Resenha: Nove Desconhecidos – Liane Moriarty

Oi pessoal, tudo bem?

Nove Desconhecidos, da Liane Moriarty, vai ganhar uma adaptação em minissérie pelo Hulu. Como o livro já estava no meu radar, corri pra ler e compartilhar com vocês minhas impressões antes da adaptação (que conta com a presença de Nicole Kidman) estrear. Vamos conhecer!

Garanta o seu!

Sinopse: Nove pessoas se reúnem em um spa bem distante da cidade. A quilômetros da civilização, sem carro nem celulares, elas não têm qualquer contato com o mundo exterior. Apenas tempo para pensarem em si mesmas e se conhecerem melhor. Algumas estão lá para perder peso, algumas para tentar recomeçar a vida, outras por razões inconfessáveis até para elas mesmas. No meio de tanto luxo e mimo, sucos e meditação, todos sabem que vão precisar se esforçar nos próximos dez dias. Mas ninguém é capaz de imaginar o tamanho do desafio.

Antes de iniciar a resenha propriamente dita, tenho um disclaimer importante a fazer: entrei em contato com Liane Moriarty de forma “indireta”, ao assistir e me apaixonar por Big Little Lies (a série de TV). A construção do mistério e, principalmente, dos personagens me encantou completamente. Por isso, resolvi ler O Segredo do Meu Marido, e foi com essa leitura que entendi duas coisas: o foco da Liane Moriarty é o desenvolvimento psicológico dos seus personagens e o mistério em si fica em segundo plano. Ainda assim, ao ler a sinopse do livro, imaginei que encontraria um livro que pudesse focar mais no suspense, mas não é o caso: falar sobre Nove Desconhecidos é falar sobre seus personagens.

Em essência, o enredo é muito simples: nove pessoas com intuitos diferentes compram um pacote de transformação pessoal no spa Tranquillum House. Ele é dirigido por Masha (o papel que Nicole Kidman irá interpretar), uma mulher que abandonou a vida de executiva após uma experiência de quase-morte para se dedicar ao mercado de saúde e relaxamento. A abordagem de Masha, que é apoiada por dois consultores de bem-estar (Yao e Delilah), é pouco ortodoxa, mas a princípio parece inofensiva: celulares são proibidos, há um período de silêncio obrigatório e existem momentos para jejum, por exemplo. Quando a diretora decide colocar em prática uma nova terapia, as coisas ficam mais tensas e, ao que tudo indica, saem de controle.

E quem são os nove desconhecidos? Há Frances, uma escritora em declínio que sofreu um golpe de amor pela internet; a família composta por Napoleon, Heather e Zoe Marconi, que estão no spa para processar um luto; o casal Jessica e Ben, cujo casamento está em crise; Lars, que está tentando fugir da expectativa do companheiro de ter um bebê que ele não deseja; Tony, um antigo atleta de sucesso que se sente estagnado na vida; e Carmel, uma mãe exausta cujo divórcio minou sua autoestima. Os capítulos são narrados em terceira pessoa mas se alternam entre as perspectivas de todos os personagens, e a cada página os conhecemos com mais profundidade. Esse é um traço que gosto bastante no trabalho de Liane Moriarty: ela desenvolve seus personagens aos poucos, desnudando suas camadas e fazendo com que eles se tornem cada vez mais verossímeis e relacionáveis.

resenha nove desconhecidos liane moriarty

Frances é a narradora mais recorrente, sendo uma mulher divertida e carismática, com quem dá vontade de sentar pra beber um drink e jogar papo fora. Além disso, ela é empática e perceptiva, por mais que em alguns momentos as pessoas pensem que não. Sua personalidade efusiva, somada ao fato dela ser escritora de romances, causa certo preconceito por parte de alguns personagens, mas é Frances quem tem alguns dos principais insights necessários para contornar a situação em que Masha os coloca. Além de Frances, me emocionei muito com o plot da família Marconi. A perda de um filho é um tema recorrente e crucial em diferentes momentos da trama. No caso dos Marconi, o processo de cura em relação ao suicídio de seu filho, Zach, é comovente.

E que situação é essa em que Masha coloca seus hóspedes? Não vou dar detalhes pra não estragar a experiência, mas a diretora do spa está convencida de que pode aplicar um novo tipo de tratamento sem o consentimento dos hóspedes. Magnética e eloquente, a diretora da Tranquillum House os incentiva a deixar o ego de lado e mergulhar de cabeça na transformação que ela e sua equipe estão proporcionando. A ironia aqui é que o ego da personagem é o maior que poderia haver entre os presentes no local: ela quer glórias, escrever livros, dar entrevistas. Ela quer gratidão dos hóspedes e se revolta quando não a tem. Em suma, quer reconhecimento. E, para isso, ela assume uma postura autocrática e assustadora.

Como um ponto negativo de Nove Desconhecidos, eu ressaltaria seu tamanho. Como a autora opta por desenvolver de forma mais aprofundada seus personagens, a história em si demora a sair do lugar. E, quando o clímax acontece mais para o final da trama, tudo acaba muito rápido. A conclusão do plot de Masha também não me deixou muito satisfeita, mas não sei dizer se foi por ranço da personagem ou por ter achado meio forçado. Os outros personagens, entretanto, encontraram conclusões suficientes para que suas histórias fossem resolvidas, me deixando satisfeita – e, em alguns casos, emocionada.

Retomo aqui o que disse no início da resenha: Nove Desconhecidos é um livro sobre personagens, não sobre suspense. Se você tiver isso em mente, pode ser uma leitura muito satisfatória pra você. Apesar de eu ter torcido pra encontrar um pouquinho mais de mistério, eu gostei da experiência porque curto personagens bem desenvolvidos. Então, no fim das contas, recomendo a leitura! 😉

Título original: Nine Perfect Strangers
Autora:
Liane Moriarty
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 464
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Resenha: Rede de Sussurros – Chandler Baker

Oi pessoal, tudo bem?

Rede de Sussurros, um thriller baseado no movimento #MeToo, estava no meu radar há meses. Finalmente o coloquei na meta de leitura e hoje posso contar o que achei pra vocês.

Garanta o seu!

Sinopse: Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham juntas em uma empresa de roupas esportivas. As três sempre se ajudaram, passando por promoções empolgantes, reuniões intermináveis, casamento, maternidade, divórcio e os desafios impostos pela política no escritório. Elas também têm seus segredos e cada uma fez algo de que se arrepende. Com a morte repentina do presidente da empresa, tudo indica que Ames, o chefe delas, será alçado à liderança da companhia. Ames é um homem complicado, que as três conhecem há muito tempo e que sempre esteve cercado por sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas. Esses sussurros vinham sendo ignorados, varridos para debaixo do tapete e acobertados por aqueles que estão no poder. Depois de descobrirem que Ames adotou uma conduta inaceitável em relação a uma nova funcionária, elas decidem falar. E essa decisão provoca uma mudança catastrófica no escritório. Mentiras serão reveladas. Segredos serão expostos. E nem todo mundo sobreviverá. Suas vidas — como mulheres, colegas, mães, esposas, amigas e até adversárias — estão prestes a mudar drasticamente.

O mistério do livro inicia com alguém que cai (ou é empurrado?) do alto do prédio de uma grande empresa de artigos esportivos, a Truviv. Em seguida, a narrativa passa a alternar entre os acontecimentos prévios à misteriosa queda e as investigações, que são focadas em três amigas, Sloane Glover, Grace Stanton e Ardie Valdez.

À primeira vista, Rede de Sussurros parece ser narrado em primeira pessoa, ainda que não saibamos por quem. Antes da queda fatídica acontecer, há outra morte importante: a do presidente da Truviv, cujo acontecimento funciona como a primeira peça de um dominó, que em seguida derruba todas as outras, pois quem está sendo cotado para substituí-lo é Ames, chefe das três mulheres. Enquanto grande parte da empresa o enxerga como um excelente nome e alguém competente e adequado ao cargo, Sloane e Ardie sabem que Ames é alguém incapaz de de respeitar limites especialmente se quem os coloca é uma mulher. Quando uma nova funcionária é contratada pelo próprio Ames, Sloane sente um ímpeto de protegê-la dos avanços do chefe e, motivada por esse desejo, ela acrescenta o nome de Ames a uma planilha que tem circulado anonimamente, em que homens são denunciados por assédio sexual (sem saber que isso desencadearia uma série de graves consequências para todos).

O livro é bem contundente nas descrições sobre desigualdades de gênero. Ao longo das páginas, o leitor percebe que não é nenhuma das personagens principais quem está narrando a história, mas sim um coletivo – o “nós”. Esse estilo narrativo se faz valer desse afastamento com a trama em si pra trazer aspectos mais gerais do “ser mulher” no mercado de trabalho. Situações como o fato de que mulheres precisam se preocupar com o envelhecimento enquanto homens são levados mais a sério conforme os anos passam são um exemplo disso. No caso de Sloane, que teve um caso com o Ames logo que iniciou na Truviv, o assédio e as consequências na carreira perduram até o presente: ele lança mão de comentários inapropriados sobre seu corpo, deslegitima suas decisões (se aproveitando do fato de ser seu chefe) e ocasionalmente menciona o passado dos dois, como uma mancha de vinho em um sofá branco. Por isso não é de se espantar que Sloane queira colocar seu nome na planilha das denúncias anônimas.

A história do livro em si é bastante previsível: é fácil acertar quem é o corpo na calçada, assim como é fácil prever o que aconteceu com Rosalita, uma personagem cuja importância vai crescendo ao longo da trama e é um exemplo claro de silenciamento feminino. Mas, apesar da história não conter grandes reviravoltas, o grande mérito de Rede de Sussurros é evidenciar o abismo que existe entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, sim, mas também na vida. O assédio sexual é o principal tema, claro, mas a trama também expõe os absurdos aos quais as mulheres precisam se submeter para conseguirem ser bem sucedidas. A narradora coletiva fala sobre o nosso perfeccionismo, já que mulheres sofrem com a pressão de serem boas em tudo: boas profissionais, boas mães, boas donas de casa. Temos que nos provar três vezes mais para atingirmos o mesmo patamar de um colega homem, e tendo o cuidado de não sermos lidas como agressivas ou teimosas (o que, no caso deles, é visto como firmeza e confiança). Precisamos voltar ao trabalho pouco tempo após parir, mesmo com o nosso corpo e nossos hormônios pedindo por descanso pois, caso contrário, seremos deixadas para trás na guerra corporativa. Essas são apenas algumas situações que Rede de Sussurros expõe de forma precisa e, infelizmente, relacionável.

Se por um lado a crítica social é competente, a trama peca por sua lentidão e por seus personagens nada marcantes. Não consegui me afeiçoar e nem torcer por nenhuma das protagonistas, e isso é um fator que eu levo bastante em consideração ao avaliar uma leitura. Senti falta de um mistério que perdurasse por mais tempo, além de ter me cansado com a futilidade de Sloane. Foi difícil acreditar que ela estivesse fazendo o que fazia por pensar no bem da nova colega; parecia mais uma atitude de quem queria colocar um ponto final no passado e trazer justiça a um homem que a prejudicou de diversas formas. E eu acho essa motivação muuuito válida, na verdade. O problema é que Sloane tentou fazer parecer que era altruísmo, o que, pra mim, não colou.

Rede de Sussurros não atingiu todas as minhas expectativas e acabou sendo uma leitura bacana, mas mediana. Minha recomendação se concentra muito mais nos fatos abordados pela narradora coletiva do que pela trama em si, porque esses sim precisam vir à luz para serem cada vez mais combatidos – como o excelente Clube da Luta Feminista ensina. O mérito do livro está nessas discussões, e sempre serei a favor de tramas que toquem em pontos delicados que já deveriam ter sido vencidos há muito tempo. E deveríamos fazer isso sem sussurrar, mas gritando aos quatro ventos mesmo.

Título Original: Whisper Network: A Novel
Autora: Chandler Baker
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 384
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Resenha: A Troca – Beth O’Leary

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de Teto Para Dois ter sido meu livro favorito de 2020, corri para conferir A Troca, da mesma autora, e hoje conto pra vocês minhas impressões.

Garanta o seu!

Sinopse: Leena Cotton tem 29 anos e sente que já não é mais a mesma. Eileen Cotton tem 79 e está em busca de um novo amor. Tudo de que neta e avó precisam no momento é pôr em prática uma mudança radical. Então, para colocar suas respectivas vidas de volta nos trilhos, as duas têm uma ideia inusitada: trocar de lugar uma com a outra. Leena sabe que precisa descansar, mas imagina que a parte mais difícil será se adaptar à calmaria da cidadezinha onde a avó mora. Cadastrada em um site de relacionamentos, Eileen por sua vez embarca na aventura com a qual sonha desde a juventude. Dividindo o apartamento com dois amigos da neta, ela logo percebe que na cidade grande suas ideias mirabolantes não são tão complicadas assim. Ao trocar não só de casas, mas de celulares e computadores, de amigos e rotinas, Leena e Eileen vão descobrir muito mais sobre si mesmas do que imaginam. E se tudo der certo, talvez destrocar não seja a melhor solução.

Leena Cotton é uma mulher competente, determinada e ambiciosa. Porém, a perda recente de sua irmã mais nova para o câncer ainda causa uma dor emocional intensa, que marca vários aspectos de sua vida. Quando Leena tem uma crise de pânico em uma reunião com um cliente, ela é obrigada por sua chefe a tirar uma licença de 2 meses. É aí que surge uma oportunidade inesperada: ela e sua avó, Eileen, que recentemente foi deixada pelo marido, decidem “trocar de vida” durante aqueles 2 meses. Enquanto Leena iria para a casa da avó no interior e ficaria responsável por suas atribuições junto à comunidade, Eileen iria para o apartamento de Leena em Londres para conhecer novos amores e viver a aventura da qual ela desistiu quando engravidou na juventude. Essa mudança de dinâmica causa transformações profundas não apenas na vida das duas, mas de várias pessoas que as cercam.

Assim como ocorre em Teto Para Dois, em A Troca temos capítulos intercalados entre as duas personagens com narração em primeira pessoa. Isso nos ajuda a conhecê-las mais rapidamente, o que inclui seus pontos fortes e fracos. Leena, por exemplo, é uma mulher que ascendeu na carreira por mérito próprio, sendo inteligente e uma líder nata. Porém, ela também é um pouco mimada e egoísta, o que se reflete em dois aspectos principais: o primeiro é a recusa em conversar abertamente com a sua mãe a respeito de uma mágoa envolvendo a perda de Carla, sua irmã; o segundo é a forma como ela parece desdenhar das tarefas da avó, como passear com o cachorro do vizinho ou liderar as reuniões da Patrulha do Bairro – um grupo formado majoritariamente por idosos que passa mais tempo fofocando do que falando sobre segurança de fato. Felizmente, Leena não demora a perceber que seu jeitão londrino não vai conquistar aquelas pessoas, que são leais umas às outras. Ela também exercita humildade ao entender que determinados aspectos do dia a dia da avó são desafiadores mesmo para alguém como ela.

Eileen, por outro lado, me cativou enormemente. Ela pode ser um pouquinho enxerida? Pode. Mas ela faz questão de cuidar de todos à sua volta com tanto carinho e entrega que é fácil perdoar. Ao chegar em Londres, ela rapidamente fica amiga dos colegas de apartamento e da colega de trabalho de Leena, mas vai além: Eileen consegue conquistar também vizinhos que até então nunca tinham trocado mais de duas palavras com sua neta. E dessa aproximação surge uma ideia que transforma o prédio frio em um ambiente caloroso e hospitaleiro: Eileen funda o Clube dos Grisalhos de Soreditch, utilizando o espaço comum do prédio pra criar um ambiente de convivência voltado a idosos que morem sozinhos em Londres. Esse plot é ainda melhor do que a busca de Eileen por um crush!

As duas protagonistas dividem não apenas a vida, mas também novos interesses amorosos. Enquanto Eileen vive um romance tórrido em Londres, ela também é surpreendida por uma pessoa com a qual não imaginava se envolver (e cuja aproximação eu torci durante cada página!). Leena, por sua vez, tem um namorado escrotíssimo, pedante e presunçoso (e que adora usar as ideias dela no trabalho, o que me causou ranço instantâneo), mas encontra em seu antigo/novo lar uma surpresa para o seu coração.

Existe um terceiro elemento essencial na trama que é a reconexão familiar das mulheres Cotton. Ao voltar para sua antiga cidade, Leena é obrigada a confrontar a situação de sua mãe com o luto. A personagem não entende as escolhas da mãe e a pune por isso com frieza e distância, até que descobre o nível de profundidade da dor de sua mãe. Mas, apesar desse tema se fazer presente ao longo do livro, ele não chegou a me comover tanto. Sinto que faltou intensidade nas emoções, e eu não consegui me sentir verdadeiramente conectada à perda de Carla.

A Troca é um bom livro, daqueles que entretêm e divertem, mas não atingiu todas as expectativas que eu tinha se comparado à minha experiência com Teto Para Dois. Leena não foi uma personagem pela qual me apaixonei, mas felizmente Eileen me cativou o bastante. Isso sem contar os excelentes personagens secundários que, pra mim, deram o brilho ao livro. Vale a pena conferir? Vale muito! Só tente não ir com taaanta sede ao pote para curtir mais a leitura. 😀

Título original: The Switch
Autora: Beth O’Leary
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 352
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Resenha: Por Trás de Seus Olhos – Sarah Pinborough

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje estreou na Netflix a série Por Trás de Seus Olhos, que adapta o livro de mesmo nome. Por isso, antes de dar o play, corri para ler o material original e vou contar pra vocês o que eu achei!

Garanta o seu!

Sinopse: Louise é mãe solteira, trabalha como secretária e está presa à rotina da vida moderna: ir para o escritório, cuidar da casa, do filho e tentar descansar no tempo livre. Em uma rara saída à noite, ela conhece um homem no bar e se deixa envolver. Embora ele se vá logo depois de um beijo, Louise fica muito animada por ter encontrado alguém. Ela só não esperava que seu novo e casadíssimo chefe seria o homem do bar. Apesar de ele fazer questão de logo esclarecer que o beijo foi um equívoco, em pouco tempo os dois passam a ter um caso. Em uma terrível sequência de erros, Louise acaba ficando amiga da esposa do amante. E, se você acha que sabe para onde esta história vai, pense de novo, porque Por trás de seus olhos não se parece com nenhum livro que já tenha passado por suas mãos. À medida que é arrastada para a história do casal, Louise acaba com mais perguntas que respostas e a única coisa certa é que algo naquele casamento está muito, muito errado.

Na trama acompanhamos o dilema de Louise, que inicia um caso com seu chefe, David, ao mesmo tempo em que acaba se tornando amiga da esposa dele, Adele. As duas têm uma conexão quase instantânea, especialmente porque dividem um mesmo fardo, que é a dificuldade para dormir. Adele então passa a ensinar uma técnica de sonhos lúcidos a Louise, de forma que ela consiga controlar seus pesadelos e, assim, efetivamente descansar. Só que, com o virar das páginas, o leitor entende que há algo de errado: os capítulos narrados por Adele indicam que ela sabe que está sendo traída por David e Louise, e há alguma trama em curso que a autora mantém em segredo de nós.

Por Trás de Seus Olhos tem um início que me deixou um pouco confusa, pois são 3 linhas narrativas: no presente há a narração em primeira pessoa feita pelas duas protagonistas femininas, Louise e Adele; no passado, a narração acontece em terceira pessoa e acompanha o tempo de Adele numa instituição psiquiátrica, onde ela convive com aquele que se torna seu melhor amigo, Rob. Mas, depois que saquei o padrão dessas mudanças (de primeira para terceira pessoa), a leitura fluiu demais. Sarah Pinborough escreve capítulos curtos e ágeis, exatamente do jeito que eu gosto, fazendo com que fosse difícil largar o livro.

Um dos aspectos mais difíceis nesse livro é o fato de que nenhum personagem presta. Louise é uma mulher que foi traída e mesmo assim não hesita em manter o caso com o marido da sua nova amiga; Adele é obcecada por David e nitidamente esconde segredos; David trai a esposa e há lampejos de uma violência nele que nos faz pensar que Adele corre perigo. Como torcer por pessoas assim? Além disso, como Louise representa o leitor (ou seja, alguém alheio à verdade), é bastante cansativo acompanhar seus questionamentos e dúvidas a respeito de David e Adele quando, nos capítulos narrados por Adele, sabemos que esta já sabe da traição. Fiquei com uma sensação de que a leitura não avançava e apenas se repetia, já que em um momento estou descobrindo os pensamentos de Adele e no momento seguinte preciso ver Louise se questionando a respeito deles.

Quando chegamos ao final do livro, a autora nos traz um plot twist de cair o queixo, mas que também me fez torcer o nariz porque me senti enganada – e não daquele jeito gostoso, de quando as peças se encaixam. A real é que eu me senti feita de trouxa pela autora. Há um aspecto místico em Por Trás de Seus Olhos sobre o qual não vou falar pra não estragar a sua experiência, mas eu fiquei intrigada e torci muito para que mais detalhes sobre ele fossem revelados, e não é o que acontece. Então, quando chegamos ao final da história, simplesmente temos que engolir a solução proposta por Sarah Pinborough, que tem um quê de sobrenatural, o que nem de longe funciona comigo. Eu gosto de thrillers justamente pela proximidade que eles têm com a vida real, com o medo causado pelo que de fato poderia acontecer, e pra mim Por Trás de Seus Olhos falhou nisso ao usar um recurso mal explicado e pouco crível. Pra não ser injusta, ressalto que há sim um aspecto positivo no desfecho: ele condiz com os capítulos narrados em terceira pessoa e explica os diferentes comportamentos de Adele, que me causavam bastante estranhamento.

A verdade é que eu esperava mais de Por Trás de Seus Olhos, especialmente ao ver a nota dele no Skoob. Sim, o final é surpreendente, mas não me convenceu. A história é instigante (apesar das enrolações) e consegue manter a nossa atenção mas, como mencionei nesse post aqui, finais ruins estragam experiências pra mim. Minha torcida agora é para que a série da Netflix trabalhe com mais competência esses detalhes que me incomodaram. E vocês, já leram Por Trás de Seus Olhos? O que acharam? 😉

Título original: Behind Her Eyes
Autora: Sarah Pinborough
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 352
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Resenha: A Última Festa – Lucy Foley

Oi gente, tudo certo?

Um dos lançamentos do ano da Intrínseca foi A Última Festa, um livro que me chamou a atenção por me lembrar de E Não Sobrou Nenhum (um dos meus livros favoritos). Li a obra recentemente e hoje vou dividir com vocês se as expectativas foram atingidas ou não. 😉

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Sinopse: Todo ano, nove amigos comemoram o réveillon juntos. Desta vez, apenas oito vão voltar para a casa depois da festa. Programado para acontecer em um cenário idílico, o réveillon que Miranda, Katie e os outros amigos que conheceram na faculdade passarão juntos este ano promete refeições deliciosas regadas a champanhe, música, jogos e conversas descontraídas. No entanto, as tensões começam já na viagem de trem — o grupo não tem mais nada em comum além de um passado de convivência, feridas jamais cicatrizadas e segredos potencialmente destrutivos. E então, em meio à grande festa da última noite do ano, o fio que os mantém unidos enfim arrebenta. No dia seguinte, alguém está morto e uma forte nevasca impede a vinda do resgate. Ninguém pode entrar. Ninguém pode sair. Nem o assassino. Contada em flashbacks a partir das perspectivas dos vários personagens, a história deste malfadado encontro é um daqueles mistérios de assassinato cheio de tensão e de ritmo perfeito. Com uma trama assustadora e brilhantemente construída, A Última Festa planta no leitor a semente da dúvida: será que velhos amigos são sempre os melhores amigos?

Todo ano, um grupo de amigos se reúne para celebrar o Ano Novo. Para a virada de 2018 para 2019, a responsável pela organização é Emma, a membro mais recente do grupo – que entrou para a turma por namorar um dos rapazes, Mark. Na tentativa de fazer uma celebração memorável (afinal, ela sempre se sente uma outsider, já que todos os outros se conhecem desde a faculdade), ela organiza um Réveillon no interior da Escócia, em uma mansão afastada da civilização que promete oferecer uma verdadeira experiência highlander. Contudo, nada sai como o planejado: uma nevasca terrível deixa o grupo isolado, o que inclui os três funcionários da mansão, e uma das pessoas presentes é encontrada morta – mas o leitor não sabe quem.

Essa premissa foi o suficiente para me instigar e, como comentei antes, me lembrou da vibe claustrofóbica presente na obra de Agatha Christie. Os oito amigos, o guarda-caça da mansão (Doug) e a responsável pelas reservas (Heather) se veem presos no ambiente devido à nevasca e, quando uma das pessoas desaparece e é encontrada morta, todos percebem que o responsável está entre eles, dando à trama um clima mais pesado. Isso na teoria, tá gente? Na prática a coisa é bem diferente, e vou explicar porquê.

Desde o início da viagem, percebemos que há algo errado no grupo. À exceção de Emma, como comentei antes, todos se conhecem desde a faculdade, então muitas das conversas e memórias que vêm à tona são dessa época. Fora isso, o grupo não parece ter mais nada em comum. Os capítulos são intercalados entre alguns narradores: antes do desaparecimento, por indivíduos do grupo de amigos; depois do desaparecimento, por Heather ou sob o ponto de vista de Doug. Nos capítulos antes da tragédia fica nítido como existem mágoas não resolvidas e expectativas não atendidas em toda a relação de “amizade” ali presente.

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O que complica e muito a leitura desses capítulos é que nenhum dos personagens do grupo de amigos cativa (sendo honesta, eles são péssimos!). Miranda é o “Sol” do grupo, em torno de quem todos os outros orbitam. Ela é mesquinha, vingativa, egocêntrica e faz questão de que tudo saia do jeito que ela quer. Ao longo do feriado, ela se ressente de Katie, sua melhor amiga, que está mais diferente do que nunca: de visual renovado e personalidade mais independente, ela já não lembra mais a garota que era sua sombra na faculdade. Mas Katie não é flor que se cheire: apesar de transparecer ser alguém que só quer “ficar na sua” e estar na viagem a contragosto, ela se revela uma amiga mentirosa e, em até certo nível, interesseira. Foi muito conveniente usar o prestígio de Miranda enquanto ela era jovem e deslocada, mas agora ela não se digna a dedicar nem um instante do seu tempo àquela que chama de melhor amiga. A terceira narradora mais relevante é a organizadora da viagem, Emma. Ela tem um complexo de inferioridade por ter entrado no grupo por último e coloca Miranda num pedestal: esse combo de características faz dela uma pessoa desesperada por aprovação.

A Última Festa gira muito em torno de saber quando temos que deixar algo pra trás. Ele aborda como nem sempre nossos planos na juventude dão certo quando caímos no “mundo real” e o quão frustrados podemos nos tornar por conta disso. O apego do grupo de amigos é um sintoma dessa incapacidade de abandonar o que já não faz bem e revela uma tentativa desesperada de manter um vínculo que já se perdeu, talvez pelo desejo de manter aquele espírito da juventude vivo, bem como os sonhos da época. Esses temas são bem interessantes, o problema é que são narrados por personagens irritantes e com os quais o leitor simplesmente não se importa (pelo menos essa foi a minha experiência). Para completar, o final me lembrou muito outro livro que li, Bela Gentileza. Isso, somado à sensação de similaridade com E Não Sobrou Nenhum, fez de A Última Festa um livro sem surpresas, pois pareceu que eu já tinha visto tudo aquilo antes, em outras obras. 😦

A Última Festa foi um livro que exigiu um pouco de paciência pra ser terminado. Apesar de ter alguns temas relevantes e relacionáveis, a condução da história foi exaustiva e os personagens me causaram asco. Se você decidir ler, é por sua conta e risco – mas fico na torcida pra que seja uma experiência melhor que a minha.

Título original: The Hunting Party
Autor:
Lucy Foley
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 304
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Resenha: Teto Para Dois – Beth O’leary

Oi pessoal, tudo bem?

Finalmente realizei a leitura de um livro que há tempos estava na minha wishlist: Teto Para Dois. E que leitura! ❤

teto para dois beth olearyGaranta o seu!

Sinopse: Três meses após o término do seu relacionamento, Tiffy finalmente sai do apartamento do ex-namorado. Agora ela precisa para ontem de um lugar barato para morar. Contrariando os amigos, ela topa um acordo bastante inusitado. Leon está enrolado com questões financeiras e tem uma ideia pouco convencional para arranjar dinheiro rápido: sublocar seu apartamento, onde fica apenas no período da manhã e da tarde nos dias úteis, já que passa os finais de semana com a namorada e trabalha como enfermeiro no turno da noite. Só que tem um detalhe importante: o lugar tem apenas uma cama. Sem nunca terem se encontrado pessoalmente, Leon e Tiffy fecham um contrato de seis meses e passam a resolver as trivialidades do dia a dia por Post-its espalhados pela casa. Mas será que essa solução aparentemente perfeita resiste a um ex-namorado obsessivo, uma namorada ciumenta, um irmão encrencado, dois empregos exigentes e alguns amigos superprotetores?

Tiffy está com a vida de cabeça para baixo: ela terminou um relacionamento complicado, seu ex, que lhe permitia ficar em sua casa até ela se restabelecer, arranjou uma nova namorada e ela precisa urgentemente encontrar um apartamento pra alugar e que caiba em seu restrito orçamento. Leon é um enfermeiro que trabalha à noite, tem uma namorada bastante crítica e precisa lidar com as despesas extras causadas pelo advogado que cuida da prisão injusta de seu irmão. Quando ele coloca seu quarto para alugar por um preço baixíssimo, Tiffy encontra a oportunidade de sair da casa do ex. A questão é que eles não vão dividir somente o apartamento: eles terão que dividir a cama, ainda que em turnos opostos. Comunicando-se por meio de recados e post-its, já que quem tratou do aluguel foi Kay, a namorada de Leon, uma amizade inesperada surge aos poucos, entre um bilhete e outro.

Ai gente, como descrever Teto Para Dois? Eu poderia começar com uma lista de elogios: narrativa envolvente, personagens carismáticos, escrita fluida e cenas engraçadas fazem parte da lista de ingredientes desse chick-lit maravilhoso. Tiffy e Leon são quase opostos: ela é expansiva, gosta de usar roupas coloridas e chamativas e é uma tagarela; ele é introvertido, calmo e bastante racional. Os dois começam a trocar recados por motivos práticos, para combinar questões relacionadas ao apartamento (como comida, espaço no armário, coisas assim). Com o tempo – e com o crescimento da intimidade – os bilhetes se tornam uma conversa, e eles diariamente trocam recados e contam sobre seus dias. É meio óbvio pro leitor, como acontece em qualquer livro do gênero, que os dois vão se apaixonar. Mas engana-se quem pensa que o mérito do livro se encerra quando isso finalmente acontece: há um aprofundamento ainda maior de questões muito relevantes que Teto Para Dois aborda de maneira impecável.

O livro inicia aparentemente despretensioso mas, com o passar das páginas, vai ficando cada vez mais claro que Tiffy não saiu de um “relacionamento complicado”. Ela saiu de uma relação abusiva. A jovem narra as diversas idas e vindas, a montanha-russa emocional que vivia, de uma forma quase idealizada. É perceptível que Tiffy não entende e não conseguiu processar o que viveu. Porém, o livro tem algumas passagens de tempo entre os meses, e vai ficando mais claro para a personagem que ela passou por algo psicologicamente violento. Com o apoio de seus dois melhores amigos (o paciente psicólogo Mo e a cética advogada Gerty), Tiffy decide buscar terapia e começa a encarar o que aconteceu com ela.

resenha teto para dois

O livro é excelente em mostrar as consequências que uma relação abusiva causa na vítima. Em determinado momento Mo verbaliza a possibilidade de que todas as coisas ruins que Tiffy pensou ter esquecido sobre o namoro na verdade eram uma defesa de seu cérebro, um mecanismo de proteção para evitar tanto trauma e tanta dor. Devido às manipulações do ex-namorado, a jovem sempre duvidou de si mesma e das suas próprias percepções sobre certas situações, e ela passa por um longo e doloroso processo de cura ao enfrentar a verdade. A obra narra esse processo com muita delicadeza e responsabilidade, inclusive desmistificando a ideia de que muitos têm de que toda toda relação abusiva tem um episódio de agressão física. O trauma de Tiffy é internalizado, e seu relacionamento com Leon mostra aos poucos os gatilhos que ela vai enfrentar no processo de superação. Além disso, vale pontuar a importância da rede de apoio: Mo e Gerty não pressionaram Tiffy para não correrem o risco dela afastá-los. São amigos leais que, com qualidades e defeitos (cof cof, Gerty grosseirona, cof cof), sempre estiveram ali para ampará-la.

O plot de Leon também é ótimo, e o personagem conquista o leitor tanto quanto Tiffy. Sua subtrama tem outro viés social importante, que é a injustiça do sistema carcerário. O jovem tem traços não-caucasianos, e seu irmão mais novo, Richie, foi preso sem nenhum tipo de prova concreta, podendo ser lido como uma crítica à forma como a cor da pele influencia no julgamento e na condenação dos indivíduos. Além disso, na infância, os dois viram a mãe se relacionar com diversos homens problemáticos, o que causou uma mágoa em ambos – que Leon lida por meio do distanciamento. Mas o amor dos dois irmãos um pelo outro é inabalável e muito bonito de se ver.

O livro é repleto de cenas fofas e tem, sim, momentos clichês que proporcionam aquele quase beijo, aquele friozinho na barriga, aquelas borboletas no estômago. E isso tudo se equilibra com temas relevantes, que dão mais dimensão aos personagens. O que fica claro durante a leitura é que relacionamentos saudáveis são pautados em intimidade, honestidade, em liberdade, em saber que você pode ser você mesmo junto ao outro. Ao mostrar os problemas dos relacionamentos de Tiffy e Leon, é clara a diferença entre a relação que os dois constroem juntos – mesmo que, durante por muito tempo, por meio de bilhetes e zero contato físico. Fazia tempo que um romance não me fazia suspirar, sentir angústia e ficar até de madrugada acordada ansiando pela próxima página. Teto Para Dois fez isso e muito mais, já entrando pra lista de favoritos do ano. Por favor, leiam! ❤

Título Original: The Flatshare: A Novel
Autor: Beth O’Leary
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 400
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Resenha: Extraordinário – R. J. Palacio

Oi gente, tudo bem?

Em julho, o Dia do Amigo foi o tema da coluna Uma Amiga Indicou (uma parceria com os blogs Estante da Ale, Caverna Literária, A Colecionadora de Histórias e Interrupted Dreamer). Nós fizemos uma lista com livros que falassem de amizade e cada uma poderia escolher alguma obra para ler e resenhar.

uma amiga indicou

A Carol sugeriu a leitura de Extraordinário e eu juntei a fome com a vontade de comer, já que tinha curiosidade pela história há um tempo. Vamos descobrir o que achei? 😀

extraordinario rj palacioGaranta o seu!

Sinopse: August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade… até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular em Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apenas da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade – um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo tipo de leitor.

Extraordinário conta a história do pequeno August Pullman, um menino que nasceu com uma condição genética responsável por uma grave deformidade em seu rosto. Acostumado a causar choque nas pessoas, o garoto sempre estudou em casa, com o auxílio da mãe; até que seus pais decidem que está na hora de matriculá-lo em uma escola de verdade. Inicialmente atordoado e preocupado – afinal, Auggie sabe o quanto as pessoas podem ser cruéis –, o menino decide encarar o desafio, onde vive experiências diversas, algumas tristes e outras enriquecedoras.

A narrativa de Extraordinário é ótima, e a autora opta por trazer capítulos curtos (adoro!) para contar diversos episódios da vida de Auggie. O livro utiliza a primeira pessoa, mas não é somente o protagonista que tem voz: também temos a narrativa de sua irmã (Olivia), de alguns de seus colegas de escola, entre outros personagens. Ou seja, com esse recurso é possível entender o sentimento de várias pessoas que orbitam a vida de Auggie, suas impressões sobre o garoto e sua condição e o impacto que ele causa em suas vidas. 

resenha extraordinário rj palacio.png

Nem preciso dizer que o livro é repleto de lições, né? Empatia, entender a dor do outro, aceitar a diferença, abraçar a diversidade, oferecer a amizade sem esperar nada em troca, perdoar os erros, aprender a dizer adeus… São tantos momentos singelos e cheios de significado que é impossível não se sentir tocado. Os preceitos do Sr. Browne (um professor de Auggie) resumem bem diversos desses ensinamentos, e o meu favorito é aquele que vocês já devem ter lido na internet: “quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil”. ❤

Os personagens também são ótimos e com seus dilemas próprios. A irmã de Auggie, Olivia, foi provavelmente minha favorita: ainda que completamente apaixonada pelo irmão, Olivia também sente a dor de ter sido deixada de lado a vida toda. Ela sabe que August precisa de mais atenção e causa mais aflição em seus pais, mas a garota inevitavelmente sente a mágoa de nunca ser a prioridade da família. Mais humana do que isso, impossível. O novo amigo de Auggie na escola, Jack, também tem um plot interessante: ele gosta muito de Auggie mas a pressão externa faz com que ele cometa alguns erros na amizade dos dois. Porém, é justamente essa situação que o faz amadurecer e buscar sua redenção.

Extraordinário é um livro incrível, cheio de significado e simplicidade. Ao concluir a leitura, você sente que a experiência te tornou um pouquinho melhor. É uma obra que fala de amizade e de amadurecimento de uma maneira doce e relevante. Recomendo!

Título Original: Wonder
Autor: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 320
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Resenha: A Sutil Arte de Ligar o F*da-se – Mark Manson

Oi gente, tudo bem?

Antes de irmos para o post de hoje, queria lembrá-los de que tá rolando sorteio de A Fogueira (livro de estreia de Krysten Ritter, a Jessica Jones) aqui no blog. Bora participar! ❤
E agora vamos à resenha: o livro em questão é A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, uma das minhas últimas leituras de 2018.

a sutil arte de ligar o foda-seGaranta o seu!

Sinopse: Chega de tentar buscar um sucesso que só existe na sua cabeça. Chega de se torturar para pensar positivo enquanto sua vida vai ladeira abaixo. Chega de se sentir inferior por não ver o lado bom de estar no fundo do poço. Coaching, autoajuda, desenvolvimento pessoal, mentalização positiva – sem querer desprezar o valor de nada disso, a grande verdade é que às vezes nos sentimos quase sufocados diante da pressão infinita por parecermos otimistas o tempo todo. É um pecado social se deixar abater quando as coisas não vão bem. Ninguém pode fracassar simplesmente, sem aprender nada com isso. Não dá mais. É insuportável. E é aí que entra a revolucionária e sutil arte de ligar o foda-se. Mark Manson usa toda a sua sagacidade de escritor e seu olhar crítico para propor um novo caminho rumo a uma vida melhor, mais coerente com a realidade e consciente dos nossos limites.

Eu não sou muito adepta a obras de autoajuda, mas foi difícil ignorar um livro cujo título incentiva o leitor a literalmente ligar o foda-se. Sendo eu uma pessoa bastante ansiosa e que se preocupa (até demais) com os outros – e o que os outros pensam de mim -, achei que me faria bem sair da caixa e ler algo com uma proposta como essa. E não é que a experiência foi interessante?

Mark Manson é um autor direto, que dá sua opinião sem meandros. Confesso que durante parte da leitura não simpatizei com ele (vamos combinar, ele é um cara cheio de privilégios), mas não posso negar que as reflexões que ele me propôs foram valiosas. Começando pelo título do livro: ao sugerir que a gente ligue mais o foda-se para as coisas, o autor não quer dizer que a gente não deva ligar pra nada nem ninguém. O que ele quer dizer é que precisamos PRIORIZAR aquilo que verdadeiramente é importante, para que possamos deixar de lado o que não é. Desse modo, paramos de nos estressar com situações que fogem ao nosso controle, que são triviais, que não valem o nosso sono. Esse conceito já foi suficiente pra me fazer pensar e refletir sobre o modo como lido com diversas coisas na vida, então nesse ponto já estava considerando a leitura útil.

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Posteriormente, o autor também discorre sobre como a busca constante pela felicidade é um erro. Em sua opinião, as pessoas fogem tanto das decepções e dores que não se permitem crescer; elas acreditam que seus problemas são únicos, que elas são especiais (no sucesso ou no fracasso) e que ninguém compreende as dificuldades que elas passam – quando, na verdade, a maioria de nós compartilha de problemas muito semelhantes (em maior ou menor grau) e ninguém é tão especial assim. Para Mark Manson, a partir do momento que aceitamos que a dor e a desilusão fazem parte do processo de crescimento, temos coragem para tomar atitudes, resolver problemas e, aí sim, encontrar a felicidade.

Para tal, Mark Manson propõe que repensemos nossos valores. Ele acredita que existam valores ruins e valores bons para guiar nossas escolhas. Os valores ruins estão, basicamente, ligados a terceiros: “sucesso pra mim é ser amado por todos”, por exemplo. É algo que não depende de você, mas de outras pessoas. Portanto, é um grande gerador de ansiedade. Quando você muda seus valores para algo que você possa realizar (como, por exemplo, “ser honesto(a) em meus relacionamentos”), é possível administrar muito melhor aquilo que você realmente deseja para si, inclusive mudar a sua visão sobre sucesso e fracasso.

Eu não concordei com todas as teorias de Mark Manson sobre a vida e nem sempre achei o autor a pessoa mais carismática do mundo. Contudo, não posso negar que A Sutil Arte de Ligar o F*da-se me fez pensar. Ao terminar a leitura, cheguei à conclusão de que ela me fez bem por abrir a minha mente e me mostrar como pode ser saudável ligar o botão do “foda-se” pro que não é importante. 🙂 Vale a pena dar uma chance.

Título original: The Subtle Art of Not Giving a F*ck
Autor: Mark Manson
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 224
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Resenha: Agora e Para Sempre, Lara Jean – Jenny Han

Oi, meu povo! Turubom? 🙂

Aproveitando que o filme Para Todos Os Garotos Que Já Amei estreia nessa sexta-feira (yay! ❤), hoje vim contar minhas impressões sobre o último volume da trilogia, Agora e Para Sempre, Lara Jean!

agora e para sempre lara jean jenny hanGaranta o seu!

Sinopse: Na surpreendente e emocionante conclusão da série, o último ano de Lara Jean no colégio não podia estar melhor: ela está apaixonadíssima pelo namorado, Peter; seu pai vai se casar em breve com a vizinha, a sra. Rothschild; e sua irmã mais velha, Margot, vai passar o verão em casa. Mas, por mais que esteja se divertindo muito — organizando o casamento do pai e fazendo planos para os passeios de turma e para o baile de formatura —, Lara Jean não pode ignorar as grandes decisões que precisa tomar, e a principal delas envolve a universidade na qual vai estudar. A menina viu Margot passar pelos mesmos questionamentos, e agora é ela quem precisa decidir se vai deixar sua família — e, quem sabe, o amor de sua vida — para trás. Quando o coração e a razão apontam para direções diferentes, qual deles se deve ouvir?

Depois de viverem um relacionamento de mentira que se tornou um namoro de verdade, de superarem dificuldades como o vazamento do vídeo do ofurô e mesmo a dúvida causada por um triângulo amoroso, Lara Jean e Peter estão mais fortes do que nunca. Eles estão prestes a concluir o Ensino Médio e seus destinos estão traçados: eles pretendem ir juntos para a mesma faculdade, a Universidade de Virgínia (ou UVA). Entretanto, a vida às vezes acontece da maneira mais inesperada, e Lara Jean precisa lidar com uma mudança brusca no rumo de seus planos quando ela descobre que não foi aceita na universidade dos seus sonhos.

Agora e Para Sempre, Lara Jean nos traz de volta o romance encantador de Lara Jean e Peter K., que agora estão um pouco mais maduros e certos do que sentem um pelo outro. Contudo, a vida da protagonista vira de cabeça pra baixo quando ela precisa encarar o fato de que 1) não vai para a universidade que tanto queria e 2) vai ter que estudar longe de Peter. A distância iminente é uma sombra que paira na cabeça dos protagonistas. E isso se torna um fardo pesado pois, apesar de eles terem evoluído desde o primeiro volume, Lara Jean e Peter ainda não conseguem sentar e conversar a respeito de modo maduro e honesto (o que é facilmente explicado pela idade dos dois que, afinal, ainda são adolescentes).

O que mais gostei nesse livro foi ver Lara Jean se desafiando. Apesar do baque inicial com a rejeição inesperada, a garota é aceita em outras universidades ainda mais renomadas e concorridas. Apesar de ter uma possibilidade de escolha confortável à frente, Lara Jean se permite ousar e ouvir seu coração, sem abrir mão de sua essência. Chris, sua melhor amiga, tem um papel bem importante nesse processo, incentivando Lara Jean e mostrando as inúmeras possibilidades que ela tem pela frente. Contudo, o ponto negativo é que Peter acaba ficando bastante apagado ao longo da trama, quase como um agente passivo na relação.

resenha agora e para sempre lara jean jenny han

E, em parte, eu culpo a falta de prioridades de Jenny Han pelo pouco desenvolvimento que o casal protagonista teve neste volume. Por que digo isso? Porque a autora preferiu dedicar páginas e mais páginas ao casamento do pai de Lara Jean com a vizinha, Treena. A protagonista se envolveu em cada detalhe do casamento (como válvula de escape para a ansiedade), e o leitor se vê no meio disso tudo: acompanhando a dinâmica familiar, o estranhamento de Margot com a nova membro da família, vendo os preparativos para o casamento, etc. Isso é bacana para aprofundar os outros personagens da família de Lara Jean mas, na minha opinião, foram dedicadas páginas demais a esse plot e de menos ao relacionamento de Lara Jean e Peter. 😦

Outro aspecto negativo é que o livro é linear demais. Tirando a surpresa em relação às universidades, nada demais acontece. Há o baile de formatura, a viagem a Nova York, o casamento… e todos esses acontecimentos são muito sem sal. Você fica esperando que algo bombástico aconteça, mas isso não vem. Talvez eu esperasse mais emoção e entrega nesse último livro, o que não aconteceu. Isso me fez sentir que Jenny Han se manteve na zona de conforto. E o final… sinceramente, não foi o que eu esperava. De certo modo, foi doce e otimista. Por outro lado, a chance de dar merda tudo acabar mal é grande. Eu gostaria de algo mais fechado, que me desse certeza de que eles deram certo. Depois de uma trilogia tão fofinha, o que eu menos queria era um final que desse abertura para sentimentos de tristeza. 😦 Utópico, talvez, mas acho que combinaria com o tom da história como um todo (que em nenhum momento se propôs a ser um retrato cínico dos relacionamentos reais).

Apesar de eu ter considerado parte da obra um desperdício narrativo (em função dessa subtrama toda do casamento, principalmente), Agora e Para Sempre, Lara Jean foi uma experiência mais positiva do que negativa. Ele conclui a história desse casal improvável, unido por uma carta que não deveria ter sido enviada, e nos deixa com gostinho de quero mais. Vou sentir saudades de Lara Jean e de Peter K.

Título Original: Always And Forever, Lara Jean
Série: Para Todos Os Garotos Que Já Amei
Autor: Jenny Han
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 304
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Resenha: O Segredo do Meu Marido – Liane Moriarty

Oi pessoal, tudo bem?

Hoje vim contar pra vocês o que achei de O Segredo do Meu Marido, de Liane Moriarty.

capa o segredo do meu marido.pngGaranta o seu!

Sinopse: Imagine que seu marido tenha lhe escrito uma carta para ser aberta apenas depois que ele morresse. Imagine também que essa carta revela o pior e o mais profundo segredo dele – algo com o potencial de destruir não apenas a vida que vocês construíram juntos, mas também a de outras pessoas. Imagine, então, que você esbarra nessa carta enquanto seu marido ainda está bem vivo… Cecilia Fitzpatrick tem tudo. É bem-sucedida no trabalho, um pilar de sua pequena comunidade, uma esposa e mãe devotada. Sua vida é tão organizada e imaculada quanto sua casa. Mas uma carta vai mudar tudo, e não apenas para ela: Rachel e Tess mal conhecem Cecilia – ou uma à outra –, mas também estão prestes a sentir as repercussões do segredo do marido dela. Emocionante, O segredo do meu marido é um livro que nos convida a refletir até onde conhecemos nossos companheiros – e, em última instância, a nós mesmos.

Eu ainda não tinha lido nada de Liane Moriarty, mas fiquei completamente apaixonada pela minissérie da HBO baseada em uma de suas obras, Big Little Lies. Por isso, estava ansiosa para conhecer seus livros também. Em O Segredo do Meu Marido, percebi semelhanças com a série, especialmente em relação às personagens. Consegui ver traços da Madeline em Cecilia Fitzpatrick e de Jane em Tess, por exemplo. Mas, além disso, também vi que Liane Moriarty sabe construir muito bem personagens femininas, suas diferenças, suas qualidades e defeitos e suas motivações pessoais. Isso fica nítido nas três, Cecilia, Tess e Rachel, as personagens que são conectadas pelo segredo do marido de Cecilia.

Cecilia é uma personagem que se vê diante de uma decisão praticamente impossível. A solidez de seu casamento e de sua vida fica completamente ameaçada quando ela descobre a carta que deveria ser aberta apenas quando John-Paul, seu marido, já tivesse morrido. O que ela descobre a desestabiliza e a faz questionar não apenas quem é seu companheiro, mas ela mesma, devido às atitudes que precisa tomar. Tess também enfrenta uma reviravolta ao descobrir que as duas pessoas que mais ama (o marido e a prima/melhor amiga) estão apaixonados. Em um esforço quase irracional de salvar sua família de um divórcio, ela vai embora de casa para que os dois vivam essa paixão, na esperança de que tudo volte ao normal depois disso. Por fim, temos Rachel, uma mulher que recebe a notícia de que seu filho vai se mudar para Nova York com a esposa e o filho, sendo a criança a única alegria na vida de Rachel, que teve a filha assassinada há mais de 20 anos.

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Essas três mulheres, tão diferentes entre si, têm suas vidas conectadas de uma forma inesperada. Para elas, mas não para o leitor. Minha maior crítica em relação ao livro foi a obviedade do segredo de John-Paul, que já tinha ficado claro pra mim muito antes de sua revelação. Entretanto, não é o mistério que move a narrativa, mas sim as consequências do segredo. Liane Moriarty conta uma história que, apesar de ter momentos mais parados, nos faz querer saber o que vai acontecer com aquelas mulheres. E apesar de eu ter gostado de acompanhá-las, também senti que durante parte da narrativa a história andava em círculos, e isso me cansou um pouco.

Contudo, como eu disse antes e enfatizo novamente, a autora sabe como construir mulheres e suas diversas camadas, com qualidades e defeitos. Essa característica ficou evidenciada durante a leitura de O Segredo do Meu Marido. Cecilia, Tess e Rachel tem motivações próprias, atitudes humanas (e, muitas vezes, falhas) e não fazem o que o leitor acha que elas devem fazer, mas sim o que acreditam ser o melhor para si mesmas e para quem amam. Essa habilidade de Liane Moriarty de criar boas personagens femininas é algo que me agrada muito em sua escrita.

Se em determinado momento da trama de O Segredo do Meu Marido eu estava ficando levemente decepcionada, o epílogo chegou e mudou tudo. Arrebatador e, de certo modo, revoltante, ele me chocou e me fez questionar meus pensamentos e insatisfações ao longo da trama. A sensação é de que, assim como Pandora – na alegoria da autora –, era melhor não ter aberto a caixa e descoberto o que descobri. Leitura recomendada!

Título Original: The Husband’s Secret
Autor: Liane Moriarty
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 368
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