Resenha: Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes – Filipe Tasbiat

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje a dica é de literatura nacional. 😀 Vim contar pra vocês o que achei de Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes, do autor gaúcho Filipe Tasbiat. Apesar de termos da faculdade em comum, só conheci o Filipe quando ele me procurou pra perguntar se eu tinha interesse em ler Abelardo. Fiquei lisonjeada ao descobrir que o blog foi uma indicação desses amigos e também muuuito curiosa ao ler a sinopse. Amo livros de suspense, mistério e fantasia, e Abelardo prometia reunir esses 3 elementos numa história com uma pitada sobrenatural. 

Garanta o seu!

Sinopse: Em “Abelardo: o bebê monstruoso de Adelaide Estes”, o império está por um fio, a abolição dos escravos é iminente e as primeiras centelhas da eletricidade começam a faiscar. O mundo está mudando, mas mudará depressa o bastante para livrar Adelaide da difícil missão que os Távoras a incumbiram? A província inteira quer saber o que aconteceu com Adelaide Estes, a Adormecida de São Pedro, que caiu em decúbito, um sono profundo e inexplicável, e acordou meses depois dando à luz a um bebê que nem ela sabia que esperava. Adelaide acredita que os Távoras, uma família cuja ambição aparenta não ter limites, podem estar envolvidos. Mas primeiro ela terá que descobrir o que há de errado com o bebê. “Abelardo” narra a história por trás de uma lenda na província de São Pedro. Em uma vila reminiscente do século 19, nos anos derradeiros do Brasil Imperial, mistério, fantasia e história se misturam em uma odisseia de monstros e heróis, servos e patrões, freiras e bruxas, na qual todos parecem guardar segredos.

Abelardo se passa no século XIX, em um tempo em que a escravidão tinha sido abolida em apenas algumas províncias e a eletricidade vinha chegando para mudar o dia a dia das pessoas. É nesse contexto que a jovem Adelaide Estes cai em decúbito, ou seja, adormece sem motivo aparente e não consegue acordar (meio A Bela Adormecida vibes). Seu corpo é enviado para a casa de sua tia, Guadalupe de Távora, uma mulher ambiciosa cujo marido é um figurão do mercado de óleo de baleia, na época usado nos lampiões. Guadalupe aproveita a chegada de Adelaide para fazer um espetáculo em sua casa, chamando-a de Adormecida de São Pedro, e pessoas de toda a província vinham visitar a misteriosa jovem. Para a surpresa de todos, entretanto, descobrem que Adelaide está grávida, e ela acorda repentinamente no momento do parto. Surpresa com o fato de ter dormido por cerca de um ano e agora ter um bebê nos braços, a pobre Adelaide precisa entender seu novo papel como mãe, solucionar o mistério de seu decúbito e, principalmente, lidar com um bebê estranho, que dá indícios de estar possuído por alguma entidade sobrenatural, dado seu comportamento violento e atípico.

Ler Abelardo me fez viajar pra uma época totalmente diferente, e o vilarejo fictício em que a história se passa ganhou vida na minha imaginação. Me sentia assistindo a uma novela ou série de época, porque as descrições dos cenários e situações são tão bem detalhadas que me vi sendo transportada para o vilarejo de Trás-os-Montes. Além disso, o vocabulário do autor é variado, o que incentiva a pesquisa por termos desconhecidos, e acaba trazendo aprendizado aliado ao entretenimento (fun fact: lembrei de quando eu era pequena e pedia ajuda ao meu pai pra “traduzir” certas palavras haha ❤). Apesar de ser uma história fantástica com elementos de suspense/terror, o livro não chega a provocar medo. Existem algumas cenas em que você teme pela segurança de certos personagens mas, no geral, essa tensão é quebrada pelo tom irônico e bem-humorado que o autor imprime na narrativa, com suas diversas provocações sarcásticas (como por exemplo as repetidas menções à cabeça ligeiramente grande da senhora Guadalupe rs). Mesmo quando Abelardo começa a revelar o seu lado selvagem e possivelmente assassino, o livro não foca em assustar o leitor, mas em evidenciar o quanto a vida de Adelaide virou de cabeça pra baixo.

Aliás, preciso dizer que adorei Adelaide. Seu estranhamento com a maternidade e o fato de não conseguir amar o próprio filho são muito compreensíveis: a jovem era virgem, caiu em um sono que lhe roubou um ano de vida e, ao acordar, se viu com um bebê sob sua responsabilidade. A situação por si só é aflitiva e, quando ela descobre a índole violenta de seu filho, é natural que a personagem tenha medo e busque ajuda de formas desesperadas. A maneira como seu afeto por Abelardo vai se desenvolvendo é natural e gradual, o que tornou a história mais crível pra mim – mesmo se tratando de uma fantasia. 

O livro tem duas linhas temporais: uma explora o presente e o cotidiano de Adelaide e outros personagens de Trás-os-Montes; a outra foca no passado da jovem no convento em que cresceu. Ambos os núcleos são bem desenvolvidos e fornecem informações valiosas sobre os personagens, inclusive os secundários, como a já mencionada Guadalupe de Távora, tia de Adelaide; Peregrina de Társea, uma peça-chave do passado da protagonista; a doce Greisel, parteira que trouxe Abel ao mundo; e Cravo, a fiel doula de Adelaide e maior defensora de seu bebê. Existem mais nomes importantes, e todos eles têm um papel a cumprir na história – que vai além do bebê monstruoso, mas cujo plot não posso dar detalhes pra não estragar certas surpresas.

Tenho poucos aspectos não tão positivos para comentar, mas um deles é a questão da revisão do texto: Abelardo tem uma série de errinhos, nada que atrapalhe o entendimento do texto, mas eu sou bastante chata com esse tipo de detalhe. É importante frisar, contudo, que durante a minha leitura o Filipe me contou que já estava subindo uma versão com revisão atualizada do livro na Amazon, então é bem provável que vocês não encontrem esses problemas. 😉 O segundo aspecto que eu cito aqui não é exatamente negativo, mas sim uma característica que eu, pessoalmente, não curto tanto: capítulos longos com poucos espaços de pausa. Já falei em diversas resenhas que eu adoro capítulos curtos porque me dão agilidade na leitura e, quando são longos, prefiro que tenham aqueles espaços de “troca de cena” que favorecem uma pausa. É uma questão de gosto mesmo, mas vale pontuar que mesmo com capítulos mais longos eu ~fiz o Abelardo e devorei as páginas. 😛

Não é exagero dizer que Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes foi uma das minhas melhores leituras do ano. O livro reúne uma história bem amarrada, uma narrativa envolvente, um plot criativo e bons personagens, além de instigar o leitor a querer descobrir os mistérios que envolvem Adelaide, os Távoras e os segredos de Trás-os-Montes. Se você gosta de fantasia, mistério e um toque sobrenatural, dê uma chance a Abelardo. Eu já virei fã. 😉

Título original: Abelardo: o Bebê Monstruoso de Adelaide Estes
Autora:
Filipe Tasbiat
Editora: Independente
Número de páginas: 438
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