Dica de Série: Bom Dia, Verônica

Oi pessoal, tudo bem?

Lembram da minha resenha não muito satisfeita de Bom Dia, Verônica? Hoje vim contar pra vocês minhas impressões sobre a adaptação da Netflix e comentar um pouquinho sobre as diferenças entre as duas versões.

Sinopse: Uma policial investiga um predador sexual e acaba descobrindo um casal com um segredo horrível e um esquema de corrupção sinistro.

Após presenciar um suicídio na delegacia em que trabalha, a escrivã da Polícia Civil Verônica Torres assume uma missão pessoal de ajudar a vítima, que foi enganada por um estelionatário. Ao longo do processo, Verônica também se vê engolida por um caso de violência doméstica que coloca a sua vida (e a de sua família) em risco, já que o agressor é um membro importante da Polícia Militar. Determinada a ajudar Janete, a mulher que lhe pediu ajuda por sofrer nas mãos do marido, Verônica se expõe a todo tipo de risco e acaba descobrindo um grande esquema de corrupção.

Quem leu o livro ou a resenha já percebeu que essa última frase evidencia uma mudança considerável na trama da Netflix: enquanto no livro Verônica se concentra às escondidas em solucionar o caso de Marta Campos (a moça que se suicidou) e Janete Brandão (a vítima de violência doméstica), na série a protagonista tenta convencer seus superiores a ajudá-la e, com isso, ela acaba descobrindo um esquema de corrupção muito maior do que ela pensava – sendo um gancho óbvio pra uma season 2. Na minha opinião, o fato de Verônica buscar o apoio do delegado é um ponto a favor da série, pois no livro uma coisa que me irritou demais foi o fato de Verônica agir de modo “justiceiro” e irresponsável, causando mortes e situações de risco desnecessárias.

E a maior mudança das páginas para a tela reside justamente na personalidade de Verônica. Enquanto no livro ela é infiel, egoísta, irresponsável e ególatra, na série as coisas são um pouquinho mais maniqueístas. A versão televisiva da personagem é praticamente uma super-heroína, preocupada não apenas com as mulheres que deseja vingar ou defender, mas também com a sua família. Se no livro Verônica mal dá atenção aos filhos, na série ela faz de tudo por eles. Não dá pra ignorar essa mudança do ponto de vista da representação social: uma protagonista que faz de tudo para ser uma mãe exemplar é muito mais palatável à audiência do que uma mulher que coloca os próprios interesses em primeiro lugar, como ocorre no livro. Mas, mesmo tendo consciência dessa problemática, preferi a Verônica da série, porque a do livro é intragável pra mim. 😛

As atuações são espetaculares, assim como a produção. A Netflix caprichou e Bom Dia, Verônica veio para mostrar o potencial de produções brasileiras. Tainá Müller faz um ótimo trabalho oscilando entre os momentos de força e vulnerabilidade de Verônica, mas as grandes estrelas da série são Camila Morgado, no papel de Janete, e Eduardo Moscovis, no papel de Brandão. Houve modificações na personalidade de Janete: ela visivelmente teme o marido e não se sente confortável com ele, o que Camila Morgado transparece tanto no olhar quanto na postura física encolhida e tensa. Se no livro a personagem é completamente apaixonada por Brandão, na série ela o teme. Já Eduardo Moscovis fez um excelente trabalho em mostrar a montanha-russa causada pelo ciclo agressão > lua de mel > agressão. Variando de expressões faciais suaves e voz doce para explosões de agressividade, o modo como o ator e a série retrataram relacionamentos abusivos e violência doméstica foi bastante impactante.

Os temas abordados em Bom Dia, Verônica são pesados. Apesar de ser bem menos gráfica que as descrições literárias de Raphael Montes e Ilana Casoy (especialmente no que diz respeito às cenas de tortura), a série ainda assim causa desconforto e vontade de desviar o olhar. Mas, felizmente, ela não romantiza a violência doméstica, evidenciando o horror desse tipo de situação. Como ponto negativo da trama, ressalto a falta de contexto sobre o passado de Brandão, que é um aspecto bem interessante do livro (não para expiar seus crimes, mas para que suas atitudes ritualísticas ganhem um sentido mais profundo).

Bom Dia, Verônica é uma série de cenas fortes e desconfortáveis, que traz o relacionamento abusivo e as fragilidades do sistema policial e de justiça como temas principais. Bem produzida e com atuações muito competentes, é uma série que não deve em nada para tantos outros nomes gringos que fazem sucesso por aqui. Se você não tem estômago fraco e curte esse estilo de trama, vale a pena dar o play.

Título original: Bom Dia, Verônica
Ano de lançamento: 2020
Direção: José Henrique Fonseca
Elenco: Tainá Müller, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Antônio Grassi, Elisa Volpatto, Silvio Guindane, Adriano Garib, César Mello

15 comentários sobre “Dica de Série: Bom Dia, Verônica

  1. Eu adorei tanto o livro quanto a série! Acho que a série foi uma forma do Raphael e da Ilana “consertarem” algumas coisas do livro, mas também senti falta do passado do Brandão, acho que tiraram pra evitar polêmica em relação aos povos indígenas.

  2. Oi, Priih!

    Essa série me surpreendeu 100% positivamente, fiquei tão curiosa que tive que maratonar haha. Gostei de saber sobre essas diferenças entre a série e o livro, e que fizeram um ótimo trabalho com as mudanças, geralmente adaptações acabam pecando em mudar muitos fatos desnecessários, mas nesse caso veio muito bem a calhar. Fiquei curiosa com a parte que você citou sobre o passado do Brandão, porque realmente, na série abordam bem por cima isso.

    xx Carol
    https://caverna-literaria.blogspot.com/

  3. Oi, Pri! Tudo bom?
    Eu tô meio dividida entre estar curiosa/querer apoiar a produção BR e não gostar das histórias do Montes UHASUHASUHASUHUHAS A Bianca leu o livro e achou bem méh, e como nossa opinião tende a bater, decidi que não é um momento pra embarcar nessa história.
    Tô bem feliz com toda a hype em cima, no entanto. É legal ver produções BR se destacando assim!

    Beijos, Nizz.
    http://www.queriaestarlendo.com.br

  4. Olá, Priih.
    Esse parece ser o caso raro de que a adaptação ficou melhor do que o livro. Ainda bem que mudaram os pontos que te desagradaram no livro. Eu ainda estou aqui na dúvida sobre assistir porque ler acredito que não vou. Só se aparecer uma daquelas promoções bombásticas e o preço baixar muito hehe.

    Prefácio

  5. Eu nunca tinha lido o livro, então fiquei só com a ideia da série mesmo. E só ela me foi suficiente para ter um impacto gigantesco. Eu fiquei impressionada com a atuação fenomenal do elenco e ver uma Verônica mais heroína é bem melhor mesmo. Eu acho que não teria passado do primeiro episódio se tivesse uma protagonista como a que você descreveu do livro… =S
    Essa realmente foi uma série que me deu medo, ao mesmo tempo que me fez ver que temos um potencial gigante para séries maravilhosas.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  6. Olá,
    Por ser o tipo de série favorita, estou doida pra assistir.
    Não li o livro, e talvez não aconteça tão cedo, mas vez ou outra também pego adaptações com pontos mil vezes melhores que no original.
    E toma que tenha a próxima temporada!

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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