Precisamos falar sobre a cultura do estupro.

Na última semana, uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. Vocês podem ler mais a respeito do fato em si aqui ou em qualquer outro site de notícias. Minha intenção, com esse post, não é falar sobre a vida da Beatriz, sobre as festas que ela frequentava, sobre com quem se relacionava. Nada disso importa. O que importa é que 33 homens sentiram-se no direito de estuprá-la. E nós precisamos falar sobre isso.

Sempre que um caso assim acontece, o que mais vejo são homens tentando “tirar o seu da reta”. Eles ficam ofendidos quando os generalizamos e argumentam com frases como “esses caras não são normais, são doentes” ou “tu tá errada em generalizar, eu jamais faria algo assim, meus amigos também não”. Pois uma pesquisa americana mostra que um terço dos estudantes estupraria se não houvesse punição. Então, vamos abrir os olhos: não se trata de doença, e mesmo especialistas já falaram sobre isso nos últimos dias. Não foram 33 homens doentes que se reuniram pra estuprar a Beatriz. Não foram mais outros doentes que compartilharam os vídeos e as fotos, debocharam dela e riram às custas de sua dor. Isso é crime. Isso é estupro punitivo. Isso é achar que ela mereceu. E sabe o que é pior? Esses homens encontram força pra esse tipo de ato todos os dias. Sabe como? Quando alguém diz “ah, mas não deveria usar roupas tão curtas”, ou ainda “também, tava bebendo até altas horas” ou “tem até filho já, aposto que dar não é novidade pra ela”, entre inúmeras barbaridades que ouvimos todos os dias. Estupro não é doença. É sintoma. Sintoma de uma sociedade machista, que subjuga a mulher de todas as formas possíveis.

A verdade é que nossa sociedade se choca quando uma notícia dessas surge ao mesmo tempo em que busca argumentos e explicações que possam culpabilizar a vítima ou justificar o que foi feito. Quando perguntam “tá, mas e o que ela tava fazendo na rua sozinha?” É SIM uma forma de jogar a culpa em cima da vítima ao mesmo tempo em que se legitima a ação do estuprador. A intenção pode não ser essa? Pode. Mas, querendo ou não, é isso que essa postura traz: ela reforça a cultura do estupro, ela legitima a atitude de quem acha que estupro punitivo é correto, ela joga a culpa em quem não tem culpa – a vítima.

Como mencionado pela Gisele Muniz no Facebook, até mesmo na hora de celebrar a prisão de estupradores a sociedade age de maneira machista: “na cadeia eles vão virar mulherzinhas”. Virar mulherzinha na cadeia = ser estuprado. Percebem o quão enraizado o machismo e a cultura do estupro estão em nossa sociedade, em nossos pensamentos, em nossos discursos?

Por isso, homens, não se sintam ofendidos quando as mulheres falam que todo homem é um possível estuprador. Afinal, de 33 homens, nenhum se salvou. De 33 homens, nenhum pensou duas vezes sobre a atrocidade que estavam cometendo. Na internet, diversos homens riram do sofrimento da Beatriz, outros tantos julgaram-na da pior maneira possível. Apesar de não ser minha postura pessoal, eu entendo quando as mulheres adotam o discurso de que todo homem é um possível estuprador, pois sei que elas estão buscando defender a todas nós. Nem todas temos a sorte de estar rodeadas por bons amigos, bons familiares, bons companheiros. Até porque a maioria dos estupros são praticados por pessoas próximas da vítima: o pai, o irmão, o tio, o namorado.

Não fiquem ofendidinhos, não tornem isso pessoal. Quer mostrar que você acha mesmo o machismo hediondo? Faça isso no dia a dia. Combata os amigos que fazem piadas escrotas, que têm atitudes abusivas, que reproduzem o machismo. Não seja conivente com vídeos e fotos vazadas, com discursos machistas e opressores. Faça a diferença entre os seus. Isso é muito mais útil do que tentar nos deslegitimar com “vocês feministas estão generalizando, nem todos os homens são assim, eu não sou assim”. Querido, você não merece estrelinha nem tapinha nas costas por achar estupro hediondo. Isso é o MÍNIMO que se espera de um ser humano.

Sejam humildes. Abram os olhos. Mudem. Melhorem.