Resenha: O Poderoso Chefão – Mario Puzo

Olar, tudo bem?

Depois de me enrolar por 4 anos após ganhar um exemplar de presente, finalmente li o clássico O Poderoso Chefão!

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Sinopse: Publicada em 1969, a saga O Poderoso Chefão é, ainda hoje, a mais perfeita reconstrução das famílias mafiosas de Nova York. O carismático Don Vito Corleone é o chefão de uma delas. Apesar de implacável, Don Vito é, essencialmente, um homem justo. Padrinho benevolente, nada recasa a seus afilhados: conselho, dinheiro, vingança e até mesmo o assassinato de alguém. Em troca, o poderoso chefão pede apenas o respeito e a amizade de seus protegidos. Mas ninguém pode vencer as trapaças da idade. Quando todos os seus inimigos resolverem atacar, e seu bem mais precioso, a família, estiver por um fio, o velho Corleone terá de escolher, entre seus filhos, um sucessor à altura. Mario Puzo constrói, de maneira hábil, um mundo de intrigas, decisões cruéis e honra, num legado de tradição e sangue.

É bem provável que a maioria de vocês, assim como eu, conheçam O Poderoso Chefão por meio dos filmes da trilogia. O livro de Mario Puzo (que foi adaptado no primeiro longa) aprofunda ainda mais a história, com uma narrativa envolvente e personagens bem construídos.

Don Vito Corleone veio da Sicília, na Itália, para os Estados Unidos ainda criança, fugindo de uma ameaça de morte. Em terras americanas, ao longo das décadas ele construiu o seu império por meio da importação de azeite e de negócios ilegais (principalmente no ramo dos jogos). O livro se passa na década de 40, após a Segunda Guerra Mundial, e Don Corleone é chefe de uma das Famílias mais poderosas de Nova York. E, por Família, quero dizer grupo mafioso mesmo. 😛 Don Corleone é um homem muito respeitado, com grande influência política. Tendo amizade e relações de negócios com juízes, senadores, governadores e outros figurões, seu poder vai muito além do financeiro. Seus filhos o auxiliam nos negócios, com exceção da única pessoa da família Corleone que não deseja ter envolvimento com esse universo: seu filho homem mais novo, Michael. O rapaz lutou na guerra, está noivo de uma típica moça americana e traça um caminho bem diferente dos seus outros irmãos, que trabalham para a Família (percebam que, quando utilizo Família com F maiúsculo, me refiro à máfia). As coisas ficam complicadas quando Don Corleone sofre um atentado à sua vida, após recusar sua participação no negócio de entorpecentes, proposta por um homem perigoso chamado Sollozzo. O tiroteio que debilitou o chefe dos Corleone faz com que Michael precise se envolver, mudando todo o rumo da história.

O Poderoso Chefão tem um início lento, com o objetivo de mostrar a extensão dos poderes de Don Corleone. Com uma essência diplomática e justa, mas ainda assim implacável, o líder dos Corleone valoriza a amizade e o respeito: ele ajuda sua comunidade e seus amigos sem hesitar, desde que possa contar com seu apoio quando necessário. No início do livro, Don Corleone manda seu consigliere, Tom Hagen (que é também seu filho adotivo) resolver um problema que seu afilhado, o ator e cantor Johnny Fontane, enfrenta: o jovem deseja estrelar um filme de Hollywood, mas o diretor do longa tem uma implicância pessoal com ele. Tom Hagen viaja até lá e, a mando de Don Corleone, resolve o problema de um modo bastante sangrento. Essa situação é apenas um exemplo que ilustra a fidelidade de Don Corleone para com seus protegidos, bem como seu modo de resolver as coisas: primeiro, com uma tentativa de diálogo; em caso de recusa, com métodos mais “diretos”.

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O que eu mais gostei durante a leitura foi, sem dúvidas, o desenvolvimento dos personagens. Mario Puzo consegue fazer com que o leitor se identifique e sinta empatia por… criminosos. Simples assim. Ao descrever o bom coração do violento Sonny Corleone, filho mais velho do Don, muitas vezes nos esquecemos dos episódios de infidelidade, dos crimes cometidos, entre outras coisas. Ao narrar os excelentes diálogos de Don Vito Corleone, muitas vezes nos pegamos torcendo pelo sucesso de suas empreitadas. E Tom Hagen, um rapaz dedicado, inteligente e fiel a Don Corleone, nos conquista (ainda que saibamos que ele está envolvido em cada detalhe sujo dos negócios da Família). Mas quem tem o melhor desenvolvimento, na minha opinião, é Michael Corleone. No filme, eu senti que a decadência moral do personagem foi um tanto rápida demais, me surpreendendo como um rapaz de tanta ética poderia sucumbir tão rápido à realidade da Família. Porém, no livro, Mario Puzo vai narrando o prazer que Michael sente ao auxiliar os planos da Família, a eletricidade que corre por seu corpo quando ele participa de algum plano. Isso, somado às tragédias que o assolam posteriormente, é uma justificativa muito mais plausível para explicar a trajetória do personagem.

As discussões sobre moralidade também são um ponto fortíssimo no livro. Don Vito e os outros líderes mafiosos não confiam no sistema. O chefe dos Corleone, inclusive, o tem na mão (por meio de suas conexões com políticos e juízes). Em um mundo que não protege os indivíduos e beneficia quem tem nome e/ou dinheiro, os mafiosos cumprem esse papel, acolhendo e dando suporte aos seus protegidos e passando por cima da justiça tradicional e das regras do Estado. O caso de Amerigo Bonasera, que viu os jovens que espancaram sua filha sendo soltos graças à influência de seus sobrenomes, ilustra muito bem essa situação. O senso de justiça é muito presente na obra, ainda que muitas vezes de modo deturpado. Entretanto, o livro aborda essas questões de modo a fazer o leitor refletir e, até certo ponto, entender e concordar com o posicionamento e as atitudes dos Corleone.

Como crítica negativa, eu diria apenas que o livro dedica tempo demais a personagens pouco relevantes. Temos toda uma parte da obra que narra a história de Lucy Mancini, ex-amante de Sonny Corleone, por exemplo. Durante essa passagem, o enredo foca nos problemas sexuais da moça e em como ela consegue resolvê-los. E não, isso não tem impacto nenhum para a história de modo geral. O mesmo ocorre com Johnny Fontane, que tem mais páginas do que deveria. Isso serve para aprofundar os personagens secundários e torná-los mais reais, o que é algo que valorizo; entretanto, achei que isso se prolongou por tempo demais, afastando o livro da trama principal (que era a que realmente me mantinha interessada).

O Poderoso Chefão reúne diversos elementos atrativos: uma história bem contada, um enredo envolvente, uma narrativa instigante e personagens excelentes. Não há preto e branco, mas cinza: as diversas camadas dos personagens (com qualidades e defeitos) fazem com que eles sejam verossímeis e relacionáveis. O livro questiona ainda a integridade do Estado, mostrando que existe muita sujeira e corrupção nas diversas camadas das autoridades (o que fica explícito graças aos contatos políticos de Don Corleone). É uma obra excelente sobre a máfia, mas que aborda também as relações familiares e suas complicações, bem como a decadência e a desconstrução moral dos personagens. Recomendadíssimo!

Título Original: The Godfather
Autor: Mario Puzzo
Editora: Record
Número de páginas: 461
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