Resenha: Linguagem da Destruição – Heloisa Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto

Oi pessoal, tudo bem?

Decidi ler Linguagem da Destruição: A Democracia Brasileira Em Crise mesmo sabendo a dificuldade que seria para mim mergulhar em uma análise da retórica de Bolsonaro, por quem sinto o mais profundo asco. Ainda assim, achei importante enfrentar esse desafio, especialmente porque sempre fiquei incrédula com a quantidade de pessoas que o defendem apesar de todas as coisas grotescas que ele diz e faz. Esse livro foi uma ótima aula nesse sentido, e só por isso já valeu a pena.

Garanta o seu!

Sinopse: Partilhando a ideia de que o plano de poder de Bolsonaro é pautado pela destruição, Heloisa Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto investigam, cada qual sob uma perspectiva, mas em constante diálogo, a atuação do bolsonarismo e seus efeitos para a democracia. O ensaio de Starling aborda o agudo reacionarismo do grupo político no poder, procurando compreender sua constituição histórica e antecedentes. Lago trata da resiliência de Bolsonaro a partir das armadilhas de seu discurso, considerando a dificuldade de se estabelecer uma oposição eficaz e os impactos da hiperconectividade e do neopentecostalismo para sua ação política. Já o capítulo de Bignotto é uma reflexão sobre os conceitos da teoria política empregados para definir o bolsonarismo e seus matizes ideológicos. Ao escrutinar os elementos que constituem a visão de mundo comungada pelos apoiadores de Bolsonaro, os autores combatem a cegueira analítica e descortinam os movimentos do ex-capitão e seu projeto de poder: a destruição da ordem democrática.

Linguagem da Destruição é um livro escrito por um filósofo, uma historiadora e um cientista político. Cada um deles escreve um capítulo do livro, que por sua vez tem subdivisões para tornar a leitura um pouco mais fluida e cadenciada. O objetivo da obra, em última instância, é analisar todo o mecanismo voltado à destruição que traduz o que é a “gestão” de Bolsonaro: um governo que, desde o início, prometeu destruir o status quo sem nenhum plano de reconstrução ou de futuro focado no desenvolvimento do país. Com a chegada da pandemia, esse projeto destruidor ganhou ainda mais força, transformando-se num governo que tem a morte como um dos seus pilares.

É importante deixar claro pra qualquer pessoa que leia essa resenha: eu sou anti-Bolsonaro em todas as instâncias possíveis. Desde 2018 eu digo que, se tiver que escolher entre votar nele e numa batata, eu voto na batata. E eu ressalto isso porque nenhuma resenha é totalmente isenta, e eu nunca me propus a fazer isso aqui no blog; muito pelo contrário, o Infinitas Vidas é um espaço onde, com transparência e honestidade, eu coloco minha opinião no mundo – e torço pra que ressoe em algum de vocês. Pra ser honesta, acho que estou escrevendo esse parágrafo com medo de que esse post um dia seja visto por minions desocupados que resolvam me atacar nos comentários, então já deixo avisado que, se isso acontecer, vou fechar o campo dos comentários pois não sou obrigada a aceitar xingamento e desrespeito rs.

Parênteses concluído, seguimos com a resenha. Os autores buscam criar uma narrativa que, aos poucos, vá explicando diversos aspectos da conduta bolsonarista e, principalmente, o porquê dela ter encontrado um meio fértil para se propagar. Há todo um resgate histórico para nos conduzir até o momento presente, e não são feitas afirmações levianas sem um raciocínio construído previamente para defender a posição dos autores. Eles reconhecem que é difícil encaixar Bolsonaro numa única caixinha de conduta devido a sua aproximação com vários movimentos, e evitam colocar rótulos que o limitem a ser chamado unicamente de populista, fascista ou nazista, por exemplo. É como se Bolsonaro permeasse esses conceitos, flertasse com vários sem se encaixar 100% em nenhum e então os transformasse no bolsonarismo, um movimento muito particular para o qual os autores ainda não possuem total entendimento.

O livro cumpre seu papel de evidenciar que não é a primeira vez que temos governantes autoritários no poder, mas que é inédito vermos alguém eleito pelo povo ter um plano focado em destruir os alicerces democráticos de dentro pra fora. Fomentar crises econômicas e sociais não é algo que Bolsonaro fez “sem querer” ou por ser burro (como eu mesma tantas vezes acusei), mas sim parte de um plano proposital de enfraquecer a sociedade para que ele possa se colocar como o salvador messiânico da população ao mesmo tempo em que se isenta da responsabilidade de consertar as coisas, terceirizando a culpa. Bolsonaro abraça a ideia de que não existe uma visão de futuro para o país, mas sim a necessidade de destruição “de tudo que está errado” (segundo ele) no presente.

O mais marcante dessa leitura pra mim foi perceber que eu estava sendo reducionista em relação à capacidade estratégica do discurso de Bolsonaro. Para mim, era difícil ver suas palavras sem reagir com “como alguém acredita no que esse burro tá falando?” ou “como as pessoas não se revoltam com essa afronta?”. Depois de ler Linguagem da Destruição, percebi que (mesmo ele sendo burro em muitas instâncias sim) Bolsonaro construiu o caos perfeito para que ele pudesse se isentar da responsabilidade do que acontece (afinal, na sua visão a culpa da crise é da pandemia, não dele), minar a confiança das pessoas na democracia (vide suas declarações golpistas de que não aceitará ser derrotado nas eleições e incitações para as pessoas não confiarem na urna eletrônica) e destruir as bases democráticas que vinham sendo fortalecidas no nosso país desde que nos livramos da ditadura. Se eu tiver que resumir essa experiência, posso dizer que Linguagem da Destruição é um livro difícil, por vezes complexo e com passagens mais enfadonhas, mas foi um divisor de águas no meu entendimento político.

Título original: Linguagem da Destruição: A Democracia Brasileira Em Crise
Autores: Heloisa Murgel Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 176
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

11 comentários sobre “Resenha: Linguagem da Destruição – Heloisa Starling, Miguel Lago e Newton Bignotto

  1. Oi Priih! Eu não leria o livro, sempre opto por leituras para relaxar e não pensar no caos atual, mas te parabenizo por enfrentar este desafio e fico feliz de saber que foi uma leitura importante para você.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

  2. Olá,
    O meu asco por ele chegou no ponto de não querer saber mais nada sobre – nem ele, defensores e ou pessoas do círculo. Tudo no block. Ele ainda não deixo 100% silencioso nas redes porque preciso saber das notícias como cidadã, mas logo ficará. Então, infelizmente, não leria o livro – mas entendo toda importância que ele tem e terá futuramente.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

  3. Olá, Priih.
    Meus parabéns viu, porque eu sinceramente não conseguiria hehe. E não é só o Bozo não, mas todos políticos, não tem nenhum burro nessa vida não, é tudo manipuladinho para enganar o povo. Por isso faz anos que não voto em ninguém. Me nego a votar nessa corja de políticos corruptos que só pensam em encher os bolsos.

    Prefácio

  4. Nossa, eu voto e faço campanha para a batata! Asco total desse anti-presidente, anti-ser-humano. Eu fico tão abalada de SABER que essa pessoa existe que teria dificuldade sim em começar essa leitura, apesar de ter achado a proposta do livro incrível. Pena que quem precisa ter contato com esse tipo de narrativa lógica e analítica, (os muitos bolsonaristas que ainda existem, infelizmente) não vai nunca ler. :/

  5. Oi
    parece ser um tipo de leitura esclarecedora, não é um tipo de leitura que eu realizaria, mas acredito que muitas pessoas devem ler esse livro, eu também anti-Bolsonaro e não aguento ne escutar a voz dele nas entrevistas, e não entendo como existe pessoas cegas perante esse homem.
    https://momentocrivelli.blogspot.com/

  6. Oi Priih,
    É aquela coisa: eu leria esse livro? não por vontade. Talvez mais por necessidade.
    É o que você disse, é complicado, mas te fez entender melhor pontos políticos que hoje percebemos que nos nos afetam DIRETAMENTE. É uma dica importante principalmente em ano de eleição , já que ficar como está NÃO DÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    beeeijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

  7. Pingback: Dica de Série: The Morning Show | Infinitas Vidas

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