Resenha: Rede de Sussurros – Chandler Baker

Oi pessoal, tudo bem?

Rede de Sussurros, um thriller baseado no movimento #MeToo, estava no meu radar há meses. Finalmente o coloquei na meta de leitura e hoje posso contar o que achei pra vocês.

Garanta o seu!

Sinopse: Há anos, Sloane, Ardie e Gracie trabalham juntas em uma empresa de roupas esportivas. As três sempre se ajudaram, passando por promoções empolgantes, reuniões intermináveis, casamento, maternidade, divórcio e os desafios impostos pela política no escritório. Elas também têm seus segredos e cada uma fez algo de que se arrepende. Com a morte repentina do presidente da empresa, tudo indica que Ames, o chefe delas, será alçado à liderança da companhia. Ames é um homem complicado, que as três conhecem há muito tempo e que sempre esteve cercado por sussurros a respeito do tratamento que dispensa às subordinadas. Esses sussurros vinham sendo ignorados, varridos para debaixo do tapete e acobertados por aqueles que estão no poder. Depois de descobrirem que Ames adotou uma conduta inaceitável em relação a uma nova funcionária, elas decidem falar. E essa decisão provoca uma mudança catastrófica no escritório. Mentiras serão reveladas. Segredos serão expostos. E nem todo mundo sobreviverá. Suas vidas — como mulheres, colegas, mães, esposas, amigas e até adversárias — estão prestes a mudar drasticamente.

O mistério do livro inicia com alguém que cai (ou é empurrado?) do alto do prédio de uma grande empresa de artigos esportivos, a Truviv. Em seguida, a narrativa passa a alternar entre os acontecimentos prévios à misteriosa queda e as investigações, que são focadas em três amigas, Sloane Glover, Grace Stanton e Ardie Valdez.

À primeira vista, Rede de Sussurros parece ser narrado em primeira pessoa, ainda que não saibamos por quem. Antes da queda fatídica acontecer, há outra morte importante: a do presidente da Truviv, cujo acontecimento funciona como a primeira peça de um dominó, que em seguida derruba todas as outras, pois quem está sendo cotado para substituí-lo é Ames, chefe das três mulheres. Enquanto grande parte da empresa o enxerga como um excelente nome e alguém competente e adequado ao cargo, Sloane e Ardie sabem que Ames é alguém incapaz de de respeitar limites especialmente se quem os coloca é uma mulher. Quando uma nova funcionária é contratada pelo próprio Ames, Sloane sente um ímpeto de protegê-la dos avanços do chefe e, motivada por esse desejo, ela acrescenta o nome de Ames a uma planilha que tem circulado anonimamente, em que homens são denunciados por assédio sexual (sem saber que isso desencadearia uma série de graves consequências para todos).

O livro é bem contundente nas descrições sobre desigualdades de gênero. Ao longo das páginas, o leitor percebe que não é nenhuma das personagens principais quem está narrando a história, mas sim um coletivo – o “nós”. Esse estilo narrativo se faz valer desse afastamento com a trama em si pra trazer aspectos mais gerais do “ser mulher” no mercado de trabalho. Situações como o fato de que mulheres precisam se preocupar com o envelhecimento enquanto homens são levados mais a sério conforme os anos passam são um exemplo disso. No caso de Sloane, que teve um caso com o Ames logo que iniciou na Truviv, o assédio e as consequências na carreira perduram até o presente: ele lança mão de comentários inapropriados sobre seu corpo, deslegitima suas decisões (se aproveitando do fato de ser seu chefe) e ocasionalmente menciona o passado dos dois, como uma mancha de vinho em um sofá branco. Por isso não é de se espantar que Sloane queira colocar seu nome na planilha das denúncias anônimas.

A história do livro em si é bastante previsível: é fácil acertar quem é o corpo na calçada, assim como é fácil prever o que aconteceu com Rosalita, uma personagem cuja importância vai crescendo ao longo da trama e é um exemplo claro de silenciamento feminino. Mas, apesar da história não conter grandes reviravoltas, o grande mérito de Rede de Sussurros é evidenciar o abismo que existe entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, sim, mas também na vida. O assédio sexual é o principal tema, claro, mas a trama também expõe os absurdos aos quais as mulheres precisam se submeter para conseguirem ser bem sucedidas. A narradora coletiva fala sobre o nosso perfeccionismo, já que mulheres sofrem com a pressão de serem boas em tudo: boas profissionais, boas mães, boas donas de casa. Temos que nos provar três vezes mais para atingirmos o mesmo patamar de um colega homem, e tendo o cuidado de não sermos lidas como agressivas ou teimosas (o que, no caso deles, é visto como firmeza e confiança). Precisamos voltar ao trabalho pouco tempo após parir, mesmo com o nosso corpo e nossos hormônios pedindo por descanso pois, caso contrário, seremos deixadas para trás na guerra corporativa. Essas são apenas algumas situações que Rede de Sussurros expõe de forma precisa e, infelizmente, relacionável.

Se por um lado a crítica social é competente, a trama peca por sua lentidão e por seus personagens nada marcantes. Não consegui me afeiçoar e nem torcer por nenhuma das protagonistas, e isso é um fator que eu levo bastante em consideração ao avaliar uma leitura. Senti falta de um mistério que perdurasse por mais tempo, além de ter me cansado com a futilidade de Sloane. Foi difícil acreditar que ela estivesse fazendo o que fazia por pensar no bem da nova colega; parecia mais uma atitude de quem queria colocar um ponto final no passado e trazer justiça a um homem que a prejudicou de diversas formas. E eu acho essa motivação muuuito válida, na verdade. O problema é que Sloane tentou fazer parecer que era altruísmo, o que, pra mim, não colou.

Rede de Sussurros não atingiu todas as minhas expectativas e acabou sendo uma leitura bacana, mas mediana. Minha recomendação se concentra muito mais nos fatos abordados pela narradora coletiva do que pela trama em si, porque esses sim precisam vir à luz para serem cada vez mais combatidos – como o excelente Clube da Luta Feminista ensina. O mérito do livro está nessas discussões, e sempre serei a favor de tramas que toquem em pontos delicados que já deveriam ter sido vencidos há muito tempo. E deveríamos fazer isso sem sussurrar, mas gritando aos quatro ventos mesmo.

Título Original: Whisper Network: A Novel
Autora: Chandler Baker
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 384
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17 comentários sobre “Resenha: Rede de Sussurros – Chandler Baker

  1. Hey Priih o/

    É importante ter mais livros que falem sobre a desigualdade, machismo e misoginia. E concordo que deveriamos estar aos gritos e não aos sussurros.
    Nem sempre dá pra ter um livro 5 estrelas, mas que bom que ele tem uma ótima proposta.

    Fiquei interessada sobre o Clube da Luta Feminista.

    Boas leituras,
    Karen Gabrieli | Apesar do Caos

  2. Oi Priih, achei tão interessante isso do livro ter um narrador que representa um coletivo (de mulheres, no caso). Fiquei curiosa para ver como isso se desenrola na trama. E que pena as personagens não terem sido marcantes, um desperdício de oportunidade ~ ainda mais se tratando de um tema tão atual e importante quando misoginia e machismo no ambiente de trabalho.

    Um beijo :*

  3. Oi Priih! Este livro também está no meu radar faz um tempinho, mas me desanimou um pouco saber que a trama é lenta e os personagens não tão marcantes. Eu vou ler ainda, mas com menos expectativas.
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

  4. Olá, Priih.
    Eu comprei esse livro em uma caixa do Clube Intrínsecos. Mas estou enrolando para ler ele. Estou muito interessada no assunto tratado na história, mas estou receosa de achar o mesmo que você sobre a narrativa. Acho que vou deixar mais para frente a leitura.

    Prefácio

  5. Oi, Priih. Tudo bem?
    Confesso que não conhecia o livro que lendo a sinopse e sendo baseado no movimento #metoo imaginei também que seria mais empolgante e personagens marcantes, uma pena que não empolgou, ainda irei ler. Mas deixarei para uma leitura futura.

    Beijos, Vanessa
    Leia Pop

  6. Olá! esse é um livro interessante que aborda temas importantes mas, ainda não li. Na verdade ainda não me decidi se vou ler mas, temos tempo né rs
    Quem sabe em breve.
    Gostei da forma como se expressou ao contar a história e como abordou os fatos importantes que ocorrem no livro apesar de achar uma leitura mediana e válida.
    Achei bacana.
    beijos.

    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

  7. Amei a resenha. Esse livro está na minha lista faz muito tempo, mas sempre fico com medo de me decepcionar pq sempre fico com bastante expectativa.
    A leitura fica muito complicada quando o personagem não convence 😦

  8. Oi Priih,
    Achei a trama muito diferente e interessante. A medida que vc ia explicando mais fui percebendo que também, no final, não curtiria tanto assim a leitura. Mas concordo com vc, temas assim devem ser mais explorados. Essa desigualdade é muito real.
    Bjos
    Kelen Vasconcelos
    https://www.kelenvasconcelos.com.br/

  9. Oi Pri, tudo bem?

    Confesso que pela capa eu esperava um tipo de história totalmente diferente, algo mais voltado para o suspense e não para thriller. Uma pena a narrativa ser previsível, até porque o plano de fundo dela é bem interessante.

    Beijos;***
    Ariane Gisele Reis | Blog My Dear Library.

  10. Se o livro tivesse aliado críticas a uma boa história, teria sido ótimo né? Mas é triste quando a gente não se afeiçoa a nenhum personagem, principalmente nesse caso, que envolve um grupo de mulheres e atitudes das quais deveriam fazer com que as leitoras se identificassem e sentissem empatia.
    Gostei da sua resenha, achei bem sincera.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

  11. Olá,
    O lado ruim de propostas assim é a conexão com os personagens. Fica realmente difícil de simpatizar com alguns, apesar da força na narrativa.
    Eu até fiquei curiosa porque me lembrou Pequenas Grandes Mentiras, principalmente nesse lance de descobrir de quem era o corpo. E eu amei a leitura dele, então darei uma chance a esse tb.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

  12. Oi Priih,
    Eu gostei bastante desse livro, acho que li em uma época boa, consegui absorver muito da mensagem central dele, o que não são todas as mulheres que estão abertas a isso. Principalmente, nos momentos os quais a maternidade é o foco, acho que a mulher tem que ser um pouco mais velha para entender o que as personagens passam, sabe?
    Mas ao todo foi uma ótima experiência!
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

  13. Pingback: Livros para pensar a maternidade | Infinitas Vidas

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