Resenha: O Vilarejo – Raphael Montes

Oi pessoal, como estão?

Para o post de hoje, trago a resenha de um livro que eu queria muito ler: O Vilarejo, do Raphael Montes! 😀

o vilarejo raphael montes

Sinopse: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

Uma das primeiras coisas a me chamar a atenção nesse livro é que Raphael Montes se apresenta como um tradutor que recebeu um caderno cheio de contos obscuros e ilustrações aterrorizantes e resolveu organizá-los de modo a fazer sentido. Os contos, apesar de independentes, tratam de um mesmo vilarejo e de seus habitantes, e em cada conto temos um demônio que influencia os acontecimentos retratados. Os demônios, que também representam os pecados capitais, são: Belzebu (gula), Leviathan (inveja), Lúcifer (soberba), Asmodeus (luxúria), Belphegor (preguiça), Mammon (ganância) e Satan (ira). Vou contar um pouquinho sobre cada conto pra deixar vocês mais curiosos – sem spoilers, é claro. 😉

o vilarejo 1

Banquete Para Anatole: nesse conto, somos apresentados a uma situação terrível que assola o vilarejo, o frio e a fome. Graças a uma terrível nevasca e a uma guerra civil que acontece na capital, o vilarejo está totalmente isolado da civilização. Felika, uma mãe de família, é a protagonista. O marido, Anatole, saiu do vilarejo há semanas para enfrentar a neve e tentar caçar alguma coisa que possa alimentar a família, mas enquanto isso Felika precisa fazer o que estiver ao seu alcance para manter a família viva e alimentada. Os vizinhos morrem de fome pouco a pouco, e o pânico de que alguém bata à porta e roube o pouco alimento que lhes resta é constante. O clima desse conto é esse: tensão e pânico pelo que pode acontecer. Comentários: Não achei o desfecho surpreendente (para ser honesta, eu suspeitei que seria como foi), mas gostei dele. Foi um dos melhores e mais “aterrorizantes”.

o vilarejo 2

As Irmãs Vália, Velma e Vonda: aqui, conhecemos as três irmãs que dão nome ao conto. Vália, a mais velha, namora o belo Krieger, e sempre leva as irmãs mais novas (as gêmeas Velma e Vonda) para brincar com a amiga Jekaterina. As garotas têm o hábito de brincar de contar histórias, e cada uma é responsável por uma parte do enredo. Contudo, a tímida e insegura Vonda, sempre à sombra das irmãs, aproveita o momento de contar histórias para fantasiar um romance com Krieger. Essa obsessão acaba levando a garota para caminhos obscuros, que mudam a vida de todos eles. Comentários: É um conto estranho, não gostei muito.

o vilarejo 3

O Negro Caolho: nesse conto, o vilarejo é surpreendido pela chegada de um homem negro, estrangeiro e muito forte. Ele é capturado por Ivan, o ferreiro, e é quase executado em nome do medo e do preconceito. No último segundo, entretanto, a doce Helga impede a barbárie, defendo o homem perante todos e o acolhendo em sua casa para ajudá-la nas tarefas domésticas e no cuidado com seu bebê recém-nascido. Helga descobre que o homem se chama Mobuto e veio da África em busca das filhas, que foram sequestradas. Porém, com o passar do tempo, a solidão de Helga – cujo marido, o capitão Dimitri, está ocupado na guerra civil que começou na capital – faz com que suas atitudes sejam cada  vez menos humanas em relação a Mobuto. Comentários: Achei esse um dos piores contos, principalmente pela mudança brusca e meio sem sentido no comportamento de Helga. 😦 Sim, dá pra entender a frustração e a solidão da personagem, mas pra mim os fatos não justificam a reviravolta na sua personalidade.

o vilarejo 4

A Doce Jekaterina: aqui, conhecemos Mikhail, o ferreiro do vilarejo. Desprezível e pervertido, o homem passa seu tempo livre gastando as poucas moedas que tem com prostitutas na capital. Em uma dessas noites, vê uma garota muito jovem sendo acariciada por um homem muito velho, cena que o excita como nada havia excitado. De volta ao vilarejo e com uma vontade não saciada, ele fica obcecado pela jovem Jekaterina, filha do vizinho. Ele a persegue e analisa toda a sua rotina, até que, na primeira oportunidade, abusa da menina. E, por meio de ameaças, ele continua abusando dela por anos. Porém, o passado volta para cobrar o seu preço. Comentários: Esse foi o conto que me deixou mais enojada e com raiva. Nojo e revolta definem a leitura.

o vilarejo 5

A Verdadeira História de Ivan, o Ferreiro: nesse conto, descobrimos que o ícone de masculinidade e dedicação do vilarejo, Ivan, não passa de uma fraude. Sua alta produção e sua dedicação ao trabalho, na realidade, são uma farsa: quem realiza todas as tarefas de Ivan são duas escravas adquiridas há muito tempo. Ivan é preguiçoso e trata as meninas como objetos, mantendo-as enclausuradas em uma jaula. Porém, a chegada de Mobuto e também do frio impiedoso trazem problemas incomparáveis a Ivan, problemas que não podem ser resolvidos utilizando suas jovens escravas. Comentários: Esse conto é cruel, principalmente no que diz respeito às condições de vida das meninas. Porém, é muito interessante ver as conexões entre os personagens, principalmente no que diz respeito ao (ótimo) desfecho.

o vilarejo 6

O Bonequinho de Porcelana da Sra. Branka: após a morte da mãe em seu nascimento, a pequena Latasha foi adotada pela avó, Branka. Porém, a vida financeira das duas foi se complicando cada vez mais com o passar dos anos. Aconselhada pelo seu contador, Branka passa a tomar atitudes drásticas para manter as finanças em dia, o que inclui tirar a neta da escola e colocá-la para trabalhar durante horas a fio. A tensão entre as duas piora quando Branka faz com que Latasha trabalhe de graça, pegando todas as moedas recebidas pela neta e colocando-as em um porquinho de porcelana dado pelo misterioso contador. A partir desse momento, mais nada pode restaurar a relação das duas, e o ódio de Latasha pela avó cresce cada vez mais. Comentários: esse conto é um tanto sem graça, e os personagens não são nem um pouco cativantes. Porém, gostei bastante do desfecho.

o vilarejo 7

Um Homem de Muitos Nomes: aqui, acompanhamos a difícil trajetória de Anatole em busca de comida. Descobrimos mais sobre o personagem e sua relação com a família ao mesmo tempo em que o vemos definhar por causa da fome e do frio. Entretanto, sua vida é salva por um velho que o encontra no meio da floresta. Além de alimentá-lo, o velho também presenteia Anatole com alimentos, para que ele volte para casa e salve sua família. Entretanto, após chegar no vilarejo e perceber o que realmente aconteceu por lá, Anatole se desespera e sai de casa em casa em busca de respostas. E ele as encontra da pior maneira possível. Comentários: talvez esse tenha sido meu conto favorito do livro. Ele encerra a história perfeitamente, até mesmo porque retoma a situação do primeiro conto. O desfecho é coerente e traz a conclusão que o livro todo tenta passar: os verdadeiros demônios moram dentro de nós.

O Vilarejo é um livro que me causou muitas expectativas – a proposta de um livro de contos de terror me lembrou muito Branca de Neve e os Sete Zumbis, do qual gostei bastante – mas tenho de admitir: ele não atendeu a todas elas. Muitos contos foram fracos, ou não causaram medo, ou ainda foram muito previsíveis. Contudo, a narrativa de Raphael Montes é envolvente e faz com que o leitor não consiga parar de ler. A maneira como ele entrelaça os contos e coloca elementos se repetindo em todo o livro, costurando todas as histórias, é incrível. A mensagem final é clara e condiz com tudo que é mostrado ao longo das páginas: o mal está nos seres humanos. Em suma, foi uma ótima leitura, apesar dos aspectos negativos. Recomendo! 🙂

Título Original: O Vilarejo
Autor: Raphael Montes
Ilustrações: Marcelo Damm
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 96

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30 comentários sobre “Resenha: O Vilarejo – Raphael Montes

  1. Bem Prih!
    Tem um outro livro que falam muito bem do raphael montes mas nao sei se é esse???? Enfim hehehe
    Fiquei curiosa por alguns contos, esse do nojo e revolta que voce falou deve ser meio tenso se o menino resolveu descrever com detalhes as cenas de abuso, coitada da jekaterina, depois é tipo doce vingança? kkkk
    mas bem, apesar de alguns contos serem um pouco negativos em questao de critica, acredito que leria sim, ainda mais pela quantidade de pagina… passa voando, não? ahahah
    priiiiih, é tão facinho a varinha que vc faz rapidinho kkk só demora pra secar a tinta mesmo kkkk
    Um beijo!
    Pâm – http://www.interruptedreamer.com

  2. Oi, Priih.
    Vi a resenha desse livro meses atrás em outro blog e fiquei realmente interessado.
    Tinha colocado na lista de desejos (que está enorme), mas ainda não o comprei :(.
    Eu fico feliz com esse crescimento da literatura nacional, com várias obras legais e autores bem conceituados.
    Puxa, eu realmente gostei da temática dos contos.
    Terror, suspense e mistério são meus tipos preferidos.
    A sua resenha me deixou ainda mais interessado porque a obra ficou bem detalhada, com um resuminho básico de cada conto e seu comentário pessoal.
    Abraços.

  3. Priih!
    Digo aqui o mesmo que disse no blog a Cecil sobre o livro dela, fiquei interessado, mas eu preciso dar uma procurada nesse livro aqui no shops pra poder ver com meus olhos e sentir a pegada dele.
    bjos LP

  4. Oiii Prih

    Não sou muito de livros de contos, não adianta todos que tentei ler não me prenderam. Terror já não é meu gênero favorito, não é um tipo de livro que normalmente leria…. depois de ler que ainda por cima alguns contos são fraquinhos… ah sei lá, acho que deixo passar, não acho que seria um livro que me conquistaria.
    De qquer jeito, obrigada pela resenha, pela dica e pela sinceridade…

    Beijokas

    unbloglitteraire.blogspot.com.ar

  5. Oi
    parecem ser contos interessantes, mas por ser considerado terror eu passo longe já que não curto histórias assim, mas adoro suspense. Sempre vejo falarem bem desse livro.

    momentocrivelli.blogspot.com

  6. Olá flor! Adorei seu post.. Adorei você ter resenhado todos os contos separadamente, fica bem melhor assim, dá vontade de ler o livro novamente! rsrs
    Eu comecei achando o livro meio fraquinho também, mas com o passar do tempo e as histórias “se cruzando” eu gostei bastante!
    Não sei se você já leu Dias Perfeitos, para mim é o melhor dele… Beijos!! =*

  7. Concordo com você, Prih! Alguns contos não foram satisfatórios, fiquei com a sensação de que poderiam ter sido melhor trabalhados, mas acho que pela proposta, a ideia dos sete pecados e toda a ambientação construída já vale nota mil! As ilustrações contribuem bastante também, ficaram maravilhosas e super combinam com os contos. Já leu Dias Perfeitos do Raphael? Foi a primeira obra que li dele e foi de tirar o fôlego! É espetacular!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

  8. Oiii Priih, tudo bem?
    Eu já li um livro do autor e detestei, que foi Dias Perfeitos.
    Pretendo ler outros dele, porque apesar de não ter curtido a obra, o autor sempre foi muito simpático comigo.
    E esse é um livro dele que me deixa curiosa. Não costumo gostar de ler livros de contos, mas esses por serem interligados chamam a minha atenção.
    Não sei se irei gostar muito, pelos seus comentários, acredito até que não, mas não custa dar uma chance né?
    Beijoooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

  9. Oi, Priih, tudo bem?

    Que pena que a leitura não tenha sido tão proveitosa para você. Eu curti bastante, principalmente o das três irmãs, e achei muito legal a maneira como ele se conecta com aquela revelação do final do livro. Jura que você não curtiu? hahahaha
    Eu só gostaria que os contos fossem mais extensos, mas, no geral, foi uma leitura bem diferente e interessante.

    Beijo
    – Tamires
    Blog Meu Epílogo | Instagram | Facebook

  10. Oie Pri =)

    Leio sempre boas resenhas desse livro, mas como terror não é muito meu estilo passo longe rs…
    As ilustrações são lindas, mas confesso que algumas me deram medinho XDD

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias…
    @mydearlibrary

  11. Hum… Que bom que eu encontrei sua resenha. Só tinha lido elogios a esse livro e minha expectativa já estava alta.
    Recentemente li Dias Perfeitos e gostei bastante, mas estava esperando algo melhor em O Vilarejo e, pelos seus comentários, parece que não é bem assim… O livro continuará nos meus desejados, mas não irei com tanta sede ao pote haha. Obrigada pela sinceridade 😀
    Beijos!!

    (Carol)

    Já conhece o nosso blog? Estamos sempre retribuindo visitas e comentários de outros blogueiros 🙂
    ourbravenewblog.weebly.com

  12. Pingback: TAG: Olimpíadas 2016 | Infinitas Vidas

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