Resenha: O Avesso da Pele – Jeferson Tenório

Oi pessoal, tudo bem?

Sempre que um livro me deixa sem palavras, tenho dificuldade de escrever a respeito. Os dedos pousam no teclado e eu fico reticente sobre como transmitir pra vocês as emoções que determinado título me causou. É o caso de O Avesso da Pele, vencedor do Prêmio Jabuti 2021, ao qual tentarei fazer justiça por meio dessa resenha.

Garanta o seu!

Sinopse: O Avesso da Pele é a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos. O que está em jogo é a vida de um homem abalado pelas inevitáveis fraturas existenciais da sua condição de negro em um país racista, um processo de dor, de acerto de contas, mas também de redenção, superação e liberdade. Com habilidade incomum para conceber e estruturar personagens e de lidar com as complexidades e pequenas tragédias das relações familiares, Jeferson Tenório se consolida como uma das vozes mais potentes e estilisticamente corajosas da literatura brasileira contemporânea.

A trama acontece pelo ponto de vista de Pedro, um jovem que teve seu pai, Henrique, assassinado por uma ação policial desastrosa e incompetente. Ao visitar o apartamento de seu progenitor, ao olhar para as coisas que ele deixou, para a bagunça intocada, Pedro busca encontrar as peças do quebra-cabeças que formava seu silencioso, reflexivo, filosófico e ressentido pai. Mas, por mais que o leitor acompanhe as reflexões de Pedro, a narrativa é direcionada à segunda pessoa do singular: o protagonista “conversa” com Henrique enquanto relembra as informações de seu passado que conseguiu resgatar e tenta dar sentido à história da família.

De forma singela, mas impecável, Jeferson Tenório escreve sobre personagens com uma delicadeza ímpar. O foco é Henrique, cuja existência foi uma sucessão de dificuldades vencidas (e cansaço acumulado). Desde muito novo ele sentiu o peso que a cor de sua pele exerce, e as vezes em que foi parado pela polícia foram incontáveis – mesmo durante a infância, em uma partida de futebol inocente com os amigos, por exemplo. Conforme crescia, Henrique foi sendo exposto a diferentes formas de violência racial, demorando inclusive a entender que era vítima desse sistema. Sua primeira namorada, Juliana, é a personagem que representa a falta de autorresponsabilização branca pelo racismo, que se posiciona como não racista “por namorar um negro” e achar que o assunto será superado caso não se fale a respeito.

Com o tempo, Henrique entra em contato com os estudos raciais e ganha consciência de que o problema é muito maior do que ele. É também nessa época que seu relacionamento com Juliana termina – mas ela não será a única mulher a minar sua estrutura emocional. As memórias de Pedro sobre o casamento de seus pais são marcantes e intensas, repletas de cicatrizes psicológicas. É então que Martha, sua mãe, também ganha espaço na obra pra ter seu passado contado, o que auxilia o leitor a nutrir alguma empatia por ela, que causou diversas violências na vida de Henrique. A própria Martha teve uma vida de perdas, somadas à dificuldade de ser uma mulher negra em uma sociedade racista e machista: primeiro, ela perdeu seus pais, mortos em um acidente; depois, seus sonhos de um casamento feliz ao sofrer abusos de seu primeiro marido; e, por fim, o afeto de Henrique. A relação dos dois só perdura porque ambos sentem uma necessidade visceral de serem importantes para alguém. Essa necessidade dá espaço como uma “justificativa” para as ações descabidas e a toxicidade da relação, porque o ego de cada um se infla com a ideia de ser assim tão necessário. Por meio da voz de Pedro, o leitor navega por essa desestrutura familiar que foi a sina tanto de Henrique quanto de Martha, e que obviamente respingou em sua própria criação devido à posterior separação de seus pais.

Um aspecto muito marcante na vida de Henrique reside em sua decisão de se tornar professor. Jeferson Tenório se utiliza dessa escolha para criticar um sistema educacional falido, que invisibiliza o professor e o imenso abismo estrutural que existe entre as classes mais abastadas e as mais pobres. Henrique dá aula em uma escola de periferia e presencia as situações mais absurdas (como um aluno enrolando um baseado em sua aula), o que deixa explícito como nossos professores são expostos a situações extremas para as quais não foram preparados. É angustiante perceber como anos da vida de Henrique foram desperdiçados em uma triste resignação, especialmente quando consideramos a trajetória difícil que ele percorreu para chegar onde chegou.

Não posso falar de O Avesso da Pele sem mencionar a violência policial. Ao ler a sinopse, já conhecemos o desfecho de Henrique, mas ainda assim as páginas não nos preparam para o modo e para o terrível timing em que isso ocorre. Porém, não é apenas na morte que a violência policial marcou a história de Henrique. Como mencionei antes, desde a infância ele presenciou o modo como sua pele atrai olhares e provoca ações. Um episódio é bastante marcante: trabalhando como assistente em um escritório de advocacia, ele se esforça e junta dinheiro pra comprar uma roupa cara, semelhante a de seus pares no escritório. Mas, fugindo da chuva no Parcão (um parque localizado num bairro de classe alta aqui de Porto Alegre), ele é confundido com um assaltante e é parado pela polícia. A humilhação e a postura vinda daqueles que deveriam proteger a todos – ele incluso – são revoltantes, e Henrique se desfaz da jaqueta pela qual batalhou tanto. Afinal, de nada adiantam as peças de roupa que cobrem seu corpo; sua pele negra está sempre à vista, como um alvo. E é justamente por isso que o pai ensina ao filho a importância de preservar o avesso: aquilo que ninguém vê, aquilo que é só dele para ninguém tirar nem envenenar com ódio e preconceito. Porque, citando as páginas do livro, “não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo”.

O Avesso da Pele é um livro emocionante, intenso e envolvente. Mesmo tocando em temas tão difíceis, Jeferson Tenório mantém a narrativa fluida e poética, de forma a nos envolver e encantar, mesmo nas dificuldades. Esse é um daqueles livros que marcam a nossa experiência como leitores (sensação muito parecida com a que O Peso do Pássaro Morto me causou) e eu recomendo de coração que você dê espaço para conhecer a história de Henrique – bem como daqueles que o cercam.

Título original: O Avesso da Pele
Autor:
Jeferson Tenório
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 192
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

13 comentários sobre “Resenha: O Avesso da Pele – Jeferson Tenório

  1. Oi Priih! Que bom ter sido uma leitura tão marcante e intensa. Não é o tipo de livro que costumo ler, mas anotei a dica para quando eu pensar em leituras fora da minha zona de conforto.
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

  2. Olá, Priih.
    Eu confesso que agora lendo sua resenha me arrependi de não ter pego ele para ler quando a editora disponibilizou no NetGalley. Que livro forte e impactante. Mas vou deixar anotado aqui para ler futuramente.

    Prefácio

  3. Oooi, Priih. Eu também sou assim, sempre que um livro me toca muito tenho dificuldade de escrever uma resenha. Mas a sua ficou excelente! Não tinha lido ainda sobre o livro, embora a capa seja familiar. Fiquei curiosa para ler.

  4. Que leitura forte e se senti o impacto lendo a resenha, imagina lendo a obra. Eu já estava aqui com os olhos marejados, me veio inúmeros casos de abusos e racismo e que nunca tiveram justiças, várias pessoas que como henrique perderam a vida.
    Fiquei abalada. Espero ter a oportunidade de ler. Adorei a resenha. Como sempre, muito boa!

    beijos

  5. Olá,
    Que resenha e dica maravilhosa.
    Eu aprecio muito uma narrativa mais reflexiva e repleta de questionamentos que ficam com a gente um bom tempo. É ótimo pra olhar pra gente e repensar umas coisas.
    Ainda quero e muito ler, tenho certeza que será uma leitura marcante por aqui tb. E ficarei com raiva em vários momentos, certeza.
    Já curti a ideia da narrativa partir como uma conversa/desabafo.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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