Resenha: Terras do Sem-Fim – Jorge Amado

Oi, gente!

Como já comentei anteriormente, eu fiz o vestibular no início de 2014 e ao longo do ano passado tive que ler algumas das leituras obrigatórias exigidas para a prova. Felizmente, todas as leituras que escolhi foram bem fáceis e prazerosas, mas algumas se destacaram. Pensei bastante se valeria a pena ou não escrever sobre o escolhido de hoje, mas decidi que foi um livro muito interessante e, portanto, não havia motivo para não falar sobre ele: refiro-me a Terras do Sem-Fim, de Jorge Amado.

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Sinopse: Durante a guerra pela posse da terra na região cacaueira do sul da Bahia, os irmãos Badaró enfrentam o coronel Horácio da Silveira. A luta pela subsistência se entrelaça com intrigas políticas, relações amorosas e crimes passionais. Dois romances improváveis se destacam em meio aos tiroteios e tocaias – o do jovem advogado Virgílio e Ester, esposa do coronel Horácio, amor condenado a um desfecho sangrento, e o de Don’Ana, a valente filha de Sinhô Badaró, e o ‘capitão’ João Magalhães, um embusteiro que se faz passar por engenheiro militar. Uma página sangrenta da história brasileira elevada à categoria de mito fundador de uma civilização maculada pela cobiça e pela barbárie.

Atraídos pela promessa de uma terra fértil e próspera, onde o dinheiro é fácil e abundante, diversos tipos humanos partem rumo a Ilhéus, no sul da Bahia. Jorge Amado inicia sua narrativa abordando alguns desses tipos que se encontram em um navio destinado a essa cidade. O livro é narrado em terceira pessoa e sob a perspectiva de diversos personagens diferentes. Nessa primeira parte, que acontece durante a viagem, dois dos personagens mais importantes são João Magalhães, um jogador de pôquer que se faz passar por engenheiro militar, e Antônio Vitor, um jovem rapaz que busca enriquecer para poder voltar à cidade de origem reencontrar a amada, Ivone. Esses personagens voltam a aparecer futuramente no livro, apresentando mudanças bem significativas de personalidade.

A história é focada na disputa por uma região de mata chamada Sequeiro Grande. Duas famílias estão interessadas nas terras: os Badaró e os Silveira. O líder dos Badaró, Sinhô-Badaró, é um homem comedido e religioso, que busca na Bíblia as justificativas para os assassinatos que manda seus subordinados (jagunços) cometerem – contra a sua vontade, na maioria das vezes, mas justificados “por ser um mal necessário”. Seu irmão mais novo, Juca, tem um temperamento contrário: é mulherengo, explosivo e violento, sempre buscando nas tocaias e nas trocas de tiros a solução para os problemas. Por fim, temos Don’Ana Badaró, filha de Sinhô, uma mulher determinada, forte e corajosa, que insiste em participar dos negócios da família. Do lado dos Silveira, temos Horácio, um homem descrito como alguém que tem o diabo aprisionado em uma garrafa. Cruel, violento e desonesto, tem duas paixões: o cacau e Ester, sua esposa. Uma mulher refinada, que casou contra a sua vontade e tem horror à mata e aos terrores que nela habitam, segundo sua imaginação. A trama toda se desenvolve com os conflitos gerados pela rivalidade entre Horácio e Sinhô e Juca. Homens determinados a possuir as terras do Sequeiro Grande, que não hesitam em matar quem cruzar o seu caminho.

O mais interessante em Terras do Sem-Fim é o desenvolvimento dos personagens. O livro tem uma abordagem Naturalista, utilizando-se do Determinismo – ou seja, o meio influenciando o sujeito – ao definir o comportamento de vários personagens. Um exemplo muito forte é Antônio Vitor, o rapaz que aparece sonhando com a amada na primeira parte da história. Ele não apenas se esquece de Ivone, como se torna um jagunço de Juca Badaró e se apaixona por uma das empregadas da casa (e afilhada de Sinhô), Raimunda. De um jovem cheio de sonhos e planos inocentes e honestos, ele se torna um matador profissional – e bom no que faz, salvando Juca de duas emboscadas – e esquece totalmente a mulher que deixou pra trás. Outro exemplo pertinente é o de Virgílio, um advogado que é contratado por Horácio e se torna seu protegido. Ele se apaixona por Ester e tem seus sentimentos correspondidos, vivendo um lindo e trágico romance com a esposa de Horácio. O amor dos dois é sincero e único, a ponto de um não conseguir viver na ausência do outro – literalmente, já que o fim do romance é bem triste. A mudança de comportamento de Virgílio acontece depois que ele se envolve com Ester. Antes dela, ele mantinha um relacionamento com uma ex-prostituta, Margot. Na tentativa de se desvencilhar dela, ele a agride com um tapa no rosto. Nesse momento, ele percebe que aquela terra violenta e imoral conseguiu até mesmo corrompê-lo, um homem tão culto, gentil e educado. Por fim, há João Magalhães. O jogador malandro, que foi a Ilhéus com o intuito apenas de conseguir um pouco mais de dinheiro para fugir para outro lugar, encontra em Don’Ana Badaró seu grande amor. Por ela, ele se dispõe a ficar, mesmo com toda a batalha sangrenta que se desenrolava entre a família dela e a de Horácio, abandonando então o seu antigo comportamento egoísta e aproveitador.

Jorge Amado aborda também a questão da política em uma cidade comandada pelo coronelismo. Aqueles que têm dinheiro não apenas determinam a economia, mas elegem seus candidatos e definem a política. Além de toda a violência e da impunidade, já que é algo totalmente rotineiro para a população ver corpos estirados pela estrada, o autor mostra como o sistema naquela região é falho. Os diversos estereótipos de homens e mulheres que buscam uma vida melhor e mais próspera na terra do cacau dificilmente conseguem atingir seus objetivos, pois são poucos os privilegiados que têm acesso às terras, ao plantio e, consequentemente, ao dinheiro. É bastante trágico ver como essas pessoas têm seus destinos totalmente mudados, na maioria dos casos para pior. Jorge Amado faz com maestria um retrato da sociedade inserida naquele contexto.

A leitura de Terras do Sem-Fim não é totalmente fluida, já que o autor dá uns saltos temporais por mudar constantemente a perspectiva do livro. Mas isso não é algo negativo, pois possibilita ao leitor vivenciar um pouco da realidade de diversos personagens diferentes, permitindo uma compreensão das circunstâncias e do psicológico de cada um deles. A crítica social é excelente e a história é muito envolvente, já que existem muitas relações a serem abordadas graças ao conflito gerado pela posse de Sequeiro Grande. Eu sempre pensei que esses livros com temática regionalista fossem entediantes, mas me vi muito envolvida pela história e, principalmente, pelos personagens de Terras do Sem-Fim. E o mais interessante é que o final não é óbvio, as coisas mudam de rumo muito rápido. Os personagens pra quem eu torcia, por exemplo, não são bem sucedidos em seus objetivos. É uma narrativa muito verossímil e uma história muito bem contada. A quem tem interesse em clássicos nacionais, eis uma boa pedida. 🙂

Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 288

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40 comentários sobre “Resenha: Terras do Sem-Fim – Jorge Amado

    • Oi, Delmara!
      Eu sempre ficava curiosa por autores clássicos nas aulas de Literatura, mas só o vestibular fez com que eu efetivamente os lesse. Acho Terras do Sem-Fim bastante atemporal, caso você deseje dar uma chance a algum livro clássico. 🙂
      Beijos!

  1. Acho que todo mundo tem meio que cara virada para os clássicos nacionais devido a escolha, somos obrigados a ler uma coisa que não temos interesse, e depois mais tarde nos deparamos com eles novamente e podemos sentir quanta leitura boa perdemos.

    comigo foi assim pelo menos!

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

    • Oi, Joi!
      Concordo com você, acho que a maioria das pessoas se lembra da época do colégio e da obrigação da leitura. Eu gostei muito dos clássicos com os quais me deparei pro vestibular!
      Beijos

    • Oi, Karine!
      Sim, o livro do Jorge Amado nos dá um panorama histórico muito bacana (início do século XX) e nos relata situações que muito provavelmente ainda são comuns no interior do país. Depois comenta o que você achou de Capitães da Areia, porque parece ser interessantíssimo!
      Beijos

    • Oi, Jacqueline!
      Que coisa boa não ter que ler nada por “obrigação”, acho que esse é um dos principais fatores que faz as pessoas virarem a cara pra clássicos nacionais. Espero que você leia e goste de Terras do Sem-Fim, Jorge Amado escreve muito bem! 😀
      Beijos

    • Oi, Ítalo!
      As pessoas que conheço que não gostam de clássicos nacionais normalmente tiveram a obrigação de lê-los na escola. É o seu caso? De qualquer forma, nem sempre nos identificamos com um estilo… mas sempre vale a pena abrir a mente para uma nova possibilidade. =3
      Abração

  2. Assim como você também tentei vestibular, e devo confessar que livros como Iracema, Primo Basílio tive que ser obrigado a ler, mas outros como os do Machado de Assis, seja Dom Casmurro, A Mãe e a Luva, li por querer mesmo. Já tinha interesse em alguns do Jorge Amando, mas ainda não li nada. Achei interessante sua opinião sobre esse livro em questão, vou ver se leio.
    Até mais.

    • Oi, Renato!
      Acredita que ainda não li nada do Machado de Assis? Dom Casmurro é um dos livros que tenho interesse, todo mundo fala super bem. Espero que você possa ler Terras do Sem-Fim e goste da história! 😀
      Abraços

    • Oi, Ká!
      Eu nunca tinha tido interesse especial por Jorge Amado até o vestibular. Para a minha surpresa, foi uma leitura leve e muito bem escrita! Gostei muito, até porque não foi nem um pouco cansativo (mesmo tendo todo o contexto histórico e a temática cacaueira), já que o foco principal eram os personagens e suas atitudes. Quem sabe deixa a dica guardada, pra quando você começar a ler os clássicos? =3 heuaheuahea
      Beijão!

    • Oi, Carolina!
      Obrigada pelo elogio 😀 Concordo plenamente, o livro é de 1943, fala sobe o início do século XX, mas retrata com maestria a personalidade humana e situações que podem muito bem ser vividas nos dias de hoje, mas em outros contextos. Uma obra!
      Beijos

  3. Oie Pri =)

    De todos os clássicos nacionais que li na época de escola, o único que não conseguiu me cativa foi justamente o Jorge Amado. Realmente uma pena =/

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias…
    @mydearlibrary

    • Oi, Ane!
      Poxa, jura? Que pena 😦
      Qual livro dele você leu? Ouço falar super bem de Capitães de Areia, mas meu primeiro (e único, até agora) contato com o autor foi por meio de Terras do Sem-Fim.
      Beijos!

  4. Olá,
    Eu sempre ficava empolgado com os livros que era “obrigado” a ler na escola. Uns gostava mais, outros nem tanto. E numa dessas minha experiências, Jorge Amado não foi das melhores quando li “Capitães de Areia” e de lá para cá tenho evitado. Mas, pode ser que eu venha a ler um dia, já que tem uma premissa interessante.

    Lucas – Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

    • Oi, Lucas!
      Eu ouço comentários muito positivos sobre Capitães de Areia, mas confesso que nunca fiquei curiosa o bastante para ir atrás do livro. Depois de Terras do Sem-Fim, fiquei com uma impressão mais positiva do Jorge Amado e, quem sabe, procure mais alguma obra dele no futuro. 😀
      Abraços

  5. Oi Pri! Ai que vergonha, nunca li nada do autor, mas o problema com livros assim vem da época da escola, as tai leituras obrigatória me deixaram traumatizada, mas eu ainda vou superar isso. Menina, eu pensei que você tivesse deixado o blog, passei aqui e aparecia a mensagem que o domínio estava cancelado. Ainda bem que você continua aqui.
    Bjos!!
    Cida

    http://www.moonlightbooks.net/

    • Oi, Cida!
      Não brinca :O Sério que isso aconteceu? Fiquei até preocupada agora, espero que o Wordress não faça dessas novamente!
      Sobre as leituras obrigatórias: quem sabe se você tentasse encontrar algumas resenhas sobre os livros que te atraiam nas aulas de Literatura? Eu normalmente fico bem curiosa quando leio a respeito! =]
      Beijos!

  6. Oi Prihh, tudo bem?
    Os livros do JA são carregados de crítica social, e de uma forma ou de outra são bem atuais. Ainda não tinha lido esse, mas o enredo me é conhecido pelas aulas de literatura. Dica mais do que anotada, e acredito que um bom clássico nacional de vez em quando faz muito bem.
    Abraços,
    Amanda Almeida
    Você é o que lê

    • Oi, Amanda!
      Também achei super atemporal o livro do Jorge Amado, mesmo com um tema tão específico quanto as disputas pelo cacau. Gostei muito da experiência com um clássico nacional, além de ter ajudado muito a quebrar alguns preconceitos (ou, melhor dizendo, receios) que eu tinha.
      Abração!

  7. No ensino médio, praticamente ataquei as prateleiras da biblioteca da escola. Li vários clássicos nacionais e livros de autores renomados como é o caso de Jorge Amado. Capitães da Areia foi o primeiro escolhido. É um livro bastante realista e cruel em muitos momentos, o autor aborda questões sociais e é bem direto em sua narrativa. Na minha segunda tentativa com o autor, acabei desistindo. Tive pesadelos com a história e traumatizei. Depois disso não li mais nada dele.
    Penso em tentar novamente e esse livro da sua resenha traz pontos que atraem o meu interesse. A questão política, a crítica social, o coronelismo, são bastante comuns nos livros de Jorge e ele consegue escrever de forma a envolver o leitor.
    Excelente resenha.

    Beijos

    • Oi, Caline!
      Fiquei curiosa: qual o foi o livro que te deixou mal? Eu li muitas opiniões positivas sobre Capitães de Areia, mas ainda não procurei o título.
      Terras do Sem-Fim foi minha primeira experiência e eu achei Jorge Amado um grande escritor (baseando-me apenas nessa obra, claro). Espero que você goste da leitura, caso decida por dar uma chance a esse livro. 😀 E obrigada pelo elogio!
      Beijos

  8. Oi, Flor! Tudo bom?
    Com sua resenha, imagino uma história intenção, principalmente por rodar totalmente envolta desse poder e desejo de poses, que acaba fazendo com que tais, tenham as atitudes cruéis de matar sem piedade pra conseguir o que realmente querem.
    Lembro que quando estudava na escola sobre essas épocas, sempre fiquei chocada com o comportamentos dos homens com relação a tudo, até mesmo com a própria família. Gostei muito sobre tudo o que você disse com relação ao livro e com certeza estarei indo atrás, porque com uma resenha maravilhosa dessas, impossível não, não é?

    Beijinhos,
    http://www.percepcoes.blog.br/

    • Oi, Fernanda! Tudo ótimo, e com você?
      O livro aborda justamente isso: até onde o homem é capaz de ir na busca pelo poder. Um poder que cega, que se torna a meta de vida.
      Fico super feliz que tenha gostado da resenha! E espero que goste do livro, caso um dia você fique curiosa e se decida por ler. 😀
      Beijos!

  9. Tenho muita vontade de ler algo do autor, e sua resenha me convenceu a fazer isso logo. rsrs
    Ah, lembro quando eu ia fazer vestibular e tinha as leituras obrigatórias… Tinha umas que eram chatinhas, mas a que mais me marcou e eu gostei foi Os ratos. *-*
    beijos
    apenas-um-vicio.blogspot.com.br

    • Oi, Andressa!
      Poxa, fico muito feliz em saber que você gostou da resenha e que te motivei a ler Jorge Amado. *-*
      Eu já ouvi opiniões bem controversas sobre Os Ratos: uns amam e acham mega envolvente, outros quase morrem de tédio lendo. Acho que só vou descobrir se der uma chance a ele, né? hahaha
      Beijos!

    • Oi, Raquel!
      Fico super feliz que tenha gostado da resenha! 😀
      Espero, no futuro, ler mais alguma obra do Jorge Amado. Terras do Sem-Fim foi uma excelente experiência!
      Beijos

  10. Oiii!
    Estava dando uma olhada por aqui e achei essa resenha (antiga mas tá valendo! hahaha).

    O único livro do Jorge Amado que eu li (recentemente) foi Capitães da Areia e era um
    daqueles que ficam tempos e tempos rolando na estante até eu tomar coragem pra ler.

    Achava que seria uma leitura chata (preconceito besta), e acabei me apaixonando.
    Alguns aspectos que você citou eu reconheço em Capitães da Areia também. Acho
    que essa questão regional e as críticas sociais são características dele e eu estou louca
    pra ler suas outras obras.

    Beijinhos e parabéns pela resenha,
    Sala de Leitura

    • Oi Luciana!
      Fico feliz que tenha gostado da resenha! ❤
      Também comecei a leitura com certo receio (que preconceito bobo o meu!) e, no fim, acabei curtindo muito. A narrativa é muito boa, além das críticas sociais pertinentes.
      Beijos!

  11. O meu primeiro do Jorge Amado. A história é magnífica, e pra quem é nordestino, sabe que essa história até HOJE é uma realidade, visto que as oligarquias por aqui (e creio que no Brasil inteiro) apenas não são mais tão agressivas quanto antes, mas ainda continuam mandando em tudo. Os clássicos nacionais são tão bons quanto os estrangeiros, acho que fui o único que teve de ler por obrigação na escola e acabou se afeiçoando… rs’

    • Oi Arysson!
      Foi meu primeiro livro do Jorge Amado também e, infelizmente, não li mais nada do autor até agora. 😦 Imagino que pra quem vive no nordeste e conhece esse cenário mais de perto essa obra seja atemporal. Esse coronelismo infelizmente está presente em muitas regiões do Brasil, principalmente no interior.
      Que bom que uma leitura obrigatória tenha se tornado uma experiência tão boa pra você, digo o mesmo de mim haha! 🙂
      Beijos, volte sempre!

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