Review: Coringa

Oi gente, tudo bem?

Levei alguns dias, mas finalmente consegui organizar os pensamentos para trazer minha opinião sobre Coringa pra vocês. Talvez ela seja um pouco controversa em alguns pontos, então convido vocês pro debate também. 😉

coringa poster (2)

Sinopse: O comediante falido Arthur Fleck encontra violentos bandidos pelas ruas de Gotham City. Desconsiderado pela sociedade, Fleck começa a ficar louco e se transforma no criminoso conhecido como Coringa.

Acho que é redundante dizer que Coringa é tecnicamente impecável. As inúmeras reações positivas e o frisson da crítica especializada já são suficientes para evidenciar que o longa tem qualidade ímpar. Mas teve um sentimento para o qual as críticas não me prepararam: o desconforto.

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Coringa é um filme que, do início ao fim, da primeira à última cena, causa desconforto. Causa perturbação. Faz você querer olhar pro lado, sabem? A sessão inteira eu mantive minha testa franzida (sério), me sentindo incomodada mesmo em cenas aparentemente inofensivas. Além da óbvia violência explícita, os cenários e a trilha sonora colaboram para uma sensação aflitiva que nos persegue durante toda a exibição. Uma das maiores responsáveis por todas essas sensações é a atuação de Joaquin Phoenix: intensa, visceral e profundamente marcante. O ator dá vida a um Arthur Fleck/Coringa ambíguo: ora digno de pena, ora condenável. Sua expressão corporal e seu olhar revelam a perturbação que é essencial do personagem, e sua risada causa incômodo em todas as circunstâncias em que ocorre.

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E já que mencionei a ambiguidade do protagonista, devo dizer: para falar de Coringa é necessário falar primeiro de Arthur Fleck. Trabalhando como palhaço em diversos bicos, o personagem divide um apartamento caindo aos pedaços com a mãe doente e sofre de um problema neurológico que o faz rir em situações de desconforto (ou seja, quando ele NÃO deseja rir). Seu maior sonho é tornar-se um comediante de stand up, mas os acontecimentos ao longo do filme o afastam cada vez mais da vida “normal” que ele tenta construir. Quando as verbas destinadas à assistência social (que lhe fornecia sessões de terapia e medicamentos) são cortadas pelo governo, o caminho do personagem vai se tornando cada vez mais tortuoso.

coringa (2).png

E agora entra a minha opinião possivelmente controversa. Peço que leiam com carinho pra gente debater, tá? Eu acredito que Coringa tenha pecado um pouco na demora para mostrar a “verdadeira face” de Arthur como um psicopata. Qualquer pessoa que conheça o personagem sabe que o vilão é capaz das maiores atrocidades, certo? Mas o filme não é sobre um Coringa já estabelecido, e sim sobre o homem que ele foi antes de tornar-se o Palhaço. E, devido a isso, a verdade é que metade do filme (ou até mais) é dedicada a mostrar as injustiças que Arthur enfrenta e o descaso do governo e da população em relação a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Somos obrigados a ver Arthur apanhando, sendo ridicularizado e hostilizado e confrontando seu passado difícil. O filme me fez sentir revolta em ver Arthur sofrendo tanto. Eu senti empatia por ele. E me senti mal por sentir empatia por um personagem que, eu sei, vai se tornar/se revelar um psicopata. Para mim, faltou explorar mais esse lado de Arthur: a manifestação de psicopatia que independe de sua condição psicológica, aquela que o conduz para o seu “verdadeiro eu”.

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Dito isso, ainda assim devo elogiar o fato do filme abordar com tanta crueza o abandono do Estado e as consequências disso. Arthur, entre outras coisas, é um fruto do meio: tentando se ajustar ao modelo de sociedade existente, quando as coisas que lhe davam suporte são tiradas dele seu autocontrole também se vai. E as pessoas de Gotham (que poderia facilmente ser qualquer outra metrópole, como Nova York) também sentem esse descaso e refletem o caos, causando destruição e agindo com maldade. Além dos aspectos econômicos e sociais abordados por Coringa, o longa também nos obriga a enfrentar uma dura realidade trazida pelo próprio protagonista: a pior parte de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não a tivesse. Nosso sistema funciona de modo a excluir quem não consegue se adequar a padrões de beleza, de comportamento e de “utilidade”; essas pessoas muitas vezes são forçadas a permanecerem em subempregos e em condições degradantes por terem transtornos psicológicos. E por mais que esse fato não seja algo totalmente novo, vê-lo totalmente sem maquiagem – como foi feito em Coringa – ainda assim é doloroso.

coringa (3)

Resumindo, Coringa é um filme que toca em diversas feridas. A responsabilidade e o descaso do Estado em cuidar de sua população, a exclusão de pessoas com transtornos psicológicos e até mesmo as consequências desse caos fazem parte da narrativa. É um filme que mostra a trajetória de um homem que abraça esse caos e essa destruição e faz disso sua essência, sem pudor e sem remorso. Em suma, é a origem de um dos maiores vilões da cultura pop narrada de forma realista e visceral. Recomendo, mas alerto: vai ser difícil você não se sentir desconfortável enquanto assiste.

Título original: Joker
Ano de lançamento: 2019
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen

32 comentários sobre “Review: Coringa

  1. Oi, Pri como vai? Parabéns pela resenha, ficou mais que perfeita. Eu li e fiquei boquiaberto com sua visão geral do longa metragem, você tocou nos principais assuntos abordados nesse filme. Eu assisti a esse fime na semana passada aqui na cidade onde eu resido e, confesso que o filme é visceral, mexe com o psicológico e as emoções de um modo geral. A vida de Arthur de fato foi bastante cruel, tudo o que ele vivenciou até se tornar um psicopata é muito bem retratado no filme, eu diria que uns 60% do longa metragem é contado como Arthur viera a se tornar o Coringa. Não se sinta culpada por sentir empatia por uma pessoa (personagem) que virará um psicopata, não é defeito. Esse seu sentimento apenas diz que você é um ser humano, possui um coração de ouro, não se culpe por isso. Eu adorei esse longa metragem, apesar de deixar minha ressalva que, o filme não é para todo tipo de pessoa. Existem pessoas que ficarão extremamente chocadas com toda a carga dramática que o filme aborda. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

  2. Oi Priih, eu ainda não tive oportunidade de assistir, é triste o descaso não é mesmo, o que leva as pessoas a se tornarem o oposto do que a sociedade espera, muitas vezes a gente nem deve julgar, porque não conhece o outro lado da moeda e acho que esse filme deve mostrar exatamente isso. Minha irmã esses dias até comentou, a gente fica do lado do Coringa!

    Beijos Mila

    Daily of Books Mila

  3. Oie Jessica
    Eu assistiu uma parte desse filme esses dias.Mas acabei saindo da sala porque também fiquei desconfortável com o filme.
    E sim ,é muito difícil não sentir empatia por aquele personagem com problemas psicológicos sendo tratado com descaso e agredido fisicamente.Acho que esse era o intuito do filme.

    Amei o análise

    Beijos

    Meu mundinho quase perfeito

  4. Olá, Priih.
    Eu não assisti ao filme, então não posso opinar sobre ele em específico. Mas quanto ao assunto, se formos ver todos os vilões dos contos de fadas por exemplo tiveram um passado dificil e se formos ver eles como seres humanos e o que eles passaram não é dificil de sentir empatia por eles não.

    Prefácio

  5. Acho que essa sensação de desconforto que o filme propaga é uma forma de colocar o espectador dentro da história, afinal, aparentemente o próprio Coringa vive em total desconforto e pertubação consigo mesmo.
    Quanto à sua opinião “controversa” não posso debater ou rebater por que ainda não assisti o filme. Mas, eu gostei muito de saber o que você achou, sua resenha é quase uma análise do filme.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥ | Instagram – Vem interagir no Insta tbm!

  6. Estou louca para ver esse filme mas tenho adiado justamente por isso: sei que vou me sentir desconfortável. Eu amo o Joaquim Phoenix, de verdade. Ele é vegano e ativista e uma inspiração para mim por conta disso e por isso tenho tentado acompanhar seu trabalho mas conheço o personagem e sei como a atuação dele é ótima, vi umas resenhas do filme falando sobre esse desconforto intencionalmente causado e que é perceptível pelo trailler e por isso eu me pergunto se to pronta para ver. Mas adorei a sua resenha, foi bem completa e sem spoilers e ainda me deixou mais curiosa do que estava com relação ao filme, rs

    Abraço,
    Parágrafo Cult

  7. Oi, Priih

    Não vi e nem verei no cinema. Na minha cabeça o Coringa do Heath é imbatível por ser cru e por ser, de fato, o Coringa. Pelo que andei lendo e pelo que você mesmo abordou, houve uma humanização do que ele fora antes da psicopatia e eu não acho isso bem-vindo. O cinema agora deu pra querer desvilanizar os vilões, não entendo isso. Respeito quem está curtindo e se a crítica especializada está aclamando quem sou eu para falar o oposto, né? hahahaha

    Beijo
    – Tami
    https://www.meuepilogo.com

    • Oi Tami, tudo bem?
      Entendo muuuuito seu ponto de vista. Como crítica social achei o filme FODA, mas achei que vitimizaram demais o personagem, sabe? Senti falta da crueldade característica, independentemente das injustiças sofridas.
      Como construção de um homem quebrado que se torna alguém cruel, acho mega válido. Mas como Coringa em si, acho que faltou mais tempo dedicado à psicopatia.
      Beijos!

  8. Adorei sua análise, Priih 🙂 Acredito que o filme deva mostrar a importância das políticas públicas dedicadas à saúde mental, como isso é indispensável para a sociedade e como o descaso produz múltiplas catástrofes, danos não só ao portador de transtornos psiquiátricos e neurológicos e a todos que estão ao seu redor. Estou louca para assistir Coringa!!

    Bjs

    Melkberg

  9. Oi, Priih!
    Até agora não consegui fazer uma resenha sobre o filme e acredito que não vou conseguir. Sai da sala de cinema totalmente mexida e com a cabeça ferrada, para ser sincera.
    Li várias críticas antes e depois de assistir o filme e não sei se considero o filme como uma forma de fazer o Coringa ser visto com bons olhos, não acho que ele tira o título de vilão do personagem, afinal o que ele faz depois de se “entregar” a sua psicopatia continua sendo doentio demais. Porém, a crítica social que foi feita é incrível, incrível, incrível. Eu sai do cinema pensando que ele está certo. A sociedade realmente deturpa as pessoas. Quem deveria se importa, não se importa. E a empatia está indo embora. Hoje em dia é cada um por si e qualquer característica diferente do que as pessoas tomam como normal, é visto como aberração e como se não merecesse o mesmo cuidado que os outros. Depois que assisti, fiquei analisando o que ele diz e putz, por quantas pessoas a gente vê na rua e que se sentem invisível da mesma forma? Ele não tem razão em seus atos, entenda, mas quanto de suas decisões também são um pouco da influência e resultado do que ele vive em seu dia a dia? Não sei, ainda não consegui colocar todos os meus pensamentos corretamente hahaha
    Ah, você viu alguma das teorias desse filme? De que Arthur se mata quando se tranca na geladeira ou que tudo não passa de uma alucinação dele, já que os relógios sempre estão com o mesmo horário? aaaaa to ficando louca! hahahahaha
    Beijinhos,

    Galáxia dos Desejos

    • Oi Mari, tudo bem?
      Entendo muuuito você, sério! Levei quase uma semana pra conseguir escrever a respeito, e também li várias opiniões e debati com várias pessoas pra “assentar” as ideias hahaha!
      E concordo muito quando você diz que, independentemente dos problemas psiquiátricos e do descaso do Estado, tudo que o Coringa fez foi injustificável e cruel. Só que o tempo que o filme dedicou a mostrar as injustiças que ele viveu acabou me fazendo questionar: “será que ele teria cometido essas atrocidades se não tivessem cortado a terapia e os remédios?”. E acho que esse é um dos motivos que torna o filme tão perturbador. 😦
      Obrigada por participar do debate, amei ver seu ponto de vista! ❤

  10. Oii Priih!
    Ainda não assisti o filme, mas adorei sua resenha, dá pra perceber que o filme aborda diferentes temas para se refletir. Com força para a exclusão social e também questionando como nós nos sentimos diante de pessoas com problemas mentais e até de criminosos que tem psicopatia.
    Será mesmo que são resultados do social? Até que ponto eles tem escolha em seu próprio caminho? Será que nós fazemos parte desses resultados? O que se pode mudar e melhorar?
    Creio que há muito para se pensar no assunto, mas seria um erro acreditar que um único ponto seja o motivador de tantas dores (dos que tem problemas mentais, dos que sofrem na sociedade e dos que são vítimas dos crimes).
    Penso que o mais importante nessa análise com base no filme é trazer a nossa lembrança que sejam pessoas com problemas mentais, sejam criminosos ou opressores da sociedade, todos são humanos e cada um tem sua história. Não dá para marginalizar uns e outros, o caminho mais sensato poderia ser o de buscar equilíbrio e uma convivência harmonia apesar das diferenças.
    Ótima semana para você!
    Bjos

    • Oi Rodrigo, tudo bem?
      Acho que seus questionamentos fazem todo sentido. Eu mesma reconheci as atrocidades cometidas pelo personagem, mas não pude deixar de me perguntar: “será que ele teria feito tudo isso caso os remédios e a terapia não tivessem sido cortados?”.
      E, no fim, acho que não há uma resposta certa. É uma situação multifatorial e, como você comentou (com muita lucidez), seria um erro acreditar em um único fato como causador de tudo. Mas uma coisa, sem dúvidas, o filme consegue: destrinchar o modo como tratamentos pessoas em vulnerabilidade social e o descaso do Estado em ajudar quem está nessa situação.
      Obrigada por participar do debate! ❤

  11. Oiii Prih

    Achei muito legal o filme focar em questões sociais também, temos aquele lado que já conhecemos do Coringa mas achei bacana essa abordagem no Arthur, no que o torna o Coringa, no abandono, nas humilhações e na dor que ele experimenta. Entendo perfeitamente teu ponto de vista quanto ao que faltou pra mostrar que ele ja tinha esse lado psicopata. Concordo com a critica.
    Ah e essa interpretação do Phoenix, tão intensa e desconfotável de um jeito único, realista pra caramba.

    Beijos, Ivy

    http://www.derepentenoultimolivro.com

  12. Menina, minha irmã falou comigo esses dias que estava querendo ver esse filme. Eu até cheguei a falar com ela que não sou muito fã, não, mas agora confesso que fiquei curiosa para dar uma conferida nele, hehe. Eu tb só tô lendo elogios em relação ao ator principal e sua atuação. Deve ter sido coisa de primeira, mesmo!

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

  13. Oi Priih,
    Eu não assisti ao filme, mas acompanhei as críticas do longa. E confesso que elas me deixaram com um pé atrás para assistir.
    Mas falando dessa exploração mais voltada para o lado humano do vilão eu acho interessante até certo ponto, mas imagino o que de confusões que ela causa na gente.

    Bjs

    http://diarioelivros.blogspot.com/?m=1

  14. Oi Priih,
    Eu não quis ver esse filme ainda, mas meu namorado viu e tentou me explicar sem sucesso. Ele parecia meio confuso com a história sabe… Nem ele sabia se tinha ou não gostado do filme. Pelo que descreveu eu entendi. É o problema geral dessa geração, de tentar deixar os vilões humanizados ou tentar dar justificativas para as atrocidades que fazem. Acho que não teria paciência de ver esse filme.
    Gostei bastante da sua resenha.
    Bjos
    http://www.kelenvasconcelos.com.br/

  15. Oi, Priih.
    O filme é excelente e ao mesmo tempo desafiador, desconfortável, o que faz com que muitas pessoas possam não gostar.
    Tecnicamente é magnífico e a atuação é quase perfeita.
    O filme talvez tenha gerado muito dessa empatia, mas talvez tudo não tenha passado de uma piada do coringa, que meio que contou sua versão da história…
    é uma hipótese, não ficou claro.
    Por mais filmes assim!
    Bela resenha.
    Abraços.
    Diego || Visite Diego Morais Viana

  16. Oi Prih, tudo bem?
    Acredito que coringa seja um filme que realmente cause muitos questionamentos internos, seja da nossa sociedade e sistema, seja do próprio aspecto do personagem. Acredito que seja natural sentir pena da circunstância, mas claro não seria algo que realmente justificasse as atrocidades. E acredito que o filme tenha feito um ótimo trabalho ao mostrar o outro lado da moeda. É aquela premissa, nada é originalmente de todo mal, há sempre contextos, e o coringa também teve o dele. Eu ainda não vi, mas amigos que assistiram tiveram opiniões parecidas com as suas, e acredito que quando for ver também vou ter sensações parecidas.
    Mais uma vez, ótima resenha.
    Abraços,
    Ava
    https://apenasava.com/

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