Resenha: Mulher, Roupa, Trabalho – Mayra Cotta e Thais Farage

Oi pessoal, tudo bem?

Eu estava com saudades de ler um livro de não-ficção, e felizmente tive uma excelente experiência com minha primeira leitura concluída de 2022: Mulher, Roupa, Trabalho: Como se Veste a Desigualdade de Gênero. 

Garanta o seu!

Sinopse: Este não é mais um livro de estilo. Nestas páginas, a consultora de moda Thais Farage e a advogada Mayra Cotta investigam a relação da mulher com a roupa de trabalho e o que há por trás das escolhas diárias que fazemos diante do espelho. “Será que esse vestido me deixa velha?”, “Essa camisa me faz parecer séria demais?”, “Essa blusa é muito estampada?”, “Ainda tenho idade para usar esse tipo de saia?”. Quem é mulher sabe que, apesar de rotineira, arrumar-se para o trabalho não é tarefa fácil. Não importa o que vestimos, a roupa feminina é sempre avaliada, comentada e criticada por todo mundo, e o resultado é que quase nunca sentimos que nossas peças são apropriadas para a situação. Mas por que nossa relação com a roupa de trabalho é tão complicada? De onde vêm tantas questões que parecem nem existir para o gênero masculino? Foi com isso em mente que Mayra Cotta e Thais Farage escreveram Mulher, roupa, trabalho, um livro que repensa a moda a partir de suas raízes políticas e questiona a política a partir da moda, tendo como base a roupa das mulheres no espaço de trabalho. O objetivo aqui é questionar as estruturas engessadas que determinam o que devemos ou não vestir para trabalhar e tentar subvertê-las. Só assim poderemos nos divertir mais com os looks e nos preocupar menos em nos espremer para caber neles.

Eu passei a me interessar por moda recentemente, depois de ter produzido conteúdos com uma consultora de estilo em uma das marcas que minha equipe atendia na empresa em que trabalho. Porém, o assunto gênero me atrai faz muito tempo: costumo dizer que desde pequena eu era feminista, só não sabia o nome disso ainda – inclusive fiz meu TCC focado nesse assunto (analisei a representação feminina em Jessica Jones e o link está aqui, pra quem quiser conferir). Quando, via Time de Leitores, tive a oportunidade de ler um livro que unisse ambos os assuntos e ainda falasse sobre a mulher no mercado de trabalho (coisa que um dos meus livros favoritos, Clube da Luta Feminista, aborda), não pensei duas vezes em mergulhar de cabeça.

Mas é importante ressaltar que meu interesse por moda é superficial. Não acompanho tendências, alta costura, a história por trás desse mundo todo. Além disso, aproveito para sinalizar que o livro traz “roupa” no nome porque, muito mais do que moda, é nisso que ele foca: a forma como as roupas fazem parte da história da humanidade e como elas servem a papéis sociais e de poder ao longo desse tempo. Se você se identificou com a minha forma de pensar sobre moda e sobre essa temática que citei, é muito provável que você curta a leitura também. 😉

Mayra Cotta e Thais Farage fazem um trabalho primoroso em questionar e também elucidar as muitas formas pelas quais as mulheres tiveram seu papel no mercado de trabalho definido. Uma pergunta feita na obra é um ótimo exemplo disso: se você é mulher, é bem provável que já tenha se perguntado em algum momento se “tal roupa” é adequada para determinada situação, se alguma peça pode causar um efeito indesejado em alguma reunião ou se o tamanho e a modelagem da sua saia podem interferir na sua credibilidade no ambiente de trabalho, por exemplo. E a verdade é que, segundo a linha de raciocínio das autoras, o mercado de trabalho foi construído ao longo dos séculos para que nós, mulheres, nunca estejamos adequadas: ou seremos velhas demais, ou jovens demais, ou mostraremos pele demais, ou seremos “sisudas ou senhorinhas” demais na forma de nos vestirmos. Se usarmos maquiagem, pareceremos fúteis; se não usarmos, pareceremos desleixadas. É um jogo impossível de vencer. E o livro infelizmente não traz uma solução, porque não existe uma única resposta simples que seja capaz de reverter essa dinâmica: como Moda, Roupa e Trabalho habilmente demonstra, isso é uma herança antiga e propositalmente orquestrada.

Compreender o fato de que, desde o Renascimento, as mulheres têm sido colocadas na esfera privada da sociedade (o lar, a família, os filhos) enquanto homens são destinados à esfera pública (o trabalho) é a primeira coisa a ser feita para que possamos encarar os desdobramentos disso, que são sentidos ainda no presente. As autoras usam diversos exemplos pra conectar esse abismo na dinâmica de poder, e é claro que as vestimentas são os mais marcantes. As roupas desconfortáveis das mulheres entre o século XVII e XVIII (não me recordo com clareza agora, me perdoem) ilustram bem essa situação: espartilhos, anáguas e armações de ferro para sustentação dos tecidos são alguns dos itens que transformavam a mulher em um adorno, pois aquele era o papel a ela destinado. E ainda hoje temos a nossa aparência como balizadora da nossa capacidade como profissionais, que está sempre sendo questionada e até mesmo ameaçada.

A obra é dividida nos seguintes temas: uma introdução, “Rumo à construção o nosso próprio poder”, seguida dos capítulos “Mulheres e mundo do trabalho: como chegamos até aqui”, “A moda e os códigos”, “As roupas e o assédio sexual no trabalho”, “Mãe com estilo e estilo de mãe”, “A busca eterna pelo look ideal” e a conclusão: “Como fazer a roupa trabalhar para nós?”. Com esses títulos, acredito que seja possível que vocês captem a essência dos assuntos trabalhados ao longo das páginas, mas é importante deixar claro que as autoras se preocupam em costurar todos esses assuntos, conectando um capítulo aos conceitos vistos no anterior. Por mais que sejam muitos aspectos históricos e sociais a serem debatidos, Mayra Cotta e Thais Farage conseguiram tornar o livro muito fluido, interessante, dinâmico e nada cansativo. Cada problematização feita me deixou imersa e me colocou para refletir, provavelmente sendo esse o motivo pelo qual demorei a sentar e escrever uma resenha.

Mulher, Roupa, Trabalho é uma leitura imperdível pra quem se interessa por estudos de gênero e deseja se aprofundar em um dos muitos aspectos que giram em torno das dinâmicas de poder desiguais entre homens e mulheres. As autoras são didáticas e conseguem aprofundar várias questões – e, onde não conseguem, deixam sugestões de títulos e de bibliografia pra que o leitor possa continuar o estudo por si mesmo. Foi uma leitura que facilmente entrou pras melhores obras lidas recentemente e eu torço pra que você resolva dar uma chance também. Prometo que vale a pena. 😉

Título original: Mulher, roupa, trabalho: Como se veste a desigualdade de gênero
Autoras:
Mayra Cotta e Thais Farage
Editora: Paralela
Número de páginas: 228
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

11 comentários sobre “Resenha: Mulher, Roupa, Trabalho – Mayra Cotta e Thais Farage

  1. Oi!
    Gostei da dica de livro e eu tenho um nível semelhante de apreciação à moda! O que mais me faz refletir sobre moda é quando se trata de roupas de casamento e de âncoras de jornal, pois enquanto para homem um terno já está ótimo (e pode repetir à vontade), para as mulheres tem várias variantes a serem consideradas e repetir é quase um crime hediondo.

    Beijão
    https://deiumjeito.blogspot.com/

  2. Olá, Priih.
    Eu não tenho vontade de ler livros de não ficção. Mas de vez em quando algum me chama a atenção e eu coloco na lista. E esse chamou muito a minha atenção. Eu gosto muito desse assunto sobre essa desigualdade de gêneros. Vejo cada coisa, inclusive na minha família que tenho dois irmão extremamente machistas.

    Prefácio

  3. Oi, Prihh! Tudo bem?
    Adorei a dica. Já faz algum tempo desde que li uma não ficção. Geralmente eu tenho mais interesse sobre essas questões em cima de obras literárias. Nunca tinha lido nada sobre elas em cima da moda, mas é bem verdade que me sinto as vezes muito pressionada pelo “Com que roupa vou”.
    Vou procurar mais sobre esse livro e espero ter a oportunidade de ler.

    beijos

  4. Olá,
    Super adorei a ideia de debate do livro.
    Apesar de não sair muito do conforto, com não-ficção, fiquei tentada em conhecer – e o outro mencionado tb.
    Sempre penso nisso tb, sobre ser feminista desde criancinha. Sempre leio e fico: “mas desde nova eu penso isso. Então eu tinha razão? Pq me achavam a chata do rolê? hahaha”

    até mais,
    Canto Cultzíneo

  5. Oi
    eu quase não leio não ficção, por isso não conheci esse e eu gosto de modo, quando me arrumo para trabalhar tem dia que vou com uma maquiagem leve, outros dias vou sem, alguns vou mais arrumada e outros, eu tenho uma saia que vai até o joelho que tenho vontade de usar, mas nem sei se é permitido usar saia para ir trabalhar, mesmo sendo longa, enquanto isso tem homem no meu serviço que vai com a roupa toda furada, mas só porque não atendemos ao publico.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

  6. Oi, Priih! 🙂
    Esse tipo de livro é muito necessário! Fiquei curiosíssima para lê-lo mais de perto. Eu, assim como você, sempre me incomodei com isso de ter que sofrer (com roupas e sapatos desconfortáveis) pra ser vista como bonita. Na minha cabeça, esse glamour não faz o menor sentido.
    Eu fico feliz que as mulheres estejam se rebelando contra isso, ainda que não haja uma solução derradeira. Acho que, aos poucos, nós vamos encontrando alternativas. 🙂

    Um beijo,

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