Resenha: Pessoas Normais – Sally Rooney

Oi pessoal, tudo bem?

Desde que vi a Pam Gonçalves falando sobre Pessoas Normais, fiquei com o título no meu radar. O fato de ter sido adaptado em uma série foi o incentivo que faltava pra eu finalmente dar uma chance, e hoje divido com vocês minha experiência com a leitura.

Garanta o seu!

Sinopse: Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes – contudo, um deles está determinado a esconder a relação. Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Pessoas Normais tem uma narrativa ágil em terceira pessoa, focada principalmente nos diálogos dos dois protagonistas, Marianne e Connell, cobrindo um período de tempo que vai do final do ensino médio até o final da faculdade. A mãe de Connell trabalha como faxineira para a família de Marianne, e as interações entre os dois ficam restritas a quando ele passa para buscá-la. Enquanto a jovem não é aceita socialmente na escola e tampouco tem amigos, Connell faz parte do grupo dos populares, fingindo inclusive não conhecer Marianne para manter as aparências. Um dia, porém, os dois se beijam e começam a sair juntos às escondidas, e essa dinâmica sexual se mantém por anos a fio, cheia de idas e vindas.

A primeira coisa que eu preciso dizer sobre Pessoas Normais é que ele é um livro que parece nunca sair do lugar, e a culpa é exclusiva da falta de diálogo entre os protagonistas. Gente, eu tenho 27 anos, não tenho mais paciência pra adulto agindo feito adolescente. Por isso, esse aspecto do livro foi enervante pra mim. Marianne e Connell (especialmente Connell) causaram mágoas um no outro ao longo dos anos, mas eles funcionam como ímãs que não conseguem se afastar completamente. A química sexual é o que os une em primeiro lugar, mas também existe uma segunda camada nesse relacionamento, que é encontrar compreensão, adequação e aceitação em alguém. 

No ensino médio, Marianne era a excluída, mas na faculdade os papéis se invertem. Agora é ela quem brilha, enquanto Connell se sente desajustado ao conviver com pessoas que não parecem aceitá-lo por quem ele é, e o abismo de classes sociais também o intimida. Na época da escola, Connell interpretava um papel fácil e consolidado que funcionava, não se permitindo ser vulnerável. Marianne, por outro lado, com sua sinceridade implacável e jeito blasé, se encaixou no novo meio – um meio muitas vezes permeado por arrogância intelectual. Quem nunca foi presunçoso aos 20 e poucos anos em uma conversa com outros colegas universitários que atire a primeira pedra.

Apesar de ser um livro muito bom em abordar o sentimento de se sentir perdido e em um lugar ao qual você não pertence, ele também me deixou muito nervosa e irritada, especialmente por causa de Connell. A maneira como ele usa Marianne ao longo dos anos me enojou. Transar com ela às escondidas no ensino médio e, na faculdade, se beneficiar dos confortos que ela poderia proporcionar (como um apartamento no qual ele poderia ficar) foram atitudes horríveis que Marianne não merecia. Connell sabe que gosta dela e ainda assim não expõe seus verdadeiros sentimentos, e ao mesmo tempo ele tem plena consciência do poder que exerce sobre ela, se aproveitando disso. Marianne, por outro lado, vem de uma família desestruturada: ela aprendeu desde cedo que violência é a forma de lidar com as relações, já que presenciou seu falecido pai agredindo sua mãe, e ela própria foi vítima disso. No presente, seu irmão também a trata de forma violenta, tanto física quanto verbal, e Marianne não encontra forças para se defender. Sua autoestima é comprometida e ela acredita não ser digna de amor, o que explica toda a dinâmica autodestrutiva de passividade e permissividade que ela tem não apenas com Connell como também com todos os homens (problemáticos) com quem se relaciona ao longo dos anos. 

O terço final do livro é um pouco decepcionante, porque a autora entra no território da saúde mental de forma abrupta e sai dele de forma tão abrupta quanto. O leitor não tem tempo pra absorver a nova condição e as consequências que isso causa na vida dos personagens, e o capítulo final faz com que isso tudo seja ainda pior. Ele é repentino e causa uma sensação de que faltaram páginas pra construir aquela mudança tão representativa na forma de pensar e agir de Connell e Marianne. A próxima frase tem spoiler, selecione se quiser ler: quando Connell recebe a proposta para ir a Nova York, novamente eles poderiam ter resolvido com diálogo e com planos. Marianne poderia terminar a faculdade e ir encontrá-lo, por exemplo. Mas eles decidem de forma tácita que Connell deve ir e Marianne se sente feliz e conformada com isso. De novo, insisto: cadê o diálogo?

Pessoas Normais é um bom livro, mas nem de longe entrou para a minha lista de favoritos. Como ponto positivo ressalto principalmente o foco em assuntos que dialogam com as nossas experiências de jovens adultos, mas infelizmente a dinâmica da narrativa é cíclica de um jeito cansativo. Você passa páginas e mais páginas e não sente que ninguém ali está amadurecendo de verdade, e o final da história é tão repetitivo quanto seu começo. Agora pretendo conferir a série pra ver se nela eu me sinto menos desconfortável com essa relação conturbada e confusa. Vou torcer para que sim.

Título original: Normal People
Autora:
Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 264
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Livro cedido em parceria com a editora.
Esse não é um publipost, e a resenha reflete minha opinião sincera sobre a obra.

12 comentários sobre “Resenha: Pessoas Normais – Sally Rooney

  1. Oi, Priiih. Tudo bem?
    Amei sua resenha, sério. Eu não li o livro, mas vi a série e o tempo todo senti esse desconforto e raiva do Connell pelas ações dele e muitas pessoas estavam recomendando a série e livro, mas o personagem e a falta de comunicação entre eles realmente me deixava com muita raiva. Era visível que os dois tinham sentimentos, mas falta comunicação. E o Connell usa Marianne o tempo todo e a passividade e falta de autoestima dela me deixava triste.
    Enfim, eu quero ler o livro no futuro, daqui uns tempos.

    Beijos, Vanessa
    Leia Pop

  2. Oi, Pri. Como vai? Sua resenha tão bem elaborada mostrou-me que eu teria certo desconforto em ler este livro. É duro ter de aturar adultos agindo como adolescentes. Quando se é adolescente é aceitável algumas atitudes, mesmo que não corretas vinda deles, agora adulto ter atitudes de adolescentes aí realmente não dá, pelo menos para mim. Ademais que bom que mesmo passando perengue você conseguiu enxergar coisas boas no livro. Su resenha ficou incrível. Adorei. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

  3. OI Priih,
    Entendi completamente o que quis dizer, mas eu acho que não leria um livro assim hoje em dia… Estou procurando novas experiências e gosto de livros mais intensos sabe. Vc conseguiu me passar exatamente como é o livro, já tinha visto outra resenha e também não foi tão positiva ^^
    Bjos
    https://www.kelenvasconcelos.com.br/

  4. Interessante você dizer que a narrativa desse livro é ágil, pois todas as resenhas que já havia lido anteriormente tende a destacar que o livro é monótono, o que me fez passar bem longe dele, até então. Mas agora, vou continuar me mantendo longe por que odeio livros sem grandes acontecimentos e plots, haha. Que a sua experiência com a série seja positiva! Depois traga uma resenha comparativa.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

  5. Olá, Priih.
    Eu tenho vontade de conferir a série. Mas o livro acredito que não lerei. A cada nova resenha que leio dele só reafirma que com certeza é um livro que só vou me irritar hehe. Esse negócio de não ter diálogo me irrita muito e sempre tiro nota dos livros por conta disso.

    Prefácio

  6. Oi, Priiih, sua linda, tudo bem?
    Nossa, achei sua resenha muito intensa. A forma como você sentiu esses personagens para o melhor e para o pior. Quando a série foi lançada ouvi alguns comentários de pessoas que não gostaram e chegaram a desistir dela. E agora vendo como foi o livro, acho que não é para mim. Adorei sua resenha!!!
    beijinhos.
    cila.
    https://cantinhoparaleitura.blogspot.com/

  7. Oii Priih!
    Interessante a ideia da história do livro, mas imaginar um livro desses sem diálogos é complicado, dá para sentir sua frustração. Dá a sensação que o livro foi finalizado sem muito cuidado, apenas jogando as ideias principais.
    Belos dias pela frente para você!
    Bjos

  8. Olá,
    Tenho lido muitas indicações desse livro, o que tem me deixado curiosa para ler. Apesar disso, foi ótimo ler sua resenha e suas ressalvas. Também já não tenho paciência para adultos agindo como adolescentes, e provavelmente essa falta de diálogo me daria a sensação de uma leitura maçante, o que realmente atrapalha no desenvolvimento da leitura em si para mim.

    Beijo!
    http://www.amorpelaspaginas.com

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