Dica de Série: The Handmaid’s Tale

Oi pessoal, tudo bem?

Agora que The Handmaid’s Tale chegou à TV aberta, acho que é uma ótima oportunidade de falar novamente sobre essa trama tão poderosa, dolorida e necessária – agora no formato de série.

the handmaids tale

Sinopse: Baseado na obra de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale conta a história na distopia de Gilead, uma sociedade totalitária que foi anteriormente parte dos Estados Unidos. Enfrentando desastres ambientais e uma taxa de natalidade em queda, Gilead é governada por um fundamentalismo religioso que trata as mulheres como propriedade do Estado. Como uma das poucas mulheres férteis restantes, Offred é uma serva na casa do Comandante, sendo parte de uma das castas de mulheres forçadas à servidão sexual como uma última tentativa desesperada para repovoar um mundo devastado. Nesta sociedade aterrorizante onde uma palavra errada pode acabar com sua vida, Offred vive entre Comandantes, as suas mulheres cruéis e seus servos – onde qualquer um poderia ser um espião para Gilead – tudo com um único objetivo: sobreviver e encontrar a filha que foi tirada dela.

The Handmaid’s Tale é baseada no livro O Conto da Aia, sobre o qual já falei aqui no blog. A história segue basicamente a mesma premissa e se desenvolve de maneira muito fiel ao que é descrito no livro: em um futuro distópico, uma ditadura religiosa retirou os direitos civis das mulheres nos Estados Unidos (agora República de Gilead), determinando suas funções na sociedade em um modelo de castas. Há as Marthas (mulheres dedicadas ao serviço doméstico), as Tias (que educam as Aias), as Esposas (casadas com os Comandantes, membros do alto escalão militar dessa nova sociedade religiosa) e, por fim, as Aias (mulheres férteis responsáveis pela reprodução). Nossa protagonista é Offred, uma mulher que teve seu marido e filha arrancados de si e agora serve ao lar de seu Comandante como uma Aia. Com o passar dos episódios, Offred vai nos contando como tudo aconteceu e como é a vida nesse novo modelo de existência.

the handmaids tale 2.png

Porém, diferentemente do livro, aqui temos uma visão bem mais ampla sobre o que ocorre em Gilead. Além do ponto de vista de Offred, também vislumbramos o papel da Esposa do Comandante no golpe, e a angústia que ela sente por ser deixada de lado pelo novo sistema que ajudou a construir. É um paradoxo muito interessante este: ela, a mulher por trás do ideal de Gilead, vê-se praticamente na mesma posição que as mulheres que ela ajudou a oprimir; ou seja, descartada e sem voz. Além disso, na série também temos acesso a mais cenas do passado de Offred com sua família, suas tentativas de fuga e até mesmo sobre o que aconteceu com seu marido, Luke.

the handmaids tale 4

Offred é a personagem que mais muda do livro para a série, mas não de maneira negativa. Na produção audiovisual, ela tem um nome e faz questão de relembrá-lo: June. Mais irônica, sarcástica e afrontosa que sua contraparte literária, a June da série é alguém que causa ainda mais empatia e simpatia no espectador. No livro me entristecia ver a apatia de Offred, que só conseguia transgredir em atitudes muito pequenas. Na série, contudo, June é mais ativa e revoltada, ao mesmo tempo que transmite toda a dor e a emoção que permeiam sua nova existência. Elizabeth Moss, que a interpreta, faz um trabalho fenomenal nesse sentido, pois apenas com o olhar ela consegue passar os mais diversos sentimentos vividos por sua personagem. Mas ela não é a única a realizar um excelente trabalho; as atuações de modo geral são primorosas e causam as mais diversas reações: pena, asco, revolta, tristeza, desprezo.

the handmaids tale.png

De certo modo, achei mais difícil assistir The Handmaid’s Tale do que ler O Conto da Aia. Se no livro Offred rememora tudo que lhe aconteceu de maneira mais linear e apática, em The Handmaid’s Tale somos obrigados a assistir todas as torturas e abusos sofridos pelas mulheres de Gilead. A primeira cena do primeiro episódio já me levou às lágrimas e, devo dizer, praticamente todos os episódios da primeira temporada o fizeram. A cada nova cena que surgia na tela, a cada nova violência a qual as mulheres eram submetidas, era um novo soco no estômago. Por outro lado, diferentemente do livro, existem cenas de MUITO girl power e empoderamento feminino. Há momentos de subversão tão poderosos – ainda que relativamente simples – que é impossível não ficar com cada pelo do corpo arrepiado. Somado a isto está uma fotografia de qualidade impecável, que abusa dos tons pálidos para reforçar ainda mais o destaque e o incômodo causados pelo vermelho das vestes das Aias.

the handmaids tale 3.png

The Handmaid’s Tale é, assim como O Conto da Aia, uma obra necessária. Em tempos como os nossos, em que o fundamentalismo religioso se faz presente em diversas esferas do governo, é ainda mais necessário que a gente mantenha os olhos abertos. O retrocesso é muito mais fácil de acontecer do que pensamos, e manter nossos direitos é uma luta constante que jamais pode esmorecer. A série traz reflexões sobre o direito aos nossos próprios corpos, sobre a velocidade com que o retrocesso ganha espaço e sobre como precisamos nos unir enquanto mulheres. Todo mundo deveria assistir The Handmaid’s Tale. E cuidado: Gilead pode estar na esquina.

Título original: The Handmaid’s Tale
Ano de lançamento: 2017
Criador: Bruce Miller
Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strzechowski, Joseph Fiennes, Alexis Bledel, Samira Wiley, Ann Dowd, Madeline Brewer, Max Minghella, O. T. Fagbenle

25 comentários sobre “Dica de Série: The Handmaid’s Tale

  1. Oi Priih! Todo mundo sempre elogia a série e fala da força dos temas abordados, eu ainda não assisti e nem li a obra na qual se baseia. Eu tenho receio de ficar muito nervosa com toda a forma cruel que as mulheres são tratadas. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

  2. Olá, Priih.
    Ainda estou impactada com Vox, por isso vou dar um tempo antes de ler O Conto da Aia. E só então assistir a série. Imagino como dever dificil assistir as coisas que no livro só imaginamos. Tomara que a série pelo menos abra os olhos de tanta gente que não enxerga o que está acontecendo na nossa frente.

    Prefácio

  3. “Gileard pode estar na esquina” 😦 Parte o coração ler isso. Que indicação incrível, eu amei! Amo demais a série e o livro, foi uma obra que fez os meus olhos se abrirem para inúmeras coisas e realmente acho que todos deveriam ver. É bem doído e eu fico assustada ao pensar que certas coisas podem acontecer.
    Dica incrível e necessária!
    Beijos
    Our Constellations

  4. Eu acho super bacana essa visão mais ampla que a série proporciona. Como você comentou, eu também achei muito interessante e paradoxo que mesmo a mulher do comandante, com o seu poder, se sinta tão angustiada quanto as próprias Aias.
    Elizabeth Moss está realmente genial no papel de Offred, sem contar que eu acho incrível a ambientação e fotografia dessa série. Pena que eu não tive estômago e não terminei de assistir a série.
    Beijo, Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

  5. Oi
    Assisti a série e li o livro, é realmente chocante! Toda a trama é angustiante e faz a gente pensar que lentamente a loucura foi se instalando… As mulheres perdem seus direitos… Uma das cenas mais chocantes, foi a tentativa de protesto, onde todos tiveram que fugir, porque eles não estava só assustando as pessoas que estavam no protesto, eles estavam matando também! Minha nossa, é terrível! Todos nós mulheres deveríamos ver essa série.

  6. Oi Priih! Faz tempo que desejo ver essa série, mas prometi a mim mesma que iria ler o livro antes. Já o coloquei como membro das minhas prateleiras, falta encaixá-lo nas leituras, mesmo. Aliás, você viu que vai ter continuação do livro? Não sei se fico aflita ou feliz. Vi alguns trechos da série, e, como você disse, nossas reações variam desde pena ao ápice do ódio.

  7. Oi Prih,
    Essa é uma das minhas série favoritas atualmente.
    Fico nervosa e com medo, pois é tudo muito real.
    Olha que faz tanto tempo que a autora publicou o livro, e a gente assistindo hoje em dia e assimilando tudo. É um triste filme de terror.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

  8. Oi Priih,
    Essa é uma das minhas séries favoritas da atualidade.
    Cada episódio impressiona tanto pelo realismo e relação com questões atuais.
    E nos espanta ainda mais pela época em que o livro foi publicado. Um terror!

    até mais,
    Canto Cultzíneo

  9. Pingback: Resenha: O Conto da Aia: Graphic Novel – Margaret Atwood e Renee Nault | Infinitas Vidas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s