Dica de Série: Cara x Cara

Oi pessoal, tudo bem?

Em outubro do ano passado estreou Cara x Cara na Netflix. O trailer instigante e o fato de ser protagonizada por Paul Rudd foram o suficiente para me fazer conferir a série. Bora falar a respeito? 😀

cara x cara

Sinopse: Empenhado em se tornar uma pessoa melhor, um homem decide começar um tratamento especial e descobre que foi substituído por uma nova e aperfeiçoada versão – revelando que seu pior inimigo é ele mesmo.

Cara x Cara nos apresenta a Miles, um homem cuja vida estagnou: ele não consegue criar uma peça publicitária realmente criativa há muito tempo, seu casamento está à beira da ruína e nenhum dos seus projetos sai do papel. Quando ele ouve falar de um SPA que promete trazer à tona sua melhor versão, ele não hesita em fazer o tratamento (extremamente suspeito, em uma clínica com ares de clandestinidade). O resultado, porém, é surpreendente: Miles é clonado, e é seu clone o indivíduo que tem as tais características aperfeiçoadas, ainda que não saiba que é um doppelgänger. Quando uma das etapas do processo dá errado, o Miles original e o novo Miles ficam frente a frente e precisam decidir juntos como conduzir a situação.

O talento e o carisma de Paul Rudd são inegáveis. O ator consegue transmitir por meio das expressões faciais e da linguagem corporal qual Miles estamos vendo em cena: ora o infeliz Miles original, ora o novo Miles melhorado. Os conflitos na série acontecem em parte porque eles precisam trabalhar juntos pra que ninguém descubra que existem duas versões do mesmo homem, e isso os obriga a olhar para suas imperfeições. O novo Miles traz fôlego à carreira do original e o auxilia na ascensão profissional, mas ele não consegue deixar de se sentir uma fraude, já que todas as suas memórias não são realmente dele. O Miles original, em contrapartida, se sente ameaçado pela suposta perfeição de seu clone, que aparentemente faz tudo muito melhor do que ele seria capaz – inclusive se relacionar com a esposa, Kate.

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Conforme os episódios vão passando e vamos conhecendo mais o personagem de Miles, a série sutilmente nos mostra que ele parece viver um quadro depressivo bastante significativo. O que inicialmente é visto como estagnação vai se revelando como uma apatia pela vida, uma incapacidade de sentir prazer nas coisas e consequentemente uma falta de movimento. Esse aspecto é bem interessante porque torna Miles mais complexo, menos unidimensional: ele não é só um cara que “encheu” o saco das coisas e não tem coragem de mudar. 

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Os dramas do novo Miles também são interessantes. Como se sentir verdadeiramente você quando tudo que você viveu e lembra são experiências de outra pessoa? Como construir sua verdadeira identidade quando você é uma cópia de alguém que já existe? Enquanto tenta conquistar o afeto de Kate, o doppelgänger percebe que não basta ser cheio de qualidades: o amor também é baseado nas coisas difíceis que um casal supera, nos momentos em que uma pessoa está ali para apoiar a outra – e não foi ele quem fez parte daqueles momentos. Toda essa dúvida sobre a própria existência é bem bacana e ajuda a humanizar o personagem.

Contudo, apesar das discussões instigantes e do ritmo dos episódios ser bem fácil de acompanhar, Cara x Cara se perde um pouco na reta final. O triângulo amoroso que se forma não cativa e o final da temporada é bastante brusco, dando margem a uma continuação que possivelmente nem aconteça. Sinto que a série perdeu um pouco da minha atenção quando começou a tirar o foco da dualidade entre os dois Miles e ir por um caminho mais “quem vai ficar com Kate?”.

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Um dos maiores trunfos de Cara x Cara é conseguir equilibrar humor e questões existenciais em episódios de 25 minutos que não cansam o espectador. É muito fácil se relacionar com os conflitos vividos por ambos os Miles. Quem nunca se questionou sobre si mesmo? Buscar a nossa melhor versão nem sempre é fácil, e os traumas pelo caminho podem tornar o processo ainda mais exaustivo. Contudo, vale lembrar que às vezes essa tal “melhor versão” pode ser uma projeção irreal, baseada nas expectativas que os outros (e nós mesmos) criamos. A ironia disso reside no fato de que tanto o Miles original quanto o novo Miles não se sentem completos e suficientes, invejando o outro.

Resumindo, Cara x Cara não foi a série mais inesquecível que assisti no último ano, mas foi uma experiência que me surpreendeu positivamente. Gostei da performance de Paul Rudd e dos debates propostos pela série. O ritmo fluido, os ótimos momentos de humor, as discussões sobre identidade e a curta duração dos episódios formam um combo propício a uma maratona. Vale espiar! 😉

Título original: Living With Yourself
Ano de lançamento: 2019
Direção: Timothy Greenberg
Elenco: Paul Rudd, Aisling Bea, Desmin Borges, Karen Pittman