Resenha: A Revolução dos Bichos – George Orwell

Oi pessoal, como estão?
Hoje é Dia das Mães, e espero que todos tenham passado ótimos momentos ao lado delas, ou de quem cumpre esse papel em suas vidas. ❤

Para o post de hoje, eu trouxe a resenha de um dos melhores livros que eu já li, mas sobre o qual eu ainda não havia falado por aqui. Resolvi reler, para refrescar a memória, e finalmente escrevi a respeito: trata-se de A Revolução dos Bichos, obra do genial George Orwell.

a revolução dos bichos george orwell

Sinopse: Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, ‘A Revolução dos Bichos’ é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stalin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos – expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História – mimetizam os que estavam em curso na União Soviética. Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A revolução dos bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.

Eu nunca fui muito adepta de discussões políticas, entretanto, sempre gostei de História. No Ensino Médio, um professor indicou a leitura de 1984, de George Orwell, para um trabalho, e ali tive minha primeira experiência com uma leitura de cunho político. Meu fascínio com o livro foi tanto que, em seguida, li A Revolução dos Bichos. Outra leitura fantástica, que eu decidi refazer agora, anos depois – coincidindo com a turbulência política atual do nosso país.  Hoje, mais politizada e mais questionadora, novamente eu fui atingida por um soco no estômago e tomada por uma angústia ainda maior do que a que eu já havia sentido antes. A Revolução dos Bichos nunca deixa de ser atual, nunca deixa de ser provocativo e nunca deixa de ser uma das melhores experiências literárias que já tive.

É importante salientar que George Orwell era socialista. Tanto 1984 (sobre o qual falarei em outra oportunidade) quanto A Revolução dos Bichos são uma crítica específica ao regime stalinista e à “Rússia socialista” (entre aspas mesmo, porque, no meu entendimento, definitivamente o regime stalinista não era socialismo). Dito isso, vamos ao enredo: certo dia, os animais da Granja do Solar são chamados pelo velho porco Major, muito respeitado entre todos, para uma reunião. Pressentindo que sua vida chegaria ao fim, Major discursa sobre a fugacidade e a escravidão presentes na vida dos animais, que passam seus curtos anos trabalhando até a exaustão para atender às vontades humanas. Ele fala ainda sobre um futuro resplandescente, em que todos os animais serão iguais e tomarão o controle das próprias vidas, até que os humanos não existam mais. Além disso, ensina a eles o hino “Bichos da Inglaterra”, que exalta esse futuro de igualdade. Após a sua morte, a Revolução acontece, e os animais tomam posse da granja, expulsando seu antigo dono, Jones, e a renomeando como Granja dos Bichos. Instaura-se então o Animalismo, que prega que todos os animais são iguais. Contudo, não demora muito para que os animais mais perspicazes, os porcos (a intelligentsia da granja), comecem a usufruir de maiores privilégios do que os outros animais.

Alguns personagens destacam-se ao longo do livro: Bola-de-Neve (que representa Trótski) e Napoleão (Stalin), os porcos mais influentes e participativos nas discussões e debates; Sansão, um cavalo forte e burro, que resolve todos os problemas sob seus lemas pessoais (“Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”); Benjamin, um burro cético que opta por não se envolver nos trâmites políticos; Garganta, o porta-voz da decisão dos porcos, perito em persuasão, entre outros. Bola-de-Neve e Napoleão estão em constantes divergências, mas Bola-de-Neve ainda aparenta ser mais preocupado com a democracia e com a melhora na vida dos bichos. Ainda assim, ele usufrui de privilégios exclusivos para os porcos, que surgem desde o início da revolução. Já Napoleão e Garganta são dois dos personagens mais odiosos com os quais já me deparei. Napoleão nada mais é do que um verdadeiro ditador. Por meio do medo, de execuções públicas, de manipulação dos animais mais facilmente influenciáveis e de manobras políticas, ele toma o controle da granja para si e instaura um verdadeiro regime de terror. Garganta, responsável pela diplomacia, é a principal ferramenta para grande parte desses feitos. Alterando os fatos e a memória dos animais por meio do discurso, argumentando com situações extremas (em um nível de “vocês não querem a volta de Jones, querem?”) e usando de sua eloquência para manipulação, ele faz com que os animais, pouco a pouco, percam a voz. Ao longo dos anos, cada animal vai acatando às decisões dos porcos e qualquer tipo de protesto é silenciado – principalmente por meio da violência. Vale a pena mencionar também Sansão: ignorante e trabalhador, o forte cavalo só tem a ambição de ver o moinho de vento que irá diminuir a carga de trabalho na granja (projeto original de Bola-de-Neve, posteriormente roubado por Napoleão) concluído, mesmo que acabe comprometendo toda a sua saúde na empreitada. O desfecho do personagem é um dos mais cruéis, cínicos e dolorosos que eu já li. É uma das partes que me faz chorar e me deixa em uma bad bem complicada.

Eu sempre fui adepta de que quantidade não necessariamente significa qualidade. E isso se reflete facilmente no número de páginas de A Revolução dos Bichos: em apenas 112 páginas, George Orwell constrói uma história crível, com personagens extremamente bem construídos, com motivações obscuras e personalidades dúbias. Por meio de uma fábula, o autor nos dá uma aula de História e personifica muito bem os tipos humanos. Para quem gosta de política, A Revolução dos Bichos é uma leitura obrigatória. Para quem não gosta, o livro também é uma opção maravilhosa graças à riqueza em seu desenvolvimento. E para quem se interessa pelo assunto, não existe opção melhor, já que a narrativa fluida e de fácil entendimento tornam o assunto muito mais simples.

Certeiro em sua crítica e didático em sua simplicidade, A Revolução dos Bichos é, disparado, um dos melhores livros que já li. Leiam. Depois leiam de novo. E leiam mais uma vez.

Título Original: Animal Farm – A Fairy Story
Autor: George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 152
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