivesse vivo. Esta é a chance de Jane contar o que de fato aconteceu. Mas a pergunta é: será mesmo a verdade?

Jane e Marnie são melhores amigas desde que tinham 11 anos de idade. Enquanto Jane tem uma família que ruiu (com um pai que saiu de casa, uma mãe com demência que nunca lhe deu muita atenção e uma irmã com uma doença terminal), Marnie nunca teve a presença familiar como uma constante (já que tanto seus pais quanto seu irmão são bastante ausentes). Elas encontram uma na outra o apoio, a alegria e o consolo que precisam, até que um elemento importante se coloca entre as duas: o amor romântico, especialmente o de Marnie. Quando ela se apaixona pelo arrogante Charles, Jane passa a odiá-lo da forma mais intensa que podia, e é devido a esse ódio que um novo hábito se inicia entre as duas: as mentiras de Jane.

O livro já nos revela que Charles está morto, e Jane (nossa narradora em primeira pessoa) começa a contar para o leitor tudo que os levou até aquele momento. Ou seja, quem morre não é o mistério da obra, mas como tudo se desenrola para este destino e, posteriormente, os desdobramentos da morte de Charles. Enquanto intercala os acontecimentos em torno da morte, Jane também vai revelando mais sobre si mesma, sobre sua família e sobre sua relação com Marnie. A própria protagonista já viveu um amor como o da amiga, ao se apaixonar e se casar com Jonathan, seu falecido marido. Viver com Jonathan foi o período mais feliz da vida de Jane, mas ele se foi cedo demais, morrendo ao ser atropelado por um motorista alcoolizado. São nesses momentos da leitura que conseguimos sentir empatia por Jane e desejar que as coisas tivessem sido diferentes pra ela. Mas só aí mesmo.

Porque Jane é uma personagem profundamente egoísta e obcecada pela amiga. Ela narra desde o início da história o quanto a conexão das duas é profunda, o quanto esse amor é inabalável e o quanto elas podem se comunicar sem nada precisar ser dito. O problema é que, conforme as páginas avançam, o leitor deixa de acreditar nessa relação, porque não parece ser bem assim. Quanto mais eu lia, mais eu achava que essa amizade tinha um quê de unilateral, alimentada pela obsessão de Jane de ser amada por alguém (já que foi a filha preterida e, quando finalmente encontrou o amor romântico, ela o perdeu). Isso fica mais evidente na forma como Marnie trata Jane, sempre pedindo favores e dando uma sensação de “se aproveitar” da devoção que Jane lhe dedica. 

E já que comecei a falar de Marnie, devo dizer que ela é rasa como um pires, tornando impossível pra mim entender a obsessão de Jane. A personagem tem pouquíssima participação ativa na história, sendo descrita apenas pelo olhar enviesado da narradora, e nem sob essa lente encantada eu pude me afeiçoar a Marnie. E o fato dela parecer tirar um certo grau de vantagem da dedicação de Jane também me irritou, mais um elemento que corrobora o quanto essa relação de “amizade” é disfuncional. O terceiro elemento desse “trisal”, Charles, também tem pouquíssimo espaço na trama, e é sempre mostrado pelas lentes de Jane. Ele parece ser um homem bem irritante, de fato, mas não a ponto de merecer o destino que teve. E eu evito ao máximo desacreditar a fala de uma mulher, porque sabemos o quanto a sociedade tenta fazer isso com a gente, mas nesse caso é impossível não ter um receio de que Jane tenha construído uma imagem muito pior dele do que a realidade mostraria, considerando a obsessão dela por Marnie. Quando a vida dos dois se entrelaça por um momento fatal, eu fiquei chocada. Até aquele momento, eu imaginava uma cena acidental e passional, mas o que é revelado é uma frieza inesperada.

Sete Mentiras peca também ao manter o interesse no mistério. Lá pela metade da obra o ponto de virada acontece, mas a trama não consegue manter o ritmo. Achei o livro extremamente lento, enrolado, e não conseguiu me instigar nem me manter absorta  na leitura. Além do ritmo cansativo, Sete Mentiras ainda insere uma nova personagem: Valerie, uma jornalista que se propõe a investigar Jane e descobrir seus segredos. O problema é que, assim como ela chega, ela se vai, e não entendemos suas motivações nem os motivos pelos quais ela entra na história. Em relação ao final, gostei de saber com quem Jane estava conversando, mas esse clímax é abrupto e as coisas se desenrolam rápido demais nas últimas páginas, deixando várias pontas soltas.

Como ponto positivo, tem uma discussão que foi abordada muito timidamente na obra, mas que gostei que estivesse lá: a questão de como priorizamos determinados tipos de amor. Para Jane, o amor entre Marnie e ela é enorme, profundo, bem sedimentado – até que o amor romântico chega “para atrapalhar”. Claro, Jane deturpa completamente os limites da relação, mas acho interessante a problematização da personagem de que nós sempre damos mais espaço e importância para o amor romântico, colocando os outros tipos em espaços menores dentro de nossas vidas (seja o amor familiar ou o amor pelos amigos). E especialmente nós, mulheres, somos muuuito incentivadas a colocar nossa energia em encontrar nosso par ideal, em casar e ter filhos, então acho sempre válido quando uma obra nos coloca a questionar esse status quo.

Sete Mentiras fez uma promessa que não cumpriu. As mentiras não são tão relevantes assim e, na minha opinião, não são a causa de tudo que acontece na trama. O mistério não instiga, as personagens são difíceis de engolir e não há nada que realmente te convença sobre aquilo que você está lendo. Pra mim não foi uma experiência legal, mas espero que quem opte por ler goste mais do que eu. =)

Título original: Seven Lies
Autora:
Elizabeth Kay
Editora: Suma
Número de páginas: 272
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Sono – Haruki Murakami

Oi pessoal, tudo bem?

O que você faria se não precisasse mais dormir? Se seu corpo não pedisse descanso e se seu cérebro não desligasse? Esse é o tema central de Sono, do autor japonês Haruki Murakami. Ganhei a edição de um amigo e hoje conto pra vocês como foi a experiência com esse conto. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: “É o décimo sétimo dia que não consigo dormir.” Ela era uma mulher com uma vida normal. Tinha um marido normal. Um filho normal. Ela até podia detectar algumas fissuras nessa vida aparentemente perfeita, mas nunca chegou a pensar seriamente nelas. Até o dia em que deixou de dormir. Então, o mundo se revelou. Um mundo duplo de sombras e silêncio; um mundo onde nada é o que parece. E onde ela não pode mais fechar os olhos.

O livro é narrado em primeira pessoa por uma personagem cujo nome não conhecemos, mas que vive uma situação inusitada: há cerca de duas semanas ela não consegue dormir. E, diferente de uma experiência de privação de sono vivida anos antes, em que ela se sentia permanentemente exaurida e desesperada para descansar, agora ela simplesmente não sente necessidade alguma de dormir. Seus dias seguem iguais, seu corpo não precisa de repouso e sua mente segue afiadíssima. E enquanto se pergunta sobre o que pode ter acontecido para levá-la a essa situação, ela também se põe a refletir sobre vários aspectos comuns da sua vida que, até então, eram levados no modo automático.

Existe um quê de mistério na trama, especialmente porque a protagonista parece viver uma espécie de terror noturno ou pesadelo muito vívido, a partir do qual sua nova condição de insônia se apresenta. Mas a condução do conto se concentra muito mais nos aspectos triviais do pensamento da narradora, tanto a respeito da sua rotina como das pessoas que a cercam. Ela começa a olhar para seu marido e seu filho sob uma nova lente, assim como utilizar suas novas horas ganhas com atividades que ela deseja fazer, o que nem sempre lhe era socialmente permitido – lembrando aqui que trata-se de um livro oriental, onde os papéis de gênero são bem delimitados. Mas Murakami usa da nova condição da personagem para questioná-los e trazer liberdade à sua rotina: ao não conseguir mais dormir, a personagem vive um novo tipo de despertar, tornando-se protagonista não somente do conto, mas da própria vida.

Acho que um dos aspectos de que mais gostei na trama foram os devaneios da jovem mulher. Ela se questiona, por exemplo, sobre a beleza do marido. Tem algo no rosto dele que a incomoda, mas ela não sabe o que é. O mesmo acontece quando olha para seu filho: ela hoje enxerga um menino que a ama, mas sabe que no futuro talvez eles simplesmente deixem de gostar um do outro. Ela fala de forma crua e sem rodeios sobre essa mudança de dinâmica que os anos vindouros provavelmente lhe reservam, sabendo desde já que o amor (mesmo entre mãe e filho) é muito mais complexo do que o ideal romantizado. Essas reflexões da personagem fazem com que o leitor mergulhe de cabeça em seu fluxo de pensamentos, sendo capazes de nos fazer entender seus sentimentos (ainda que nem sempre eles sejam palatáveis).

Impossível deixar de lado a reflexão sobre o modo como levamos os nossos dias. Ao ter mais tempo para si mesma, a narradora começa a dedicar horas a atividades que a fazem feliz, de forma descolada do dia a dia mecânico que gira em torno das rotinas do marido e do filho. Finalmente ter tempo para seus prazeres levanta uma problematização: até que ponto vivemos o nosso cotidiano no piloto automático, negligenciando aquilo que importa pra nós? O quão fácil é se deixar levar pelo conforto da segurança da rotina em detrimento daquilo que nosso coração realmente deseja? Essas foram algumas das provocações que Sono conseguiu instigar em mim durante a leitura.

O autor, por meio da personagem, também discorre sobre a vida e a morte. A segunda, inclusive, é o mistério que acompanha a humanidade desde sempre, e provavelmente é aquele que nunca iremos desvendar. Afinal, a morte é mesmo como dormir? Como fechar os olhos e encontrar uma escuridão cheia de ausência? Ou é diferente disso, mais ativa, mais perturbadora? São questões subjetivas que Murakami não tem a pretensão de responder ou opinar, mas deixa para que o leitor reflita e interprete a seu próprio modo. E ao mesmo tempo em que nos leva para um caminho cheio de questões filosóficas, a obra também nos tira o fôlego quando se direciona para acontecimentos aflitivos. Para completar, nos oferece um final tão abrupto e chocante que causa aquela sensação de quando estamos prestes a pegar no sono mas sonhamos que caímos, sabem? E ao terminar a última linha você se questiona a respeito de tudo que leu até ali.

Sono foi uma ótima experiência para conhecer a escrita de Murakami, e já pretendo ler outras obras do autor. A edição que eu ganhei, da editora Alfaguara, vale elogios por si só: em capa dura e com detalhes metalizados, as páginas internas contêm ilustrações lindíssimas e surreais da artista Kat Menschik que combinam perfeitamente com o tom da história. É um daqueles livros que são rápidos de ler, mas que você aprecia a beleza de cada página e fica pensando na história por dias a fio depois de terminá-la. Recomendo!

Título original: Nemuri (眠り)
Autor:
Haruki Murakami
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 116
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Resenha: Acorda Pra Vida, Chloe Brown – Talia Hibbert

Oi pessoal, tudo bem?

Minha experiência com chick-lits ainda não é muito vasta, então quando a editora Paralela me proporcionou a chance de ler mais um, não hesitei. Fiquei ainda mais animada por ter sido ele escrito e protagonizado por uma mulher negra, afinal, precisamos de mais representatividade na literatura. Então bora conhecer Acorda Pra Vida, Chloe Brown? 😉

Garanta o seu!

Sinopse: Depois de quase ser atingida por um carro em alta velocidade, Chloe Brown se deu conta de que seu obituário seria um tanto entediante. Para reverter essa situação, ela decide montar uma lista de atividades necessárias para finalmente “acordar para a vida”. Mudar assim não é nada fácil, mas, para sua sorte, Chloe encontra alguém que — mesmo a contragosto — pode ajudá-la nessa missão. Seu vizinho Red Morgan é um motoqueiro misterioso, que tem várias tatuagens e mais sex appeal que uma estrela de Hollywood. No entanto, um acordo leva Chloe e Red a se aproximarem e perceberem que suas primeiras impressões um do outro estavam erradas. E que, mesmo com traumas do passado e receios quanto ao futuro, o amor nunca perde a chance de surpreender.

Após quase ser atropelada, Chloe Brown se põe a refletir sobre sua vida e chega à conclusão de que ela é muito tediosa. Com o desejo de ter um epitáfio mais digno, ela decide criar uma lista pra “acordar pra vida”, que inclui marcos como acampar, se embebedar e fazer sexo sem compromisso. A lista não parece muito fora da curva, né? Acontece que pra Chloe são verdadeiros desafios: ela sofre de fibromialgia, uma doença crônica que causa dores e fraqueza pelo corpo todo e pode ser muito debilitante. Mas, para tomar o controle da própria vida, Chloe se muda da (rica) casa dos pais para um apartamento alugado e lá ela conhece Redford Morgan, o (charmoso) zelador que parece se dar bem com todo mundo, menos com ela. Acontece que o próprio Red tem uma visão deturpada da personalidade de Chloe, confundindo sua reserva e timidez com esnobismo, mas os dois têm a chance de conversar quando ele a ajuda a… resgatar um gato de uma árvore!

Já começo dizendo que esse plot do gato é maravilhoso. Mesmo dolorida e sabendo que seu corpo vai cobrar um preço, é adorável ver uma rabugenta Chloe se propondo a escalar uma árvore para salvar um gatinho – pelo qual ela se afeiçoa, mesmo sem querer admitir. A personagem é irônica, mau humorada e divertida, ainda mais quando ela fica conversando mentalmente com o gato. 😂 Também é muito gostoso de acompanhar a forma como Red percebe que Chloe não é a menina rica de nariz empinado do apartamento em frente, mas sim uma mulher que se esconde atrás de roupas fofas (e cheias de botões) e uma expressão gelada. E já que falamos no protagonista masculino, vale ressaltar: Red é incrível. Eu gosto dos caras legais (zero fetiche em bad boys), e Red é um deles, brilhando do início ao fim! Carismático, sedutor e seguro de si mesmo, foi impossível não me deixar ser fisgada por ele também.

A narração do livro é em terceira pessoa e intercala os pontos de vista de ambos os personagens. Tanto Chloe quanto Red são pessoas que já tiveram seus corações partidos, e o livro faz questão de mostrar um outro lado do relacionamento abusivo que até então eu não tinha visto – no qual o homem é a vítima. A ex de Red era uma jovem rica que se achava superior a ele e minou tanto sua autoconfiança que isso impactou diretamente na sua profissão, fazendo com que o personagem fique na defensiva com Chloe devido ao seu status social. A protagonista feminina, por sua vez, se viu cada vez mais sozinha conforme suas dores crônicas passaram a ser um impedimento em suas relações, o que fez com que ela simplesmente desistisse de tentar se abrir pro mundo. Mas a química entre os dois e a atração inegável que sentem são o primeiro passo pra que essas barreiras comecem a ser quebradas.

Um ponto que me chamou a atenção reside no fato de que a capa e a sinopse dão a entender que veremos um romance apenas fofo, mas na verdade encontramos também uma trama +18, cheia de palavrões e cenas explícitas de sexo. Não sei vocês, mas eu falo muuuito palavrão, então o fato dos personagens usarem também não me incomodou em nada, porque pra mim eles ficaram ainda mais reais (apesar de reconhecer que o uso de “caralho” pra ênfase foi um pouco exaustivo). No livro há masturbação, cenas de sexo e descrições bem ~calientes, o que até então eu não tinha visto nos chick-lits que li. Isso proporcionou um equilíbrio bem interessante entre ser fofo e provocativo. Além disso, corpos femininos fora do padrão hegemônico e eurocêntrico (não apenas por Chloe ser negra, mas por ser plus size) sendo desejados e apreciados é algo que precisa estar mais presente na cultura pop. Mulheres de todas as formas precisam ser descritas e vistas como pessoas dignas de amor e desejo, independentemente do que o padrão de beleza tente ditar. Arrasou, Acorda Pra Vida, Chloe Brown!

Como pontos negativos, eu diria que o exagero no jeito turrão da Chloe me incomodou, apesar de entender seu mau humor constante. Sofro de enxaqueca e é foda mesmo ser legal quando você tá morrendo de dor.  Agora, o aspecto que mais testou minha paciência (pra não dizer que me irritou profundamente rs) foi a falta de diálogo entre o casal, sendo este o maior gerador de conflitos. Os personagens tem mais de 30 anos mas nem sempre se comportam de acordo. As brigas deles acontecem sempre por mal entendidos, e esse é um dos clichês de que eu menos gosto na literatura (o dos personagens que não conversam como adultos). É meio inadmissível que duas pessoas dessa idade se comportem como jovens de 15 anos que não são capazes de dialogar com clareza e maturidade. Se eu não tenho paciência pra isso nem com protagonistas de YAs, imagina com dois marmanjos. Foi muito por causa disso que diminuí a nota do livro, ainda que tenha gostado bastante dele.

Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance gostoso, picante, envolvente e com um casal que transborda química. O fato de ter sido escrito por uma mulher negra que traz como protagonista também uma mulher negra é mais um ponto importante, pois precisamos dar espaço pra esse tipo de obra brilhar. Trazer a negritude e o corpo não-padrão como dignos de uma história de amor comum, não guiada exclusivamente por  debates mais profundos, é bacana pra mostrar que pessoas negras podem encontrar espaço em tramas que fazem a gente suspirar – e não apenas com as que evidenciam sua dor. Inclusive, se alguma pessoa negra estiver lendo esse post e quiser se manifestar, vou adorar saber sua opinião sobre isso nos comentários! 😊 Em resumo, Acorda Pra Vida, Chloe Brown é um romance envolvente e que, apesar dos defeitinhos, me entreteve do início ao fim. Recomendo!

Título Original: Get a Life, Chloe Brown
Série: As Irmãs Brown
Autora:
Talia Hibbert
Editora: Paralela
Número de páginas: 296
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Impulso – Ashley Audrain

Oi pessoal, tudo bem?

Uma das grandes apostas da editora Paralela para 2021 é O Impulso, cuja prova antecipada tive a oportunidade de conferir. E olha, não vai ser fácil falar desse livro bombástico não, viu? Mas prometo fazer o meu melhor. 😂

Garanta o seu!

Sinopse: Blythe Connor está decidida a ser a mãe perfeita, calorosa e acolhedora que nunca teve. Porém, no começo exaustivo da maternidade, ela descobre que sua filha Violet não se comporta como a maioria das crianças. Ou ela estaria imaginando? Seu marido Fox está certo de que é tudo fruto do cansaço e que essa é apenas uma fase difícil. Conforme seus medos são ignorados, Blythe começa a duvidar da própria sanidade. Mas quando nasce Sam, o segundo filho do casal, a experiência de Blythe é completamente diferente, e até Violet parece se dar bem com o irmãozinho. Bem no momento em que a vida parecia estar finalmente se ajustando, um grave acidente faz tudo sair dos trilhos, e Blythe é obrigada a confrontar a verdade. Neste eletrizante romance de estreia, Ashley Audrain escreve com maestria sobre o que os laços de família escondem e os dilemas invisíveis da maternidade, nos convidando a refletir: até onde precisamos ir para questionar aquilo em que acreditamos?

O Impulso é narrado em primeira pessoa por Blythe em um discurso direcionado ao seu ex-marido, Fox. A obra inicia com Blythe observando a casa do ex, que parece o cenário perfeito com sua esposa grávida e seus dois filhos – sendo a criança mais velha, Violet, filha de Fox com Blythe. A protagonista-narradora diz então que vai contar a ele o seu ponto de vista sobre tudo que aconteceu na vida do casal, e a partir desse ponto ela remonta ao início do relacionamento, bem como nos fornece informações sobre sua mãe e sua avó.

O Impulso é, em essência, um thriller sobre maternidade. Tanto Blythe quanto sua mãe, Cecilia, e sua avó, Ella, tiveram histórias muito difíceis e traumatizantes. Cecilia chegou a dizer à filha que as mulheres da família são problemáticas, e essas palavras marcaram Blythe. Quando ela conhece Fox, que vem de um lar estruturado e feliz, Blythe vê a oportunidade de se afastar das sombras que a acompanham, mas também de fazer diferente. Sabendo que Fox deseja casar e ter filhos, Blythe proporciona isso a ele – mas ela não demora a perceber que a maternidade não é simples e, principalmente, não deveria ser exercida sem vontade genuína.

É impossível ler O Impulso sem pensar em Precisamos Falar Sobre o Kevin. Até a cena do parto, em que Blythe reluta para deixar sua filha vir ao mundo, lembra a reação de Eva (mãe de Kevin). A verdade é que Blythe demora a perceber que a tomada de decisão para ser mãe foi motivada por vontade de agradar ao marido e por pressão social, já que espera-se que toda mulher queira ser mãe. O Impulso expõe as pressões da maternidade compulsória de forma intensa, deixando claro que essas inseguranças e medos são reforçados diariamente quando vemos discursos repetidos à exaustão de que “a maternidade é uma benção” e que “só olhar pro rostinho faz valer a pena”. E não me entendam mal, eu não estou dizendo que não vale a pena ser mãe. O que estou dizendo é que a romantização da maternidade é perigosa e não nos prepara, enquanto mulheres, para uma realidade cheia de mudanças físicas, exaustão mental e até mesmo solidão. Blythe vivencia isso na pele ao achar que é a única mulher do mundo a vivenciar tais problemas, e basta seguir UM Instagram de maternidade real pra sabermos que não, ela não é a única.

O livro ganha a atmosfera de thriller conforme Violet cresce. Blythe e a filha não conseguem criar um vínculo, e a menina só ama e respeita o pai. Recusa em mamar, choro ao ficar no colo de Blythe e uma negação em tratar a mãe com carinho são alguns dos sinais de alerta que preocupam Blythe (e que Fox se recusa a enxergar). Quando Violet passa a demonstrar sinais de crueldade e falta de remorso, a protagonista sente que o abismo entre elas aumenta e que está mais só do que nunca, já que seu marido parece responsabilizá-la pela falta de vínculo. Aliás, já que estou falando no Fox, vamos parar um minutinho pra ressaltar quão lixo é este homem? O cara idealiza a família perfeita e culpa Blythe por não consegui-la, causando também um silenciamento amargo e difícil de digerir. Por amar Violet incondicionalmente, ele tira a voz de sua esposa ao se recusar a tentar compreendê-la, partindo para uma suposição de que Blythe está exercendo seu maternar de um jeito errado (alô alô, gaslighting). Fox queria uma mulher dócil e capaz de suprir as expectativas irreais e idealizadas dele, colocando Blythe em uma posição que a obriga a não apenas tentar atingir os padrões da sociedade, mas também os seus.

Quando Blythe se vê grávida do segundo filho, ela enxerga também a oportunidade de fazer tudo diferente. Dessa vez ela deseja a criança de todo o coração, e o vínculo é imediato. Ela finalmente vê um caminho que a absolva de sua própria culpa, mas o leitor sabe que algo está para acontecer; a protagonista-narradora já deixou isso claro. E é aí que O Impulso fica perturbador, causando em mim uma sensação muito parecida com a que Verity causou (mas no sentido do desconforto, não no do ritmo frenético e impossível de largar). A sensação sufocante e o medo do que vem a seguir permeiam o relato de Blythe, tornando a experiência bem angustiante.

Como pontos negativos, eu traria o formato do relato e a “barriga” que a obra ganha após um evento traumático. Apesar de intercalar a narrativa em primeira pessoa de Blythe com descrições sobre as vidas de Ella e Cecilia, grande parte do livro é um monólogo. Isso pode cansar um pouco, já que traz somente o ponto de vista de Blythe, o que inclui suas divagações. E a “barriga” acontece depois da metade do livro, quando a obra parece não evoluir muito em direção à resolução do mistério. Na minha opinião, isso poderia ter sido um pouco mais ágil e enxuto.

O Impulso é um livro excelente para colocar em xeque nossas crenças a respeito da maternidade. Com um ritmo inquietante e fatos que mexem com o leitor, ele também funciona muito bem como o thriller que se propõe a ser – mas exercendo também o papel de um drama familiar. Acho improvável que ele não faça o leitor refletir em algum nível, e só por isso já vale a pena conferir. Romantizar a maternidade é algo que prejudica a todas as mulheres, e eu adoraria ver mais obras que tocassem nessa ferida por aí.

Título original: The Push
Autora: Ashley Audrain
Editora: Paralela
Número de páginas: 328
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro

Oi galera, tudo bem?

Recentemente tive a oportunidade de ler Pequeno Manual Antirracista, da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, e foi uma experiência que eu precisava compartilhar com vocês o mais rápido possível. Em tempos de preconceitos sendo televisionados diariamente sem o menor pudor (alô, BBB), pensar e agir de forma antirracista se torna ainda mais necessário.

Garanta o seu!

Sinopse: Neste pequeno manual, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em dez capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas.

Pequeno Manual Antirracista é um livro super curtinho e objetivo. A autora traz 10 tópicos fundamentais para que a gente dê o primeiro passo em direção à postura antirracista. Diversos assuntos que Djamila aborda são bem mais complexos, e a autora salienta isso (ou seja, ela deixa claro que existem debates que se estendem para além das páginas), mas a questão principal aqui é entender que a obra é um ponto de partida, e não uma verdade absoluta com a qual podemos “nos acomodar”. Djamila Ribeiro nos incentiva a ir além, mas dá as ferramentas iniciais para a virada de chave. E o melhor de tudo: com uma abordagem fácil de entender e com explicações sempre que um termo mais acadêmico surge. Mais democrático, impossível. Com isso, o livro acaba também sendo um instrumento poderoso até para nos fornecer argumentos em discussões com quem não vê a gravidade do problema, já que a autora explica não apenas os problemas causados no presente como também remonta às origens desses problemas.

Só pra vocês terem um “cheirinho” de tudo que Pequeno Manual Antirracista trata, resolvi trazer a lista de capítulos: 1) Pesquise sobre o racismo; 2) Enxergue a negritude; 3) Reconheça os privilégios da branquitude; 4) Perceba o racismo internalizado em você; 5) Apoie políticas educacionais afirmativas; 6) Transforme seu ambiente de trabalho; 7) Leia autores negros; 8) Questione a cultura que você consome; 9) Questione seus afetos; 10) Combata a violência racial; Conclusão: Sejamos todos antirracistas.

Pessoalmente, os itens 3, 4 e 6 dialogaram muito comigo. Falando um pouquinho sobre enxergar a branquitude, é aqui que Djamila traz a ação do branco no combate ao racismo. Mesmo quem não corrobora com violências de raça também usufrui dos privilégios construídos a partir da escravidão. Em um país com mais de 50% da população sendo negra, deveria ser mais chocante que negros sejam minorias em posições privilegiadas de poder. Djamila diz então que o branco precisa não se culpar (que leva à inércia), mas sim se responsabilizar (que leva à ação), fazendo sua parte para ascender pessoas negras. O item 4, que nos provoca a perceber nosso racismo internalizado, também é intenso. Esse é o capítulo que faz a gente questionar até mesmo as frases de “defesa” que usamos pra afirmar que não somos racistas. Acontece que racismo pode estar até no silenciamento quando alguém faz uma piada racista. Ser antirracista é correr o risco de ser designado como “o chato” e seguir cumprindo essa luta. Por fim, o item 6 (sobre ambiente de trabalho) também conversou diretamente comigo, considerando que estou numa posição em que contrato pessoas. Venho fazendo um esforço pra diversificar a minha equipe por entender que o mercado de trabalho ainda relega às pessoas negras subempregos, em sua maioria. Mas estamos muito, muito longe do ideal, e é importante que as empresas tomem à frente de forma mais completa e incisiva (com a criação de comitês de diversidade, por exemplo).

Trouxe alguns exemplos das minhas reflexões pra ilustrar pra vocês o quanto Pequeno Manual Antirracista faz a gente pensar. Todos os pontos trazidos por Djamila Ribeiro são relevantes e valiosos, cada virar de página traz uma lição importante – que incomoda e, justamente por isso, é necessária. O livro expõe de forma clara e contundente as diversas formas que o racismo age na nossa sociedade, e a única forma de mudarmos isso é saindo da inércia. Repito aqui o que Djamila diz na introdução: o antirracismo é uma luta de todas e todos.

Título original: Pequeno Manual Antirracista
Autora: Djamila Ribeiro
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 136
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Resenha: Depois do Sim – Taylor Jenkins Reid

Oi pessoal, tudo bem?

Faz um tempo que o nome da Taylor Jenkins Reid está no meu radar e, felizmente, tive a chance de entrar em contato com a escrita da autora por meio do excelente Depois do Sim. Vamos conhecer?

Garanta o seu!

Sinopse: Após onze anos de casamento, Lauren e Ryan chegam à triste conclusão de que não estão felizes juntos. Esse poderia ser o fim, mas para os dois é só o começo. Eles vão passar por um ano diferente de tudo aquilo que já viveram, no qual aprenderão muito mais sobre si mesmos do que seriam capazes de imaginar. “Depois do sim” é uma história sobre o que acontece quando a paixão parece não estar mais lá. Sobre as várias facetas do amor. Sobre aprender a mantê-lo, perdê-lo, redescobri-lo e aceitá-lo como ele é. Acima de tudo, é a história de um casal preso nas armadilhas de seus hábitos e manias, mas disposto a buscar um novo e inusitado caminho para fazer dar certo.

O livro começa nos apresentando a um casal visivelmente contrariado na companhia um do outro. O motivo do stress e da animosidade é simples (bobo até) e reside no fato dos dois estarem saindo de um estádio lotado e não lembrarem onde deixaram o carro. Desse ponto, a narradora – Lauren  volta no tempo e começa a contar como seu relacionamento iniciou e como ele chegou àquele momento que acabamos de presenciar. Conhecemos a versão jovem universitária de Lauren e também de seu marido, Ryan, e o amor intenso, saudável e sólido que os dois construíram. Depois lemos a respeito do pedido de noivado e do casamento. Até aqui, a história de amor é de fazer suspirar. Pouco a pouco, conforme vamos chegando perto do presente, pequenos sinais de desgaste vão surgindo: o sexo é quase inexistente, as brigas por coisas corriqueiras aumentam e a distância entre os dois também. E o leitor fica tão triste quanto Lauren e Ryan ao presenciar essa transição, que culmina num acordo desesperado: eles ficarão separados por um ano, sem contato, na tentativa de retomarem a relação após esse prazo. E essa decisão promove mudanças profundas nos protagonistas – especialmente Lauren, cujo ponto de vista nos guia.

Qualquer pessoa que já viveu um relacionamento longo tem grandes chances de se identificar bastante com Depois do Sim. Taylor Jenkins Reid é muito competente em fazer a transição natural que acontece do início do namoro (repleta de paixão) para uma relação duradoura (mais baseada na rotina), colocando um ingrediente fundamental pra fazer com que Lauren e Ryan fracassem: o ressentimento. Se no início da relação um era mais paciente com o outro, dispostos inclusive a concordar com certas coisas só pra ver o parceiro feliz, com o tempo essa prática se torna insustentável. Então Lauren e Ryan carregam uma carga de coisas não-ditas e de mágoas não resolvidas que mina a relação ao ponto de ser impossível dividir o mesmo lar. A decisão de ficarem um ano separados é pouco ortodoxa e causa estranhamento, mas os dois decidem que será necessário esse tempo longe pra entenderem se ainda se amam e sentem saudade um do outro.

Adoro que a autora trate da separação e da mudança do amor com realismo, mas sem ser cínica. Lauren não se torna alguém que não acredita mais no amor ou no próprio casamento – mas se questiona pra entender onde eles erraram, o que poderia ter sido diferente. Isso é muito relacionável, especialmente se você já passou por algum tipo de rompimento significativo. Por mais que no início a separação seja sufocante e Lauren ache impossível viver sem Ryan, aos poucos ela percebe que existe muito na vida além da relação que iniciou aos 19 anos. Sua família tem um papel primordial nisso, e eu adorei os pequenos detalhes que caracterizam cada membro dela. Os Spencer são muito carismáticos, incluindo a ácida e divertida vó Lois. Lauren descreve pequenas “manias” da família, como disputar a melhor rota no trânsito, e há pinceladas disso em várias cenas de forma muito natural, o que causa a sensação de que conhecemos aqueles personagens. Além deles, Lauren também conta com o apoio dos amigos para manter a cabeça ocupada e expandir seus horizontes a respeito de onde a vida pode levá-la (e do quão surpreendente ela pode ser).

Um ponto importante reside no fato de que Lauren busca exemplos à sua volta, desejando ser um deles pra saber o que vem a seguir (como sua mãe, tendo um namorado aos 59 anos, ou sua avó, que amou seu avô a vida toda). Mas a verdade é que cada vida e cada relacionamento são únicos. A gente não consegue, por mais que queira, saber o que vem pela frente. E quando ela se dá conta de que precisa deixar a vida acontecer e ser surpreendida pelo que cada dia reserva, Lauren começa a amadurecer de uma forma que ela não imaginava ser possível.

Depois do Sim é um livro que trata de um tema complexo e por vezes doloroso, mas Taylor Jenkins Reid narra cada passo dessa relação de uma forma divertida, suave e inspiradora, mesmo nos momentos mais difíceis. A visão da autora e da protagonista sobre as relações é bastante real, mas de forma que deixe espaço para a esperança e para a renovação. Lauren é uma narradora fácil de gostar, assim como as pessoas que a cercam, e o leitor se vê torcendo pra que de fato o melhor aconteça após aquele ano (mesmo que isso possa significar um divórcio). Mas, mais do que ser um livro envolvente, Depois do Sim também é uma obra que nos mostra o quanto vale a pena nos conhecermos e estarmos felizes com a nossa própria companhia para então apreciarmos a do outro. Terminei o livro com o coração quentinho, acreditando no amor mas também nas inúmeras possibilidades de recomeço que a vida nos oferece. Favoritado! ❤

Título original: After I Do
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de páginas: 320
Gostou do livro? Então adquira seu exemplar aqui e ajude o Infinitas Vidas! ❤

Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: Pessoas Normais – Sally Rooney

Oi pessoal, tudo bem?

Desde que vi a Pam Gonçalves falando sobre Pessoas Normais, fiquei com o título no meu radar. O fato de ter sido adaptado em uma série foi o incentivo que faltava pra eu finalmente dar uma chance, e hoje divido com vocês minha experiência com a leitura.

Garanta o seu!

Sinopse: Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes – contudo, um deles está determinado a esconder a relação. Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Pessoas Normais tem uma narrativa ágil em terceira pessoa, focada principalmente nos diálogos dos dois protagonistas, Marianne e Connell, cobrindo um período de tempo que vai do final do ensino médio até o final da faculdade. A mãe de Connell trabalha como faxineira para a família de Marianne, e as interações entre os dois ficam restritas a quando ele passa para buscá-la. Enquanto a jovem não é aceita socialmente na escola e tampouco tem amigos, Connell faz parte do grupo dos populares, fingindo inclusive não conhecer Marianne para manter as aparências. Um dia, porém, os dois se beijam e começam a sair juntos às escondidas, e essa dinâmica sexual se mantém por anos a fio, cheia de idas e vindas.

A primeira coisa que eu preciso dizer sobre Pessoas Normais é que ele é um livro que parece nunca sair do lugar, e a culpa é exclusiva da falta de diálogo entre os protagonistas. Gente, eu tenho 27 anos, não tenho mais paciência pra adulto agindo feito adolescente. Por isso, esse aspecto do livro foi enervante pra mim. Marianne e Connell (especialmente Connell) causaram mágoas um no outro ao longo dos anos, mas eles funcionam como ímãs que não conseguem se afastar completamente. A química sexual é o que os une em primeiro lugar, mas também existe uma segunda camada nesse relacionamento, que é encontrar compreensão, adequação e aceitação em alguém. 

No ensino médio, Marianne era a excluída, mas na faculdade os papéis se invertem. Agora é ela quem brilha, enquanto Connell se sente desajustado ao conviver com pessoas que não parecem aceitá-lo por quem ele é, e o abismo de classes sociais também o intimida. Na época da escola, Connell interpretava um papel fácil e consolidado que funcionava, não se permitindo ser vulnerável. Marianne, por outro lado, com sua sinceridade implacável e jeito blasé, se encaixou no novo meio – um meio muitas vezes permeado por arrogância intelectual. Quem nunca foi presunçoso aos 20 e poucos anos em uma conversa com outros colegas universitários que atire a primeira pedra.

Apesar de ser um livro muito bom em abordar o sentimento de se sentir perdido e em um lugar ao qual você não pertence, ele também me deixou muito nervosa e irritada, especialmente por causa de Connell. A maneira como ele usa Marianne ao longo dos anos me enojou. Transar com ela às escondidas no ensino médio e, na faculdade, se beneficiar dos confortos que ela poderia proporcionar (como um apartamento no qual ele poderia ficar) foram atitudes horríveis que Marianne não merecia. Connell sabe que gosta dela e ainda assim não expõe seus verdadeiros sentimentos, e ao mesmo tempo ele tem plena consciência do poder que exerce sobre ela, se aproveitando disso. Marianne, por outro lado, vem de uma família desestruturada: ela aprendeu desde cedo que violência é a forma de lidar com as relações, já que presenciou seu falecido pai agredindo sua mãe, e ela própria foi vítima disso. No presente, seu irmão também a trata de forma violenta, tanto física quanto verbal, e Marianne não encontra forças para se defender. Sua autoestima é comprometida e ela acredita não ser digna de amor, o que explica toda a dinâmica autodestrutiva de passividade e permissividade que ela tem não apenas com Connell como também com todos os homens (problemáticos) com quem se relaciona ao longo dos anos. 

O terço final do livro é um pouco decepcionante, porque a autora entra no território da saúde mental de forma abrupta e sai dele de forma tão abrupta quanto. O leitor não tem tempo pra absorver a nova condição e as consequências que isso causa na vida dos personagens, e o capítulo final faz com que isso tudo seja ainda pior. Ele é repentino e causa uma sensação de que faltaram páginas pra construir aquela mudança tão representativa na forma de pensar e agir de Connell e Marianne. A próxima frase tem spoiler, selecione se quiser ler: quando Connell recebe a proposta para ir a Nova York, novamente eles poderiam ter resolvido com diálogo e com planos. Marianne poderia terminar a faculdade e ir encontrá-lo, por exemplo. Mas eles decidem de forma tácita que Connell deve ir e Marianne se sente feliz e conformada com isso. De novo, insisto: cadê o diálogo?

Pessoas Normais é um bom livro, mas nem de longe entrou para a minha lista de favoritos. Como ponto positivo ressalto principalmente o foco em assuntos que dialogam com as nossas experiências de jovens adultos, mas infelizmente a dinâmica da narrativa é cíclica de um jeito cansativo. Você passa páginas e mais páginas e não sente que ninguém ali está amadurecendo de verdade, e o final da história é tão repetitivo quanto seu começo. Agora pretendo conferir a série pra ver se nela eu me sinto menos desconfortável com essa relação conturbada e confusa. Vou torcer para que sim.

Título original: Normal People
Autora:
Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 264
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

Resenha: O Caçador – Lars Kepler

Oi pessoal, tudo bem?

Recebi da Alfaguara, selo do grupo Companhia das Letras, o thriller policial O Caçador – e óbvio que corri para ler, já que sou apaixonada pelo gênero. 😉

Garanta o seu!

Sinopse: O detetive Joona Linna passou dois anos em uma prisão de segurança máxima quando recebeu uma inesperada visita. A polícia precisa de sua ajuda para deter um misterioso assassino: o chamam de O Caçador de Coelhos, pois a única conexão entre suas vítimas é que ouvem uma canção de ninar sobre coelhos antes de morrer. Joona agora tem a chance de sair da prisão para, com a policial Saga Bauer, tentar desvendar quem é esse misterioso caçador e salvar seus próximos alvos. Mas o que aparentemente parece ter motivações terroristas se transforma em um dos casos mais complexos de sua carreira. Em O caçador, o romance mais vendido da Suécia e da Noruega em 2016, Lars Kepler apresenta novamente sua fórmula imbatível: ritmo frenético, situações limite e personagens impagáveis.

O Caçador é um livro da série Joona Linna e, como a maior parte das séries policiais que seguem essa fórmula, a história tem início, meio e fim próprios, mas conta com elementos dos volumes anteriores que auxiliam no aprofundamento dos personagens. Mas, diferente da minha experiência com Morte no Verão (em que me senti perdida por não conhecer o background dos personagens), O Caçador foi muito tranquilo de ler. O autor relembrava informações (suponho) relevantes necessárias para entendermos o básico dos personagens, aproximando minha experiência de leitura com a que tive lendo os romances de Cormoran Strike ou o ótimo Boneco de Neve. O fato de ser um romance nórdico também me fez perceber algumas similaridades no estilo narrativo em relação a este último.

A obra acompanha um assassino implacável que não deixa rastros ao eliminar suas vítimas. O governo da Suécia acredita estar lidando com um terrorista, já que sua primeira vítima conhecida é o Ministro das Relações Exteriores. A responsável pelo caso, Saga Bauer, desconfia dessa conclusão, já que o assassino deixou uma testemunha viva – uma atitude bastante inusitada. Ela insiste então que Joona Linna seja envolvido na investigação, um ex-detetive com quem ela já trabalhou e encontra-se preso (por um crime que o livro não explica muito bem). A partir daí, eles passam a correr contra o tempo para descobrir a motivação do crime e impedir os futuros assassinatos.

Até a metade do livro, a história parece não evoluir muito. Os detetives investem muito tempo investigando a hipótese do terrorismo, então eu me senti perdendo um pouco de tempo enquanto essa parte da trama se desenrolava. Entretanto, quando eles começam a juntar as peças, o livro fica impossível de largar. Ao descobrirem a associação entre as vítimas e irem atrás do passado delas, a história fica instigante e as pontas soltas começam a se unir, levando a um ótimo e angustiante final cheio de ação em um ambiente claustrofóbico.

Depois que descobrimos o assassino (e o livro te dá pistas suficientes pra isso), a trama perde um pouquinho de fôlego, porque alguns capítulos narrados por outros personagens nos afastam da investigação em curso. Isso me deixou ansiosa pra voltar pra ação logo rs. Só que a narrativa é tão ágil que mesmo assim você passa as páginas rapidamente, de forma fluida. Eu amo capítulos curtos, eles me dão uma vontade enorme de não largar o livro e isso me fez passar horas imersa na obra de Lars Kepler.

O Caçador é um livro cujo ritmo narrativo é envolvente, os investigadores são competentes e os motivos para o crime são bem embasados (quando eu descobri até passei um pano pro vilão rs). Gostei muito da experiência e fiquei com vontade de conhecer os outros livros da série. Se você é fã de romances policiais, vale deixar esse título no radar. 😉

Título original: Kaninjägaren
Série: Joona Linna
Autor:
Lars Kepler
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 528
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Livro cedido em parceria com a editora.
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Resenha: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis – Jarid Arraes

Oi pessoal, tudo bem?

Amanhã, às 19h, vai rolar uma live no perfil da Editora Seguinte pra divulgar o lançamento do livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, e eu aproveitei a oportunidade pra indicar essa leitura indispensável pra vocês. Bora conhecer?

heroinas negrasGaranta o seu!

Sinopse: Talvez você já tenha ouvido falar de Dandara e Carolina Maria de Jesus. Mas e Eva Maria do Bonsucesso? Luisa Mahin? Na Agontimé? Tia Ciata? Essas (e tantas outras) mulheres negras foram verdadeiras heroínas brasileiras, mas pouco se fala delas, seja na escola ou nos meios de comunicação. Diante desse apagamento, há anos a escritora Jarid Arraes tem se dedicado a recuperar ― e recontar ― suas histórias. O resultado é uma coleção de cordéis que resgata a memória dessas personagens, que lutaram pela sua liberdade e seus direitos, reivindicaram seu espaço na política e nas artes, levantaram sua voz contra a injustiça e a opressão. A multiplicidade de histórias revela as mais diversas estratégias de sobrevivência e resistência, seja na linha de frente ― como Tereza de Benguela, que liderou o quilombo de Quariterê ― ou pelas brechas ― como a quituteira Luisa Mahin, que transmitia bilhetes secretos durante a Revolta dos Malês. Este livro reúne quinze dessas histórias impressionantes, ilustradas por Gabriela Pires. Agora, cabe a você conhecê-las, espalhá-las, celebrá-las. Para que as próximas gerações possam crescer com seu próprio panteão de heroínas negras brasileiras.

Após a leitura de Extraordinárias, fiquei com bastante vontade de conhecer mais histórias inspiradoras de mulheres brasileiras que fizeram a diferença na conquista de direitos que temos hoje. Mas, mais do que isso, fui sentindo cada vez mais necessidade de conhecer o papel das mulheres negras nessa construção, já que muitas delas têm suas histórias invisibilizadas.

E, no formato de cordel, a escritora Jarid Arraes traz à luz o nome de inúmeras mulheres que foram primordiais na história do nosso país. De princesas africanas que lideraram seu povo contra a escravidão até a primeira mulher negra eleita no Brasil, Jarid Arraes conta histórias que precisamos conhecer de uma forma poética, envolvente e lúdica. Ao fim de cada capítulo há também um pequeno resumo sobre a protagonista do cordel que amplia as informações trazidas até então em um formato mais tradicional, completando a experiência.

heroinas

Jarid Arraes faz questão de romper com um estereótipo deturpado de que as pessoas negras foram escravas passivas e sem orgulho de sua ancestralidade. Muito pelo contrário: a cordelista exalta as origens do povo negro e evidencia quanta luta, quanta resistência, quanto enfrentamento o povo precisou enfrentar até que esse aspecto hediondo da nossa sociedade fosse abolido. Até hoje a desigualdade se faz presente e ainda hoje as pessoas parecem esperar que os negros falem apenas sobre esse viés, mas Jarid Arraes rompe com essa expectativa ao nos apresentar personalidades fortes, líderes, determinadas e, em meio a muito sofrimento, lutadoras. 

Isso me faz pensar na necessidade de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis estar presente desde cedo entre as crianças negras, estar presente nas escolas, com fácil acesso a jovens que estão em processo de construção da sua identidade. O livro exala orgulho da ancestralidade e das raízes, dos traços que se originaram de príncipes e princesas, e coloca em destaque as mulheres que fizeram parte da construção da identidade brasileira. Falamos muito em representatividade – e precisamos continuar falando cada vez mais –, e esse livro é uma adição valiosa nesse sentido, porque cada palavra traz afeto e orgulho ao contar cada história nele presente.

Como mulher branca, eu posso apenas imaginar o impacto que um livro como Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis pode provocar em uma jovem negra. Por isso, usando esse espaço de privilégio, gostaria de convidar você a conferi-lo. Precisamos reconhecer o árduo caminho que ainda temos pela frente para combater as desigualdades que seguem presentes, e parte disso é entregar o microfone (ou as páginas) para pessoas negras que tem muito o que dizer. E Jarid Arraes tem muito a dizer.

Título original: Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis
Autor: Jarid Arraes
Editora: Seguinte
Número de páginas: 176
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.