Resenha: As Parceiras – Lya Luft

Oi, gente!

Pensei bastante sobre qual livro escolheria para minha próxima resenha. Procurando entre os títulos mais recentes, tomei a decisão de escrever sobre As Parceiras, da Lya Luft. Eu fiz o vestibular da UFRGS agora em 2014 (e fui aprovada! \o/), e essa foi uma das leituras obrigatórias. Li praticamente todos os livros da lista, mas nenhum me emocionou tanto quanto As Parceiras.

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Sinopse: Em “As Parceiras” somos apresentados à Anelise, vida à beira do caos, que procura no passado as razões para seu infortúnio. Ao passar das páginas, ela encontra a coragem para enfrentar os fantasmas que a perseguem. O clima sufocante dessa narrativa opera uma estranha hipnose sobre o leitor, uma sedução que o apanha de surpresa, o levando para uma dimensão torturada. Um universo com temáticas perigosas, como conturbadas relações familiares, traumas da infância e suas sequelas na vida adulta.

A história do livro é narrada por Anelise, uma mulher na faixa dos 40 anos, que decide partir em uma jornada de autoconhecimento acerca de toda a sua vida até então. Os capítulos são divididos em sete dias da semana, que é o tempo que a protagonista passa na praia, no chalé de sua família. Ao longo dos sete dias, descobrimos acontecimentos íntimos e marcantes da vida não só de Anelise, mas como de toda a sua família de mulheres. E são esses acontecimentos que a levam a se distanciar do mundo por um tempo, com o objetivo de resolver o seu caos interior e entender o porquê das coisas terem ocorrido daquela maneira ao longo de sua vida.

Anelise se descreve como oriunda de uma “família de mulheres”, parceiras na vida e nas desgraças. Todos os infortúnios e inseguranças começam com a avó, Catarina, uma mulher que foi obrigada a casar com um homem violento quando tinha apenas 14 anos. Dessa união, duas coisas importantes aconteceram: o nascimento de 4 filhas e o confinamento de Catarina em sua própria loucura, que a levou a se enclausurar em um sótão branco e inocente durante o resto da vida, até cometer suicídio. As filhas de Catarina não tiveram destino muito mais feliz: Norma, a mãe de Anelise, morreu em um acidente de avião; a tia Beatriz – ou melhor, a Beata – se tornou uma viúva virgem após o suicídio do marido pouco tempo após o casamento; a tia Dora, uma pintora que foi casada diversas vezes, mas que nunca se viu feliz em nenhum matrimônio; e, por fim, a tia Sibila, uma anã portadora de Síndrome de Down, fruto de uma relação forçada pelo marido de Catarina. Essas quatro mulheres têm uma influência enorme na construção do caráter e da personalidade de Anelise, que tem como um grande objetivo ser diferente de todas elas. O medo de se tornar frustrada e de ser perseguida por tragédias é evidente e constante em Anelise, que passa a vida inteira buscando uma forma de enfrentar o “destino” de sofrimento que persegue a sua família.

Outros personagens importantes da família de Anelise também têm a sua vida marcada por infelicidade: sua irmã mais velha, Vânia, está presa em um casamento feito de aparências, no qual é traída constantemente pelo marido; e Otávio, o primo, filho adotivo de Dora, que é também o primeiro amor juvenil e quem proporciona a primeira experiência sexual de Anelise. Futuramente, ele acaba se casando com uma mulher grosseira, infiel e que não o ama, fazendo Otávio perder todo o vigor e alegria que sempre tivera na adolescência. Além deles, pode-se considerar também como “da família” a melhor amiga de Anelise, Adélia, uma menina que morreu aos 12 anos após despencar de um precipício próximo ao chalé. Essa morte é sentida pela protagonista durante toda a sua vida, e ela acaba sempre lembrando e sentindo a falta da menina.

Anelise, apesar de tudo, consegue se desvencilhar de seus fantasmas durante uma época de sua vida: quando conhece, se apaixona e se casa com Tiago. O relacionamento dos dois é intenso e, durante muito tempo, eles são felizes. A ruína do casal acontece quando decidem ter filhos. O “destino” parece finalmente tê-la encontrado, pois ela passa por sucessivos abortos. A obstinação da protagonista em fugir da infelicidade e da solidão faz com que ela tente provar à vida que é capaz de ser feliz e, assim, insiste em tentar engravidar a todo custo. Entretanto, isso acaba por afundar seu casamento, já que sua vida passa a girar em torno desse objetivo. Quando finalmente Anelise consegue dar à luz a uma criança, diversos problemas acontecem e isso é o fator que desencadeia a partida de Anelise para a praia, onde revive todos os momentos da sua vida. É nesse momento que Anelise percebe que não pôde fugir do seu destino: ser infeliz, assim como todas as mulheres da sua família. Elas são parceiras na tristeza e na tragédia, cada uma a seu modo.

O livro é totalmente intimista. Acompanhamos Anelise em cada experiência de vida, desde as primeiras perdas, o abandono de toda a paranoia sobre sua família, o casamento, a perda do filho, entre outros acontecimentos. É um livro que retrata uma mulher que percebe que falhou, mas que já perdeu as esperanças para recomeçar. Acho que todo mundo, em algum momento, já parou para fazer uma retrospectiva da própria vida, a fim de analisar os fatores que o levaram até ali. É exatamente isso que Anelise faz. Ela aceita a própria desgraça e percebe que nunca foi possível fugir daquele desfecho, pois toda a sua vida foi construída ao redor de pessoas desestruturadas e emocionalmente fragilizadas, e ela é um reflexo disso. Mesmo em um momento feliz, a vontade de provar ao mundo – e, principalmente, a si mesma – que era capaz de gerar um filho e ter a vida que tanto queria foi o fator determinante que selou a destruição do seu casamento e, consequentemente, gerou o maior trauma de sua vida.. Em uma passagem do livro, Anelise diz que Catarina possuía um sótão onde se refugiar; ela, ao contrário, se refugiava em si mesma. No fundo, Anelise passou a vida inteira temendo ser como as outras mulheres de sua família, que pareciam aceitar aquelas vidas incompletas, o que a fez lutar de todas as formas que pôde contra esse desfecho. Entretanto, essa mesma luta levou-a diretamente a esse final.

As Parceiras não é um livro feliz. Longe disso. É um livro muito verossímil e forte, que é capaz de mexer com o leitor e fazê-lo pensar sobre a história mesmo depois de terminá-lo. Eu gosto muito de autores que aprofundam psicologicamente os seus personagens, principalmente quando o enredo é envolvente e bem desenvolvido. Recomendo muito essa leitura, principalmente pra quem busca um drama bem escrito, com personagens muito reais e conflitos que poderiam ser facilmente encontrados fora das páginas. 

Editora: Record
Número de páginas: 128
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