Resenha: A Troca – Beth O’Leary

Oi pessoal, tudo bem?

Depois de Teto Para Dois ter sido meu livro favorito de 2020, corri para conferir A Troca, da mesma autora, e hoje conto pra vocês minhas impressões.

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Sinopse: Leena Cotton tem 29 anos e sente que já não é mais a mesma. Eileen Cotton tem 79 e está em busca de um novo amor. Tudo de que neta e avó precisam no momento é pôr em prática uma mudança radical. Então, para colocar suas respectivas vidas de volta nos trilhos, as duas têm uma ideia inusitada: trocar de lugar uma com a outra. Leena sabe que precisa descansar, mas imagina que a parte mais difícil será se adaptar à calmaria da cidadezinha onde a avó mora. Cadastrada em um site de relacionamentos, Eileen por sua vez embarca na aventura com a qual sonha desde a juventude. Dividindo o apartamento com dois amigos da neta, ela logo percebe que na cidade grande suas ideias mirabolantes não são tão complicadas assim. Ao trocar não só de casas, mas de celulares e computadores, de amigos e rotinas, Leena e Eileen vão descobrir muito mais sobre si mesmas do que imaginam. E se tudo der certo, talvez destrocar não seja a melhor solução.

Leena Cotton é uma mulher competente, determinada e ambiciosa. Porém, a perda recente de sua irmã mais nova para o câncer ainda causa uma dor emocional intensa, que marca vários aspectos de sua vida. Quando Leena tem uma crise de pânico em uma reunião com um cliente, ela é obrigada por sua chefe a tirar uma licença de 2 meses. É aí que surge uma oportunidade inesperada: ela e sua avó, Eileen, que recentemente foi deixada pelo marido, decidem “trocar de vida” durante aqueles 2 meses. Enquanto Leena iria para a casa da avó no interior e ficaria responsável por suas atribuições junto à comunidade, Eileen iria para o apartamento de Leena em Londres para conhecer novos amores e viver a aventura da qual ela desistiu quando engravidou na juventude. Essa mudança de dinâmica causa transformações profundas não apenas na vida das duas, mas de várias pessoas que as cercam.

Assim como ocorre em Teto Para Dois, em A Troca temos capítulos intercalados entre as duas personagens com narração em primeira pessoa. Isso nos ajuda a conhecê-las mais rapidamente, o que inclui seus pontos fortes e fracos. Leena, por exemplo, é uma mulher que ascendeu na carreira por mérito próprio, sendo inteligente e uma líder nata. Porém, ela também é um pouco mimada e egoísta, o que se reflete em dois aspectos principais: o primeiro é a recusa em conversar abertamente com a sua mãe a respeito de uma mágoa envolvendo a perda de Carla, sua irmã; o segundo é a forma como ela parece desdenhar das tarefas da avó, como passear com o cachorro do vizinho ou liderar as reuniões da Patrulha do Bairro – um grupo formado majoritariamente por idosos que passa mais tempo fofocando do que falando sobre segurança de fato. Felizmente, Leena não demora a perceber que seu jeitão londrino não vai conquistar aquelas pessoas, que são leais umas às outras. Ela também exercita humildade ao entender que determinados aspectos do dia a dia da avó são desafiadores mesmo para alguém como ela.

Eileen, por outro lado, me cativou enormemente. Ela pode ser um pouquinho enxerida? Pode. Mas ela faz questão de cuidar de todos à sua volta com tanto carinho e entrega que é fácil perdoar. Ao chegar em Londres, ela rapidamente fica amiga dos colegas de apartamento e da colega de trabalho de Leena, mas vai além: Eileen consegue conquistar também vizinhos que até então nunca tinham trocado mais de duas palavras com sua neta. E dessa aproximação surge uma ideia que transforma o prédio frio em um ambiente caloroso e hospitaleiro: Eileen funda o Clube dos Grisalhos de Soreditch, utilizando o espaço comum do prédio pra criar um ambiente de convivência voltado a idosos que morem sozinhos em Londres. Esse plot é ainda melhor do que a busca de Eileen por um crush!

As duas protagonistas dividem não apenas a vida, mas também novos interesses amorosos. Enquanto Eileen vive um romance tórrido em Londres, ela também é surpreendida por uma pessoa com a qual não imaginava se envolver (e cuja aproximação eu torci durante cada página!). Leena, por sua vez, tem um namorado escrotíssimo, pedante e presunçoso (e que adora usar as ideias dela no trabalho, o que me causou ranço instantâneo), mas encontra em seu antigo/novo lar uma surpresa para o seu coração.

Existe um terceiro elemento essencial na trama que é a reconexão familiar das mulheres Cotton. Ao voltar para sua antiga cidade, Leena é obrigada a confrontar a situação de sua mãe com o luto. A personagem não entende as escolhas da mãe e a pune por isso com frieza e distância, até que descobre o nível de profundidade da dor de sua mãe. Mas, apesar desse tema se fazer presente ao longo do livro, ele não chegou a me comover tanto. Sinto que faltou intensidade nas emoções, e eu não consegui me sentir verdadeiramente conectada à perda de Carla.

A Troca é um bom livro, daqueles que entretêm e divertem, mas não atingiu todas as expectativas que eu tinha se comparado à minha experiência com Teto Para Dois. Leena não foi uma personagem pela qual me apaixonei, mas felizmente Eileen me cativou o bastante. Isso sem contar os excelentes personagens secundários que, pra mim, deram o brilho ao livro. Vale a pena conferir? Vale muito! Só tente não ir com taaanta sede ao pote para curtir mais a leitura. 😀

Título original: The Switch
Autora: Beth O’Leary
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 352
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Autoras que vale a pena conhecer

Oi galera, tudo bem?

Amanhã é 08 de março, Dia Internacional da Mulher. Enquanto essa data representa a nossa luta por igualdade, vejo também como uma oportunidade para divulgar e enaltecer mulheres incríveis que merecem espaço e reconhecimento. Por isso, esse ano resolvi reunir autoras que eu acho que vale a pena conhecer. Vem comigo!

Tomi Adeyemi

Autora da trilogia O Legado de Orïsha, que iniciou com o aclamado Filhos de Sangue e Osso, Tomi Adeyemi trouxe a cultura iorubá para o universo da fantasia. Explorando os ritos e figuras sagradas das religiões africanas, Tomi Adeyemi fala sobre opressão, mas também traz uma representatividade poderosa a pessoas negras. Se você é fã de livros de fantasia mas ainda não entrou em contato com sua, recomendo que faça isso o mais breve possível.

Beth O’Leary

Também conhecida como minha nova autora queridinha. A leitura de Teto Para Dois foi a minha favorita do ano passado, e muito disso se deve ao fato de que Beth O’Leary conseguiu tratar de relacionamento abusivo de uma maneira realista e certeira, mas sem sacrificar a leveza da história. Minha segunda experiência com seus livros, A Troca (em breve sai a resenha!) também foi ótima, e eu adorei o fato do livro ser protagonizado por uma avó e uma neta. Recomendo ambos os títulos sem pensar duas vezes!

Taylor Jenkins Reid

O nome dessa autora já estava no meu radar há um tempo, e seus livros têm sido bastante comentados na blogosfera. Realizei minha primeira leitura recentemente (com Depois do Sim) e foi excelente, me causando múltiplas emoções – de um jeito bom. Me baseando nessa única experiência, eu diria que Taylor Jenkins Reid é excelente em prender a atenção do leitor ao mesmo tempo em que aborda situações difíceis e emocionantes. Estou louca pra ler mais de seus livros!

Aline Bei

Uma indicação nacional vai bem, né? Aline Bei me impactou profundamente com O Peso do Pássaro Morto. Algumas das experiências mais dolorosas no “ser mulher” estão presentes no seu livro, como o machismo que tolhe e objetifica a mulher (como se ela fosse uma propriedade), a vergonha e o medo de uma vítima de violência sexual e o desamparo causado por um maternar indesejado. Não é uma leitura fácil, mas é transformadora.

Gostaram da lista, pessoal? Já leram alguma das autoras citadas?
Quero saber quem vocês incluiriam nessa seleção. Me contem nos comentários! ❤

Resenha: Teto Para Dois – Beth O’leary

Oi pessoal, tudo bem?

Finalmente realizei a leitura de um livro que há tempos estava na minha wishlist: Teto Para Dois. E que leitura! ❤

teto para dois beth olearyGaranta o seu!

Sinopse: Três meses após o término do seu relacionamento, Tiffy finalmente sai do apartamento do ex-namorado. Agora ela precisa para ontem de um lugar barato para morar. Contrariando os amigos, ela topa um acordo bastante inusitado. Leon está enrolado com questões financeiras e tem uma ideia pouco convencional para arranjar dinheiro rápido: sublocar seu apartamento, onde fica apenas no período da manhã e da tarde nos dias úteis, já que passa os finais de semana com a namorada e trabalha como enfermeiro no turno da noite. Só que tem um detalhe importante: o lugar tem apenas uma cama. Sem nunca terem se encontrado pessoalmente, Leon e Tiffy fecham um contrato de seis meses e passam a resolver as trivialidades do dia a dia por Post-its espalhados pela casa. Mas será que essa solução aparentemente perfeita resiste a um ex-namorado obsessivo, uma namorada ciumenta, um irmão encrencado, dois empregos exigentes e alguns amigos superprotetores?

Tiffy está com a vida de cabeça para baixo: ela terminou um relacionamento complicado, seu ex, que lhe permitia ficar em sua casa até ela se restabelecer, arranjou uma nova namorada e ela precisa urgentemente encontrar um apartamento pra alugar e que caiba em seu restrito orçamento. Leon é um enfermeiro que trabalha à noite, tem uma namorada bastante crítica e precisa lidar com as despesas extras causadas pelo advogado que cuida da prisão injusta de seu irmão. Quando ele coloca seu quarto para alugar por um preço baixíssimo, Tiffy encontra a oportunidade de sair da casa do ex. A questão é que eles não vão dividir somente o apartamento: eles terão que dividir a cama, ainda que em turnos opostos. Comunicando-se por meio de recados e post-its, já que quem tratou do aluguel foi Kay, a namorada de Leon, uma amizade inesperada surge aos poucos, entre um bilhete e outro.

Ai gente, como descrever Teto Para Dois? Eu poderia começar com uma lista de elogios: narrativa envolvente, personagens carismáticos, escrita fluida e cenas engraçadas fazem parte da lista de ingredientes desse chick-lit maravilhoso. Tiffy e Leon são quase opostos: ela é expansiva, gosta de usar roupas coloridas e chamativas e é uma tagarela; ele é introvertido, calmo e bastante racional. Os dois começam a trocar recados por motivos práticos, para combinar questões relacionadas ao apartamento (como comida, espaço no armário, coisas assim). Com o tempo – e com o crescimento da intimidade – os bilhetes se tornam uma conversa, e eles diariamente trocam recados e contam sobre seus dias. É meio óbvio pro leitor, como acontece em qualquer livro do gênero, que os dois vão se apaixonar. Mas engana-se quem pensa que o mérito do livro se encerra quando isso finalmente acontece: há um aprofundamento ainda maior de questões muito relevantes que Teto Para Dois aborda de maneira impecável.

O livro inicia aparentemente despretensioso mas, com o passar das páginas, vai ficando cada vez mais claro que Tiffy não saiu de um “relacionamento complicado”. Ela saiu de uma relação abusiva. A jovem narra as diversas idas e vindas, a montanha-russa emocional que vivia, de uma forma quase idealizada. É perceptível que Tiffy não entende e não conseguiu processar o que viveu. Porém, o livro tem algumas passagens de tempo entre os meses, e vai ficando mais claro para a personagem que ela passou por algo psicologicamente violento. Com o apoio de seus dois melhores amigos (o paciente psicólogo Mo e a cética advogada Gerty), Tiffy decide buscar terapia e começa a encarar o que aconteceu com ela.

resenha teto para dois

O livro é excelente em mostrar as consequências que uma relação abusiva causa na vítima. Em determinado momento Mo verbaliza a possibilidade de que todas as coisas ruins que Tiffy pensou ter esquecido sobre o namoro na verdade eram uma defesa de seu cérebro, um mecanismo de proteção para evitar tanto trauma e tanta dor. Devido às manipulações do ex-namorado, a jovem sempre duvidou de si mesma e das suas próprias percepções sobre certas situações, e ela passa por um longo e doloroso processo de cura ao enfrentar a verdade. A obra narra esse processo com muita delicadeza e responsabilidade, inclusive desmistificando a ideia de que muitos têm de que toda toda relação abusiva tem um episódio de agressão física. O trauma de Tiffy é internalizado, e seu relacionamento com Leon mostra aos poucos os gatilhos que ela vai enfrentar no processo de superação. Além disso, vale pontuar a importância da rede de apoio: Mo e Gerty não pressionaram Tiffy para não correrem o risco dela afastá-los. São amigos leais que, com qualidades e defeitos (cof cof, Gerty grosseirona, cof cof), sempre estiveram ali para ampará-la.

O plot de Leon também é ótimo, e o personagem conquista o leitor tanto quanto Tiffy. Sua subtrama tem outro viés social importante, que é a injustiça do sistema carcerário. O jovem tem traços não-caucasianos, e seu irmão mais novo, Richie, foi preso sem nenhum tipo de prova concreta, podendo ser lido como uma crítica à forma como a cor da pele influencia no julgamento e na condenação dos indivíduos. Além disso, na infância, os dois viram a mãe se relacionar com diversos homens problemáticos, o que causou uma mágoa em ambos – que Leon lida por meio do distanciamento. Mas o amor dos dois irmãos um pelo outro é inabalável e muito bonito de se ver.

O livro é repleto de cenas fofas e tem, sim, momentos clichês que proporcionam aquele quase beijo, aquele friozinho na barriga, aquelas borboletas no estômago. E isso tudo se equilibra com temas relevantes, que dão mais dimensão aos personagens. O que fica claro durante a leitura é que relacionamentos saudáveis são pautados em intimidade, honestidade, em liberdade, em saber que você pode ser você mesmo junto ao outro. Ao mostrar os problemas dos relacionamentos de Tiffy e Leon, é clara a diferença entre a relação que os dois constroem juntos – mesmo que, durante por muito tempo, por meio de bilhetes e zero contato físico. Fazia tempo que um romance não me fazia suspirar, sentir angústia e ficar até de madrugada acordada ansiando pela próxima página. Teto Para Dois fez isso e muito mais, já entrando pra lista de favoritos do ano. Por favor, leiam! ❤

Título Original: The Flatshare: A Novel
Autor: Beth O’Leary
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 400
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