Dica de Série: Nove Desconhecidos

Oi pessoal, tudo bem?

Terminei de assistir à minissérie Nove Desconhecidos, que adapta o livro de mesmo nome que resenhei um tempinho atrás. Bora pro review e pro comparativo com o livro?

Sinopse: Nove pessoas problemáticas se hospedam em um sofisticado retiro de bem-estar que promete uma transformação total. Lá, os hóspedes se entregam a um tratamento radical que ameaça levar esse instável grupo ao limite de suas emoções e medos.

O plot básico da série é o mesmo que o da obra original: nove pessoas contratam um pacote no spa Tranquillum House em busca de descanso para o corpo e para a mente por motivos diversos. Lá, eles encontram cenários paradisíacos, consultores de bem-estar bonitos e de voz tranquila e a diretora do lugar: Masha, uma russa magnética e enigmática. Logo fica claro que ela utiliza abordagens pouco ortodoxas e que o spa não é somente um espaço para o relaxamento, mas sim para terapias que podem levar cada um dos presentes ao extremo.

É nítido que a minissérie traz mais elementos de suspense para a trama do que o livro. Não demora para que o espectador comece a ficar desconfortável com algumas medidas adotadas na Tranquillum House, como o fato de fazerem exames de sangue diários nos hóspedes, por exemplo. Existem tensões entre os hóspedes, alguns rompantes de raiva e outras situações que nos levam a questionar se aquele é um ambiente totalmente seguro. Quando Masha começa a receber vídeos dela na propriedade (como se fosse de um stalker), o clima de mistério – e perigo – se acentua.

Diferente do que ocorre no livro, a série revela um de seus principais mistérios logo de início: a metodologia do tratamento de Masha. A partir daí, vemos os personagens “entrando na onda” e aceitando os tratamentos de forma voluntária. Essa é uma das principais diferenças em relação à obra original, e acho que é uma bem importante; particularmente, senti falta da revolta dos personagens com o que acontece em Tranquillum House. Eles não só aceitam aquilo que lhes é oferecido como entram de cabeça nas propostas arriscadas de Masha, sem medo das consequências.

Enquanto o livro é lento, mais focado no drama de cada personagem e menos no mistério, aqui a série se inverte, tendo mais cenas de tensão e fazendo com que alguns personagens mal tenham tempo de tela (como o casal cujo casamento está em crise, Ben e Jessica). Felizmente, duas das minhas tramas favoritas foram bem exploradas ao longo dos episódios: a primeira delas é a aproximação da escritora Frances (que sofreu um golpe de amor pela internet) e do ex-atleta Tony (que teve que parar de jogar após uma lesão e se fechou para o mundo). A química entre Melissa McCarthy e Bobby Cannavale transborda na tela e eles protagonizam cenas emocionantes e outras engraçadas. A segunda trama que eu curti demais, superando a emoção do livro, foi a da família Marconi, que foi ao spa na tentativa de superar o luto pela perda do filho/irmão. Heather, Napoleon e a filha, Zoe, carregam muita culpa e sofrimento, e todas as cenas em que eles enfrentaram tais sentimentos me fizeram chorar. A atuação visceral de Asher Keddie (Heather) me deixou arrepiada e de coração partido.

A reta final da série é um pouco fraca. O clímax não causa aflição, o que ocorre nas páginas. Por outro lado, a produção televisiva foca em humanizar Masha e suas experiências, transformando-a em uma personagem que causa mais simpatia (enquanto no livro ela está em busca de fama e reconhecimento). Além disso, diferente do que ocorre no material original, a minissérie tem um final aberto – cabendo a você escolher no que acreditar.

A adaptação de Nove Desconhecidos é uma ótima produção, com um enredo bacana e ganchos interessantes. Mas seu maior mérito é o mesmo que o do livro: seus personagens – aqui muito bem representados por um elenco que entrega atuações impecáveis. As mesmas coisas que me incomodaram no livro também me incomodaram na série, mas em ambos os casos minha percepção geral da história é muito boa. Vale a pena colocar Nove Desconhecidos na lista e passar um tempinho em Tranquillum House. 😉

P.S.: pra quem ficou interessado em saber as diferenças entre a série e o livro (com spoilers, obviamente), é só conferir a lista abaixo:

  • Descoberta da verdade sobre o tratamento: quem se liga que Masha está drogando os hóspedes é Heather, que é enfermeira. Ela também é a primeira a se revoltar, assim como Ben, que odeia drogas por ter perdido a irmã para o vício;
  • Plot de Ben e Jessica: o casal vai até o spa para tentar salvar o casamento e, enquanto na série os dois realmente se reaproximam, no livro eles percebem cada vez mais o abismo que se construiu na relação. Ele inclusive se aproxima de Zoe, dando a entender que eles vão manter uma amizade (ou algo mais) no futuro;
  • Propósito das alucinações: diferente do que a série mostra, o livro não traz todo o plot de alucinações com os mortos como uma tentativa de trazê-los de volta;
  • Passado da Masha: no livro ela também perde a filha, mas quando ainda é um bebê. Ela também não tem nenhuma relação com Carmel e não sofreu uma experiência de quase morte pelo tiro, e sim por infarto;
  • Propósito da Masha: enquanto na série ela quer uma forma de reencontrar a filha morta e, por isso, faz os tratamentos nos hóspedes, no livro ela deseja reconhecimento e sucesso por seu método inovador;
  • Yao e Delilah: no livro a Delilah transa com Yao mas não existe a camada romântica/amorosa que a série traz. Consequentemente, ela é uma personagem mais “foda-se” na obra original, que vai embora muito mais por medo de ser pega pela polícia do que por princípios;
  • Plot da Carmel: a mudança mais drástica da série. No livro ela também é uma mulher insegura e magoada pelo fato de ter sido trocada pelo marido e confesso que, no início da trama, achei que ela seria meio maluca por venerar a Masha. No fim, foi uma personagem bem sem sal. Na série ela é completamente desequilibrada, sendo a pessoa por trás do tiro em Masha e responsável por stalkear a diretora da Tranquillum House;
  • Passado do Tony: diferente do que a série mostra, o ex-atleta não se envolveu em uma briga que culminou na morte de um homem, e também não era viciado em analgésicos. Ele decide ir a Tranquillum por estar completamente sozinho e perceber que ficou “triste” ao ir ao médico e descobrir que sua saúde estava ok, servindo de sinal de alerta para buscar ajuda.

Título original: Nine Perfect Strangers
Ano de lançamento: 2021
Criadores: John-Henry ButterworthDavid E. Kelley
Elenco: Amy Poehler, Rashida Jones, Nick Offerman, Aubrey Plaza, Chris Pratt, Adam Scott, Aziz Ansari, Retta, Jim O’Heir, Rob Lowe

Resenha: Nove Desconhecidos – Liane Moriarty

Oi pessoal, tudo bem?

Nove Desconhecidos, da Liane Moriarty, vai ganhar uma adaptação em minissérie pelo Hulu. Como o livro já estava no meu radar, corri pra ler e compartilhar com vocês minhas impressões antes da adaptação (que conta com a presença de Nicole Kidman) estrear. Vamos conhecer!

Garanta o seu!

Sinopse: Nove pessoas se reúnem em um spa bem distante da cidade. A quilômetros da civilização, sem carro nem celulares, elas não têm qualquer contato com o mundo exterior. Apenas tempo para pensarem em si mesmas e se conhecerem melhor. Algumas estão lá para perder peso, algumas para tentar recomeçar a vida, outras por razões inconfessáveis até para elas mesmas. No meio de tanto luxo e mimo, sucos e meditação, todos sabem que vão precisar se esforçar nos próximos dez dias. Mas ninguém é capaz de imaginar o tamanho do desafio.

Antes de iniciar a resenha propriamente dita, tenho um disclaimer importante a fazer: entrei em contato com Liane Moriarty de forma “indireta”, ao assistir e me apaixonar por Big Little Lies (a série de TV). A construção do mistério e, principalmente, dos personagens me encantou completamente. Por isso, resolvi ler O Segredo do Meu Marido, e foi com essa leitura que entendi duas coisas: o foco da Liane Moriarty é o desenvolvimento psicológico dos seus personagens e o mistério em si fica em segundo plano. Ainda assim, ao ler a sinopse do livro, imaginei que encontraria um livro que pudesse focar mais no suspense, mas não é o caso: falar sobre Nove Desconhecidos é falar sobre seus personagens.

Em essência, o enredo é muito simples: nove pessoas com intuitos diferentes compram um pacote de transformação pessoal no spa Tranquillum House. Ele é dirigido por Masha (o papel que Nicole Kidman irá interpretar), uma mulher que abandonou a vida de executiva após uma experiência de quase-morte para se dedicar ao mercado de saúde e relaxamento. A abordagem de Masha, que é apoiada por dois consultores de bem-estar (Yao e Delilah), é pouco ortodoxa, mas a princípio parece inofensiva: celulares são proibidos, há um período de silêncio obrigatório e existem momentos para jejum, por exemplo. Quando a diretora decide colocar em prática uma nova terapia, as coisas ficam mais tensas e, ao que tudo indica, saem de controle.

E quem são os nove desconhecidos? Há Frances, uma escritora em declínio que sofreu um golpe de amor pela internet; a família composta por Napoleon, Heather e Zoe Marconi, que estão no spa para processar um luto; o casal Jessica e Ben, cujo casamento está em crise; Lars, que está tentando fugir da expectativa do companheiro de ter um bebê que ele não deseja; Tony, um antigo atleta de sucesso que se sente estagnado na vida; e Carmel, uma mãe exausta cujo divórcio minou sua autoestima. Os capítulos são narrados em terceira pessoa mas se alternam entre as perspectivas de todos os personagens, e a cada página os conhecemos com mais profundidade. Esse é um traço que gosto bastante no trabalho de Liane Moriarty: ela desenvolve seus personagens aos poucos, desnudando suas camadas e fazendo com que eles se tornem cada vez mais verossímeis e relacionáveis.

resenha nove desconhecidos liane moriarty

Frances é a narradora mais recorrente, sendo uma mulher divertida e carismática, com quem dá vontade de sentar pra beber um drink e jogar papo fora. Além disso, ela é empática e perceptiva, por mais que em alguns momentos as pessoas pensem que não. Sua personalidade efusiva, somada ao fato dela ser escritora de romances, causa certo preconceito por parte de alguns personagens, mas é Frances quem tem alguns dos principais insights necessários para contornar a situação em que Masha os coloca. Além de Frances, me emocionei muito com o plot da família Marconi. A perda de um filho é um tema recorrente e crucial em diferentes momentos da trama. No caso dos Marconi, o processo de cura em relação ao suicídio de seu filho, Zach, é comovente.

E que situação é essa em que Masha coloca seus hóspedes? Não vou dar detalhes pra não estragar a experiência, mas a diretora do spa está convencida de que pode aplicar um novo tipo de tratamento sem o consentimento dos hóspedes. Magnética e eloquente, a diretora da Tranquillum House os incentiva a deixar o ego de lado e mergulhar de cabeça na transformação que ela e sua equipe estão proporcionando. A ironia aqui é que o ego da personagem é o maior que poderia haver entre os presentes no local: ela quer glórias, escrever livros, dar entrevistas. Ela quer gratidão dos hóspedes e se revolta quando não a tem. Em suma, quer reconhecimento. E, para isso, ela assume uma postura autocrática e assustadora.

Como um ponto negativo de Nove Desconhecidos, eu ressaltaria seu tamanho. Como a autora opta por desenvolver de forma mais aprofundada seus personagens, a história em si demora a sair do lugar. E, quando o clímax acontece mais para o final da trama, tudo acaba muito rápido. A conclusão do plot de Masha também não me deixou muito satisfeita, mas não sei dizer se foi por ranço da personagem ou por ter achado meio forçado. Os outros personagens, entretanto, encontraram conclusões suficientes para que suas histórias fossem resolvidas, me deixando satisfeita – e, em alguns casos, emocionada.

Retomo aqui o que disse no início da resenha: Nove Desconhecidos é um livro sobre personagens, não sobre suspense. Se você tiver isso em mente, pode ser uma leitura muito satisfatória pra você. Apesar de eu ter torcido pra encontrar um pouquinho mais de mistério, eu gostei da experiência porque curto personagens bem desenvolvidos. Então, no fim das contas, recomendo a leitura! 😉

Título original: Nine Perfect Strangers
Autora:
Liane Moriarty
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 464
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